FATORES DE RISCO CARDIOVASCULARES EM JOVENS COM HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA: REVISÃO SISTEMÁTICA

CARDIOVASCULAR RISK FACTORS IN YOUNG INDIVIDUALS WITH SYSTEMIC ARTERIAL HYPERTENSION: A SYSTEMATIC REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202503181638


Karina Bittencourt Uckonn1
Maria Clara Vitório de Araujo2
Newton Vital Figueiredo Neto3
Rômulo Carvalho Costa4
Anna Luiza Lima de Sá5
Lavínia Menezes de Melo6
Ana Flavia Teles Matias7


Resumo 

Introdução: A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma doença crônica caracterizada pelo aumento persistente dos níveis pressóricos, sendo um fator de risco para doenças cardiovasculares. Sua incidência em jovens tem aumentado devido a fatores como sedentarismo, obesidade, tabagismo e alimentação inadequada. A detecção precoce é fundamental para prevenir complicações, como infarto e AVC, por meio de intervenções que visem o controle da doença. Objetivo: Revisar na literatura os fatores de risco cardiovasculares em jovens com hipertensão arterial. Metodologia: Trata-se de uma revisão sistemática, realizada nas bases de dados PubMed, SciELO e BVS por dois avaliadores de forma independente, utilizando os seguintes descritores (DeCS): c. Foram estabelecidos critérios de inclusão que abrangiam apenas artigos originais publicados nos últimos 10 anos, disponíveis em português, inglês ou espanhol, que investigassem e relacionassem os fatores de risco cardiovasculares em adultos jovens com Hipertensão Arterial Sistêmica. Com base nesses critérios, foram selecionados 8 artigos para compor o presente estudo. Resultados e discussão: Os estudos revelam que mulheres representam 54% dos casos no Brasil, enquanto homens hispânicos/latinos apresentam maior risco nos EUA. Fatores não modificáveis, como raça e sexo, influenciam a HAS, mas também são destacados fatores externos como baixa escolaridade e renda, associados a maior prevalência de obesidade e tabagismo. Além disso, pacientes com HIV em tratamento com antirretrovirais têm maior risco de HAS. As complicações da HAS incluem maior incidência de traumas, prolongamento de internações e risco cardiovascular, sendo a monitorização contínua essencial para o acompanhamento. Conclusão: Esta revisão sistemática analisou fatores demográficos, comportamentais e socioeconômicos associados à hipertensão arterial em jovens, destacando o impacto do tabagismo, sedentarismo e comorbidades como o HIV. As evidências sugerem que a população jovem, especialmente masculina, deve receber maior atenção em estratégias de saúde pública, com foco na promoção de hábitos saudáveis, monitoramento contínuo e diagnóstico precoce. 

Palavras-chave: Fatores de risco. Cardiovascular. Hipertensão arterial. Adulto jovem.

1.   INTRODUÇÃO

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma doença crônica multifatorial caracterizada pelo aumento persistente dos níveis pressóricos, configurando-se como um dos principais fatores de risco modificáveis para doenças cardiovasculares (Sociedade Brasileira de Hipertensão, 2020). Embora sua prevalência seja mais comum em idosos, a identificação de casos em indivíduos jovens tem se tornado cada vez mais frequente, devido a determinantes como sedentarismo, obesidade, dislipidemia, tabagismo e hábitos alimentares inadequados (SESA, 2015).

Nesse sentido, a presença desses fatores em jovens, associada a aspectos como sexo, raça e infecções, não apenas aumenta o risco de desenvolvimento da HAS, mas também favorece o surgimento precoce de eventos cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (Sociedade Brasileira de Hipertensão, 2020). Sendo assim, a detecção precoce dessas condições é fundamental para viabilizar a implementação de estratégias que visem tanto à prevenção quanto ao controle da HAS e, consequentemente, à redução dos riscos cardiovasculares a longo prazo.

Dessa forma, o presente artigo tem como objetivo revisar, na literatura, os principais fatores de risco cardiovasculares associados à hipertensão arterial sistêmica em jovens, destacando a importância de intervenções precoces para mitigar o impacto da doença nessa população.

