REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511231056
Ariele Ferreira Alves Pontes
Naelí Alexandre Severo
Orientadora: Profa. Natali dos Santos Dias
Coorientadora: Profa. Amanda Maria Santiago de Mello
RESUMO
Com base em estudos recentes, verifica-se que a estrutura demográfica mundial tem passado por mudanças significativas nos últimos anos, e dessa forma, as doenças relacionadas à idade avançada têm se tornado mais presentes. Dentre elas, a Doença de Alzheimer (DA) caracteriza-se como um distúrbio neurodegenerativo progressivo, que afeta habilidades cognitivas e funcionais. Nesse contexto, a dupla tarefa (DT) surge como estratégia para estimular, de forma integrada, as funções prejudicadas desses pacientes. Dessa maneira, o objetivo deste estudo foi investigar os efeitos da intervenção fisioterapêutica com base em condutas de DT na cognição e funcionalidade de indivíduos com DA. Para isso, foi desenvolvida uma revisão narrativa da literatura, na qual a busca de artigos ocorreu no dia 01 de agosto de 2025, nas bases de dados PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Physiotherapy Evidence Database (PEDro). A partir disso, a revisão incluiu 10 artigos sobre DT em idosos com DA. Constata-se, com base nos estudos analisados, que os exercícios de DT possuem efeitos favoráveis à cognição e funcionalidade, melhorando a mobilidade, equilíbrio e planejamento. Sendo uma técnica favorável no aprimoramento das atividades de multitarefas e em um padrão locomotor mais seguro. Os resultados demonstraram melhora nas funções executivas, aumentando a capacidade de realizar atividades cotidianas bem como instrumentais, proporcionando benefícios na autonomia e em aspectos da vida social. Dessa forma, os fatos evidenciados afirmam que a fisioterapia, através do treinamento baseado em DT, representa uma estratégia eficaz e promissora na reabilitação de pacientes com DA. Devolvendo autonomia e qualidade de vida a esses indivíduos, a técnica promove ganhos significativos na marcha, força, equilíbrio e funções cognitivas. No entanto, a descrição dos exercícios e estudos mais embasados se mostram ainda necessários em futuras obras e pesquisas.
Palavras-chave: Reabilitação; multitarefa; Cognitivo-motor
ABSTRACT
Based on recent studies, it is verified that the world demographic structure has undergone significant changes in recent years, and thus, diseases related to advanced age have become more present. Among them, Alzheimer’s Disease (AD) is characterized as a progressive neurodegenerative disorder, that affects cognitive and functional skills. In this context, the dual task (DT) arises as a strategy to stimulate, in an integrated way, the impaired functions of this patient. Thus, the objective of this study was to investigate the effects of physiotherapeutic intervention based on DT conducts on the cognition and functionality of individuals with AD. For this purpose, a narrative review of the literature was developed, in which the search for articles occurred on August 1, 2025, in the following databases: PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Virtual Health Library (BVS), Latin American and Caribbean Literature in Health Sciences (LILACS) and Physiotherapy Evidence Database (PEDro). The review included 10 articles on DT in elderly people with AD. It is found, from the studies, that DT exercises have favorable effects on cognition and functionality, improving mobility, balance and planning. Being a favorable technique in the improvement of multitasking activities and in a safer locomotor pattern. The results showed improvement in executive functions, increasing the ability to perform daily as well as instrumental activities, providing benefits in autonomy and aspects of social life. Therefore, the evidenced facts state that physiotherapy, through DT-based training, represents an effective and promising strategy in the rehabilitation of patients with AD. Returning autonomy and quality of life to these individuals, the technique promotes significant gains in gait, strength, balance and cognitive functions. However, the description of the most well-based exercises and studies are still necessary in future works and research.
Keywords: Rehabilitation; Multitasking; Cognitive-motor.
