DISTÚRBIOS ALIMENTARES NA GESTAÇÃO E NO PÓS-PARTO: IMPACTO DOS TRANSTORNOS ALIMENTARES PARA A GESTANTE E O NEONATO

EATING DISORDERS DURING PREGNANCY AND POSTPARTUM: IMPACT OF EATING DISORDERS ON PREGNANT WOMEN AND NEWBORNS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511230036


Bárbara de Sousa França1
Caroline Castro de Araújo1
Júlia Cristina Marques de Paiva1


RESUMO 

Objetivo: Investigar a relação entre transtornos alimentares pregressos e a ocorrência de complicações durante a gestação e o pós-parto.
Metodologia: Realizou-se uma revisão integrativa da literatura com artigos publicados em inglês nos últimos cinco anos, selecionados nas bases de dados U.S. National Library of Medicine (PubMed) e Science Direct. Os estudos incluídos abordaram gestantes com transtornos alimentares ativos ou históricos e seus desfechos maternos e neonatais.
Resultados: A análise dos estudos mostrou que o período gestacional está associado a maior risco de desenvolvimento ou recidiva de transtornos alimentares. Esses quadros podem ocasionar deficiências nutricionais e levar a complicações obstétricas, como anemia e parto prematuro. Além disso, observou-se que gestantes com histórico de transtornos alimentares tendem a manter comportamentos alimentares disfuncionais, o que pode afetar negativamente o desenvolvimento fetal e o vínculo mãe-bebê, especialmente durante a amamentação.
Conclusão: A presença de transtornos alimentares, ativos ou pregressos, representa um importante fator de risco para complicações gestacionais e para a saúde maternoinfantil. Esses achados reforçam a necessidade de acompanhamento multiprofissional contínuo, com atenção especial à saúde mental e ao estado nutricional da gestante, a fim de minimizar impactos adversos durante a gestação e o pós-parto. 

Palavras-chave: Gravidez; Transtornos Alimentares; Anorexia Nervosa; Bulimia Nervosa; Pós-parto. 

ABSTRACT

Objective: To investigate the relationship between past eating disorders and the occurrence of complications during pregnancy and the postpartum period.
Methodology: An integrative literature review was conducted using articles published in English in the last five years, selected from the U.S. National Library of Medicine (PubMed) and Science Direct databases. The included studies addressed pregnant women with active or historical eating disorders and their maternal and neonatal outcomes. 
Results: The analysis of the studies showed that the gestational period is associated with a higher risk of developing or relapsing eating disorders. These conditions can cause nutritional deficiencies and lead to obstetric complications, such as anemia and premature birth. In addition, it was observed that pregnant women with a history of eating disorders tend to maintain dysfunctional eating behaviors, which can negatively affect fetal development and the mother-baby bond, especially during breastfeeding.
Conclusion: The presence of active or past eating disorders represents an important risk factor for gestational complications and for maternal and child health. These findings reinforce the need for continuous multidisciplinary follow-up, with special attention to the mental health and nutritional status of the pregnant woman, in order to minimize adverse impacts during pregnancy and the postpartum period.

Keywords: Pregnancy; Eating Disorders; Anorexia Nervosa; Bulimia Nervosa; Postpartum

INTRODUÇÃO 

A gestação é um período de intensas modificações biopsicossociais para o corpo materno, pois o organismo precisa se adaptar para garantir a nutrição e o desenvolvimento do feto, exigindo mudanças no comportamento alimentar, nos níveis de atividade física e em diversos outros aspectos do estilo de vida (Martínez-Olcina et al., 2020). A ingestão adequada de nutrientes é fundamental tanto para o bem-estar da mãe quanto para a saúde do bebê. No entanto, embora as necessidades nutricionais estejam aumentadas durante a gestação e o pós-parto, estudos indicam que muitas gestantes não elevam de forma adequada a ingestão de nutrientes e energia, contrariando as recomendações vigentes. Diante desse cenário, evidencia-se a necessidade de ações educativas e conscientização de uma alimentação saudável direcionadas para as gestantes (Aparicio et al., 2020)

Durante a gravidez, as mulheres vivenciam mudanças físicas significativas, como ganho de peso e alterações na imagem corporal, o que pode gerar inseguranças que contribuem para o desenvolvimento de transtornos alimentares (Martínez-Olcina et al., 2020). Esse período de transformação física e emocional pode atuar como um gatilho, especialmente para mulheres que já apresentavam insatisfação com seus corpos antes da gravidez.

