REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202503270634
Lígia Luana Freire da Silva; Carolina Araújo Silva; Renata Tiyoko Hokari Couto; Beatriz Viguetti Godoy; Paula Eduarda da Silva Soares; Ana Luiza Consoni Marzochi; Rafaella Alves Viotto; Gabriella Matacheiro Chiarioni; Camilly Souza Silveira
RESUMO
INTRODUÇÃO: A eclâmpsia é uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil, representando um grave problema de saúde pública e refletindo desigualdades no acesso a cuidados pré-natais e pós-natais. OBJETIVOS: METODOLOGIA: Este estudo analisa a mortalidade materna por eclâmpsia entre 2008 e 2023 no Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo, destacando fatores de risco e desigualdades associadas. Trata-se de um estudo epidemiológico ecológico, descritivo e retrospectivo, com base nos dados do Sistema de Informação de Mortalidade (DATASUS). RESULTADOS: Foram registrados 485 óbitos, com a maior proporção em São Paulo (64,1%), seguido por Rio de Janeiro (32,4%) e Distrito Federal (3,5%). A faixa etária mais afetada foi de 30 a 39 anos, e as raças branca e parda , concentram o maior número de casos. No Rio de Janeiro, destacou-se a raça amarela.(DATASUS). A maioria dos óbitos ocorreu no puerpério (até 42 dias após o parto), indicando a necessidade de monitoramento eficaz nesse período. CONCLUSÃO: Os resultados mostram que a mortalidade materna por eclâmpsia é influenciada por fatores socioeconômicos e raciais, reforçando a urgência de políticas públicas que melhorem a assistência pré-natal e o cuidado pós-parto. A análise sugere que uma abordagem preventiva com uma qualificação do pré-natal e ampliação do monitoramento no puerpério são estratégias essenciais para reduzir os óbitos maternos associados à eclâmpsia, especialmente entre grupos vulneráveis.
PALAVRAS-CHAVE: “Eclâmpsia”; “Pré-Eclâmpsia” ; “Gravidez”.
INTRODUÇÃO:
A eclâmpsia é uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil, representando um grave problema de saúde pública, o que gera grande impacto na qualidade de vida das mulheres e na saúde coletiva (SOUZA, 2012). Caracterizada por um episódio convulsivo durante a gestação em mulheres com pré-eclâmpsia, sendo o máximo de gravidade dentro da doença hipertensiva específica da gravidez (CARMO, 2008). Essa condição pode resultar em complicações severas, como insuficiência múltipla de órgãos e óbito materno. A mortalidade materna por eclâmpsia apresenta um padrão regional e socioeconômico, o que reflete em desigualdades no acesso aos cuidados pré-natais e saúde pública de qualidade (AQUINO, 2021).
A análise dos dados de mortalidade materna por eclâmpsia em São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal revela diversos padrões que foram observados ao longo dos anos. Fatores como faixa etária, raça e momento do óbito indicam a complexidade dessa condição, evidenciando a necessidade de estratégias eficazes para prevenção e manejo (BAKER, 2020)
Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo analisar a distribuição da mortalidade materna por eclâmpsia nessas três localidades, comparando os achados com a literatura científica e discutindo os principais fatores de risco e desigualdades associadas. A partir dessa análise, busca-se contribuir para o debate sobre a implementação de políticas públicas mais eficientes na redução da mortalidade materna (BITTENCOURT, 2017). O artigo está estruturado da seguinte forma: inicialmente, apresenta-se a distribuição dos óbitos ao longo dos anos; em seguida, analisam-se os fatores de risco associados, como idade, raça e momento do óbito; por fim, expõe estratégias de prevenção da eclâmpsia, enfatizando a importância do pré-natal e do acompanhamento pós-parto.
OBJETIVOS:
O objetivo do presente trabalho foi realizar o levantamento epidemiológico comparativo acerca da mortalidade materna, devido à eclâmpsia, durante período de 15 anos nas localidades do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo.
