EROSIVE EFFECTS OF ACIDIC BEVERAGES ON NATURAL TEETH: AN INTEGRATIVE REVIEW
EFECTOS EROSIVOS DE LAS BEBIDAS ÁCIDAS SOBRE LOS DIENTES NATURALES: REVISIÓN INTEGRATIVA
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202510311815
Samara Cristina Santos da Silva de Souza1
Laryssa Ribeiro Nauar de Araujo2
Amujacy Tavares Vilhena3
RESUMO
A erosão dentária é uma condição não cariosa caracterizada pela perda progressiva e irreversível dos tecidos duros do dente devido à ação química de ácidos extrínsecos ou intrínsecos, sem envolvimento bacteriano. O crescente consumo de bebidas ácidas — como refrigerantes, energéticos, isotônicos e sucos cítricos — tem sido apontado como um dos principais fatores etiológicos desse processo. O objetivo deste estudo foi analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, os efeitos erosivos de bebidas ácidas sobre dentes naturais, enfatizando os mecanismos de degradação do tecido dentário e suas implicações clínicas. A pesquisa foi conduzida nas bases de dados PubMed, SciELO e Google Scholar, considerando publicações entre 2021 e 2025. Foram incluídos estudos experimentais in vitro e revisões sistemáticas que avaliaram o potencial erosivo de bebidas ácidas sobre esmalte dentário natural. Os resultados mostraram que o pH baixo (<4,0), o tipo de ácido (cítrico, fosfórico ou carbônico) e o tempo de exposição são fatores determinantes para a severidade da erosão. Bebidas energéticas e isotônicas apresentaram os maiores índices de perda mineral e redução da microdureza. Conclui-se que o consumo habitual dessas bebidas constitui importante fator de risco para a integridade dental, sendo fundamental o desenvolvimento de estratégias educativas e preventivas para minimizar seus impactos.
Palavras-chave: Erosão dentária; bebidas ácidas; esmalte dentário; saúde bucal; prevenção.
ABSTRACT
Dental erosion is a non-carious condition characterized by the progressive and irreversible loss of tooth hard tissue due to the chemical action of extrinsic or intrinsic acids, without bacterial involvement. The increasing consumption of acidic beverages—such as soft drinks, energy drinks, sports drinks, and citrus juices—has been identified as one of the main etiological factors of this process. The objective of this study was to analyze, through an integrative literature review, the erosive effects of acidic beverages on natural teeth, emphasizing the mechanisms of dental tissue degradation and their clinical implications. The research was conducted in the PubMed, SciELO, and Google Scholar databases, considering publications between 2021 and 2025. In vitro experimental studies and systematic reviews that evaluated the erosive potential of acidic beverages on natural tooth enamel were included. The results showed that low pH (<4.0), the type of acid (citric, phosphoric, or carbonic), and the duration of exposure are determining factors for the severity of erosion. Energy and sports drinks presented the highest rates of mineral loss and reduction in microhardness. It is concluded that the habitual consumption of these beverages constitutes a significant risk factor for dental integrity, and the development of educational and preventive strategies to minimize their impacts is essential.
Keywords: Dental erosion; acidic drinks; tooth enamel; oral health; prevention.
RESUMEN
La erosión dental es una condición no cariosa que se caracteriza por la pérdida progresiva e irreversible del tejido duro del diente debido a la acción química de ácidos extrínsecos o intrínsecos, sin participación bacteriana. El creciente consumo de bebidas ácidas, como refrescos, bebidas energéticas, bebidas deportivas y jugos cítricos, se ha identificado como uno de los principales factores etiológicos de este proceso. El objetivo de este estudio fue analizar, a través de una revisión bibliográfica integradora, los efectos erosivos de las bebidas ácidas sobre los dientes naturales, enfatizando en los mecanismos de degradación del tejido dental y sus implicaciones clínicas. La investigación se realizó en las bases de datos PubMed, SciELO y Google Scholar, considerando publicaciones entre 2021 y 2025. Se incluyeron estudios experimentales in vitro y revisiones sistemáticas que evaluaron el potencial erosivo de las bebidas ácidas sobre el esmalte dental natural. Los resultados mostraron que el pH bajo (<4,0), el tipo de ácido (cítrico, fosfórico o carbónico) y la duración de la exposición son factores determinantes para la severidad de la erosión. Las bebidas energéticas y deportivas presentaron las mayores tasas de pérdida mineral y reducción de la microdureza. Se concluye que el consumo habitual de estas bebidas constituye un factor de riesgo significativo para la integridad dental, y es fundamental desarrollar estrategias educativas y preventivas para minimizar su impacto.
