EFFECTIVENESS OF THERAPEUTIC ULTRASOUND IN THE REHABILITATION OF ANKLE SPRAIN
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511221524
André Rodrigues Jorge
Cesar Aguilar De Moura Filho
Larissa Duarte Belem
Milena Coelho Marcelino da Silva
Orientador: Prof. Auderley Cunha
RESUMO
A entorse de tornozelo é uma lesão frequente, associada a dor, limitação funcional, instabilidade e alterações da marcha. O ultrassom terapêutico é amplamente utilizado na fisioterapia, mas sua eficácia específica nessa condição ainda é controversa. Objetivo: avaliar a eficácia do ultrassom terapêutico na reabilitação de entorse de tornozelo, considerando efeitos sobre dor, função, estabilidade e retorno às atividades. Metodologia: revisão sistemática narrativa, estruturada pela estratégia PICO, com buscas nas bases PubMed®, SciELO, BDTD e Google Acadêmico. Foram incluídos estudos dos últimos 10 anos, em português ou inglês, que abordassem o uso do ultrassom na reabilitação de entorse de tornozelo, totalizando dez publicações selecionadas. Resultados: os estudos mostram que o ultrassom raramente é utilizado como intervenção principal, sendo utilizado como recurso complementar em protocolos multimodais com exercícios, treino proprioceptivo, terapia manual, crioterapia e bandagens. Apesar da plausibilidade biológica, os achados clínicos são discretos, pouco padronizados e sem evidência robusta de benefício isolado do ultrassom. Conclusão: com as evidências atuais, o ultrassom terapêutico não pode ser considerado eficaz como tratamento isolado para entorse de tornozelo, mas pode compor programas de reabilitação combinados, centrados em exercícios e treino funcional. Há necessidade de estudos clínicos com melhor qualidade metodológica e padronização de parâmetros de aplicação.
Palavras-chaves: Ultrassom Terapêutico; Entorse de Tornozelo; Reabilitação; Fisioterapia
ABSTRACT
Introduction: ankle sprain is a frequent injury associated with pain, functional limitation, instability, and gait alterations. Therapeutic ultrasound is widely used in physiotherapy, but its specific effectiveness for this condition remains controversial. Objective: to evaluate the effectiveness of therapeutic ultrasound in the rehabilitation of ankle sprain, considering its effects on pain, function, stability, and return to activities. Methodology: narrative systematic review structured according to the PICO strategy, with searches conducted in PubMed®, SciELO, BDTD, and Google Scholar. Studies published in the last 10 years, in Portuguese or English, addressing the use of ultrasound in ankle sprain rehabilitation were included, totaling ten selected publications. Results: the studies show that ultrasound is rarely used as the main intervention, appearing instead as a complementary resource within multimodal protocols involving exercises, proprioceptive training, manual therapy, cryotherapy, and taping. Despite biological plausibility, clinical findings are modest, poorly standardized, and lack robust evidence supporting the isolated benefit of ultrasound. Conclusion: based on current evidence, therapeutic ultrasound cannot be considered effective as a stand-alone treatment for ankle sprain but may be included in combined rehabilitation programs centered on exercise and functional training. There is a need for clinical studies with better methodological quality and standardized application parameters.
1 INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem como temática a eficácia do ultrassom terapêutico na reabilitação de entorse de tornozelo. Nesse sentido, faz-se significativo elucidar que essa uma lesão comum do sistema musculoesquelético e que pode ocorrer desde crianças, jovens, adultos e idosos, ou seja, acomete um público diverso em decorrência de atividades cotidianas como: caminhada em superfícies irregulares; saltos altos; sapatos muito largos; acidentes domésticos ou de trânsito. Mas também podem ser resultado de: lesão em atividades físicas; muito esforço ou treino de atividade física sem adaptações prévias; e queda (Andrade; Ferreira, 2022).
Dessa forma as entorses do tornozelo resultam de movimentos anormais que excedem o limite fisiológico da articulação do sistema musculoesquelético, envolvendo, comumente, a distensão ou ruptura de ligamentos, sendo o ligamento talofibular anterior o mais afetado, seguido pelo calcaneofibular e o talofibular posterior (Vieira et al., 2022). Segundo os autores, quando lesionados, esses ligamentos essenciais na estabilidade lateral do tornozelo, geram limitação funcional, dor e edema.
