PHYSIOTHERAPY IN THE POSTOPERATIVE PERIOD OF GENDER REASSIGNMENT SURGERIES: A SYSTEMATIC REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511251838
Mayra Carolina Nascimento Oliveira1
Natasha Martins Freire1
William Judah de Vasconcelos França1
Carla Dourado Leão2
Natalli da Silva Moraes3
Carlos Matheus Alves de Souza4
Rubia Célia da Silva Azulai5
Ana Priscila de Souza Pinheiro6
Ana Carolina Sena Ribeiro7
Mayara Carolina Jorge Moraes8
RESUMO
As cirurgias de readequação de gênero, incluem procedimentos complexos como vaginoplastia, faloplastia, mastectomia e feminilização facial. Por serem de grande porte, podem causar complicações funcionais, respiratórias, circulatórias e musculoesqueléticas no pós-operatório. A fisioterapia destaca-se na prevenção e no tratamento de disfunções funcionais, musculoesqueléticas e pélvicas, além de favorecer a qualidade de vida. Dessa forma, o objetivo do estudo é identificar e analisar as contribuições da fisioterapia no pós-operatório de cirurgias de redesignação de gênero. Foi realizada uma revisão sistemática entre julho e novembro de 2025, seguindo o PRISMA 2020. Consultaram-se PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, PEDro, Cochrane Library e ScienceDirect, utilizando descritores em português e inglês. Foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2025 que abordassem a atuação fisioterapêutica no pós-operatório dessas cirurgias. Identificou-se 901 estudos; Ao final, 3 estudos foram incluídos. As intervenções mais citadas foram mobilização precoce, exercícios respiratórios, fisioterapia pélvica, controle da dor e prevenção de complicações cicatriciais. Os achados indicam melhora funcional, redução da dor, menor incidência de complicações e impacto positivo na autoestima e qualidade de vida. As limitações envolvem amostras pequenas, curto seguimento e ausência de protocolos unificados. A fisioterapia é essencial no pós-operatório de cirurgias de redesignação de gênero, favorecendo recuperação funcional, prevenção de complicações e bem-estar biopsicossocial. São necessários estudos longitudinais e ensaios clínicos robustos para consolidar protocolos baseados em evidências e garantir assistência inclusiva à população trans.
Palavras-chave: Cirurgia de Readequação de Gênero. Pessoas Trans. Fisioterapia. Reabilitação. Identidade de Gênero.
Abstract
Gender-affirming surgeries include complex procedures such as vaginoplasty, phalloplasty, mastectomy, and facial feminization. Because they are major surgeries, they may cause functional, respiratory, circulatory, and musculoskeletal complications in the postoperative period. Physical therapy plays a key role in preventing and treating functional, musculoskeletal, and pelvic dysfunctions, in addition to promoting quality of life. Therefore, this study aims to identify and analyze the contributions of physical therapy in the postoperative care of gender-affirming surgeries. A systematic review was conducted between July and November 2025, following the PRISMA 2020 guidelines. The databases PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, PEDro, Cochrane Library, and ScienceDirect were searched using Portuguese and English descriptors. Studies published between 2020 and 2025 addressing physiotherapeutic interventions in the postoperative period of these surgeries were included. A total of 901 studies were identified; in the end, 3 studies met the inclusion criteria. The most frequently reported interventions were early mobilization, respiratory exercises, pelvic physiotherapy, pain control, and prevention of scar complications. The findings indicate functional improvement, pain reduction, lower incidence of complications, and a positive impact on self-esteem and quality of life. Limitations include small sample sizes, short follow-up periods, and the lack of standardized protocols. Physical therapy is essential in the postoperative management of gender-affirming surgeries, promoting functional recovery, complication prevention, and biopsychosocial well-being. Longitudinal studies and robust clinical trials are needed to establish evidence-based protocols and ensure inclusive care for the transgender population.
Keywords: Gender-Affirming Surgery. Transgender People. Physical Therapy. Rehabilitation. Gender Identity.