Palabras clave: Erosión dental; bebidas ácidas; esmalte dental; salud bucal; prevención.
1 Introdução
A erosão dentária tem sido reconhecida como um dos principais desafios da odontologia contemporânea, representando uma forma de desgaste químico não bacteriano resultante da exposição dos tecidos dentais a ácidos extrínsecos ou intrínsecos (Custódio et al., 2022). O processo inicia-se com a desmineralização da matriz de hidroxiapatita do esmalte, podendo evoluir para a dentina, e culminar em sensibilidade, alteração estética, fragilidade estrutural e comprometimento funcional (Wiegand & Attin, 2023). Ao contrário da cárie dentária, que é mediada por microrganismos, a erosão dentária ocorre independentemente da presença bacteriana, sendo predominantemente influenciada por fatores químicos e comportamentais (Lussi & Carvalho, 2022).
Nas últimas décadas, a mudança nos padrões alimentares e de consumo tem contribuído significativamente para o aumento da prevalência da erosão dentária, especialmente entre adolescentes e adultos jovens (Meurer et al., 2022).
O consumo frequente de bebidas ácidas industrializadas, como refrigerantes, energéticos, isotônicos e sucos cítricos, está fortemente associado ao desgaste químico do esmalte (Silva et al., 2021). Embora essas bebidas sejam frequentemente promovidas como parte de um estilo de vida ativo e saudável, suas propriedades químicas revelam um potencial erosivo elevado, devido ao baixo pH (geralmente entre 2,3 e 4,0) e à presença de ácidos orgânicos como o cítrico, málico e fosfórico, que atuam de forma sinérgica na dissolução dos cristais de cálcio e fosfato da estrutura dental (Kumar et al., 2024; Hara & Zero, 2022).
O pH crítico para a dissolução do esmalte situa-se em torno de 5,5; assim, bebidas com valores inferiores a esse limiar são capazes de induzir a desmineralização imediata, especialmente quando o tempo de contato é prolongado ou repetitivo (Ten Cate, 2022). Além do pH, outros fatores influenciam a severidade do processo erosivo, como a frequência de consumo, a temperatura da bebida, a capacidade tampão da saliva, e o estado de maturação do esmalte (Barbour & Lussi, 2021). Estudos com microscopia eletrônica de varredura (MEV) e espectroscopia de dispersão de energia (EDX) confirmam que a exposição contínua a bebidas ácidas provoca redução significativa da microdureza superficial, aumento da rugosidade e perda de íons cálcio e fósforo, caracterizando um processo cumulativo e irreversível (Meurer et al., 2022; Kumar et al., 2024).
O impacto clínico desse fenômeno é expressivo. A erosão dentária pode comprometer tanto a função mastigatória quanto a estética, reduzindo a resistência do esmalte e dificultando a adesão de materiais restauradores (Tschammler et al., 2023). Além disso, em estágios avançados, há exposição dentinária e hipersensibilidade severa, afetando diretamente a qualidade de vida do paciente. Em resposta a essa crescente prevalência, autores têm destacado a importância da educação em saúde bucal e da implementação de estratégias preventivas, que incluem o controle dietético, a neutralização do meio bucal após o consumo de bebidas ácidas e o uso de agentes remineralizantes, como fluoretos, fosfato de cálcio amorfo (ACP) e caseína fosfopeptídeo (CPP-ACP) (Carvalho et al., 2024; EFCD, 2022).
Sob o ponto de vista epidemiológico, a erosão dentária apresenta prevalência crescente em nível global, com estudos indicando taxas entre 20% e 45% em adolescentes e até 60% em adultos jovens (Huysmans et al., 2021; Lussi & Carvalho, 2022). Essa condição reflete não apenas os hábitos alimentares modernos, mas também mudanças no estilo de vida e na cultura de consumo, marcadas pela popularização de bebidas energéticas e isotônicas, associadas ao desempenho físico e à socialização (Custódio et al., 2022; Jensdottir et al., 2020). Esse cenário reforça a necessidade de abordagens interdisciplinares que envolvam a odontologia preventiva, a nutrição e a educação em saúde, integrando conhecimento científico e ações educativas.
