EMPREGO DA CINZA VOLANTE EM MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO: UMA ABORDAGEM SUSTENTÁVEL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511292230


Luís Felipe Contin Freitas1
Orientador: Prof. Allan Kardec Gurgel do Amaral2


RESUMO 

O emprego da cinza volante (CV) em concretos tem se mostrado uma prática eficiente e  ambientalmente vantajosa, capaz de proporcionar resultados expressivos quanto ao desempenho e à  sustentabilidade das construções. Proveniente da queima do carvão mineral em usinas termelétricas,  a CV pode ser incorporada como adição mineral ao concreto, resultando em melhorias na  durabilidade, na impermeabilidade e na resistência química das estruturas. Além dos benefícios  técnicos, a utilização da cinza volante contribui significativamente para a redução das emissões de  dióxido de carbono, uma vez que possibilita a substituição parcial do cimento Portland, principal  responsável pela liberação de CO₂ durante sua produção. Contudo, para que os resultados sejam  satisfatórios, é indispensável que o material atenda aos requisitos normativos de qualidade e que sua  proporção na mistura seja devidamente controlada. O crescente interesse pelo uso da CV acompanha  a tendência mundial de adoção de práticas construtivas sustentáveis e de reaproveitamento de resíduos  industriais. Nesse contexto, o presente estudo tem por objetivo analisar o potencial da cinza volante  como substituto parcial dos aglomerantes tradicionalmente empregados na construção civil. Para  tanto, a pesquisa baseia-se em revisão bibliográfica, abordando aspectos técnicos, aplicações práticas  e características do material, de forma a compreender seu papel no desenvolvimento de soluções mais  duráveis e ambientalmente responsáveis.  

Palavras-chave: Resíduo sólido. Construção civil. Cinza volante. Concreto. 

ABSTRACT 

The use of fly ash (CV) in concrete has proven to be an efficient and environmentally advantageous  practice, capable of providing significant results in terms of the performance and sustainability of  constructions. Derived from the burning of coal in thermal power plants, CV can be incorporated as  a mineral additive to concrete, resulting in improvements in durability, impermeability, and chemical  resistance of structures. In addition to the technical benefits, the use of fly ash significantly contributes  to the reduction of carbon dioxide emissions, since it allows for the partial replacement of Portland  cement—the main source of CO₂ emissions during its production. However, for satisfactory results,  it is essential that the material meets the normative quality requirements and that its proportion in the  mixture is properly controlled. The growing interest in the use of CV follows the global trend of  adopting sustainable construction practices and reusing industrial waste. 

Keywords: Solid waste. Construction. Fly gray. Concrete.

1. INTRODUÇÃO 

Conforme apontam Yemal, Teixeira e Naas (2011), a construção civil constitui um dos pilares  do desenvolvimento econômico e social, dada sua relevância para o crescimento urbano e para a  geração de empregos. Entretanto, esse mesmo setor é reconhecido como um dos maiores responsáveis  por impactos ambientais, especialmente devido ao elevado consumo de recursos naturais, à alteração  da paisagem e à expressiva produção de resíduos sólidos (RS).  

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU, 2015) indicam que aproximadamente 30%  de todos os resíduos sólidos produzidos mundialmente têm origem nas atividades ligadas à  construção. 

No campo energético, o uso do carvão mineral em usinas termelétricas resulta na geração de  grandes volumes de resíduos a cada ano (KOOLIVAND et al., 2017; KOSTOVA et al., 2016;  HINRICHS, 2010). Mesmo com o avanço de fontes renováveis, como a energia eólica e solar, estima-se que o carvão continuará sendo utilizado como insumo energético por um longo período (REIS,  2011). Diante dessa realidade, cresce o interesse em encontrar alternativas que possibilitem o  reaproveitamento desses subprodutos, como é o caso da cinza volante (CV), cuja disposição  inadequada pode ocasionar sérios danos ambientais. 

A preocupação ambiental cada vez mais presente na sociedade tem impulsionado a construção  civil a adotar práticas sustentáveis e a buscar materiais que conciliam desempenho técnico,  viabilidade econômica e menor impacto ambiental. Nesse sentido, a incorporação de resíduos  industriais como a cinza volante surge como alternativa promissora, podendo inclusive superar em  alguns aspectos os materiais convencionais (MARTINHO; ALLEM, 2016). 