1. INTRODUÇÃO
As cirurgias de readequação de gênero, também chamadas de cirurgia de redesignação sexual ou de afirmação de gênero, envolvem técnicas complexas, como a vaginoplastia, faloplastia, mastectomia e feminilização facial. São procedimentos de grande porte, que podem gerar complicações funcionais, respiratórias, circulatórias e musculoesqueléticas no período pós-operatório (Wolf et al., 2022).
Nesse contexto, a fisioterapia tem papel fundamental na reabilitação pós-operatória, visto que atua no controle da dor, prevenção de complicações respiratórias e circulatórias, manejo de cicatrizes, mobilidade tecidual, fortalecimento muscular e reintegração funcional. Além disso, em cirurgias que envolvem a região pélvica, como a neocolpovaginoplastia, destaca-se a importância da fisioterapia pélvica para manutenção da funcionalidade, prevenção de estenoses vaginais e melhora da qualidade de vida sexual (Silva; Andrade; Lima, 2020) (Rodrigues et al., 2021).
Essas intervenções favorecem a recuperação das funções urinária, intestinal e sexual, além de promoverem o bem-estar físico e emocional durante o pós-operatório. Estudos recentes têm evidenciado que a reabilitação fisioterapêutica especializada proporciona resultados positivos na função pélvica e na adaptação corporal após cirurgias de afirmação de gênero, demonstrando a importância da abordagem integrada e humanizada no cuidado trans (Hazin et al., 2021; Ferrando et al., 2023; Dominoni et al., 2025).
Apesar da relevância do tema, observa-se uma escassez de protocolos específicos e publicações científicas que direcionem a prática fisioterapêutica voltada à saúde trans. Diante disso, o objetivo do estudo é realizar uma revisão sistemática da literatura para identificar e analisar as contribuições da fisioterapia no pós-operatório de cirurgias de redesignação de gênero.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 SAÚDE TRANS E IDENTIDADE DE GÊNERO
A identidade de gênero refere-se à experiência interna e individual de cada pessoa em relação ao gênero, podendo ou não corresponder ao sexo atribuído ao nascimento. Indivíduos transgêneros são aqueles cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo biológico atribuído. Essa incongruência pode gerar sofrimento psíquico denominado disforia de gênero, reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como uma condição que demanda atenção em saúde, mas não mais como transtorno mental (NUNES et al., 2021; OMS, 2024).
A população transgênero enfrenta barreiras significativas no acesso a serviços de saúde, incluindo discriminação, desconhecimento dos profissionais e ausência de protocolos específicos. Nesse cenário, a Política Nacional de Saúde Integral LGBT, criada pelo Ministério da Saúde em 2013, representou um marco ao garantir assistência integral, inclusive com a disponibilização de cirurgias de redesignação de gênero pelo Sistema Único de Saúde (Medeiros et al., 2022).
2.2 CIRURGIAS DE REDESIGNAÇÃO DE GÊNERO
As cirurgias de redesignação de gênero, também chamadas de cirurgias de afirmação de gênero, têm como finalidade alinhar características corporais à identidade de gênero do indivíduo. As cirurgias de feminilização incluem a neocolpovaginoplastia (criação de uma neovagina), a mamoplastia de aumento e procedimentos de feminização facial e cirurgias de masculinização incluem a mastectomia (remoção das mamas), a histerectomia, a faloplastia e a metoidioplastia (Murta; Cavalcante, 2020).
A histerectomia, a faloplastia e a metoidioplastia são procedimentos cirúrgicos comumente realizados em processos de redesignação de gênero. A histerectomia consiste na retirada do útero, enquanto a faloplastia envolve a construção ou reconstrução do pênis, e a metoidioplastia utiliza o aumento e remodelagem do clitóris para formar um órgão genital masculino. Esses procedimentos são complexos e demandam equipes especializadas, pois envolvem riscos como infecção, aderências cicatriciais, complicações respiratórias, dor crônica, alterações funcionais e impacto psicossocial (Hess et al., 2020).
