EFFECTS OF AN INDIVIDUALIZED NUTRITIONAL INTERVENTION ON THE QUALITY OF LIFE OF WOMEN WITH GYNECOLOGICAL DISORDERS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202507252313
Lavinia Cordeiro Ramos de Oliveira¹
Keren Naras Santos¹
Mirian Patrícia Castro Pereira Paixão²
RESUMO
O presente estudo avaliou os efeitos de uma intervenção nutricional individualizada na qualidade de vida de mulheres com transtornos ginecológicos, incluindo síndrome dos ovários policísticos (SOP), endometriose e tensão pré-menstrual (TPM). Trata-se de um ensaio clínico com abordagem mista, envolvendo 66 mulheres adultas, das quais 26 completaram o acompanhamento nutricional. Foram realizadas avaliações antropométricas, do consumo alimentar e da qualidade de vida (questionário SF36), antes e após a intervenção. Os dados foram analisados por testes de Shapiro-Wilk, Wilcoxon, t de Student, e coeficientes de correlação de Pearson e Spearman (p<0,05). Após a intervenção, observou-se melhora significativa em todos os domínios físicos e mentais do SF-36, com destaque para a “Capacidade funcional” (de 67,31±31,94 para 90,38±13,19; p<0,01), “Saúde mental” (de 33,08±19,19 para 69,08±9,02; p<0,01) e “Limitações por aspectos físicos” (de 48,08±37,37 para 87,50±21,51; p<0,01). Também houve avanços em hábitos alimentares: o percentual de participantes com alimentação saudável subiu de 3,8% para 33,3%, e o consumo de frutas ≥3 porções/dia aumentou 23,1 pontos percentuais. Houve correlação estatisticamente significativa entre o IMC e a capacidade funcional (r = –0,571; p = 0,002), indicando que menor IMC está associado a maior funcionalidade. Conclui-se que a intervenção nutricional, com plano alimentar individualizado e suplementação direcionada, promoveu ganhos substanciais na qualidade de vida e nos padrões alimentares. A abordagem nutricional mostrou-se uma ferramenta terapêutica relevante e custo-efetiva no manejo de sintomas ginecológicos, reforçando a importância da atuação do nutricionista na atenção à saúde da mulher.
Palavras chaves: Transtornos ginecológicos; Intervenção nutricional; Qualidade de vida; Hábitos alimentares; Saúde da mulher.
ABSTRACT
This study evaluated the effects of an individualized nutritional intervention on the quality of life of women with gynecological disorders, including polycystic ovary syndrome (PCOS), endometriosis, and pré-menstrual syndrome (PMS). A mixed-method clinical trial was conducted with 66 adult women, of whom 26 completed the nutritional follow-up. Assessments included anthropometric measurements, dietary intake, and quality of life (using the SF-36 questionnaire), performed before and after the intervention. Data were analyzed using Shapiro-Wilk, Wilcoxon, paired Student’s t-test, and Pearson and Spearman correlation coefficients (significance level: p<0.05).Post-intervention results demonstrated significant improvements in all physical and mental health domains of the SF36. Notably, “Functional Capacity” increased from 67.31±31.94 to 90.38±13.19 (p<0.01), “Mental Health” from 33.08±19.19 to 69.08±9.02 (p<0.01), and “Physical Role Limitations” from 48.08±37.37 to 87.50±21.51 (p<0.01). Regarding dietary habits, the percentage of participants classified as having a healthy diet increased from 3.8% to 33.3%, and those consuming ≥3 servings of fruit daily rose by 23.1 percentage points. A statistically significant moderate negative correlation was observed between BMI and functional capacity (r = –0.571; p = 0.002), indicating that lower BMI is associated with better functionality. The findings suggest that individualized nutritional interventions, including tailored meal plans and targeted supplementation, led to substantial improvements in quality of life and dietary behaviors. Nutrition therapy proved to be an effective, low-cost strategy for managing symptoms of gynecological disorders, highlighting the essential role of nutritionists in promoting women’s health and well-being.
Keywords: Gynecological disorders; Nutritional intervention; Quality of life; Eating habits; Women’s health.
1 INTRODUÇÃO
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) define transtornos ginecológicos como condições médicas que afetam o sistema reprodutivo feminino, incluindo os órgãos genitais internos e externos. Esses transtornos acometem mulheres em diferentes faixas etárias e geram sintomas diversos (SEBASTIÃO, 2019). Entre os mais comuns estão a síndrome dos ovários policísticos (SOP), a endometriose e a síndrome pré-menstrual (SPM) (MARTINS, 2019).
A SOP é uma condição hormonal frequente que interfere diretamente no funcionamento do sistema reprodutivo feminino. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), essa síndrome se caracteriza por um desequilíbrio hormonal que favorece o surgimento de cistos ovarianos e outros sintomas clínicos relevantes (BOUZAS, 2007). Mulheres com SOP podem apresentar ciclos menstruais irregulares, amenorreia, sangramento anormal, acne, hirsutismo e queda capilar, além de alterações metabólicas como resistência à insulina — fator que contribui para o risco de desenvolvimento do diabetes mellitus tipo 2, mesmo na ausência de obesidade (MOURA et al., 2011; ROMANO et al., 2011; KOGURE et al., 2012).
