DISTRIBUIÇÃO DAS COLECISTECTOMIAS NO ESTADO DO CEARÁ: ANÁLISE DA CAPACIDADE DE EXECUÇÃO DO PROCEDIMENTO NAS REGIÕES DE SAÚDE

DISTRIBUTION OF CHOLECYSTECTOMIES IN THE STATE OF CEARÁ: ANALYSIS OF THE CAPACITY TO PERFORM THE PROCEDURE IN THE HEALTH REGIONS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202503221621


Carlos Wesley Ribeiro Pereira1
Carlos André Moura Arruda2


Resumo

Introdução: A colelitíase é uma condição de alta prevalência na população mundial. Atrasos no seu diagnóstico e tratamento adequado, suscitam em maiores riscos de complicações potencialmente graves para os pacientes. Objetivo: Analisar a distribuição e a capacidade de execução dos procedimentos de colecistectomia nas regiões de saúde do Estado do Ceará. Métodos: Foram coletados dados do sistema DATASUS e SESA-CE referentes ao período de novembro de 2018 a novembro de 2024. A organização estadual foi analisada em função das 5 Macrorregiões de Saúde do Estado. Os dados foram, então, correlacionados com indicadores sociodemográficos do estado e analisados utilizando-se estatística descritiva e inferencial. Resultados: Durante o período analisado, foram realizadas 41329 colecistectomias. Embora Fortaleza tenha concentrado o maior número absoluto de procedimentos (16140), a região do Cariri apresentou a maior taxa per capita, com 693.6 (IC 95%: 608.3; 706.9) procedimentos/100000 habitantes. De outro modo, a região do Vale do Jaguaribe realizou a menor quantidade absoluta (1614) e per capita (292.4; IC 95%: 278.2; 306.7) de colecistectomias. Conclusão: A análise dos dados aponta para uma forte influência da capacidade operacional e dos recursos humanos na realização de colecistectomias no Ceará. Regiões como o Cariri e o Sertão Central enfrentam desafios significativos devido ao déficit de leitos e à escassez de anestesistas. Esses resultados ressaltam a necessidade de políticas públicas que promovam a descentralização dos serviços de saúde, ampliem a infraestrutura cirúrgica e melhorem a distribuição dos profissionais.

Palavras-chave: Colecistectomia. Regionalização. Disparidades em Saúde.

Abstract

Introduction: Cholelithiasis is a highly prevalent condition worldwide. Delays in its diagnosis and appropriate treatment expose patients to an increased risk of potentially severe complications. Objective: This study aimed to analyze the distribution and execution capacity of cholecystectomy procedures across the health regions of the State of Ceará. Methods: Data were collected from the DATASUS and SESA-CE systems for the period from November 2018 to November 2024. The state organization was examined according to the five Health Macroregions. The data were then correlated with the state’s sociodemographic indicators and analyzed using descriptive and inferential statistics. Results: During the analyzed period, a total of 41,329 cholecystectomies were performed. Although Fortaleza accounted for the highest absolute number of procedures (16,140), the Cariri Macroregion exhibited the highest per capita rate, with 693.6 (95% CI: 608.3; 706.9) procedures per 100,000 inhabitants. Conversely, the Jaguaribe Valley Macroregion recorded the lowest absolute (1,614) and per capita (292.4; 95% CI: 278.2; 306.7) numbers of cholecystectomies. Conclusion: The data analysis indicates a strong influence of operational capacity and human resources on the performance of cholecystectomies in Ceará. Regions such as Cariri and Sertão Central face significant challenges due to a deficit of hospital beds and a scarcity of anesthesiologists. These findings underscore the need for public policies that promote the decentralization of health services, expand surgical infrastructure, and improve the distribution of professionals.

Keywords: Cholecystectomy; Regionalization; Ceará; Disparities.

1 INTRODUÇÃO

A colelitíase é uma doença da via biliar altamente prevalente na população adulta, com prevalência variando de 10 a 20% na população geral mundial e no Brasil dados indicam prevalência de 9,3% (MAHMUT et al., 2021; LOBO; COELHO; MATEUS, 2020; MUÑOZ-LEIJA et al., 2024). Tal condição tem como principais fatores de risco a obesidade, ingesta de dieta hipercalórica, doença hemolítica, sedentarismo, múltiplas gestações e tratamento de longa data com hormônios sexuais (BORGES et al., 2016). 

