FATORES PREDISPONENTES DE SOBRECARGA EM CUIDADORES DE PACIENTES IDOSOS PORTADORES DA DOENÇA DE ALZHEIMER: REVISÃO INTEGRATIVA

PREDISPOSING FACTORS FOR BURDEN IN CAREGIVERS OF ELDERLY PATIENTS WITH ALZHEIMER’S DISEASE: INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/th102502181231


Felipe Rodrigues Cardoso [1]
Patrick Leonardo Nogueira da Silva [2]
Claudio Luís de Souza Santos [3]
Ana Izabel de Oliveira Neta [4]
Valdira Vieira de Oliveira [5]
Ingred Gimenes Cassimiro de Freitas [6]
Rosana Franciele Botelho Ruas [7]
Carolina dos Reis Alves [8]


Resumo

A Doença de Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo que se manifesta pela deterioração da cognição e da memória, comprometimento progressivo das atividades de vida diária e uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos e de alterações comportamentais. A progressão da doença aumenta a demanda de cuidados assistenciais, bem como a dependência do idoso e a sobrecarga do cuidador. Este estudo objetivou analisar os fatores predisponentes de sobrecarga em cuidadores de pacientes idosos portadores da doença de Alzheimer. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases de dados online da Biblioteca Regional Médica (BIREME), sendo elas: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e a Base de Dados de Enfermagem (BDENF). Ao final, foi incluso na pesquisa seis artigos os quais foram divididos e discutidos quanto à relação da gravidade e sobrecarga, os fatores relacionados ao cuidador que influenciam na sobrecarga, os fatores sociais e, por fim, ressaltar a sintomatologia apresentada. É de suma importancia a detecção da doença logo no inicio e o fornecimento imediato das intervenções/tratamento, para que assim o cuidador aprenda a lidar melhor com a progressão da doença, de modo a repercutir em uma qualidade de vida, tanto para o cuidador quanto para o paciente, e implicaçoes positivas no processo do cuidado para o paciente.

Palavras-chave: Fardo do cuidador. Saúde do idoso. Doença de Alzheimer.

Abstract

Alzheimer’s disease is a progressive neurodegenerative disorder manifested by deterioration of cognition and memory, progressive impairment of activities of daily living and a variety of neuropsychiatric symptoms and behavioral changes. The progression of the disease increases the demand for assistance care, as well as the elderly’s dependence and caregiver burden. This study aimed to analyze the predisposing factors of burden in caregivers of elderly patients with Alzheimer’s disease. This is an integrative review of the literature, carried out in the online databases of the Regional Medical Library (BIREME), namely: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Latin American and Caribbean Literature in Health Sciences (LILACS) and the Nursing Database (BDENF). In the end, six articles were included in the research, which were divided and discussed regarding the relationship between severity and overload, factors related to the caregiver that influence overload, social factors and, finally, highlighting the symptoms presented. It is extremely important to detect the disease early and provide immediate interventions/treatment, so that the caregiver learns to better deal with the progression of the disease, resulting in a better quality of life, both for the caregiver and for the patient, and positive implications in the care process for the patient.

Keywords: Caregiver burden. Health of the elderly. Alzheimer disease.

1 INTRODUÇÃO

A senescência corresponde a todas as alterações perceptíveis no organismo humano as quais decorrem do tempo de modo a não configurar causas patológicas. São as modificações decorrentes de processos fisiológicos do envelhecimento. O ato de envelhecer faz parte de um processo natural da vida humana, porém, é notório que, ao longo dos anos, o número de idosos intensificou-se e, em 2050, estima-se uma prevalência de, aproximadamente, 70 milhões de idosos apenas no Brasil acarretando uma série de mudanças em todas as esferas, sendo elas: social, cultural, financeira, psicológica, dentre outras (DADALTO; CAVALCANTE, 2021; HUNZICKER, 2019).

