STUDY OF THE ANATOMY OF THE ROOT CANALS OF THE MANDIBULAR INCISORS USING THE DIAPHANIZATION PROCESS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202503201831
Daniele Ramos de Oliveira Santos1
Antônio Henrique Braitt2
RESUMO
Introdução: A complexidade da anatomia do Sistema de Canais Radiculares ainda se apresenta como um desafio para o tratamento endodôntico, que tem como base o preparo químico-mecânico e sua completa obturação. A diafanização é o processo que permite a visualização do canal radicular tridimensionalmente, facilitando assim o estudo e auxiliando o profissional durante o tratamento. Objetivo: O presente artigo trata-se de uma revisão de literatura sobre o Estudo da anatomia do Sistema de Canais Radiculares utilizando o processo de diafanização. Materiais e Métodos: Este artigo se pauta em uma revisão de literatura sistemática, com o objetivo de reunir e analisar estudos sobre a anatomia dos Incisivos Inferiores utilizando o processo de diafanização. Foi realizado um levantamento bibliográfico do período de 1925 a 2020. Os artigos foram obtidos de bases escolhidas através do Google Acadêmico, foram inseridas algumas variações como: “Técnica de Diafanização”, “Anatomia dos Incisivos Inferiores”, “Tratamento Endodôntico”. Tais variações dos descritores possibilitaram ampliar as possibilidades de encontrar resultados significativos para o tema, foram incluídos também capítulos de livros relevantes. Resultados: Espera-se com esse estudo contribuir com a visualização tridimensional do Sistema de Canais Radiculares, bem como o conhecimento da anatomia interna dos incisivos inferiores auxiliando sucesso do tratamento endodôntico. Conclusão: Essa revisão de literatura enfatiza a importância do conhecimento da Anatomia dos Canais Radiculares dos Incisivos inferiores, para o auxílio do profissional no tratamento endodôntico. Tal estudo visa a diminuição de falhas na instrumentação, irrigação e obturação, garantindo o sucesso do procedimento. Portanto, o processo de diafanização é crucial para o estudo e para adquirir conhecimento, permitindo através da visualização tridimensional, uma análise detalhada da morfologia dos Canais Radiculares; garantindo assim, para o cirurgião-dentista maior segurança, uma melhor compreensão anatômica desse elemento, aprimoramento da técnica clínica, possibilita o planejamento e a escolha da melhor abordagem para o preparo químico-mecânico, a qualidade dos procedimentos e a garantia dos melhores prognósticos para os pacientes.
PALAVRAS CHAVES: Incisivo inferior, Tratamento endodôntico, Diafanização.
ABSTRACT
Introduction: The complexity of the anatomy of the Root Canal System still presents a challenge for endodontic treatment, which is based on physical-mechanical preparation and complete filling. Clearing is the process that allows the root canal to be viewed in three dimensions, thus facilitating the study and assisting the professional during treatment. Objective: This article is a literature review on the Study of the anatomy of the Root Canal System using the clearing process. Materials and Methods: This article is based on a systematic literature review, with the aim of gathering and analyzing studies on the anatomy of the Lower Incisors using the clearing process. A bibliographical survey was carried out from the period from 1925 to 2020. The articles were obtained from databases chosen through Google Scholar, some variations were inserted such as: “Clearing Technique”, “Anatomy of Lower Incisors”, “Endodontic Treatment”. Such variations in descriptors made it possible to expand the possibilities of finding significant results for the topic, chapters from relevant books were also included. Results: This study is expected to contribute to the three-dimensional visualization of the Root Canal System, as well as knowledge of the internal anatomy of the lower incisors, helping the success of endodontic treatment. Conclusion: This literature review emphasizes the importance of knowledge of the Anatomy of the Root Canals of Lower Incisors, to assist professionals in endodontic treatment. This study aims to reduce failures in instrumentation, supervision and obturation, ensuring the success of the procedure. Therefore, the clearing process is crucial for the study and to acquire knowledge, allowing, through threedimensional visualization, a detailed analysis of the morphology of Root Canals; thus ensuring greater safety for the dentist, a better anatomical understanding of this element, improvement of clinical technique, enabling planning and choosing the best approach for chemicalmechanical preparation, the quality of procedures and ensuring the best prognoses for patients. KEY WORDS: Mandibular incisours, Endodontic treatment, Diaphanization.
