DISFUNÇÕES NA ARTICULAÇÃO TEMPOROMANDIBULAR DE ESTUDANTES DA SAÚDE: IMPACTOS DO ENSINO A DISTÂNCIA DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19

TEMPOROMANDIBULAR JOINT DYSFUNCTIONS AMONG HEALTH STUDENTS: IMPACTS OF DISTANCE LEARNING DURING THE COVID-19 PANDEMIC

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202503311307


Márcio Henrique Martins de Alcântara Pinho1
Alana Larissa Viana de Lima2
Anne Nicácio Cruz de Souza Mello3
Eduarda Gomes Onofre de Araújo4
Antonia Lucineide F. de Lima5


RESUMO

A disfunção da articulação temporomandibular (ATM) é entendida como um conjunto de distúrbios que são capazes de afetar os músculos mastigatórios e a articulação temporomandibular devido a inúmeros aspectos, inclusive, fatores relacionados ao estresse. O presente artigo tem como objetivo analisar e mapear as evidências sobre como a educação a distância pode influenciar na ocorrência da disfunção na articulação temporomandibular nos estudantes da área da saúde. Para o alcance dos objetivos, recorreu-se a uma revisão de escopo a partir do levantamento de publicações nas seguintes bases de dados: PubMed, EMBASE, Scopus, Web of Science, LILACS e LIVIVO. A busca na literatura cinzenta foi feita por meio do Google Scholar e da ProQuest Dissertations & Theses Global (PQDT Global). Foram extraídas 131 publicações das bases de dados e após aplicação de critérios de elegibilidade na triagem e leitura completa dos artigos, restaram 6 artigos para compor a revisão. Os  resultados foram categorizados em dois tópicos: influência do estresse nos estudantes e influência da COVID-19. Após a busca, leitura e análise dos dados, conclui-se que a educação a distância e os fatores psicossociais estão relacionados ao aumento dos casos das disfunções temporomandibulares nos estudantes, assim como à piora nos indivíduos que já possuíam alguma disfunção.

Palavras-chave: ATM. Saúde do Estudante. Educação a Distância.

1 INTRODUÇÃO

A evolução dos meios de comunicação e das tecnologias da informação, com acesso à internet, influenciou diretamente o cotidiano da sociedade, inclusive no que se refere ao ensino à distância (Oliveira et al., 2019). Conforme o Ministério da Educação (MEC), a educação a distância é uma categoria educacional na qual alunos e professores estão separados, física ou temporalmente, tornando-se necessária a utilização de meios digitais. 

Durante a pandemia de COVID-19, em meio às incertezas e instabilidades, o ensino remoto foi a única forma possível para a transmissão do conhecimento, contudo, por essa modalidade exigir instrumentos básicos para seu funcionamento, alguns problemas podem ocorrer, desde a falta de recursos tecnológicos e acesso à internet, até problemas com acesso às aulas, qualidade da internet e adaptação do aluno à modalidade de ensino (Santos, 2020).

Os cursos da área da Saúde são predominantemente compostos de aulas presenciais, com aulas teóricas, práticas laboratoriais e clínicas, verificando-se reduzido contato com a modalidade a distância. Nesse cenário, em meio às incertezas e o contato direto com o mundo virtual, alguns estudantes passaram a apresentar alterações psicológicas, como o estresse e a ansiedade, causando, assim, gatilhos para outras condições (Silva et al., 2023). Evidencia-se a diminuição na qualidade de vida desses indivíduos, bem como problemas no sono e sintomas de disfunções temporomandibulares (DTM) (Santos, 2020). 

A alta prevalência de DTM entre tais acadêmicos se desenvolve por causa do amplo currículo, vinculado ao estresse e à ansiedade, tendo em vista que os portadores dessa disfunção têm sua qualidade de vida piorada gradativamente, devido aos indícios de dor, limitação na amplitude do movimento e ruídos na ATM. Através da ótica quantitativa, nenhum estudo determina o grau de melhora dos sintomas em pacientes com DTM. Contudo, há tratamentos indicados por meio da farmacoterapia, fisioterapia, terapias termais, alongamentos, além de evitar atividades físicas  parafuncionais e comer alimentos macios (Chang et al., 2022).

A formulação do problema da pesquisa para a realização da revisão de escopo foi feita com base na estratégia PCC (Participantes, Conceito, Contexto), resultando na seguinte questão norteadora: A educação a distância pode influenciar na ocorrência da disfunção na articulação temporomandibular nos estudantes de graduação da área da saúde?