2.   METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão sistemática, caracterizada como um método que possibilita a síntese de conhecimento e a incorporação da aplicabilidade de resultados de estudos significativos na prática. A estratégia de busca foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO e BVS por dois avaliadores de forma independente, utilizando os seguintes descritores (DeCS): “Hypertension” AND “Risk Factors” AND “Young Adult”. Foram estabelecidos critérios de inclusão que abrangiam apenas artigos originais publicados nos últimos 10 anos, disponíveis em português, inglês ou espanhol, que investigassem e relacionassem os fatores de risco cardiovasculares em adultos jovens com Hipertensão Arterial Sistêmica. Com base nesses critérios, foram selecionados 8 artigos para compor o presente estudo.

3.   RESULTADOS  

 Liina Kask-Flight et al. (2021), em seu ensaio clínico randomizado e controlado que foi conduzido entre 2015 e 2016 na Estônia, com 130 homens hipertensos, com idades entre 18 e 50 anos. Desses, 77 faziam parte do grupo de intervenção (GI), que utilizou ferramentas interativas de decisão durante as consultas com médicos de família, enquanto 53 integravam o grupo controle (GC), que recebeu o aconselhamento padrão. Foram coletados dados sobre tabagismo, peso, altura, circunferência da cintura e pressão arterial, além de exames laboratoriais para medir os níveis de LDL, HDL, triglicérides, creatinina sérica, taxa de filtração glomerular e a relação albumina/creatinina na urina, além de um eletrocardiograma. O programa gerou cálculos individualizados de risco cardiovascular, gráficos com resumos dos riscos e sugestões de mudanças no estilo de vida para os pacientes do grupo de intervenção.Observou-se mudanças comportamentais em relação ao uso do cigarro entre os fumantes do GI (n = 21) em comparação com os do GC (-3,82 ± 1,32 [SE média] contra +2,32 ± 1,29; p = 0,001) e houve diferenças na pressão arterial diastólica no GI, com uma tendência a significância (-2,96 ± 1,27 [SE média] versus -0,4 ± 1,41; p = 0,180). 

 Tomás de Souza Mello et al., 2021, em seu estudo transversal com mulheres adultas, de 20 a 50 anos, residentes na área atendida pela Estratégia de Saúde da Família, especificamente na unidade do Centro de Saúde-Escola da Lapa, localizada no centro do Rio de Janeiro. O objetivo foi identificar o perfil de risco cardiovascular em uma população de mulheres jovens atendidas na atenção primária. Após análise de 710 participantes, os fatores de risco cardiovasculares mais comuns encontrados foram sintetizados em dados percentuais, sendo os principais  dislipidemia (65,6%), estilo de vida sedentário (44,4%), sobrepeso (38,7%), obesidade (25,2%) e hipertensão (24,8%). Além de mulheres com histórico de distúrbios hipertensivos durante a gravidez (28,2% versus 8,4%) , menopausa precoce (14,1% versus 4,3%).Por fim, o estudo relacionou também o nível de escolaridade com o tabagismo, obesidade, obesidade central, sedentarismo, hipertensão, disglicemia e síndrome metabólica.   Portelli Tremont et al., 2020, em seu estudo de Coorte retrospectivo realizado com base nos dados do Registro de Trauma da Carolina do Norte entre 2013 e 2017, foi utilizado para analisar pacientes jovens adultos entre 18 e 39 anos que se apresentavam no pronto-socorro por qualquer motivo aparente,  em um grupo de 48.480 pacientes e excluindo o grupo de enfermos que não foram admitidos depois de se apresentarem no DE (n = 13.370), assim como os que não possuíam admissão (n = 365), os que foram deixados contra o aconselhamento médico (n = 318) ou ainda os que não possuíam ordens de alta (n=46), com o objetivo de qualificar a prevalência de hipertensão, tanto previamente identificada quanto no momento da admissão, em adultos jovens com lesões traumáticas. Além disso, objetivava também avaliar o impacto que a hipertensão apresentava nos consequências do trauma. Os pacientes foram classificados de acordo com a presença ou não de hipertensão, no-HTN, e a divisão entre o tempo de diagnóstico, PD-HTN (hipertensão previamente diagnosticada) e ND-HTN (diagnosticada durante a admissão do trauma).