INTRODUÇÃO
A estrutura demográfica mundial tem passado por mudanças significativas nos últimos anos, caracterizando-se pelo aumento progressivo da população idosa. Com uma maior longevidade, as doenças relacionadas à idade avançada têm se tornado cada vez mais presentes, dentre elas, a demência se destaca como a patologia neurológica mais comum. Entre as várias formas de demência, a Doença de Alzheimer (DA) é considerada uma das principais causas, sendo definida como um distúrbio neurodegenerativo, progressivo e irreversível (Twarowski e Herbet, 2023; Khan, Barve e Kumar, 2020).
A DA é caracterizada pelo acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro. Os principais marcadores dessa patologia são a formação de placas neuríticas, originadas pelo acúmulo do depósito extracelular da proteína beta-amilóide (Aβ), e os emaranhados neurofibrilares, formados por filamentos anormais da proteína tau hiperfosforilada. Esses processos desencadeiam a perda das conexões axonais e, consequentemente, a degeneração do tecido cerebral (Breijyeh e Karaman, 2020).
Os fatores de risco para a DA estão relacionados, sobretudo, a aspectos genéticos, quando se dá por um início precoce antes dos 65 anos associados a mutações dos genes, e a fatores ambientais, na sua forma esporádica, com início tardio. De acordo com Schilling e colaboradores (2022), os sintomas mais característicos da doença surgem inicialmente com o comprometimento da memória, seguidos por alterações cognitivas leves, que progressivamente afetam a linguagem e as funções executivas, comprometendo a funcionalidade e as atividades básicas da vida diária (AVD’s) de forma progressiva.
A doença afeta habilidades cognitivas e funcionais, e na forma de demência leve o indivíduo apresenta dificuldade em planejamento, resolução de problemas, dificuldade em realizar multitarefas e desorientação temporoespacial. Na DA moderada o paciente apresenta as atividades instrumentais da vida diária (AIVD’s) afetadas, afasia sensorial transcortical, apraxia ideomotora, delírios e alucinações com ou sem agressividade. Já em sua forma grave a pessoa se torna totalmente dependente, com alteração na marcha, na fala, memória e orientação (Schilling et al., 2022).
Em situações habituais, o cérebro humano é capaz de desenvolver atividades em dupla tarefa constantemente. No entanto, em condições patológicas, especialmente neurológicas, bem como no processo de envelhecimento, o desempenho nessas tarefas múltiplas tende a diminuir. Atualmente condutas baseadas em dupla tarefa, protocolo com ações motoras (geralmente uma tarefa primária) associadas aos processos cognitivos (geralmente uma tarefa secundária), executadas simultaneamente, vêm se tornando uma estratégia para estimular, de maneira integrada, as capacidades físicas e cognitivas (Varela-Vásquez, Minobes-Molina e Jerez-Roig, 2020; Castro et al., 2023; Longhurst et al., 2022).
Constata-se, a partir de estudos recentes, que exercícios de dupla tarefa possuem efeitos favoráveis à cognição, habilidades de automatização e transferência de aprendizado. De fato, um plano de tratamento com ênfase na cognição concomitantemente à atividade física se torna capaz de melhorar a mobilidade, equilíbrio e planejamento. Sendo uma técnica favorável na redução do índice de quedas, aprimoramento nas atividades de multitarefas e em um padrão locomotor mais seguro (Orcioli-Silva, et al., 2018; Mendel, Barbosa e Sasaki, 2015).
Diante dos fatos, destaca-se a importância da atuação fisioterapêutica não apenas no desempenho motor dos pacientes com distúrbios neurológicos, sobretudo com DA, mas também nas funções cognitivas, a fim de promover maior funcionalidade e automaticidade. Sendo assim, a pesquisa tem como objetivo responder a seguinte pergunta norteadora: quais são os efeitos relatados na literatura científica do tratamento fisioterapêutico, através de condutas com dupla tarefa, na cognição e funcionalidade do paciente com DA?
