MEDICAL EDUCATION AND UNIVERSITY EXTENSION IN A QUILOMBOLA COMMUNITY: AN EXPERIENCE REPORT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202512282348
Tâmara Trindade de Carvalho Santos1; Tarcísio Gonçalves de Souza Santos1; Leidson Rodrigo Texeira Ribeiro1; Ana Oclenidia Dantas Mesquita2; Anderson dos Santos Barbosa1; Emilly Anny Benevides1; Tácito Emanuel Ferreira Damasceno2; Yamilet Castro Avila1; Aliuska Tizón Pérez1; Bruno Lima de Souza1
Resumo
As desigualdades raciais e socioeconômicas no Brasil impactam de forma significativa o acesso à educação, ao trabalho e à saúde da população negra, com efeitos ainda mais intensos nas comunidades quilombolas. Pessoas pretas e pardas apresentam piores indicadores sociais e de saúde, reflexo do racismo estrutural e das negligências históricas. Nesse contexto, a formação médica comprometida com a equidade exige estratégias pedagógicas que ultrapassem o ensino tradicional e promovam a aproximação com os territórios e seus determinantes sociais. O presente artigo tem como objetivo relatar a experiência de atividades extensionistas desenvolvidas por estudantes de Medicina da Faculdade Ages na comunidade Quilombola Erê, em Jacobina, Bahia, destacando metodologias, ações realizadas e impactos formativos e comunitários. Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, organizado em três etapas. Inicialmente, realizou-se um levantamento cartográfico do território, possibilitando o reconhecimento das lideranças quilombolas, da escola local e da Unidade Básica de Saúde, bem como das dinâmicas sociais e institucionais. Em seguida, foi desenvolvido o projeto de extensão “Ei, Bora pra Feira?”, materializado na realização de duas feiras de saúde (2023 e 2025), articulando universidade, escola, serviços de saúde, lideranças comunitárias e Secretaria Municipal de Saúde. As ações incluíram consultas médicas, aferição de pressão arterial e glicemia, testes rápidos para ISTs, oficinas educativas e lúdicas, vacinação humana e animal, atividades de educação em saúde, estandes das Ligas Acadêmicas e exames ginecológicos. Os resultados evidenciam elevada adesão da comunidade, com mais de mil atendimentos realizados nas duas edições, além de relatos positivos quanto à incorporação de práticas aprendidas e à continuidade do cuidado em saúde. A participação voluntária de estudantes e docentes fortaleceu o caráter interprofissional e humanizado das ações, contribuindo para a formação crítica dos discentes. Conclui-se que a extensão universitária em comunidades quilombolas é uma estratégia potente para a promoção da saúde, o fortalecimento comunitário e a formação de médicos comprometidos com a justiça social, a interculturalidade e a equidade em saúde.
Palavras-chave: Formação médica; Extensão universitária em comunidade quilombola; Saúde da população negra; Educação em saúde;
1. INTRODUÇÃO
Os dados demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam aumento expressivo da autodeclaração de pessoas pretas no Brasil. Em 2012, correspondiam a 7,4% da população; em 2022, alcançaram 10,6%, configurando o grupo racial com maior crescimento e o maior registro histórico. O contingente pardo manteve proporção estável, representando 45,3% em 2022 (45,6% em 2012), permanecendo como o maior grupo racial do país. A população branca apresentou redução, passando de 46,3% em 2012 para 42,8% em 2022. Esses indicadores evidenciam a prevalência da ascendência africana na constituição étnica nacional e ampliam o reconhecimento racial pela população (IBGE, 2022).
O estudo “Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil”(IBGE, 2022) aponta que, apesar da maioria numérica, pessoas pretas e pardas vivenciam menor acesso educacional e maior dependência do trabalho informal, condições que restringem direitos como salário-mínimo, aposentadoria e assistência à saúde. A violência incide de forma mais intensa nesses grupos, sobretudo entre homens negros.
Em 2021, trabalhadores brancos apresentavam rendimento médio de R$ 3.099, enquanto pretos recebiam R$ 1.764 e pardos, R$ 1.814. Trabalhadores pretos e pardos compunham 53,8% da força laboral, mas ocupavam somente 29,5% dos cargos gerenciais; brancos ocupavam 69% dessas posições. A inserção de pretos e pardos permanece concentrada em ocupações socialmente vulneráveis, de baixa formalização e menor renda (IBGE, 2022).