Com base nesse panorama, o presente trabalho propõe uma análise bibliográfica sobre o  emprego da cinza volante como substituição parcial dos aglomerantes tradicionalmente utilizados na  construção civil, buscando compreender suas aplicações, vantagens e limitações no contexto da  sustentabilidade. 

2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA  

 2.1 Cimento Portland 

De acordo com Mehta e Monteiro (2014), o cimento é um material de aspecto seco e  pulverulento, dotado de propriedades aglomerantes. Trata-se de um composto hidráulico, cuja  estabilidade em meio aquoso é assegurada principalmente pelos silicatos de cálcio presentes em sua  composição.

Conforme estabelece a norma NBR 12655 (Associação Brasileira de Normas Técnicas –  ABNT, 2015c), o cimento Portland é classificado como um aglomerante hidráulico produzido pela  moagem do clínquer, ao qual se adicionam uma ou mais formas de sulfato de cálcio. Durante sua  fabricação, também é possível incorporar materiais de natureza pozolânica, com o intuito de  aprimorar determinadas propriedades do produto final. 

A composição básica do cimento Portland é formada predominantemente por calcário, sílica,  alumina e óxidos de ferro. Esses elementos, ao reagirem entre si em altas temperaturas, originam  diversos compostos intermediários que, após atingirem o equilíbrio químico, conferem ao cimento  suas propriedades de resistência e durabilidade características (NEVILLE; BROOKS, 2013). 

2.1.1 Tipologias de Cimento Portland 

No contexto do mercado brasileiro, encontram-se atualmente cinco tipos principais de cimento  Portland, além de três variações de caráter especial. Embora todos possam ser aplicados em obras de  uso geral na construção civil, cada tipo apresenta propriedades específicas que determinam seu  melhor desempenho conforme a finalidade estrutural desejada. Essa diversidade possibilita a  obtenção de concretos com boa resistência mecânica, durabilidade e viabilidade econômica  (PUGLIESI, 2016; BATTAGIN; RODRIGUES, 2014). A Tabela 1 apresenta os diferentes tipos de  cimento disponíveis no mercado nacional, suas respectivas normas técnicas de referência e as  principais adições incorporadas em sua composição. 

Tabela 1: Tipos de cimentos disponíveis no mercado nacional

Fonte: ABNT (1991a), ABNT (1997), ABNT (1991c), ABNT (1999), ABNT (1991b); ABNT (1992ª); ABNT (1993) e  ABNT (1994).

2.2 Concreto  

Segundo Mehta e Monteiro (2014), o concreto é um material compósito formado  essencialmente por um meio aglomerante que envolve e une partículas ou fragmentos de agregados.  Trata-se de uma mistura hidráulica composta por cimento, água, agregados miúdos e graúdos,  podendo ainda conter aditivos destinados a modificar ou aprimorar determinadas propriedades do  material fresco ou endurecido. 

De acordo com os mesmos autores, existem diversas classificações de concreto, sendo os  concretos estruturais os mais utilizados nas obras de engenharia. Esses podem ser subdivididos em  três categorias, conforme sua resistência à compressão: baixa, moderada e alta. Entre esses, os  concretos de resistência moderada são os mais empregados na construção civil, apresentando  resistência à compressão característica entre 20 MPa e 40 MPa aos 28 dias de cura. 

A pasta de cimento representa aproximadamente de 25% a 40% do volume total do concreto  endurecido, sendo constituída, em média, por 7% a 15% de cimento, 14% a 21% de água e cerca de  8% de ar aprisionado. Os agregados, por sua vez, correspondem a 60% a 75% do volume do concreto  (KOSMATKA; PARANESE, 1994). Para que a mistura apresente desempenho satisfatório, é  fundamental que haja equilíbrio entre a qualidade e a proporção dos seus constituintes, garantindo  boa trabalhabilidade no estado fresco e resistência adequada após o endurecimento.

2.3 Aglomerantes  

Os aglomerantes, também denominados ligantes, são materiais finamente pulverizados que,  ao entrarem em contato com a água, formam uma pasta capaz de adquirir resistência e coesão,  permitindo a união dos materiais pétreos na composição de concretos e argamassas (RIBEIRO;  PINTO; STARLING, 2002). 

