HEALTH EDUCATION ON HAND HYGIENE IN A QUILOMBOLA COMMUNITY IN THE INTERIOR OF BAHIA: AN EXPERIENCE REPORT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202512211424
Lívia Sofia Rabelo Santos1; Geovanna Rodrigues Brandão1; João Pedro Hora Santos Ribeiro1; Raissa Maia dos Santos1; Quezia Rebeca Araujo Souza1; Paulo Davi Neres Aragão1; Tâmara Trindade de Carvalho Santos2
Resumo
A promoção de hábitos higiênicos na infância constitui uma estratégia fundamental para a prevenção de doenças e o fortalecimento da saúde coletiva, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social, como as comunidades quilombolas. Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi descrever uma ação educativa sobre higienização das mãos realizada com crianças de uma comunidade quilombola no interior da Bahia, apresentando sua construção, desafios e resultados. Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido no âmbito de uma atividade de extensão, cuja intervenção foi organizada em três etapas: (1) acolhimento por meio de roda de conversa e música; (2) dinâmica utilizando a “tinta nas mãos” como recurso didático para simular a presença de sujeira e microrganismos; (3) oficina prática com demonstração do protocolo de higienização das mãos da Organização Mundial da Saúde (OMS), e entrega de material educativo. Os resultados evidenciaram a participação ativa das crianças, a incorporação da técnica correta de lavagem das mãos, a ampliação do conhecimento sobre a prevenção de doenças e o estímulo ao protagonismo infantil como agentes multiplicadores das práticas aprendidas no contexto familiar e comunitário. Observou-se ainda que, apesar de desafios relacionados às condições estruturais e ao acesso a insumos, a abordagem lúdica, dialógica e contextualizada mostrou-se eficaz para a promoção da saúde, favorecendo a construção de hábitos higiênicos sustentáveis desde a infância.
Palavras-chave: Higienização das Mãos. Educação em Saúde. Comunidade Quilombola. Ludicidade. Extensão Universitária.
INTRODUÇÃO
A higienização das mãos permanece como uma das medidas mais custo-efetivas de prevenção de doenças infecciosas e um dos eixos centrais da promoção da saúde em ambientes coletivos, como escolas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em 2024 mais de 1,7 bilhão de pessoas no mundo ainda não possuem acesso a instalações básicas para lavar as mãos, e 611 milhões sequer dispõem de água e sabão, condição que compromete especialmente a proteção de crianças em espaços educativos (OMS; UNICEF, 2024).
As Diretrizes Globais sobre Higiene das Mãos (2025) reforçam que essa prática deve ser contínua, mesmo quando há uso de luvas, ressaltando seu papel essencial no controle de infecções comunitárias.
Na infância, especialmente na fase pré-escolar, a prática correta da higienização das mãos torna-se ainda mais relevante. Estudos recentes mostram que intervenções educativas em relação a higienização das mãos podem reduzir 30% a 50% dos episódios de diarreia infantil, além de diminuir significativamente infecções respiratórias e parasitoses (OMS, 2025). Esse impacto ocorre porque crianças exploram o ambiente com as mãos, levam objetos à boca e ainda possuem imaturidade imunológica, fatores que favorecem o adoecimento. Na promoção de conhecimentos e hábitos de higiene desde cedo, a escola contribui para o autocuidado, autonomia e consolidação de práticas preventivas, com impacto individual e coletivo.
O Censo IBGE (2022) revelou que 90% dos domicílios quilombolas enfrentam precariedades em saneamento básico, como abastecimento irregular de água e ausência de coleta de resíduos. Essas condições elevam a exposição a patógenos causadores de diarreia, parasitoses e outras infecções comuns na infância (SIQUEIRA; CAMARGO, 2022).
A escassez de saneamento, o abastecimento irregular de água potável e a insuficiência de equipamentos públicos de higiene repercutem em doenças evitáveis e em maior incidência de desnutrição infantil associada a infecções recorrentes (SIQUEIRA; CAMARGO, 2022).
Algumas escolas não dispõem de pias funcionais, sabão ou papel-toalha, dificultando a prática cotidiana de higiene das mãos, transformando um hábito simples em um privilégio dependente de infraestrutura básica (OMS; UNICEF, 2024). Essa ausência não está relacionada à falta de conhecimento das famílias ou dos docentes, mas a barreiras materiais e políticas que limitam medidas preventivas de baixo custo, evidenciando que a higiene escolar depende de direitos sociais fundamentais.