A abordagem por via laparoscópica é a técnica padrão ouro para a realização da colecistectomia, implicando em melhores desfechos intra e pós-operatórios quando comparada com a abordagem convencional por via aberta (BORGES et al., 2016; ROSALES, MORENO, 2018; AGRUSA et., 2014; IRIGONHÊ et al., 2020). Dada a alta prevalência dessa patologia, a colecistectomia eletiva apresenta-se como o procedimento cirúrgico mais realizado no Brasil (IRIGONHÊ et al., 2020).

O manejo não adequado dessa condição pode suscitar inúmeras complicações, como colecistite aguda, colangite, abscessos hepáticos, íleo biliar ou pancreatite aguda litiásica (MAHMUT et al., 2021; LOBO; COELHO; MATEUS, 2020; MUÑOZ-LEIJA et al., 2024). O tratamento sintomático exclusivo tem um índice de recidiva de até 50% em 5 anos (LOBO; COELHO; MATEUS, 2020). 

Dessa forma, o tratamento cirúrgico imediato com colecistectomia deve ser estabelecido para todos os pacientes hígidos e sintomáticos (cerca de 20% dos pacientes), o que implica em menor morbidade cirúrgica, tempo de internamento e custos hospitalares (KAO et al., 2018; BAKILLAH et al. 2024; ALKHALIFAH et al., 2023; BORGES et al., 2016). 

Assim, é preciso garantir que o sistema de saúde pública tenha condições de atender a ampla demanda pelas cirurgias de colecistectomia, reduzindo a realização do procedimento na urgência e aumentando a realização da colecistectomia eletiva, haja vista os melhores desfechos tanto para o paciente, como para a rede de saúde (BAKILLAH et al., 2024; AGRUSA et al., 2014; MYERS et al., 2024). 

Nesse sentido, este trabalho buscou analisar a distribuição e a capacidade de execução dos procedimentos de colecistectomia nas regiões de Saúde do Estado do Ceará, representadas pelas regiões de Saúde de Fortaleza, Cariri, Sobral, Sertão Central e Litoral Leste.

2 REVISÃO DA LITERATURA

Desde a Constituição de 1988, a saúde configura-se como um direito do povo e dever do Estado. Nesse sentido, a oferta de uma assistência à saúde conduzida de maneira integrativa, participativa e de qualidade enfrenta uma gama de desafios impostos por aspectos epidemiológicos e demográficos do contexto de uma determinada população, bem como fatores associados à inovação científica, tecnológica e desigualdades sociais e regionais (CHAVES; ANDRADE; SANTOS, 2024). 

No que tange a organização e planejamento das políticas de saúde pública, a regionalização tem sido implementada como alternativa para proporcionar uma oferta de cuidados em saúde de maneira mais equitativa e eficiente (VIANA; IOZZI, 2019). Para tanto, tal política demanda efetiva participação das diferentes instituições de governança, bem como articulação eficiente entre atenção primária à saúde e assistência especializada e, por fim, das entidades de regulação e coordenação para manejo integrado das ações (CHAVES; ANDRADE; SANTOS, 2024; VIANA; IOZZI, 2019; RACHE et al., 2020). 

Segundo o Ministério da Saúde (2017), a elevada fragmentação, baixo grau de articulação e comunicação, bem como a deficiência nos processos de regulação de acesso e carência de dispositivos efetivos de coordenação dos fluxos dos usuários e da agenda de especialistas representa um dos maiores desafios no que diz respeito ao modelo regionalizado de saúde no Brasil. 

Referente a cobertura dos serviços de atenção hospitalar no Brasil, estudo conduzido por Chaves, Andrade e Santos (2024) evidenciou uma cobertura de nível baixo para 9,70% da população, enquanto 90,29% têm uma cobertura de médio nível, demonstrando a existência de disparidade de de cobertura da rede hospitalar a nível nacional. Esse estudo demonstrou ainda a oferta insuficiente de leitos para internação hospitalar, apesar de ter indicado alto acesso para internação hospitalar na média complexidade.      

3 METODOLOGIA 

3.1 Delineamento e período do estudo 

Este é um estudo de pesquisa documental (com análise de dados secundários), transversal, com uma abordagem quantitativa. 

Segundo Gil (2019), a pesquisa documental vale-se da exploração de um conjunto de materiais que ainda não receberam tratamento analítico ou que ainda podem ser reelaborados segundo os objetivos de uma pesquisa. Nesse sentido, o presente trabalho debruçou-se sobre  análise tanto de documentos de primeira mão, isto é, documentos oficiais, como documentos de segunda mão, relatórios de pesquisa. 