As causas da instabilidade do tornozelo têm sido atribuídas a: instabilidade funcional (IF); e a instabilidade mecânica (IM), sendo que esta se caracteriza pelo movimento do tornozelo além do limite fisiológico de sua amplitude de movimento, já aquela, enquanto a instabilidade funcional (IF) é definida como a sensação subjetiva de instabilidade do tornozelo e/ou a presença de entorses recorrentes devido à presença de déficits neuromusculares e proprioceptivos (Silva, 2016).
E, caso não reabilitada, a entorse pode ocasionar: sensibilidade ao toque; aumento da dor e do edema; maior dificuldade de colocar o pé no chão; rigidez, deambulação prejudicada; limitação dos movimentos independentes do pé; perda de força e de propriocepção; e problemas crônicos (Andrade; Ferreira, 2022).
Vieira et al. (2022) destacam a classificação das entorses conforme o grau de comprometimento ligamentar e a limitação funcional: grau I ou ligeira, com estiramento dos ligamentos sem ruptura significativa; há dor leve e discreto inchaço; grau II ou moderada, com ruptura parcial dos ligamentos, acompanhada de dor e edema mais evidentes, apresentando leve instabilidade; e grau III ou grave, em que ocorre a ruptura total dos ligamentos, com perda de estabilidade, dor intensa e dificuldade para apoiar o pé.
Há que elucidar ainda que, a reabilitação consiste no processo de aceleração da regeneração tecidual, redução do tempo de consolidação óssea e restauração da função do segmento afetado. Ela inclui um conjunto de intervenções terapêuticas realizadas após uma lesão musculoesquelética, dentre elas, a entorse, com o propósito de: reduzir inflamação e dor; reestabelecer a função e o movimento da articulação; restaurar a integridade estrutural do tecido ósseo, ligamentar ou muscular; e possibilitar o retorno às atividades normais ou esportivas (Souza, 2022).
Assim, dentre as reabilitações, destaca-se o ultrassom terapêutico (UST), um recurso utilizado na fisioterapia há mais de 50 anos, voltado ao tratamento de inflamações decorrentes de lesões musculares e ligamentares por meio de vibrações mecânicas de alta frequência, ou seja, acima de 20 kHz, produzidas por um transdutor que transforma energia elétrica em energia mecânica, gerando efeitos térmicos e mecânicos nos tecidos (Souza, 2022).
De acordo com o autor acima citado, esses efeitos provocam aumento do metabolismo celular, alívio da dor, redução da rigidez articular e melhora do fluxo sanguíneo local, Ele atua por meio de vibrações mecânicas de alta frequência (acima de 20 kHz), produzidas por um transdutor que transforma energia elétrica em energia mecânica, gerando efeitos térmicos e mecânicos nos tecidos. Em decorrência desses efeitos há um aumento do metabolismo celular, alívio da dor, redução da rigidez articular e melhora do fluxo sanguíneo local (Souza, 2022)
Dessa forma, esta pesquisa tem como objetivo geral elucidar os resultados sobre a eficácia do ultrassom terapêutico na reabilitação de entorse de tornozelo. Para isso foram eleitos ainda os seguintes objetivos específicos: efeitos fisiológicos, parâmetros de aplicação e resultados funcionais observados na recuperação das estruturas musculoesqueléticas afetadas; e os efeitos térmicos e mecânicos, mecanismos de ação e benefícios clínicos reportados na literatura.
2 METODOLOGIA
Para alcançar os objetivos propostos, a metodologia científica selecionada foi a revisão sistemática narrativa da literatura acadêmica, que tem o intuito de elucidar a eficácia do ultrassom terapêutico na reabilitação de entorse de tornozelo. Focando assim, em discutir e resumir os achados de forma descritiva (Siddaway; Wood; Hedges, 2019).
