ESTIMATIVA DA TAXA DE FILTRAÇÃO GLOMERULAR EM HIPERTENSOS E/OU DIABÉTICOS ATRAVÉS DA EQUAÇÃO CKD-EPI

ESTIMATED OF GLOMERULAR FILTRATION RATE IN HYPERTENSIVE AND/OR DIABETIC PATIENTS USING THE CKD-EPI EQUATION

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512240619


Ana Karla Casimiro de Aragão¹; Nalanda Maria Ferreira Cordeiro²; Jayane Ellen Pereira Farias²; Ruan Alves Mota²; Luana Yasmin Marinho Gonçalves²; Gabrielly Regina de Castro²; César Augusto Ferreira Rodrigues²; Heloísa Santos Alves²; Ana Beatriz Gomes de Sousa Farias²;  Maria do Socorro Ramos de Queiroz³


RESUMO

A Doença renal crônica (DRC) é ocasionada por lesões nos rins que caracteriza-se por alterações estruturais ou funcionais neste órgão, de modo que tem seu diagnóstico por meio de exames de sangue ou de urina ou através da redução na Taxa de Filtração Glomerular estimada (TFGe), que é um parâmetro importante para se detectar a DRC precocemente e acompanhar a sua evolução. A DRC tem diversos fatores de risco, entre eles estão as doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT), como Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e Diabetes mellitus (DM), além destes destacam-se também o sedentarismo, tabagismo, alimentação inadequada e a obesidade. O presente estudo teve como objetivo avaliar a TFG e os fatores associados em usuários do Programa de Cuidados Farmacêuticos (PROCUIDAF) através da equação Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI). Tratou-se de um estudo observacional, transversal e descritivo, realizado na Unidade Básica de Saúde Bonald Filho, em Campina Grande no período de maio a agosto de 2022. As variáveis independentes corresponderam a características sociodemográficas, antropométricas e clínicas e o desfecho foi determinar a TFGe através da equação CKD-EPI.

Utilizou-se estatística descritiva, com apresentação de frequência simples, absolutas e percentuais para as variáveis categóricas e para a associação entre a TFG e as variáveis independentes, o teste Exato de Fisher, considerando 5% (p<0,05). Todas as análises foram realizadas com o auxílio do software estatístico R. A amostra foi constituída de 52 pacientes no total, na qual 23 pessoas (44,2%) apresentaram a TFGe alterada, com isso em relação a amostra dita alterada (n=23), a maioria foi mulheres 56,5% (n=13), vivendo com companheiro (65,2%), com idades entre 70-79 anos (60,9%), com prevalência da cor branca (95,7%) e inativos (95,7%). Em relação às variáveis clínicas, houve uma predominância de HAS isolada (47,8%) e quanto aos hábitos de vida, a maior parte era sedentária (56,5%), com alimentação inadequada (56,5%), obesos (52,2%) e apenas uma minoria era tabagista (4,3%) e etilista (4,3%). A glicose em jejum e os níveis de Pressão Arterial (PA) em ambos os gêneros encontravam-se fora dos padrões de normalidade, dado que contribuiu para a diminuição na TFGe. Quanto à classificação da PA, em torno de 8 pacientes (34,8%) encontravam-se na faixa de Pré-Hipertensão e HAS Estágio 1. Em relação aos níveis de creatinina, 52,2% (n=12) apresentaram resultados alterados e foi obtido um p-valor < 0,05, comprovando que a creatinina e a TFGe são variáveis dependentes. Por fim, quando classificado a população geral (n=52) quanto ao estadiamento da DRC, 50% (n=26) encontravam-se na G2 (TFG levemente reduzida), 30,7% (n=16) estavam na G3a (Moderada redução da TFG) e 13,5% (n=7) na G3b (redução marcada da TFG). Os fatores de risco para a progressão da DRC podem ser controlados precocemente, através da modificação do estilo de vida dos usuários e através do acompanhamento contínuo das DCNT por parte das equipes de saúde, pode haver um maior incentivo ao autocuidado para garantir uma melhor qualidade de vida aos pacientes e um diagnóstico precoce da DRC, evitando a sua evolução para casos mais graves. 