OBJETIVOS
Objetivo geral
Investigar os efeitos da intervenção fisioterapêutica baseada em condutas de dupla tarefa na cognição e funcionalidade de indivíduos com doença de Alzheimer.
Objetivos específicos
Levantar e analisar evidências científicas sobre as características das intervenções fisioterapêuticas baseadas em dupla tarefa em pacientes com Doença de Alzheimer.
Identificar e discutir os principais desfechos cognitivos e funcionais observados nas pesquisas sobre dupla tarefa em indivíduos com Doença de Alzheimer.
Apontar as potencialidades e limitações relatadas na literatura quanto ao uso da dupla tarefa como recurso fisioterapêutico na Doença de Alzheimer.
METODOLOGIA
O estudo trata-se de uma revisão narrativa da literatura, na qual a busca de artigos ocorreu no dia 01 de agosto de 2025, nas bases de dados PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Physiotherapy Evidence Database (PEDro). Foram utilizados os termos em inglês “dual task training” (treinamento de dupla tarefa) associado aos descritores: Alzheimer Disease (Doença de Alzheimer), Physiotherapy (fisioterapia) e rehabilitation (reabilitação), localizados na lista dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e no Medical Subject Headings (MeSH). Para o cruzamento dos termos utilizou-se o operador booleano AND.
A pesquisa contou com cinco bases de dados, empregando chaves de busca específicas para cada uma. Na PubMed, a busca foi conduzida por meio dos termos (rehabilitation[MeSH Terms]) AND (modality, physical therapy[MeSH Terms]) AND (alzheimer disease[MeSH Terms]) AND (dual task training). A base LILACS utilizou a chave de busca: (rehabilitation) AND (physical therapy) AND (alzheimer disease) AND (dual task training). Já as bases SciELO, BVS e PEDro aplicaram a mesma chave: (alzheimer disease) AND (dual task).
O processo de triagem dos estudos foi realizado em três etapas: primeiramente, pela leitura dos títulos, com a exclusão imediata dos que não apresentavam relação com o tema proposto. Nessa fase foram incluídos aqueles que abordavam a técnica da DT na DA ou em distúrbios neurológicos. Em seguida, por meio da leitura dos resumos, foram descartados os estudos que tratavam da DT em distúrbios neurológicos, mas que não apresentavam nenhuma abordagem ou menção à DA. Assim, permaneceram apenas aqueles que, mesmo abordando outras condições neurológicas, incluíam a DA entre os grupos estudados ou faziam referência a ela em seus resultados e discussões. Depois, os artigos que permaneceram passaram pela leitura completa, sendo incluídos os estudos disponíveis na íntegra e descartados aqueles que não usavam a DT como tratamento para a DA, mas apenas como forma de triagem ou avaliação, assim como os que não traziam contribuições pertinentes à proposta do trabalho.
RESULTADOS
Após a busca utilizando as combinações de descritores previamente definidos, realizada nas bases de dados, foram identificados 44 artigos, sendo 6 provenientes da PubMed, 4 da SciELO, 20 da BVS, 5 da LILACS e 9 da PEDro. Desses, 10 foram removidos por duplicidade, restando 34 para a triagem inicial. Nessa etapa, os títulos e resumos foram analisados, resultando na exclusão de 14 artigos por não se enquadrarem nos critérios de inclusão, de modo que 20 artigos seguiram para avaliação mais detalhada.
Na fase de elegibilidade, constatou-se que apenas 19 artigos estavam disponíveis em sua versão completa. Após a leitura dos textos na íntegra, 9 estudos foram excluídos por não se enquadrarem nos critérios estabelecidos. Assim, ao final do processo, 10 artigos preencheram os critérios de elegibilidade, foram incluídos e formaram a amostra final da presente revisão, conforme demonstrado no seguinte fluxograma (Figura 1).