No ensino superior presencial, a pedagogia exibiu as maiores proporções de estudantes pretos (11,6%) e pardos (36,2%) em 2020; enfermagem registrou 8,5% de pretos e 35,2% de pardos. Medicina apresentou 3,2% de pretos e 21,8% de pardos (IBGE, 2022). Entre indivíduos pretos ou pardos com 15 anos ou mais, 7,4% são analfabetos, mais que o dobro da taxa entre brancos (3,4%). Entre pessoas com 60 anos ou mais, o analfabetismo atinge 9,3% dos brancos e 23,3% dos pretos ou pardos (IBGE, 2022).
Essas desigualdades socioeconômicas impactam diretamente a saúde da população negra, restringindo o acesso aos serviços de saúde, às políticas públicas em saúde e à educação em saúde. Quando se trata de comunidade negra Quilombola, tais impactos na saúde são ainda maiores.
As comunidades quilombolas constituem coletividades com ancestralidade africana, identidade racial definida, trajetória de resistência e fortes vínculos territoriais (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2003). Esses grupos apresentam especificidades culturais, históricas e territoriais que influenciam a saúde física, mental, social e comunitária.
A região Nordeste concentra 68,19% dos quilombolas do país; a Bahia abriga 29,90% e o Maranhão, 20,26%, somando 50,16% dessa população (IBGE, 2022).
Fatores genéticos, ambientais, socioeconômicos e raciais produzem impactos na saúde da população de forma geral e podem influenciar na distribuição de agravos (ZUCCHI ET AL., 2012; BRASIL, 2017; WILLIAMS ET AL., 2018).
Diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares, como doença arterial coronariana, apresentam maior prevalência na população negra, influenciadas por dieta, condições econômicas, níveis de atividade física e acesso ao cuidado (ZUCCHI ET AL., 2012; BRASIL, 2017; WILLIAMS ET AL., 2018).
A anemia falciforme, enfermidade hereditária associada à ancestralidade africana, manifesta-se com deformação das hemácias e múltiplas complicações sistêmicas (WILLIAMS; MORAMMED, 2009; WILLIAMS ET AL., 2018).
As taxas de mortalidade materna e infantil são mais elevadas entre pessoas negras. Crianças negras enfrentam maior vulnerabilidade à asma em razão de fatores ambientais e socioeconômicos (NOSSA; FORD, 2011; WILLIAMS ET AL., 2018).
A saúde da mulher negra revela interseção entre desigualdades raciais e de gênero. Mulheres negras vivenciam maior carga de adoecimento mental associada ao racismo, além de taxas mais elevadas de violência de gênero. A abordagem interseccional propõe análise simultânea das múltiplas dimensões identitárias (HOOKS, 2019; SILVA ET AL., 2020). O feminismo interseccional atua contra o sexismo e o racismo, reconhecendo que as mulheres negras enfrentam desafios distintos e profundos (HOOKS, 2019; SILVA ET AL., 2020). A superação dessas desigualdades requer políticas inclusivas e ações estruturantes.
Na ginecologia e obstetrícia, os miomas uterinos apresentam relevância acentuada entre mulheres negras, com maior prevalência e manifestação em idade mais precoce. Os leiomiomas são tumores benignos com origem no tecido uterino (SOUZA, 1995; SOUZA, 2002). Fatores genéticos, hormonais e ambientais influenciam essa predisposição, reforçada por desigualdades socioeconômicas, barreiras de acesso à saúde e efeitos do racismo estrutural (SOUZA, 1995; SOUZA, 2002). As raízes históricas das disparidades em saúde remetem ao legado da escravidão, à segregação e às formas contínuas de discriminação.
No município de Jacobina, extremo norte da Chapada Diamantina, o censo do IBGE (2022) registrou 5.360 quilombolas distribuídos em mais de 12 comunidades. Destaca-se a Associação Afro Brasileira Quilombo Erê, localizada no bairro Bananeira, presidida por Balduino Silva e fundada com a liderança de Jean Cesar (Junior de Todos) (dados de 2025). A entidade desenvolve ações voltadas à preservação da memória, à valorização de saberes ancestrais e à construção de estratégias para o turismo étnico-afro no Piemonte da Chapada Diamantina Norte.
A Faculdade Ages de Medicina, localizada também no município de Jacobina, assume o compromisso institucional de formar médicos contemporâneos, capazes de compreender criticamente a realidade sociocultural em que estão inseridos, portanto levar esses estudantes para desenvolverem atividades extensionistas de atenção e cuidado junto à comunidade Quilombola Erê é de suma importância.