Nesse contexto, a alimentação surge como uma estratégia terapêutica relevante. Estudos demonstram que a prática de atividade física, associada a uma dieta hipocalórica, rica em proteínas e com baixo índice glicêmico, além da inclusão de alimentos antioxidantes e anti-inflamatórios, favorece a redução do peso corporal e melhora os sintomas da SOP (CARNEIRO et al., 2022; SANTOS et al., 2006; RODRIGUES, 2012). Inclusive, uma perda de peso modesta — cerca de 5% — já pode promover benefícios significativos, como a redução do hiperandrogenismo e melhora da ovulação. Apesar dos avanços, ainda há controvérsias sobre a composição dietética ideal para o manejo da SOP, o que reforça a necessidade de estudos adicionais (CARNEIRO et al., 2022).
A endometriose, por sua vez, é uma doença crônica, multifatorial, inflamatória e dependente de estrogênio, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Esse tecido ectópico pode atingir órgãos como ovários, trompas, peritônio e, em casos raros, o sistema nervoso central (BELLELIS et al., 2014). Embora muitas vezes silenciosa, a endometriose compromete significativamente a qualidade de vida das mulheres, causando dismenorreia, dispareunia, desconforto gastrointestinal e infertilidade (CHAPRON et al., 2019).
Ainda que suas causas não sejam totalmente esclarecidas, fatores ambientais, genéticos, anatômicos, endócrinos e imunológicos são apontados como contribuintes para a doença. O tratamento convencional envolve uso de terapias hormonais e procedimentos cirúrgicos, porém, mudanças no estilo de vida — com ênfase na alimentação e na prática de exercícios físicos — têm se mostrado eficazes na redução dos sintomas e na melhoria da qualidade de vida dessas mulheres. Há evidências de que a prática regular de atividade física também exerce influência positiva sobre a saúde mental, contribuindo para a redução de estresse, sintomas depressivos e da dor (NEUMANN et al., 2023).
Outro transtorno relevante é a síndrome pré-menstrual (SPM), também conhecida como tensão pré-menstrual (TPM), que impacta significativamente a vida de mulheres jovens, interferindo no bem-estar físico, emocional e social. Caracteriza-se por sintomas cíclicos que surgem na fase lútea tardia e cessam com o início da menstruação (YELA, 2018; DIREKVAND-MOGHADAM et al., 2014). Os sintomas mais relatados incluem edema, cefaleia, mastalgia, fadiga, alterações no apetite e no humor, além de compulsão alimentar (GUEDES et al., 2021).
O comportamento alimentar exerce forte influência nos sintomas da SPM. Desejos alimentares exacerbados durante a fase lútea têm relação com flutuações hormonais, especialmente de estrogênio e progesterona. A literatura destaca o papel de micronutrientes como a vitamina B6, cálcio, magnésio, triptofano e ômega-3 na redução de sintomas físicos e emocionais associados à síndrome (ANDRADE, 2015; SOUZA et al., 2017). A ingestão desses nutrientes, seja por meio da alimentação ou suplementação, pode melhorar a regulação hormonal e o funcionamento neurológico, influenciando positivamente o humor, o sono e a compulsão alimentar.
Diante da complexidade dos transtornos ginecológicos e da sua estreita relação com aspectos metabólicos, imunológicos e comportamentais, o papel do nutricionista torna-se fundamental. O manejo dietético individualizado, com prescrição de compostos bioativos e suplementação nutricional, pode contribuir para o alívio dos sintomas, melhora da fertilidade e qualidade de vida das mulheres. Compostos como picolinato de cromo, vitamina D, ômega-3, vitamina E, magnésio, zinco e cálcio já vêm sendo estudados com resultados promissores, especialmente na SOP.
Consequentemente, esta pesquisa propõe-se a analisar a influência do comportamento alimentar e do consumo de compostos bioativos — por meio da prescrição dietética e da suplementação nutricional — nos sintomas da síndrome dos ovários policísticos, endometriose e síndrome pré-menstrual. Tendo em vista que cada um desses transtornos apresenta especificidades clínicas e respostas metabólicas distintas, o aprofundamento das evidências científicas nesse campo é fundamental para qualificar a conduta nutricional e promover maior bem-estar às mulheres acometidas.
Dessa forma, o propósito deste estudo foi investigar de que forma a ingestão de nutrientes e os hábitos alimentares, através da elaboração de prescrições dietéticas e orientações nutricionais, podem afetar e aliviar os sintomas de transtornos ginecológicos e proporcionar melhora na qualidade de vida das voluntárias.
2 METODOLOGIA
DESENHO DO ESTUDO
Este estudo foi delineado como um ensaio clínico do tipo caso-controle, com abordagem quantitativa e qualitativa, a fim de investigar a influência do comportamento alimentar e da intervenção nutricional individualizada nos sintomas relacionados a síndromes ginecológicas. A vertente quantitativa consistiu na mensuração de variáveis pré-definidas, avaliação antropométrica, aplicação de questionários estruturados e análise estatística. Já a abordagem qualitativa envolveu a análise das percepções, sentimentos e vivências das participantes sobre o manejo de seus sintomas e a adesão ao plano dietoterápico proposto.
Participaram do estudo 66 mulheres adultas, entre 20 e 59 anos, com diagnóstico prévio de síndrome dos ovários policísticos (SOP), endometriose e/ou síndrome pré-menstrual (SPM), das quais 26 aderiram efetivamente ao acompanhamento nutricional. A seleção das participantes foi realizada de forma não probabilística, por conveniência, a partir da divulgação do projeto em plataformas digitais e redes sociais, respeitando os seguintes critérios de inclusão: ser mulher (sexo feminino), ter idade igual ou superior a 20 anos, apresentar diagnóstico de ao menos uma das síndromes ginecológicas mencionadas e demonstrar interesse em amenizar os sintomas por meio de intervenções nutricionais. Foram excluídas da amostra as voluntárias que não preencheram completamente os instrumentos aplicados ou que forneceram respostas incoerentes.