Figura 1 – Fluxograma do processo de busca dos artigos

Fonte: Elaborado pelas autoras (2025)
A partir dos artigos selecionados, foi realizada uma síntese descritiva das principais características metodológicas e amostrais que compõem esta revisão. Observou-se que esses trabalhos apresentam variações quanto ao delineamento e a população analisada. A média de idade dos participantes variou aproximadamente entre 60 e 79 anos, e o tamanho das amostras oscilou de 10 a 210 indivíduos. Quanto ao tipo de estudo, o conjunto de artigos analisados compreendeu ensaio quase-experimental, estudo longitudinal quase-experimental, ensaio controlado não randomizado, ensaio clínico randomizado, revisão sistemática e revisão da literatura.
Para melhor organização e compreensão dos achados, elaborou-se o Quadro 1, que reúne informações essenciais de cada estudo selecionado, como autores, ano de publicação, amostra, objetivo, intervenções aplicadas e principais resultados/conclusões.
Quadro 1 – Caracterização dos estudos incluídos na revisão narrativa
| AUTOR/ANO | AMOSTRA | OBJETIVO | INTERVENÇÃO | PRINCIPAIS RESULTADOS |
| Pedroso et al. 2012. | 21 idosos com DA: 10 no grupo de intervenção (GI) e 11 no grupo controle (GC). | Analisar os efeitos de um programa de atividade física com tarefas cognitivas sobre as funções executivas, equilíbrio e quedas de pacientes com Alzheimer. | GI: exercícios de coordenação, resistência, flexibilidade, equilíbrio e agilidade combinados com tarefas cognitivas (criação de palavras e respostas a estímulos), 60 min, 3 vezes por semana por 4 meses. GC: sem intervenção. | O GI apresentou melhora significativa nas funções cognitivas globais, funções executivas e equilíbrio, quando comparado ao grupo GC. Houve correlação positiva entre funções executivas e equilíbrio nos testes aplicados. |
| Coelho et al., 2013. | 27 pacientes com DA leve e moderada: 14 no grupo de intervenção (GI) e 13 no grupo controle (GC). | Investigar o efeito de uma intervenção de exercício multimodal nas funções cognitivas frontais e nos parâmetros cinemáticos da marcha em pacientes com doença de Alzheimer. | Programa PRO-CDA: sessões de 1h, 3 vezes por semana por 16 semanas, com exercícios multimodais (força, aeróbico, flexibilidade, equilíbrio e agilidade) associados a tarefas cognitivas simultâneas (atenção, memória, sequenciamento motor e linguagem). | Após 16 semanas, o grupo de treinamento apresentou melhora significativa nas funções frontais e no desempenho da marcha (menor números de erros em dupla tarefa e tendência à maior comprimento da passada), em comparação ao grupo de controle. |
| Cezar; Ansai; Andrade (2020). | Ensaio clínico com 40 idosos com DA leve e moderada: 20 no grupo de intervenção (GI) e 20 no grupo controle (GC). | Determinar os efeitos de um programa de exercícios multimodais domiciliares em pessoas idosas com DA sobre força muscular, equilíbrio, funcionalidade, cognição, desempenho em tarefas duplas, fragilidade e nível de atividade física. | GI: Programa domiciliar de exercícios multimodais (força, equilíbrio, resistência aeróbica e tarefas cognitivas) para idosos com Alzheimer, com sessões individuais de 60 minutos, 3x/semana, durante 16 semanas, incluindo aquecimento, exercícios funcionais inspirados em atividades da vida diária e desaquecimento com alongamento. GC: Não recebeu intervenção. | Os dados demonstram que essa intervenção é uma estratégia importante para idosos com DA, podendo melhorar aspectos físicos, cognitivos, emocionais e funcionais, reduzir a dependência de cuidadores, diminuir a mortalidade, e fornecer dados que podem orientar intervenções médicas e políticas públicas, contribuindo para otimização dos recursos em saúde. |