De acordo com sua origem, os aglomerantes podem ser classificados em orgânicos e minerais.  Os primeiros derivam de substâncias naturais de origem animal ou vegetal, enquanto os minerais são  obtidos a partir de rochas calcárias ou mármores que contêm determinados teores de argila  (MARGALHA, 2011). Entre os ligantes minerais, destacam-se dois grupos principais: os  aglomerantes hidráulicos e os aéreos. 

Outra forma de classificação baseia-se na afinidade do material com a água, dividindo os  ligantes em hidrófilos e hidrófobos. Os ligantes hidrófobos, como o alcatrão e algumas resinas  sintéticas, não dependem da água em seu processo de endurecimento. Já os hidrófilos apresentam  afinidade com a água, reagindo com ela para formar uma pasta que endurece posteriormente, a  exemplo dos aglomerantes hidráulicos e aéreos (COUTINHO, 2006). 

Os ligantes hidráulicos são constituídos por pós muito finos que possuem a capacidade de  endurecer tanto em contato com o ar quanto submersos em água, como ocorre com a cal hidráulica e  o cimento Portland. Por outro lado, os ligantes aéreos não endurecem em meio aquoso, pois dependem  da presença do dióxido de carbono atmosférico para completar o processo de carbonatação e adquirir  resistência (FARIA, 2004). 

3. METODOLOGIA  

O presente estudo enquadra-se como uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório. De  acordo com Gil (2008), esse tipo de pesquisa consiste em um procedimento sistemático de  levantamento, análise e interpretação de obras e publicações existentes sobre determinado tema, com  o propósito de ampliar o conhecimento, formular hipóteses ou estabelecer pressupostos teóricos.  Trata-se, portanto, de uma investigação desenvolvida a partir de fontes já publicadas, como livros,  artigos científicos, dissertações e materiais técnicos disponíveis em meio digital. 

Quanto à natureza, a pesquisa é classificada como básica, uma vez que busca gerar novos  conhecimentos teóricos, sem a realização de coleta de dados em campo, voltando-se para a  compreensão de conceitos e princípios de interesse científico mais amplo. A abordagem adotada é  qualitativa, visto que a análise se fundamenta na interpretação de informações provenientes de estudos bibliográficos, permitindo a adoção de perspectivas teóricas e subjetivas resultantes da  reflexão crítica sobre o tema (GIL, 2008). 

Para o desenvolvimento deste trabalho, foram selecionadas publicações científicas disponíveis  em bases digitais e periódicos especializados, priorizando estudos publicados a partir do ano de 2000  que abordam a utilização da cinza volante na construção civil, de forma a garantir a atualidade e a  relevância das informações analisadas. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO  

4.1 CV

De acordo com a norma ASTM C618 (1998), a cinza volante (CV) é um material finamente  dividido resultante da combustão do carvão pulverizado, sendo transportado pelos gases provenientes  desse processo. De modo semelhante, a NBR 12653 (ABNT, 2014b) define a cinza volante como um  resíduo de granulometria muito fina, originado da queima de carvão mineral pulverizado ou  granulado, apresentando características de atividade pozolânica, o que possibilita sua utilização como  adição mineral em materiais cimentícios. 

Segundo Mehta e Monteiro (2014), a formação da cinza volante ocorre nas usinas  termelétricas durante a geração de energia elétrica. Nesses sistemas, o carvão pulverizado é  introduzido na zona de queima, onde é submetido a elevadas temperaturas. Durante esse processo, o  carbono e os compostos voláteis são consumidos, enquanto as impurezas minerais — como argilas,  feldspatos e quartzo — sofrem fusão parcial. O material fundido se solidifica rapidamente, formando  partículas esféricas vítreas, que são arrastradas pelos gases quentes e posteriormente capturadas em  precipitadores eletrostáticos. 

A fração retida nesses precipitadores corresponde, em média, a três quartos da quantidade total  de cinzas produzidas nas caldeiras, sendo denominada cinza volante. A parcela restante, composta  por partículas mais densas que se depositam no fundo das caldeiras, é conhecida como cinza pesada  (FUNGARO; SILVA, 2002). 