Palavras-Chave: Doença Renal Crônica; Taxa de Filtração Glomerular; Doença Crônica Não Transmissível.

ABSTRACT

Chronic kidney disease (CKD) is caused by kidney damage characterized by structural or functional changes in the kidney. It is diagnosed through blood or urine tests or through a reduction in the estimated glomerular filtration rate (eGFR), which is an important parameter for early detection and monitoring of CKD progression. CKD has several risk factors, including chronic noncommunicable diseases (NCDs) such as systemic arterial hypertension (SAH) and diabetes mellitus (DM). Other risk factors include a sedentary lifestyle, smoking, inadequate nutrition, and obesity. This study aimed to evaluate GFR and associated factors in users of the Pharmaceutical Care Program (PROCUIDAF) using the Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI) equation. This was an observational, cross-sectional, descriptive study conducted at the Bonald Filho Basic Health Unit in Campina Grande from May to August 2022. The independent variables consisted of sociodemographic, anthropometric, and clinical characteristics, and the outcome was eGFR using the CKD-EPI equation. Descriptive statistics were used, presenting simple, absolute, and percentage frequencies for categorical variables. Fisher’s exact test was used to determine the association between GFR and independent variables, assuming a 5% (p<0.05) significance level. All analyses were performed with the aid of the statistical software R. The sample consisted of 52 patients in total, in which 23 people (44.2%) presented altered eGFR, therefore, in relation to the so-called altered sample (n = 23), the majority were women 56.5% (n = 13), living with a partner (65.2%), aged between 70-79 years (60.9%), with a prevalence of white skin color (95.7%) and inactive (95.7%). Regarding clinical variables, there was a predominance of isolated hypertension (47.8%) and regarding lifestyle habits, the majority were sedentary (56.5%), with inadequate diet (56.5%), obese (52.2%) and only a minority were smokers (4.3%) and alcoholics (4.3%). Fasting glucose and blood pressure (BP) levels in both genders were outside the normal range, a fact that contributed to the decrease in eGFR. Regarding the BP classification, around 8 patients (34.8%) were in the Pre-Hypertension and Stage 1 SAH range. Regarding creatinine levels, 52.2% (n = 12) presented altered results and a p-value < 0.05 was obtained, proving that creatinine and eGFR are dependent variables. Finally, when the general population (n = 52) was classified according to CKD staging, 50% (n = 26) were in G2 (slightly reduced GFR), 30.7% (n = 16) were in G3a (Moderate reduction in GFR) and 13.5% (n = 7) in G3b (marked reduction in GFR). Risk factors for the progression of CKD can be controlled early by modifying users’ lifestyles and through continuous monitoring of NCDs by health teams. This can lead to greater encouragement of self-care to ensure a better quality of life for patients and an early diagnosis of CKD, preventing its progression to more severe cases.

Keywords: Chronic Kidney Disease; Glomerular Filtration Rate; Chronic Noncommunicable Disease.

1. INTRODUÇÃO

Os rins são órgãos essenciais à manutenção da homeostase do corpo humano. Eles desempenham função vital, pois são responsáveis pela eliminação de toxinas, pela regulação do volume de líquidos e pela filtragem do sangue. Nesse sentido, a função renal é avaliada pela Filtração Glomerular (FG) e sua diminuição é observada na Doença Renal Crônica (DRC), quando há perda das funções reguladora, excretora e endócrina do rim. Quando a FG atinge valores inferiores a 15 L/min/1,73m2, estabelece-se a Falência Funcional Renal (FFR), comprometendo os demais órgãos (Santos et al., 2017).