METODOLOGIA:
O presente estudo trata-se de um estudo epidemiológico ecológico, descritivo, transversal e retrospectivo. Os dados foram coletados a respeito dos casos novos notificados no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), acerca da mortalidade materna, devido à eclâmpsia (CID O15), durante período de 2008 a 2023, nas localidades do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo, os quais encontram-se disponíveis no banco de dados online do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).
As variáveis coletadas e estudadas foram: distribuição anual, faixa etária, raça/cor e distribuição por óbitos na gravidez ou puerpério. A análise estatística dos dados foi realizada por meio do uso de frequências relativas com auxílio do programa Excel e o Tabwin 3.6.
Em conformidade com a Resolução no 4661/2012, como o estudo trata-se de uma análise realizada por meio de banco de dados secundários de domínio público, este não foi encaminhado para apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa.
RESULTADOS:
Entre os anos de 2008 a 2023 ocorreram 485 óbitos devido à eclâmpsia no Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo. Sendo 17 óbitos (3,5%) no DF, 157 no RJ (32,4%) e 311 em SP (64,1%).
A distribuição anual se deu: i) 2008: 39 (8%), ii) 2009: 32 (6,6%), iii) 2010: 41 (8,4%), iv) 2011: 25 (5,1%), v) 2012: 28 (5,7%), vi) 2013: 33 (6,8%), vii) 2014: 25 (5,1%), viii) 2015: 32 (6,6%), ix) 2016: 26 (5,3%), x) 2017: 36 (7,4%), xi) 2018: 24 (4,9%), xii) 2019: 35 (7,2%), xiii) 2020: 28 (5,7%), xiv) 2021: 28 (5,7%), xv) 2022: 31 (6,4%), xvi) 2023: 20 (4,1%) (Gráfico 1). Destacando-se os três anos com maior número de óbitos: 2010, 2008 e 2019, respectivamente.
Em São Paulo, os três anos com maior número de casos foram: 2019, 2010 e 2008, respectivamente. Enquanto no Rio de Janeiro foram: 2013, 2021 e 2008, respectivamente. E por fim, no Distrito Federal foram: 2014, 2013, 2009 e 2010, respectivamente.
Gráfico 1. Distribuição anual dos óbitos devido à eclâmpsia, durante período de 2008 a 2023, nas localidades do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo.

Fonte: Datasus.
A distribuição por faixa etária dos óbitos se deu: 1) 10 a 14 anos: 3 (0,6%), 2) 15 a 19 anos: 62 (12,8%), 3) 20 a 29 anos: 171 (35,2%), 4) 30 a 39 anos: 203 (41,8%) e 5) 40 a 49 anos: 46 (9,7%) (Gráfico 2). Sendo a faixa etária de 30 a 39 anos a mais acometida da amostra estudada.
Consoante, em São Paulo e Distrito Federal a faixa etária mais acometida foi a de 30 a 39 anos, enquanto no Rio de Janeiro foi a faixa etária de 20 a 29 anos.
Gráfico 2. Distribuição por faixa etária dos óbitos devido à eclâmpsia, durante período de 2008 a 2023, nas localidades do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo.

Fonte: Datasus.
A distribuição racial se deu: i) Branca: 213 (43,9%), ii) Preta: 87 (17,9%), iii) Amarela: 74 (15,2%), iv) Parda: 104 (21,4%) e v) Ignorado: 7 (1,6%) (Gráfico 3). Sendo a raça branca e parda as mais acometidas.
Segundo a distribuição por localização, São Paulo e Distrito Federal tiveram a raça branca com maior número de óbitos, enquanto no Rio de Janeiro foi a raça amarela a mais acometida.
Gráfico 3. Distribuição racial dos óbitos devido à eclâmpsia, durante período de 2008 a 2023, nas localidades do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo.

Fonte: Datasus.