2.3 COMPLICAÇÕES PÓS-OPERATÓRIAS E ALTERAÇÕES FUNCIONAIS
O período pós-operatório das cirurgias de redesignação sexual exige acompanhamento rigoroso e multiprofissional, considerando os diversos desafios que podem comprometer a recuperação integral da pessoa trans. Entre as principais complicações observadas estão o edema e a dor intensa, que afetam a mobilidade e a qualidade de vida, além de alterações respiratórias e circulatórias, especialmente em procedimentos de grande porte (Dominoni et al., 2025).
Disfunções urogenitais também são frequentes após a realização de neocolpovaginoplastia ou faloplastia, podendo manifestar-se por dificuldades miccionais e dor pélvica. Ademais, a formação de cicatrizes e aderências pode limitar a mobilidade tecidual e funcional, dificultando o retorno às atividades cotidianas (Ferrando et al., 2023).
Diante desse cenário, destaca-se a importância de uma abordagem interdisciplinar e humanizada, capaz de contemplar não apenas os aspectos físicos, mas também os emocionais e psicossociais do processo de recuperação. Alterações emocionais são comuns no pós-operatório, exigindo suporte psicológico e acompanhamento contínuo, enquanto a fisioterapia atua de forma essencial na prevenção de complicações e na restauração funcional. A atuação fisioterapêutica, por meio de técnicas específicas de reabilitação pélvica, favorece o controle da dor, a melhora da função muscular e a reintegração corporal, sendo considerada parte fundamental da assistência pós-cirúrgica a pessoas trans (Wpath, 2022; Hazin et al., 2021; Ferrando et al., 2023).
2.4 O PAPEL DA FISIOTERAPIA NO PÓS OPERATÓRIO
A fisioterapia exerce um papel fundamental no processo de recuperação pós-operatória das cirurgias de redesignação sexual, atuando em diferentes frentes que visam otimizar a função corporal e prevenir complicações. No controle da dor e do edema, técnicas como a drenagem linfática manual, a crioterapia e os exercícios leves auxiliam no alívio dos sintomas e favorecem o processo inicial de cicatrização (Silva et al., 2020).
Além disso, a fisioterapia contribui significativamente para a prevenção de complicações respiratórias e circulatórias, especialmente em pacientes submetidos a cirurgias de grande porte, por meio de exercícios respiratórios, mobilização precoce e cinesioterapia (Oliveira; Santos, 2022).
Outro aspecto relevante é a reabilitação pélvica, que desempenha papel essencial após a neocolpovaginoplastia, promovendo a funcionalidade do assoalho pélvico, a melhora da lubrificação e a prevenção de disfunções miccionais. Os recursos manuais e os exercícios terapêuticos também são fundamentais para prevenir aderências cicatriciais e recuperar a amplitude de movimento, especialmente em procedimentos como a mastectomia (Barbosa; Martins, 2020).
Além dos benefícios físicos, a fisioterapia contribui de maneira significativa para a melhora da qualidade de vida, atuando na promoção do bem-estar, no fortalecimento da autoestima e na reintegração social das pessoas trans, em conjunto com outras áreas da saúde (Nunes et al., 2021).
Apesar dos avanços, observa-se escassez de literatura específica sobre protocolos fisioterapêuticos direcionados a pessoas trans no pós-operatório. A maioria dos estudos concentra-se em relatos de caso ou revisões narrativas de pequena escala. Tal realidade reforça a necessidade de investigações mais robustas que permitam o desenvolvimento de protocolos baseados em evidências, garantindo atendimento eficaz, humanizado e inclusivo (Hess et al., 2018; Wpath, 2022).
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, realizada de acordo com as recomendações do PRISMA Statement 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), que fornece diretrizes para assegurar rigor metodológico, transparência e reprodutibilidade. Esse delineamento foi escolhido por permitir a identificação, síntese e análise crítica das evidências sobre a atuação da fisioterapia no pós-operatório de cirurgias de redesignação de gênero (Page et al., 2021). O protocolo foi registrado na PROSPERO. (https:// www.crd.york.ac.uk/prospero/) CRD420251230208.