A DRC foi descrita como uma lesão caracterizada por alterações estruturais ou funcionais dos rins, reduzindo ou não a Taxa de Filtração Glomerular (TFG), podendo se manifestar por alterações patológicas ou indícios de lesão renal em exames diagnósticos, como exames de sangue, urina ou de imagem (Soares et al., 2017). Além disso, a DRC sendo assim caracterizada pela perda progressiva da função dos néfrons com consequente perda da capacidade de filtrar o sangue e manter a homeostase, é um problema de saúde pública, por estar associada a altas taxas de morbimortalidade, com grande impacto socioeconômico, tornando-se um desafio em âmbito mundial (Aguiar et al., 2020). Portanto, a DRC é conhecida como um problema global de saúde pública, na qual o aumento no número de casos tem sido reportado na última década em diferentes contextos, associados ao envelhecimento e à transição demográfica da população, como resultado do aumento da expectativa de vida e do rápido processo de urbanização. A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e Diabetes mellitus (DM) são as principais causas, ao passo que disparidades socioeconômicas, raciais e de gênero são também fatores determinantes (Marinho et al., 2017). 

Os pesquisadores ainda explicaram que a detecção precoce e o tratamento adequado em estágios iniciais ajudam a prevenir os desfechos deletérios e a subsequente morbidade relacionados às nefropatias. Ademais, resultam em potenciais benefícios para qualidade de vida, longevidade e redução de custos associados ao cuidado em saúde. A importância da identificação da enfermidade não se restringe somente ao acesso à terapia renal substitutiva. O adequado diagnóstico precoce e tratamento permite reduzir complicações e mortalidade cardiovasculares. Tais metas são desafiadoras onde o acesso aos serviços de saúde é limitado.

Tendo conhecimento de que a HAS e DM são doenças crônicas que atuam como fatores de risco para DRC, esse estudo realizou a avaliação da Taxa de Filtração Glomerular estimada (TFGe) através da equação Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI), visando detectar precocemente possíveis casos e encaminhar a equipe multidisciplinar para tomada de decisão.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

2.1. Conceito da Doença Crônica Renal (DRC)

A DRC é conceituada como uma síndrome irreversível e progressiva das funções glomerular, tubular e endócrina dos rins, caracterizada por uma filtração glomerular menor que 60ml/min/1,73m2 durante um período de três meses ou mais. Os rins tornam-se, portanto, incapazes de manter o equilíbrio metabólico e hidroeletrolítico, o que resulta em uremia (KDIGO, 2013).

A DRC pode ser classificada em diferentes estágios de acordo com as alterações anatômicas ou estruturais e funcionais, baseando-se na estimativa da TFGe. A elevação persistente dos níveis plasmáticos de ureia e de creatinina, que normalmente são excretados pelos rins, causam uma diminuição progressiva da TFGe. A avaliação da TFGe associada à presença de um marcador de dano renal, como a proteinúria, caracterizam a evolução da DRC, o que causa deterioração progressiva produzindo um acúmulo de substâncias tóxicas com uma variedade de distúrbios bioquímicos e sintomas que dependem do estágio da DRC, podendo levar o paciente à indicação de diálise ou transplante (Aguiar et al., 2020).

As Diretrizes do Kidney Disease Improving Global Outcomes (KDIGO) (KDIGO, 2013) definiram critérios para o diagnóstico da DRC, que consistem na presença de um ou mais marcadores de lesão do parênquima renal e/ou da TFG inferior a 60 mL/min/1,73m² por um período maior que três meses (QUADRO 1):

Quadro 1 – Critérios para diagnóstico da DRC (um ou mais persistentes por mais de três meses).

DRC= Doença Renal Crônica; TFG= Taxa de Filtração Glomerular; G3a= Moderada redução da TFGe; G5= Insuficiência Renal EUA= Excreção Urinária de Albumina; RAC= Relação Albumina-Creatinina.

Fonte: Adaptado: KDIGO (2013)

O Quadro 2 apresenta a classificação da DRC nas 6 seguintes categorias, sendo que o G1 representa função renal ainda preservada e os demais estágios indicam a evolução gradativa para perda da função renal. O G5 é a fase considerada doença renal crônica terminal (Castro et al., 2020; KDIGO, 2013).