Esse aumento senil vem se consolidando pelos avanços e mudanças que estão acontecendo ao longo do tempo, em especial à queda da taxa de fecundidade e de mortalidade; bem como à associação das mudanças ocorridas nessas taxas as quais resultaram em uma transição demográfica de grupos etários com 60 anos ou mais no país (LACERDA et al., 2021; DADALTO; CAVALCANTE, 2021). Em meio a essa inversão no quadro de idades, modifica-se também o processo de saúde-doença ocasionando uma transição epidemiologia com um número maior de pessoas portadoras de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) o qual constitui a causa prevalente da mortalidade geral na população mundial, além de protagonizar o aumento do custo social, econômico e do tempo de internação, de modo a ser considerado um problema de saúde pública (MALTA et al., 2020).

Dentre as DCNT, destacam-se as síndromes demenciais que causam no indivíduo dependência e incapacidade na execução das atividades de vida diária (AVD), sendo elas classificadas como básicas e instrumentais (MALTA et al., 2020). Vale destacar que, entre as síndromes demenciais, o subtipo da Doença de Alzheimer está entre um dos casos mais diagnosticados de demência, representando cerca de 60-70% desses casos (MATTOS; KOVÁCS, 2020; HUANG; CHAO; HU, 2020). Em meados de 1906, o neuropatologista alemão Alois Alzheimer apresentou no 37° Congresso do Sudoeste Alemão de Psiquiatria o caso de sua cliente que apresentava uma perda cognitiva progressiva. À necropsia, identificaram-se placas e emaranhados neurofibrilares, bem como alterações ateroscleróticas, passando a denominar-se Doença de Alzheimer posteriormente (NEGREIROS et al., 2016; DUARTE; SANTOS; TUPINANBÁ, 2017).

A Doença de Alzheimer é uma enfermidade progressiva, degenerativa e de agravamento rápido. Inicialmente, ela apresenta uma perda de memória recente, podendo ser acompanhado ou seguido de algumas disfunções cognitivas, tais como perturbações na fala, dificuldades na locomoção, problemas em resolver tarefas e anormalidades visuoespaciais (DADALTO; CAVALCANTE, 2021; MATTOS; KOVÁCS, 2020; HUANG; CHAO; HU, 2020). Em média, a expectativa de vida desse grupo, após o aparecimento dos primeiros sintomas até o óbito, é de oito a 10 anos, de modo a estar correlacionado intrinsecamente com o processo de cuidado (NEGREIROS et al., 2016). A fragilidade e a vulnerabilidade resultante do avanço da doença resultam na necessidade indispensável da presença de um cuidador que auxilie nas ações cotidianas, dando suporte para atividades que não conseguem ser realizadas sozinhas (alimentar, tomar banho, se limpar, dentre outras) em que se faz imprescindível um cuidado contínuo, integral e de inteira doação por parte do cuidador (SANTOS et al., 2019; CRUZ; HAMDMAN, 2008; LACERDA et al., 2019).

Esse cuidado normalmente é executado por um parente mais próximo, mais precisamente as esposas, que não recebem remuneração para essa função (DUARTE; SANTOS; TUPINANBÁ, 2017; SANTOS et al., 2019; CRUZ; HAMDMAN, 2008). Esse processo intenso de cuidado com o passar do tempo torna-se desgastante, afetando os familiares das mais variadas formas, desde sentimentos difíceis de lidar, tais como a tristeza e a impotência, até diferentes repercussões nos aspectos familiares, físicos, psicológicos e financeiros, além de alterações no convívio social, podendo gerar exclusão (MEDEIRO, 2020; ILHA et al., 2018). A exigência de cuidados diretos e diários ao idoso é um fator potencializador de sobrecarga aos cuidadores o qual influencia em sua qualidade de vida (QV), bem como no processo saúde-doença, podendo gerar o aparecimento de enfermidades agudas e crônicas tendo a necessidade de cuidados e de terapêutica medicamentosa repercutindo negativamente na rotina e saúde do cuidador (DUARTE; SANTOS; TUPINAMBA, 2017).