Como espaço de desenvolvimento social e de construção de hábitos, a escola exerce um papel estratégico na promoção da saúde. A higienização das mãos não deve ser tratada apenas como uma regra ou instrução pontual, mas como prática pedagógica contínua e integrada ao cotidiano escolar. Quando incorporada à rotina antes das refeições, após o recreio ou ao utilizar materiais compartilhados, a higiene deixa de ser uma imposição e torna-se uma construção ativa do conhecimento, fortalecendo responsabilidades e autonomia.
Em comunidades quilombolas, o ambiente escolar pode atuar como mediador entre saberes tradicionais e práticas científicas contemporâneas, valorizando a cultura local. A perspectiva freiriana contribui para essa compreensão ao defender que a educação em saúde deve promover autonomia a partir do diálogo com a realidade, e não apenas transmitir informações (FREIRE, 1996). Assim, as crianças tornam-se protagonistas, levando o aprendizado para suas casas e fortalecendo o cuidado comunitário.
A educação em saúde voltada para a higienização das mãos em comunidades quilombolas implica mais do que instrução técnica. Para que essa prática seja incorporada como hábito, é necessário considerar a dimensão cultural, reconhecer barreiras estruturais que limitam seu acesso e estimular o protagonismo infantil como agente de transformação.
Assim, este relato de experiência tem como objetivo descrever a uma ação educativa sobre higienização das mãos com crianças de uma comunidade quilombola no interior da Bahia, apresentando sua construção, desafios e resultados.
Por se tratar de um relato de experiência, não houve a aplicação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Entretanto, foi solicitada a autorização prévia da diretoria da escola para realização da intervenção. Não será divulgado algum dado que possibilite identificar a escola ou os alunos, respeitando o preconizado pela Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, sobre uma atividade de extensão fundamentada na educação em saúde participativa e lúdica. A abordagem lúdica é compreendida como um recurso metodológico que facilita a comunicação e a expressão infantil, permitindo a construção do conhecimento de forma prazerosa (SÁ; PAULA, 2018). A atividade ocorreu em uma escola municipal situada em uma comunidade Quilombola, com 23 crianças de 6 e 7 anos.
Na realização da primeira etapa da atividade, houve acolhimento por meio de roda de conversa e música, que se mostraram como estratégia fundamental para o engajamento das crianças, favorecendo sua participação ativa nas atividades propostas. A utilização desses recursos criou um ambiente acolhedor, descontraído e propício ao diálogo, permitindo que as crianças se sentissem à vontade para compartilhar suas experiências e demonstrar seus conhecimentos.
Na segunda etapa da oficina, empregou-se a dinâmica “tinta nas mãos” com o objetivo de simular a presença de microrganismos nas mãos e reforçar a importância da higienização correta. Inicialmente, foi aplicada uma pequena quantidade de tinta lavável nas palmas e entre os dedos de um participante, imitando uma contaminação inicial. Em seguida, realizou-se a lavagem das mãos de acordo com o protocolo preconizado pela ANVISA e alinhado às etapas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (2009), demonstrando que, quando executada de maneira adequada, a técnica é capaz de remover completamente os resíduos.
Na terceira etapa, as crianças realizaram a lavagem das mãos seguindo o protocolo recomendado pela OMS (2009), que inclui molhar as mãos, aplicar sabão e friccionar todas as superfícies por aproximadamente 20 segundos, abrangendo palmas, dorso, espaços entre os dedos, polegares, unhas e pontas dos dedos, em seguida enxaguar e secar adequadamente. A inspeção visual antes e após a lavagem permitiu observar que áreas como unhas, laterais dos dedos e dorso permaneciam frequentemente sujas após lavagens superficiais.
Durante o processo, as crianças foram constantemente monitoradas e estimuladas a seguir cada passo do protocolo de higienização: molhar as mãos, aplicar o sabão, friccionar palmas, dorso, entre os dedos, unhas e punhos, enxaguar e secar, recebendo orientações e correções quando necessário. Essa abordagem cuidadosa contribuiu para que a oficina se tornasse não apenas educativa, mas também motivadora, fortalecendo a internalização do hábito de higienização correta das mãos.