INTRODUÇÃO
A endodontia é uma área da odontologia que estuda a estrutura, funcionamento e doenças da polpa dentária e dos tecidos perirradiculares. Essa especialidade abrange tanto os aspectos teóricos quanto práticos, incluindo a biologia da polpa saudável, bem como o diagnóstico, prevenção e tratamento de doenças e lesões que afetam a polpa e os tecidos ao redor da raiz do dente1.
A terapia endodôntica tem como principal objetivo realizar o preparo químico-mecânico dos canais radiculares, assegurando sua desinfecção e completa obturação. Para que o tratamento endodôntico seja executado de forma adequada, é essencial compreender a anatomia tridimensionalmente do dente, incluindo o número de raízes, número de canais, localização dos mesmos, formato da cavidade pulpar, além das possíveis curvaturas e características anatômicas que podem surgir nos diferentes casos a serem tratados2,3. A prioridade fundamental de uma terapia endodôntica eficaz é garantir o acesso, a modelagem e a limpeza adequada do Sistema de Canais Radiculares, permitindo assim, o preenchimento completo e eficiente de todo o espaço do canal.
De acordo com Pineda e Kuttler4, o conhecimento detalhado da morfologia interna dos canais radiculares é essencial para desobstruí-los, prepará-los e preenchê-los de maneira adequada. A falta desse entendimento pode resultar em falhas no tratamento endodôntico e, em alguns casos, até na perda dentária. A morfologia dentária é bastante variável, evidenciando que os canais radiculares não se limitam a um único espaço tubular. Na verdade, eles constituem um sistema complexo, que podem incluir canais acessórios, secundários, laterais e diversas comunicações5.
O mecanismo de formação das ramificações dos canais radiculares ainda não é totalmente compreendido. Supõe-se que elas possam ocorrer em áreas onde a raiz em desenvolvimento encontra um vaso sanguíneo. Quando ocorre a ruptura da continuidade do epitélio radicular de Hertwig ou uma falha na indução odontoblástica em determinada região, nessa área aparecerá o defeito correspondente da parede da dentina, tendo assim, como consequência, a formação de canais radiculares acessórios.
As anomalias na orientação das raízes e dos canais radiculares podem, por vezes, comprometer a eficiência na ação dos instrumentos utilizados no tratamento.
Em alguns casos, a presença de ramificações do canal principal pode dificultar a remoção dos tecidos pulpares (alterados ou separados das fontes de nutrição5.
Torna-se fundamental o conhecimento da anatomia interna dos diferentes grupos dentais. Contudo, o interesse pelo tema começa por volta de meados do século XIX. Fischer foi o pioneiro ao desenvolver o primeiro estudo sistemático sobre a anatomia interna dos dentes, enquanto Hess, aprimorando as técnicas propostas por Fischer, alcançou conclusões consideradas completas e definitivas até os dias atuais. Por meio de métodos como vulcanização e diafanização de dentes de seres humanos, ficou claro a grande variabilidade nos aspectos topográficos da cavidade pulpar.
As primeiras observações sobre a topografia dos canais radiculares datam de 1891. Uma descrição mais detalhada dos canais radiculares, incluindo o número e a direção dos mesmos, foi feita por Carabelli (1844). Posteriormente, em 1891, Mühlreiter foi o primeiro a dedicar-se ao estudo e à escrita sobre a anatomia dos dentes humanos. Em 1903, Miller destacou a importância de um conhecimento preciso da anatomia dos canais radiculares, mostrando um diagrama com diferentes variedades de formas e trajetos de canais radiculares5.
Ao longo dos anos, várias técnicas e métodos têm sido empregados para a exploração da topografia da cavidade pulpar. Esses incluem estudos microscópicos, radiográficos, cortes anatômicos, iontoforese e injeções. A técnica de Hess, inclusão de plástico, diafanização, imagem digital e combinações variadas dessas abordagens5.
A diafanização foi inicialmente empregada por Okumura7, em seguida vários autores, como Fisher et al. (1975), Robertson et al. (1980), Ritano et al. (1990). Além de ser utilizada para examinar a anatomia do Sistema de Canais Radiculares, a diafanização também foi aplicada para comparar técnicas de obturação e avaliar a eficácia de soluções irrigadoras. Essa técnica demonstrou grande eficiência na revelação das estruturas internas dos dentes, preservando ao mesmo tempo as referências externas.