Dentre as doenças geradas pela sobrecarga emocional e social, além do estresse originado da rotina cansativa, destacam-se alterações do sono (hipersonia, insônia), transtorno de ansiedade generalizada (TAG), depressão, hipertensão arterial sistêmica (HAS) (DUARTE; SANTOS; TUPINAMBA, 2017). Buscando responder ao objetivo proposto pelo estudo, foi definida a seguinte pergunta norteadora: Quais os fatores predisponentes de sobrecarga em cuidadores de pacientes idosos portadores da Doença de Alzheimer?

Sendo assim, este estudo objetivou analisar os fatores predisponentes de sobrecarga em cuidadores de pacientes idosos portadores da Doença de Alzheimer.

2 METODOLOGIA

Artigo da monografia intitulada “Análise da sobrecarga em cuidadores de pacientes portadores de Alzheimer: revisão integrativa” apresentada ao Departamento de Enfermagem da Faculdade de Saúde e Desenvolvimento Humano Santo Agostinho de Montes Claros (FASA). Montes Claros – MG, Brasil. 2022.

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases de dados online da Biblioteca Regional Médica (BIREME), sendo elas: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e a Base de Dados de Enfermagem (BDENF). A busca consistia na seleção de artigos científicos publicados durante o período de 2017 a 2022. Este período foi escolhido com o objetivo de obter o máximo de publicações recentes possíveis relacionadas ao tema. A coleta dos artigos foi realizada durante o 1º semestre de 2022, nos meses de março e abril, pelo pesquisador responsável. Foram utilizados os seguintes descritores para a captação da amostra: “Fardo do cuidador”, “Saúde do idoso”, “Doença de Alzheimer”. Os descritores utilizados constam no site dos descritores em saúde (DECS), sendo este: http://decs.bvsalud.org/.

A revisão integrativa da literatura possibilita aos revisores a síntese de resultados sem interferir nos estudos empíricos que foram incluídos, além do potencial para compreender os problemas relevantes para o cuidado em saúde (SOARES et al., 2014). Este método limita as incertezas acerca das práticas realizadas, de modo a auxiliar no processo de decisões da prática profissional exigindo o cumprimento de padrões em clareza e rigor no intuito de que o estudo traga contribuições significativas para a prática clínica e científica (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008; SOARES et al., 2014). Este estudo seguiu seis etapas: (1) identificação do tema e seleção da questão norteadora; (2) estabelecimento dos critérios de elegibilidade, (3) identificação da amostragem e da amostra; (4) categorização dos estudos selecionados; (5) análise e interpretação dos resultados; e (6) apresentação da revisão/síntese do conhecimento (BOTELHO; CUNHA; MACEDO, 2011).

Por meio da busca avançada, juntamente à aplicação dos operadores booleanos (AND, OR, OR NOT), foi utilizado o algoritmo “(fardo do cuidador) AND (saúde do idoso) AND (Doença de Alzheimer)” encontrando-se uma amostragem total de 270 artigos publicados. Ao refinar a busca utilizando o intervalo de ano de publicação e selecionando “últimos cinco anos” (2017-2022), texto completo (disponível), base de dados (MEDLINE, LILACS, BDENF), idioma (português, inglês, espanhol), os resultados foram reduzidos para 25 artigos.

Inicialmente, realizou-se a leitura dos títulos e resumos para análise das publicações e após isso foi aplicado os critérios de elegibilidade. Foram adotados os seguintes critérios de inclusão para captação amostral: (1) Ser uma produção científica publicada em periódicos indexados, sendo estes nacionais ou internacionais; (2) ter o artigo disponível gratuitamente para o download; (3) ter o resumo disponível para análise na língua portuguesa e/ou inglesa. Foi adotado o seguinte critério de exclusão: (1) Ser monografia, dissertação ou tese; (2) ser resumo simples ou expandido; (3) textos completos indisponíveis gratuitamente.

Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, dos 20 artigos encontrados na amostragem total, foram excluídos 08 por apresentarem inconsistência focal da amostra (foco no idoso; nos gastos com o paciente considerando o perfil socioeconômico e demográfico do usuário e da região; na doença, seus mecanismos etiopatogênicos e tratamento) tendo em vista o objeto de estudo ser o cuidador; 01 por ser repetido; 04 por divergirem da temática proposta; e 01 por ser produto de uma tese de doutorado. Sendo assim, a amostra final do estudo foi constituída por 06 artigos publicados durante o período de 2017 a 2022. A coleta amostral foi apresentada por meio da Tabela 1, tendo em vista o algoritmo de busca e as bases de dados. Durante a coleta e análise dos artigos, observou-se que o mesmo artigo estava indexado tanto na LILACS quanto na BDENF, sendo assim, optou-se por incluí-la em apenas uma das bases de dados de modo a evitar repetição da amostra. Todo o delineamento do percurso metodológico foi resumido de forma clara e objetiva para melhor compreensão do leitor e apresentado conforme mostra o Fluxograma 1.

Após o levantamento de dados, foi realizada a leitura dos resumos para inclusão e as informações obtidas relacionadas aos artigos foram organizadas em um quadro sinóptico, posteriormente comparadas e analisadas entre si, proporcionando conhecer nitidamente a produção científica relacionada à temática do estudo. Foi utilizado um formulário de elaboração própria contemplando as seguintes informações de pesquisa: título, autor do estudo, ano de publicação, periódico, objetivo e método. Os dados foram armazenados no programa estatístico PRISMA e apresentados em uma tabela para posterior discussão.

Tabela 1 – Perfil amostral conforme o algoritmo de busca e as bases de dados.
Algoritmo de buscaBases de dados
MEDLINELILACSBDENF
ASAEAUASAEAUASAEAU
n%n%n%n%n%n%n%n%n%
Fardo do cuidador AND Saúde do idoso AND Doença de Alzheimer20100,01470,00630,0000,0000,0000,0000,0000,0000,0
Total por base de dados06 artigos00 artigo00 artigo
AMOSTRA06 artigos
Fonte: Autoria própria, 2022. AS = Artigos Selecionados (amostragem). AE = Artigos Excluídos. AU = Artigos Utilizados (amostra).

Fluxograma 1 – Delineamento do percurso metodológico.

IDENTIFICAÇÃO
SELEÇÃO
ELEGIBILIDADE
Critérios de inclusão e leitura dos títulos e resumos.
Consultas as bases de dados: MEDLINE, LILACS e BDENF.
Critérios de exclusão e leitura criteriosa dos artigos na integra
Total de artigos selecionados (20).
Foram selecionados 6 artigos para compor a amostra do estudo.

Fonte: Autoria própria, 2022.

3 RESULTADOS

No Quadro 1, foram listados os artigos que compõem a amostra os quais foram organizados conforme as seguintes variáveis: título, autor do estudo, ano de publicação, periódico, objetivo e método.

Quadro 1 Perfil da amostra do estudo conforme título, autor do estudo, ano de publicação, periódico, objetivo e método. (n=6)
TítuloAutorAnoPeriódicoObjetivoMétodo
1Comparison of the caregiving experience of grief, burden, and quality of life in dementia with Lewy bodies, Alzheimer’s disease, and Parkinson’s disease dementia.Rigby et al.2021Journal of Alzheimer’s DiseaseTo examine the differences in the caregiver experience between dementia with Lewy bodies, Parkinson’s disease dementia, and Alzheimer’s disease.Cross-sectional study
2Developing a random forest classifier for predicting the depression and managing the health of caregivers supporting patients with Alzheimer’s diseaseByeon2019Technology and Health CareTo established a model for predicting the depression of dementia caregivers while considering the sociodemographic and health science characteristics of South Koreans.Cross-sectional study
3EVALUATE-AD and Tele-STAR: novel methodologies for assessment of caregiver burden in a telehealth caregiver intervention – a case studyThomas; Lindauer; Kaye.2019Dementia and Geriatric Cognitive DisordersTo explored the relationship between objective and subjective measures of burden prior to and after a telehealth-based caregiver intervention.Cross-sectional study
4Association between sleep disturbance in Alzheimer’s disease patients and burden on and health status of their caregiversOkuda et al.2019Journal of NeurologyTo investigated the association between sleep disturbance in AD patients and the burden on, and health status of, their caregivers in Japan.Cross-sectional study
5Alzheimer’s disease severity and its association with patient and caregiver quality of life in Japan: results of a community-based surveyMontgomery et al.2018BMC Geriatrics (Online)To investigated the associations between Alzheimer’s disease dementia patient disease severity and health-related quality of life (HRQoL) of both patients (proxy report) and their caregivers living in Japan, as well as caregiving-related comorbidities such as depression.Cross-sectional study
6Neuropsychiatric symptoms in Alzheimer’s disease: associations with caregiver burden and treatment outcomesChen et al.2017QJMTo address the impact of neuropsychiatric symptoms of patients in different stages of Alzheimer’s disease on their caregivers’ burden. 
Fonte: Autoria própria, 2022.