Foi observado que os enfermos com um diagnóstico não prévio de hipertensão (ND-HTN) possuíam uma maior taxa de readmissão em um mês (30 dias) (OR:200, IC 95%:0.95-4.20). Nessa perspectiva, foi concluído que o grupo HTN (PD-HTN + ND-HTN) era mais propenso a exibir comorbidades crônicas, a exemplo da diabetes (16% versus 1%; P < 0,0001), da obesidade (48% versus 24%; P  < 0,0001) e do alcoolismo (10% versus 6%; P  <0,0001). (Portelli Tremont et al., 2020) 

Elfassy, Tali et al., 2020, em seu estudo de Coorte prospectivo populacional HCHS/SOL (Pesquisa de saúde da comunidade hispânica/Estudo de latinos) realizado nas cidades Bronx em NY, Chicago em IL, Miami-Dade em FL e San Diego na CA nos Estados Unidos, com a população latina/hispânica auto identificados, na faixa etária de 18 a 74 anos, com 16.415 participantes  do HCHS/SOL nas análises primárias, onde excluíram-se os pacientes com hipertensão (n=5.300) ou informações de hipertensão ausente (n=66) no primeiro exame, além daqueles que não apareceram (n=4792) ou não possuíam informações de hipertensão (n=86) no exame 2, tinha como um dos objetivos estabelecer uma estimativa das taxas de incidência da hipertensão nos indivíduos de origens hispânicas/latinas. Além disso, apresentou uma visita de base no período entre 2008 e 2011 e um segundo exame padronizado entre 2014 e 2017.

Nessa perspectiva, os indivíduos que foram recomendados para prosseguir com o tratamento de hipertensão, notou-se que houve uma prevalência de tratamento de apenas 27% entre os homens e de 36% no sexo feminino. Ademais, os índices de manejo e controle da hipertensão entre os hispânicos/latinos dos EUA são preocupantes (<40% tratados e 23% controlados) e explicitam e reforçam a necessidade de uma maior atenção na saúde pública para elevar esse controle no grupo citado.( Elfassy, Tali et al., 2020) 

Toulomi, Giota et al., 2020, em seu estudo de Coorte colaborativo utilizando dados do “Athens Multicenter AIDS Cohort Study” (AMACS) foi realizado com o intuito de avaliar a prevalência de comorbidades particulares que não estão relacionadas a AIDS e condições de risco de doenças cardiovasculares estabelecidos (diabetes, dislipidemia, hipertensão, obesidade, tabagismo) além de estimar o risco global de DCV calculado com o escore de risco de Framingham (FRS) de 10 anos ou o European Systematic Coronary Risk Evaluation (SCORE) em adultos vivendo com HIV (PVHIV), comparando-os com a população geral na Grécia. A quantidade de pacientes que foram avaliados, no total, foram os 6006 indivíduos que se inscreveram no EMENO (National Survey of Morbidity and Risk Factors) com pelo menos uma medição de interesse retirada entre 2012-2014. 

Da análise, foram desconsiderados 13 indivíduos com idade desconhecida, 2 HIV+ e 1771 pacientes que eram mais jovens, entre 18-29 anos, que apresentavam alta chance de serem das áreas urbanas e menor probabilidade de apresentar uma doença crônica, filhos, origem grega e ser desempregado. Entre os resultados encontrados, as PVHIV eram mais propensas a serem fumantes vigentes e dislipidêmicas além de apresentarem maior risco de doença cardiovascular fatal, apesar de haver uma menor propensão a serem obesas. (Toulomi, Giota et al., 2020) 

