ESTRATÉGIAS PARA MELHORAR A ADESÃO AO PRÉ-NATAL CLÍNICO E ODONTOLÓGICO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

STRATEGIES TO IMPROVE ADHERENCE TO PRENATAL CLINICAL AND DENTAL CARE IN PRIMARY HEALTH CARE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202503272140


Fabiane Montagna1


Resumo

A adesão inadequada ao pré-natal clínico e odontológico entre gestantes atendidas pela Unidade Básica de Saúde (UBS) Setor 10, situada em uma área de vulnerabilidade social, compromete o cuidado integral e a prevenção de complicações gestacionais. Com o objetivo de superar barreiras e fortalecer a Atenção Primária à Saúde, este projeto de intervenção propõe ações educativas contínuas e o agendamento integrado de consultas para incentivar o acompanhamento adequado. Espera-se, como resultado, um aumento na adesão das gestantes ao pré-natal e um atendimento mais equitativo, que promova a saúde maternoinfantil e forneça subsídios para a formulação de políticas de saúde voltadas à redução das desigualdades no acesso aos serviços essenciais.

Palavras-chave: Cuidado Pré-Natal, Promoção da Saúde, Agendamento de Consultas

1 INTRODUÇÃO

A adesão às consultas de pré-natal é um fator decisivo para a redução das complicações gestacionais e perinatais, garantindo uma atenção integral à saúde da gestante e do recém-nascido. No contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), a Unidade Básica de Saúde (UBS) Setor 10, localizada em uma área de vulnerabilidade social, enfrenta desafios específicos em garantir que as gestantes realizem o acompanhamento pré-natal completo.

Apesar das diretrizes nacionais que recomendam um mínimo de seis consultas pré-natais ao longo da gestação, com realização da primeira consulta de pré-natal até 120 dias da gestação, incluindo o atendimento odontológico (BRASIL, 2008), muitos fatores impedem uma adesão regular a esse cuidado essencial.

Estudos indicam que fatores como baixa escolaridade, falta de informação sobre a importância do pré-natal, barreiras geográficas e limitações financeiras influenciam diretamente a adesão das gestantes (FRAGA, 2011). Na UBS Setor 10, observa-se que muitas gestantes iniciam o pré-natal tardiamente, não realizam o número mínimo de consultas, e a busca pelo atendimento odontológico é frequentemente negligenciada. Além disso, há uma lacuna no entendimento sobre a importância da realização dos exames de rotina do pré-natal, devido ao desconhecimento e à desinformação por parte dos pacientes (RODRIGUES CS; GUIMARÃES, 2004).

A realidade observada no UBS Setor 10 reflete um padrão encontrado em outras áreas de vulnerabilidade social no Brasil, onde as barreiras de acesso aos serviços de saúde e a falta de integração entre os diferentes setores de atendimento comprometem a qualidade da assistência (SALDAÑA, 2023). O papel da equipe multiprofissional é fundamental nesse cenário, pois cabe aos profissionais de saúde identificar e atuar sobre essas barreiras, oferecendo um acolhimento mais eficiente e um cuidado integral (BRASIL, 2008).

Uma estratégia promissora para enfrentar essas dificuldades é o fortalecimento das ações educativas e o agendamento conjunto de consultas pré-natais e odontológicas. A promoção de atividades educativas contínuas, como palestras e visitas domiciliares realizadas por agentes comunitários de saúde, visa aumentar a conscientização das gestantes e facilitar seu acesso ao atendimento (DIAS, 2024). Essas intervenções podem ser complementadas pela análise de relatórios de gestão, que indicam a frequência e a adesão ao pré-natal, permitindo à equipe de saúde avaliar o impacto das ações e realizar as configurações necessárias.

Dessa forma, este estudo se propõe a avaliar a adesão das gestantes às consultas de pré-natal, incluindo o acompanhamento odontológico, na UBS Setor 10. O objetivo é proporcionar intervenções que promovam um atendimento mais equitativo e acessível, por meio de estratégias educativas e do agendamento conjunto de consultas, fortalecendo a APS e garantindo um cuidado integral para as gestantes

2 METODOLOGIA

Esta pesquisa será realizada na Unidade Básica de Saúde (UBS) Setor 10, localizada em Ariquemes, RO. A intervenção ocorrerá ao longo de um período de 12 meses, com início no terceiro quadrimestre de 2024. Após esse período, o objetivo é integrar as ações às rotinas regulares da equipe de saúde, promovendo a continuidade das intervenções. Os participantes da intervenção serão as gestantes atendidas pela UBS Setor 10 e a equipe multiprofissional envolvida, incluindo enfermeiros, médicos, cirurgiões-dentistas e agentes comunitários de saúde. O projeto utilizará dados agregados e relatórios administrativos do sistema de saúde para análise.

A intervenção será organizada em quatro etapas principais, com a designação de responsáveis e prazos para cada ação:

Etapa 1: Capacitação da Equipe Multiprofissional Uma equipe de saúde será capacitada para atuar de forma integrada, focada no cuidado integral e contínuo das gestantes. A capacitação abordará estratégias educativas, inclusão social e importância de promoção do atendimento clínico e odontológico coordenado. Esta etapa será realizada no primeiro mês da intervenção.

Etapa 2: Implementação do Agendamento Conjunto Serão organizados agendamentos de consultas pré-natais e odontológicas, facilitando o acesso das gestantes aos serviços integrados de saúde. O agendamento será definido de acordo com as demandas e disponibilidades das gestantes, promovendo maior adesão e continuidade nos acompanhamentos clínicos e odontológicos.