4 DISCUSSÃO

Os estudos sugerem que a gravidade específica à demência da Doença de Alzheimer está associada a uma maior carga ponderal, estresse físico e psicológico, luto e menor QV em cuidadores, especialmente se a piora do quadro vincula-se aos sintomas neuropsiquiátricos com distúrbios comportamentais (RIGBY et al., 2021; MONTGOMERY et al., 2018; CHEN et al., 2017; DUARTE; SANTOS; TUPINAMBA, 2017).

Isto posto, o estudo realizado por Rigby et al. (2021) descreveu que cuidadores de indivíduos que apresentam sintomas neuropsiquiátricos proeminentes, incluindo delírios, alucinações, agitação, apatia, comportamentos motores aberrantes e sintomas de apetite/alimentação com sintomas mais perturbadores, tem maior influência sobre os atributos negativos (depressão, luto, fardo), já que os cuidadores experimentam uma experiência mais intensa associada à quantidade de carga autorrelatada pelo cuidador, em que podem experimentar mais fardo ou luto, ou relatar níveis mais baixos de bem-estar e com menor QV para o cuidador e receptor de cuidados. (MONTGOMERY et al., 2018; CHEN et al., 2017).

Os resultados do estudo de Okuda et al. (2019) mostraram que os distúrbios do sono em pacientes com Doença de Alzheimer associam-se a uma carga maior e pior condição de saúde dos cuidadores, já que a freqüência de perambulação noturna aliado a um despertar noturno e delírio resultam em diminuição do tempo total de sono noturno e alta freqüência de cochilos diurnos gerando alta angústia e potencial de maior carga do cuidador (THOMAS; LINDAUER; KAIE, 2019). A QV dos cuidadores pode piorar ao longo do tempo, uma vez que cuidar de pacientes com distúrbios comportamentais e maior gravidade da doença com maior comprometimento funcional está associado com aumento da sobrecarga assistencial do cuidador. Outro aspecto verificado foi que a gravidade da doença estava associada a pior QV, tanto do cliente quanto cuidador, com destaque para a presença de delírios como o sintoma mais angustiante com associação entre prevalência de delírios e estresse do cuidador (MONTGOMERY et al., 2018; CHEN et al., 2017).

Os estudos destacam que os traços individuais do cuidador como idade, gênero, estado de saúde subjetivo, estado civil, escolaridade, capacidade cognitiva e funcionamento intelectual geral, experiência de doença ou acidentes nas últimas duas semanas, relação com o beneficiário do cuidado, a frequência de encontro com um familiar, atividade econômica e renda familiar mensal média foram os principais fatores de risco para predizer a sobrecarga e depressão de cuidadores de pacientes portadores de demência (RIGBY et al., 2021; MATTOS; KOVÁCS, 2020; HUANG; CHAO; HU, 2020; BYEON, 2019; CHEN et al., 2017). O estudo de Okuda et al. (2019) revela que os cuidadores de seus parceiros apresentaram significativamente menos carga do que os cuidadores que cuidam de seus pais. Por serem mais jovens estão freqüentemente equilibrando os cuidados com os genitores, criação de filhos e atividade laboral aumentando sua carga.