Gowsini et al., 2019 realizou o estudo de Coorte longitudinal entre 2001 e final de 2018, selecionou 3078 pessoas com 20 anos ou mais foram de forma aleatória na cidade de Copenhague (Dinamarca). Foi aferido a pressão arterial, e como divisão foram definidos como hipertensos aqueles que possuíam PA sistólica ≥ 140 mmHg ou PA diastólica ≥ 90 mmHg ou que estavam sendo tratados com medicação anti-hipertensiva. Para separação referente a prática de atividades físicas diárias, foi realizado um questionário, com os resultados foram categorizados como: atividade moderada/alta, atividade leve ou inatividade. Por fim foi realizado um ecocardiograma para medidas quantificadas na diástole final: espessura da parede posterior, diâmetro diastólico final do ventrículo esquerdo e a espessura da parede septal. O LVM ( massa ventricular esquerda) foi calculada a partir da fórmula Devereux, o LVMi ( índice de massa ventricular esquerda) foi calculado a partir da massa anatômica dividida pela área de superfície corporal, de acordo com as diretrizes atuais o LVH ( hipertrofia ventricular esquerda) foi determinada como LVMi > 95 g/m2 para as mulheres e > 115 g/m2 para os homens, o LVH excêntrico foi definido como a presença de LVH e relativa espessura da parede <0,42 e o LVH concêntrico como presença de LVH e relativa espessura da parede > 0,42, já a espessura da parede foi calculada utilizando a fórmula: espessura relativa da parede= 2x espessura da parede posterior/ diâmetro diastólico da extremidade ventricular esquerda. Essas pessoas foram acompanhadas até a morte ou final de 2018, assim foram obtidas informações hospitalares durante todo o processo dos participantes. Com o estudo foi registrado que pessoas com PA normal eram mais jovens e tinham melhor saúde com menos frequência de doenças cardiovasculares anteriormente. 

Bahls et al. 2019, realizou uma meta-análise baseada em 13 estudos de Coorte, envolvendo 34.072 indivíduos, (pelo recorte da revisão ser focada principalmente no público jovem, os pacientes selecionados possuíam entre 15 a 87 anos, um total de 4.021 homens dos seguintes países Alemanha (1591), Itália (607) e Noruega (1823), portanto para essa revisão foram selecionadas 3 estudos de Coorte dentro da meta-análise) foram acompanhados durante visitas, aqueles que possuíam tratamento farmacológico com anti-hipertensivos, antidiabéticos ou estatinas foram excluídos para uma análise de sensibilidade. Foi-se calculada uma análise de sensibilidade para se estabelecer a progressão anualizada da pressão arterial sistólica (SPA) e o futuro risco de doença cardiovascular, utilizando a SPA de linha de base ao invés da SPA média. 

Tabela 1 Caracterização metodológica do estudo  

Autor Ano Base de dados Delineamento do estudo Pacientes avaliados País 
LiinaKask-Flight etal. 2021PubMed Ensaio clínico randomizado 130 homens hipertensos  (18 a 25 anos) Estônia 
Tomás de Souza Mello et al. 2021Scielo Estudo transversal 710 mulheres(20 a 50 anos)Brasil 
Gowsini Josephet al. 2019 PubMedEstudo de Coorte longitudinal 3.078 pessoas (a partir de 20 anos) Dinamarca
Martin Bahls etal. 2020PubMedMeta-análise baseada em 13 estudos de Coorte 4.021 homens (15 – 87 anos) Alemanha(1591) Itália ( 607)Noruega (1823)
Portelli Tremontet al. 2020MedLine Estudo de Coorte retrospectivo 34.381 pacientes(18 – 39 anos) Estados Unidos 
Elfassy Tali etal. 2020MedLine Estudo de Coorte prospectivo 6.207 pacientes(18 – 74 anos) Estados unidos 
Touloumi Giotaet al. 2020 MedLine Estudo deCoorte colaborativo 10.659 indivíduos; (34- 64 anos)1171 pacientes  excluídos (18 – 29 anos) Grécia   

4.     DISCUSSÕES

 De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, pacientes do sexo feminino correspondem a cerca 54% dos casos de Hipertensão Arterial. Em contrapartida, Elfassy, Tali et. al 2020, em seu estudo de coorte observou que homens hispânicos/latinos dos Estados Unidos da América de 2008 a 2011, possuíam maior possibilidade de desenvolver a doença. Na determinação de pessoas hispânicos/latinos 21% tem probabilidade de em 6 anos desenvolver hipertensão, sendo 22% entre os homens e 20% entre as mulheres. Paralelo ao explicitado, de acordo com a literatura Norris, Tommie L. Porth – Fisiopatologia. Disponível em: Minha Biblioteca, (10th edição). Grupo GEN, 2021, o sexo e a raça são fatores de risco não modificáveis da hipertensão arterial primária, uma vez que a maior sensibilidade ao sal está relacionado a essas diferenças entre os fatores. Diferentemente do viés do sexo e raça, fatores como a baixa escolaridade e a baixa renda também podem ser recorrências que favoreçam a presença da hipertensão e de doenças cardiovasculares. 