2.1 Critérios de Elegibilidade
Para sintetizar evidências acadêmicas relativas aos custos e benefícios da inovação empresarial foi formulada uma pergunta norteadora com base na estratégia PICO, considerando o exposto abaixo.
Tabela 1 – Estratégia PICO da pesquisa
| Elemento | Descrição detalhada (baseada no texto da introdução) |
| P (População) | Indivíduos com entorse de tornozelo (graus I, II ou III), decorrente de causas cotidianas ou esportivas, que necessitam de reabilitação fisioterapêutica para restauração funcional do sistema musculoesquelético. |
| I (Intervenção) | Aplicação do ultrassom terapêutico (UST) como recurso fisioterapêutico, atuando por vibrações mecânicas com efeitos térmicos e mecânicos sobre os tecidos lesionados, visando regeneração e melhora da função articular. |
| C (Comparação) | Outras modalidades fisioterapêuticas utilizadas na reabilitação de entorses ou a ausência de tratamento com ultrassom. |
| O (Desfecho) | Melhora clínica e funcional do tornozelo lesionado, evidenciada por redução da dor e do edema, aumento da amplitude de movimento, recuperação da força muscular e estabilidade articular, e retorno às atividades diárias ou esportivas. |
A pergunta norteadora resultante foi: qual é a eficácia do ultrassom terapêutico na reabilitação de indivíduos com entorse de tornozelo, quanto à recuperação funcional, redução da dor e melhora da estabilidade articular?
2.2 Critérios de Seleção
A inclusão das publicações considerou os critérios: (1) temporais, ou seja, artigos publicados nos últimos 10 anos; (2) estudos que avaliam a eficácia do ultrassom terapêutico na reabilitação de entorse de tornozelo (3) estudos publicados na língua inglesa e portuguesa (4) o tipo de acesso, optando-se pelo aberto a fim de garantir a leitura, acesso e reprodução da metodologia científica.
Os critérios de exclusão foram: (1) estudos duplicados; (2) estudos que não focaram no uso do ultrassom terapêutico como intervenção na reabilitação de entorses do tornozelo; (3) estudos de modelos animais; (4) estudos fora do recorte temporal.
2.3 Informações da Busca
Os estudos foram recuperados de pesquisa de banco de dados eletrônico e de uma varredura abrangente na lista de referência dos estudos incluídos. A busca foi realizada em outubro de 2025 nas seguintes bases de dados: PubMed®; Scientific Electronic Library Online (SciELO); e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD).
2.4 Estratégia de Busca
Um levantamento exploratório para verificar a adequação dos descritores e refinar a estratégia de pesquisa foi realizado antes da execução da busca sistemática. Isso garantiu consistência terminológica e cobertura adequada do campo investigado (Tranfield; Denyer; Smart, 2003).
O detalhamento metodológico desta revisão sistemática narrativa é regido por um protocolo rigoroso e transparente. As etapas sequenciais de busca, seleção, elegibilidade e extração de dados, essenciais para garantir a replicabilidade da pesquisa, estão ilustradas e resumidas na Tabela 2 a seguir.
Tabela 2 – Protocolo da Revisão Sistemática Narrativa

A busca bibliográfica nas bases de dados usou as palavras-chaves de acordo com DeCS/MeSH: “ultrassom terapêutico”/ “therapeutic ultrasound”; “entorse de tornozelo”/ “ankle sprain”; “reabilitação”/ “rehabilitation” “fisioterapia”/ “physical therapy”.
Os descritores foram combinados com o operador booleano AND para garantir especificidade, conforme orientação metodológica. OR e NOT foram evitados para não ampliar ou restringir de forma indevida. O uso de AND reduz significativamente o risco de obter resultados irrelevantes que tratem apenas de um ou dois desses temas isoladamente, promovendo a precisão e a relevância dos artigos incluídos. E, nesta pesquisa, o operador OR não será utilizado, uma vez que ampliaria excessivamente a busca, trazendo artigos que mencionam apenas um dos termos, o que não atende aos objetivos de uma busca específica e dirigida. De forma similar, o operador NOT foi evitado, pois sua aplicação poderia restringir a busca de modo excessivo, resultando na exclusão de estudos potencialmente relevantes que incluam outros termos além dos focos principais, mas que ainda possam conter informações importantes para a revisão (Siddaway; Wood; Hedges, 2019).
