POST-COVID DYSAUTONOMIA AND POSTURAL ORTHOSTATIC TACHYCARDIA SYNDROME (POTS): AN INTEGRATIVE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202602072111
Pedro Alexandre Leite de Almeida1, Felipe França Câmara2, Roberta Silva Conceição3, Carolina Gomes Pinto Mandarino4, Vitória Dantas Souza5, Maria Alice Silveira Couto6, Kauã de Oliveira Cesário7, Felipe Neves Souza8, Maria Eduarda Cruz de Cerqueira Rodrigues9
RESUMO
A disautonomia e a síndrome de taquicardia postural ortostática (POTS) emergiram como complicações prevalentes e debilitantes da condição pós-COVID-19. Esta pesquisa objetiva sintetizar as evidências atuais sobre os mecanismos fisiopatológicos, apresentações clínicas e estratégias de manejo da disautonomia e POTS pós-COVID. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com buscas nas bases de dados PubMed e Medline, abrangendo publicações dos últimos cinco anos (coleta em outubro de 2025). Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 9 estudos foram selecionados. Os resultados indicam que a disfunção do Sistema Nervoso Autônomo (SNA) pós-COVID é notavelmente prevalente, manifestando-se frequentemente como POTS, especialmente em mulheres jovens. A fisiopatologia é complexa, envolvendo um desequilíbrio autonômico fundamental — caracterizado por hiperatividade simpática e disfunção vagal (parassimpática) — e está fortemente associada a processos autoimunes, como a presença de autoanticorpos contra receptores acoplados à proteína G (GPCRs). O manejo atual foca-se no treinamento autonômico (exercício gradual), aumento da ingestão de fluidos e sódio, e fármacos sintomáticos como betabloqueadores e ivabradina. Terapias emergentes, como a estimulação vagal (LL-TS), demonstram potencial ao modular o equilíbrio autonômico, enquanto a oxigenoterapia hiperbárica (OHB) em 10 sessões não demonstrou eficácia superior ao placebo para a qualidade de vida geral. Conclui-se que a disautonomia pós-COVID é uma entidade clínica complexa que exige uma abordagem multidisciplinar, focada tanto no manejo sintomático quanto na investigação contínua dos mecanismos autoimunes subjacentes.
Palavras-chave: Disautonomia. Síndrome de Taquicardia Postural Ortostática. COVID-19. Condição Pós-COVID.
1 INTRODUÇÃO
O impacto global da pandemia de COVID-19, desencadeada pelo vírus SARS-CoV-2, estendeu-se de maneira significativa para além da fase aguda da infecção (WANG et al., 2025) . De fato, observa-se que uma proporção substancial de indivíduos que se recuperaram da doença inicial continua a apresentar uma gama variada de sintomas persistentes, configurando assim uma condição multifacetada que tem sido coletivamente denominada “COVID Longa” ou “condição pós-COVID-19” (KJELLBERG et al., 2025 ; SHOUMAN et al., 2021 ; NOITE STELLA et al., 2021 ). Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define esta condição como a continuação ou o desenvolvimento de novos sintomas que surgem três meses após a infecção inicial, os quais persistem por pelo menos dois meses, e para os quais não se encontra outra explicação diagnóstica plausível (KJELLBERG et al., 2025 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ).
Dentro do amplo espectro de manifestações neurológicas e sistêmicas relatadas nesse contexto pós-infeccioso, a disfunção do sistema nervoso autônomo (SNA), também conhecida como disautonomia, tem ganhado reconhecimento crescente na comunidade científica e clínica (SHOUMAN et al., 2021 ; BOSCO; TITANO, 2022). A disautonomia, por definição, refere-se a um funcionamento inadequado e desregulado dos sistemas nervosos simpático ou parassimpático (BOSCO; TITANO, 2022) e, consequentemente, pode manifestar-se clinicamente através de uma variedade de sintomas, incluindo intolerância ortostática (IO), pressão arterial lábil, fadiga acentuada e disfunção gastrointestinal (NOITE STELLA et al., 2021 ; BOSCO; TITANO, 2022).
De forma mais específica, a síndrome de taquicardia postural ortostática (POTS) tem sido frequentemente identificada como uma das principais e mais debilitantes formas de disautonomia que emergem após a infecção por COVID-19 (WANG et al., 2025 ; REIS CARNEIRO et al., 2023 ). A POTS caracteriza-se como uma condição clínica complexa, marcada fundamentalmente por um aumento sustentado e excessivo da frequência cardíaca ao assumir a posição ereta, sendo importante ressaltar que isso ocorre na ausência de hipotensão ortostática significativa. Ademais, essa taquicardia postural frequentemente vem acompanhada por um conjunto heterogêneo de sintomas multissistêmicos, que podem incluir “névoa mental”, palpitações incômodas, tontura limitante e uma fadiga extrema que impacta de forma substancial a qualidade de vida do indivíduo (WANG et al., 2025 ; BOSCO; TITANO, 2022; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023).