A técnica da diafanização nos proporciona ter essa visão tridimensional do Sistema de Canais Radiculares, mostrando-nos maiores detalhes que serão importantes para o tratamento e terapêutica clínica.
Os incisivos inferiores são os menores dentes da arcada humana. O incisivo central inferior apresenta sempre uma raiz única, fina e achatada no sentido mesiodistal. Esse achatamento pode chegar a produzir uma aderência ou o fusionamento das paredes laterais, dando lugar a um conduto bifurcado normalmente localizado no terço médio.
Em estudo, Barrett6 concluiu que 28,1% dos incisivos centrais inferiores apresentam mais de conduto.
No que diz respeito ao conduto radicular do incisivo central inferior, o incisivo lateral inferior diferencia-se muito pouco.
Ao estudar os incisivos inferiores centrais e laterais, Hess (1921), comprovou que 37,6% apresentava seu conduto bifurcado; 30% tinha ramificações apicais e 10% condutos medulares. Para Okumura (1927), as proporções são respectivamente 11,1%, 10,4% e 5,2%; ao passo que para Keller (1928) os números seriam: 33%, 7,8% e 0,9%,
Portanto, estudamos a anatomia do Sistema dos Canais Radiculares dos incisivos inferiores pela técnica da diafanização, com o propósito de auxiliar o profissional durante a intervenção na cavidade pulpar e em estruturas relacionadas, uma vez que, na clínica, o único método utilizado para realização do diagnóstico é o exame radiográfico, apenas com a visão bidimensional.
Sabe-se que apesar de vários estudos realizados sobre a anatomia interna dos canais radiculares, ainda restam dúvidas relacionadas aos aspectos morfológicos internos de vários grupos dentários. Logo, ter o conhecimento desses aspectos é de extrema importância, pois durante um tratamento endodôntico, dificuldades podem existir devido às diversas variações encontradas. Nesse sentido, quais variações podem ser encontradas nos canais radiculares dos incisivos inferiores?
É notório, o número de estudo sobre a técnica de diafanização para a análise dos canais radiculares dos elementos dentários, entende-se também, a importância no auxilio clínico para os profissionais dedicados ao tratamento endodôntico. Partindo dessa premissa, que contribuição essa técnica vai trazer para o estudo da anatomia interna dos canais radiculares dos incisivos inferiores?
Uma das razões para o insucesso da terapia endodôntica está nas obturações e presença de canais não tratados que passam desapercebidos pelo profissional. Assim, pretende-se com esse estudo mostrar a eficácia da técnica da diafanização, no estudo da anatomia dos canais radiculares, com isso, auxiliar o clínico no conhecimento e aplicabilidade segura da terapia endodôntica, promovendo então, a eficiência ao profissional, melhoria dos resultados para o paciente e segurança ao tratamento endodôntico. Tendo em vista, que para o tratamento de sucesso, o profissional pode utilizar de técnicas simples e princípios básicos como por exemplo o entendimento da anatomia de cada elemento.
REVISÃO DA LITERATURA
O tecido pulpar do dente íntegro é protegido contra microrganismos presentes na cavidade bucal, principalmente pelo esmalte ou cemento, contudo, quando a integridade destes tecidos é comprometida por cárie, traumas dentários ou procedimentos restauradores a polpa torna-se vulnerável a infecções no complexo dentinho-pulpar, podendo evoluir para uma doença pulpar periapical. Para impedir que essas infecções se disseminem para os tecidos periapicais é necessária a realização de uma intervenção por meio do tratamento endodôntico8. O tratamento endodôntico tem como objetivo principal permitir que o dente desvitalizado permaneça na cavidade bucal, mantendo sua funcionalidade na fisiologia oral. Além, disso, busca evitar que o dente se torne um agente causador de doenças nos tecidos perirradiculares, conforme apontado por Grossman9, Sommer et al10 e Cohen e Hargreaves11). De acordo com Cohen e Hargreaves11 e Leonardo12, o sucesso do tratamento endodôntico depende da remoção completa dos resíduos orgânicos pulpares e dos microrganismos presentes nos canais radiculares. Além disso, é essencial ampliar o diâmetro dos canais e dar-lhes uma forma adequada para acomodar o material obturador, por meio do processo de sanificação e modelagem. E assim, preencher completamente com materiais biocompatíveis, impedindo sua contaminação.