Ainda nesse escopo, Bastos, Duquia (2007) definiram estudo transversal como um delineamento observacional que coleta dados de uma população ou amostra em um único momento no tempo, comumente utilizado em epidemiologia para descrever a prevalência de doenças ou condições e explorar associações entre variáveis. 

Da mesma maneira, Marconi e Lakatos (2017) definiram a pesquisa quantitativa como aquela que envolve a coleta e análise de dados numéricos para testar hipóteses e medir variáveis, valendo-se de técnicas estatísticas para identificar padrões e relações, buscando objetividade e a possibilidade de generalizar os resultados

Considerando o exposto, este trabalho fez uso de dados secundários referentes ao período de novembro de 2018 até novembro de 2024. 

3.2 Cenário do estudo

Foram analisadas as cinco regiões de saúde do estado: Fortaleza, Cariri, Sobral, Sertão Central e Litoral Leste. 

A região de Fortaleza alberga o maior contingente populacional dentre as 5 regiões de saúde, com uma população estimada em 2024 de 4.811.949 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que corresponde a 52% da população total do estado. Ela está distribuída ao longo de 44 municípios, sendo o município de Fortaleza a capital do Estado com uma população estimada em 2024 de 2.574.412 habitantes. No que tange a infraestrutura de saúde instalada, essa região conta com um total de 8535 estabelecimentos de saúde, desde consultórios individuais até hospitais terciários. Destes, 1414 são administrados pela esfera pública, sendo 122 postos de saúde, 46 policlínicas, 46 hospitais especializados e 86 hospitais gerais (CEARÁ, 2023). 

A região de saúde do Cariri teve uma população estimada em 2024 de 1.509.109 habitantes, distribuídos ao longo de 45 municípios. Em se tratando da infraestrutura de saúde pública, a região conta com 27 hospitais de pequeno porte, 12 hospitais estratégicos e 13 hospitais pólos. Além disso, possui 4 hospitais de nível terciário e 12 hospitais com habilitação em procedimentos de alta complexidade (IBGE, 2024; CEARÁ, 2023).  

A região do Litoral Leste teve uma população estimada em 2024 de 551.949 habitantes, os quais estão distribuídos por 20 municípios. Em relação a infraestrutura de saúde pública, a região conta com 214 unidades de atenção primária à saúde, 4 policlínicas, 6 hospitais gerais e 16 hospitais de pequeno porte (IBGE, 2024; CEARÁ, 2023). 

A região do Sertão Central conta com uma população estimada em 2024 de 642.839 habitantes, distribuídos em 20 municípios. Além disso, conta com uma rede hospitalar composta por 20 hospitais, dos quais 9 são hospitais de pequeno porte, 1 é caracterizado como hospital de retaguarda, 4 são hospitais estratégicos, 5 são hospitais polo, além disso conta com 1 hospital de nível terciário (IBGE, 2024; CEARÁ, 2023).

A região de Sobral teve uma população estimada em 2024 de 1.717.810 habitantes distribuídos em 55 municípios. A rede hospitalar dessa região é composta por  53 unidades hospitalares, sendo 38 hospitais de pequeno porte, 12 hospitais de médio porte e 3 hospitais de grande porte de nível teciário (IBGE, 2024; CEARÁ, 2023).

3.3 Coleta dos dados secundários

Os dados foram obtidos do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) e dos Planos de Saúde Regionais da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESA-CE). 

A coleta de dados secundários foi realizada por meio do banco de dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), acessado através da plataforma TabNet do DataSUS. Inicialmente, foi selecionado o módulo de produção hospitalar, que permite a extração de informações sobre procedimentos realizados nos serviços de saúde vinculados ao SUS. Em seguida, foram definidos os critérios de busca, considerando o código correspondente à colecistectomia na Tabela de Procedimentos do SUS, bem como o período de análise compreendido entre novembro de 2018 e novembro de 2024. A localização geográfica foi delimitada para o estado do Ceará, com os dados sendo posteriormente organizados conforme a divisão em macrorregiões de saúde.

Os dados foram extraídos em formato CSV e organizados em planilhas para viabilizar a análise comparativa entre as diferentes regiões de saúde. 

Além disso, para contextualizar a distribuição da realização do procedimento no estado, foi analisada a população total de cada região de saúde, obtida a partir da soma do número de habitantes de cada município que compõem a respectiva região. Essas informações foram extraídas do Portal Cidades do IBGE e utilizadas no cálculo da razão entre o número de colecistectomias realizadas em cada região e sua população total. O resultado foi expresso como o número de colecistectomias por 100 mil habitantes, permitindo uma análise comparativa entre as regiões.