Diante do exposto, o objetivo deste trabalho é apresentar um protocolo de revisão de escopo que buscará responder ao seguinte questionamento: “como a educação a distância pode influenciar na ocorrência da disfunção na articulação temporomandibular nos estudantes de graduação da área da saúde?”. Este protocolo definirá os passos que serão seguidos em uma revisão de escopo, a qual busca analisar e mapear as evidências sobre a problemática, bem como os meios de tratamento que são conduzidos pelos portadores da doença e identificar as lacunas desses procedimentos. 

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

A disfunção da articulação temporomandibular (ATM) é entendida como um conjunto de distúrbios que são capazes de afetar os músculos mastigatórios e a articulação temporomandibular devido a inúmeros aspectos, inclusive, fatores relacionados ao estresse. Dito isso, é importante enfatizar que ações do dia a dia impactam diretamente no desencadeamento de algumas patologias, destacando-se neste estudo os aspectos relacionados aos fatores estressores e as aulas EAD, especialmente no período da pandemia. 

Conforme defendido por Arar et al. (2020), durante a pandemia, mesmo sendo entendido como um modelo de ensino remoto, muito se assemelha a EAD, uma vez que trata-se também de uma educação mediada por tecnologia, no entanto, os princípios adotados pelo ensino remoto tendem a substituir partes das atividades realizadas no modelo presencial tradicional, contendo atividades síncronas, realizadas no mesmo horário, na mesma disciplina e com o mesmo professor da aula presencial, de modo a possibilitar uma interação direta entre professor e aluno. 

Um estudo realizado na Suécia, com estudantes de Odontologia, mostrou que esse grupo é de risco para desenvolver DTM e condições psicossociais. O diagnóstico mais prevalente foi de mialgia nos indivíduos que apresentaram DTM (30%). Os estudantes que não possuíam disfunções temporomandibulares relataram sintomas que são enquadrados como fatores de risco para incidência da DTM (Lövgren et al., 2018).

Similarmente, o estudo feito na Arábia Saudita com 246 graduandos de Odontologia também concluiu que este é um grupo de risco para o desenvolvimento de DTM e condições psicossociais, incluindo ansiedade, depressão e estresse. A mialgia também foi o diagnóstico mais comum, e fatores como ansiedade e comportamentos parafuncionais como condições de risco para o desenvolvimento da DTM. Estudantes com a DTM, além de apresentarem dores intensas, também tiveram limitação funcional da mandíbula (Srivastava et al.,2021). O estudo realizado na Malásia concluiu que há uma correlação entre o estresse acadêmico e a incidência de DTM nos estudantes de odontologia. Os escolares mais afetados eram do sexo feminino e o estresse advinha de pressão acadêmica majoritariamente (Nik Mohd Rosdy, 2024).

Além disso, os estudos realizados na Itália, Brasil e Polônia que fizeram correlação com o isolamento social, devido à pandemia de Covid-19, e a implementação do ensino remoto para substituir o ensino presencial, convergem na conclusão de que o estresse, causado pelo isolamento social, influenciou o aparecimento de disfunções da articulação temporomandibular e dor facial, embora com respostas individuais. Por outro lado, a implementação do ensino a distância tem impactado a prevalência de DTM, ansiedade, diminuição da qualidade de vida e da qualidade do sono, assim como observou-se maior prevalência de DTM dolorosa nos escolares com ansiedade grave (Saccomanno et al., 2020; Savarese et al., 2020). Sendo assim, percebe-se que o processo de estudos de forma remota durante a pandemia possibilitou o desencadeamento de inúmeras patologias na sociedade. 

3 METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão de escopo, tendo como base as recomendações do Manual do Instituto Joana Briggs (JBI Manual for Evidence Synthesis) (Aromataris et al., 2024). A condução desta pesquisa contemplou as seguintes etapas: formulação da pergunta de pesquisa e definição dos descritores de busca; busca na literatura em bases de dados; avaliação dos títulos e resumos dos artigos de acordo com critérios de inclusão e exclusão; leitura completa dos estudos selecionados e mapeamento dos dados; sumarização e análise crítica dos resultados; apresentação dos principais achados (Aromataris et al., 2024). A presente revisão de escopo fez uso de referências bibliográficas disponíveis publicamente, descartando, assim, a submissão e aprovação prévia do Comitê de Ética em Pesquisa. O protocolo desta revisão de escopo foi previamente registrado na OSF (Open Science Framework) com o número DOI: 10.17605/OSF.IO/5GH7X. 