O preparo químico mecânico, tem como finalidade a remoção os resíduos necróticos da polpa e os microrganismos presentes nos canais radiculares, além da ampliação e modelagem do canal radicular, favorecendo a obturação. No entanto, é fundamental que essa etapa seja realizada de forma minuciosa em todos os canais radiculares presentes, para evitar que microrganismos permaneçam na cavidade pulpar. Por isso, o preparo químico-mecânico é considerado a etapa mais crucial do tratamento endodôntico, demandando do profissional tanto destreza clinica quanto amplos conhecimentos teóricos12,13.
As falhas técnicas em sua maioria durante a etapa de preparo biomecânico do Sistema de Canais Radiculares, resultam nos insucessos na terapia endodôntica. Essas falhas podem comprometer a conclusão adequada dos procedimentos intracanais subsequentes, como a obturação, que é essencial para o controle e a prevenção da infecção endodôntica13,14. Com o avanço técnico e científico proporcionados por novos materiais, instrumentais e aparelhos endodônticos, tornou-se possível realizar uma endodontia de excelência que eleva, de certa forma, o índice de sucesso dos tratamentos endodônticos convencionais. Até a década clínico obtido após o tratamento,19,20. A literatura nos mostra que os índices de sucesso clinico na terapêutica endodôntica atualmente superam os 90%, o que evidencia a eficácia das melhorias técnicas e científicas na área da Endodontia.
Desse modo, os tratamentos endodônticos têm evoluído com o objetivo de preparar o Sistema de Canais Radiculares para receber uma obturação hermética, garantido a preservação da saúde dos tecidos periapicais e/ou sua recuperação quando acometidos por lesões. Para alcançar tais metas, é necessário cumprir dois requisitos fundamentais: primeiro, um conhecimento profundo da morfologia interna dos canais radiculares, incluindo suas características morfológicas mais comuns e segundo uma preparação químico-mecânica adequada, seguida da obturação dos mesmos, conforme enfatiza23.
A morfologia dentária varia em suas características, mostrando que a configuração dos canais não se trata apenas um espaço tubular único e sim um complexo sistema apresentando canais acessórios, canais secundários, canais laterais e comunicações5.
É essencial que o profissional tenha uma visualização espacial do Sistema de Canais Radiculares considerando as variações que podem ocorrer entre grupos dentários, entre raízes de um mesmo dente e entre os canais existentes em uma mesma raiz. Além disso, é importante levar em conta a localização do dente em relação ao arco dental. É importante lembrar que, além dos aspectos anatômicos, condições patológicas podem modificar significativamente a anatomia da cavidade pulpar e seus arredores. A modelagem e a limpeza do sistema de canais radiculares devem idealmente abranger toda a extensão da cavidade pulpar. Portanto, compreender essas possíveis alterações é indispensável para alcançar o sucesso na terapia endodôntica 3.
Os incisivos inferiores são os menores dentes da arcada humana. Quando em posição natural (in situ), o incisivo central inferior geralmente apresenta sua extremidade apical mais próxima da lâmina óssea interna do que da lâmina externa.
O Incisivo Central Inferior é o menor dente e o mais simétrico da cavidade bucal. Sua raiz possui uma secção oval, com o formato significativamente achatado no sentido mésio distal, e é bastante fina. Suas faces proximais apresentam sulcos longitudinais amplos e pouco profundos, enquanto as faces vestibular e lingual são delimitadas por bordas espessas, com a borda vestibular mais proeminente. O ápice da raiz pode ocasionalmente, estar ligeiramente recurvado no sentido vestibular. Geralmente, os eixos longitudinais da coroa e da raiz estão alinhados no mesmo plano. Em alguns casos, a raiz pode inclinar-se levemente, tanto no sentido mesial como no distal. As angulações e curvaturas são raras10.
O canal radicular reflete à forma exterior da raiz, apresentando, portanto, um pronunciado achatamento no sentido mésio distal e maior extensão no sentido vestíbulo lingual.
