ESPIRITUALIDADE NO CUIDADO EM SAÚDE: IMPLICAÇÕES PARA O TRATAMENTO E A ADESÃO TERAPÊUTICA

SPIRITUALITY IN HEALTH CARE: IMPLICATIONS FOR TREATMENT AND THERAPEUTIC ADHERENCE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512171001


Laysla Tamyres de Oliveira Borges¹; Livino Monteiro Silvestre Neto¹; Pedro Lucas Alves Albuquerque¹; Alexandra Ferreira Silvestre¹; Daniel Paulo de Lima Maciel¹; Kássia Verônica Barbosa Lima¹; Gabriella Maria Muniz Cavalcante¹; Tatiana Acioli Lins²; Arturo de Pádua Walfrido Jordán³; Dennys Lapenda Fagundes⁴.


Resumo

A espiritualidade tem sido reconhecida como uma dimensão relevante no cuidado em saúde, especialmente no enfrentamento do adoecimento e na condução do tratamento. Diante desse contexto, o estudo teve como objetivo analisar as implicações da espiritualidade no cuidado em saúde, com ênfase em sua influência sobre o tratamento e a adesão terapêutica dos pacientes. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, a busca bibliográfica foi realizada em bases científicas, como PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde e SciELO, considerando publicações entre 2020 e 2025. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão e a leitura dos estudos na íntegra, nove artigos foram selecionados para compor a análise e fundamentar a discussão. Os resultados evidenciaram que a espiritualidade se associa tanto a aspectos subjetivos quanto a parâmetros fisiológicos mensuráveis, incluindo a modulação do estresse, a regulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e a melhora da resposta imunológica. Observou-se ainda que a valorização da dimensão espiritual favorece o fortalecimento do vínculo terapêutico, a comunicação entre profissionais e pacientes e o engajamento no tratamento, particularmente em contextos de doenças crônicas. Conclui-se que a espiritualidade constitui um componente significativo do cuidado integral em saúde, com potencial para influenciar positivamente os desfechos clínicos e a adesão

1 INTRODUÇÃO

A relação entre espiritualidade e saúde tem sido amplamente discutida nas últimas décadas, sobretudo diante da consolidação de modelos de cuidado que reconhecem o ser humano em sua integralidade. Tradicionalmente, a assistência em saúde esteve centrada em abordagens predominantemente biomédicas, voltadas ao diagnóstico e ao tratamento das doenças sob uma perspectiva estritamente fisiológica. Contudo, esse modelo mostrou-se insuficiente para contemplar as dimensões subjetivas envolvidas no processo de adoecimento, como emoções, crenças, valores e sentidos atribuídos à vida e à doença, abrindo espaço para uma compreensão mais ampla do cuidado em saúde (Perse et al., 2021).

Nesse contexto, a espiritualidade emerge como um elemento relevante no enfrentamento das doenças, influenciando a forma como os indivíduos lidam com o diagnóstico, o tratamento e as repercussões físicas e emocionais da enfermidade. Estudos apontam que a espiritualidade pode atuar como fonte de conforto, esperança e fortalecimento emocional, impactando positivamente a qualidade de vida, a saúde mental e o bem-estar geral dos pacientes. Apesar disso, ainda persistem incertezas e desafios quanto à forma adequada de integrar essa dimensão à prática clínica, especialmente no que se refere aos limites éticos, à formação profissional e à efetiva influência da espiritualidade na adesão terapêutica (Mendes, 2025).

A problematização que fundamenta esta pesquisa decorre da observação de que, embora a espiritualidade seja reconhecida como importante por muitos pacientes, ela nem sempre é considerada de maneira sistemática no cuidado em saúde. Questiona-se, portanto: de que forma a espiritualidade influencia o tratamento e a adesão terapêutica dos pacientes e quais são as implicações dessa dimensão para a prática em saúde? A delimitação desse problema justifica-se pela necessidade de compreender como a valorização da espiritualidade pode contribuir para um cuidado mais humanizado, ético e centrado na pessoa, com potencial aplicabilidade social e impacto direto na assistência à saúde.