A identificação e seleção dos estudos para esta revisão estão apresentadas no Fluxograma Prisma abaixo.
Figura 1 – Fluxograma Prisma das etapas de identificação e triagem das publicações

Como é possível analisar no fluxograma Prisma acima o processo de seleção da revisão sistemática narrativa, primeiramente foi realizada a busca na BDTD com o uso de todas as palavras chaves e o operador booleano AND, que não reportou nenhum resultado, foram realizadas buscas agrupando de dois em dois os termos, que também não retornaram resultados e o único retorno positivo foi para uso dos termos ultrassom terapêutico AND tornozelo, com apenas um estudo.
A plataforma SciELO não retornou nenhum resultado com o uso de todos os descritores em português ou em inglês e nem com apenas dois deles. Já a PubMed®, com uso de todos os descritores e o operador booleano AND em português não retornou resultados e em inglês resultou em 20 publicações, reduzidas.
Foram lidos os títulos e resumos das 21 publicações descritas, porém, a maioria não tratava de entorse do tornozelo, mas sim de fascite plantar, neuropatia periférica pós trauma, lesão osteocondral do talus, tendinopatia de Aquiles e lesão de ligamento cruzado, sendo que nenhum deles propunha o uso de ultrassom terapêutico, os 3 estudos que tratavam de entorse do tornozelo propunham o estudo do uso de terapia de ondas como tratamento, ou eletroestimulação (EMS) e exercícios, 02 publicações não estavam disponíveis de forma completa e gratuita.
Diante dos resultados, optou-se então para as buscas em um buscador, que indexa conteúdo de diversas fontes acadêmicas na internet, o Google Acadêmico que retornou 117 publicações, reduzidas a 70 com o critério de temporalidade, porém por ser um buscador e não uma base de dados científicos é menos eficaz, e usa pesquisa por perguntas ou palavras-chave, não entendendo o uso dos operadores booleanos, assim por meio dos títulos e resumos, 60 publicações não englobavam todas as palavras chaves e foram excluídos por 3 motivos: não tratavam especificamente da entorse de tornozelo; não abordavam reabilitação com fisioterapia; ou propunham outras intervenções que não o ultrassom terapêutico. Restando, portanto, para esta pesquisa 10 publicações lidas integralmente e que atendiam a todos os critérios de inclusão e exclusão utilizados.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
As publicações selecionadas estão expostas abaixo no quadro de metadados. Este permite condensar grandes volumes de dados em informações visualmente compreensíveis, facilitando a identificação de padrões, tais como: concentração das pesquisas em determinados anos ou regiões geográficas; também favorece a identificação de lacunas, objetivos centrais das revisões sistemáticas ao explicitar a distribuição e as características dos estudos incluídos, facultando assim, a replicabilidade e a validação.
Quadro 1 – Metadados das Publicações Selecionadas





Os achados da pesquisa de Araújo e Nunes (2022), quando do estudo da atuação da Fisioterapia no serviço militar, destacam que, as entorses estão entre as lesões musculoesqueléticas mais frequentes, complementando que estas ocorrem preponderantemente no joelho e no tornozelo.
No estudo destacado acima as técnicas fisioterapêuticas figuram como intrínsecas à redução do quadro álgico, incluindo o uso do ultrassom terapêutico como um recurso analgésico geral, ou seja, o calor profundo é um mecanismo que usufrui de energia ultrassônica, produzindo vibrações mecânicas aptas a gerar efeitos terapêuticos resultantes dos efeitos mecânicos ou térmicos para a dor e inflamações em todas as lesões musculoesqueléticas, incluindo as entorses do tornozelo (Araújo; Nunes, 2022).
No entanto, a pesquisa não descreve especificamente o protocolo utilizado, ou seja, a pesquisa elucida o uso do ultrassom terapêutico tendo a redução da dor como o objetivo clínico, o calor profundo e as vibrações mecânicas como os mecanismos gerais do tratamento e o efeito terapêutico são térmicos e mecânicos (Araújo; Nunes, 2022).