Embora a associação entre infecções virais prévias e o desenvolvimento subsequente de condições como POTS e síndrome da fadiga crônica já fosse um fenômeno reconhecido na literatura médica (BOSCO; TITANO, 2022), a escala sem precedentes da pandemia de COVID-19 trouxe essa complicação neurológica para o primeiro plano, demandando assim maior atenção e investigação. Atualmente, a compreensão detalhada dos mecanismos fisiopatológicos subjacentes à disautonomia pós-COVID permanece notavelmente escassa (KJELLBERG et al., 2025 ). As hipóteses propostas até o momento são variadas e, provavelmente, multifatoriais, incluindo disfunção endotelial persistente, estresse oxidativo crônico, a possibilidade de persistência viral em reservatórios teciduais específicos e, de forma crucial e cada vez mais evidente, processos complexos de desregulação imunológica e indução de autoimunidade (KJELLBERG et al., 2025 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ). Nesse âmbito particular da autoimunidade, pesquisas recentes têm sugerido um papel importante para o desequilíbrio de auto anticorpos direcionados contra receptores acoplados à proteína G (GPCRs), estruturas moleculares que são vitais para a regulação fisiológica normal da frequência cardíaca e do tônus vascular (MALKOVA; SHOENFELD, 2022 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ).
Apesar do crescente volume de relatos e estudos preliminares sobre o tema, constata-se que as opções de tratamento disponíveis para a POTS pós-COVID ainda são consideradas limitadas. Com efeito, frequentemente, o manejo clínico atual concentra-se predominantemente no alívio sintomático, apresentando, contudo, uma eficácia variável entre os diferentes pacientes (WANG et al., 2025 ). Além disso, é importante destacar que ainda não existem tratamentos farmacológicos específicos, baseados em evidências robustas de ensaios clínicos e amplamente adotados na prática, que visem diretamente a condição fisiopatológica subjacente (KJELLBERG et al., 2025 ; KJELLBERG et al., 2023 ). Verifica-se também que a literatura científica sobre disautonomia pós-COVID ainda se mostra relativamente fragmentada, sendo composta majoritariamente por relatos de casos individuais e séries curtas de pacientes, o que, por conseguinte, dificulta a generalização dos achados e a formulação de diretrizes clínicas consolidadas (REIS CARNEIRO et al., 2023 ). Portanto, diante desse panorama, evidencia-se uma necessidade premente de caracterizar de forma mais sistemática e abrangente os diversos fenótipos clínicos da disautonomia pós-COVID. Tal esforço é fundamental para otimizar as estratégias de manejo clínico individualizadas e, em última análise, melhorar os desfechos de saúde para os pacientes afetados por essa condição (SHOUMAN et al., 2021 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ).
Nesse sentido, e considerando as lacunas existentes, o presente estudo tem como objetivo central sintetizar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as evidências científicas atualmente disponíveis sobre as manifestações clínicas observadas, os mecanismos fisiopatológicos propostos e as abordagens terapêuticas existentes para a disautonomia e, mais especificamente, para a síndrome de taquicardia postural ortostática (POTS) no contexto da condição pós-COVID-19.
2 METODOLOGIA
Para a consecução dos objetivos propostos neste estudo, optou-se pela realização de uma revisão integrativa da literatura. Este método específico foi escolhido por sua capacidade de proporcionar não apenas a síntese do conhecimento científico existente sobre um determinado tema, mas também por permitir a incorporação da aplicabilidade prática de resultados provenientes de estudos significativos diretamente no cenário clínico (TAVARES DE SOUZA; DIAS DA SILVA; DE CARVALHO, 2010) . De fato, considera-se esta abordagem metodológica como a mais ampla dentro do espectro das revisões de literatura, justamente por sua flexibilidade em permitir a inclusão tanto de estudos com delineamento experimental quanto não-experimental. Essa característica viabiliza, assim, uma compreensão mais completa, profunda e holística do fenômeno complexo que está sendo analisado (TAVARES DE SOUZA; DIAS DA SILVA; DE CARVALHO, 2010) .