Adicionalmente, foram examinados os Planos de Saúde Regionais 2023/2027 elaborados pela Secretaria da Saúde do Ceará, os quais apresentam informações estratégicas sobre a organização dos serviços hospitalares nas cinco regiões de saúde do estado. A partir desses documentos, foram extraídos e tabulados dados relativos à infraestrutura assistencial, incluindo o quantitativo de anestesistas, cirurgiões gerais e a capacidade hospitalar instalada, além da composição municipal de cada região. As informações sistematizadas foram posteriormente resgatadas e utilizadas para subsidiar a análise da distribuição das colecistectomias no estado, permitindo um exame mais abrangente da relação entre a oferta de serviços cirúrgicos e a demanda populacional.

3.4 Análise dos dados secundários 

A análise estatística incluiu a estatística descritiva para cálculo de médias e desvios-padrão. A relação entre o número de colecistectomias e as variáveis de infraestrutura foi avaliada por meio do teste de correlação de Pearson. Valores de p inferiores a 0,05 foram considerados estatisticamente significativos. A ausência de dados completos para Fortaleza e Sobral limitou a inclusão dessas regiões na análise inferencial.

3.5 Aspectos Éticos e Legais 

Este trabalho foi conduzido por meio da análise de dados secundários, não apresentando conflitos éticos ou legais no que diz respeito à sua realização por não se tratar de uma pesquisa com seres humanos (ou parte deles), como prevê as Resoluções do Conselho Nacional de Saúde nº 466/2016 e nº 510/2018 (BRASIL, 2016; BRASIL 2018).  

4 RESULTADOS 

A distribuição das cirurgias entre as regiões de saúde foi desigual, com concentração em Fortaleza (16.140), seguida pelo Cariri (10.467), Sobral (9.366), Sertão Central (3.742) e Litoral Leste (1.614). 

Durante o período analisado, foram realizadas 41.329 colecistectomias no estado. Embora Fortaleza tenha concentrado o maior número absoluto de procedimentos (16.140), a região do Cariri apresentou a maior taxa per capita, com 693,6 (IC 95%: 608,3; 706,9) procedimentos/100.000 habitantes. 

De outro modo, a região do Vale do Jaguaribe realizou a menor quantidade absoluta (1.614) e per capita (292,4; IC 95%: 278,2; 306,7) de colecistectomias.

Gráfico 01: Número de colecistectomias por Região de Saúde

Fonte: Autores

Além disso, a taxa per capita de colecistectomias na região de Fortaleza foi de 335,4 (IC 95%: 330,2 – 340,6), em Sobral de 542,2 (IC 95%: 534,4 – 556,5) e 582,1 (IC 95%: 563,5 – 600,9) na região de saúde do Sertão Central. Esses dados estão elencados no Gráfico 02 a seguir. 

Gráfico 02: Número de colecistectomias por 100.000 habitantes em cada região de saúde

Fonte: Autores

No Cariri, havia 63 cirurgiões gerais, 71 anestesistas e 430 leitos de cirurgia, com um déficit de 717 leitos segundo as normativas do Ministério da Saúde. No Sertão Central, foram contabilizados 71 cirurgiões gerais, 47 anestesistas e 60 leitos de cirurgia geral. Já na região de Jaguaribe, havia 50 cirurgiões gerais, 60 anestesistas e 105 leitos de cirurgia geral, representando um déficit de 123 leitos.

A análise estatística revelou uma correlação moderada entre o número de leitos e o volume de colecistectomias realizadas (r = 0,42; p = 0,56) e uma correlação fraca entre o número de cirurgiões e o volume de procedimentos (r = 0,29; p = 0,78). Nenhuma das associações alcançou significância estatística, o que pode ser explicado pelo número reduzido de observações. A ausência de informações completas sobre Fortaleza e Sobral impossibilitou uma análise estatística mais robusta.

5 DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo indicam que a distribuição das colecistectomias no Ceará apresenta disparidades regionais significativas, refletindo a disponibilidade desigual de infraestrutura e profissionais. O Cariri, mesmo com menor capacidade hospitalar, apresentou a maior taxa per capita de cirurgias, o que sugere um melhor aproveitamento da rede de saúde.

