HANSENÍASE, ESTIGMA SOCIAL E SERVIÇO SOCIAL: ANÁLISE CRÍTICA A PARTIR DA RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL EM SAÚDE DA FAMÍLIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510121351


PERES, Rita de Cássia Araujo1
BACRY, Adizia de Goes2
PASCOAL, Gisele3
JUNIOR, José Henrique Nascimento Souza4


Resumo

A hanseníase permanece como um desafio de saúde pública no Brasil, não apenas pelos aspectos clínicos, mas principalmente pelas repercussões sociais e estigmatizantes. Este artigo analisa criticamente o papel do assistente social na melhoria da qualidade de vida de pacientes diagnosticados, a partir da experiência da Residência Multiprofissional em Saúde da Família no município de Espigão do Oeste (RO). Utilizou-se abordagem qualitativa, com observação participante e registro em diário de campo. Os resultados apontam que o estigma ainda compromete o acesso a direitos, a adesão ao tratamento e as relações familiares e comunitárias. Constatou-se que a atuação do Serviço Social é fundamental para a desconstrução de preconceitos, fortalecimento de vínculos e ampliação da cidadania dos usuários. Conclui-se que estratégias interdisciplinares e ações educativas contínuas são essenciais  para  reduzir  a  exclusão  social  e  promover  qualidade  de  vida. 

Palavras-chave: Hanseníase. Estigma Social. Serviço Social. Qualidade de Vida. Atenção Básica.

1 INTRODUÇÃO

A hanseníase carrega consigo um forte estigma social, resultado de séculos de desinformação e exclusão. Embora tratável, afeta não apenas o diagnóstico e o tratamento, mas também as relações sociais, laborais e familiares dos pacientes.

No Brasil, os desafios vão além do enfrentamento clínico da doença: a questão social impõe barreiras que precisam ser enfrentadas por meio de abordagens interdisciplinares. O país com um dos maiores índices de hanseníase no mundo, possui por meio das políticas públicas, programas de apoio multidisciplinar.

O Estigma é um processo social onde um indivíduo ou grupo é percebido negativamente devido a características ou atributos, levando a preconceito e discriminação. É uma marca social que diminui o valor de alguém na sociedade, associada a estereótipos e rótulos. O estigma pode afetar a saúde mental, relacionamentos e oportunidades de uma pessoa (LEAO, 2021; SILVA 2022).

A palavra “estigma” tem origem no grego antigo, refere-se a uma marca ou cicatriz feita no corpo. O Estigma Social é a atitude negativa e discriminatória que a sociedade tem em relação a características ou condições. Pode ser internalizado quando uma pessoa internaliza esses rótulos negativos e passa a ter uma visão negativa de si mesma. O estigma pode levar à exclusão social, gerando dificuldades na qualidade de vida, limitando o acesso a serviços de saúde, emprego e moradia, e afetando a autoestima e bem-estar emocional. Na saúde mental é particularmente comum em relação a doenças mentais, onde pessoas podem ser discriminadas e marginalizadas por sua condição. O combate ao estigma se dá através da educação, informação e promoção da igualdade e respeito pela diversidade. (LEAO, 2021; SILVA 2022).

Nesse contexto, o Serviço Social, enquanto área de intervenção crítica e comprometida com os direitos humanos, tem papel fundamental na ressignificação dos processos de adoecimento.

A atuação do assistente social nas equipes de saúde da família poderá possibilitar intervenções promovendo acolhimento, fortalecimento de vínculos e acesso a políticas públicas. No entanto, pouco se tem discutido, de forma empírica e sistemática, sobre o impacto direto dessa atuação na vivência dos usuários com hanseníase. ( SILVA, 2020)

A meta dos serviços que atendem no Programa de Controle da Hanseníase é que sejam tratados todos os casos, com diagnóstico precoce, prevenindo a transmissão e as incapacidades físicas. A repercussão psicológica gerada pelas incapacidades físicas geradas pela hanseníase constitui a grande causa do estigma e do isolamento do paciente na sociedade (BRASIL, 2001).

Este estudo busca preencher essa lacuna, discutir o estigma social relacionado à hanseníase e analisar a relação do assistente social, como parte da equipe multiprofissional, na qualidade de vida dos pacientes acompanhados pela Atenção Básica no município de Espigão do Oeste (RO). A pesquisa será realizada em Espigão do Oeste (RO), por meio de observação, fazendo uma análise crítica, a partir da experiência da residência multiprofissional em saúde.

Alguns autores ( CUNHA, 2022) merecem destaque nas pesquisas sobre o tema da hanseníase ao longo do tempo, com contribuições significativas para o entendimento e tratamento da doença. Classicamente, podemos citar os seguintes:

  • Gerhard Armauer Hansen (1841–1912): O bacteriologista norueguês é considerado o pai da pesquisa sobre a hanseníase. Sua descoberta do Mycobacterium leprae mudou a visão sobre a doença, que até então era considerada um mal espiritual ou hereditário.
  • Alice Ball (1892–1916): Química americana, foi a primeira pessoa a isolar a substância química que mais tarde viria a ser usada no tratamento da hanseníase, a balloide, embora seu trabalho tenha sido ofuscado por questões de reconhecimento na época. ( BBC News Mundo, 2022)

No Brasil, o trabalho de pesquisadores como Carlos Chagas e Sanford M. Friedman contribuiu para a consolidação do diagnóstico e tratamento da doença, com especial atenção para a adaptação do tratamento às condições brasileiras.