Após a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Salesiano (UniSales), o projeto foi apresentado às possíveis participantes. A inclusão no estudo se deu somente mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, após o devido esclarecimento quanto aos objetivos e benefícios da pesquisa, que incluíram: avaliação do estado nutricional, análise da qualidade de vida, mapeamento dos hábitos alimentares e recebimento de plano alimentar e suplementar personalizado.
As consultas nutricionais iniciais foram realizadas de forma presencial, na clínica-escola CIASC, localizada no UniSales (Vitória, ES), onde foi feita a avaliação do estado nutricional, levantamento dos sintomas ginecológicos relatados e entregue a proposta dietoterápica inicial. Posteriormente, a continuidade do acompanhamento se deu por teleconsulta, permitindo uma abordagem mais flexível e acessível às participantes. Durante os atendimentos on-line, foram feitas checagens regulares dos sintomas, monitoramento da adesão às recomendações, ajustes no plano alimentar e, quando indicado, prescrição de suplementação com base em evidências científicas previamente consolidadas.
A avaliação antropométrica incluiu medidas de peso, altura, circunferência da cintura, percentual de gordura corporal e cálculo do IMC. O peso corporal e a composição corporal foram aferidos por meio de balança bioimpedância da marca TANITA®, devidamente calibrada e programada com os dados individuais de cada participante. A altura foi medida com estadiômetro ALTURAEXATA® e a circunferência da cintura com fita métrica inelástica SANNY®, seguindo os protocolos técnicos de mensuração. O IMC foi calculado a partir da razão entre o peso (kg) e o quadrado da altura (m²), e os parâmetros de classificação seguiram os critérios da Organização Mundial da Saúde. A avaliação do percentual de gordura seguiu os valores de referência de Sampaio (2012), e a análise do risco cardiovascular pela medida da circunferência abdominal utilizou os critérios propostos por Paz (2020). Adicionalmente, as participantes preencheram dois questionários estruturados via Google Forms®, enviados após a primeira consulta presencial e reaplicados ao final do acompanhamento. Esses instrumentos permitiram a avaliação dos hábitos alimentares e da qualidade de vida antes e após a intervenção, sendo essenciais para identificar mudanças associadas à adesão ao plano alimentar e ao suporte nutricional.
Durante o período de acompanhamento, contatos telefônicos semanais foram realizados para esclarecer dúvidas, reforçar a adesão e promover vínculo com as participantes. Essa comunicação ativa foi essencial para garantir continuidade ao processo terapêutico e oferecer apoio individualizado. A presente intervenção foi construída com base em uma abordagem centrada na paciente, respeitando as particularidades de cada síndrome ginecológica, com ênfase na construção de um plano alimentar equilibrado, possível de ser mantido a longo prazo, e que considerasse aspectos emocionais, culturais e de rotina. Ao final da última consulta, as participantes foram reavaliadas com os mesmos questionários enviados inicialmente, permitindo a comparação intraindividual dos desfechos.
VARIÁVEIS SÓCIO-DEMOGRÁFICAS
Foi utilizado um formulário para avaliar as variáveis sócio-demográficas. As primeiras sete perguntas do formulário estão relacionadas à identificação, abordando informações como à identificação, informando a idade, escolaridade, situação conjugal, renda familiar, ocupação/profissão, religião e procedência, que foram incluídas na anamnese clínico-nutricional.
AVALIAÇÃO DO CONSUMO ALIMENTAR
Para avaliar o consumo alimentar foi aplicado o questionário “Como está a sua Alimentação” do Ministério da Saúde (BRASIL,2013) por meio do Google Forms®. Na avaliação da qualidade da dieta, foram observados a média de quantidade consumida de frutas, legumes/verduras, leguminosas, carnes, leites/derivados, industrializados, tipo de gorduras, uso de sal, ingestão de líquidos e uso de álcool; incluindo também informações referentes a prática de atividade física e informações presentes nos rótulos dos alimentos.
Após o término do questionário, as questões foram validadas segundo o critério de pontuação entre 1 a 4 pontos. A classificação foi apurada de acordo com a soma total. Caracterizando em até 28 pontos hábitos irregulares e necessidade de hábitos de vida mais saudáveis. Entre 29 a 42 pontos implicam em ficar mais atento à alimentação, prática de atividade física e ingestão de líquidos. Com 43 ou mais classifica em alimentação saudável.
AVALIAÇÃO DO PERFIL ANTROPOMETRICO
Para a avaliação antropométrica dos indivíduos, foram aferidas as medidas de altura, peso, percentual de gordura corporal, Índice de Massa Corporal (IMC) e circunferência da cintura, a fim de estimar o estado nutricional e o risco de desenvolvimento de doenças metabólicas e cardiovasculares.
A altura foi medida utilizando um estadiômetro da marca ALTURAEXATA®, com o participante em postura ereta e com o olhar na linha do horizonte, conforme os protocolos padronizados.