O desenvolvimento desta revisão seguiu rigorosamente as seis fases metodológicas preconizadas para este tipo de estudo: primeiramente, procedeu-se à elaboração cuidadosa da pergunta norteadora, que direcionou toda a investigação; em seguida, realizou-se a busca sistemática ou amostragem na literatura científica pertinente ao tema; posteriormente, efetuou-se a coleta organizada e padronizada dos dados relevantes dos estudos selecionados; logo após, conduziu-se uma análise crítica detalhada desses estudos incluídos na amostra; na sequência, promoveu-se uma discussão aprofundada e interpretativa dos resultados encontrados à luz do conhecimento existente; e, finalmente, elaborou-se a apresentação formal e clara da revisão integrativa, com suas conclusões e implicações (TAVARES DE SOUZA; DIAS DA SILVA; DE CARVALHO, 2010) .
A pergunta norteadora, reconhecida como a fase mais crucial de uma revisão integrativa, pois define o escopo e a direção da pesquisa (TAVARES DE SOUZA; DIAS DA SILVA; DE CARVALHO, 2010) , e que efetivamente guiou todo o processo deste estudo específico, foi formulada da seguinte maneira: “Quais são as principais manifestações clínicas, mecanismos fisiopatológicos e estratégias de manejo da disautonomia e da síndrome de taquicardia postural ortostática (POTS) em pacientes com condição pós-COVID-19?”.
A etapa subsequente de coleta de dados ocorreu especificamente durante o mês de outubro de 2025. Para tal, realizou-se uma busca bibliográfica abrangente e sistemática utilizando exclusivamente a base de dados eletrônica PubMed, dada a sua relevância e amplitude na área das ciências da saúde. Os descritores (termos de busca) utilizados nesta etapa, combinados criteriosamente com operadores booleanos (AND, OR) para refinar e otimizar os resultados da pesquisa, foram: (“Dysautonomia” OR “Postural Orthostatic Tachycardia Syndrome”) AND (“COVID-19” OR “Post-COVID-19 Condition”).
Paralelamente, foram estabelecidos critérios de inclusão claros e objetivos para a seleção dos artigos a serem considerados nesta revisão: foram incluídos apenas estudos publicados nos últimos 5 (cinco) anos, delimitando o período de janeiro de 2020 a outubro de 2025; exigiu-se que os artigos estiverem redigidos nos idiomas inglês ou português; e, de maneira fundamental, estabeleceu-se como critério indispensável que os estudos estivessem disponíveis gratuitamente na íntegra. Em total conformidade com o escopo abrangente e flexível da revisão integrativa, foram considerados para inclusão diversos tipos de delineamentos de estudo, nomeadamente: estudos experimentais (como ensaios clínicos randomizados), estudos não-experimentais (como estudos de coorte ou caso-controle), estudos observacionais, relatos de caso individuais ou séries de casos, e até mesmo outras revisões (embora o foco tenha sido em estudos primários). Por outro lado, para garantir o foco temático e a qualidade metodológica da amostra final, foram aplicados critérios de exclusão específicos: foram excluídos livros e capítulos de livros, editoriais ou cartas ao editor, documentos não submetidos à revisão por pares (como diretrizes de consenso ou relatórios técnicos) e, crucialmente, estudos cujo acesso ao texto completo não estivesse disponível gratuitamente.
A busca inicial na base de dados PubMed, utilizando a estratégia definida, retornou um total de 12 estudos potencialmente relevantes. Em seguida, após a aplicação rigorosa dos critérios de exclusão mencionados (principalmente a exclusão de livros, documentos diversos e artigos sem acesso integral), chegou-se a uma amostra final de 9 estudos que foram efetivamente selecionados para compor o corpus desta revisão integrativa. Os dados considerados relevantes de cada um desses 9 estudos foram então extraídos de forma sistemática, utilizando um instrumento previamente elaborado para garantir a padronização e a consistência da coleta (conforme recomendado por TAVARES DE SOUZA; DIAS DA SILVA; DE CARVALHO, 2010) . Subsequentemente, esses dados extraídos foram analisados de forma predominantemente descritiva. Essa abordagem analítica possibilitou a síntese organizada do conhecimento produzido sobre o tema explorado, permitindo, assim, responder de forma fundamentada à pergunta norteadora estabelecida inicialmente. É importante ressaltar que, ao longo de todo o processo de elaboração desta revisão, todos os artigos nacionais e internacionais utilizados foram devidamente referenciados, assegurando o pleno respeito aos direitos autorais conforme a legislação vigente.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A análise detalhada e comparativa dos 9 estudos selecionados para esta revisão integrativa revela, de forma consistente e robusta, que a disfunção do Sistema Nervoso Autônomo (SNA) se configura como uma complicação notavelmente prevalente e, frequentemente, multifacetada no contexto da condição pós-COVID-19 (BUOITE STELLA et al., 2021 ; SHOUMAN et al., 2021 ). Um ponto de destaque é a observação de que as manifestações clínicas decorrentes dessa disfunção autonômica são marcadamente heterogêneas entre os pacientes afetados. Ademais, constata-se que os mecanismos fisiopatológicos subjacentes a essa condição se mostram particularmente complexos, envolvendo, de maneira predominante e interligada, processos de desregulação do sistema autoimune. Consequentemente, e talvez como reflexo dessa complexidade, as estratégias de manejo clínico atualmente disponíveis para a disautonomia pós-COVID ainda se encontram em uma fase de contínua evolução e refinamento.