| Andrade et al. 2013. | 30 idosos com DA: GI: 14 no grupo de intervenção (GI) e 16 no grupo controle (GC). | Verificar os efeitos de um programa sistematizado deintervenção com exercícios multimodais sobre componentes da funçãocognitiva frontal, controle postural e capacidade funcional de indivíduoscom doença de Alzheimer (DA). | A intervenção consistiu em um programa de 16 semanas, realizado três vezes por semana, com sessões de 60 minutos compostas por 5 minutos de aquecimento, 20 minutos de exercício aeróbico e 35 minutos de atividades de dupla tarefa envolvendo exercícios motores (força, flexibilidade, equilíbrio e agilidade) associados a tarefas cognitivas (atenção, linguagem e funções executivas). | O programa de exercícios multimodais por 4 meses resultou em melhora significativa das funções cognitivas frontais (atenção, linguagem, abstração e orientação), do controle postural (redução da oscilação corporal), da força de membros inferiores, da flexibilidade e do equilíbrio dinâmico, sem diferenças no tempo do TUG, na Escala de Equilíbrio de Berg e no número de quedas. |
| Ferreira et al., 2017. | Estudo quase-experimental com abordagem quantitativa. 19 idosos com DA leve e moderada: 11 no grupo de intervenção (GI) e 8 no grupo controle (GC). | Avaliar os efeitos do treinamento físico multimodal de dupla tarefa nas funções cognitivas e na força muscular de idosos com DA. | Protocolo de dupla tarefa, 3 vezes por semana, 1h por sessão, por 12 semanas. Incluiu exercícios aeróbicos, força, equilíbrio e agilidade, com progressão semanal e inserção de tarefas cognitivas a partir da 7ª semana. | O GI apresentou melhora significativa na função executiva e tendência de melhora na função cognitiva global, sem alterações no teste de desenho do relógio. Em relação a força, houve um aumento significativo na força de MMII, sem mudanças na força de preensão manual. |
| Siqueira et al., 2019. | Revisão sistemática: 4 estudos incluídos. | Revisarde forma sistemática a literatura atual para sumarizar oefeito de intervenções com dupla tarefa sobre sintomas da DA. | Treinamento de dupla tarefa com atividades motora, cognitiva e cognitivo-motora, realizadas junto com a marcha. Foram usadas tarefas como exercícios de atenção, atividades executivas e práticas funcionais do dia a dia. | Conclui-se que o exercício de dupla tarefa pode reduzir perdas motoras e cognitivas em idosos com DA, mas são necessárias mais pesquisas para definir protocolos padronizados. |
| Orocioli-Silva et al., 2018. | 34 idosos: 12 no grupo de treinamento 11 no grupo controle com DA e 11 saudáveis. | Identificar os efeitos doenvelhecimento e da DA nos parâmetros da marcha e investigar os efeitos de um programa deatividade física, com ênfase nos componentes cognitivos da marcha, durantetarefas simples e duplas em pessoas com DA. | Exercícios multimodais com dupla tarefa, combinando atividades físicas (força, aeróbico, flexibilidade, equilíbrio) e cognitivas (atenção, planejamento, memória), realizados 1h, 3 vezes por semana, durante 16 semanas, com aumento progressivo de dificuldade física e cognitiva. | O grupo de intervenção demonstrou melhora nos parâmetros da marcha (comprimento, duração, velocidade e cadência de passada), mas não houve melhora no desempenho cognitivo. |
| Mendel; Barbosa; Sasaki (2015). | Revisão de literatura: 9 artigos incluídos. | Discutir as possibilidades de utilização da dupla tarefa no âmbito da reabilitação de pacientes neurológicos. | Treinamento de dupla tarefa combinando tarefas motoras e cognitivas durante a marcha. Incluiu atividades com bolas (chutar, arremessar, manipular), uso de objetos (copos, raquete) e tarefas cognitivas como contas matemáticas e fluência verbal. | Concluiu-se que o treinamento de dupla tarefa mostrou efeitos positivos na marcha, cognição, habilidades de automatização, sugerindo benefícios para programas de reabilitação neurológica. Ainda não há protocolos padronizados, devendo a intervenção ser adaptada às evidências disponíveis e às necessidades do paciente. |
