GESTANTES NOTIFICADAS COM ZIKA VÍRUS NO ESTADO DE GOIÁS ENTRE 2020 E 2025: UM PERFIL EPIDEMIOLÓGICO

PREGNANT WOMEN NOTIFIED WITH ZIKA VIRUS IN THE STATE OF GOIÁS FROM 2020 TO 2025: AN EPIDEMIOLOGICAL PROFILE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511121638


Marco Antônio Ferreira Silva1; Igor Avelar Canelas Barros1; Luis Filipe Almeida Silva1; Guilherme José e Silva1; Júlia Vitória Machado Matrak1; Carolina Turmina Bregalda2; Amadeu Monteiro Vaz da Silva3; Lucas Dileno Rodrigues4


RESUMO

Modelo do estudo: Estudo epidemiológico observacional, descritivo, com análise de dados secundários provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponíveis no DATASUS. Objetivo: Descrever o perfil epidemiológico das gestantes notificadas com infecção pelo vírus Zika (ZIKV) no estado de Goiás, no período de 2020 a 2025. Metodologia: Foram selecionados registros de casos de infecção por ZIKV no SINAN, filtrando-se notificações de gestantes. As variáveis analisadas incluíram trimestre gestacional, raça/cor, classificação final e evolução dos casos. Os dados foram organizados e interpretados com base em frequência absoluta e relativa, visando caracterizar a distribuição temporal e sociodemográfica dos casos. Resultados: No período analisado, foram registradas 4.966 notificações de gestantes com suspeita de infecção por ZIKV. Observou-se predomínio de casos no terceiro trimestre gestacional e entre mulheres pardas (n=3.244). A maioria dos registros foi classificada como descartada (n=4.384), enquanto 216 casos foram confirmados. Quanto à evolução, 4.308 gestantes evoluíram para cura, 39 para óbito por outras causas e 1 óbito foi diretamente relacionado ao agravo. Houve ainda 618 registros com evolução ignorada. Os anos de 2023 e 2024 apresentaram o maior número de notificações. Conclusão: A infecção pelo ZIKV em gestantes permanece como um desafio à saúde pública em Goiás, destacando-se a vulnerabilidade social das mulheres pardas e as limitações diagnósticas persistentes. O fortalecimento da vigilância laboratorial, a integração entre os níveis de atenção e o desenvolvimento de políticas intersetoriais são essenciais para a prevenção e o cuidado integral de gestantes e crianças afetadas pela Síndrome Congênita do Zika.

Palavras-chave: Zika vírus; Gestantes; Vigilância epidemiológica; Síndrome congênita do Zika; Goiás.

ABSTRACT

Study model: Observational, descriptive epidemiological study with analysis of secondary data from the Notifiable Diseases Information System (SINAN), available on DATASUS. Objective: To describe the epidemiological profile of pregnant women notified with Zika virus (ZIKV) infection in the state of Goiás, from 2020 to 2025. Methodology: Records of ZIKV infection cases were selected from SINAN, filtering notifications of pregnant women. The variables analyzed included gestational trimester, race/skin color, final classification, and case outcome. Data were organized and interpreted based on absolute and relative frequencies, aiming to characterize the temporal and sociodemographic distribution of cases. Results: During the analyzed period, 4,966 notifications of pregnant women suspected of ZIKV infection were recorded. There was a predominance of cases in the third gestational trimester and among brown-skinned women (n=3,244). Most records were classified as discarded (n=4,384), while 216 cases were confirmed. Regarding outcomes, 4,308 pregnant women recovered, 39 died from other causes, and 1 death was directly related to the disease. There were also 618 records with unknown outcomes. The years 2023 and 2024 showed the highest number of notifications. Conclusion: ZIKV infection in pregnant women remains a public health challenge in Goiás, highlighting the social vulnerability of brown-skinned women and persistent diagnostic limitations. Strengthening laboratory surveillance, integrating levels of healthcare, and developing intersectoral policies are essential for the prevention and comprehensive care of pregnant women and children affected by Congenital Zika Syndrome.

Keywords: Zika virus; Pregnant women; Epidemiological surveillance; Congenital Zika syndrome; Goiás.

INTRODUÇÃO:

O vírus Zika (ZIKV) foi identificado pela primeira vez no Brasil em 2015, inicialmente na região Nordeste, por meio de casos de doença exantemática de etiologia desconhecida. Poucos meses depois, observou-se um aumento expressivo nos registros de microcefalia e outras anomalias congênitas, principalmente em Pernambuco, o que levou à identificação da Síndrome Congênita do Zika (SCZ) e à declaração de emergência de saúde pública de importância internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Desde então, o ZIKV consolidou-se como um agravo relevante para a saúde materno-infantil, com repercussões clínicas e sociais duradouras.