O peso corporal e o percentual de gordura foram obtidos por meio de uma balança digital da marca TANITA®, com capacidade para até 150 kg. O equipamento foi programado com dados individuais (idade, sexo e altura) e posicionado em local nivelado, garantindo estabilidade e precisão na coleta. É importante considerar que o peso corporal, embora seja uma medida básica, pode sofrer influência de alterações fisiológicas como edema ou desidratação, o que limita seu uso isolado para diagnóstico nutricional. O percentual de gordura corporal aferido foi classificado em faixas de risco: valores abaixo de 8% representam risco à saúde por baixa gordura; entre 9% e 22% indicam condição abaixo da média; 23% corresponde à média populacional; de 24% a 31% são considerados acima da média; e valores superiores a 32% indicam risco aumentado para doenças metabólicas, conforme referência de Sampaio (2012).
O IMC foi calculado pela razão entre o peso (em quilogramas) e o quadrado da altura (em metros), seguindo a fórmula proposta por Paz (2020). A classificação foi baseada nos critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS), onde valores inferiores a 16,0 indicam magreza severa (grau III); de 16,0 a 16,9 correspondem à magreza moderada (grau II); de 17,0 a 18,4 indicam magreza leve (grau I); entre 18,5 e 24,9 caracterizam eutrofia; de 25,0 a 29,9 representam sobrepeso; de 30,0 a 34,9 definem obesidade grau I; de 35,0 a 39,9, obesidade grau II; e valores acima de 40,0 são indicativos de obesidade grau III.
Para análise do acúmulo de gordura abdominal e risco cardiovascular, foi medida a circunferência da cintura, utilizando uma fita métrica inelástica da marca SANNY®. A aferição foi realizada no ponto médio entre a última costela fixa e a crista ilíaca superior. Esta medida reflete indiretamente a adiposidade central, fator de risco bem estabelecido para doenças crônicas. De acordo com os parâmetros de Paz (2020), valores inferiores a 80 cm são considerados de baixo risco cardiovascular, medidas iguais ou superiores a 80 cm indicam risco aumentado, e circunferências iguais ou superiores a 88 cm apontam para risco muito aumentado.
QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA
Foi utilizado o questionário “Qualidade de Vida (SF-36) Versão Brasileira” para avaliar a qualidade de vida dos participantes. Esse questionário é composto por 36 itens e dividido em dois domínios principais: saúde física e saúde mental (CICONELLI, 1997). Os componentes da saúde física são constituídos por quatro dimensões: capacidade funcional, limitações por aspectos físicos, dor e estado geral de saúde. Por outro lado, os componentes da saúde mental incluem aspectos sociais, vitalidade, aspectos emocionais e saúde mental.
Para obter uma conclusão sobre a qualidade de vida do paciente, o questionário utiliza uma contagem de pontos que varia de 0 a 100 para cada domínio. Um valor de 0 implica em um estado geral de saúde pior, enquanto um valor de 100 representa um estado de saúde melhor. No aspecto dos componentes físicos, um valor mais alto indica uma melhor capacidade física. Já nos componentes mentais, os valores mais altos indicam um melhor estado psicológico.
ANÁLISE DE RESULTADO
Os dados foram apresentados por meio de estatística descritiva no qual as variáveis numéricas, quantitativas não demonstrativa por média e desvio padrão. Os resultados serão obtidos através de gráficos e tabelas. As variáveis qualitativas foram descritas por meio de frequência absoluta e relativa. Os dados foram analisados com auxílio do software Excel Microsoft 2016 MSO (Versão 2203 Build 16.0.15028.20178) 64 bits.
Com relação à Estatística Inferencial, realizou-se a descrição e avaliação da normalidade das variáveis pela aplicação do Teste de Shapiro-Wilk.
As variáveis capacidade funcional, limitações por aspectos físicos e emocionais, CC e Qualidade da Alimentação não provém de uma população normal, portanto para análises das associações entre elas foram realizados os Coeficientes de Correlação de Spearman, já as outras variáveis que provieram de uma população normal para análises das associações entre elas foram realizadas os Coeficientes de Correlação de Pearson. Adicionalmente, realizou-se a comparação dos grupos com aplicação do Teste de Wilcoxon para Amostras Pareadas, para as variáveis cujas distribuições não assumem o padrão da distribuição normal gaussiana e Teste “t” de Student para Amostras Pareadas para as variáveis cujas distribuições assumem o padrão da distribuição normal gaussiana. O nível de significância utilizado para os testes foi de 5%.
3 RESULTADOS
Participaram deste estudo 66 mulheres, com idade média (30,09 ± 7,96), 23 dessas com estado nutricional de eutrofia, 23 com sobrepeso e 10 com obesidade grau II. No acompanhamento nutricional com proposta dietoterápica individualizada, 26 participaram, com idade média (32,08 ± 10,92), estado nutricional de sobrepeso sendo prevalente em 9 mulheres (34,6%) e obesidade grau I em 7 (26,9%) das participantes. Nesse grupo participante, verificou-se que 50% eram casadas e 46,2% obtinham ocupação de carteira assinada. Em relação à renda, detectou-se que 53,8% apresentam renda familiar entre três e cinco salários mínimos. Todas residem na Grande Vitória (tabela 1).
Tabela 1 – Caracterização sociodemográfica.

Em relação ao diagnóstico clínico, identificou-se que 34,6% relataram apresentar algum tipo de doença não transmissível associada às síndromes ginecológicas tendo como destaque a obesidade. Observou-se que 46,2% obtiveram diagnóstico em um período menor que 2 anos e 53,8% com ciclos regulares; já em relação a sintomas relacionados às síndromes, o hirsutismo foi detectado em 19,2% da amostra. Entre as mulheres 61,5% usavam medicamentos anticoncepcionais e 57,7% apresentaram sedentarismo (Tabela 2). Importante relatar que a porcentagem no diagnóstico clínico, ao ser somada, dará maior que 100%, pois algumas voluntárias tinham mais de uma condição clínica.