A gestação e maternidade precoce são considerados fatores de risco adicionais para o desenvolvimento ou agravamento de transtornos alimentares. A presença dessas condições durante a gravidez tem sido associada a maiores taxas de parto prematuro, maior necessidade de cesárea e maiores riscos ao desenvolvimento fetal (Sommerfeldt et al., 2023). Em particular, gestantes com diagnóstico de anorexia nervosa apresentam maior probabilidade de necessitar de uma cesariana em comparação com aquelas sem histórico de transtornos alimentares (Arnold et al., 2019)

Os transtornos alimentares se caracterizam pelos distúrbios presentes nos hábitos alimentares, e podem se manifestar por meio da Anorexia Nervosa (AN), Bulimia Nervosa (BN), Transtorno de Compulsão Alimentar e Picamalácia (Parker et al., 2022). Os transtornos alimentares estão diretamente relacionados ao estilo de vida e a cultura de uma sociedade. A cultura ocidental é obcecada na beleza e na imagem corporal, levando muitas pessoas a seguir dietas extremamente restritivas e desenvolver distúrbios alimentares. Com base nos fatores que desencadeiam esses transtornos, eles podem ser divididos em quatro categorias principais, as preocupações com o peso, com a imagem corporal, com a alimentação e com a evitação de alimentos.(Kiani-Sheikhabadi; Beigi; Mohebbi-Dehnavi, 2019)

A Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) é uma abordagem psicoterapêutica que visa ensinar o paciente a identificar, compreender e modificar pensamentos disfuncionais, buscando reduzir comportamentos prejudiciais (Ngô, 2013) Essa abordagem tem se mostrado eficaz nos tratamentos de transtornos alimentares como a bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar periódica, sendo considerada a melhor opção de intervenção para esses casos (Agras e Bohon, 2025). Nesse contexto, o nutricionista desempenha papel fundamental na equipe multidisciplinar, principalmente no acompanhamento de gestantes com transtornos alimentares.

Apesar das diretrizes clínicas recomendarem a presença do nutricionista no manejo desses transtornos, não havia uma definição clara sobre as atribuições desse profissional para com esse público até recentemente. Os nutricionistas são responsáveis por identificar os primeiros sinais desses distúrbios e auxiliar no tratamento, usando suas habilidades para determinar a gravidade da condição com base nos sintomas apresentados pelos pacientes. Além disso, o nutricionista contribui significativamente realizando avaliações dietéticas, levando em consideração crenças, preferências e hábitos alimentares e adaptando o plano alimentar de acordo com as necessidades individuais da gestante(Parker et al., 2022).

Neste sentido, o objetivo do presente trabalho foi identificar, por meio da literatura científica, se há relação entre transtornos alimentares pregressos e complicações na gravidez e no pós-parto.

METODOLOGIA

O presente trabalho é uma revisão integrativa da literatura, composta por artigos no idioma inglês e publicados nos últimos cinco anos na base de dados U.S. National Library of Medicine (PubMed) e Science Direct. A partir de buscas realizadas nos descritores de busca MeSH terms da National Center for Biotechnology Information (NCBI), as palavras-chave que melhor descrevem o tema e foram utilizadas como estratégias de busca são “pregnancy”, “eating disorders”, “postpartum”, “anorexia nervosa”, “bulimia nervosa” e “eating behavior”, em inglês, combinados pelos operadores booleanos AND e OR.

Os critérios de inclusão para a seleção dos artigos foram estudos do tipo coorte, caso-controle e ensaio clínico que apresentem associação entre distúrbios alimentares e complicações na gravidez e no pós-parto. Artigos que não continham seleção de dados originais, como revisões de literatura, relatos de caso, nota técnica, editorial e estudos que tratassem somente da obesidade e sobrepeso, enxaqueca, a síndrome dos ovários policísticos, hipertensão e amamentação foram excluídos durante a busca bibliográfica. 