Trata-se de um arbovírus do gênero Flavivirus, transmitido predominantemente pelo mosquito Aedes aegypti, vetor também responsável pela dengue e chikungunya. Embora a infecção seja geralmente autolimitada, a transmissão vertical durante a gestação pode causar graves danos neurológicos ao feto, em decorrência do neurotropismo viral. Essa característica faz das gestantes um grupo prioritário nas ações de vigilância epidemiológica e assistência em saúde.

No Brasil, a epidemia de ZIKV evidenciou fragilidades nos sistemas de vigilância e atenção à saúde, incluindo limitações diagnósticas, inconsistências nos registros e desigualdades regionais de acesso ao cuidado. Além disso, o impacto psicossocial sobre mães de crianças com SCZ revelou a necessidade de estratégias interdisciplinares e humanizadas que articulem vigilância, acolhimento e acompanhamento longitudinal.

Nesse contexto, o monitoramento epidemiológico das gestantes infectadas é essencial para compreender a distribuição temporal dos casos, identificar grupos vulneráveis e subsidiar políticas públicas voltadas à prevenção e ao cuidado integral. O estado de Goiás, localizado na região Centro-Oeste, apresenta condições favoráveis à circulação de arboviroses, tornando relevante a caracterização regional da infecção pelo ZIKV. Assim, este estudo tem como objetivo descrever o perfil epidemiológico das gestantes notificadas com infecção pelo vírus Zika no estado de Goiás entre os anos de 2020 e 2025.

MATERIAL & MÉTODOS 

Foram selecionados, por meio da base de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponível no DATASUS, os registros de casos de infecção por vírus Zika no estado de Goiás, no período compreendido entre 2020 e 2025, com enfoque específico em gestantes notificadas. A extração dos dados foi realizada utilizando as ferramentas de consulta epidemiológica disponibilizadas pela plataforma, adotando filtros referentes ao ano de notificação, condição gestacional e demais variáveis de interesse.

Para fins de análise, os casos foram categorizados segundo os seguintes parâmetros: (1) condição gestacional (“casos em gestantes”); (2) raça/cor; (3) classificação final do caso (confirmado, descartado ou em investigação); e (4) evolução clínica (cura, óbito ou demais desfechos registrados). A organização e o tratamento dos dados tiveram como objetivo caracterizar o perfil epidemiológico das gestantes notificadas e identificar possíveis tendências na distribuição dos casos ao longo do período analisado.

RESULTADOS

A análise virológica demonstrou que o Zika vírus apresenta alta capacidade de infectividade e neurotropismo, relacionada principalmente ao genótipo asiático, que assumiu papel predominante nos surtos recentes. Mutações não sinônimas nas proteínas estruturais e não estruturais (prM, E, NS1, NS2A e NS4B) foram associadas ao aumento da virulência, maior afinidade pelas células do sistema nervoso central e maior eficiência replicativa, contribuindo para manifestações graves, como a Síndrome Congênita do Zika.

No âmbito materno e familiar, observou-se impacto expressivo sobre mulheres que tiveram filhos com SCZ, evidenciado por sobrecarga emocional, prejuízo socioeconômico, reorganização da dinâmica familiar e pior qualidade de vida, sobretudo nos domínios físico, psicológico e ambiental. Esses prejuízos foram mais intensos em crianças com disfunções motoras, distúrbios alimentares, crises convulsivas e elevado grau de dependência funcional, fatores que ampliaram a demanda de cuidados e intensificaram o sofrimento materno.

Além disso, foram identificadas fragilidades na assistência em saúde durante e após a epidemia, incluindo falhas de comunicação, acolhimento insuficiente, ausência de preparo das equipes e dificuldades na construção de vínculo terapêutico. Relatos de práticas desumanizadas e tecnicistas foram recorrentes. Em contraste, experiências isoladas de abordagem humanizada demonstraram maior adesão ao tratamento e melhora da confiança no cuidado.

Tabela 1. Casos de gestante – 2020/2025.

Fonte: DataSUS.

A análise epidemiológica dos casos notificados em gestantes no estado de Goiás entre 2020 e 2025 mostrou que a maioria das notificações ocorreu no 3º trimestre gestacional, seguido do 2º trimestre. Foram registradas 4.966 notificações no período, das quais 144 ocorreram no 3º trimestre, 101 no 2º trimestre e 80 no 1º trimestre, enquanto 146 registros foram classificados como ignorados ou em branco. Observa-se ainda que a maior parte dos registros se concentra nos anos 2023 e 2024, sugerindo recrudescimento das notificações recentes.