A pesquisa de Faria (2017) trata a entorse de tornozelo como um trauma intenso o suficiente para gerar uma fratura, elucidando ainda que o movimento associado a essas fraturas são a inversão, ou seja, quando o pé, abruptamente, vira pra dentro, colocando um estresse excessivo nos ligamentos laterais, especialmente no talofibular anterior, podendo lesionar os ligamentos, mas também fraturar ossos do tornozelo, como o maléolo lateral.
Em outras palavras a inversão intensa, o padrão biomecânico mais comum, leva à entorse grave e como consequência pode produzir sintomas e danos semelhantes aos de uma fratura, ou mesmo ao risco real de fratura no tornozelo (Faria, 2017).
Assim, nesses casos o ultrassom se enquadra na lista de recursos fisioterapêuticos gerais, como um recurso auxiliar no protocolo de tratamento na fase pós-imobilização, durante a reabilitação funcional musculoesquelética por reduzir a dor, favorecer a cicatrização, melhorar o processo inflamatório e influenciar positivamente no ganho de mobilidade, embora não seja destacado como terapia principal no processo (Faria, 2017)
O estudo acima citado destaca ainda, o equilíbrio e a marcha como objetivos fundamentais da reabilitação pós-fratura de tornozelo. Enfatizando que a fisioterapia deve recuperar o equilíbrio porque a fratura gera dor, edema, fraqueza e limitação funcional. Ressalta ainda que a marcha depende da estabilidade óssea e ligamentar para distribuir corretamente as forças durante a deambulação. Dessa forma, a recuperação da marcha é lenta, podendo levar meses até que a musculatura esteja forte o suficiente para permitir caminhar sem mancar (Faria , 2017).
O exposto corrobora com o apontado por Henriques (2025), que destaca a entorse do tornozelo como a lesão mais frequente no esporte, comprometendo a propriocepção e o desempenho na prática da atividade física, o que exige reabilitação específica. Isto, pois, a entorse gera instabilidade funcional, afetando diretamente o equilíbrio. A perda de estabilidade e do controle postural altera a marcha, tornando-a menos eficiente.
Diante do elucidado, a utilização de treino de equilíbrio e proprioceptivo para recuperar essas funções se faz significativo e o ultrassom terapêutico é uma técnica complementar utilizada na fisioterapia, associado a alongamentos e exercícios resistidos, sendo descrito como um recurso seguro e apoiado pelos estudos que o empregaram, já que não houve intercorrências relacionadas ao seu uso (Henriques, 2025).
O autor reforça que o uso do ultrassom terapêutico integra o conjunto de recursos empregados na reabilitação da entorse, atuando como suporte dentro de um programa que visa restabelecer função, estabilidade e retorno à capacidade de marcha, embora não apresente parâmetros de aplicação nem descreva seus efeitos diretos (Henriques, 2025).
O trabalho de Arruda (2022), ao estudar a importância da Fisioterapia para atletas, especificamente os do Judô, destaca a entorse como a lesão que mais afeta o tornozelo dos judocas, devido ao estresse mecânico súbito sobre ligamentos, típico dos mecanismos rápidos de rotação e apoio forçado característicos do esporte. E uma ferramenta fisioterapêutica amplamente utilizada para acelerar reparo tecidual e tratar diversas condições musculoesqueléticas foi o Ultrassom terapêutico, atuando por mecanismos celulares que aumentam metabolismo, colágeno e modulação inflamatória.
Assim, há aceleração do reparo tecidual e redução de dor e inflamação com o uso do ultrassom terapêutico, devido à geração de ondas acústicas que promovem aumento do metabolismo celular, estimulando a regeneração de tecidos lesionados. A produção de colágeno é acelerada pela maior mobilidade dos fibroblastos, essencial na recuperação de tecidos moles. Há ainda o aumento de mediadores responsáveis por modular o processo inflamatório, reduzindo sintomas e favorecendo a recuperação funcional, resultantes da promoção de secreção de mastócitos (Arruda, 2022).