Inicialmente, a seleção dos artigos se deu a partir da aplicação dos filtros anteriormente descritos, resultando em um total de 506 artigos encontrados. Após a leitura do título e exclusão das duplicatas dezesseis artigos seguiram no processo de seleção de resultados. Desse total, sete artigos foram excluídos após a leitura da conclusão e resumo por não corresponderem aos critérios de inclusão, totalizando nove artigos que foram lidos na íntegra, sendo que o total de nove são artigos internacionais.

A Figura 1 ilustra as etapas de seleção de artigos desta revisão.  

Figura 1 – Fluxograma de busca da revisão integrativa. 

Fonte: Elaboração própria (2025). 

RESULTADOS 

A partir da busca dos resultados foram encontrados nove artigos satisfatórios, dos quais, quatro foram estudos do tipo coorte prospectivo e longitudinal realizados em humanos, um estudo foi do tipo transversal, dois ensaios clínicos randomizados, e um estudo foi do tipo observacional transversal. Os pontos destacados na tabela de resultados incluem os autores, local, público-alvo, objetivo, metodologia e resultados de cada estudo. Os principais resultados encontrados acerca do tema estão dispostos na tabela 1.

Tabela 1 – Consolidado de estudos selecionados (n= 9).

Legenda: TA: Transtornos alimentares; APPS, do inglês Attitudes Toward Potential Pregnancy Scale: Escala de Atitude em Relação a uma Possível Gravidez; ATOM, do inglês Attitudes Towards Motherhood Scale: Escala de atitudes em relação à maternidade; BISS, do inglês, Body Image States Scale: Estados da Imagem Corporal; BPSS do inglês, Body Part Satisfaction Scale: Escala de Satisfação com as Partes do Corpo; chEAT-26, do inglês, Children’s Eating Attitudes Test-26: Teste de Atitudes Alimentares Infantis-26; DASS, do inglês, Depression, Anxiety and Stress Scale: Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse; DEBQ, do inglês, Dutch Eating Behaviour Questionnaire: Questionário Holândes de Comportamento Alimentar; EAT26, do inglês, Eating Attitude Test-26: Teste de Atitude Alimentar-26; EAT-8, do inglês, Eating Attitude Test-8: Teste de Atitude Alimentar-8; EDE, do inglês, Eating Disorder Examination: Exame de Transtornos Alimentares; EDE-Q, do inglês, Eating Disorder Examination- Questionnaire: Questionário de Exame de Transtornos Alimentares; EPDS, do inglês, Edinburgh Postnatal Depression Scale: Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo; FTQ, do inglês, Fat Talk Questionnaire: Questionário Fat Talk; INT-GEN, do inglês, Internalisation of the Thin Ideal: Internalização do Ideal de Magreza; IPAQ-SF do inglês, International Physical Activity Questionnaire- Short Form: Questionário Internacional de Atividade Física- Versão Curta; PGS, do inglês, Pittburgh Girls Study: Estudo de Meninas de Pittsburgh; PRAS, do inglês, PregnancyRelated Anxiety Scale: Escala de Ansiedade Relacionada a Gravidez; PSPS, do inglês, Perceived Sociocultural Pressure Scale: Escala de Pressão Sociocultural Percebida; SCS-SF, do inglês, Self Compassion Scale – Short Form: Escala de Autocompaixão – Versão Curta; WENDY, do inglês, WEll- being in pregNancy stuDY: Estudo de Bemestar na Gravidez; WRB-Q, do inglês, Weight-related Gain Psychossocial Risk Assessment Tool: Questionários de Comportamentos Relacionados ao Peso.

Fonte: Elaboração própria (2025).

DISCUSSÃO

As gestantes com histórico de transtornos alimentares podem vivenciar maiores dificuldades durante a gestação, devido às mudanças corporais intensas e das alterações psicológicas características desse período. Essas transformações podem contribuir para que a gestante reviva comportamentos e pensamentos transtornados relacionados à imagem corporal e ao controle alimentar, favorecendo recaídas e dificultando a adaptação ao novo corpo gestacional (Bye et al., 2020). Consequentemente, essas condições podem estar associadas a resultados adversos tanto na mãe, quanto para o neonato, incluindo o baixo peso ao nascer, o parto prematuro, a dificuldade de amamentação e o aumento do risco de depressão pós-parto.