Quadro 2 – Classificação da DRC de acordo com a Taxa de Filtração Glomerular Estimada (TFGe).

DRC= Doença Renal Crônica; TFGe = Taxa de Filtração Glomerular Estimada.*Na ausência de lesão renal evidente, as categorias TFGe G1 e G2 não cumprem os critérios da DRC. 

Fonte: Adaptado: KDIGO (2013).

2.2. Fatores de risco associados à Doença Renal Crônica (DRC)

Os principais fatores de risco aos quais se tem atribuído a crescente prevalência da DRC no mundo são: aumento da expectativa de vida, HAS e DM. Estes fatores estão intimamente associados ao desenvolvimento socioeconômico de uma determinada população: por um lado há diminuição das causas de morte infecciosas e externas pela melhora da condição de vida e do acesso aos serviços de saúde; por outro, vê-se a adoção de estilos de vida inadequados, como sedentarismo e os hábitos nutricionais inadequados (Pinho; Oliveira; Pierin, 2015).

Segundo os mesmos pesquisadores a associação entre HAS e DRC é bem conhecida, considerando que a doença renal é a maior causa de hipertensão arterial secundária. A HAS também pode determinar o surgimento da DRC e representar um catalisador para sua progressão até o estágio terminal. Ainda comentaram que o DM corresponde à principal causa isolada para DRC terminal em diversos países, a HAS é a etiologia mais frequente no Brasil, tendo sido identificada em 34% dos pacientes em diálise. Kiuchi e Mion Junior (2016) também confirmaram que o diabetes é a doença que mais contribui para a DRC e a DRC terminal em todo o mundo, sendo responsável por 30-50% de todos os casos. 

Os principais grupos de risco para a DRC são: idosos (nos quais há uma diminuição fisiológica da TFG com o avanço da idade, além de ocorrer o desenvolvimento de lesões renais secundárias a doenças crônicas, que são comuns nessa população); pessoas obesas (Aguiar et al., 2020); hipertensos; diabéticos; pacientes com doença cardiovascular; familiares de pacientes portadores de DRC; pacientes em uso de medicamentos nefrotóxicos. Todo paciente pertencente a grupos de risco para DRC deve ser submetido a exames anuais para averiguar a presença de lesão renal e para estimar o nível de função renal glomerular por meio da determinação da TFG, para o devido controle e prevenção (SBN, 2014; Porto et al., 2017).

Martins (2017) explicou que existem conceitos de fatores de riscos não tradicionais que pacientes portadores de DRC podem apresentar em relação à população geral, dentre estes fatores encontram-se: idade, gênero, raça classificados como não modificáveis e DM, HAS, Tabagismo, Dislipidemias, Síndrome Metabólica, sedentarismo considerados modificáveis. Dentre os fatores específicos ou não modificáveis que os pacientes portadores de DRC podem apresentar destacam-se: uremia, anemia, desequilíbrio mineral (cálcio, fosfato, vitamina D, com acentuação da aterosclerose por calcificação vascular, entre outros). 

Portanto, os fatores de risco modificáveis da DRC devem ser rigorosamente monitorizados e controlados na Atenção Primária à Saúde. O rastreamento precoce desses fatores poderá prevenir a doença renal ou postergar sua progressão entre os pacientes idosos (Delgado et al., 2017). 

2.3. Avaliação da Taxa de Filtração Glomerular estimada (TFGe)

A TFG é a medida da depuração de uma substância que é filtrada livremente pelos glomérulos e não sofre reabsorção ou secreção tubular, por isso é comumente usada como a medida padrão da avaliação da função renal. É um indicador importante para detecção, avaliação e tratamento da DRC e, na prática clínica, a investigação de rotina ocorre através da determinação das concentrações de creatinina sérica, urinária e da cistatina C (Brito; Oliveira; Silva, 2016).