A questão de pesquisa foi estruturada com base na estratégia PICO:
- P (Population/Paciente): pessoas submetidas a cirurgias de redesignação de gênero;
- I (Intervention/Intervenção): atuação da fisioterapia no período pós-operatório;
- C (Comparison/Comparação): ausência de fisioterapia ou comparação com outras modalidades de reabilitação;
- O (Outcome/Desfecho): resultados clínicos, funcionais e relacionados à qualidade de vida.
A busca bibliográfica foi conduzida entre julho e novembro de 2025, nas seguintes bases de dados: PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, PEDro, Cochrane Library e ScienceDirect.
Foram utilizados descritores em português, inglês, selecionados nos vocabulários DeCS e MeSH, combinados por operadores booleanos (AND, OR). Os principais termos foram: “fisioterapia” / “physiotherapy” / “rehabilitation”, “cirurgia de redesignação de gênero” / “gender-affirming surgery” / “sex reassignment surgery” e “pós-operatório” / “postoperative care”. Foram incluídos na presente revisão sistemática os artigos que atenderam aos seguintes critérios: estudos clínicos, incluindo ensaios clínicos, estudos observacionais e estudos piloto, além de revisões sistemáticas que abordassem a atuação fisioterapêutica no período pós-operatório de cirurgias de redesignação de gênero.
Foram considerados estudos que envolvessem intervenções voltadas ao controle da dor, mobilização precoce, reabilitação pélvica, prevenção de complicações e melhora funcional. Incluíram-se publicações redigidas nos idiomas português, inglês, publicadas entre os anos de 2020 e 2025, e que apresentassem disponibilidade de texto completo nas bases de dados selecionadas para a pesquisa.
Foram excluídos os estudos que apresentaram abordagem restrita a aspectos exclusivamente médicos, cirúrgicos ou psicológicos, sem relação direta com a fisioterapia. Também foram removidos da análise artigos duplicados em diferentes bases de dados, bem como publicações de opinião, editoriais, cartas ou resumos de eventos científicos que não apresentassem dados consistentes. Além disso, foram excluídos trabalhos que envolviam populações fora do escopo, ou seja, pacientes não submetidos a cirurgias de redesignação de gênero.
O processo metodológico desta revisão seguiu etapas sistematizadas e rigorosas, foram definidos os descritores e operadores booleanos com base nos vocabulários DeCS e MeSH, realizando-se a busca e a triagem dos estudos conforme as diretrizes do PRISMA 2020. Elaborou-se um fluxograma para representar o número de artigos identificados, excluídos e incluídos em cada fase. A extração dos dados foi padronizada em planilha do Microsoft Excel® 365, incluindo informações sobre autores, ano, intervenções fisioterapêuticas e desfechos clínicos e funcionais. A análise, fundamentada no modelo PICO, organizou as evidências segundo população, intervenção, comparadores e desfechos, e a síntese dos resultados foi apresentada de forma narrativa, com tabelas e fluxogramas que evidenciaram os principais achados, limitações e lacunas da literatura.
Os dados extraídos foram categorizados de acordo com os tipos de intervenção fisioterapêutica identificados, incluindo mobilização precoce, fisioterapia pélvica, controle da dor e prevenção de complicações. Também foram analisadas as principais complicações pós-operatórias abordadas nos estudos, o impacto funcional das intervenções, considerando aspectos como mobilidade, força muscular e capacidade de realizar atividades de vida diária e as contribuições para a qualidade de vida das pessoas trans no período de recuperação. As lacunas científicas identificadas foram igualmente descritas, permitindo observar os pontos ainda carentes de evidências consolidadas.
A síntese foi organizada em formato narrativo e apresentada em tabelas descritivas, complementada pelo fluxograma PRISMA 2020, garantindo clareza, padronização e objetividade na exposição dos resultados.