Os óbitos foram divididos nos seguintes momentos: i) durante a gravidez, parto ou aborto: 116 (23,9%), ii) durante o puerpério, até 42 dias: 318 (65,5%), iii) durante o puerpério, de 43 dias a menos de 1 ano: 15 (3,1%), iv) não na gravidez ou no puerpério: 41 (8,4%), v) não consta ou incosistente: 38 (7,8%) (Gráfico 4). Sendo o período de puerpério, até 42 dias, momento com maior número de óbitos, nas três localidades estudadas.
Gráfico 4. Distribuição do momento dos óbitos devido à eclâmpsia, durante período de 2008 a 2023, nas localidades do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo.

Fonte: Datasus.
DISCUSSÃO:
A mortalidade materna por eclâmpsia é um grave problema de saúde pública, com implicações diretas na qualidade de vida das mulheres e na saúde coletiva. A comparação dos dados obtidos nas três localidades – São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal – revela uma distribuição de óbitos que segue padrões tanto regionais quanto nacionais, permitindo uma análise crítica e comparativa com a literatura científica existente.
A distribuição anual dos óbitos por eclâmpsia nos anos de 2008 a 2023 mostra uma tendência de oscilações no número de mortes, com os picos ocorrendo em 2008, 2010 e 2019 (Gráfico 1). De forma geral, observou-se um número considerável de óbitos até 2010, seguido por uma redução nos anos subsequentes, com alguns picos esporádicos, como em 2019. Em termos nacionais, esses anos com maiores números de óbitos não são atípicos, uma vez que a literatura aponta os períodos de crise econômica e de dificuldades no sistema de saúde como fatores contribuintes para o aumento no número de mortes maternas (Say et al., 2014).
A maior concentração de óbitos no ano de 2010, que também foi destacado como o de maior número de casos em São Paulo e Rio de Janeiro, pode ser relacionada a elementos locais, como a melhora nas estratégias de notificação e uma possível mudança nas condições de acesso ao atendimento obstétrico. No entanto, como apontado por Souza et al. (2012), a variação dos óbitos por eclâmpsia também pode ser influenciada por fatores socioeconômicos, como o acesso a serviços de saúde de qualidade e o acompanhamento pré-natal adequado.
A faixa etária mais acometida pela eclâmpsia, no geral, foi de 30 a 39 anos, com 41,8% dos óbitos (Gráfico 2). Esse dado corrobora com outros estudos, os quais indicam que a incidência de eclâmpsia é mais comum em mulheres com idades mais avançadas dentro da faixa reprodutiva. Segundo o estudo de Bittencourt et al. (2017), a gravidez em mulheres entre 30 e 39 anos está associada a um aumento do risco de complicações hipertensivas, incluindo a eclâmpsia. Em São Paulo e Distrito Federal, a faixa etária predominante também foi a de 30 a 39 anos, o que é consistente com as conclusões de literatura internacional, que indica que mulheres mais velhas têm maior probabilidade de apresentar complicações durante a gestação (Morris et al., 2018).
Por outro lado, no Rio de Janeiro, a faixa etária de 20 a 29 anos foi a mais acometida. Este fenômeno pode refletir uma maior exposição ao risco de hipertensão e eclâmpsia em mulheres de faixa etária mais jovem, um ponto que exige mais estudos regionais para análise de fatores específicos locais, como a qualidade da assistência à saúde e as características socioeconômicas dessa população.
A análise racial dos óbitos revelou que, de forma geral, as raças branca e parda foram as mais acometidas (Gráfico 3). Esse dado está em consonância com outros estudos que mostram desigualdades raciais na mortalidade materna no Brasil, com uma prevalência maior entre mulheres negras e pardas, embora no seu estudo os óbitos de mulheres brancas tenham se destacado em São Paulo e Distrito Federal (Baker et al., 2020). Isso pode estar relacionado a fatores como acesso desigual a cuidados pré-natais e saúde pública de qualidade, que tendem a afetar de forma mais pronunciada as mulheres negras e pardas no Brasil (Diniz et al., 2021). A diferença observada no Rio de Janeiro, onde a raça amarela foi a mais acometida, sugere que variáveis locais e demográficas podem influenciar diretamente as taxas de mortalidade materna, sendo necessário investigar com maior profundidade as condições socioeconômicas e culturais dessa população.