Inicialmente, os descritores (em português, inglês e espanhol) e seus sinônimos foram consultados no DeCS/MeSH (Descritores em Ciências da Saúde/Medical Subject Headings) e combinados utilizando operadores booleanos para elaborar a estratégia de busca. A elaboração final da estratégia e adaptação para cada base de dados, levando em consideração as especificidades e os truncamentos, foi supervisionada com o apoio de uma bibliotecária.

As pesquisas foram conduzidas nas seguintes bases de dados: PubMed via MEDLINE, EMBASE, SciVerse Scopus (Elsevier), Web of Science, LILACS (Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e LIVIVO. A busca na literatura cinzenta foi feita por meio do Google Scholar e da ProQuest Dissertations & Theses Global (PQDT Global).Os estudos escolhidos por meio das bases de dados mencionadas anteriormente foram transferidos para o software EndNote, com o intuito de excluir automaticamente os arquivos duplicados. Em seguida, os arquivos foram exportados para o Rayyan (Ouzzani et al., 2016), para se proceder a duas etapas distintas de seleção dos estudos. Na primeira etapa (triagem), os estudos foram triados com base na leitura e análise do título e do resumo, enquanto na segunda etapa (seleção propriamente dita) houve a leitura completa dos estudos levando em consideração os critérios de inclusão e exclusão. O processo de seleção está descrito por meio de um fluxograma seguindo as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMAScR) (Tricco et al., 2018) (Figura 1).

Figura 1. Fluxograma da seleção dos estudos elegíveis para a revisão

Fonte: Elaborado pelos autores (2025). 

O processo de extração de dados ocorreu a partir de um formulário de extração de dados que incluiu: autores, ano, local do estudo, características dos estudos e informações sobre os aspectos relacionados à influência da educação a distância na ocorrência de DTM em estudantes da área de saúde (Quadro 1).

4 RESULTADOS

Ao total, foram extraídas 131 publicações das bases de dados, sendo: 03 artigos da PubMed, 07 artigos da EMBASE, 09 artigos da Scopus, 05 artigos da Web of Science, 01  artigos da LILACS, 05 artigos da LIVIVO, 100 publicações da Google Scholar e 01 publicação da PQDT Global. Foram identificados e removidos 10 arquivos duplicados a partir do EndNote, além de 05 arquivos duplicados identificados e removidos no Rayyan. Após a remoção das duplicadas, restaram 116 publicações para análise de título e resumo. Dentre as 116 publicações, apenas 13 foram escolhidas para leitura completa. Após a leitura completa e análise dos critérios de elegibilidade, foram escolhidos 06 estudos para compor a amostra do presente estudo.

Os estudos que foram incluídos foram publicados durante os anos de 2020 (1;16,6%), 2021 (1;16,6%), 2022 (1;16,6%), 2023 (1;16,6%) e 2024 (1;16,6%) e realizados nos seguintes países: Suécia (1;16,6%), Malásia (1;16,6%), Itália (1;16,6%), Polônia (1;16,6%), Brasil (1;16,6%) e Arábia Saudita (1;16,6%). No geral, os estudos convergiram no tocante ao período da pandemia, da quarentena e suas consequências para os estudantes da área da saúde, como a realização de aulas remotas e ao estresse imposto, não só por causa do ensino remoto, mas também relacionado a ele. 

É notório o quanto os estudantes da área da saúde possuem uma rotina estressante e ansiolítica devido a todas as responsabilidades advindas dos cursos. Nesse sentido, os artigos escolhidos relacionaram fatores psicossociais como o estresse, ansiedade, qualidade de vida e qualidade de sono, no aumento dos casos das disfunções temporomandibulares nos estudantes, assim como a piora nos indivíduos que já possuíam alguma disfunção.

No entanto, durante a realização das estratégias de busca, foi possível observar ainda pouca quantidade de literatura disponível que de fato incluísse e relacionasse a incidência da DTM com o ensino remoto, havendo mais literatura disponível que abordasse a pandemia e o isolamento social em si em relação às disfunções temporomandibulares. Os estudos incluídos na amostra foram lidos integralmente e seus resultados foram categorizados em dois tópicos, influência do estresse nos estudantes e influência da COVID-19, que são discutidos a seguir.