Diante disso, o presente estudo tem como objetivo analisar as implicações da espiritualidade no cuidado em saúde, com ênfase em sua influência no tratamento e na adesão terapêutica. Justifica-se a realização desta pesquisa pela relevância teórica e prática do tema, uma vez que seus resultados podem contribuir para ampliar a compreensão sobre o papel da espiritualidade no contexto assistencial, subsidiar a atuação dos profissionais de saúde e fortalecer estratégias de cuidado integral. Ao abordar essa temática, busca-se promover reflexões que favoreçam a humanização da assistência e a construção de práticas mais sensíveis às necessidades biopsicossociais e espirituais dos pacientes.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

A espiritualidade no contexto da saúde tem sido abordada por diferentes campos do conhecimento, como a medicina, a enfermagem, a psicologia e as ciências sociais, sendo compreendida como uma dimensão relacionada à busca de sentido, propósito e conexão, que pode ou não estar associada à religiosidade. A literatura científica aponta que a espiritualidade integra o cuidado em saúde ao considerar o indivíduo em sua totalidade, alinhando-se aos princípios do modelo biopsicossocial e às diretrizes de cuidado centrado na pessoa. Organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, reconhecem a relevância dessa dimensão ao destacar a importância do bem-estar espiritual como componente da saúde integral (Rocha et al., 2023).

Diversos estudos evidenciam que a espiritualidade pode influenciar positivamente a vivência do adoecimento, contribuindo para o enfrentamento de situações de dor, sofrimento e incerteza. Pacientes que recorrem a crenças e práticas espirituais tendem a apresentar melhores indicadores de saúde mental, como menores níveis de ansiedade, depressão e estresse, além de maior capacidade de resiliência. Nesse sentido, a espiritualidade é frequentemente descrita na literatura como um recurso de coping, auxiliando o indivíduo a lidar com as adversidades impostas pela doença e pelo tratamento (Jordán; Caminha; Barbosa, 2025).

No que se refere à prática clínica, pesquisas indicam que a consideração da espiritualidade no cuidado em saúde favorece o fortalecimento da relação profissional–paciente e melhora a comunicação durante o processo terapêutico. A escuta sensível às necessidades espirituais possibilita uma abordagem mais empática e humanizada, promovendo maior confiança e satisfação do paciente com o cuidado recebido. Contudo, a literatura também aponta desafios, como a falta de preparo dos profissionais para abordar essa temática, o receio de ultrapassar limites éticos e a ausência de protocolos claros para sua inserção na rotina assistencial (Perse et al., 2021).

Além disso, estudos recentes sugerem uma associação entre espiritualidade e adesão terapêutica, especialmente em pacientes com doenças crônicas. A valorização das crenças e dos valores pessoais pode influenciar positivamente o comprometimento do paciente com o tratamento, favorecendo a continuidade das intervenções propostas e a participação ativa no cuidado. Apesar dos avanços no campo, ainda há necessidade de aprofundar as investigações sobre os mecanismos pelos quais a espiritualidade impacta o tratamento em saúde, reforçando a importância de pesquisas que contribuam para a consolidação teórica e para a aplicação prática desse conhecimento na assistência (Mendes, 2025).

3 METODOLOGIA 

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método de pesquisa que possibilita a síntese e a análise crítica de resultados provenientes de estudos relevantes, com o objetivo de aprofundar o conhecimento acerca de determinado fenômeno ou problema. A revisão integrativa foi escolhida por permitir a inclusão de pesquisas com diferentes delineamentos metodológicos, oferecendo uma visão abrangente sobre a espiritualidade no cuidado em saúde, com ênfase em suas implicações para o tratamento e a adesão terapêutica.

A condução desta revisão seguiu as diretrizes metodológicas descritas por Sousa & Bezerra (2023), sendo estruturada em seis etapas fundamentais: (1) identificação do problema e elaboração da questão norteadora; (2) definição dos critérios de inclusão e exclusão e

seleção dos estudos; (3) categorização e extração dos dados; (4) avaliação crítica dos estudos incluídos; (5) interpretação dos resultados; e (6) apresentação da síntese do conhecimento.

Na primeira etapa, a questão norteadora da pesquisa foi elaborada com base no modelo PICo (População, Interesse e Contexto), adequado à natureza qualitativa da temática, sendo definida como: “Quais são as implicações da espiritualidade no cuidado em saúde, especialmente no tratamento e na adesão terapêutica dos pacientes?”

A etapa subsequente envolveu a definição dos critérios de inclusão, os quais foram: artigos publicados entre os anos de 2020 e 2025, nos idiomas português e inglês, que abordassem a espiritualidade no contexto do cuidado em saúde, com foco em tratamento, adesão terapêutica, enfrentamento da doença ou relação profissional–paciente. Foram incluídos artigos científicos revisados por pares, estudos qualitativos e quantitativos, revisões de literatura, bem como documentos e diretrizes oficiais de organismos nacionais e internacionais relacionados à temática. Foram excluídos materiais duplicados, editoriais, cartas ao editor, artigos de opinião sem fundamentação teórica, resenhas e publicações que não apresentassem relação direta com o objeto de estudo.