Tabela 2. Casos por raça – 2020/2025.

Fonte: DataSUS.

Quanto ao perfil racial das gestantes notificadas, houve predomínio do grupo pardo (n=3.244), seguido por brancas (n=1.076) e, em menor proporção, pretas (n=296), amarelas (n=69) e indígenas (n=6). Esse padrão acompanha o perfil demográfico do estado e sugere maior vulnerabilidade social entre mulheres pardas, grupo majoritário também em outras arboviroses no Brasil.

Tabela 3. Casos por classificação – 2020/2025.

Fonte: DataSUS.

Em relação à classificação final das notificações, observou-se que o maior número de registros foi descartado (n=4.384), enquanto 216 casos foram confirmados, 278 permaneceram inconclusivos e 88 foram registrados como ignorados. Esses achados reforçam o desafio diagnóstico do ZIKV, devido à semelhança clínica com dengue e chikungunya e às limitações laboratoriais do período pós-agudo.

Tabela 4. Casos por evolução – 2020/2025.

Fonte: DataSUS.

Quanto à evolução dos casos, os dados apontam que 4.308 evoluíram para cura, enquanto 39 evoluíram para óbito por outras causas e 1 caso foi registrado como óbito diretamente associado ao agravo notificado. Houve ainda 618 registros ignorados, o que pode indicar subnotificação ou inconsistência nos sistemas de vigilância.

DISCUSSÃO

A Síndrome Congênita do Zika (SCZ) representa um significativo problema de saúde pública no Brasil, com repercussões clínicas, sociais e econômicas de longo prazo. Embora tenha havido avanços no entendimento da infecção pelo vírus Zika (ZIKV) desde sua introdução no país, estudos que abordem o perfil epidemiológico regional, especialmente entre gestantes, ainda são necessários para direcionar políticas públicas locais. O presente estudo descreveu o perfil das gestantes notificadas com infecção por ZIKV no estado de Goiás entre 2020 e 2025, revelando particularidades que merecem atenção.

A região Centro-Oeste, onde se localiza Goiás, apresenta condições ambientais favoráveis à circulação do Aedes aegypti, o que justifica a manutenção de notificações de arboviroses ao longo dos anos. O recrudescimento das notificações em 2023 e 2024, conforme observado, pode estar relacionado a fatores climáticos, alterações na circulação viral ou mesmo ao aprimoramento dos sistemas de vigilância. No entanto, a concentração de notificações no terceiro trimestre gestacional sugere maior atenção clínica nessa fase, possivelmente em decorrência da realização de ultrassonografias morfológicas que identificam alterações sugestivas de infecção congênita.

O perfil racial das gestantes notificadas acompanha a distribuição demográfica estadual, com predomínio de mulheres pardas (n=3.244). Esse dado reflete não apenas a composição étnica da população, mas também evidencia a maior vulnerabilidade social desse grupo, historicamente mais exposto a condições precárias de saneamento, habitação e acesso a serviços de saúde – fatores que aumentam o risco de exposição ao vetor. Tais desigualdades já foram documentadas em estudos sobre dengue e chikungunya, reforçando a necessidade de ações intersetoriais que contemplem determinantes sociais da saúde.

Quanto à classificação final dos casos, chama atenção o elevado número de registros descartados (n=4.384), em comparação com os confirmados (n=216). Essa disparidade pode ser atribuída à semelhança clínica entre ZIKV, dengue e chikungunya, somada às limitações dos métodos laboratoriais disponíveis, especialmente após a fase aguda da infecção. A baixa confirmação laboratorial dificulta a vigilância precisa e o acompanhamento oportuno das gestantes infectadas, além de subestimar a real magnitude da transmissão do ZIKV.

Em relação à evolução dos casos, a grande maioria evoluiu para cura (n=4.308), o que era esperado, considerando o caráter frequentemente assintomático ou leve da infecção em adultos. No entanto, registrou-se um óbito diretamente associado ao agravo, além de 39 óbitos por outras causas – o que ressalta a importância da investigação adequada desses desfechos. A existência de 618 registros ignorados quanto à evolução aponta para fragilidades no preenchimento e na continuidade do acompanhamento, limitação já observada em outros estudos que utilizam dados secundários do SINAN.