Tomás de Souza Mello et al. 2020, a partir de seu estudo transversal determina que os fatores de risco cardiovascular mais comuns entre mulheres adultas, de 20 a 50 anos, no centro do Rio de Janeiro, foram dislipidemia, estilo de vida sedentário , sobrepeso, obesidade e hipertensão (Tabela 2). Além disso, o diagnóstico de hipertensão foi significativamente mais frequente entre as mulheres com histórico de distúrbios hipertensivos durante a gravidez e também entre aquelas que passaram por menopausa precoce. O estudo revelou que as mulheres não alfabetizadas (10%), principalmente,  as classificadas como de  baixa renda, já que não contêm informações  suficientes, apresentaram maior prevalência de tabagismo, obesidade, obesidade central, hipertensão, disglicemia e síndrome metabólica, embora fossem menos sedentárias. A baixa escolaridade triplicou o risco de tabagismo e dobrou o risco de hipertensão, mas diminuiu a probabilidade de estilo de vida sedentário. Por outro lado, a ausência de vínculo empregatício reduziu o risco de dislipidemia, enquanto o trabalho formal foi associado a um menor risco de tabagismo. 

Sobre a relação entre o tabagismo, a hipertensão e riscos cardiovasculares, Liina Kask-Flight et al., 2021, observou em seu ensaio clínico randomizado e controlado que os fumantes do Grupo de Intervenção (GI) (n = 21) reduziram significativamente o número de cigarros por dia, em comparação com os fumantes do Grupo Controle (GC), essa diminuição da utilização de tabaco é de grande importância, pois de acordo com o Ministério da Saúde é possível identificar maiores riscos em fumantes de derrames cerebrais (AVC), infarto e desenvolvimento da hipertensão. Além disso, houve uma maior redução na pressão arterial diastólica no GI, com uma tendência a significância . A redução na pressão arterial sistólica, diastólica e no número de cigarros por dia no GI foi considerada significativa. Assim, atribui-se uma relação próxima entre a utilização de cigarros e a maior predisposição a adquirir a hipertensão. 

Sobre as diferenças predisposições a ser portador de hipertensão arterial, Toulomi, Giota et al., 2020, em seu estudo de coorte atestou que após o reparo aditivo para IMC, um importante fator de hipertensão, fica claro que as pessoas vivendo com HIV possuem maior prevalência de hipertensão em comparação com a população em geral. No entanto, pacientes que fazem a utilização de antirretrovirais, especialmente os inibidores da protease e estavudina, apresentam grandes elevações dos níveis séricos de colesterol LDL, evidenciando o motivo do aumento do risco de hipertensão arterial à medida que o tempo de uso da terapia explicitada aumenta, de acordo com a literatura Rachid, Marcia, e Mauro Schechter. Manual de HIV/AIDS. Disponível em: Minha Biblioteca, (10th edição). Thieme Brazil, 2017.

Em relação às complicações causadas pela hipertensão(HTN), Portelli Tremont et al., 2020, observou que aqueles pacientes que apresentavam HTN tinham uma maior propensão a sofrerem traumas contusos (79% versus 77%) além de prolongar a duração média de permanência na UTI (CIE 2,00, IC de 95% 1,22-2,77 versus CIE 0,18, IC de 95% -0,68 a 1,04; P  = 0,002) e o tempo total de hospitalização em casos de lesões na cabeça, em comparação com os pacientes no-HTN (CIE 3,03, IC de 95% 2,30-3,76 versus CIE 0,75, IC de 95% 0,25-1,25; P < 0,0001). Paralelamente ao explicitado, é importante salientar que o acidente vascular encefálico, transtorno cerebral mais comum, apresenta como um dos principais fatores de riscos a hipertensão arterial, além da obesidade e do tabagismo, de acordo com Tortora, Gerard, J. e Bryan Derrickson. Princípios de Anatomia e Fisiologia. Disponível em: Minha Biblioteca, (16th edição). Grupo GEN, 2023.  