Silva, Silva e Ramos (2022) definem os sintomas da entorse por inversão como sendo: dor; edema; limitação funcional; dificuldade de deambulação; instabilidade do tornozelo; e risco de recorrência. Elucidam ainda a flexão plantar somada à inversão como a principal ocorrência da entorse, que lesiona o ligamento talofibular anterior; e o ligamento calcaneofibular, gerando instabilidade mecânica e alterações proprioceptivas, que resultam em consequências funcionais como: prejuízo crônico da propriocepção; déficits sensório-motores; lentidão no tempo de resposta reflexa; instabilidade crônica; Ampliação dos riscos de novas entorses; redução da vibração plantar, afetando equilíbrio.
Os autores acima citados elucidam ainda que a instabilidade decorrente da lesão pode causar: déficit de controle postural; pior desempenho em tarefas de apoio unipodal; e maior oscilação corporal, sendo necessário avaliar o equilíbrio postural por meio de testes como o Star Excursion Balance Test (SEBT) para detectar déficits funcionais após entorse, o Balance Error Scoring System (BESS) a fim de avaliar estabilidade e a Plataforma de força para avaliação postural. A pesquisa mostra as alterações na marcha advindas da perda de força, redução da mobilidade e instabilidade articular (Silva; Silva; Ramos, 2022).
Na pesquisa acima citada o ultrassom figura como recurso de reabilitação fisioterapêutica, em modo contínuo ou térmico para o aumento do fluxo sanguíneo e da extensibilidade dos tecidos, a redução da dor e do espasmo muscular. E em modo pulsado ou atérmico, estimulando o metabolismo celular, aumentando a síntese de colágeno, acelerando o reparo tecidual e favorecendo a cicatrização de ligamentos (Silva; Silva; Ramos, 2022).
Assim o estudo descreve efeitos fisiológicos do ultrassom terapêutico como positivos na redução da dor, facilitando a descarga de peso; na melhora da mobilidade e, consequentemente, no padrão da marcha, no reparo ligamentar, melhorando a estabilidade, na redução do edema, potencializando a propriocepção e na reorganização de fibras colágenas, melhorando controle articular. Efeitos que favorecem a recuperação funcional, o que indiretamente melhora equilíbrio e marcha, pois os mecanismos biológicos descritos são essenciais para essas funções (Silva; Silva; Ramos, 2022).
A pesquisa de Costa (2016) descreve o quadro clínico típico da entorse, destacando que ela provoca: dor; inchaço; e alterações na marcha, que se tornam mais evidentes conforme a gravidade da lesão. Soma-se a isso o fato de que, quando há suspeita de fratura associada à entorse do tornozelo, o paciente pode não conseguir apoiar o pé para andar, impactando diretamente o padrão de marcha.
Assim, na fase aguda da entorse de tornozelo, o ultrassom aparece como recurso indicado para alívio da dor, porém a pesquisa não descreve os parâmetros utilizados, mas elucida que o treinamento proprioceptivo e sensóriomotor otimiza o equilíbrio estático e dinâmico, melhora o controle neuromuscular e reduz a incidência de nova entorse. Há que se destacar que um dos desfechos melhorados pela reabilitação, especialmente pelo treino proprioceptivo e fortalecimento foi melhora da marcha, sendo que esta é comprometida devido ao inchaço e dores resultantes da entorse (Costa, 2016).
O trabalho de Halabachi e Hassabi (2020) aponta o tratamento de entorse de tornozelo por inversão deve ser tratada com um protocolo conhecido como Rest, Ice, Compression e Elevation (RICE), órteses, mobilização precoce, cinesioterapia e exercícios progressivos que envolvem força, amplitude de movimento, propriocepção e estímulos neuromusculares.
Nesse sentido, os autores mencionam como uma modalidade amplamente utilizada na fisioterapia esportiva o ultrassom, destacando seus efeitos analgésicos, térmicos, quando utilizado o modo contínuo e atérmicos, quando usado o modo pulsado, pois ambos favorecem reparo tecidual, formação de colágeno, controle da inflamação e recuperação dos tecidos moles (Halabachi; Hassabi, 2020).