Atualmente, o tratamento da hanseníase, atualmente, é baseado em um esquema terapêutico chamado poliquimioterapia (PQT), introduzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1981 (OMS, 2025). A PQT combina rifampicina, clofazimina e dapsona, tornando o tratamento altamente eficaz e com baixas taxas de resistência bacteriana. Esse tratamento tem sido amplamente implementado no Brasil e em outros países endêmicos, resultando na redução significativa dos casos de hanseníase.

Nesse sentido a pesquisa pretende discutir de que maneira o estigma social relacionado à hanseníase afeta a qualidade de vida dos pacientes, e qual a relação com a atuação do assistente social, no contexto da residência multiprofissional para sua superação em Espigão do Oeste, identificando os principais estigma da hanseníase enfrentados pelos pacientes atendidos, descrevendo as ações de saúde durante a atuação da residência, verificando pontualmente as intervenções do Serviço Social no acompanhamento dos casos de hanseníase, propondo, por fim, os resultados obtidos a partir dessas ações e propondo estratégias de enfrentamento ao estigma no território de atuação.

Dessa forma, este estudo busca responder à seguinte questão norteadora: “De que maneira o estigma social relacionado à hanseníase interfere na qualidade de vida dos pacientes e como o assistente social pode contribuir para sua superação no contexto da Atenção Básica em Espigão do Oeste (RO)?” Assim, pretende-se analisar a atuação do Serviço Social enquanto parte da equipe multiprofissional, destacando sua relevância na promoção da cidadania e no enfrentamento do preconceito.

1.1 JUSTIFICATIVA

Este estudo é relevante e se justifica por abordar um problema persistente e pouco explorado sob a ótica do Serviço Social: o estigma da hanseníase. A contribuição científica reside em evidenciar, com base em dados empíricos, o papel transformador da atuação social na Atenção Básica em uma região do país que possui desafios singulares.

Segundo a OMS, em 2023, foram notificados 182.815 novos casos de hanseníase em mais de 100 países. A Região das Américas concentrou cerca de 13,6% desse total, e mais de 90% dos casos ocorreram no Brasil. O Brasil é o segundo país com mais casos no mundo (INSTITUTO DE SAÚDE COLETIVA, 2024). De 2012 a 2022, foram registrados 369.254 casos no país, com a maior concentração no Nordeste (42,7%), seguida pelo Centro-Oeste (20,3%), e o Norte (19,1%) ( INFOLEP 2025; BRASIL, 2025). Em 2023, o Brasil registrou 7.734 novos casos; a maioria foi de adultos (96 %), homens (57,8 %), e pessoas de raça parda (60,7 %). A forma clínica mais comum foi a dimorfa (51,3%), com prevalência maior nas regiões Norte e Nordeste.

A Região Norte registrou aproximadamente 19,1% dos casos entre 2012 e 2022 (70.600 casos (INFOLEP, 2025). Crianças residentes nessa Região têm 34 vezes mais risco de desenvolver hanseníase em comparação às do Sul do país, conforme estudo da Coorte de 100 Milhões (INSTITUTO DE SAÚDE COLETIVA, 2024). No estado de Rondônia, segundo dados da Coordenação Estadual de Hanseníase, em 2023, foram registrados 443 novos casos de hanseníase, sendo 15 em menores de 15 anos. Já em 2024, foram identificados 334 novos casos, com apenas 4 menores de 15 anos diagnosticados (PORTAL, 2025).

Espigão do Oeste é um município brasileiro localizado na região leste do estado de Rondônia. Fundação: 16 de junho de 1981 (44 anos), segundo dados do IBGE 2024, com uma área de 4.518,038km², População de 29.414 pessoas, Densidade demográfica, 6,51hab/km² 2022], População estimada de 32.717pessoas, Escolarização 6 a 14 anos de 97,17%, e Área total: 4 518,055 km².

Esses números destacam a persistência da hanseníase como problema de saúde pública no Brasil, especialmente em regiões vulneráveis como Norte e Nordeste. Destaca-se que a redução dos casos em 2020-2021 e nos anos seguintes indica possível subnotificação, fazendo- se necessária intervenção na atuação para superar as questões trazidas.

O estigma associado à doença e a demora no diagnóstico ainda são desafios importantes. A hanseníase é frequentemente diagnosticada tardiamente, quando as sequelas neurológicas e deformidades já estão presentes, o que dificulta a recuperação total do paciente. Os resultados poderão promover estratégias mais eficazes de abordagem aos pacientes com hanseníase com a atuação do assistente social na qualidade de vida do paciente.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

A hanseníase é uma das doenças mais antigas conhecidas pela humanidade, sendo mencionada em textos históricos e religiosos, como a Bíblia e os escritos de Hipócrates, historicamente chamada de lepra, foi cercada de mitos e exclusão social. Conforme Nardi et al. (2020), o estigma da doença é um dos maiores obstáculos ao diagnóstico precoce e à adesão ao tratamento. Estudos recentes (SILVA et al., 2022; ALMEIDA & SANTOS, 2021) apontam que o preconceito está presente tanto na comunidade quanto nos serviços de saúde, exigindo intervenções educativas e sociais permanentes.