Ainda de acordo com Portelli Tremont et al., 2020, em relação aos com PD-HTN (hipertensão previamente diagnosticada), os pacientes com ND-HTN (hipertensão diagnosticada durante a admissão do trauma) tendem a ser mais novos (idade média de 31 versus 34 anos; P< 0,001) além de apresentarem menor propensão a possuir comorbidades crônicas previamente identificadas. Por fim, foi reiterado a importância do estudo pois o trauma serve, muitas vezes, como porta de acesso ao sistema de saúde para pacientes mais novos, podendo funcionar como uma oportunidade para a constatação de um HTN. 

Sobre as complicações causadas pela hipertensão, Bahls et al., 2019, determinou em sua meta-análise que um aumento de um desvio padrão da SPA média (HR 1,20, IC 95% 1,11 a 1,29) foi associado a um maior risco de eventos cardiovasculares. Segundo a Diretriz Brasileira de Hipertensão, a SPA média é utilizada para o diagnóstico de Hipertensão Arterial Sistêmica, através do acompanhamento clínico e também com a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial de 24 horas (MAPA), e costuma ser mais utilizada que a monitorização da SPA de linha de base. Dessa forma, percebeu-se que ao utilizar a SPA de linha de base, ao invés da SPA média, resultou em uma progressão anual positiva e riscos futuros de doenças cardiovasculares (HR 1,08, IC 95% 1,02 a 1,14).

  Gowsini et al., 2019, em seu estudo de coorte longitudinal indicou que o LVMi (índice de massa ventricular esquerda) médio em hipertensos era significantemente maior, assim como eventos cardiovasculares (que incluíram mortes e internações) que corresponderam a 69% do total por parte dos hipertensos. Assim, semelhante ao exposto no livro “Fisiologia Humana, Uma Abordagem Integrada (7 edição)” de Dee Unglaub Silverthorn, que explicita os impactos da hipertensão na possibilidade de desenvolvimento de problemas cardiovasculares, em uma abordagem voltada para a fisiologia humana.  Já um aumento no nível de atividades físicas foi relacionado a LVMi mais alta em pessoas que apresentam PA normal, tal associação não ocorreu entre pessoas hipertensas, enquanto independente da presença de LVH (hipertrofia ventricular esquerda), os níveis mais altos de atividade estavam associados a um melhor prognóstico. Explicitando a importância da realização de atividades físicas como fator para um melhor prognóstico. 

 Assim a partir das análises dos artigos citados, pode-se perceber que o sexo e a raça podem ter interfência na incidência da hipertensão arterial, sendo fatores não modificaveis para o diagnóstico, que partem da predisposição e da genética (Elfassy, Tali et al., 2020, Sociedade Brasileira de Cardiologia, literatura Norris, Tommie L. Porth – Fisiopatologia). Assim como existem fatores externos, como o tabagismo, e baixa renda e escolaridade, que também podem ser auxiliadores para uma possível predisposição a um paciente se tornar portador de hipertensão, e de eventos associados, como os riscos cardiovasculares. (Tomás de Souza Mello et al. 2020, Liina Kask-Flight et al., 2021, Ministério da Saúde). Assim, explicitando como uma maior utilização do cigarro pode estar associado a uma facilidade de o organismo adquirir certas comorbidades. Além desses fatores, pacientes que já possuem alguma doença como o HIV, possuem uma maior prevalência de hipertensão, uma possível justificativa para essa recorrência pode ser a utilização de antirretrovirais. (Toulomi, Giota et al., 2020). 