Tabela 2 – Caracterização dos aspectos clínicos de mulheres portadoras de Síndromes Ginecológicas

Segundo a análise de caracterização, o peso médio foi de (70,48 kg ± 12,79 kg), índice de massa corporal (26,99 kg/m² ± 5,04 kg/m²) e circunferência da cintura (85,34 cm ± 12,60 cm). Diante disso, observou-se que 65,4% das mulheres foram classificadas com excesso de peso. O risco elevado de complicações metabólicas foi encontrado em 65,4%, segundo a medida CC, já em relação à porcentagem de gordura corporal, constatou-se que 84,6% das pacientes têm risco de desenvolver doenças associadas à obesidade (Tabela 3).
Tabela 3 – Classificação geral do estado nutricional de pacientes portadores de Síndromes Ginecológicas.

Por meio dos dados da população geral de “Como está sua alimentação” pôde-se observar que 15,4% obtêm hábitos irregulares, 80,8% precisam ter atenção e 3,8% possuem hábitos saudáveis. Em relação a alimentação e estilo de vida saudáveis, notou-se que 38,5% da amostra consumia pelo menos 3 porções de frutas e 11,5% não comia legumes e verduras. Já a ingestão proteica, observou-se consumo diária de leguminosas em 65,4%, de duas porções diárias de carnes em 69,2% e peixes em 53% que referiu consumir de 1 a 4 vezes no mês. Já em relação à gordura aparente das carnes, 73,1% declarou retirar seu excesso. Foi notada uma baixa ingestão de leites e derivados em 92,3% (consumo menor que 3 porções ao dia), porém, o consumo de água esteve maior em 50% da amostra. Verificou-se que 30,8% não realizava práticas de atividade física e 61,5% declarou ler informações nutricionais dos rótulos dos alimentos industrializados (Tabela 4).
Tabela 4 – Dados gerais de hábitos alimentares e estilo de vida saudáveis



Fonte: Elaborada pela autora
No que diz respeito aos hábitos alimentares e estilo de vida não saudáveis, observou-se consumo dos alimentos industrializados em 69,2%. A utilização de gordura vegetal para fins de preparo dos alimentos foi constatada em 80,8%. Já em relação ao consumo de sal, 92,3% declarou não acrescentar seu uso nas refeições servidas e 30,8% informaram não consumir bebidas alcoólicas (Tabela 5).
Tabela 5 – Dados gerais de hábitos alimentares e estilo de vida não saudáveis

Os dados obtidos das mulheres avaliadas após intervenção segundo o questionário “Como está sua alimentação” obteve progresso nas respostas em relação aos hábitos irregulares, uma vez que no início do projeto quatro participantes apresentavam hábitos irregulares e ao final, houve uma redução para zero. As melhorias também ocorreram no percentual de ter atenção em 66,7% e alimentação saudável aumentou para 33,3%.
A tabela 6, mostra o comparativo de hábitos alimentares e estilo de vida após intervenção. Verificou-se melhora no consumo dos grupos alimentares de frutas um percentual equivalente a 42,3% e legumes a 30,8%, quanto ao consumo de fontes proteicas, não houve um aumento significativo.
Em relação à gordura aparente das carnes, 88,5% das participantes afirmaram retirar antes das refeições, trazendo um resultado significativo após a intervenção. Já o consumo de peixes obteve um aumento em 30,8% da sua ingestão durante o mês. No que se refere ao leite e seus derivados, observou-se um aumento de 19,02% (consumo maior ou igual a 3 porções), e a ingestão de água aumentou para 30,8%. No que diz respeito a prática de atividade física 19,2% permaneceram sem realizar tal prática, no entanto houve melhora nos resultados de participantes que declararam ler informações nutricionais presentes nos rótulos dos alimentos industrializados, sempre ou quase sempre, para todos os produtos, representando 26,9% (Tabela 6).
Tabela 6 – Pré e Pós de hábitos alimentares e estilo de vida saudáveis


Fonte: Elaborada pela autora
Com relação ao comparativo pré e pós de hábitos alimentares e estilo de vida não saudáveis, observou-se melhora no consumo dos alimentos industrializados, apresentando redução no consumo diário para zero, o azeite de oliva teve um aumento no seu consumo, marcando 34,9%, já em relação adição de sal 100% declarou não acrescentar seu uso nas refeições servidas, enquanto a ingestão de bebida alcoólica 38,5% declararam não consumir (Tabela 7).
Tabela 7 – Pré e Pós de hábitos alimentares e estilo de vida não saudáveis

A tabela 8, mostra as médias das pontuações das dimensões abordadas no instrumento SF-36 da população geral, foi encontrado valor menor em componentes físicos: estado geral de saúde (27,48 ± 14,88) e maior em capacidade funcional (67,31 ± 31,94). Já em relação a componentes mental, verificou-se menor valor em saúde mental (33,8 ± 19,19) e maior em aspecto social (50,48 ± 16,76).