Embora avanços no diagnóstico e no tratamento tenham sido conquistados nas últimas décadas, em 2018, 22 países ainda apresentavam altas cargas da doença em nível global, com a Índia em primeiro lugar na prevalência de casos ( RODRIGUES DE JESUS et al, 2022). A hanseníase ainda afeta milhões de pessoas em todo o mundo, com destaque para países em desenvolvimento.

Entre 2016 e 2020, foram diagnosticados 155.359 casos novos de hanseníase no Brasil, na maioria em pessoas do sexo masculino (55,5%), pardos (58,9%) e brancos (24,1%), sobretudo no Sul e no Sudeste. Segundo a OMS, é classificado como país de alta carga da doença ( RODRIGUES DE JESUS et al, 2022).

Uma Campanha nacional, criada pelo Ministério da Saúde, foca no incentivo do diagnóstico precoce e no combate à hanseníase no Brasil. O ‘janeiro Roxo’ é uma campanha de conscientização para garantir que todos tenham acesso à informação, diagnóstico e tratamento. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), todo ano, promove esclarecimentos sobre essa doença ( SBD, 2025). De acordo com o site do governo federal, os países com maior detecção de casos são os menos desenvolvidos ou com superpopulação. Em 2022, o Ministério da Saúde registrou no Brasil mais de 19.000 casos novos da doença ( SBD, 2025). Para além disso, o Sistema Único de Saúde atende regularmente o tratamento da hanseníase com equipe multiprofissional, composta por médico, enfermeiro e técnico de enfermagem e ocasionalmente incluídos o psicólogo e o assistente social, de acordo com a demanda.

Apesar da disponibilidade de tratamentos eficazes, a hanseníase persiste como um importante problema de saúde pública, especialmente em regiões como a Amazônia e o Norte do Brasil.

2.1 História da Hanseníase

A história da hanseníase remonta a milhares de anos, com registros desde 600 a.C. na Índia, China e Egito. Durante a Idade Média, a doença foi vista como um castigo divino, levando a marginalização dos pacientes, conhecidos como “leprosos”. Com o passar do tempo, a hanseníase passou a ser associada a estigmas sociais muitas vezes afastados da sociedade ( CUNHA, 2022).

A partir do século XIX a hanseníase passou a ser estudada de forma científica. Gerhard Armauer Hansen, em 1873, um bacteriologista norueguês, identificou o bacilo Mycobacterium leprae, agente causador da doença. (CUNHA, 2022). Existem poucos registros sobre o aparecimento da doença, o que torna difícil uma abordagem mais precisa sobre o tema.

Na Alexandria, 300 anos antes de Cristo, o mais famoso centro de estudos de medicina, já se estudava a Elephantiasis, que, por muito tempo, foi confundida com a hanseníase (KOELBING, 1972). Sabe-se que, na época de Cristo , conforme citação bíblica, no Antigo Testamento, em Levítico, capítulo 13, havia casos de hanseníase, onde encontra-se toda uma orientação sobre a doença, seus sinais para identificação e cuidados em relação aos doente ( CUNHA, 2022). Aos sacerdotes cabia a missão de diagnosticar e tratar a doença, visto a relação com pecados e era combatida com sacrifícios, purificações e rituais (CHUORAQUI, 1978 apud CUNHA, 2022)

Koelbing (1972 APUD CUNHA, 2022) diferente de outros autores, diz que a lepra do antigo Egito, sobre a qual temos conhecimentos, não pode ser a mesma que a da atualidade; e nem a Lepra do Antigo Testamento pode ser identificada com a nossa Segundo ele, a doença era confundida com outras doenças de pele existentes naquela época, assim como a elefantíase, a sífilis e as demais dermatoses. Na verdade, até o século 14, o nome lepra tanto significava lesões provocadas por queimaduras, escamações, escabiose, câncer de pele, lupus, escarlatina, eczemas, sífilis, quanto lepra verdadeira.

O entendimento medieval, é que as principais causas da disseminação da doença eram o contágio, a hereditariedade, o clima e a alimentação inadequada. Assim, a hanseníase se tornou endêmica em função das associações de fatores como as más condições de higiene, alimentação e moradia (CUNHA, 2022). Nos autores da época é possível verificar a parcialidade e a imperfeição na descrição da hanseníase, seus sintomas, etiologia e transmissibilidade. Uma importante complementação às descrições médicas pode ser encontrada na literatura e na arte. A partir de quadros, pinturas e esculturas, é possível recuperar a sintomatologia da hanseníase. Sinais como nódulos, mutilações, mão-em-garra, queda do cabelo, falam claramente da doença (CUNHA, 2022).

O interesse pela etiologia e tratamento da hanseníase, começou a se evidenciar na Europa a partir do século 17, com a construção dos primeiros leprosários, que eram pequenos hospitais ou casas para hansenianos, geralmente sob responsabilidade de religiosos (CUNHA, 2022).