Com isso, o presente artigo tem o objetivo de evidenciar as atividades extensionistas desenvolvidas por estudantes de Medicina na comunidade Quilombola Erê, descrevendo as ações realizadas, suas metodologias participativas, os saberes compartilhados e os impactos percebidos tanto no processo formativo dos discentes quanto no fortalecimento das práticas comunitárias de promoção da saúde. Busca-se também analisar de que modo essas experiências contribuem para a aproximação entre universidade e território, para o reconhecimento das especificidades socioculturais da população quilombola e para a construção de competências profissionais orientadas pela equidade, pela interculturalidade e pelo respeito à ancestralidade afro-brasileira.
2. METODOLOGIA
A primeira etapa da atividade consistiu na realização de um levantamento cartográfico da comunidade, entendido como um processo de reconhecimento e mapeamento do território em seus aspectos sociais, institucionais e culturais (ROLNIK, 1989). Essa etapa teve como objetivo compreender a dinâmica local, identificando os principais líderes quilombolas, a escola inserida na comunidade e a Unidade Básica de Saúde, bem como os tipos de atendimentos ofertados e os profissionais atuantes. O levantamento possibilitou uma aproximação com a realidade vivenciada pelos moradores, favorecendo o diálogo com as lideranças e instituições locais e subsidiando o planejamento de uma ação educativa contextualizada, sensível às especificidades do território e alinhada às necessidades reais da comunidade.
Após a compreensão ampliada do território por meio do levantamento cartográfico e da análise de seus determinantes sociais em saúde, na segunda etapa da atividade, foi desenvolvido o projeto de extensão intitulado “EI, BORA PRA FEIRA?” Feira de Saúde, Cidadania e Cultura, o projeto materializou-se na realização de uma feira de saúde, concebida como um espaço coletivo de cuidado, diálogo e troca de saberes, articulando diferentes atores do território, incluindo a escola da comunidade, a Unidade Básica de Saúde (UBS), as lideranças quilombolas, estudantes e professores/profissionais de saúde da Faculdade Ages dos cursos de Medicina e de outras áreas da saúde, profissionais de saúde do município e o apoio institucional da Secretaria Municipal de Saúde. Essa feira ocorreu no ano de 2023.
A feira foi realizada no receptivo quilombola, espaço pertencente à associação da comunidade, escolhido por seu caráter simbólico e de fácil acesso aos moradores. As atividades desenvolvidas contemplaram consultas médicas e avaliações clínicas; aferição de pressão arterial e glicemia capilar, acompanhadas de orientações nutricionais e informações sobre doenças crônicas não transmissíveis; realização de testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e rodas de conversa sobre saúde sexual e reprodutiva;
Oficinas educativas e lúdicas voltadas ao público infantil, com foco no cuidado e na prevenção desde a infância; estandes organizados pelas Ligas Acadêmicas, abordando temas como saúde bucal, saúde mental, alimentação saudável, prevenção de doenças e primeiros socorros; ações de vacinação humana e animal, com orientações sobre a profilaxia de zoonoses;
Na terceira etapa, aconteceu mais uma edição do projeto de extensão intitulado “EI, BORA PRA FEIRA?” II Feira de Saúde, Cidadania e Cultura, ocorrendo na escola da comunidade quilombola, porém com a participação intersetorial e nos mesmos moldes da primeira feira. Além das mesmas atividades ocorridas na primeira versão do projeto, houve também a oferta de exames ginecológicos acontecendo na Unidade Básica de Saúde (UBS) em frente a escola.
Todos os estudantes que participaram das atividades do “EI, BORA PRA FEIRA?” foram selecionados a partir de edital seletivo e capacitados sobre a saúde da população negra com base no Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) (BRASIL, 2010).
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A atuação do estudante de Medicina em atividades de extensão universitária em comunidades quilombolas revela-se fundamental para a consolidação do papel social da universidade e para a formação de profissionais críticos, éticos e comprometidos com a transformação da realidade social.
Conforme explicitado pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão (FORPROEX), as funções universitárias se estruturam a partir de três processos indissociáveis: ensino, pesquisa e extensão, sendo esta última responsável por promover, junto à sociedade, conhecimentos e habilidades de interesse mútuo, em uma relação bidirecional e dialética entre universidade e território (FORPROEX, 2012). Nesse sentido, a inserção dos estudantes no contexto comunitário amplia o universo de referência do processo ensino-aprendizagem, permitindo o contato direto com problemáticas contemporâneas e agregando valor à formação teórica, metodológica, ética e solidária.