Verificou-se, através dos estudos analisados, que a apresentação clínica mais comum da disautonomia no cenário pós-COVID é a intolerância ortostática (IO) (SHOUMAN et al., 2021 ). Nesse sentido, um estudo de coorte prospectivo, por exemplo, relatou um achado expressivo: 63% dos pacientes que apresentavam sintomas sugestivos de disfunção autonômica após terem contraído COVID-19 exibiram anormalidades objetivas e quantificáveis em testes formais e padronizados de avaliação da função autonômica (SHOUMAN et al., 2021 ). Contudo, é crucial ressaltar uma observação paradoxal: muitos pacientes que relatam sintomas ortostáticos clinicamente significativos podem, surpreendentemente, apresentar resultados normais em testes de inclinação (tilt tests), um exame frequentemente utilizado para investigar síncope e IO. Tal discrepância sugere fortemente que outros fatores contribuintes, para além da disfunção autonômica primária, também desempenham um papel significativo na gênese e na manutenção da sintomatologia observada. Entre esses fatores, destacam-se o descondicionamento físico, frequentemente resultante do período prolongado de doença e recuperação; a hipovolemia residual, que pode comprometer a estabilidade hemodinâmica; a presença de componentes de ansiedade, que podem mimetizar ou exacerbar sintomas autonômicos; e a possível instalação de estados hiper adrenérgicos persistentes (SHOUMAN et al., 2021 ).
Nesse contexto de variabilidade clínica, Reis Carneiro et al. (2023) propuseram, com base em uma revisão sistemática, a identificação de dois padrões distintos de envolvimento autonômico cardiovascular associados à infecção por SARS-CoV-2. O primeiro padrão seria classificado como agudo, ocorrendo durante a fase inicial da infecção (primeiras semanas). Este padrão frequentemente se manifesta clinicamente como síncope reflexa (vasovagal) e parece acometer preferencialmente pacientes mais idosos e aqueles com comorbidades cardiovasculares ou metabólicas preexistentes. O segundo padrão identificado seria o pós-COVID, caracterizado pelo surgimento dos sintomas autonômicos mais de 4 semanas após a resolução da infecção aguda. Este padrão tardio é predominantemente marcado pela síndrome de taquicardia postural ortostática (POTS) e demonstra uma predileção por afetar mais comumente mulheres jovens. Além disso, este fenótipo pós-COVID parece estar associado a uma recuperação clínica mais lenta e, em muitos casos, apenas parcial (REIS CARNEIRO et al., 2023 ). A POTS, em si, pode apresentar-se com um espectro de gravidade variável, desde casos leves até formas severas e extremamente debilitantes, conforme vividamente ilustrado em diversos relatos de caso publicados na literatura recente (BOSCO; TITANO, 2022). É igualmente importante notar que, para além da intolerância ortostática e da POTS, outros domínios da função autonômica são frequentemente afetados em pacientes pós-COVID, incluindo as funções secretomotoras (levando a sintomas como olhos secos e boca seca), gastrointestinais (como dismotilidade), urinárias (disfunção vesical) e até mesmo pupilo motoras (alterações na reatividade pupilar) (NOITE STELLA et al., 2021 ).