Em um estudo de coorte realizado com gestantes diagnosticadas com transtorno alimentar ativo, com histórico de transtornos alimentares e sem histórico de distúrbios alimentares, demonstrou que àquelas com transtornos alimentares ativos apresentaram maior incidência de desfechos adversos durante a gestação e no parto, quando comparadas aos demais grupos. Foram observadas complicações como anemia e hemorragia anteparto significativamente mais prevalentes entre gestantes com anorexia nervosa, enquanto gestantes com transtornos alimentares de todos os subtipos apresentaram maior risco de parto prematuro e de neonatos com microcefalia (Mantel; Hirschberg; Stephansson, 2020). Esses achados reforçam a importância do acompanhamento nutricional e psicológico contínuo durante o pré-natal e o puerpério. No que se refere ao período de maior risco para recaídas dos transtornos alimentares, há discordância no estudo de. Sollid, Clausen e Maimburg (2021) observaram que as primeiras vinte semanas de gestação representam o momento mais crítico para o reaparecimento dos sintomas, totalizando cerca de 20 das 30recaídas (66,67%), principalmente devido às rápidas mudanças hormonais e ao início do ganho de peso, que podem gerar o sentimento de perda do controle do próprio corpo. No entanto, Baskin, Galligan e Meyer (2021) sugerem que o período de vulnerabilidade é maior no segundo ou terceiro trimestre de gestação, quando as mudanças físicas se tornam mais evidentes e a percepção da imagem corporal é mais afetada. Esse contraste evidencia que o risco de recaída não está restrito a um período específico e pode ocorrer de forma variável conforme os fatores psicológicos de cada gestante.

De acordo com Sommerfeldt e colaboradores (2022), em um estudo qualitativo com gestantes com histórico de transtornos alimentares, 23 das 24 participantes relataram reaparecimento ou piora dos sintomas durante diferentes fases da gestação, sugerindo que mudanças corporais e insegurança com a maternidade são fatores que desencadeiam o surgimento do transtorno. Tais evidências reforçam a necessidade de monitoramento contínuo durante toda a gestação, e não somente nos períodos considerados de risco, como as primeiras ou as últimas semanas de gestação.

Independentemente do período em que ocorra, a recaída de comportamentos alimentares transtornados durante a gestação pode comprometer a nutrição materna e do bebê. Os autores Dryer, Graefin von der Schulenburg e Brunton (2020) observaram que dietas restritivas, os episódios de compulsão alimentar e a indução de vômitos podem contribuir para deficiências nutricionais, resultando no aumento do risco de parto prematuro, do baixo peso ao nascer e de complicações metabólicas. Tais comportamentos alimentares desregulados comprometem diretamente a oferta nutricional ao feto, podendo afetar o crescimento intrauterino e aumentar complicações obstétricas.

As gestantes com histórico de transtornos alimentares apresentam maiores níveis de ansiedade, de depressão e de insatisfação corporal em comparação a gestantes sem distúrbios alimentares, mesmo quando não estão em recaída. Além disso, os sintomas de ansiedade e de depressão frequentem estão relacionados com o transtorno alimentar, dificultando a adesão ao acompanhamento pré-natal e as orientações nutricionais (Baskin; Galligan; Meyer, 2021; Bye et al., 2020). 

Outra questão relevante é a relação da influência sociocultural sobre a imagem corporal durante a gestação e o pós-parto. Neste sentido, Dryer, Graefin von der Schulenburg e Brunton, (2020) observaram que comentários negativos sobre o corpo e o peso, conhecidos também como fat talk, estão relacionados a maior insatisfação corporal e sintomas depressivos em gestantes. Comportamentos desse tipo podem resultar em padrões alimentares transtornados e dificultar a aceitação das mudanças corporais relacionadas à gravidez. 