Em contrapartida, o avanço das metodologias laboratoriais, como o uso de testes de microdureza e análises espectroscópicas, têm permitido compreender com maior precisão os mecanismos físico-químicos da erosão e os efeitos de diferentes bebidas sobre o esmalte dental (Sato, 2021; Kumar et al., 2024). Essas abordagens têm possibilitado a formulação de hipóteses sobre a cinética da desmineralização, a relação entre o tipo de ácido e a taxa de dissolução e o papel modulador de substâncias remineralizantes, abrindo caminhos para a aplicação clínica dos resultados.
Diante desse panorama, observa-se que o consumo de bebidas ácidas representa um fator de risco significativo para a integridade dental, exigindo a produção e disseminação de evidências científicas que subsidiem a prática clínica e a formulação de políticas de saúde pública. A análise crítica dos estudos recentes torna-se, portanto, essencial para compreender os efeitos erosivos das bebidas ácidas sobre dentes naturais, os mecanismos envolvidos e as estratégias de prevenção e manejo clínico mais adequadas. Assim, o presente estudo tem como objetivo reunir, analisar e discutir criticamente as evidências científicas mais recentes (2021–2025) acerca dos efeitos erosivos de bebidas ácidas em dentes naturais, por meio de uma revisão integrativa da literatura, buscando identificar os principais agentes erosivos, seus mecanismos de ação e as implicações clínicas associadas à perda mineral dental.
2 Referencial teórico
2.1 Erosão dentária
A erosão dentária é caracterizada como um processo de perda progressiva e irreversível dos tecidos dentais duros devido à ação química de ácidos, sem envolvimento de bactérias. Essa condição tem se tornado cada vez mais prevalente, principalmente em decorrência do aumento no consumo de bebidas ácidas, como refrigerantes, sucos cítricos, energéticos e isotônicos. Essas substâncias apresentam pH baixo e elevada capacidade de desmineralização, o que compromete a integridade do esmalte dentário (Custódio et al., 2022).
2.2 Diagnóstico
O diagnóstico da erosão dentária é realizado principalmente por meio de exame clínico, onde se observam alterações como perda do brilho natural, achatamento das superfícies oclusais e, em casos avançados, exposição da dentina. Técnicas complementares, como microscopia eletrônica de varredura e espectroscopia por dispersão de energia, têm sido utilizadas para identificar alterações microscópicas na estrutura dentária, permitindo uma avaliação mais precisa da extensão do desgaste (Kumar, 2024; Silva, 2021).
2.3 Estrutura dos dentes
A estrutura dentária é composta por esmalte, dentina, cemento e polpa. O esmalte é o tecido mais mineralizado do corpo humano, porém, é altamente suscetível à ação de ácidos extrínsecos. A dentina, por sua vez, possui menor mineralização e, uma vez exposta devido à perda do esmalte, torna-se ainda mais vulnerável à erosão. Alterações estruturais decorrentes da ação ácida podem comprometer a função mastigatória e causar sensibilidade dentinária (Sato et al., 2021).
2.4 Fatores de riscos
Os principais fatores de risco associados à erosão dentária incluem a ingestão frequente de alimentos e bebidas ácidas, refluxo gastroesofágico, xerostomia, distúrbios alimentares, além de hábitos como escovar os dentes imediatamente após a ingestão de substâncias ácidas. Bebidas como isotônicos e energéticos possuem alto potencial erosivo, devido à combinação de pH ácido e presença de ácidos orgânicos e açúcares (Meurer et al., 2022; Custódio, 2022; Silva, 2021).
2.5 Mecanismo de ação dos ácidos
Os ácidos atuam dissolvendo os cristais de hidroxiapatita presentes no esmalte, promovendo a desmineralização da superfície dentária. Esse processo pode ocorrer de forma extrínseca, por meio de alimentos e bebidas ácidas, ou intrínseca, como no caso de vômitos frequentes ou refluxo gástrico. O desgaste contínuo leva à alteração da morfologia dentária, aumento da rugosidade e perda de resistência mecânica. Estratégias como o uso de água alcalina têm mostrado efeito protetor contra essa desmineralização (Kumar, 2024; Sato 2021).