Tabela 8 – Resultado geral da qualidade de vida, relacionado a aspectos mental e físico obtidos com a aplicação do questionário SF-36

A tabela 9, é referente ao comparativo do pré e pós intervenção segundo a qualidade de vida. Foram encontrados valores maiores no pós intervenção em componentes relacionados a saúde física: capacidade funcional 90,38 ± 13,19), limitações por aspectos físicos (87,50 ± 21,51), dor (82,12 ± 22,72) e menor valor em estado geral de saúde (55,26 ± 10,46). No que diz respeito aos componentes saúde mental: foram achadas pontuações maiores em aspectos sociais (75,96 ± 26,44), limitações por aspectos emocionais (75,64 ± 33,41) saúde mental (69,08 ± 9,02) e menor valor para vitalidade (61,79 ± 15,81).
Tabela 9 – Comparativo do pré e pós da qualidade de vida, relacionado a aspectos mental e físico obtidos com a aplicação do questionário SF-36

De acordo com a Tabela 10, verifica-se que existe uma correlação estatisticamente moderada (-0,571), entre as variáveis “Capacidade funcional” e “IMC”, pois valor-p = 0,002. Nota-se a correlação significante (0,264), porém fraca (valor-p = 0,033) entre as variáveis “Capacidade funcional” e “Qualidade da Alimentação”. Percebe-se que existe uma correlação estatisticamente significante (r = 0,264) , mas fraca (valor-p = 0,049) entre as variáveis “Dor” e “Qualidade da Alimentação”. Observa-se que entre as outras variáveis de qualidade de vida (QV) e Circunferência da cintura (CC) não existem correlações estatisticamente significantes (p > 0,05) e a correlação entre elas foram fracas. Vale destacar que as medidas são anteriores às intervenções nutricionais.
Tabela 10 – Coeficientes de Correlação entre as medidas de Qualidade de Vida, IMC, CC, e Qualidade da alimentação do grupo geral

Durante o tempo em que ocorreu a pesquisa, 3 participantes, que desejavam engravidar, mas sofriam com algum nível de dificuldade, ao adotar práticas alimentares mais saudáveis através da prescrição individualizada, atingiram esse objetivo. Essas participantes não continuaram na pesquisa, mas é imprescindível mencionar o fato, pois as práticas de hábitos saudáveis levam a uma melhor qualidade de vida e condições de saúde.
4 DISCUSSÃO
A presente pesquisa investigou alguns desequilíbrios hormonais prevalentes na saúde da mulher e as possíveis contribuições das intervenções nutricionais individualizadas na qualidade de vida das voluntárias. É fato que cada síndrome ginecológica tem a sua particularidade e necessita de prescrições igualmente particulares. Na amostra de participantes, metade das mulheres são casadas, maioria trabalhadoras e com renda entre 3 e 5 salários mínimos e idade média de 32,08 ± 10,92 (tabela 1). Entre os transtornos ginecológicos, a SOP foi a mais prevalente (38,5% das voluntárias), sequencialmente TPM e endometriose. Outra patologia associada a algumas voluntárias, foi a obesidade. A maioria das participantes fazem uso de anticoncepcional, tem o ciclo menstrual regular e são sedentárias (tabela 2).
Na literatura, sabe-se que o uso de anticoncepcional pode ser um método de tratamento nas síndromes ginecológicas e ajudar no controle dos sintomas (COUTO et al., 2020). A maioria das voluntárias relataram uso de anticoncepcional oral, que geralmente contêm estrogênios como etinilestradiol ou valerato de estradiol, além de progestinas, onde a sua forma de ação é por meio da inibição das gonadotrofinas e da diminuição dos andrógenos ovarianos. Que por sua vez, o uso dessa medicação possa trazer melhorias nos aspectos clínicos, bioquímicos e metabólicos no desequilíbrio hormonal, sua utilização pode levar a efeitos colaterais, particularmente em pacientes que apresentam problemas metabólicos e cardiovasculares, visto que o excesso de estrogênio pode agravar a resistência à insulina (ARMANINI et al., 2022). Atualmente, as recomendações de tratamento para desequilíbrio hormonal na saúde da mulher é manter hábitos alimentares saudáveis, com acompanhamento de um nutricionista, e se necessário, existe o auxílio da suplementação nutricional (GONÇALVES et al., 2023).
Quanto ao estado nutricional, a maioria dessas mulheres encontravam-se com sobrepeso e obesidade, além de 96,1% das voluntárias estarem com percentual de gordura corporal acima da média (tabela 3). A relação entre o desequilíbrio hormonal feminino e o excesso de peso corporal é complexa, dado que o acúmulo de gordura corporal pode indicar alterações no perfil lipídico, sendo esse um grande fator para alterações metabólicas (SILVA, 2020). O tecido adiposo produz androgênios, como testosterona e androstenediona, em maior quantidade em mulheres com peso excessivo. O excesso desses hormônios pode levar a diversos problemas, como síndrome do ovário policístico (SOP), acne, hirsutismo e infertilidade (XAVIER et al., 2021). Outro problema relacionado a sobrepeso e obesidade e o desequilíbrio hormonal feminino é a resistência à insulina, um hormônio que regula os níveis de glicose no sangue. A resistência à insulina pode interferir na produção de hormônios sexuais, como estrogênio e progesterona, e aumentar o risco de diabetes tipo 2. Somado a isso, a inflamação crônica característica pela elevada quantidade de adipócitos no tecido adiposo, libera citocinas inflamatórias, que podem interferir na produção e ação de hormônios, como leptina, adiponectina e grelina, que regulam o apetite e o metabolismo. A inflamação crônica também está associada ao desenvolvimento de doenças crônicas, como doenças cardíacas, diabetes e alguns tipos de câncer (ZANUTO et al., 2024).