Após o III Concílio de Latrão (1179), o isolamento passou a ser mais intenso devendo estar identificados como hansenianos com o uso de vestimentas para seu imediato reconhecimento. Essa vestimenta compunha-se normalmente de um manto, um chapéu de abas largas e bermudões de cor escura, e, na túnica, trazia bordada a figura de São Lázaro. Usavam luvas e carregavam na mão, ou preso a um cordão junto ao corpo, uma cor no ou uma matraca de madeira (FROHN, 1933 apud CUNHA, 2022).

No final do século 19, na Europa, a hanseníase havia praticamente desaparecido: Com a descoberta do bacilo e suas características. A partir de então, os rumos das pesquisas e das medidas de controle se mostraram mais eficientes, tanto na Europa quanto em outros países (CUNHA, 2022).

No Brasil, tal qual ocorreu na Idade Média europeia, sobreviviam das e molas recolhidas nas ruas ou de doações de religiosos. Estavam assim na mesma situação social que os miseráveis. (CUNHA, 2022) Em 1903, com Oswaldo Cruz na Diretoria Geral de Saúde Pública, a hanseníase passou a ter maior atenção do poder público. Surgem os programas governamentais de combate às doenças transmissíveis. (CUNHA, 2022)

Assim, todo esse histórico justifica o estigma que perdura ainda hoje.

Goffman (1982) define estigma como uma discrepância entre a identidade social real de alguém, aquilo que ele é, e a identidade social virtual, o caráter imputado ao indivíduo pelos outros, ou seja, uma caracterização com base nas expectativas de como ele deve ser. Torna-se assim uma linguagem de relações e não especificamente se refere a um atributo físico, psíquico, moral, de raça, nação ou religião.

Desse modo, o estigma social ou público é uma crença errônea acerca da identidade de uma pessoa, em que ela é considerada como menor, menos igual e pertencente a um grupo inferior, o que produz uma incorporação no âmbito social e cria a inferioridade. Essa identidade virtual se relaciona aos períodos cultural, econômico, político e histórico, sendo então um processo social contextualizado e não individual. A estigmatização produz desigualdade social, perda de direitos e cidadania e seus efeitos negativos referem-se aos prejuízos do trabalho e, consequentemente, ao ganho financeiro, à habitação, à saúde e aos laços sociais .

Corrigan (2006) define estratégias antiestigma permeadas em três processos: protesto, educação e contato. O protesto pontuado como uma ferramenta benéfica para que as pessoas repensem seus comportamentos; a educação como abordagem para desmistificar o sofrimento psíquico atrelado a periculosidade, incompetência e outros estereótipos negativos, por meio de livros, folhetos, palestras, filmes, vídeos e serviço mediado no território; e o contato como essencial para diminuir o preconceito e com isso possibilitar que o sujeito se sinta incluído na sociedade de maneira integral. O contato, particularmente, apresenta-se como a estratégia antiestigma com mais resultados positivos.

Com a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública em 1920, surge a inspetoria de Profilaxia de Lepra e doenças Venéreas). Também nessa época foi elaborada a primeira legislação brasileira de Hanseníase e das Doenças Venéreas. No ano de 1934 foi criado a Diretoria dos Serviços Sanitários dos Estados, que além de suas múltiplas atribuições, cuidava do problema da Hanseníase (Serviço Nacional de Lepra,1960). Em 1941 é criado pelo Governo Federal o Serviço Nacional da Lepra (SNL) pelo Decreto Lei nº 3171 de 02/04/1941. Seu objetivo era programar e implantar ações de combate, manutenção e criação de leprosários, preventórios e dispensários, sendo os leprosários e preventórios direcionados a reclusão de doentes e de seus filhos sãos, enquanto os dispensários eram lugares dentro dos postos de saúde com o objetivo de trabalhar na prevenção da doença buscando uma identificação precoce (MACEDO, 2014).

2.2 A Hanseníase na Contemporaneidade

O tratamento da Hanseníase tem passado por grandes transformações com a expansão de informação, elemento importante para a eliminação dessa doença. (CARTILHA DE HANSENÍASE- MS 1999) Em 1981 iniciou o tratamento da hanseníase com a poliquimioterapia (PQT)17 em nível mundial. Composta por dapsona, clofazimina e rifampicina, visando a cura da hanseníase. Em 1991 a PQT foi adotada no Brasil, em acordo com a OMS, com a meta de que até o ano de 2000 eliminar a Hanseníase, adequando as taxas de prevalência (número de casos ativos) para 1caso/10.000 habitantes, em troca da medicação gratuita, sendo esse acordo responsável por diminuir significamente o número de casos no país (MACEDO, 2014).

Não se pode falar do tratamento da hanseníase, sem mencionar o Sistema Único de Saúde- SUS brasileiro que conforme a descrição do Ministério da Saúde. “É um dos maiores Sistemas Públicos de Saúde do mundo” Em sua dimensão abrange desde o simples atendimento ambulatorial até o transplante de órgãos, garantindo acesso integral, universal e gratuito para toda a população do país (MACEDO, 2014). Criado em 19 de setembro de 1990 o SUS foi regulamentado através da Lei Orgânica de Saúde – LOS (Lei 8.080/90), sendo complementada em 28 de dezembro do mesmo ano pela Lei 8.142/90.