2.6 Tratamento
O tratamento da erosão dentária envolve medidas preventivas e restauradoras. A prevenção inclui a orientação sobre hábitos alimentares saudáveis, redução da frequência de exposição a ácidos, uso de cremes dentais com flúor e enxaguantes bucais remineralizantes.
Em casos mais severos, pode ser necessário o uso de materiais restauradores como resinas compostas para restabelecer a função e a estética dentária. Além disso, a educação em saúde e o acompanhamento clínico são fundamentais para o controle da progressão da erosão (Custódio, 2022; Sato, 2021).
3. METODOLOGIA
Este estudo foi conduzido sob a forma de uma revisão integrativa da literatura, fundamentada nos princípios metodológicos de Whittemore e Knafl (2005) e nas recomendações do PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). Essa abordagem permitiu reunir, analisar e sintetizar criticamente evidências científicas recentes acerca dos efeitos erosivos de bebidas ácidas sobre dentes naturais, contribuindo para uma compreensão ampla e atualizada do tema.
3.1 Etapas da revisão
A revisão seguiu seis etapas sequenciais:
- Definição da questão norteadora: “Quais são os efeitos erosivos provocados pelo consumo de bebidas ácidas sobre dentes naturais segundo a literatura científica recente?”
- Estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão;
- Busca sistematizada nas bases de dados;
- Seleção e elegibilidade dos estudos;
- Extração e categorização das informações relevantes;
- Análise, síntese e discussão dos resultados.
3.2 Estratégia de busca
A busca foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO e Google Acadêmico, por serem amplamente reconhecidas na área da saúde e odontologia. Utilizaram-se os descritores controlados (DeCS/MeSH): “dental erosion”, “acidic beverages”, “tooth enamel”, “erosive wear”, “pH”, “energy drinks” e “in vitro study”, combinados com operadores booleanos AND e OR.
O período de publicação considerado foi de 2021 a 2025, visando à atualização das evidências. Foram incluídos estudos publicados em inglês, português e espanhol, que apresentassem dados experimentais in vitro ou revisões sistemáticas, com foco nos efeitos erosivos de bebidas ácidas sobre dentes naturais humanos. Foram excluídos trabalhos sem metodologia experimental, revisões narrativas, artigos duplicados e publicações fora do intervalo temporal definido.
3.3 Seleção dos estudos e aplicação do PRISMA 2020
A triagem dos artigos foi conduzida conforme as etapas do fluxograma PRISMA 2020, adaptado à natureza integrativa da revisão.
a) Identificação: 240 publicações foram inicialmente encontradas nas bases de dados.
b) Triagem: após remoção de duplicatas e leitura de títulos/resumos, 190 artigos foram mantidos.
c) Elegibilidade: após leitura completa, 40 artigos atenderam parcialmente aos critérios.
d) Inclusão final: 5 estudos foram considerados elegíveis para a análise comparativa qualitativa.
Esses cinco artigos compuseram o corpus analítico da revisão, conforme apresentado no Quadro 1, no qual estão organizadas as principais características metodológicas e os achados de cada pesquisa (autor, tipo de estudo, tipo de bebida, tempo de exposição, pH, métodos e resultados).
4 Resultados e Discussão
A revisão integrativa selecionou cinco estudos que avaliaram os efeitos erosivos de bebidas ácidas sobre dentes naturais, sendo quatro experimentais in vitro e uma revisão de literatura. As bebidas mais investigadas foram refrigerantes à base de cola, energéticos, isotônicos, chás e sucos cítricos, com pH variando de 2,1 a 6,1 e tempos de exposição entre 30 e 60 minutos. Os principais desfechos mensurados foram microdureza, morfologia superficial e composição mineral do esmalte, avaliados por técnicas de Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV/SEM), Espectroscopia de Dispersão de Energia (EDX) e teste de microdureza Vickers.
Os resultados convergem na constatação de que quanto menor o pH e maior o tempo de exposição, mais intensos os danos sobre a estrutura dental. Todos os estudos observaram redução significativa da microdureza, perda de cálcio e fósforo, e alterações morfológicas como aumento da rugosidade e desorganização do prisma do esmalte (Kumar, 2024; Meurer et al., 2022; Silva, 2021; Sato, 2021).