Um dos fatores que pode ter contribuído para a elevada prevalência de excesso de peso é o encaminhamento tardio dessas pacientes para acompanhamento nutricional. Em muitos casos, o foco está no tratamento em vez de na sua prevenção, o que dificulta a adoção de medidas proativas que poderiam evitar o desenvolvimento do problema.
Ao analisar os hábitos alimentares, os achados mostram que a maior parte das mulheres com síndromes ginecológicas apresentou ingestão inadequada de alimentos in natura, 80,2% das voluntárias apresentaram consumo inadequado de frutas e 76,9% apresentam baixo consumo de legumes e verduras (tabela 4). Segundo a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2003), o consumo de frutas, legumes e verduras deve ser de, no mínimo, 400 gramas diários, os quais equivalem a 5 porções desses alimentos (3 de frutas e 2 de hortaliças), em 5 ou mais dias da semana. Adicionalmente a isso 69,2% consomem frequentemente produtos ultraprocessados e ingerem bebida alcoólica semanalmente (tabela 5). No questionário “Como está sua alimentação” apenas 3,8% das voluntárias tinham hábitos saudáveis.
De acordo com Gonçalves et al. (2023), o excesso de gordura corporal, os hábitos alimentares pobre em nutrientes e estilo de vida sedentário estão fortemente relacionados ao aumento da composição corporal e a piora da qualidade de vida das voluntárias. Isso fica exposto com os resultados do questionário SF-36, onde constatou um valor médio entre as participantes menor no estado geral de saúde (27,48 ± 14,88) e vitalidade (31,54 ± 17,42) quando comparado antes e após as intervenções nutricionais (tabela 9).
Conforme indicado pelos estudos de Santos et al. (2019), uma dieta apropriada pode impactar diretamente as mudanças endócrinas e metabólicas associadas às síndromes ginecológicas. Embora existam poucos estudos sobre o tema, há evidências que apontam para uma relação entre diversos fatores nutricionais e condições endócrinas, contribuindo para a regulação do metabolismo dos hormônios sexuais. Nas prescrições alimentares individualizadas foi adotado um padrão dietético baseado na manutenção da estabilidade nutricional, priorizando a ingestão de pratos frescos, com a diminuição no consumo de produtos industrializados com baixo teor de açúcar, doces, gorduras trans e saturadas, e exclusão de bebidas alcoólicas. Dietas com alto teor de fibras podem ajudar a regular os níveis de insulina no corpo. Isso ocorre porque a fibra diminui a secreção de insulina ao retardar a absorção de nutrientes após as refeições. Além disso, a fibra contribui para aumentar a sensibilidade à insulina e promover a perda de peso (SANTOS et al., 2019). A insulina, sendo um hormônio anabólico, está associada a uma maior facilidade de ganho de peso e dificuldade em perder peso quando seus níveis estão elevados. À medida que o peso corporal aumenta, a resistência à insulina e a hiperinsulinemia também aumentam, criando um ciclo vicioso entre o ganho de peso e a resistência à insulina. Portanto, uma dieta rica em fibras pode ser benéfica para interromper esse ciclo vicioso ao melhorar a sensibilidade à insulina e auxiliar na perda de peso (XAVIER et al., 2021).
No questionário SF-36, o quesito “Saúde Mental” teve um média baixa (33,08 ± 19,19) (tabela 8). Na Síndrome Pré-Menstrual ou TPM, um dos sintomas é o sofrimento psicológico, como: ansiedade, irritabilidade, quadros depressivos, associados a episódios de insônia, choro fácil, esquecimento, confusão ou tensão nervosa. O objetivo do tratamento da síndrome pré-menstrual é melhorar ou eliminar os sintomas, diminuindo o impacto negativo que eles causam nas mulheres. O padrão de tratamento não farmacológico para redução dos sintomas é a prática regular de atividade física, psicoterapia e mudanças dietéticas (GUEDES et al., 2021). Na intervenção nutricional para essas voluntárias, a conduta foi de acordo com a intensidade e prevalência dos sintomas, com objetivo de melhora do padrão alimentar. Na SOP, de acordo com Almeida, 2019, ocorre a maior probabilidade de desenvolver ansiedade, estresse, depressão, transtornos afetivos e insatisfação sexual, comprometendo sua qualidade de vida. Os sintomas associados a essa síndrome geram desconfortos que interferem negativamente na vida das voluntárias. O sofrimento psíquico também é presente endometriose e tem impacto na qualidade de vida, as dores cíclicas, a dificuldade de engravidar, o tempo até o diagnóstico da doença pode causar sintomas emocionais (TEIXEIRA et al., 2022).