| Fritz, Cheek e Nichols-Larsen (2015) | Revisão sistemática: 14 artigos incluídos. | Examinar a literatura para determinar a eficácia da dupla tarefa na mobilidade e cognição em comparação com o tratamento usual em indivíduos com distúrbios neurológicos. | Treinamento de dupla tarefa motora e cognitiva em diferentes protocolos, combinando exercícios motores (caminhada, manipulação de bolas e objetos) e cognitivos (atenção, memória, Stroop, cálculos). | A revisão conclui que o treinamento em dupla tarefa pode melhorar parâmetros de marcha em indivíduos com Parkinson, Alzheimer e lesão cerebral, além de um impacto modesto no equilíbrio e na cognição. No entanto, há generalização dos protocolos, sendo necessárias mais pesquisas. |
| Parvin et al., 2020. | 26 pacientes com demência leve por DA, capazes de caminhar de forma independente: 13 no grupo de intervenção e 13 no grupo controle. | Investigar os efeitos do treinamento combinado com estimulação visual na razão teta/alfa, bem como na saúde cognitiva e física de pacientes com DA. Além disso, explorar as correlações entre desempenho cognitivo e desempenho físico, bem como oscilações cerebrais. | GI: Treinamento de 12 semanas, 2 vezes por semana, 40-60 minutos por sessão. Incluiu exercícios físicos (resistência, equilíbrio, aeróbico) combinados com atividades cognitivas (como tarefas com olhos fechados, identificação de sons e resposta a luzes coloridas). O protocolo tinha cinco partes progressivas, aumentando intensidade e complexidade a cada 3 ou sessões. | GI: apresentou melhorias significativas na cognição global, atenção, memória de trabalho e função executiva/espacial, além de redução dos sintomas depressivos. Houve também avanço no desempenho físico, (caminhada de 6 minutos, força muscular, preensão manual e testes funcionais) e aumento da ativação cortical. GC: não apresentou mudanças significativas. |
PRO-CDA=Programa de Cinesioterapia Funcional e Cognitiva em idosos com Doença de Alzheimer; MEEM=Mini Exame do Estado Mental; CDT= Clock Drawing Test; FAB=Bateria de Avaliação Frontal.
Fonte: elaborado pelas autoras (2025).
DISCUSSÃO
Em relação ao desempenho cognitivo, grande parte dos estudos analisados apontaram benefícios da DT, sobretudo nas funções executivas, que dizem respeito às habilidades envolvidas no planejamento, iniciação, sequenciamento, monitoramento, organização de tarefas, memória de trabalho, pensamento abstrato e atenção dividida (Andrade et al., 2013; Pedroso et al., 2012; Siqueira et al., 2019; Ferreira et al. 2017). Pedroso e companheiros (2012) observaram que idosos com DA apresentaram melhora significativa tanto nessas funções, avaliadas pela Bateria de Avaliação Frontal (FAB) e pelo Clock Drawing Test (CDT) ou teste de desenho do relógio, quanto nas funções cognitivas globais, verificadas pelo Mini Exame de Estado Mental (MEEM). Constataram também relação significativa entre funções executivas e equilíbrio, indicando que esses ganhos podem refletir em maior estabilidade postural e menor risco de quedas.
De forma semelhante, Coelho e colaboradores (2013) também relataram que os idosos submetidos à DT apresentaram melhora nas funções cognitivas frontais, avaliadas por meio da FAB, do CDT e do Teste de Símbolos, em comparação ao grupo controle (GC). Com isso, houve recuperação significativa em aspectos como abstração, organização, sequenciamento motor, comportamento, autocontrole e atenção. De maneira oposta, o GC demonstrou piora, particularmente no planejamento, organização e sequenciamento motor. Esses resultados evidenciam que a DT pode contribuir para retardar a progressão do declínio cognitivo característico da DA, promovendo ganhos que ultrapassam o desempenho físico e repercutem na autonomia do paciente.