O estado de saúde dos cuidadores pode estar diretamente relacionado à sobrecarga do cuidador afetando-o diretamente, pois cuidar de idosos com demência requer cuidados físicos intensivos sendo um importante preditor de depressão (BYEON, 2019; RIGBY et al., 2021). No que tange a associação dos fatores sociais e sobrecarga, o estudo de Montgomery et al. (2018) denota que pessoas empregadas com atividades laborais fora do domicílio e que cuidam de crianças se predispõe em maior quantidade para sobrecarga.

Os cuidadores mais jovem, que trabalham e ainda cuidam de crianças apresentam mais dificuldades em lidar com processo de cuidar; uma vez que devem lidar com múltiplas demandas de cuidar e manter um emprego afetando diretamente também os clientes assistidos (MONTGOMERY et al., 2018). Corroborando com esse aspecto, o estudo de Okuda et al. (2019) destaca que os cuidadores que eram filhos/filhas e que tinham que lidar com distúrbios do sono apresentavam maior impacto negativo sobre a carga e a saúde em comparação com outros grupos de cuidadores que eram cônjuges, já que tinham que manter outras demandas externas ao cuidar. Vale destacar, que aqueles com cargos mais estabelecidos no trabalho ou que não cuidavam de crianças lidavam melhor com as múltiplas cargas (MONTGOMERY et al., 2018).

O estudo de Rigby et al. (2021) elencou traços da personalidade, força do relacionamento e o estilo da comunicação aos quais não causaram tanta angústia, que sintomas precoces de depressão podiam ajudar aos médicos fornecer melhor apoio aos cuidadores; sendo positivo para o processo e colaborando com o cuidador. Outro aspecto protetor para sobrecarga foi o maior suporte social que reduziu a sobrecarga dos cuidadores e também a depressão e a piora na QV (BYEON, 2019; LACERDA et al., 2019). Os sintomas presentes em cuidadores de pessoas com Doença de Alzheimer são visivelmente percebidos. Eles geralmente são acometidos por doenças que passam despercebidos pelas demais pessoas, os sintomas que mais acomete cuidadores são aqueles psicológicos, que interfere no sono, mudanças de personalidade e de comportamento (RIGBY et al.; 2021).

A principal carga é advinda de distúrbios do sono. Sendo assim, a diminuição da qualidade do sono, sendo que a insônia era a manifestação mais comum, gerara no cuidador uma piora na saúde, junto com a percepção de sobrecarga, fazendo essa carga ser muito maior aliado a sintomas depressivos. Esses achados sugerem que os cuidadores de pacientes com Doença de Alzheimer tenham alguns problemas físicos e mentais em que essa situação piora se o cuidador for um jovem (LACERDA et al., 2019; OKUDA et al., 2019). Pode ser possível, por exemplo, que a depressão nos cuidadores influencie a perturbação do sono nos pacientes. Chen et al. (2017) denota em sua pesquisa que a sobrecarga está intimamente ligada à propensão de delírios, alucinações, agitação, apatia, comportamentos motores aberrantes e sintomas de apetite/alimentação. Esses sintomas pioravam com a progressao da doença e gera mais estresse no cuidador.

Os cuidadores podem apresentar sofrimento psicológico, mesmo nos estágios iniciais de demência de Doença de Alzheimer apresentado pelo paciente, possivelmente devido à natureza progressiva da doença, aumento da sobrecarga, que pode estar associada a futuras necessidades de cuidados, reforçando assim a necessidade de suporte e avanços no tratamento reforçando o sentimento de fardo considerável e associado à Doença de Alzheimer (MONTGOMERY et al., 2018; LACERDA et al., 2019). O estudo realizado por Montgomery et al. (2018) ressalta uma proporção maior de cuidadores de Doença de Alzheimer que relataram depressão em comparação com pesquisas anteriores que incluíram cuidadores de pacientes com demência definida de forma mais ampla. Os cuidadores de pacientes com demência apresentam maior risco de redução da QV e morbimortalidade cardiovascular (CHEN et al., 2017).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como limitação um arsenal bibliográfico com poucos estudos recentes os quais dificulta a realização de uma análise comparativa mais robusta de modo a necessitar de novos estudos feitos nesta área enfatizando o impacto dos fatores predisponentes de sobrecarga em cuidadores de idosos portadores de Doença de Alzheimer na população senil.