A avaliação da TFG é utilizada para diagnóstico e monitoramento da progressão da insuficiência renal e pode predizer riscos de complicações e ajustes terapêuticos. Uma diminuição nos valores da TFG costuma estar associada ao aparecimento de sinais e sintomas de falência renal. A referida taxa não pode ser medida de forma direta, sendo usualmente estimada através de exames laboratoriais como o clearance ou depuração de creatinina (ClCr) e a creatinina sérica. Estes dois exames, isoladamente, não retratam a função renal de maneira inteiramente confiável, porque sofrem influência de diversos fatores (Sodré; Oliveira, 2014). 

Segundo os mesmos autores a creatinina sérica depende da massa muscular, idade e gênero, além de mostrar alterações significativas somente após 50% de queda da TFG e o clearance de creatinina possui uma limitação importante, uma vez que depende de coletas temporizadas de urina para sua análise durante o período de 24 horas. Estes exames podem, então, sofrer interferência de erros na coleta das amostras e das variações diárias da creatinina sérica. A procura por uma equação matemática que estime a TFG ou minimize os fatores que interferem no clearance de creatinina vem de longa data. O uso dessas equações teria como principal vantagem fornecer um ajuste para variações de fatores como gênero, idade, superfície corporal e raça, que interferem na secreção de creatinina.

O cálculo da Taxa de Filtração Glomerular estimada (TFGe), usando fórmulas matemáticas empíricas, tem sido incentivado como um meio simples, rápido e viável para a avaliação da função renal (Felisberto et al., 2015). E a Equação Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI) é uma das equações recomendadas pelo Ministério da Saúde para a avaliação da função renal, medida em mL/min/1,73m². 

2.4. Equação Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI)

As Diretrizes do KDIGO (2013) recomendaram que a equação CKD-EPI seja empregada para estimar o TFGe, pois estudos têm comprovado que esta é a mais precisa para avaliar a função renal em diferentes populações. Esta fórmula produz valores mais exatos e precisos do que as fórmulas Modification of Diet in Renal Disease (MDRD) e Cockcroft-Gault. Além disso, o uso da TFGe também se mostrou superior ao clearance (depuração) de creatinina em amostras de urina de 24 horas, quando comparado ao método de referência (clearance da inulina) (SBPC/mL, 2015). 

De acordo com Brito, Oliveira e Silva (2016) a equação CKD-EPI pode ser representada numa única fórmula: 

Quadro 3: Equação Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI)

Fonte: SBN (2021a)

Onde: 

Cre: é creatinina sérica, 
κ: é 0,7 para mulheres e 0,9 para homens, 
α: é -0,329 para mulheres e -0,411 para homens, 
min: indica o mínimo de Cre/κ ou 1; 
max: indica o máximo de Cre/κ ou 1.

A equação CKD-EPI possui melhor precisão quando comparada a outras, principalmente quando TFG > 60 mL/min/1,73m², o que indica que a CKD-EPI pode substituir as equações de estimativa da TFG que estão em uso clínico (Soares; Brune, 2017). 

3. METODOLOGIA

Tratou-se de um estudo observacional, transversal e descritivo, realizado na Unidade Básica de Saúde Bonald Filho, em Campina Grande-PB, no período de maio a agosto de 2022. Os critérios de elegibilidade incluíram pessoas com HAS e DM2 que participavam do Programa de Cuidados Farmacêuticos da Universidade Estadual da Paraíba (PROCUIDAF/UEPB. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba sob número 4.512.491.

Nos critérios de inclusão e de exclusão, foram incluídos nesta pesquisa todos os pacientes hipertensos e/ou diabéticos que aceitaram participar do estudo e eram membros do PROCUIDAF. Foram excluídos os usuários menores de 18 anos, que não eram hipertensos e/ou diabéticos ou que não aceitarem participar do referido estudo.