Esse achatamento no sentido mésio distal pode ser tão acentuado que o canal pode se bifurcar, parcial ou totalmente. Quando ocorre esta bifurcação, geralmente localizada na parte mais larga da raiz, o canal se divide em dois ramos: um ramo vestibular e outro lingual, que quase sempre voltam a se unir novamente, formando um único forame 5.
De Deus5, avaliando 62 Incisivos Centrais Inferiores diafanizados de indivíduos adultos jovens, obteve, quanto ao número de canais, o seguinte resultado: 73,4% com canal único, único forame; 23,4% com dois canais; canal bifurcado, sendo um ramo vestibular e outro lingual, com um único forame; 3,2% com dois canais e com dois forames.
O Incisivo Lateral Inferior apresenta in situ, as mesmas observações já feitas para o Incisivo Central Inferior. Número de raiz única, sem apresentar bifurcações.
Na forma da raiz, o Incisivo Lateral Inferior diferencia-se muito pouco, na sua porção radicular, daquela já mencionada para o Incisivo Central Inferior. Porém, a raiz é maior em todas as dimensões e com as inclinações mais pronunciadas, quando existentes, do que as do incisivo central inferior. Além disso, ela apresenta uma divergência mais acentuada das faces proximais deste dente, em relação com o Central5.
Quanto ao número de canais, em 52 dentes diafanizados, o autor encontrou o seguinte resultado: 84% canal único, um único forame; 15,4% dois canais; canal bifurcado, sendo um ramo vestibular e outro lingual, com um único forame.
Devido à posição do dente, o canal é mais fácil de ser acessado. Os dentes incisivos inferiores são menos frequentemente envolvidos entre todos os outros, no tratamento dos canais radiculares. O dente não apresenta problemas de difícil resolução para a execução do tratamento e obturação do canal, mesmo quando há existência de bifurcações.
Técnica da Diafanização
A diafanização é uma técnica que compõe o processo de preparos histológicos, sendo também utilizada também para a preservação de amostras biológicas. Trata-se de um método eficiente, simples e rápido para a análise e conservação das estruturas ou tecidos estudados. Por ser de fácil emprego e baixo custo, torna-se um método prático para o estudo da Anatomia Interna Dental. Ao tornar o dente transparente, tem-se uma visão tridimensional da cavidade pulpar ao mesmo tempo em que se mantém a integridade morfológica do dente, possibilitando uma análise detalhada entre a anatomia interna e externa do mesmo24.
Chang SW, et al.25 analisaram diversas técnicas de visualização na área da endodontia e chegaram a uma conclusão que as imagens radiográficas não reproduzem de forma efetiva as características anatômicas encontradas no Sistema de Canais Radiculares. A radiografia periapical convencional, tomada logo após a conclusão do tratamento endodôntico, não determina o sucesso e o insucesso do tratamento26.
O uso da técnica de diafanização é corretamente viável nas pesquisas ex vivo, pois se trata de uma técnica simples e econômica, que permite a conservação dos espécimes por longos períodos, possibilitando uma visualização de todo o processo do tratamento endodôntico, conforme relatado por25,27,28,
A técnica de diafanização permitiu, classificar pela primeira vez a anatomia dos canais radiculares, oferecendo uma visão tridimensional dos dentes, na qual o espécime fica transparente sem ocorrer, no entanto, quaisquer modificações em sua estrutura anatômica30,31. Esse processo é considerado simples e rápido, sendo realizado com substância de baixa toxicidade e sem necessidade de aparelhagens complexas, como demonstrado por Galafassi et al. (2007).
A anatomia do Sistema de Canais Radiculares é complexa, de modo geral, composta de ramificações apicais ou coronárias, canais colaterais, acessórios e comunicações entre canais (Vier et al., 2004).
Martin e Azeredo (2014) no processo de diafanização utilizaram xilol e demonstraram que o exame radiográfico apresentou limitações na visualização de algumas características anatômicas, como, por exemplo, a permeabilidade dentária, que não pôde ser vista radiograficamente, ainda que, esta característica tenha sido observada na técnica da diafanização em 95,4% dos canais radiculares (Martin; Azeredo, 2014).