Em consonância com esses achados, Ferreira e colegas (2017) também evidenciaram ganhos nas funções executivas e tendência de melhora no MEEM. Enquanto Parvin e demais autores (2020) relataram benefícios na cognição global, atenção, memória de curto prazo, funções executivas e memória de trabalho ao aplicarem um protocolo combinado, incluindo exercício físico (resistência muscular, equilíbrio e capacidade aeróbica) e atividades cerebrais simples com os olhos fechados. Em concordância, Andrade e contribuintes (2013) observaram evolução na atenção, linguagem, abstração e orientação. Seguindo essas perspectivas, Cezar, Ansai e Andrade (2020) indicaram protocolos multimodais de exercícios aeróbicos, de força e equilíbrio que podem aprimorar as funções globais (aspectos físicos, cognitivos e emocionais), favorecendo a independência funcional.
Diante dos achados, os efeitos positivos apontados nas funções cognitivas resultaram em aumento da capacidade de autocuidado e de realizar tarefas instrumentais e de vida diária, fato que proporciona independência e interfere diretamente em aspectos na vida social do paciente. Em contraponto, Orocioli-Silva e companheiros (2018), ao investigarem os efeitos de um programa de atividade física com ênfase nos componentes cognitivos da marcha, no período de quatro meses, verificaram realocação da atenção para a atividade da caminhada. Evidenciando assim resultados positivos para o componente locomotor sem impacto significativo no desempenho cognitivo, medido pela tarefa de contagem regressiva de números.
Somado aos estudos experimentais e ensaios clínicos, as revisões sobre a técnica também confirmam benefícios nas funções cognitivas de idosos com DA. Siqueira e coautores (2019) concluíram que a DT pode ajudar a reduzir perdas cognitivas e motoras. Seguindo esse raciocínio, Mendel, Barbosa e Sasaki (2015) observaram efeitos positivos na cognição, habilidades de automatização e transferência de aprendizado. Em concordância, Fritz, Cheek e Nichols-Larsen (2015) demonstraram que a DT pode impactar de forma positiva não apenas na DA, mas também em outros distúrbios neurológicos, como a Doença de Parkinson e a lesão cerebral. Esses resultados reforçam o potencial dessa abordagem como uma estratégia terapêutica capaz de favorecer a cognição em diferentes condições neurológicas.
Além dos benefícios cognitivos, os estudos indicam que a DT também melhora a função motora, incluindo força, equilíbrio e marcha em idosos com DA. Os achados apontam que o grupo de intervenção (GI) obteve melhora no comprimento da passada, duração, velocidade e cadência em comparação ao GC, aumentando a estabilidade da marcha, área de deslocamento e mobilidade dos pacientes (Orocioli-Silva et. al., 2018; Mendel, Barbosa e Sasaki, 2015; Fritz, Cheek e Nichols-Larsen, 2015). De uma forma semelhante, Coelho e demais autores (2013) também relataram resultados equivalentes quanto ao comprimento da passada, reforçando os achados anteriores e, adicionalmente, identificaram redução de erros na contagem regressiva de números. Complementando tais evidências, Cezar, Ansai e Andrade (2020) afirmaram que o treinamento com DT pode levar a melhorias significativas nos aspectos físicos em idosos brasileiros com DA, reduzindo a dependência de um cuidador.
Corroborando com os resultados, as pesquisas afirmam que a intervenção baseada em DT promoveu ganho de força muscular, especialmente em membros inferiores, manutenção da massa muscular, melhora do equilíbrio e redução da oscilação postural, contribuindo para a mobilidade, marcha, independência e autonomia de pacientes com DA (Ferreira et al., 2017; Parvin et al., 2020; Andrade et al., 2013; Fritz et al., 2015). Segundo Fritz e companheiros (2015), quanto à execução da DT, indivíduos com DA demonstraram redução significativa no custo de tarefa dupla1. Esse achado sugere maior eficiência na realização simultânea de atividades motoras e cognitivas, reforçando o benefício da intervenção na melhoria do desempenho funcional desses pacientes.