A variável dependente do estudo foi a TFGe categorizada em normal ou alterada. As variáveis independentes corresponderam a dados sociodemográficos: idade, gênero (masculino e feminino), cor (branco e não branco), estado civil (com companheiro e sem companheiro) e atividade laboral (trabalha e não trabalha); variáveis clínicas corresponderam a dados de diagnóstico de HAS e DM, valores da Pressão Arterial Sistólica (PAS) e Pressão Arterial Diastólica (PAD), resultados do exame de creatinina sérica necessários para o cálculo de TFGe e a glicemia de jejum, ambos registrados em mg/dL; as variáveis antropométricas (Índice de Massa Corpórea – IMC); número de medicações em uso, categorizado em (menos e mais de quatro medicamentos), sendo esse último identificado como polifarmácia e nos fatores de risco modificáveis (DM, HAS, Tabagismo, Dislipidemias, Síndrome Metabólica, sedentarismo) e não modificáveis (idade, gênero, raça).

A Pressão Arterial foi avaliada de acordo com os critérios da Sociedade Brasileira de Cardiologia seguindo as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 2020 (SBC, 2021). Com relação aos níveis de glicose plasmática foram seguidos os Critérios das Diretrizes Brasileiras de diabetes (SBD, 2015-2016). O IMC será calculado dividindo-se o peso (Kg) pela altura ao quadrado (m2) e a classificação seguiu os critérios da Organização Mundial de Saúde (WHO, 2003).

Para a avaliação da TFGe foram utilizados resultados da creatinina sérica e o cálculo foi realizado através da equação CKD-EPI e calculadora online disponível em aplicativo da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN, 2021b), sendo categorizada em alterada (quando a TFG < 60 ml/min/1,73 m2) e não alterada (quando a TFG ≥ 60 ml/min/1,73 m2).

Para análise e organização dos dados da pesquisa utilizou-se a estatística descritiva, com apresentação de frequências simples, absolutas e percentuais para as variáveis categóricas. Para os testes de associação entre o cálculo da TFGe e as características sociodemográficas, clínicas, físicas, farmacoterápicas e os fatores de risco para DRC, utilizamos o teste Exato de Fisher nos casos onde as frequências esperadas foram menores que 5 (Siegel, 2008), considerando o nível de significância de 5% (p<0,05). Todas as análises foram realizadas com o auxílio do software estatístico R (R CORE TEAM, 2017).

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Foram incluídos no estudo 52 usuários do Sistema único de Saúde com HAS e/ou DM. Entre esses, 23 tiveram a TFGe alterada, na qual a maioria era do gênero feminino 56,5%, com faixas etárias compreendidas entre 70-79 anos 60,9%, de cor branca 95,7%, vivendo com o companheiro 65,2%, inativos 95,7%, não etilista 95,7%, não tabagista 95,7%, sedentária 56,5%, obesas 52,2% e com hábitos de alimentação inadequada 43,5% (Tabela 1).

Tabela 1 – Variáveis sociodemográficas e hábitos de vida associados à taxa de filtração glomerular estimada em portadores de DCNT.

Fonte: Dados da pesquisa, 2022.

Quanto às variáveis sociodemográficas na amostra alterada, observou-se uma maior participação do gênero feminino (56,5%) e com companheiro (65,2%), corroborando com estudos de Fujibayashi et al. (2012) e Sesso et al. (2016) que analisaram o perfil de pacientes com HAS e DM. Malta, Moura e Bernal (2015) e Meyrier (2015) confirmaram que no contexto nacional brasileiro de acesso à saúde, é predominante a presença das mulheres na busca da assistência à saúde nos serviços públicos e ainda alertaram que a caracterização do gênero é de fundamental importância na abordagem de pacientes com risco ou com diagnóstico de DRC.

 De acordo com esses autores as diferenças entre homens e mulheres relativas à fisiologia renal, fisiopatologia de base da doença, complicações, sinais e sintomas são suficientes para justificar uma abordagem diferenciada. Embora o gênero seja um forte determinante da perda natural de TFGe em animais e humanos, as mulheres são protegidas contra danos renais relacionados à idade.