A busca bibliográfica foi realizada em bases científicas indexadas, como PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e SciELO, além da consulta a documentos institucionais disponíveis nos portais da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde. Utilizaram-se descritores e palavras-chave definidos a partir dos vocabulários controlados DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings), tais como: “Spirituality”, “Health Care”, “Patient Care”, “Treatment Adherence”, “Therapeutics” e “Professional-Patient Relations”, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR.

Após a aplicação dos critérios de busca e elegibilidade, os estudos identificados foram inicialmente triados por meio da leitura dos títulos e resumos. Aqueles que atenderam aos critérios estabelecidos foram lidos na íntegra e submetidos à extração dos dados, utilizando-se um instrumento padronizado contendo: autores, ano de publicação, periódico, objetivo do estudo, delineamento metodológico, principais resultados e contribuições para a temática (Figura 1).

Por fim, os dados foram organizados e analisados por meio de abordagem qualitativa, com identificação de categorias temáticas emergentes que possibilitaram a síntese e a discussão dos achados à luz da literatura científica. A apresentação dos resultados foi estruturada de modo a evidenciar as principais contribuições da espiritualidade para o cuidado em saúde, bem como seus impactos no tratamento, na adesão terapêutica e na humanização da assistência.

Figura 1: representação do processo metodológico do estudo. 

Fonte: autoral, 2025. 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES 

Assim, nove estudos foram incluídos e analisados nesta revisão integrativa (Quadro 1), os quais evidenciaram que a espiritualidade exerce impacto significativo não apenas sobre os aspectos subjetivos do cuidado em saúde, mas também sobre parâmetros fisiológicos mensuráveis, com repercussões sistêmicas relevantes. Diversas pesquisas apontam que práticas espirituais, como meditação, oração e mindfulness, estão associadas à modulação do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HHA), resultando em alterações nos níveis de cortisol, principal hormônio relacionado à resposta ao estresse. A redução sustentada do cortisol sérico e salivar observada em indivíduos com espiritualidade ativa sugere menor ativação crônica do estresse, fator diretamente relacionado à progressão de doenças inflamatórias, cardiovasculares e metabólicas (Bueno; Oles; Huang, 2023)

Quadro 1: Estudos selecionados para compor a discussão do estudo. 

TítuloAutoresObjetivoConclusão
A integração da espiritualidade nos cuidados de saúde: impactos positivos e negativosAlves, A. C. et al. (2025)Analisar os efeitos positivos e negativos da integração da espiritualidade nos cuidados em saúde.A espiritualidade pode favorecer enfrentamento, adesão terapêutica e bem-estar; entretanto, quando mal conduzida ou associada a crenças disfuncionais, pode gerar conflitos, atrasos no tratamento e impactos negativos nos desfechos clínicos.
A influência do mindfulness no sistema imunológico: uma revisão narrativaBueno, E. H.; Oles, H.; Huang, N. (2023)Revisar evidências sobre os efeitos do mindfulness na modulação do sistema imunológico.Práticas de mindfulness associam-se à redução de marcadores inflamatórios e ao fortalecimento da resposta imune, indicando potencial terapêutico complementar na promoção da saúde.
Espiritualidade aplicada à medicinaCarmo, K. B. do (2022)Discutir a aplicação da espiritualidade na prática médica sob uma perspectiva bioética.A incorporação da espiritualidade contribui para uma abordagem mais humanizada e integral do cuidado, desde que respeite limites éticos, autonomia do paciente e pluralidade de crenças.
A integração da dimensão espiritual no cuidado em saúde faz sentido?Esperandio, M. R. G.; Souza, C. F. B. (2023)Refletir criticamente sobre a relevância da dimensão espiritual no cuidado em saúde.Evidências sustentam que a integração da espiritualidade melhora desfechos clínicos e psicossociais, porém há lacunas na formação profissional e dificuldades na operacionalização do cuidado espiritual.
A relação da espiritualidade no processo saúde-doença por meio de um olhar integral: uma revisão sistemáticaGuerra, D. R. S. B. et al. (2022)Avaliar a relação entre espiritualidade e o processo saúde-doença a partir de uma perspectiva integral.A espiritualidade atua como fator protetor e recurso de enfrentamento no adoecimento, contribuindo para qualidade de vida e resiliência, reforçando a necessidade de cuidado integral.
Espiritualidade e saúdeMendes, T. C. X. (2025)Discutir a interface entre espiritualidade e saúde nos contextos assistencial e acadêmico.A espiritualidade emerge como determinante relevante na promoção da saúde e no enfrentamento do adoecimento, demandando maior inserção na formação e na prática em saúde.
A espiritualidade e seu impacto na saúdePerse, A. M. et al. (2021)Analisar o impacto da espiritualidade nos desfechos em saúde.Evidencia-se associação positiva entre espiritualidade, saúde mental, adesão ao tratamento e qualidade de vida, especialmente em condições crônicas.
A importância da espiritualidade para a integralidade da prática médicaRocha, S. B. et al. (2023)Investigar o papel da espiritualidade na promoção da integralidade da prática médica.A espiritualidade fortalece a relação médico-paciente e favorece uma abordagem biopsicossocial-espiritual, embora ainda seja pouco explorada na prática clínica.
Religiosidade/Espiritualidade: análise das tendências em teses e dissertações da enfermagem brasileiraRossato, K. et al. (2023)Identificar tendências das pesquisas brasileiras em enfermagem sobre religiosidade e espiritualidade.Predominam estudos qualitativos focados em pacientes em adoecimento; há reconhecimento da relevância da espiritualidade no cuidado, mas persistem lacunas quanto a estudos quantitativos e ao contexto familiar.
Fonte: autoral, 2025. 