Durante a realização da prática, enquanto cada criança esperava sua vez de lavar as mãos em fila, ocorreu interação com a música “Lavar as Mãos”, composta por Arnaldo Antunes e popularizada pelo programa Castelo Rá-Tim-Bum. A escolha dessa obra justifica-se pelo seu ritmo cadenciado e letra instrutiva, que funcionam como um guia mnemônico, guia de técnicas de memorização, para o tempo e a ação da lavagem, seguido de um diálogo com as crianças para verificar se a dinâmica havia sido realmente compreendida.
Após a lavagem das mãos, por meio de perguntas simples e direcionadas, como: “Qual é a primeira coisa que fazemos antes de lavar as mãos?”, “Depois de colocar o sabão, quais movimentos precisamos fazer?”, “Lembram de lavar entre os dedos e o polegar?”, “Por quanto tempo devemos esfregar as mãos?” e “Por que é importante lavar as mãos do jeito certo?” buscou-se avaliar se as crianças conseguiam descrever o passo a passo da higienização correta das mãos.
Como forma de reforço positivo e lembrança do momento vivido, cada criança recebeu uma pequena lembrancinha contendo um sabonete líquido e um desenho ilustrativo do protocolo de higienização das mãos, para que pudessem colorir em casa. Esse recurso, além de estimular a criatividade, teve o objetivo de envolver também as famílias no processo educativo, ampliando o alcance da ação para além do ambiente escolar.
Finalizado todo o processo de aprendizagem, foram fixados cartazes próximos aos lavatórios e banheiros da escola contendo o protocolo oficial de lavagem das mãos recomendado pela ANVISA e alinhado às etapas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (2009). Esse protocolo orienta a higienização em sete passos essenciais: molhar as mãos, aplicar sabão, friccionar palmas, dorso, entre os dedos, polegares, unhas e pontas dos dedos, além de enxaguar e secar adequadamente.
Os cartazes apresentavam ilustrações simples e coloridas, acompanhadas de frases curtas que descrevem cada etapa da lavagem de mãos de forma objetiva. Produzidos em papel fotográfico no tamanho A4, para maior durabilidade e resistência à umidade, foram fixados diretamente nas paredes junto aos lavatórios, acima das torneiras, garantindo que os alunos tivessem acesso visual ao passo a passo sempre que fossem realizar a higiene das mãos, reforçando assim o aprendizado construído durante a intervenção.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
A execução do projeto de extensão nessa escola municipal na comunidade quilombola, permitiu observar, in loco, a eficácia das metodologias ativas na educação em saúde infantil. A intervenção gerou resultados qualitativos que transcendem a mera execução técnica, evidenciando o impacto cognitivo e social das estratégias adotadas.
Na etapa inicial de acolhimento, a estratégia de roda de conversa revelou-se fundamental para o estabelecimento de vínculo. Um achado relevante foi a constatação de que as crianças já possuíam um repertório prévio sobre higiene. Esse dado valida a premissa freiriana de que o educando não é um receptor passivo, mas um sujeito portador de saberes que devem ser o ponto de partida para novas aprendizagens (FREIRE, 1996).
Essa constatação reforça a importância das ações educativas contínuas e do envolvimento de toda comunidade escolar, mostrando que iniciativas bem estruturadas geram resultados duradouros no comportamento e nas atitudes das crianças, validando-as como sujeitos ativos no processo de aprendizagem.
No desenvolvimento da oficina prática, a dinâmica “Tinta nas Mãos” atuou como um elemento de materialização do invisível para a faixa etária escolar, que opera predominantemente no pensamento concreto, a visualização da “sujeira” (tinta) persistindo em áreas como polegares e entre os dedos gerou um impacto visual imediato. Essa estratégia permitiu que as crianças compreendessem, pela experiência sensorial, a falha da lavagem rápida apenas com água, despertando um senso crítico e de autocorreção durante a execução do protocolo.
A associação dessa prática com a música “Lavar as Mãos” foi determinante para a fixação do conteúdo. O entusiasmo demonstrado pelos alunos durante a canção não deve ser interpretado apenas como recreação, mas como um dispositivo pedagógico central. Sob a ótica da neurociência da aprendizagem, o envolvimento emocional e lúdico ativo o sistema límbico, modulando a consolidação da memória de longo prazo (TYNG et al., 2017).