4. RESULTADOS
No início da busca, foram identificados 901 estudos nas bases de dados eletrônicas. Desses, 403 duplicados foram removidos, resultando em 498 estudos únicos. Após a triagem dos títulos e resumos, 220 estudos foram excluídos. Por conseguinte, 17 estudos foram selecionados para leitura integral, resultando na inclusão de 3 estudos ao término da análise, conforme apresentado na figura 1.
FIGURA 1 – DIAGRAMA PRISMA 2020 ADAPTADO

Figura 1. Fluxograma PRISMA. Razões para exclusão: (1) Tipo de publicação não elegível (revisões, capítulos de livros, cartas ao editor); (2) Intervenções sem relação com a fisioterapia no pós-operatório de cirurgias de redesignação de gênero; (3) Desfechos não relacionados à reabilitação funcional.
FONTE: Elaborado pelos autores (2025).
QUADRO 1 – AVALIAÇÃO E PROTOCOLOS FISIOTERAPÊUTICOS APLICADOS NO PÓS-OPERATÓRIO DE CIRURGIAS DE REDESIGNAÇÃO DE GÊNERO

Legenda: Avaliações e protocolos fisioterapêuticos aplicados no pós-operatório de cirurgias de redesignação de gênero apresenta os principais estudos encontrados na literatura, com identificação do autor e ano, tipo de estudo, amostra, métodos empregados e resultados observados, destacando as intervenções fisioterapêuticas voltadas à reabilitação e recuperação funcional no período pós-operatório.
5. DISCUSSÃO
O processo de readequação de gênero, por meio de cirurgias de afirmação, representa um marco importante para o bem-estar psicossocial das pessoas trans, mas envolve riscos pós-operatórios relevantes, como dor persistente, disfunções do assoalho pélvico, incontinência urinária, complicações cicatriciais e limitação funcional. Segundo Dominoni et al. (2025), entre as pessoas trans que se submetem a cirurgias de afirmação entre as pessoas trans que se submetem a cirurgias de afirmação, o prolapso de órgãos pélvicos pode ocorrer entre 1% e 7,5% dos casos, a incontinência urinária em até 15% e sintomas irritativos urinários em até 20%.
Os achados da literatura segundo Ferrando et al. (2023) demonstram que a fisioterapia aplicada precocemente pode auxiliar na prevenção de disfunções musculoesqueléticas e urinárias, especialmente no fortalecimento do assoalho pélvico e no controle da dor. O FLOWER Trial, estudo randomizado que investigou a fisioterapia do assoalho pélvico no pós-operatório de vaginoplastia, incluiu 41 voluntárias, das quais 37 completaram 12 semanas de acompanhamento, sendo 20 no grupo de fisioterapia e 17 no controle. Após 12 semanas, o comprimento vaginal médio foi de 12,5 cm (variando entre 10 e 16 cm), a média de facilidade de dilatação foi de 7,3 ± 1,6 (em uma escala de 0 a 10) e a média de dor durante a dilatação foi de 2,4 ± 1,7. Embora os resultados não tenham atingido significância estatística, o estudo evidenciou tendência positiva para ganhos funcionais e melhor adesão ao processo de dilatação, o que reforça a necessidade de protocolos mais longos e acompanhamentos de médio e longo prazo.
Por outro lado, Dominoni et al. (2025) constataram, por meio de revisões recentes, que entre as pessoas trans que se submetem a cirurgias de afirmação de gênero, as taxas de disfunção sexual podem variar de 25% a 75% em mulheres trans após vaginoplastia e até 54% em homens trans submetidos a faloplastia, destacando que a reabilitação fisioterapêutica tem potencial para reduzir parte dessas complicações. Da mesma forma, Jakse et al. (2022) relataram dor, estenose vaginal e incontinência como queixas recorrentes no pós-operatório dessas cirurgias, ressaltando que a fisioterapia é pouco abordada nos protocolos clínicos e raramente aparece como intervenção padronizada nos estudos
Da mesma forma, Santos et al. (2023) realizaram um estudo com os recursos mais utilizados nos quais foram terapia de dilatação vaginal, cinesioterapia, biofeedback, técnicas de dessensibilização da área cirúrgica, terapia manual e educação em saúde. As autoras observaram que as mulheres trans que receberam acompanhamento fisioterapêutico apresentaram menor incidência de disfunções pós-operatórias em comparação aos padrões relatados na literatura, incluindo redução de dor, estenose vaginal e limitação funcional. Apesar do número limitado de estudos e da heterogeneidade dos protocolos, o trabalho reforça que a fisioterapia voltada para o assoalho pélvico constitui uma intervenção promissora no pós-operatório de cirurgias de afirmação de gênero, contribuindo para prevenção de complicações urinárias, sexuais e cicatriciais, além de favorecer a adesão às estratégias de reabilitação.