Os resultados demonstraram que níveis elevados e persistentes de cortisol estão associados a efeitos deletérios sistêmicos, como imunossupressão, resistência à insulina, aumento da pressão arterial e piora da resposta inflamatória. Nesse contexto, a espiritualidade emerge como um possível fator modulador dessa resposta, contribuindo para o equilíbrio neuroendócrino. Estudos analisados indicaram que pacientes que relatam maior envolvimento espiritual apresentam menor reatividade ao estresse e melhor regulação autonômica, com predomínio do sistema nervoso parassimpático, o que favorece a homeostase e a recuperação orgânica (Guerra et al., 2022).

No âmbito do sistema imunológico, a literatura aponta que a diminuição do cortisol relacionada à espiritualidade pode favorecer a melhora da resposta imune celular. Foram observados aumentos na atividade de linfócitos T, células natural killer (NK) e na produção de citocinas anti-inflamatórias, sugerindo um impacto positivo no controle de processos inflamatórios crônicos e na resposta a infecções. Esses achados reforçam a hipótese de que a espiritualidade atua como um fator psicobiológico capaz de influenciar diretamente mecanismos fisiológicos envolvidos na manutenção da saúde (Bueno; Oles; Huang, 2023).

Além disso, os estudos destacaram que a modulação do estresse por meio da espiritualidade impacta diretamente o sistema cardiovascular. Reduções nos níveis de cortisol e catecolaminas foram associadas à diminuição da frequência cardíaca, da pressão arterial e da variabilidade hemodinâmica, fatores reconhecidamente relacionados à redução do risco cardiovascular. Tais resultados sugerem que a espiritualidade pode contribuir de forma indireta para a prevenção de eventos cardiovasculares, especialmente em populações com doenças crônicas e alto grau de estresse emocional (Mendes, 2025).

No que se refere ao sistema nervoso central, os achados indicaram que a espiritualidade está associada à melhora da saúde mental, com redução dos níveis de ansiedade, depressão e sintomas de sofrimento psíquico. A diminuição do cortisol, aliada ao aumento de neurotransmissores como serotonina e dopamina, favorece maior estabilidade emocional e melhora da capacidade cognitiva e adaptativa. Esses efeitos são particularmente relevantes em pacientes submetidos a tratamentos prolongados, nos quais o desgaste emocional pode comprometer significativamente a adesão terapêutica (Rocha et al., 2023).

A relação entre espiritualidade, redução do estresse fisiológico e adesão ao tratamento também foi amplamente discutida nos estudos analisados. Pacientes que apresentam menor ativação do eixo HHA tendem a demonstrar maior clareza cognitiva, melhor tomada de decisão e maior capacidade de lidar com os efeitos adversos das terapias propostas. A espiritualidade, ao promover equilíbrio emocional e fisiológico, favorece o engajamento ativo do paciente no tratamento e a manutenção de comportamentos de autocuidado ao longo do tempo (Carmo, 2022).