Etapa 3: Atividades Educativas Contínuas Serão realizadas palestras informativas sobre a importância do pré-natal e visitas domiciliares conduzidas por agentes comunitários de saúde, com o intuito de conscientizar as gestantes sobre a importância do acompanhamento clínico e odontológico. Essas atividades ocorrerão de forma contínua durante todo o período de intervenção.

Etapa 4: Distribuição de Materiais Educativos Serão distribuídos cartazes informativos, que destacam a importância do acompanhamento clínico e odontológico durante a gestação, além de alertar sobre possíveis complicações que podem surgir sem o devido cuidado. A distribuição será feita durante consultas e visitas domiciliares.

Formas de Avaliação e Monitoramento:

O monitoramento da intervenção será feito por meio de relatórios quadrimestrais de atendimento, que permitirão avaliar a frequência e adesão das gestantes às consultas de pré-natal e ao acompanhamento odontológico. Os dados agregados dos relatórios, serão analisados quantitativamente para identificar padrões de adesão e as melhorias promovidas pelas intervenções. O impacto das ações educativas e do agendamento conjunto será analisado comparativamente com os padrões de adesão observados em períodos anteriores, considerando também fatores socioeconômicos e geográficos, como a localização das gestantes em áreas rurais.

Paralelamente, será realizada uma revisão de literatura com foco nos últimos 10 anos, consultando bases de dados como PubMed, SciELO, LILACS e Google Scholar, abordando temas como adesão ao pré-natal e cuidados odontológicos durante a gestação. Esta revisão fornecerá embasamento teórico às recomendações e práticas do projeto.

3 RESULTADOS

Os dados obtidos indicaram que a adesão das gestantes às consultas de pré-natal odontológico e à realização dos exames de sífilis e HIV na Unidade Básica de Saúde Setor 10 (UBS) ainda é limitada. Observou-se que fatores como residência em área rural, início tardio do pré-natal e falta de conhecimento sobre a importância da assistência odontológica durante a gestação influenciaram negativamente a adesão. As estratégias de agendamento conjunto, palestras educativas e distribuição de materiais informativos demonstraram potencial para melhorar os indicadores, reforçando a necessidade de intervenções contínuas para ampliar o acesso e adesão das gestantes a esses serviços essenciais.

4 DISCUSSÃO

A baixa adesão das gestantes ao pré-natal odontológico e aos exames de sífilis e HIV reforça achados de estudos prévios que apontam barreiras no acesso aos serviços de saúde, especialmente em populações vulneráveis (SILVA et al., 2020). A literatura demonstra que a desinformação e a carência de políticas públicas voltadas à promoção da saúde bucal materna são fatores determinantes para a não adesão (SANTOS et al., 2019). Além disso, o início tardio do pré-natal e a distância geográfica entre a residência das gestantes e os serviços de saúde também dificultam a procura por atendimento odontológico (PEREIRA et al., 2021).

A importância da assistência odontológica durante a gestação está amplamente documentada. Segundo Costa et al. (2022), doenças periodontais não tratadas podem estar associadas a complicações obstétricas, como parto prematuro e baixo peso ao nascer. No entanto, a crença equivocada de que tratamentos odontológicos podem ser prejudiciais ao feto ainda é um fator limitante para a adesão das gestantes (MENEZES et al., 2018). Dessa forma, a implementação de estratégias de educação em saúde é fundamental para reverter esse quadro.

As ações implementadas neste estudo, como palestras educativas e distribuição de materiais informativos, demonstraram impacto positivo na conscientização das gestantes sobre a importância da saúde bucal no pré-natal. Essas estratégias corroboram achados de Lima et al. (2020), que identificaram que intervenções educativas são eficazes na mudança de comportamento e no aumento da adesão aos serviços de saúde. Além disso, a integração entre diferentes áreas da saúde, como odontologia e obstetrícia, mostrou-se essencial para um atendimento mais abrangente e eficaz (SILVEIRA & FERREIRA, 2021).

Por fim, o agendamento conjunto das consultas demonstrou ser uma alternativa viável para aumentar a adesão aos serviços de saúde materna. Estudos anteriores apontam que a flexibilidade no agendamento e a disponibilização de horários compatíveis com a rotina das gestantes são estratégias essenciais para melhorar os índices de comparecimento às consultas (OLIVEIRA et al., 2017). Assim, a continuidade dessas ações poderá contribuir significativamente para a ampliação da cobertura do pré-natal odontológico e dos exames de sífilis e HIV, promovendo melhores indicadores de saúde materno-infantil.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente projeto evidencia a importância das intervenções propostas para promover um cuidado mais inclusivo e contínuo no pré-natal da UBS Setor 10. A identificação das barreiras geográficas e socioeconômicas que impactam a adesão das gestantes permite direcionar esforços de forma mais eficaz, melhorando a comunicação e o vínculo entre profissionais de saúde e pacientes. As estratégias educativas contínuas e o agendamento conjunto de consultas, ao se integrarem à rotina do serviço, têm o potencial de oferecer um atendimento mais acolhedor e acessível, garantindo que os resultados sejam sustentáveis a longo prazo. Espera-se que esta intervenção forneça uma base pública sólida para a formulação de políticas que reforcem a equidade na APS, possibilitando a replicação das intervenções em outras áreas vulneráveis e contribuindo para a redução das desigualdades no acesso aos serviços de saúde essenciais, garantindo um cuidado integral e humanizado

REFERÊNCIAS

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1Médica bacharel pelas Faculdades Integradas Aparício Carvalho – FIMCA. email: Fabiane_montagna@hotmail.com