 Os mecanismos subjacentes a essa proteção não são totalmente elucidados e são somente explicados por diferenças nos hormônios sexuais ou na regulação do óxido nítrico que desempenha um papel essencial na regulação do tônus vascular (Malta; Moura; Bernal, 2015).

Na correlação entre as variáveis estudadas e apresentadas na Tabela 1 e a TFGe, apenas as faixas etárias apresentaram significância (p<0,05). Esse resultado vão ao encontro da literatura. Constatou-se isso, por relação à idade avançada, pois é consenso que a função renal tende a diminuir com o avançar da idade pelo processo fisiológico do envelhecimento orgânico acompanhado de mudanças estruturais do sistema renal.

A maioria da amostra 95,7% referiu apresentar cor branca. Outra discussão importante é o emprego de fórmulas para estimativas de TFGe que considera o ajuste entre negros e brancos, subestimando as prevalências de DRC entre negros. Com isso, os negros acabam por ter menos diagnóstico de DRC e pior evolução, com piores desfechos (Barreto et al., 2016). O Brasil é um país com grande diversidade étnica, o que dificulta a análise dessa associação, sendo indicado o uso de equações semelhantes para brancos e negros, mais adequadas para a realidade brasileira, que possui origem e miscigenação diferentes das populações norte-americanas. 

No que diz respeito à polifarmácia propriamente dita, essa mostrou-se predominante na população com TFGe alterada 56,5% e pode ser justificada com a observação de que a população do estudo foi composta por pessoas idosas e com doenças crônicas (HAS e/ou DM).

Na avaliação dos fatores de risco para a DRC, apesar da maioria não ser etilista, nem tabagista se faz necessário para aqueles que ainda faz uso (4,3%) ser orientados para a cessação. Segundo Fujibayashi et al., (2012) a literatura mostra, uma associação entre tabagismo e diabetes e hipertensão. Foi realizado um estudo com o objetivo de avaliar a associação entre estilo de vida e filtração glomerular e proteinúria e mostrou que o tabagismo estava associado ao aumento da albuminúria, que, por sua vez, foi relacionado à lesão renal progressiva e à hipertensão.

Com relação ao efeito do consumo de álcool na evolução da DRC a literatura têm apresentado resultados diversos. Entretanto, alguns estudos apontaram que o consumo elevado do álcool está associado ao desenvolvimento da albuminúria, com piora da função renal (Meyrier, 2015).

Quando avaliada a alimentação inadequada a população estudada no geral (n=52) relatou que consumia açúcar, incluindo alimentos açucarados e consumo de sal, além dos temperos industrializados e embutidos. Todos foram orientados a mudança de hábitos saudáveis para evitar alterações de HAS e do DM2. Também orientamos a redução de ingestão de proteínas em virtude de 44,2% (n=23) apresentarem alterações na TFGe e como prevenção para aqueles que ainda mantém nos níveis normais.

Na avaliação dos dados antropométricos grande parte da amostra classificada como alterada apresentou a obesidade (52,2%) e também revelou ser sedentário (56,5%). De acordo com a literatura, apesar do aumento da prevalência da obesidade e o reconhecimento desta como fator de risco das doenças cardiovasculares e como fator de risco modificável para a DRC, a associação de sobrepeso/obesidade e DRC ainda não é bem conhecida. De acordo com Meyrier (2015) a obesidade pode levar a resistência à insulina, intolerância à glicose, hiperlipidemia, aterosclerose e hipertensão e que a resistência à insulina reduz a atividade da lípase lipoproteica, que pode estar implicada na fisiopatologia da dislipidemia na DRC, sendo difícil analisar essa variável isoladamente.