Quadro 1 – Dados dos artigos incluídos na amostra

Autor/Ano/País/DelineamentoObjetivoAmostraConclusão
Lövgren et al.; 2018; Suécia; TransversalAvaliar a prevalência e associação de fatores comportamentais e psicossociais em relação aos diagnósticos de CD/DTM157 estudantes de odontologia (54 alunos foram incluídos no estudo)A prevalência de qualquer diagnóstico de CD/DTM foi de 30%, tendo a mialgia como mais prevalente. Os fatores psicossociais avaliados não diferiram entre indivíduos com ou sem diagnóstico de DTM
Savarese et al.; 2020; Itália; TransversalAnalisar as dificuldades psicológicas e os problemas mentais relativos ao confinamento por Covid-19 de estudantes que solicitaram ajuda ao Centro de Aconselhamento Psicológico da Universidade de Salerno266 estudantes universitários (apenas 49 estavam em tratamento psicológico durante o bloqueio da Covid-19 no centro)Os principais resultados destacam elevados níveis de ansiedade e estresse, distúrbios de concentração e psicossomatização. Em vários casos houve reativação de traumas anteriores e o sono ficou qualitativamente comprometido
Srivastava et al.; 2021; Arábia Saudita; TransversalAvaliar a prevalência e possíveis fatores de risco de DTM entre estudantes de odontologia de diversos níveis acadêmicos e explorar a associação das DTM com parâmetros demográficos, acadêmicos e psicossociais246 estudantes de uma faculdade de odontologia da Arábia SauditaEstudantes de odontologia, especialmente em nível clínico, apresentam maior risco de desenvolver DTM, portanto estratégias como aconselhamento acadêmico e avaliação objetiva via rubricas devem ser planejadas para modificar a administração do currículo, métodos de treinamento e processo de avaliação
Saccomanno et al.; 2022; Polônia; TransversalMensurar a ocorrência de sintomas de DTM e bruxismo na população de estudantes de medicina, avaliar o nível de estresse e avaliar as estratégias de enfrentamento do estresse adotadas durante o surto pandêmico de COVID-191.018 estudantes da Universidade Médica de LodzSintomas de DTM e bruxismo foram observados na maioria dos sujeitos durante o isolamento social. Os níveis de estresse percebido foram significativamente maiores naqueles que apresentavam sintomas de DTM e bruxismo
Santos et al.; 2023; Brasil; TransversalAvaliar a prevalência de sintomas autorreferidos de DTM e ansiedade e verificar a qualidade do sono e de vida durante o período de ensino a distância em universitários da Universidade de Brasília (UnB)156 estudantes da Faculdade de Ciências da Saúde e da Faculdade de Medicina da UnBA implementação do ensino a distância nos cursos da saúde em substituição ao ensino presencial durante a pandemia da COVID-19 impactou a prevalência de DTM, ansiedade, qualidade de vida e qualidade do sono
Rosdy et al.; 2024; Malásia; TransversalDeterminar a prevalência de DTM em estudantes de odontologia na Universidade de Tecnologia MARA, e identificar os fatores de que podem contribuir para a DTM neles202 estudantes de odontologia (de 19 a 25 anos, do 1° ao último período)13.3% dos estudantes foram diagnosticados com DTM, com a maior prevalência em mulheres, mostrando que há uma associação entre DTM e estresse acadêmico

Fonte: Dados da pesquisa (2025).

Os artigos selecionados que tratam a respeito das disfunções temporomandibulares nos estudantes da área da saúde, em sua maioria, são originários de países desenvolvidos, mas também há dois estudos realizados em país subdesenvolvido. Isso demonstra que os países desenvolvidos são mais engajados em pesquisas nesse ramo, contudo, não significa que a ocorrência da DTM não aconteça nos demais países, e sim a ausência de investimentos na área de pesquisa. Identifica-se a necessidade de pesquisas sobre o tema, a fim de nortear medidas preventivas e alternativas de tratamento para os indivíduos que apresentam sintomas, os quais são fatores de risco para DTM, e para pessoas que já a possuem.

Na análise dos resultados, foram identificados diversos fatores que impulsionam a DTM, como o estresse acadêmico e os fatores psicossociais (a exemplo da ansiedade e da depressão). Além disso, o estresse e a tensão advindos do isolamento social, ocasionados pela pandemia de Covid-19, e suas consequências, como a substituição do ensino presencial pelo ensino remoto, também contribuíram para o desencadeamento de sintomas de risco para o desenvolvimento da DTM nos estudantes da área da saúde, em especial nos graduandos de Odontologia. 

A respeito da prevalência dos aspectos que mais contribuíram para o desenvolvimento e piora das disfunções temporomandibulares, é notório que o estresse acadêmico e os fatores psicossociais, em especial a ansiedade e a depressão, foram destaque para a maior incidência dos agentes de risco para a doença. Ademais, indivíduos do sexo feminino possuíram elevado índice em detrimento dos indivíduos do sexo masculino, no entanto, na pesquisa italiana, o sexo não foi um preditor significativo de agravamento das condições (Saccomanno et al., 2020).