Casos individuais, como o relatado por Hazin et al. (2021), reforçam que a fisioterapia pode gerar benefícios funcionais e melhora da mobilidade local. Contudo, a baixa robustez metodológica e a heterogeneidade dos protocolos dificultam a generalização dos resultados. Essa fragilidade metodológica é uma limitação comum, uma vez que ensaios clínicos randomizados ainda são escassos e muitas publicações trazem amostras pequenas e acompanhamento de curta duração.
Outro aspecto relevante, segundo Lima et al. (2022), é que a adesão ao tratamento influencia diretamente os resultados, e os estudos apontam que pacientes com maior engajamento em programas de fisioterapia estruturados apresentam recuperação funcional mais rápida e melhor percepção corporal, impactando também positivamente a saúde mental e a reinserção social. Assim, reforça-se a importância do acompanhamento contínuo e da orientação domiciliar como estratégias para potencializar os efeitos da reabilitação.
Em síntese, os achados desta revisão demonstram que, embora a literatura ainda seja incipiente e heterogênea, há evidências crescentes de que a fisioterapia exerce papel central na recuperação pós-operatória de cirurgias de redesignação de gênero. Tais dados reforçam que a fisioterapia é uma ferramenta essencial não apenas para o controle da dor e a melhora da função muscular, mas também para a prevenção de complicações pélvicas e cicatriciais e para o suporte psicossocial no processo de reabilitação integral.
6. CONCLUSÃO
A fisioterapia é uma intervenção essencial no período pós-operatório de cirurgias de redesignação de gênero, contribuindo de forma significativa para o controle da dor, melhora da mobilidade, fortalecimento muscular, prevenção de complicações do assoalho pélvico e otimização da função global. Além disso, há indícios de que o acompanhamento fisioterapêutico impacta positivamente na autoestima, na saúde mental e na qualidade de vida de pessoas trans em processo de readequação.
Os resultados também demonstram que a adesão contínua a programas de reabilitação, quando associada a protocolos individualizados, potencializa os ganhos funcionais e favorece a reintegração social. Entretanto, persistem limitações importantes na literatura, como amostras pequenas, ausência de padronização das intervenções e acompanhamento de curto prazo, o que restringe a generalização dos achados.
Dessa forma, recomenda-se que futuras pesquisas sejam direcionadas para ensaios clínicos randomizados e estudos longitudinais, com protocolos padronizados e amostras mais robustas. Isso permitirá consolidar a fisioterapia como componente indispensável do cuidado multidisciplinar e precoce, garantindo maior segurança e eficácia na reabilitação pós-operatória de pacientes transgênero.
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1Discentes do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade da Amazônia, campus Gentil e-mail: maycarolina34@gmail.com
2Docente do Curso Superior Fisioterapia da Universidade da Amazônia, Campus Gentil. Mestranda em Reabilitação e Desempenho funcional em Universidade do Estado do Pará (PPGREAB/UEPA). e-mail: carla.leao@aluno.uepa.br
3ferreira.natalli@gmail.com
4Cmatheusalvesdesouza@gmail.com
5Rubiaazulai18@gmail.com
6anapri_pinheiro@yahoo.com.br
7carolinasenaa21@gmail.com
8Mayarajorgemoraes@gmail.com