Os três princípios conferidos legitimamente ao SUS no Brasil são a universalidade, a integridade e a equidade. A universalidade tem relação com a conquista de direitos a saúde por todos os brasileiros sem nenhum tipo de discriminação. Esse princípio foi de grande importância para a democratização na saúde, ampliando a todos o direito aos serviços de saúde. A integridade, por outro lado, dimensiona a diversidade e dimensão dos serviços integrados de saúde no intuito de observar o indivíduo e a coletividade. Isso é materializado com ações contínuas na perspectiva de promoção, proteção, da cura e reabilitação

“O Sistema Único de Saúde (SUS) é o arranjo organizacional do Estado brasileiro que dá suporte à efetivação da política de saúde no Brasil, e traduz em ação os princípios e diretrizes desta política. Compreende um conjunto organizado e articulado de serviços e ações de saúde, e aglutina o conjunto das organizações públicas de saúde existente nos âmbitos municipal, estadual e nacional, e ainda os serviços privados de saúde que o integram funcionalmente para a prestação de serviços aos usuários do sistema, de forma complementar, quando contratados ou conveniados para tal fim”. (VASCONCELOS e PASCHE, 2006, p. 531).

Pode-se considerar que o SUS foi uma das conquistas sociais brasileiras de maior relevância ratificada na Constituição Federal de 1988, que versa sobre a saúde:

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Art. 197. São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado. Art. 198. As ações e serviços públicos de saúde integram uma rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes: I- descentralização, com direção única em cada esfera de governo; II – atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; III – participação da comunidade. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988).

O SUS constitui-se como um dos maiores avanços em busca de uma sociedade mais justa e menos desigual, Dentro de suas ações o SUS tem contribuído para o controle das endemias surgidas em âmbito nacional. (Macedo, 2014)

2.5. Principais Instrumentos no Diagnóstico e Tratamento

O tratamento da hanseníase está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele varia de seis meses nas formas paucibacilares a um ano nas multibacilares. Após o início da medicação, o paciente irá parar de transmitir a doença, não devendo ser afastado da sociedade. O tratamento é eficaz e cura.

Os principais instrumentos utilizados no diagnóstico da hanseníase incluem a clínica e o exame bacteriológico, com a realização de baciloscopia em lesões cutâneas. Em casos mais avançados, exames histopatológicos e a investigação da função nervosa também são importantes para monitorar os danos causados pela doença.

No tratamento, a PQT é o protocolo padrão recomendado pela OMS, com a duração do tratamento variando de 6 a 12 meses, dependendo da forma clínica da doença. Para casos mais graves, pode ser necessário o uso de medicamentos adicionais, como a thalidomida, para tratar complicações associadas à neuropatia.

Apesar de ter cura, a hanseníase ainda é um desafio de saúde pública no Brasil, e o médico dermatologista é quem desempenha papel essencial no diagnóstico e tratamento. Esse profissional realiza a avaliação clínica, executa testes de sensibilidade e acompanha o funcionamento dos nervos periféricos. Também é o responsável por solicitar exames laboratoriais ou realizar biópsias da pele quando necessário (SBD, 2025).

2.6 Características da hanseníase e tipologia das vulnerabilidades

Apresentado por Rodrigues de Jesus (2022), abaixo a figura da tipologia das vulnerabilidades.

Figura 1: Tipologia das vulnerabilidades mais enfrentadas pelas pessoas afetadas pela Hanseníase (2016-2020).

Acrescenta-se ainda as singularidades da região Norte, que concentra altos índices de prevalência. As dificuldades incluem (BRASIL, 2022):

  • Acesso limitado ao tratamento: A região Norte, devido à vastidão territorial e dificuldades logísticas, enfrenta desafios no acesso a unidades de saúde, o que resulta em diagnósticos tardios e dificuldades na adesão ao tratamento.
  • Estigma social: A associação da hanseníase com preconceito e marginalização ainda persiste em muitas comunidades, o que leva os indivíduos a buscar tratamento tardiamente, quando já existem complicações significativas.
  • Falta de capacitação local: A escassez de profissionais de saúde capacitados para o diagnóstico precoce e manejo adequado da doença é um problema recorrente, especialmente em áreas rurais e de difícil acesso.
  • Dificuldades no seguimento pós-tratamento: Embora a PQT seja eficaz, a vigilância pós-tratamento nem sempre é realizada de forma adequada, e o risco de recidiva ou novas incapacidades permanece, especialmente em pacientes com formas multibacilares da doença.

2.7 Papel do Serviço Social

2.7.1 A ação do assistente social

O Serviço Social, de acordo com Iamamoto (2018), tem a função de mediar os direitos sociais e promover a cidadania nos espaços institucionais. A atuação do assistente social no SUS é estratégica para a escuta qualificada, acolhimento e encaminhamento adequado dos usuários, sobretudo os mais vulneráveis.