Há uma concordância entre os autores no que se refere aos níveis de estresse e suas consequências nos estudantes da área de saúde, e alguns ressaltam que esses sintomas se intensificam pelo ensino a distância durante a pandemia de COVID-19, e isso impacta diretamente a prevalência de DTM nos alunos. Embora esses estudos informem tais fatores, percebe-se a necessidade de maior aprofundamento e definição, visto que nem todos os estudos tiveram como foco a correlação do ensino a distância e a ocorrência de DTM.

O estudo que mensurou a ocorrência de sintomas de DTM e bruxismo na população de estudantes de medicina e os níveis de estresse no enfrentamento da COVID-19 identificou que os sintomas acima mencionados podem ser resultado de alto foco nas tarefas mentais exigidas nas aulas online (Saccomanno et al., 2020). Esses resultados foram constatados na maioria dos participantes da pesquisa, contudo, deve-se ser cauteloso ao analisar os resultados mencionados, visto que o cenário da pesquisa foi pandêmico, então há necessidade de mais pesquisas pós-pandemia.

A dor por DTM é identificada por níveis através da Chronic Pain Grade Scale (CPGS) (Dixon; Pollard e Johnston, 2007) conforme estudo transversal da Suécia que identificou a mialgia como a mais prevalente entre os participantes, foi constatado que a maioria dos estudantes de odontologia possuíam os sintomas que são fatores de risco para o desenvolvimento de DTM, mas os fatores psicossociais avaliados não diferiram entre indivíduos com ou sem diagnóstico de DTM (Lövgren et al., 2018).

Ainda relacionada à dor, outra pesquisa também identificou que, entre as DTM, a mialgia foi a mais prevalente. No estudo realizado na Arábia Saudita, verificou-se que mulheres casadas e estudantes de nível superior acadêmico apresentam maior risco de adquirir a DTM, além disso, contrário ao estudo transversal da Suécia citado acima, este aponta fatores psicossociais como favoráveis ao desenvolvimento de DTM (Srivastava et al., 2021). Assim, percebe-se que o meio em que os estudantes estão inseridos interfere na forma que alguns fatores podem agir no indivíduo, visto que são países com realidades diferentes, porém ambos são desenvolvidos, sendo a Arábia Saudita um país mais recente, mas que está em constante crescimento.

5 CONCLUSÃO

Conclui-se que existe uma relação entre a educação a distância e seus desafios – como tempo excessivo de tela, ergonomia inadequada e alto nível de ansiedade – e o aumento de casos de DTM entre estudantes da saúde, em especial da área da Odontologia. Isso está de acordo com os problemas observados durante o período pandêmico, quando mudanças nas rotinas diárias e o aumento do estresse foram associados. 

Infere-se, a partir desses achados, a complexidade desse campo de pesquisa e a necessidade de perspectivas mais abrangentes e específicas. Por fim, os resultados desses estudos apontam a importância de uma abordagem multidisciplinar na compreensão e controle das DTM, destacando a necessidade de investimentos em pesquisa e intervenções preventivas para melhorar a qualidade de vida dos estudantes da área da saúde e indivíduos em geral afetados por essa condição.

Como limitação para o estudo, durante a realização da pesquisa, evidenciou-se a dificuldade em se obter publicações específicas sobre as disfunções na Articulação Temporomandibular em estudantes da saúde relacionado com a modalidade de ensino a distância, embora se perceba uma quantidade significativa de estudos na área sobre a DTM em geral, mas a correlação com o ensino online é escassa.

Como proposta para estudos futuros, tem-se o desenvolvimento de pesquisas com o intuito de aplicar e avaliar estratégias potenciais, como promoção do exercício físico regular e um maior apoio à saúde mental para os alunos que enfrentam os desafios do ensino a distância e seus impactos especificamente na DTM.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Curso Superior de Odontologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Campus I e-mail: marciohenrique2205@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Odontologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Campus I e-mail: alana.lima2@academico.ufpb.br
3Discente do Curso Superior de Odontologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Campus I e-mail: annenicacioo@gmail.com
4Mestra em Ciências Odontológicas pela Universidade Federal da Paraíba (UPFB) Campus I e-mail: eduardaonofre@gmail.com
5Mestra em Biblioteconomia Docente do Ensino Superior na área Metodologia do Trabalho Científico. e-mail: professoraluhlima@gmail.com.