4.1 Comparação entre os estudos incluídos
O estudo de Custódio (2022) destacou, em revisão narrativa, a alta prevalência de erosão dentária associada a bebidas esportivas e isotônicas, principalmente em jovens e atletas. Segundo o autor, o consumo frequente de produtos com pH abaixo de 4,0 favorece a desmineralização progressiva do esmalte, sobretudo em indivíduos com fluxo salivar reduzido. Esses achados corroboram pesquisas internacionais de Barbour e Lussi (2021) e Reddy et al. (2023), que reforçam o papel dos ácidos cítrico e fosfórico na dissolução da matriz inorgânica do esmalte e na perda cumulativa de minerais.
Meurer et al. (2022) realizaram um ensaio in vitro comparando diferentes bebidas comerciais (Coca-Cola, Gatorade, Powerade, sucos e chás) e observaram uma redução acentuada da microdureza do esmalte após 60 minutos de imersão, com energéticos e isotônicos apresentando maior potencial erosivo. Estudos semelhantes de Hara & Zero (2022) confirmam que o ácido cítrico, amplamente presente nesses produtos, têm alta capacidade quelante, o que intensifica a perda de cálcio e compromete a remineralização natural mediada pela saliva.
Sato (2021) inovou ao testar o efeito mitigador da água alcalina ionizada sobre a erosão causada por bebidas ácidas. A pesquisa demonstrou que o aumento do pH do meio reduziu significativamente a perda mineral, sugerindo que soluções alcalinas podem neutralizar a acidez residual e reduzir a severidade do desgaste. Esse resultado está em consonância com estudos de Huysmans et al. (2021) e Carvalho et al. (2024), que destacam a importância da capacidade de tampão salivar e da neutralização imediata após o consumo de bebidas erosivas.
No estudo de Silva (2021), foram testadas marcas populares de bebidas energéticas (Red Bull, Monster Energy e similares), com tempos de exposição de 30 minutos e pH entre 2,1 e 3,2. Os resultados mostraram perda expressiva de microdureza e alterações topográficas evidentes ao MEV, sendo que o grau de erosão variou conforme a marca e composição química. Tais achados se alinham a Jensdottir et al. (2020) e Mulic et al. (2021), que observaram que os energéticos apresentam tempo prolongado de acidez bucal, devido à alta viscosidade e à presença de açúcares e ácidos orgânicos.
Por fim, Kumar (2024), ao utilizar SEM e EDX, demonstrou perda de cálcio e fósforo e danos estruturais intensos no esmalte após exposição a cidra de maçã, Red Bull e bebidas em pó cítricas. A análise elementar revelou redução significativa da razão Ca/P, um marcador direto da desmineralização. Estudos equivalentes de Ten Cate (2022) e Wiegand & Attin (2023) corroboram que valores de pH inferiores a 3,5 são críticos para a dissolução do esmalte, especialmente quando a bebida contém ácidos quelantes (cítrico e málico).
4.2 Integração dos resultados e implicações clínicas
A síntese dos resultados reforça que a acidez e o tempo de exposição são determinantes na intensidade do desgaste dental. Do ponto de vista clínico, isso exige uma abordagem educativa voltada para a prevenção dietética e a modificação de hábitos. Pacientes que consomem frequentemente bebidas ácidas devem ser orientados a:
a) Reduzir a frequência de consumo e evitar a ingestão noturna;
b) Utilizar canudos para minimizar o contato direto com o esmalte;
c) Enxaguar a boca com água ou soluções alcalinas após o consumo;
d) Aguardar pelo menos 30 minutos antes da escovação, evitando abrasão adicional;
e) Usar cremes dentais remineralizantes, preferencialmente com flúor, arginina ou nanohidroxiapatita.
Essas condutas são sustentadas por diretrizes da European Federation of Conservative Dentistry (EFCD, 2022) e pelo National Institute for Dental Research (NIDR, 2023), que enfatizam o papel do profissional de saúde na educação preventiva e na detecção precoce de lesões erosivas.