A perspectiva multiprofissional na Atenção Básica, segundo Campos & Domitti (2017), exige articulação entre saberes, e o Serviço Social contribui com a leitura crítica das desigualdades e o planejamento de ações que promovam a inclusão.

O assistente social inserido na Estratégia Saúde da Família (ESF) atua a partir do entendimento ampliado da saúde como determinada por fatores sociais, econômicos e culturais, fundamentais para o processo saúde-doença, buscando garantir direitos e acesso a políticas sociais (SILVA BATISTA, 2020). No âmbito da Atenção Primária, este profissional desempenha funções que articulam o cuidado direto ao usuário com ações educativas, articulação intersetorial e advocacia para concretizar direitos socioassistenciais, em consonância com a Lei nº 8.080/93 e as diretrizes do SUS

2.7.2 Eixos de atuação

De acordo com o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS, 2010), às atividades do assistente social na área da saúde se organizam em quatro grandes eixos (CFESS, 2010 apud estudos sobre ESF):

  1. Atendimento direto aos usuários – com foco em ações socioassistenciais, socioeducativas e articulações interdisciplinares na atenção básica.
  2. Mobilização, participação e controle social – atuação junto aos conselhos de saúde e mobilização comunitária para garantia de direitos.
  3. Investigação, planejamento e gestão – análise das condições sociais, planejamento de ações junto à equipe e aprimoramento das práticas.
  4. Assessoria, qualificação e formação profissional – ações educativas e de formação de equipes e estagiários, fortalecendo prática interdisciplinar e continuada

2.7.3 Principais ações a serem desenvolvidas pelo assistente social

O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS, 2010), aponta como principais ações a serem desenvolvidas pelos assistentes sociais:

  • Realização de análise socioeconômica para identificação de vulnerabilidades e orientação sobre benefícios sociais e previdenciários (BPC, Bolsa Família, Licença maternidade, etc.).
  • Busca ativa de faltosos em tratamento, com reforço da importância da adesão para prevenir complicações.
  • Encaminhamento intersetorial e articulação com políticas públicas, como CRAS, programas habitacionais, Conselho Tutelar e Promotoria Pública, para garantir rede de suporte social ao usuário.
  • Ações socioeducativas na equipe e com usuários: sensibilização sobre a doença, autocuidado, direitos, enfrentamento do estigma e promoção da adesão (via grupos de apoio e reuniões dialogadas)

2.7.4 Ações de articulação com a equipe de saúde.

O assistente social participa ativamente na construção do trabalho multiprofissional na ESF e NASF, promovendo integração e horizontalidade na atuação com médicos, enfermeiros, psicólogos e agentes comunitários (matriciamento). Compete-lhe também planejar capacitações, organizar reuniões de discussão de casos, construir rotinas de acolhimento social no fluxo assistencial (admissão, internação, alta) e contribuir na elaboração de projetos terapêuticos singulares nas UBS. (CFESS, 2010),

2.7.5 O Assistente Social no Tratamento da Hanseníase

Na equipe da ESF, o assistente social participa diretamente das Ações de Controle da Hanseníase (ACH), que incluem diagnóstico precoce, investigação de contatos e busca ativa, e coordenação do cuidado em rede (com atenção especializada se necessário). Na prática, em serviços especializados, como no Hospital Clementino Fraga (João Pessoa-PB), o assistente social realiza análise socioeconómica, orientações quanto aos benefícios, articulação com redes de apoio e busca ativa a faltosos, reforçando o tratamento como direito e ampliando a adesão do paciente (SILVA BATISTA, 2020).

Além disso, o enfrentamento do estigma social e emocional é uma dimensão fundamental: estudos apontam que o desconhecimento da doença, o medo e a exclusão social favorecem o abandono do tratamento e o isolamento do paciente; o assistente social atua educando e mobilizando grupos de apoio para promover autocuidado e inclusão, contribuindo para o bem-estar e a adesão ao tratamento (SILVA et al., 2020)

3 METODOLOGIA

A metodologia da pesquisa foi desenhada da seguinte forma: Tipo de Pesquisa: Estudo qualitativo, de caráter descritivo. Universo e Amostra: Profissionais da saúde da família e pacientes com hanseníase atendidos nas unidades básicas de saúde de Espigão do Oeste (RO).Critérios de Inclusão: Serão incluídos profissionais que atuaram no município durante o período da residência e pacientes diagnosticados com hanseníase no mesmo intervalo de tempo. Critérios de Exclusão: Serão excluídos profissionais em licença ou afastamento no período estudado. Quanto aos procedimentos de Coleta de Dados, será realizada observação participante das atividades realizadas durante a residência. Instrumentos Utilizados. A pesquisa será realizada com Diário de campo. A Análise dos dados será realizada por meio de Análise de conteúdo de Bardin (2016). Sobre os Aspectos Éticos, a pesquisa será submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa embora não tenha havido interação direta com os participantes.