A análise revelou que a disponibilidade de anestesistas pode ser um fator limitante na realização das colecistectomias. O Sertão Central e Jaguaribe, com menos anestesistas disponíveis (47 e 60, respectivamente), apresentaram menor volume de cirurgias, enquanto o Cariri, com 71 anestesistas, teve um desempenho superior, apesar do déficit de leitos. Esse achado reforça a hipótese de que a presença de anestesistas é um elemento essencial para a realização do procedimento.

Estudo semelhante conduzido por Lobo et al. (2020) no estado do Paraná apresentou concordância com com o presente trabalho ao demonstrar que a centralização das colecistectomias em determinados centros de referência pode resultar em dificuldades de acesso ao procedimento em regiões mais afastadas, indicando que tal panorama se estende por mais regiões do território brasileiro. 

A organização dos serviços de saúde em regiões de saúde foi estabelecida com a finalidade de aumentar o acesso, qualidade e homogeneização dos serviços de saúde, possibilitando a descentralização e interiorização dos Sistema Único de Saúde (SUS) (CHAVES; ANDRADE; SANTOS, 2024; VIANA; IOZZI, 2019). 

Nesse sentido, vê-se que a região de saúde de Fortaleza ainda concentra alto volume de procedimentos, apesar de não apresentar as maiores taxas per capita, o que possivelmente se deve pela baixa resolutividade dos procedimentos de maior complexidade em unidades do interior do Estado, com necessidade frequente de regularização de pacientes para unidades terciárias da capital do Estado para definição de cuidados, reiterando a necessidade de esforço continuado do poder público para assegurar uma interiorização dos serviços de saúde. 

A maior incidência de casos de alta complexidade na região de saúde de Fortaleza, especificamente na capital do estado, pode contribuir para uma sobrecarga dos serviços de saúde nessa região, levando a taxas maiores de tempo de internação hospitalar e consequente superlotação dos leitos hospitalares das unidades dessa região. Nesse sentido, é possível que ocorra menor realização dos procedimentos de caráter eletivo para a população adscrita na região de saúde de Fortaleza, podendo contribuir para uma taxa per capita de colecistectomias menor do que outras regiões de saúde do estado, a despeito de maior robustez da infraestrutura hospitalar. 

Uma limitação deste estudo deu-se pela falta de acesso a dados sobre a taxa de ocupação de leitos e o tempo médio de internação dos pacientes nas enfermarias de cirurgia dos hospitais do estado. Tais dados são essenciais para uma análise mais aprofundada da dinâmica hospitalar e do impacto na realização das colecistectomias na rede de saúde estadual. Portanto, a ausência dessas informações restringe a compreensão do contexto completo da capacidade de atendimento e pode afetar as conclusões sobre a eficiência do sistema de saúde. 

Este trabalho é pioneiro na avaliação de inconsistências assistenciais da rede de saúde pública do estado do Ceará no que tange a realização do procedimento de colecistectomia pelas suas regiões de Saúde, evidenciando a necessidade de maior aprofundamento da comunidade científica no tema, bem como a necessidade do fortalecimento das políticas públicas estaduais, a fim de garantir equidade de acesso ao sistema de saúde.  

6 CONCLUSÃO

Este trabalho conseguiu analisar de forma efetiva a distribuição das colecistectomias ao longo das regiões de saúde do Estado do Ceará. De outro modo, análise da capacidade de execução das colecistectomias nas diferentes regiões de saúde carece de maior disponibilidades de dados, tais como tempo médio de internação hospitalar dos pacientes dos leitos de enfermaria cirúrgica, bem como a quantidade de leitos ofertados nessas enfermarias.

Além disso, a indisponibilidade de dados sobre pessoal para algumas regiões de saúde, tal como a indisponibilidade do número de anestesistas na região de saúde de Sobral e Fortaleza contribuiu para a análise parcial da capacidade de execução das colecistectomias no Estado.  

A análise dos dados aponta para uma forte influência da capacidade operacional e dos recursos humanos na realização de colecistectomias no Ceará. Regiões como o Cariri e o Sertão Central enfrentam desafios significativos devido ao déficit de leitos e à escassez de anestesistas.

Esses resultados ressaltam a necessidade de políticas públicas que promovam a descentralização dos serviços de saúde, ampliem a infraestrutura cirúrgica e melhorem a distribuição dos profissionais. Estudos posteriores, com maior aprofundamento nas variáveis, tais como tempo médio de internação hospitalar e taxa de ocupação de leitos de enfermaria de cirurgia, são necessários para uma melhor compreensão dessa problemática.

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¹Curso de Medicina, Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, Brasil.
²Professor Assistente, Faculdade de Ciências da Saúde do Sertão Central (FACISC), Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, Brasil.