A diafanização, segundo Cunha (1948), possibilita, a visualização da forma e topografia dos condutos sem perder a relação com a estrutura dental. Com esse método, obtêm-se dentes transparentes e perante os dentes diafanizados passa a existir uma imagem segura e complexa de um canal sob o ponto de vista anatômico, fornecendo informações cruciais para a prática clínica. Conforme Aprile (1947), o processo da diafanização não oferece problemas. O contraste nítido das cavidades após a coloração e de seus contornos facilita o estudo detalhado da topografia dos canais radiculares.
O método de diafanização tem como principais benefícios à rapidez com que todo o processo pode ser concretizado, além de ser econômico. A técnica permite maior apreciação da anatomia do canal radicular, além de ser amplamente utilizado em aulas e na análise clínica dos dentes com tratamentos fracassados. Figura 1 e 2.
Figura 1: Incisivo Central inferior diafanizado

Figura 2: Incisivo Lateral Inferior Diafanizado

MATERIAIS E MÉTODOS
Este artigo se pauta em uma revisão de literatura sistemática, com o objetivo de reunir e analisar estudos sobre a anatomia dos Incisivos Inferiores utilizando o processo de diafanização.
Fontes de Dados
Foi realizado um levantamento bibliográfico disponível no período de 1925 a 2020. Os artigos foram obtidos de bases escolhidas através do Google Acadêmico, foram inseridas algumas variações como: “Técnica de Diafanização”, “Anatomia dos Incisivos Inferiores”, “Tratamento Endodôntico”. Tais variações dos descritores possibilitaram ampliar as possibilidades de encontrar resultados significativos para o tema, foram incluídos também capítulos de livros relevantes.
Critérios de inclusão:
- Estudos que abordam sobre a Anatomia dos Incisivos inferiores e processo de diafanização.
- Artigos e livros em português, inglês e espanhol.
Critérios de Exclusão:
- Não aplicam a técnica de diafanização na análise da anatomia dentária.
- Tratam exclusivamente de outros elementos dentais sem a inclusão dos incisivos inferiores.
- Não apresentam bases claras e dados confiáveis.
Análise metodológica
Os livros e os artigos escolhidos foram examinados com base em sua metodologia, explicação do processo de diafanização e nos principais resultados relacionados à anatomia dos incisivos inferiores. Além disso, a eficácia da diafanização foi analisada quanto à sua capacidade de revelar estruturas internas, bem como as variações anatômicas e os canais radiculares.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Esse estudo promove a visualização tridimensional do Sistema de Canais Radiculares, bem como o conhecimento da anatomia interna dos incisivos inferiores auxiliando o tratamento endodôntico de sucesso. Contribuindo assim, no planejamento clínico e na diminuição de falhas na prática clínica, vez que o conhecimento e domínio da anatomia dos Sistemas de Canais Radiculares é primordial para o bom tratamento endodôntico clínico ou cirúrgico.
Deve-se ter a consciência de que a Anatomia Interna Dental é muito mais complexa que sua imagem radiográfica ou mesmo sua imagem tomográfica.
Endodontia é Biologia aplicada tecnicamente e o sucesso no tratamento está na dependência da modelagem do canal principal, do saneamento do Sistema de Canais e da obturação tridimensional, o que se alcança com o conhecimento e o domínio da anatomia.
CONCLUSÃO
Essa revisão de literatura enfatiza a importância do conhecimento da Anatomia dos Canais Radiculares dos Incisivos inferiores, para o auxílio do profissional no tratamento endodôntico. Tal estudo visa a diminuição de falhas na instrumentação, irrigação e obturação, garantindo o sucesso do procedimento. Portanto, o processo de diafanização é crucial para o estudo e para adquirir conhecimento, permitindo através da visualização tridimensional, uma análise detalhada da morfologia dos Canais Radiculares; garantindo assim, para o cirurgiãodentista maior segurança, uma melhor compreensão anatômica desse elemento, aprimoramento da técnica clínica, possibilita o planejamento e a escolha da melhor abordagem para o preparo químico-mecânico, a qualidade dos procedimentos e a garantia dos melhores prognósticos para os pacientes.
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¹Acadêmica do Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI)
²Professor de Endodontia Clínica no Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus. Coordenador do Curso de Especialização em Endodontia do Instituto Excellence (Ilhéus). Especialista e Mestre em Endodontia.