A amostra analisada compreendeu 40 atendimentos realizados entre 2023 e 2025. Durante as observações, foram registrados aspectos relacionados ao acolhimento, adesão ao tratamento e enfrentamento do estigma social. A análise seguiu as três etapas propostas por Bardin (2016): pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Como limitação metodológica, destaca-se a ausência de entrevistas formais e a não coleta de dados quantitativos detalhados (idade, renda e escolaridade), o que restringe a possibilidade de análises comparativas mais amplas.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A pesquisa foi realizada em etapas. No período de janeiro a dezembro de 2023 foram verificados 23 casos. Durante o ano de 2024, foram 09 atendimentos. De janeiro a julho de 2025, foram analisados 08 atendimentos. Totalizando 40 atendimentos.

Tabela 1 – Principais estigmas identificados nos pacientes com hanseníase em Espigão do Oeste (RO)

Dimensão afetadaManifestação observadaConsequência para o paciente
Relações familiaresMedo de contágio, afastamento de membros próximosIsolamento, sofrimento emocional
Relações de amizadeRedução do convívio socialPerda de apoio comunitário
TrabalhoDificuldade de inserção e manutenção no empregoPrecariedade econômica
Saúde mentalBaixa autoestima, ansiedade, depressãoMaior risco de abandono do tratamento

Com base no relatório (ago/2024 – jul/2025)
procedimento hanseníase 12 meses

  • Total de procedimentos: 26 (baciloscopia/teste rápido).
  • Distribuição por unidade de saúde:
    • Centro de Saúde da Mulher Marinha Andrade Rocha → 14 (53,8%)
    • Posto de Saúde Ângelo Moacir Perini → 7 (26,9%)
    • Posto de Saúde Municipal Helvécio Barbosa Lagares → 4 (15,4%)
    • Centro de Saúde Arlindo Cristo → 1 (3,8%)
  • Média mensal: 2,17 procedimentos/mês.
  • Desvio padrão: ±1,49 → alta variação entre meses.
  • Mês de maior atividade: Novembro/2024 (4 procedimentos).
  • Meses sem registro: Agosto, Setembro, Outubro/2024; Fevereiro, Abril, Junho/2025.

Tabela 1 – Distribuição dos procedimentos de hanseníase por unidade de saúde (Espigão do Oeste, ago/2024–jul/2025)

Unidade de SaúdeNº de procedimentos% do total
CS Mulher Marinha Andrade Rocha1453,8%
PS Ângelo Moacir Perini726,9%
PS Municipal Helvécio Barbosa Lagares415,4%
CS Arlindo Cristo13,8%
Total26100%

Tabela 2 – Distribuição mensal dos procedimentos de hanseníase (Espigão do Oeste, ago/2024–jul/2025)

Mês/AnoNº de procedimentos
Ago/240
Set/240
Out/240
Nov/244
Dez/246
Jan/251
Fev/250
Mar/254
Abr/251
Mai/253
Jun/251
Jul/253
Total26

Na unidade referenciada não foi realizada uma triagem sobre sexo, idade e renda. Observou-se que é predominante em adultos, o que justifica-se a não incidência de crianças pois o vírus fica incubado nessa faixa etária.

A análise quantitativa dos procedimentos diagnósticos realizados no município de Espigão do Oeste entre agosto de 2024 e julho de 2025 revelou um total de 26 registros (Tabela 1). Observa-se que mais da metade dos atendimentos concentrou-se em apenas uma unidade (53,8% no Centro de Saúde da Mulher Marinha Andrade Rocha), enquanto outras unidades apresentaram números reduzidos, com destaque para o Centro de Saúde Arlindo Cristo, que registrou apenas um procedimento (3,8%). Esse achado sugere centralização do cuidado, com risco de desigualdade de acesso ao diagnóstico.

A análise temporal (Tabela 2) mostrou média de 2,17 procedimentos por mês, com desvio padrão de ±1,49, caracterizando variação significativa e ausência de continuidade na vigilância. Em novembro e dezembro de 2024 registraram-se picos de atendimento (4 e 6 procedimentos, respectivamente), enquanto em seis meses não houve registros. Essa irregularidade pode estar relacionada a dificuldades de acesso, sazonalidade da procura ou fragilidade na busca ativa de contatos.

Estudos semelhantes apontam que a distribuição desigual e irregularidade diagnóstica são barreiras relevantes no controle da hanseníase, reforçando a importância de estratégias descentralizadas e de apoio interprofissional, em especial a atuação do assistente social na busca ativa e acompanhamento dos pacientes (Nardi et al., 2020; OMS, 2024; Brasil, 2022).

Tratando sobre os principais estigma da hanseníase enfrentados pelos pacientes atendidos, é possível identificar que eles estão concentrados nas relações com família, amigos e trabalho. Mesmo as relações mais próximas demonstram reservas de comportamento de proximidade por força do contágio, das sequelas físicas que são visíveis, gerando condutas de rejeição.

As ações de saúde durante a atuação da residência realiza todo o procedimento proposto no programa, que perpassa desde a triagem, testes, medicalização e acompanhamento, além da equipe multiprofissional à disposição. No entanto, apesar de tecnicamente se fazerem presentes os requisitos, é importante destacar que o alcance do programa não é suficiente para superar as questões pragmáticas de recursos para enfrentamento da doença, que extrapolam o programa, tais como questões nutricionais, comorbidades decorrentes da hanseníase, questões psicológicas mais graves e especialmente o acesso limitado , inclusive de transporte para viabilizar o acompanhamento, dada ao perfil econômico predominante, o que provoca uma fragilidade no acompanhamento regular ao paciente. Além disso, percebe- se que ainda existe a necessidade de profissionalização da estrutura envolvida no programa, o que se estende ao pós-tratamento.