O paciente idoso portador da Doença de Alzheimer, tendo em vista esta ser uma doença crônica neurodegenerativa progressiva e, conforme sua progressão, haverá o desenvolvimento crescente da relação de dependência entre o paciente e seu cuidador para a realização das AVD repercutindo diretamente no processo de autonomia e independência do paciente e aumentando a demanda de cuidados assistenciais para o cuidador de modo a favorecer um aumento da sobrecarga e impactar diretamente em sua QV.

A diminuição da função cognitiva do paciente idoso portador da Doença de Alzheimer pode ser retardada por meio de um diagnóstico precoce associado à intensificação de atividades que estimulem a cognição e a memória do paciente. Este processo reduz o potencial de dependência e também a sobrecarga para o seu cuidador. A mudança de estilo de vida com implementação de prática de atividade física e uma alimentação saudável melhoram os índices cognitivos e suas funções biológicas, mas também evita o surgimento de lesões por pressão (LPP) tendo em vista a síndrome de imobilidade, traumas pelo risco de quedas, infecções urinárias em decorrências de incontinência vesical, hospitalizações recorrentes tendo em vista o Delirium, dentre outras possíveis complicações para o paciente idoso.

A sobrecarga assistencial pode acarretar em danos irreversíveis para o cuidador o qual podem privá-lo de suas funções laborais. As doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT) constituem a principal causa de absenteísmo de profissionais da saúde e cuidadores pelo excesso de atividades geradoras de estresse físico e psíquico. Diante de todos os fatores predisponentes para o desenvolvimento de eventos estressores os quais geram sobrecarga no cuidador, o diagnóstico da Doença de Alzheimer deve ser realizado precocemente de modo a traçar um plano de cuidados (intervenções/tratamento) para o paciente, para que assim o cuidador aprenda a lidar melhor com a progressão da doença de modo a propiciar uma melhor QV para o paciente e seu cuidador e repercutindo em implicações positivas durante o processo do cuidado.

REFERÊNCIAS

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[1] Enfermeiro pela Faculdade Santo Agostinho de Montes Claros (FASA). Montes Claros (MG), Brasil.

[2] Enfermeiro. Especialista em Saúde da Família. Acadêmico do curso de graduação em Medicina pelas Faculdades Unidas do Norte de Minas (FUNORTE). Montes Claros (MG), Brasil. E-mail: patrick.nogueira@soufunorte.com.br

[3] Enfermeiro. Especialista em Saúde Mental. Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Montes Claros (MG), Brasil. E-mail: claudioluis2612@yahoo.com.br

[4] Enfermeira. Mestre em Enfermagem (PPGENF/UFJF). Docente do Departamento de Enfermagem da Faculdade Santo Agostinho de Montes Claros (FASA). Montes Claros (MG), Brasil. E-mail: anaienf@gmail.com

[5] Enfermeira. Mestre em Enfermagem (PPGENF/UNIFESP). Docente do Departamento de Enfermagem da Faculdade Santo Agostinho de Montes Claros (FASA). Montes Claros (MG), Brasil. E-mail: valdira_oliver@hotmail.com

[6] Enfermeira. Mestre em Cuidado Primário em Saúde (PPGCPS/UNIMONTES). Docente do Departamento de Enfermagem da Faculdade Santo Agostinho de Montes Claros (FASA). Montes Claros (MG), Brasil. E-mail: igcassimiro@yahoo.com.br

[7] Enfermeira. Doutora em Ciências da Saúde (PPGCS/UNIMONTES). Docente do Departamento de Enfermagem da Faculdade Santo Agostinho de Montes Claros (FASA). Montes Claros (MG), Brasil. E-mail: rosanaruas@yahoo.com.br

[8] Enfermeira. Doutora em Ciências da Saúde (PPGCS/UNIMONTES). Docente do Departamento de Enfermagem da Faculdade Santo Agostinho de Montes Claros (FASA). Montes Claros (MG), Brasil. E-mail: carolina.calreis@yahoo.com.br