O conjunto das intervenções somadas ao uso do ultrassom terapêutico corrobora para a recuperação da marcha e do equilíbrio no processo de reabilitação, pois são observados a melhora da amplitude de movimento, do deslizamento subtalar e da mecânica dos passos, ou seja, da velocidade, do comprimento e da força (Halabachi; Hassabi, 2020).
Andrade e Ferreira (2022) destacam que a entorse mais comum ocorre por inversão com o tornozelo em flexão plantar leve, lesionando o ligamento talofibular anterior. Complementam ainda que quando a inversão ocorre com tornozelo a 90°, o mais acometido é o calcaneofibular. Assim, a lesão ocorre após grande carga em articulação composta por tíbia, fíbula e tálus.
A fragilidade, a instabilidade, a dor, a rigidez, o edema, a limitação funcional, o prejuízo na marcha e a perda de propriocepção foram apontados como consequências da entorse. Sendo que a instabilidade pode ser funcional, causando déficits neuromusculares ou mecânicos por excesso de amplitude de movimento (Andrade; Ferreira, 2022).
A alteração da marcha pela entorse advém da dor, do inchaço e limitação da amplitude de movimento, assim a dor e o edema dificultam colocar o pé no chão, provocando ainda perda de força, amplitude de movimento e propriocepção, ou seja, equilíbrio. Nesses casos, o ultrassom aparece como recurso fisioterapêutico na fase aguda por ser eficiente na redução da dor, ou seja, aplicado juntamente às demeais intervenções, reduzindo também os sintomas inflamatórios (Andrade; Ferreira, 2022).
A revisão sistemática de Alfredo (2020), embora não apresente uma seção específica dedicada à entorse de tornozelo, traz dados particularmente relevantes sobre uso do ultrassom terapêutico nessa lesão. Segundo o texto, a avaliação de ensaios clínicos que aplicaram o ultrassom no tratamento de entorse e constataram que os resultados eram pequenos e de importância clínica limitada, apontando ainda a ausência de parâmetros ideais de dose e a baixa qualidade metodológica dos estudos revisados.
Dessa forma, de acordo com o autor acima citado, o recurso apresenta plausibilidade biológica, mas permanece clinicamente inconclusivo no contexto da entorse de tornozelo, devido a um ponto fundamental: os efeitos discretos e sem consenso sobre dose, frequência ou tempo de aplicação (Alfredo, 2020).
O estímulo à proliferação celular, o aumento da mobilidade de fibroblastos, a intensificação da síntese proteica, a influência sobre fatores de crescimento e o aumento da atividade de células satélite musculares, além da ativação de osteoblastos e monócitos estão entre os efeitos do ultrassom terapêutico apontados por Alfredo (2020). Esses mecanismos justificam plausibilidade fisiológica do ultrassom no auxílio do tratamento de lesões ligamentares, como a entorse, além de contribuir para a recuperação de lesões tendíneas, reparo muscular e remodelação tecidual pós-trauma.
Porém, os estudos clínicos ainda não demonstrem resultados consistentes, mas Alfredo (2020) enfatiza que os efeitos biológicos são compatíveis com o tipo de reparo demandado em lesões ligamentares, adotando uma postura crítica em relação ao corpo de evidências disponível sobre o ultrassom terapêutico, destacando que a maioria dos estudos apresenta padrão metodológico fraco.
Além disso, o estudo destaca que grande parte das evidências clínicas sobre o ultrassom terapêutico é limitada devido à baixa qualidade metodológica dos estudos, ao uso de equipamentos que não entregam a dose programada e à falta de controle de variáveis essenciais, como intensidade, tempo, profundidade e características do tecido. Essas falhas podem explicar muitos dos resultados negativos encontrados na literatura, já que o ultrassom é uma modalidade altamente dependente da dosagem e pequenas variações comprometem sua eficácia e a replicabilidade dos estudos (Alfredo, 2020).