Outro ponto relevante refere-se ao impacto sistêmico da espiritualidade em doenças crônicas, como diabetes mellitus, hipertensão arterial e doenças autoimunes. A literatura aponta que a redução crônica do cortisol pode contribuir para melhor controle glicêmico, diminuição da resistência insulínica e menor atividade inflamatória sistêmica. Esses efeitos reforçam a compreensão de que a espiritualidade não atua apenas como suporte emocional, mas como um componente capaz de influenciar diretamente a evolução clínica das doenças (Alves et al., 2025).

Apesar dos benefícios observados, os estudos também ressaltam que o impacto fisiológico da espiritualidade depende de fatores como frequência das práticas, significado atribuído pelo indivíduo e contexto sociocultural. A ausência de padronização metodológica em algumas pesquisas limita a generalização dos resultados, indicando a necessidade de estudos mais robustos, longitudinais e com marcadores biológicos bem definidos para melhor elucidar essas relações (Perse et al., 2021).

A discussão dos resultados evidencia ainda a importância de distinguir espiritualidade de religiosidade, uma vez que os efeitos fisiológicos observados estão mais relacionados à experiência subjetiva de sentido, conexão e propósito do que à adesão a dogmas específicos. Essa distinção é fundamental para a incorporação ética e científica da espiritualidade na prática clínica, respeitando a diversidade de crenças e valores dos pacientes (Rossato et al., 2023).

Diante dos achados, conclui-se que a espiritualidade exerce impacto sistêmico relevante, influenciando mecanismos neuroendócrinos, imunológicos e cardiovasculares, com reflexos diretos no tratamento e na adesão terapêutica. A integração dessa dimensão ao cuidado em saúde, de forma ética e baseada em evidências, representa um avanço na humanização da assistência e na promoção de desfechos clínicos mais favoráveis, reforçando a necessidade de sua consideração nos modelos contemporâneos de cuidado integral (Esperandio; Souza, 2023).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A espiritualidade no cuidado em saúde configura-se como um componente essencial para a compreensão ampliada do processo saúde–doença, ao reconhecer o ser humano em sua totalidade, incluindo aspectos emocionais, sociais e existenciais. Diversos estudos apontam que a espiritualidade pode atuar como um recurso de enfrentamento diante do adoecimento, auxiliando na redução da ansiedade, do estresse e do sofrimento psicológico, especialmente em situações de vulnerabilidade, como doenças crônicas, progressivas ou potencialmente fatais.

No contexto do tratamento, a espiritualidade pode exercer influência positiva na forma como o paciente percebe a doença e lida com as intervenções terapêuticas. Quando acolhida de maneira ética e respeitosa pelos profissionais de saúde, essa dimensão favorece o fortalecimento do vínculo terapêutico, promove maior confiança na equipe e contribui para uma comunicação mais efetiva, aspectos fundamentais para o cuidado centrado na pessoa.

A adesão terapêutica também se mostra diretamente relacionada à valorização das crenças e dos valores individuais do paciente. Indivíduos que se sentem compreendidos em suas dimensões subjetivas tendem a participar de forma mais ativa do tratamento, a seguir com maior comprometimento as orientações propostas e a desenvolver uma postura mais colaborativa frente ao cuidado. Assim, a espiritualidade pode funcionar como um fator motivacional e de suporte emocional, sem substituir as condutas médicas, mas atuando como um complemento ao tratamento convencional.

Diante disso, torna-se fundamental que a espiritualidade seja incorporada de forma consciente e responsável na prática em saúde, respeitando a diversidade cultural, religiosa e individual dos pacientes. Investir na formação dos profissionais para abordar essa temática de maneira sensível e fundamentada contribui para a humanização da assistência e para a promoção de um cuidado integral, capaz de impactar positivamente tanto os desfechos clínicos quanto a qualidade de vida dos pacientes.

REFERÊNCIAS

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¹Discente do Curso Superior de Medicina da AFYA FCM Jaboatão. E-mail: layslatamyresjb@gmail.com;
²Docente do Curso Superior de Medicina da AFYA FCM Jaboatão. Doutora em Educação Física pela UPE. E-mail: tatiana.lins@afya.com.br;
³Docente do Curso Superior de Medicina da AFYA FCM Jaboatão. Doutor em Saúde Integral pelo IMIP. E-mail: arturo.jordam@afya.com.br;
⁴Docente do Curso Superior de Medicina da AFYA FCM Jaboatão. Doutor em Neuropsiquiatria pela UFPE. E-mail: dennys.fagundes@afya.com.br.