A melodia e o ritmo funcionaram como guias mnemônicos, ditando o tempo necessário de fricção e a sequência dos movimentos, transformando um protocolo técnico rígido em uma experiência prazerosa e memorável. Essa estratégia lúdica mostrou-se extremamente eficaz para traduzir o protocolo técnico preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (2009) em uma atividade compreensível, acessível e memorável para crianças na faixa etária de seis e sete anos.
Quanto ao impacto social, a distribuição dos kits (desenho e sabonete) cumpriu o objetivo de transpor os muros escolares. Ao levar esses materiais para casa, a criança assume o papel de vetor de educação em saúde, atuando como agente multiplicador no núcleo familiar (ZOMER et al., 2011). Em comunidades quilombolas, onde o diálogo e a vivência coletiva são valores centrais, essa estratégia potencializa o alcance da intervenção, permitindo que o saber acadêmico dialogue diretamente com a rotina doméstica.
Por fim, a fixação dos cartazes nos lavatórios encerra o ciclo da intervenção assegurando a sustentabilidade da ação. A presença visual constante atua como um reforço positivo, incentivando a manutenção do hábito a longo prazo e contribuindo para a redução da vulnerabilidade a doenças infectocontagiosas no ambiente escolar.
CONCLUSÃO
Este relato de experiência corrobora que a abordagem lúdica é uma estratégia de alta eficácia para a assimilação e retenção do protocolo de higienização das mãos. A combinação de recursos sensoriais, como a dinâmica da tinta, com dispositivos mnemônicos, como a música, transcendeu a mera transmissão de informação. Ao gerar entusiasmo e envolvimento multissensorial, a atividade validou preceitos da neurociência da aprendizagem, onde a emoção atua como um facilitador direto na consolidação da memória de longo prazo (TYNG et al., 2017), tornando o aprendizado mais significativo.
O sucesso da intervenção também esteve atrelado à escolha da metodologia ativa. Ao iniciar com uma roda de conversa que investigou os conhecimentos prévios, a ação posicionou as crianças como sujeitos ativos do processo, e não receptores passivos. Esta abordagem, alinhada aos pressupostos freireanos (FREIRE, 1996; MENEZES; CORREIA, 2019), mostrou-se essencial para construir o conhecimento sobre uma base já existente, respeitando a realidade dos educandos. A atividade de extensão confirma o papel da criança como um eficaz agente multiplicador de saúde (ZOMER et al., 2011). A entrega do material educativo não foi um fim em si, mas uma estratégia para que o conhecimento adquirido fosse levado ao núcleo familiar.
REFERÊNCIAS
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2022: Características dos domicílios – Resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.
MENEZES, F. P.; CORREIA, L. M. Os pressupostos de Paulo Freire e a implementação de metodologias ativas na formação em saúde. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 72, n. 1, p. 229-234, fev. 2019.
NOGUEIRA, L. M. et al. Educação em saúde no contexto escolar: metodologias participativas no ensino de hábitos de higiene. Revista Brasileira de Enfermagem, [S. l.], v. 71, n. 6, 2018.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). WHO guidelines on hand hygiene in health care. Geneva: WHO, 2009.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global Hand Hygiene Guidelines 2025: Gloves, sometimes. Hand hygiene, always. Geneva: WHO, 2025.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS); UNICEF. Progress on household drinking water, sanitation and hygiene 2000-2023: special focus on gender. New York: UNICEF/WHO, 2024.
SÁ, L. C.; PAULA, C. C. O lúdico na educação em saúde na infância: uma revisão integrativa. Revista de Enfermagem UFPE online, Recife, v. 12, n. 5, p. 1383-1391, maio 2018.
SIQUEIRA, L. M.; CAMARGO, C. L. Desigualdades raciais e saneamento básico em comunidades quilombolas. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 56, n. 1, p. 1-12, 2022.
TYNG, C. M. et al. The Influences of Emotion on Learning and Memory. Frontiers in Psychology, [S.L.], v. 8, p. 1454, ago. 2017.
ZOMER, C. D. et al. A criança como agente multiplicador de informações em saúde bucal na família. Pesquisa Brasileira em Odontopediatria e Clínica Integrada, João Pessoa, v. 11, n. 1, p. 103-108, mar. 2011.
1Discentes do Curso Superior de Medicina da Faculdade Ages de Medicina Campus Jacobina.
e-mail: pauloneressa08@gmail.com
2Docente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Ages de Medicina Campus Jacobina. Doutora em Biotecnologia (UEFS). E-mail: tamara.carvalho@ages.edu.br