Sobre as complicações da hipertensão no organismo de seus portadores pode-se citar que  esses possuem maior chance de sofrerem traumas contusos, maior tempo de permanência na UTI após o trauma e maior tempo de hospitalização em casos de lesões na cabeça. Já em relação a pacientes que foram diagnosticados com hipertensão na hora do trauma, esses possuem uma menor chance de apresentarem comorbidade crônicas anteriormente identificadas e grande parte são pessoas mais jovens que os previamente diagnosticados. Assim demonstrando que o trauma pode servir como uma forma de pacientes descobrirem comorbidades, principalmente entre aqueles mais novos (Portelli Tremont et al., 2020). 

Ainda sobre fatores de complicação a partir da hipertensão, os riscos cardiovasculares estão diretamente associados, uma vez que os riscos cardiovasculares são muito mais frequentes em hipertensos, e tanto o desvio padrão da SPA média, quanto da SPA de linha de base estão associadas a um risco de tais eventos. Porém, o desvio padrão da SPA média está associado a um maior risco de eventos cardiovasculares, e é mais utilizado para o acompanhamento clínico e diagnóstico, enquanto o SPA de linha de base resulta de uma progressão anual positiva e riscos futuros de doenças cardiovasculares. (Bahls et al., 2019, Gowsini et al., 2019 ,Diretriz Brasileira de Hipertensão, “Fisiologia Humana, Uma Abordagem Integrada (7 edição)” de Dee Unglaub Silverthorn).  Além disso, fator como atividades físicas, promove um aumento no LVMi em não hipertensos, em hipertensos essa associação não ocorreu, mas esses altos níveis de atividade física estão diretamente associados a um melhor prognóstico, independente do LVH (Gowsini et al., 2019). 

Uma vez que o tabagismo, o HIV, o sexo e a raça estão associados a hipertensão, possivelmente também estão associados a riscos cardiovasculares também, porém para se evidenciar tal fato ainda são necessários estudos complementares. Apesar de tantos artigos e livros estudarem acerca da relação entre hipertensão arterial e outros fatores como o tabagismo, o HIV, o sexo, a raça e eventos cardiovasculares, muitos estudos ainda precisam ser feitos para evidenciar de fato essa completa associação. Além disso, para associar a atividade física com a hipertensão arterial, principalmente muitos estudos precisam ser realizados. 

5.   CONCLUSÕES

Portanto, diante dos resultados apresentados, esta revisão sistemática identificou que fatores demográficos, comportamentais e socioeconômicos estão intimamente relacionados à hipertensão arterial em jovens, com destaque para a influência do tabagismo, sedentarismo e a presença de comorbidades, como o HIV. 

As evidências sugerem que estratégias de saúde pública devem ser priorizadas para abordar a hipertensão em populações jovens, em especial o público massculino, focando na promoção de estilos de vida saudáveis, monitoramento contínuo das condições de saúde e conscientização da população sobre a necessidade de acompanhamento médico, priorizando o diagnóstico precoce de possíveis doenças. Em resumo, os dados indicam que é preciso maior enfoque multifatorial para a saúde cardiovascular, sendo necessário mais estudos para definir as melhores práticas a serem seguidas.

Ademais, é essencial conduzir estudos adicionais com maior escopo, que explorem a eficácia de abordagens integradas e a interação entre diferentes fatores de risco, bem como a implementação de programas de prevenção a longo prazo.  

REFERÊNCIAS 

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TORTORA, Gerard J.; DERRICKSON, Bryan. Princípios de anatomia e fisiologia. Editora:  Guanabara Koogan; 16ª edição, 2023. Idioma:  Português. Disponível em: Minha Biblioteca. Acesso em 15 out. 2024.  

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SILVERTHON, Dee Unglaub. Fisiologia Humana, Uma Abordagem Integrada. Editora:  Artmed; 7ª edição, 2017. Idioma:  Português.  Disponível em: Minha Biblioteca. Acesso em 15 out. 2024. 

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1 Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail:
karina.bittencourt@souunit.com.br
2 Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail:
maria.cvitorio@souunit.com.br
3 Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail:
newtnn.medicalschool1@gmail.com.br
4 Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail:
romulo.carvalho@souunit.com.br
5 Discente Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail:
anna.llima@souunit.com.br
6 Discente Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail:
lavinia.menezes@souunit.com.br
7 Discente Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail:
flavia.aftm@gmail.com.br