No contexto das comunidades quilombolas, historicamente marcadas por processos de exclusão social, racismo estrutural e negligência em saúde, a extensão universitária possibilita ao estudante de Medicina compreender, de forma concreta, os determinantes sociais em saúde que atravessam o adoecimento e o cuidado.
As atividades extensionistas, ao priorizarem o apoio solidário na resolução de problemas relacionados à exclusão e à discriminação social, contribuem para dar voz a grupos historicamente silenciados, conforme defendido por Santos (2005). Tal aproximação favorece o desenvolvimento da empatia, da escuta qualificada e da humanização do cuidado, competências essenciais à prática médica, mas que não se consolidam plenamente apenas no espaço formal da sala de aula ou nos cenários hospitalares.
Essa perspectiva dialoga diretamente com o pensamento de Paulo Freire, ao compreender a educação como um processo dialógico, crítico e emancipador. Para Freire (1996), ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção ou construção, o que se concretiza nas ações extensionistas ao reconhecer os saberes populares e promover a troca horizontal entre universidade e comunidade.
Do mesmo modo, bell hooks (2013) reforça a importância de uma educação engajada, capaz de romper com hierarquias tradicionais do saber e de valorizar experiências vividas, especialmente aquelas oriundas de grupos racializados e marginalizados. Assim, a vivência extensionista em uma comunidade quilombola permite ao estudante de Medicina reconhecer o território como espaço legítimo de produção de conhecimento, fortalecendo uma formação antirracista e socialmente comprometida.
A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) destaca a necessidade de enfrentar o racismo institucional no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e de garantir práticas de cuidado equitativas, culturalmente sensíveis e humanizadas (BRASIL, 2010). A participação dos estudantes em ações extensionistas nesse contexto contribui para a operacionalização dessa política, ao favorecer a compreensão das especificidades étnico-raciais, das vulnerabilidades sociais e das barreiras de acesso aos serviços de saúde enfrentadas pela população negra quilombola. Tal experiência fortalece uma prática médica comprometida com a equidade, indo além de abordagens meramente tecnicistas ou mercantis.
Corroborando essa discussão, Pina-Oliveira e Chiesa (2016) destacam que a universidade não deve se limitar às urgências tecnológicas e instrumentais, mas se implicar na construção de um conhecimento prudente e de uma sabedoria prática, capaz de transformar realidades e promover uma vida mais digna e com qualidade.
Thiollent (2016) acrescenta que a extensão universitária deve articular criatividade individual e coletiva com participação efetiva, evitando soluções superficiais e retóricas, o que exige planejamento, escuta do território e compromisso com resultados socialmente relevantes. Dessa forma, as atividades extensionistas desenvolvidas em comunidades quilombolas não apenas qualificam a formação do estudante de Medicina, mas também reafirmam o papel da universidade como agente de transformação social, alinhada aos princípios da justiça social, da equidade racial e da humanização do cuidado em saúde.
A tabela apresentada sintetiza de forma quantitativa os atendimentos realizados durante a feira de saúde, evidenciando a diversidade e a abrangência das ações ofertadas à comunidade (tabela 1). Destaca-se que os dados não representam o número absoluto de pessoas atendidas, uma vez que cada participante pôde acessar mais de um serviço ao longo da atividade. Assim, a tabela expressa o volume total de atendimentos efetuados.
Tabela 1. Atendimentos realizados durante a feira de saúde

Os atendimentos contemplaram consultas médicas e avaliações clínicas; verificação de pressão arterial e glicemia capilar, acompanhadas de orientações nutricionais e sobre doenças crônicas não transmissíveis; realização de testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e rodas de conversa sobre saúde sexual e reprodutiva; oficinas de higiene pessoal, com foco na lavagem das mãos e escovação dentária para crianças; oficinas educativas e lúdicas infantis voltadas à promoção do cuidado e da prevenção desde a infância; estandes das Ligas Acadêmicas com informações sobre saúde bucal, saúde mental, alimentação saudável, prevenção de doenças e primeiros socorros; ações de vacinação humana e animal, com orientações acerca da profilaxia de zoonoses; e a realização de exames preventivos ginecológicos na Unidade Básica de Saúde localizada em frente à escola. O conjunto desses dados evidencia a integralidade da abordagem adotada, bem como a alta adesão da comunidade às diferentes frentes de cuidado disponibilizadas.