Além disso, o artigo enfatiza a necessidade de padronização da dose, considerando tipo de tecido, profundidade e atenuação acústica e apresenta o aplicativo DUST como uma proposta para estimar parâmetros adequados. Isto, pois, o controle preciso da dosagem permite que os efeitos biológicos robustos do ultrassom tenham maior chance de se traduzir em benefícios clínicos reais, reforçando que a falta de padronização é um dos principais obstáculos para comprovar sua eficácia em pesquisas e na prática (Alfredo, 2020).
O estudo de Nascimento (2023) é um exemplo do exposto acima, uma vez que o autor identifica a entorse como um dos tipos de lesões presentes entre atletas de futebol, representando 16,7% dos casos registrados, porém, não descreve mecanismos lesivos e comprometimentos funcionais. Embora todos os atletas utilizassem o ultrassom terapêutico como parte do tratamento não foram apresentados os parâmetros de aplicação, indicações clínicas, justificativas para o uso ou resultados diretamente atribuídos a essa modalidade. Assim, a pesquisa contribui apenas registrando o uso do ultrassom na rotina fisioterapêutica em todos os casos de presença de entorse, mas não fornece evidências sobre sua eficácia ou influência na recuperação do equilíbrio e da marcha.
4 CONCLUSÃO
Após o percurso da pesquisa foi evidenciada uma importante lacuna na literatura: a escassez de estudos que analisem exclusivamente o uso do ultrassom terapêutico como recurso principal e isolado para a reabilitação de entorses de tornozelo. Este é descrito como um recurso coadjuvante, inserido em protocolos multimodais que incluem crioterapia, exercícios de fortalecimento, treino proprioceptivo, terapia manual, bandagens funcionais e reeducação da marcha.
O ultrassom terapêutico, mesmo sendo citado como parte do protocolo, não traz o detalhamento de parâmetros como: frequência; intensidade; tempo de aplicação; modo contínuo ou pulsado, sendo estes últimos mais presentes nos resultados. Destaca-se ainda a associação direta entre seu uso e os desfechos clínicos avaliados.
O ultrassom, figurou como potencialmente útil na modulação da dor, na aceleração do reparo tecidual e na cicatrização de ligamentos, mas na maioria dos estudos em protocolos combinados, o que impede atribuir, com segurança, os ganhos funcionais especificamente a essa modalidade.
Parte da literatura permitiu a observação de um descompasso entre a plausibilidade biológica robusta do ultrassom baseada em efeitos térmicos e mecânicos sobre colágeno, inflamação e metabolismo celular e a fragilidade das evidências clínicas disponíveis, uma vez que sua eficácia isolada na recuperação funcional, no equilíbrio e na marcha após entorse não é confirmada.
Isto decorre do fato de que os resultados clínicos são discretos ou de relevância limitada para o ultrassom terapêutico na entorse de tornozelo, enfatizando os problemas metodológicos, ausência de padronização de dose e uso de equipamentos com entrega incerta de energia.
Conclui-se, que o uso exclusivo do ultrassom terapêutico não pode ser considerado um recurso de eficácia comprovada de forma independente na reabilitação de entorse de tornozelo. Apresentando-se como estratégia complementar, potencialmente útil quando associado a programas bem estruturados de exercícios, fortalecimento, treino proprioceptivo, mobilização articular e reeducação da marcha, os quais concentram o melhor nível de evidência para recuperação funcional e prevenção de recidivas.
Para a prática clínica, isso implica que o ultrassom não deve substituir intervenções ativas, mas pode ser incorporado com critério, sempre integrado a um plano de reabilitação global, sobretudo, devido a sua positividade em relação à redução da dor e ao controle do processo inflamatório.
Por último, mas não menos importante, esta pesquisa reitera a necessidade de novos estudos clínicos de melhor qualidade metodológica, que utilizem protocolos padronizados de dose, descrevam claramente os parâmetros de aplicação e avaliem desfechos funcionais relevantes, como dor, estabilidade, equilíbrio, marcha e retorno ao esporte.
Ensaios clínicos controlados que comparem diretamente a reabilitação com e sem ultrassom, em diferentes graus de entorse, são fundamentais para reduzir a lacuna identificada e permitir que a decisão terapêutica se baseie em evidências mais sólidas, e não apenas em tradição de uso ou plausibilidade fisiológica.
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