As intervenções do Serviço Social/assistente social no acompanhamento dos casos de hanseníase, que começa com a promoção da humanização e acolhimento do paciente e da família, se estendem a questões técnicas para o enfrentamento, que se iniciam a orientação sobre a doença, o papel do programa, o papel da família, o esclarecimento sobre como será feito o tratamento, a desconstrução do estigma, a importância da qualidade da convivência social, a necessidade do comprometimento com o tratamento e a periodicidade das consultas, palestras e atividades, dentre outras.

Tais ações, se traduzem em promover pertencimento e qualidade de vida ao paciente e aos familiares que acabam por ser também objeto de preconceito social. Os resultados obtidos a partir dessas ações do assistente social são o fortalecimento da estrutura familiar e do paciente para lidar com as sequelas físicas e emocionais, e promover conscientização de direitos, de clareza e desmistificação da séculos de preconceito, revertendo a exclusão a qual toda a estrutura familiar era submetida.

Diante dos desafios enfrentados para viabilizar os resultados esperados pelo programa, sugere-se um aumento nas estratégias de enfrentamento, tais como aumento no portfólio da equipe multiprofissional, incluindo na medida da necessidade de cada caso, a partir da indicação do médico responsável pelo paciente, fisioterapeutas, dentistas, nutricionista, neurologista, psiquiatra e reumatologista. Sugere-se também que o programa passe a fornecer, para os pacientes com alto nível de vulnerabilidade, mediante cadastro e agendamento, transporte para as consultas e tratamento decorrente do tratamento proposto, a fim de evitar que as questões de limitações de mobilidade, continuem desconstruindo a efetividade do tratamento por força da evasão.

Durante o acompanhamento as atividades do programa, foi possível observar que estigma social relacionado à hanseníase afeta a qualidade de vida dos pacientes, agravando as sequelas da doença tanto psicologicamente, quanto fisicamente já que na medida em que não vivenciam a totalidade do tratamento o estado geral da doença se agrava refletindo em toda estrutura familiar. A atuação do assistente social promove acolhimento, humanização e orientação para enfrentamento não apenas do paciente mas de todos os envolvidos, desconstruindo assim o preconceito e estigma a que estão sendo submetidos.

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estigma social relacionado à hanseníase afeta a qualidade de vida dos pacientes hanseníase há séculos com uma conduta de exclusão social e repúdio do contato. Com o avanço da ciência e dos estudos sobre a hanseníase é possível hoje conviver com a doença em meio a um tratamento oferecido inclusive pelo estado, com equipe multiprofissional, para acompanhar as sequelas físicas e psicológicas que envolvem não somente o paciente mas toda a estrutura familiar onde está inserido.

Na equipe multiprofissional, a figura do assistente social viabiliza por meio de orientação técnica efetiva dos direitos sociais, além de promover o conhecimento sobre de fato o que é a hanseníase, tratamento atual, formas de enfrentamento e desconstrução do estigma, com uma conduta pautada no acolhimento e reinclusão, que é um dos principais pilares do estigma. Nesse sentido, o fortalecimento da necessidade da presença do assistente social, reflete na melhora psicológica e na perspectiva de continuidade do tratamento, para que a qualidade de vida do paciente e sua família seja preservada.

Os resultados quantitativos reforçam a baixa cobertura diagnóstica e a irregularidade na realização de procedimentos no município, concentrados em poucos serviços de saúde. Tal cenário evidencia a necessidade de descentralizar o atendimento e estruturar fluxos permanentes de triagem e acompanhamento. O envolvimento do Serviço Social é estratégico para reduzir desigualdades territoriais, ampliar a busca ativa e fortalecer vínculos comunitários, contribuindo para diagnósticos mais precoces e para o enfrentamento do estigma associado à doença.

Recomenda-se que futuros programas de enfrentamento à hanseníase fortaleçam o papel do assistente social na Estratégia Saúde da Família, garantindo sua participação ativa em ações intersetoriais, campanhas educativas e acompanhamento pós-tratamento. Além disso, sugere-se a incorporação de indicadores sociais nos sistemas de monitoramento da hanseníase, de modo a avaliar não apenas a evolução clínica, mas também os impactos psicossociais e comunitários do estigma.

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WORLD HEALTH ORGANIZATION Global Strategy for Further Reducing the Leprosy Burden and Sustaining Leprosy Control Activities, 2005


1Discente da Residência Multiprofissional em Saúde da Família de Espigão do Oeste.E-mail: rcaraujoperes@gmail.com

2Discente da Residência Multi-Profissional em Saúde da Família de Espigão do Oeste. E-mail: adizia.bacry@gmail.com

3Tutora  da Residência Multi-Profissional em Saúde da Família de Espigão do Oeste. E-mail: giseli3.kcoal@hotmail.com

4Coordenador Residência  Multi-Profissional em Saúde da Familia  de  Espigão do Oeste . E-mail: jr.fanorte@gmail.com