Portanto, a obesidade é um fator de risco modificável, que pode ser alterado ou mesmo evitado com medidas de educação e conscientização acerca da importância de um estilo de vida saudável, com prática de exercícios físicos e alimentação adequada, diminuindo não só os riscos para DRC como também os riscos para doenças cardiovasculares. E faz necessário que a equipe da Unidade Básica de Saúde Bonald Filho incentive os usuários através de atividades de Educação em Saúde a mudanças no estilo de vida.

Com os dados de TFGe, os usuários acompanhados no geral (n=52) encontravam-se nos seguintes níveis ou estágios:

G1: 3 (5,80%) que corresponde a TFGe Normal; 

G2: 26 (50,00%) TFGe levemente reduzida;

G3a: 16 (30,7%) moderada redução da TFGe e 

G3b: 7 (13,5%) redução marcada pela TFGe.

Diante de todos os achados, esse estudo reforça que é possível realizar atividades com os usuários para conscientizá-los a respeito dos resultados apresentados e como cada um deles deve ser o responsável pelo seu autocuidado, adotando medidas que possam evitar a progressão para a DRC. Portanto, todos os resultados obtidos serão encaminhados a equipe multidisciplinar da Estratégia de Saúde da Família (ESF) que deve ser considerada a porta de entrada para a rede assistencial para organizar o acompanhamento mais intensivo dos usuários e realizar o encaminhamento para as especialidades se necessário.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da avaliação desse estudo observou-se uma taxa de prevalência de 44,20% de TFGe alterada nos usuários portadores de doenças crônicas como Hipertensão Arterial Sistêmica e/ou Diabetes mellitus do PROCUIDAF na Unidade Básica de Saúde Bonald Filho, de forma que nenhum destes pacientes nem a equipe de saúde da unidade tinham conhecimento sobre os fatores de risco da doença e nem dos resultados avaliados em torno da DRC.

Averiguou-se ainda a idade como um fator prevalente na redução da TFGe, comprometendo assim a função renal desses usuários, além disso, também analisou-se o predomínio de fatores de risco como sedentarismo, obesidade e alimentação inadequada todos considerados pela literatura como modificáveis, ou seja, capazes de serem alterados por meios de ações em torno de reuniões de Educação em Saúde. E apesar da maioria não ser tabagista e etilista, vale salientar o risco dessas duas variáveis em torno do desenvolvimento da DRC. 

Em relação ao estadiamento da DRC, metade dos usuários encontra-se na G2 e um percentual considerável de pacientes está entre os estadiamentos G3a e G3b, logo observa-se uma redução da TFGe na maioria dos pacientes, por isso vale salientar a importância da atuação da equipe de saúde frente a essa realidade, trabalhando medidas não farmacológicas com o intuito de evitar a evolução da DRC, para que não progrida a uma insuficiência renal.

Por fim, reitera-se a necessidade do diagnóstico precoce e acompanhamento seguro e contínuo de pacientes hipertensos e/ou diabéticos pelas equipes de saúde nas unidades básicas, logo haverá um maior controle em relação a TFGe, reduzindo a progressão de doenças crônicas como a DRC e os casos mais severos tratados de forma precoce, auxiliando assim na redução do número de hospitalizações e na diminuição dos altos custos pelo sistema de saúde. Com isso, contribuindo no geral para uma melhor sobrevida e uma longevidade com qualidade de vida. 

6. REFERÊNCIAS

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BRITO, T. N. S. OLIVEIRA, A. R. A. SILVA, A. K. C. Taxa de filtração glomerular estimada em adultos: características e limitações das equações utilizadas. RBAC, n. 48, v. 1, p. 7-12, 2016.

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1Farmacêutica.  Universidade Estadual da Paraíba Campus I. e-mail: anakarlac1586@gmail.com;
2Discentes do Curso Superior de Farmácia Generalista.  Universidade Estadual da Paraíba Campus I;
3Maria do Socorro Ramos de Queiroz. Universidade Estadual da Paraíba. Campus I. Doutora em Biotecnologia em Saúde (RENORBIO/UFPB). e-mail: queirozsocorroramos@servidor.uepb.edu.br