Quanto às limitações, os estudos destacam como principais o número pequeno de participantes e as dificuldades em manter a adesão dos idosos com DA ao programa. Além disso, não há consenso sobre quais tarefas são mais adequadas, indicando a necessidade de estudos futuros com maior rigor metodológico e padronização dos protocolos envolvidos no programa de intervenção. Ademais, apontam a ausência de cuidadores e familiares, que nem sempre estavam disponíveis para levar o idoso ao local do estudo ou ajudar nas avaliações. Outro aspecto mencionado é a falta de randomização, que limita a generalização dos achados. (Silva et al., 2018; Parvin et al., 2020; Ferreira et al., 2017).
Complementando essa discussão, Parvin e demais autores (2020) relataram entraves relacionados ao contexto da pandemia de COVID 19, que afetou o pós-teste e a presença dos pacientes. Além da ausência de recursos de EEG (eletroencefalografia) quantitativo, impedindo uma análise mais detalhada das mudanças cerebrais. Andrade e contribuintes (2013) destacaram a dificuldade de mensurar múltiplos fatores que poderiam impactar o desempenho, como equilíbrio e capacidade funcional, devido ao pequeno tamanho da amostra e à ausência de um grupo controle ativo comparativo. Na mesma direção, ambas revisões apontam fragilidades importantes, entre elas o pequeno número de estudos disponíveis, o tamanho reduzido das amostras, a variabilidade dos protocolos e testes utilizados. (Mendel; Barbosa; Sasaki, 2015; Siqueira et al., 2019).
CONCLUSÃO
Considerando o contexto crescente de desafios impostos pela DA, abordagens terapêuticas promissoras como a fisioterapia baseada em DT vêm demonstrando resultados positivos na cognição e funcionalidade dos pacientes afetados. A partir das análises realizadas, observou-se que tais intervenções caracterizam-se por combinações de estímulos motores e cognitivos, capazes de promover melhora das funções executivas, atenção, memória de trabalho e cognição global, além de contribuir para ganhos em força muscular, equilíbrio, parâmetros da marcha e realização das AVD’s.
Nesse contexto, ao analisar as estratégias de intervenções adotadas pelas pesquisas incluídas, identificou-se uma tendência quanto ao formato. Apesar das variações entre os tipos de exercícios aplicados, os estudos utilizaram a atividade motora como principal, destacando-se quicar a bola, caminhada e exercício com peso; e a cognitiva como secundária, geralmente envolvendo a evocação de palavras por critério semântico (nome de animais, frutas, pessoas, flores e figuras). Esse formato demonstra a integração entre estímulos motores e cognitivos favorecendo respostas mais abrangentes e desempenho imediato, contribuindo em aspectos funcionais para os pacientes.
De modo geral, a partir das estratégias identificadas, os achados permitem destacar que além de aprimorar a cognição e o desempenho físico, a técnica também tem um impacto importante na qualidade de vida, desempenho social, e diminuição da sobrecarga de cuidadores dessa população, através da independência funcional, autonomia e redução do risco de quedas. Por outro lado, constatou-se que apesar dos resultados favoráveis, notou-se ainda uma quantidade reduzida de estudos sobre esse tema, o que limita o fortalecimento das evidências. Diante disso, é urgente que novas pesquisas sejam realizadas para consolidar os benefícios da dupla tarefa, garantindo que ela seja incorporada de maneira eficaz no tratamento da DA, com base em evidências robustas e protocolos bem estabelecidos.
1Determina o efeito específico da tarefa secundária na tarefa primária de caminhar, sendo calculado como custo de tarefa dupla – Dual Task Cost (DTC) = [(dupla tarefa – tarefa simples) / tarefa simples] * 100
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