Além dos aspectos epidemiológicos, é fundamental considerar o impacto psicossocial da SCZ sobre as famílias, especialmente as mães, que frequentemente assumem a responsabilidade integral pelos cuidados de crianças com elevado grau de dependência funcional. A sobrecarga emocional e socioeconômica vivenciada por essas mulheres é agravada por falhas no acolhimento e na continuidade do cuidado, como relatado em experiências desumanizadas e tecnicistas durante a epidemia. Por outro lado, iniciativas de abordagem humanizada demonstraram potencial para melhorar a adesão ao tratamento e a confiança no sistema de saúde.

Diante desses achados, reforça-se a necessidade de fortalecer a vigilância laboratorial, a integração entre vigilância e atenção primária, e a implementação de protocolos de acompanhamento longitudinal para gestantes e crianças com SCZ. Estratégias intersetoriais que articulem saúde, assistência social e educação são essenciais para reduzir o impacto da infecção pelo ZIKV e mitigar suas consequências a longo prazo.

CONCLUSÃO

O presente estudo evidenciou que a infecção pelo vírus Zika (ZIKV) em gestantes no estado de Goiás, entre 2020 e 2025, manteve relevância epidemiológica, com maior concentração de casos nos anos de 2023 e 2024. Observou-se predominância de notificações no terceiro trimestre gestacional e em mulheres pardas, refletindo o perfil sociodemográfico do estado e a vulnerabilidade social desse grupo. A maior proporção de casos descartados frente aos confirmados ressalta as limitações diagnósticas do agravo e as dificuldades operacionais dos sistemas de vigilância, especialmente em contextos de cocirculação de arboviroses.

A análise virológica reforça o caráter neurotrópico e a elevada capacidade de disseminação do ZIKV, associadas a mutações genéticas que potencializam sua virulência e explicam o surgimento de manifestações graves, como a Síndrome Congênita do Zika (SCZ). Além das repercussões clínicas, os impactos psicossociais e econômicos sobre as famílias afetadas — sobretudo sobre as mães — reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas ao cuidado integral, humanizado e contínuo.

Dessa forma, faz-se imprescindível o fortalecimento das estratégias de vigilância laboratorial, a integração entre os níveis de atenção à saúde e a ampliação de ações intersetoriais que articulem saúde, assistência social e educação. Tais medidas são fundamentais para mitigar os efeitos da infecção pelo ZIKV, reduzir desigualdades e aprimorar o acompanhamento materno-infantil em Goiás e em outras regiões endêmicas do país.

REFERÊNCIAS

1 -Bernardo-Menezes LC, Agrelli A, Oliveira ASLE, Moura RR, Crovella S, Brandão LAC. Uma visão geral dos genótipos do vírus Zika e sua infectividade. Rev Soc Bras Med Trop [Internet]. 2022 [citado 28 out 2025];55(e0263-2022). Disponível em:https://doi.org/10.1590/0037-86820263-2022. 

2 – Cavalcanti AFC, Aguiar YPC, Arruda TD, Melo ASO, Cavalcanti AL, d’Ávila S. Qualidade de Vida de Mães de Crianças Brasileiras com Síndrome Congênita do Zika Vírus e Fatores Associados. Pesqui Bra Odontopediatria Clin Integr. 2021; 21:00071.https://doi.org/10.1590/pboci.2021.120. 

3 – Mocelin HJS, Freitas PSS, Lamonato LCXL, Mascarello KC, Maciel ELN. Abordagem profissional em tempos de pandemia: o que aprender com o vírus Zika? Interface (Botucatu) [Internet]. 2021 [citado [Coloque os dados em que você acessou o artigo, ex.: 28 de out. de 2025]];25:e200427. Disponível em:https://doi.org/10.1590/interface.200427.

4 – http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sinannet/cnv/zikago.def


1Acadêmico da Faculdade de Medicina de Goianésia, FAMEGO, Universidade de Rio Verde – UniRV, Rod. GO-438, KM 02, 76.380-000, Goianésia, Goiás, Brasil.
2Acadêmico de Medicina do Centro Universitário de Pato Branco, UNIDEP, Centro
Universitário de Pato Branco – UNIDEP, Rua Benjamin Borges dos Santos, 1100, 85503-350, Pato Branco, Paraná, Brasil.
3Acadêmico de Medicina do Centro Universitário Alfredo Nasser – UNIFAN, Centro
Universitário Alfredo Nasser – UNIFAN, Av. Bela Vista, 26 – Jardim Esmeraldas, Aparecida de Goiânia – GO, 74905-020, Aparecida de Goiânia, Goiás, Brasil.
4Mastologista do Hospital de Base do Distrito Federal – HBDF, Hospital de Base do Distrito Federal – HBDFSt. Médico Hospitalar Sul Área Especial Quadra 101 – Asa Sul, Brasília – DF, 70330-150, Brasília, Distrito Federal, Brasil.