De acordo com Recena (2011), a sílica é o principal componente presente nas cinzas volantes,  enquanto o carbono aparece em menores proporções. Já Cezar (2011) destaca a presença significativa  de alumina, além da sílica, como elemento característico de sua composição. A proporção desses  óxidos é utilizada como critério de classificação das cinzas volantes, influenciando diretamente suas  propriedades físicas e químicas e, consequentemente, seu desempenho como material pozolânico.

4.1.1 Classificação e composição 

Conforme estabelece a norma ASTM C618 (2005), as cinzas volantes são classificadas em  duas categorias principais, com base em sua composição química: classe F e classe C. Essa distinção  é determinada pela soma dos teores de sílica (SiO₂), alumina (Al₂O₃), óxido de ferro (Fe₂O₃) e óxido  de cálcio (CaO). As cinzas são enquadradas na classe F quando a soma dos três primeiros compostos  — sílica, alumina e óxido de ferro — ultrapassa 70% do total, enquanto pertencem à classe C quando  essa soma é superior a 50%, devido à presença significativa de óxido de cálcio. 

As cinzas de classe F são normalmente originadas da queima de carvão betuminoso e  apresentam baixo teor de cálcio, o que lhes confere características predominantemente pozolânicas,  sem propriedades cimentantes autônomas. Já as cinzas de classe C, derivadas da queima de carvões  sub-betuminosos, possuem maior concentração de CaO, conferindo-lhes atividade cimentante, ou  seja, capacidade de endurecer em presença de água (CEZAR, 2011). 

4.1.2 O emprego de cinzas volantes 

A cinza volante (CV) possui ampla aplicabilidade na indústria da construção civil, podendo  ser utilizada em diferentes etapas do processo construtivo. De acordo com Vianchá e Roldan (2007),  esse material pode ser incorporado na fabricação do cimento Portland, na produção de concretos  moldados in loco, atuando tanto como aditivo mineral quanto como componente de agregado, além  de ser empregado como material de enchimento em obras de estabilização de solos. Fora do campo  estrutural, também encontra aplicação na produção de clínquer, na imobilização de resíduos  industriais, em misturas asfálticas e até mesmo em atividades agrícolas, como condicionador de solo. 

Segundo Cezar (2011), a cinza volante é uma pozolana amplamente utilizada como adição ao  cimento, contribuindo para o aprimoramento de suas propriedades frente ao ataque de agentes  agressivos. Trata-se de um subproduto coletado por precipitação eletrostática dos gases de exaustão  gerados em usinas termelétricas alimentadas por carvão mineral. Suas partículas esféricas e de  elevada finura favorecem a compactação da matriz cimentícia e reduzem a permeabilidade do  concreto. 

De acordo com Mehta e Monteiro (2014), aspectos como a granulometria, a morfologia e as  características superficiais das partículas de cinza volante exercem influência direta sobre o  comportamento do concreto. Esses fatores afetam o consumo de água, a trabalhabilidade da mistura  no estado fresco e a cinética de ganho de resistência do concreto endurecido, impactando tanto o  desempenho mecânico quanto a durabilidade da estrutura.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS  

A utilização de CV no concreto representa uma prática promissora e sustentável, com diversos  benefícios técnicos, econômicos e ambientais. As cinzas atuam como uma adição mineral que  melhora a durabilidade do concreto, reduzindo sua permeabilidade e aumentando sua resistência  química. Além disso, contribui para controlar o calor de hidratação, crucial em grandes volumes de  concretagem. 

O uso de CV diminui a quantidade de cimento Portland necessária na mistura, o que não  apenas reduz a pegada de carbono da construção, mas também aproveita um subproduto industrial  que de outra forma poderia ser descartado, promovendo práticas construtivas mais sustentáveis. É  essencial que a cinza volante utilizada atenda aos padrões de qualidade exigidos, garantindo assim a  consistência e confiabilidade do concreto. A dosagem deve ser cuidadosamente controlada para  maximizar os benefícios sem comprometer a resistência mecânica e outras propriedades essenciais. 

Em conclusão, o emprego de CV no concreto não apenas fortalece as propriedades do material,  mas também contribui de maneira significativa para a construção de estruturas mais duráveis e  sustentáveis. Com práticas de engenharia adequadas e um compromisso contínuo com a qualidade e  inovação, podemos maximizar os benefícios dessa tecnologia em benefício do meio ambiente e da  indústria da construção civil.

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