Em concordância com os resultados supracitados, Tang; Tiggemann; Haines (2022), sugerem que a exposição a postagens sobre peso ou imagem corporal em redes sociais aumenta a insatisfação com a aparência e influencia atitudes alimentares disfuncionais em mães no pós-parto. Esses achados são sugestivos de que as mídias sociais têm papel fundamental na recorrência e na intensificação de sintomas de transtornos alimentares nas gestantes.

De forma complementar, Christian e colaboradores (2025)também exploraram, em outro estudo qualitativo, a relação entre imagem corporal e hábitos alimentares no período gestacional e pós-parto. As autoras encontraram que cerca de 45% das mulheres no pós-parto expressaram autocrítica em relação às mudanças corporais, enquanto 25% relataram alterações negativas nos hábitos alimentares. Esses achados sugerem que, mesmo entre mulheres sem o diagnóstico de transtornos alimentares, a pressão estética, a percepção negativa do próprio corpo e as mudanças fisiológicas características do período gestacional e do pós-parto podem ser gatilhos para o desenvolvimento ou a recorrência de comportamentos alimentares disfuncionais. Esse cenário evidencia que o pós-parto é uma fase de grande vulnerabilidade psicológica e nutricional, reforçando a necessidade de acompanhamento contínuo e acolhedor por parte da equipe multidisciplinar, que considerem não apenas o peso corporal, mas também os aspectos emocionais e identitários da maternidade.

Além disso, a literatura aponta impactos a longo prazo nas interações entre mãe e filho. Doersam et al. (2024) observaram que as mães com histórico de transtorno alimentar apresentaram diferenças qualitativas nas interações durante a alimentação do bebê, incluindo menor flexibilidade e maior ansiedade durante o momento da amamentação. Essas alterações podem refletir no desenvolvimento da autorregulação alimentar infantil e reforçam a importância de intervenções precoces que apoiem a relação mãe-bebê. O acompanhamento por nutricionistas e psicólogos pode auxiliar na construção de práticas alimentares positivas, promovendo o aleitamento materno e prevenindo a transmissão de padrões disfuncionais da alimentação para os filhos.

Em síntese, gestantes sem histórico de transtornos alimentares demonstram maior estabilidade emocional e menor risco de distúrbios do humor no pós-parto,  (Dryer; Graefin von der Schulenburg; Brunton, 2020; Sommerfeldt et al., 2022) enquanto mulheres com transtornos alimentares ativo ou em remissão parcial tendem a apresentar dificuldades no vínculo materno e maior vulnerabilidade à depressão pós-parto. Deste modo, compreender as diferenças entre esses grupos é essencial para desenvolver estratégias de prevenção e acompanhamento individualizado durante o período gestacional e o puerpério.

De forma geral, os estudos analisados sugerem que a gravidade dos distúrbios alimentares pode variar entre a melhora e a recaída ao longo da gestação e do puerpério, sendo influenciados por fatores hormonais, emocionais e socioculturais. Embora algumas mulheres relatem melhora temporária dos sintomas durante a gravidez, o risco de recidiva após o parto é elevado, especialmente em contextos de insatisfação corporal, depressão pós-parto e falta de rede de apoio. 

Por fim, os resultados consistentes reforçam a relevância do tema para a saúde pública e para a prática clínica. O reconhecimento precoce de sinais de transtornos alimentares e a atuação conjunta de profissionais de saúde são essenciais para reduzir riscos maternos e neonatais, além de promover a recuperação física e psicológica da mulher durante a gravidez e no período pós-parto. Dessa forma, observa-se que estas duas fases representam períodos críticos para o manejo dos transtornos alimentares, evidenciando a importância do acompanhamento contínuo e de políticas públicas voltadas à saúde mental e nutricional da mulher gestante.