Cabe destacar a expressiva participação de estudantes de Medicina e de outros cursos da área da saúde, que atuaram de forma voluntária na organização e execução das atividades. A presença desses discentes foi fundamental para a viabilização da feira de saúde, ampliando a capacidade de atendimento e fortalecendo o caráter interprofissional da ação. Além disso, a vivência extensionista proporcionou aos estudantes uma experiência formativa singular.
A presença dos docentes garantiu o embasamento teórico-metodológico das atividades, a articulação com as políticas públicas e a mediação crítica entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais da comunidade. Além disso, os professores exercem um papel essencial na orientação ética, na supervisão das práticas e na condução de processos educativos sensíveis às especificidades culturais, históricas e sociais do território quilombola.
Para os estudantes, a atuação ao lado dos professores possibilita a vivência concreta do processo ensino-aprendizagem em contextos reais, promovendo a integração entre teoria e prática. Essa interação favorece o desenvolvimento de competências como empatia, escuta qualificada, trabalho em equipe e compromisso social, ao mesmo tempo em que estimula uma postura crítica diante das desigualdades sociais e raciais que impactam a saúde e a educação dessas populações.
Para a comunidade, a feira ampliou o acesso a serviços de saúde, informações qualificadas e ações educativas, contribuindo para o diagnóstico precoce, a continuidade de tratamentos e a adoção de práticas preventivas no cotidiano. Para a escola, o evento fortaleceu seu papel como espaço estratégico de promoção da saúde, integrando educação e cuidado e favorecendo a formação de crianças mais conscientes sobre hábitos saudáveis desde a infância.
Os relatos positivos observados ao longo das duas edições da feira evidenciam o impacto e a permanência das ações desenvolvidas. Durante a segunda edição, membros da comunidade demonstraram lembrar-se das atividades realizadas anteriormente, relataram a incorporação de orientações aprendidas, como práticas de higiene, cuidados com a saúde e busca ativa por serviços e destacaram que continuaram a reproduzir esses saberes em seus lares e no convívio comunitário.
Esses relatos indicam que a feira não se limitou a uma intervenção pontual, mas contribuiu para a continuidade da educação em saúde, do acompanhamento de tratamentos e da ampliação do acesso ao diagnóstico, fortalecendo a autonomia da comunidade no cuidado com a própria saúde.
A realização contínua das feiras reforçou o vínculo entre universidade, serviços de saúde, escola e comunidade quilombola, promovendo relações baseadas na confiança, no diálogo e no reconhecimento mútuo. O trabalho permanente no território mostrou-se essencial para a consolidação de mudanças sustentáveis, uma vez que ações continuadas potencializam os efeitos educativos, fortalecem o cuidado longitudinal e reafirmam o compromisso social das instituições envolvidas. Assim, a experiência evidencia que a continuidade das ações extensionistas é um elemento central para a promoção da saúde e o fortalecimento das comunidades quilombolas.
4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência extensionista desenvolvida na comunidade quilombola Erê evidenciou o potencial transformador das ações educativas em saúde quando planejadas de forma participativa, contextualizada e contínua. A partir do reconhecimento do território e de seus determinantes sociais, da articulação entre universidade, escola, serviços de saúde e lideranças quilombolas, e da atuação conjunta de professores e estudantes, foi possível promover cuidado integral, educação em saúde e acesso a diagnósticos e tratamentos, fortalecendo vínculos e estimulando o protagonismo comunitário. Os relatos positivos da população, especialmente a lembrança e a incorporação das práticas aprendidas na feira anterior, demonstram a efetividade das intervenções e a importância da continuidade do trabalho no território. Dessa forma, a iniciativa reafirma a extensão universitária como eixo fundamental da formação em saúde, contribuindo para a construção de profissionais mais humanos, críticos e comprometidos com a equidade, ao mesmo tempo em que fortalece a autonomia, a cidadania e a promoção da saúde em comunidades quilombolas.
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1Docentes do Curso Superior de Medicina da Faculdade Ages de Medicina Campus Jacobina e-mail: tamara.carvalho@ages.edu.br
2Docente do Curso Superior da Faculdade Ages de Jacobina Campus Jacobina.