4.3 Aspectos biológicos e fisiológicos
Em nível biológico, a erosão dentária é o resultado de um processo químico não bacteriano, onde ácidos exógenos provocam dissolução da hidroxiapatita e comprometem a camada aprismática do esmalte. O fluxo salivar, a capacidade tampão e a presença de película adquirida são fatores protetores essenciais (Lussi & Carvalho, 2022). No entanto, bebidas com pH < 4,0 sobrepõem-se à capacidade neutralizante da saliva, principalmente em indivíduos com hipossalivação ou que fazem uso de medicações xerostômicas.
Além disso, a erosão repetida leva à exposição da dentina, aumentando a sensibilidade e comprometendo a adesão de materiais restauradores. Estudos recentes de Tschammler et al. (2023) destacam que a erosão também altera a energia de superfície do esmalte, prejudicando o selamento adesivo e exigindo estratégias restauradoras específicas, como o uso de adesivos autocondicionantes e ionômeros de vidro modificados por resina.
4.4 Lacunas e perspectivas futuras
Apesar da robustez dos resultados laboratoriais, os estudos in vitro não reproduzem integralmente as condições fisiológicas da cavidade oral, como fluxo salivar, variação de temperatura e dinâmica do biofilme. Assim, recomenda-se a realização de estudos clínicos controlados e longitudinais que avaliem a interação entre frequência de consumo, pH, tempo de exposição e fatores salivares.
Pesquisas futuras devem explorar:
a) o efeito cumulativo do consumo intermitente de bebidas ácidas;
b) o potencial remineralizante de agentes bioativos ( flúor amínico);
c) e a eficácia de estratégias alcalinizantes (como enxaguatórios com bicarbonato e água ionizada).
Os dados desta revisão integrativa consolidam evidências de que bebidas energéticas, isotônicas e sucos cítricos são os principais agentes erosivos do esmalte dentário. A severidade dos efeitos depende do pH, do tempo de contato e da frequência de consumo, com implicações clínicas diretas para a odontologia preventiva e restauradora. A integração dos achados reforça a necessidade de uma abordagem interdisciplinar, envolvendo educação alimentar, controle de hábitos e monitoramento odontológico regular, a fim de reduzir o impacto da erosão dentária em populações de risco.
Figura 01 – Fluxograma de PRISMA, 2020

Fonte: Arquivo dos autores.
Quadro 01, estudos selecionados (autor, tipo de estudo, tipo de bebida, tempo de exposição, pH, métodos e resultados).

Fonte: Arquivo dos autores.
5. Conclusão
A revisão integrativa demonstrou que o consumo frequente de bebidas ácidas — como refrigerantes, isotônicos, energéticos e sucos cítricos — está diretamente associado ao aumento da erosão dentária não cariosa, especialmente em jovens e adultos. Os estudos analisados confirmam que bebidas com pH abaixo de 4,0 e presença de ácidos cítrico e fosfórico promovem significativa desmineralização do esmalte, com redução da microdureza e perda de minerais como cálcio e fósforo.
Embora a maioria das pesquisas seja in vitro, os resultados são consistentes ao apontar o tempo e a frequência de exposição como fatores determinantes da severidade erosiva. Tais achados reforçam a importância de estratégias preventivas, incluindo a moderação no consumo de bebidas ácidas, o enxágue com água após a ingestão, o uso de dentifrícios remineralizantes e a educação em saúde bucal, principalmente entre adolescentes e atletas.
Conclui-se que a erosão dentária induzida por bebidas ácidas é um problema crescente e multifatorial, exigindo abordagem clínica e preventiva integrada. Recomenda-se a realização de novos estudos clínicos para avaliar os efeitos de longo prazo e a eficácia de agentes remineralizantes e intervenções educativas na preservação da estrutura dental.
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1Acadêmica de Odontologia Faculdade Gamaliel (FATEFIG)
Endereço: Tucuruí – Pará – Brasil E-mail: samara.souza@faculdadegamaliel.com.br
2Acadêmica de Odontologia Faculdade Gamaliel (FATEFIG)
Endereço: Tucuruí – Pará – Brasil E-mail: laryssanauar15@gmail.com
3Mestre em Saúde Coletiva Faculdade Gamaliel (FATEFIG)
Endereço: Tucuruí – Pará – Brasil E-mail: amujacy@hotmail.com