Como principais fatores limitantes do presente estudo, destaca-se a dificuldade em identificar descritores mais específicos, em virtude da ampla abrangência do tema. Além disso, por se tratar de uma área ainda pouco explorada na literatura, houve limitações durante o processo de busca e seleção dos artigos, visto que grande parte dos achados não atendia aos critérios estabelecidos de ano de publicação, tipo de estudo e relação direta com o objeto de pesquisa. Além disso, os estudos selecionados apresentaram predominantemente metodologias observacionais, o que restringe a possibilidade de estabelecer relações de causa e efeito. Diante dos achados, observa-se que os transtornos alimentares exercem impacto significativo sobre a saúde da gestante e do neonato, exigindo acompanhamento e cuidado contínuos. Assim, ressalta-se a necessidade de futuras pesquisas que aprofundem o tema, a fim de gerar evidências mais robustas e contribuir para a construção de estratégias de intervenção mais eficazes.

CONCLUSÃO

Com base nos resultados encontrados, pode-se afirmar que gestantes com histórico de transtornos alimentares apresentam maior vulnerabilidade física e emocional durante a gestação e o pós-parto, em comparação àquelas sem histórico dessas condições. Esse grupo demonstrou maior incidência de complicações obstétricas, como parto prematuro, baixo peso ao nascer e anemia, além de maior prevalência de sintomas depressivos, de ansiedade e de insatisfação corporal. As recaídas dos transtornos alimentares foram observadas mais frequentes durante o terceiro trimestre e o período pós-parto, devido a intensas mudanças físicas e psicológicas, associadas à pressão estética e à influência das redes sociais sobre a imagem corporal.

Logo, os resultados desta pesquisa reforçam a importância de um acompanhamento pré-natal multidisciplinar, que envolva suporte nutricional, psicológico e médico. O nutricionista, em especial, desempenha um papel essencial na identificação precoce de sinais de risco e na promoção de hábitos alimentares equilibrados, favorecendo a saúde materna e do recém-nascido. Deste modo, compreender a relação entre comportamento alimentar e saúde mental durante a gestação contribui para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamento mais eficazes, capazes de promover uma gestação saudável e o bem-estar integral da mulher e do bebê.

REFERÊNCIAS

AGRAS, W Stewart; BOHON, Cara. On: Sun. Annual Review of Clinical Psychology Downloaded from www.annualreviews.org. Guest, [N.p.], p. 56, 2025. DOI: 10.1146/annurev-clinpsy-081219. Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev-clinpsy081219-.

APARICIO, Estefania; JARDÍ, Cristina; BEDMAR, Cristina; PALLEJÀ, Meritxell; BASORA, Josep; ARIJA, Victoria. Nutrient intake during pregnancy and post-partum: ECLIPSES study. Nutrients, [N.p.], vol. 12, no 5, 1 maio 2020. https://doi.org/10.3390/nu12051325.

ARNOLD, Charlotte; JOHNSON, Hayley; MAHON, Ciara; AGIUS, Mark. THE EFFECTS OF EATING DISORDERS IN PREGNANCY ON MOTHER AND BABY: A REVIEW. [N.p.]: [N.p.], [[S.d.]]. 615–618 p.

BASKIN, Rachel; GALLIGAN, Roslyn; MEYER, Denny. Disordered eating from pregnancy to the postpartum period: The role of psychosocial and mental health factors. Appetite, [N.p.], vol. 156, 1 jan. 2021. https://doi.org/10.1016/j.appet.2020.104862.

BYE, Amanda; NATH, Selina; RYAN, Elizabeth G.; BICK, Debra; EASTER, Abigail; HOWARD, Louise M.; MICALI, Nadia. Prevalence and clinical characterisation of pregnant women with eating disorders. European Eating Disorders Review, [N.p.], vol. 28, no 2, p. 141–155, 1 mar. 2020. https://doi.org/10.1002/erv.2719.

CHRISTIAN, Caroline; BRAYNEN, A’mara S.; CLARK, Sara R.; DONOFRY, Shannon D. Body image and eating habits during pregnancy and postpartum: themes and suggestions for maternal healthcare. Journal of Reproductive and Infant Psychology, [N.p.], 2025. https://doi.org/10.1080/02646838.2025.2559964.