Diante de todo esse cenário, as intervenções nutricionais individuais com prescrição dietoterápica foram os meios de elevar a qualidade de vida dessas voluntárias. Visto a importância da nutrição nos aspectos fisiológicos e psicossociais, com objetivo de diminuir os sintomas associados à síndrome ginecológica existente. A dieta mediterrâneo foi o padrão alimentar que direcionou as prescrições dietéticas, que tem como característica o consumo elevado de alimentos de origem vegetal, tais esses: cereais integrais, hortaliças, frutas secas e frescas, oleaginosas, leguminosas, temperos feitos com plantas aromáticas e especiarias, sendo estes minimamente processados, de acordo com a sazonalidade da região (BLASI et al, 2019). Além da redução do consumo de alimentos de origem animal, primordialmente a carne vermelha, consequentemente reduzir o consumo de ácidos graxos saturados. Foi priorizada a ingestão de aves, ovos, peixes – como a sardinha, por ser acessível economicamente e rica em ácidos graxos insaturados, derivados de leite reduzidos de gordura. Outro instrumento utilizado para orientação nutricional com as pacientes, a fim de alcançar a adoção aos novos hábitos alimentares foi o Guia Alimentar para População Brasileira, que é um documento fundamental para a promoção de hábitos alimentares saudáveis e a melhoria da qualidade de vida da população. Ele oferece diretrizes baseadas em evidências científicas para orientar as pessoas a fazerem escolhas alimentares mais conscientes e saudáveis (BRASIL, 2014). Assim, um padrão alimentar com elevada ingestão de carboidratos complexos, lipídios bioativos, fibras, vitaminas e antioxidantes foi proposto para as voluntárias, buscando contemplar todos os nutrientes e suas respectivas recomendações individuais com o objetivo de promover um equilíbrio fisiológico. Isso visa compensar de forma eficiente os distúrbios metabólicos decorrentes de alterações endócrinas e variações hormonais (GONÇALVES et al., 2023).
O grupo participante, ao incorporar o plano dietético e desenvolver práticas mais saudáveis, tais hábitos visto na tabela 6, o aumento no número de porções de fruta por dia em 23,1%, e de verdura e hortaliças em 30,8%, além do aumento do número de praticante regular de atividade física entre as voluntárias. Ocorreu a diminuição na frequência de ingestão de produtos industrializados e consumo de álcool, junto da diminuição do uso de gordura animal para cozinhar os alimentos e a não adição de sal no alimento já pronto (tabela 7). No questionário “Como está sua alimentação” o número de voluntárias com hábitos saudáveis passou de 3,8% para 33,3%, além de não ocorrer pacientes com hábitos irregulares como havia anteriormente a proposta dietoterápica.
Quanto ao questionário de qualidade de vida após intervenção nutricional (tabela 9), os aumentos foram significativos nos componentes físicos e mentais. A “Capacidade funcional” foi elevada de 67,31 para 90,38 pontos e os “Limitações por aspectos físicos” a pontuação foi de 48,08 para 87,50. No componente “Saúde mental” ocorreu um aumento em 36 pontos entre a média inicial e final. Fica claro que todo esse aumento nas pontuações em conjunto de melhorias nos hábitos alimentares evidenciam a importância de adoção de um estilo de vida saudável no manejo de sintomas em mulheres com síndromes ginecológicas.
No que se refere às correlações estatísticas (tabela 10), essas correlações foram feitas com dados anteriores as prescrições dietéticas e revelou-se uma correlação moderada, porém relevante (valor-p=0,002) entre “IMC” e “Capacidade funcional”, quanto maior o IMC, menor a capacidade funcional das voluntárias, isto é, menor é a habilidade de realizar atividades que permitem à pessoa cuidar de si mesma e viver de forma independente. Isso posto, mostra-se relevante incorporar práticas de vida mais saudáveis que visam a melhora do estado nutricional (SANTOS et al., 2019. As demais correlações não se mostraram significativas.
Os resultados da pesquisa são positivos e revelam associações e conclusões relevantes. Nesse contexto, o estudo pode contribuir significativamente para os avanços no cuidado e tratamento oferecido às voluntárias, considerando que as síndromes e seus sintomas impactam diretamente a qualidade de vida dessas mulheres com transtornos ginecológicos. Proporcionar qualidade de vida a esse público é de suma importância. No entanto, devem ser mencionadas algumas limitações do estudo realizado. Uma delas foi a dificuldade em contatar e manter um acompanhamento nutricional para um número maior de mulheres, o que permitiria uma amostra maior e, consequentemente, uma maior representatividade dos resultados. Outra limitação refere-se ao fato de que podem existir outros fatores relacionados à sintomatologia das síndromes que não foram abordados aqui e que podem influenciar diretamente na qualidade de vida, tornando este estudo insuficiente como único preditor para avanços na área.
5 CONCLUSÃO
Este estudo evidenciou que a intervenção nutricional individualizada, composta por plano alimentar personalizado e, quando necessário, suplementação direcionada, foi eficaz na redução de sintomas relacionados à síndrome dos ovários policísticos, endometriose e tensão pré-menstrual. A melhora significativa nos escores de qualidade de vida (física e mental), associada à adoção de hábitos alimentares mais saudáveis e à redução do consumo de alimentos ultraprocessados, confirma que mudanças no comportamento alimentar impactam positivamente a saúde física, emocional e social das mulheres avaliadas.
A correlação entre menor IMC e maior capacidade funcional reforça a relevância do estado nutricional no manejo clínico dessas condições. Além disso, o aumento na frequência de consumo de frutas, hortaliças e peixes, bem como a redução na ingestão de sal, gordura saturada e álcool, indica maior adesão às orientações dietéticas propostas.
Dessa forma, os achados confirmam que a nutrição é uma ferramenta estratégica e viável para promover alívio sintomático e melhorar a qualidade de vida de mulheres com transtornos ginecológicos, contribuindo de forma direta para o cuidado integral e a promoção da saúde feminina. A abordagem dietoterápica deve, portanto, ser incorporada de maneira sistemática às práticas clínicas que atendem este público.
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¹Acadêmicas de Nutrição do Centro Universitário Salesiano – UniSales, Vitória, Espírito Santo, Brasil.
²Docente do Centro Universitário Salesiano – UniSales, Vitória, Espírito Santo, Brasil.