A distribuição dos óbitos segundo o momento em que ocorreram (durante a gravidez, parto ou aborto, ou no puerpério) também traz informações importantes. O maior número de óbitos ocorreu durante o puerpério, até 42 dias após o parto (Gráfico 4), um dado amplamente corroborado pela literatura (Barros et al., 2020). Estudos têm mostrado que as complicações hipertensivas, incluindo a eclâmpsia, continuam a representar um risco elevado para as mulheres no período pós-parto, sendo um dos principais fatores de morte materna no Brasil. A atenção ao cuidado pós-parto e a monitorização contínua das mulheres, especialmente durante os primeiros dias após o nascimento, é crucial para reduzir a mortalidade materna (Silveira et al., 2019).
A comparação entre as três localidades revelou diferenças regionais interessantes. São Paulo e Distrito Federal apresentaram maior número de óbitos entre mulheres brancas, enquanto o Rio de Janeiro registrou predominância de óbitos entre mulheres amarelas. Isso pode estar relacionado a fatores socioeconômicos, culturais e de acesso aos serviços de saúde, como apontado por Aquino et al. (2021). A qualidade da assistência pré-natal e o acesso a cuidados adequados são fatores que podem influenciar esses resultados, sendo necessária uma análise mais aprofundada sobre os serviços de saúde em cada região.
Os dados apresentados indicam que a mortalidade materna por eclâmpsia permanece sendo um desafio significativo para a saúde pública no Brasil, com variações regionais e raciais que exigem políticas específicas de saúde para cada localidade. A análise comparativa com a literatura científica revela que, embora os dados apresentados não sejam completamente novos, há a necessidade de uma abordagem mais eficaz no atendimento às gestantes, principalmente em relação ao acompanhamento pré-natal e ao cuidado pós-parto. As estratégias de prevenção e cuidado devem ser reforçadas para reduzir os óbitos maternos, especialmente no período crítico do puerpério.
CONCLUSÃO:
Conclui-se que a mortalidade materna por eclâmpsia continua sendo um desafio significativo para a saúde pública no Brasil, com variações regionais e raciais que refletem desigualdades no acesso e na qualidade do atendimento médico. A análise dos dados de 2008 a 2023 nas regiões do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo revelou que a maior parte dos óbitos ocorreu no puerpério, até 42 dias após o parto, indicando a necessidade de um monitoramento mais eficaz no período pós-parto. A distribuição etária dos óbitos evidenciou que mulheres de 30 a 39 anos foram as mais acometidas, corroborando com estudos que apontam um risco aumentado de complicações hipertensivas nessa faixa etária. No que diz respeito à raça, os dados mostraram uma predominância de óbitos entre mulheres brancas e pardas, com uma particularidade no Rio de Janeiro, onde a raça amarela teve a maior incidência, sugerindo a influência de fatores socioeconômicos e de acesso aos serviços de saúde. Os resultados reforçam a importância da implementação de políticas públicas voltadas à melhoria da assistência pré-natal e do acompanhamento pós-parto, especialmente para grupos mais vulneráveis. Nesse sentido, faz-se fundamental a adoção de estratégias de prevenção, capacitação profissional e acesso oportuno aos serviços de saúde para que seja possível alcançar a redução dos óbitos maternos por eclâmpsia no Brasil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AQUINO, P. et al. Desigualdades regionais e étnico-raciais na mortalidade materna no Brasil: análise de 20 anos de dados. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 55, p. 60-67, 2021.
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