DOERSAM, Annica Franziska; THROM, Jana Katharina; SÖRENSEN, Ferdinand; MARTUS, Peter; KRAEGELOH-MANN, Ingeborg; PREISSL, Hubert; MICALI, Nadia; GIEL, Katrin Elisabeth. Mother-infant feeding interactions in mothers with and without eating disorder history: Results of a structured observational study. Appetite, [N.p.], vol. 200, 1 set. 2024. https://doi.org/10.1016/j.appet.2024.107551.

DRYER, Rachel; GRAEFIN VON DER SCHULENBURG, Isabella; BRUNTON, Robyn. Body dissatisfaction and Fat Talk during pregnancy: Predictors of distress. Journal of Affective Disorders, [N.p.], vol. 267, p. 289–296, 15 abr. 2020. https://doi.org/10.1016/j.jad.2020.02.031.

KIANI-SHEIKHABADI, Maryam; BEIGI, Marjan; MOHEBBI-DEHNAVI, Zahra. The relationship between perfectionism and body image with eating disorder in pregnancy. Journal of Education and Health Promotion, [N.p.], vol. 8, no 1, 1 dez. 2019. https://doi.org/10.4103/jehp.jehp_58_19.

MANTEL, Ängla; HIRSCHBERG, Angelica Lindén; STEPHANSSON, Olof. Association of Maternal Eating Disorders with Pregnancy and Neonatal Outcomes. JAMA Psychiatry, [N.p.], vol. 77, no 3, p. 285–293, 1 mar. 2020. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2019.3664.

MARTÍNEZ-OLCINA, María; RUBIO-ARIAS, Jacobo A.; RECHE-GARCÍA, Cristina; LEYVA-VELA, Belén; HERNÁNDEZ-GARCÍA, María; HERNÁNDEZ-MORANTE, Juan José; MARTÍNEZ-RODRÍGUEZ, Alejandro. Eating disorders in pregnant and breastfeeding women: A systematic review. Medicina (Lithuania), [N.p.], vol. 56, no 7, p. 1–19, 1 jul. 2020. https://doi.org/10.3390/medicina56070352.

NGÔ, Thanh Lan. [Acceptance and mindfulness-based cognitive-behavioral therapies]. Santé mentale au Québec, [N.p.], vol. 38, no 2, p. 35–63, 2013. https://doi.org/10.7202/1023989ar.

PARKER, Elizabeth Kumiko; ASHLEY, Mellisa Anne; MORETTI, Courtney; HARRIS, Deanne Maree; STEFOSKA-NEEDHAM, Anita. Exploring perceived training and professional development needs of Australian dietetic students and practising dietitians in the area of eating disorders: a focus group study. Journal of Eating Disorders, [N.p.], vol. 10, no 1, 1 dez. 2022. https://doi.org/10.1186/s40337-022-00567-0.

SOLLID, Charlotte; CLAUSEN, Loa; MAIMBURG, Rikke Damkjær. The first 20 weeks of pregnancy is a high-risk period for eating disorder relapse. International Journal of Eating Disorders, [N.p.], vol. 54, no 12, p. 2132–2142, 1 dez. 2021. https://doi.org/10.1002/eat.23620.

SOMMERFELDT, Bente; SKÅRDERUD, Finn; KVALEM, Ingela Lundin; GULLIKSEN, Kjersti; HOLTE, Arne. Trajectories of severe eating disorders through pregnancy and early motherhood. Frontiers in Psychiatry, [N.p.], vol. 14, 2023. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2023.1323779.

SOMMERFELDT, Bente; SKÅRDERUD, Finn; KVALEM, Ingela Lundin; GULLIKSEN, Kjersti S.; HOLTE, Arne. Bodies out of control: Relapse and worsening of eating disorders in pregnancy. Frontiers in Psychology, [N.p.], vol. 13, 28 set. 2022. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.986217.

TANG, Lisa; TIGGEMANN, Marika; HAINES, Jess. #Fitmom: an experimental investigation of the effect of social media on body dissatisfaction and eating and physical activity intentions, attitudes, and behaviours among postpartum mothers. BMC Pregnancy and Childbirth, [N.p.], vol. 22, no 1, 1 dez. 2022. https://doi.org/10.1186/s12884-022-05089-w.


1Universidade Paulista (UNIP), Goiânia, Goiás, Brasil.