Do ponto de vista fisiopatológico, o mecanismo central que parece estar implicado na gênese da POTS está intrinsecamente ligado a um desequilíbrio autonômico fundamental. Este desequilíbrio, de forma simplificada, caracteriza-se por uma diminuição relativa ou absoluta da atividade parassimpática (vagal), que normalmente promove a bradicardia e o relaxamento vascular, e um aumento concomitante e desproporcional da atividade simpática, responsável pela taquicardia e vasoconstrição (WANG et al., 2025 ). De fato, estudos que utilizaram a análise da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) demonstram que pacientes com POTS exibem uma redução significativa na potência do componente de alta frequência (HF-VFC), um marcador estabelecido da modulação vagal cardíaca, e, simultaneamente, um aumento na potência do componente de baixa frequência (LF-VFC) e na razão LF/HF, ambos associados à modulação simpática e ao balanço simpatovagal, especialmente quando submetidos ao estresse ortostático (como levantar-se) (WANG et al., 2025 ). Diante dessa constatação, a questão central que emerge para a pesquisa científica é investigar por que esse desequilíbrio autonômico específico, com predomínio simpático, ocorre de forma tão proeminente após a infecção por COVID-19.
Atualmente, a hipótese mais robusta e consistentemente apoiada pelas evidências disponíveis aponta para um processo fisiopatológico predominantemente imunomediado e autoimune (REIS CARNEIRO et al., 2023 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ). Diversos fatores convergem para corroborar essa teoria. Primeiramente, destaca-se a clara associação temporal observada entre a ocorrência da infecção viral por SARS-CoV-2 e o surgimento subsequente dos sintomas disautonômicos. Em segundo lugar, verifica-se uma prevalência aumentada de distúrbios autoimunes preexistentes (como, por exemplo, tireoidite de Hashimoto ou doença celíaca) em pacientes que vêm a desenvolver POTS no período pós-COVID, sugerindo uma possível predisposição imunológica (REIS CARNEIRO et al., 2023 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ). De maneira mais específica, a pesquisa científica tem se concentrado na identificação e caracterização de autoanticorpos funcionalmente ativos, ou seja, anticorpos que não apenas se ligam, mas também alteram a função de seus alvos. Nesse contexto, um foco particular tem sido dado aos auto anticorpos direcionados contra receptores acoplados à proteína G (GPCRs). Esses receptores, que incluem subtipos adrenérgicos (alfa e beta) e muscarínicos (M1 a M5), desempenham papéis absolutamente cruciais na regulação fisiológica da função cardiovascular, controlando a frequência cardíaca, a contratilidade miocárdica e o tônus vascular. Portanto, a disfunção desses receptores, mediada por anticorpos, poderia explicar muitas das manifestações clínicas características da POSTS (MALKOVA; SHOENFELD, 2022 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ). Adicionalmente à hipótese autoimune, postula-se que a inflamação crônica de baixo grau, potencialmente impulsionada pela persistência de componentes virais (RNA ou proteínas) do SARS-CoV-2 em reservatórios teciduais específicos (como o tecido intestinal, por exemplo), também possa desempenhar um papel relevante. Acredita-se que essa inflamação persistente possa modular diretamente a atividade dos arcos reflexos autonômicos e, assim, contribuir para a disfunção observada (REIS CARNEIRO et al., 2023 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ; NOITE STELLA et al., 2021 ).
No que tange ao manejo terapêutico da disautonomia e POTS pós-COVID, observa-se, com base nos estudos analisados, que a maioria dos pacientes apresenta alguma melhora clínica ao longo do tempo, embora frequentemente essa melhoria ocorra de forma lenta e gradual, sendo alcançada principalmente com a adoção de abordagens focadas em modificações do estilo de vida (BOSCO; TITANO, 2022). Com efeito, as estratégias não farmacológicas constituem, atualmente, a base fundamental da primeira linha de tratamento para essa condição. Tais estratégias incluem, de maneira proeminente: o aumento substancial da ingestão diária de fluidos (geralmente recomendado-se de 2 a 3 litros por dia) e de sódio (visando uma meta de 8 a 10 gramas por dia), com o objetivo primordial de otimizar o volume intravascular e atenuar a hipovolemia relativa; o uso regular de vestimentas de compressão, como meias elásticas ou cintas abdominais, que abranjam preferencialmente o abdômen e os membros inferiores, a fim de auxiliar mecanicamente o retorno venoso contra a gravidade; e, de forma crucial, a implementação cuidadosa e progressiva de programas de exercícios físicos graduais (protocolos específicos como o de Levine ou o CHOPP são frequentemente citados na literatura como exemplos). Esses programas de reabilitação física têm como objetivo principal promover o retreinamento do sistema nervoso autônomo, melhorando sua capacidade de adaptação às mudanças posturais, e, simultaneamente, combater o descondicionamento físico que frequentemente acompanha a condição (BOSCO; TITANO, 2022; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ).
Contudo, quando as medidas não farmacológicas implementadas de forma otimizada se mostram insuficientes para controlar adequadamente os sintomas incapacitantes, o tratamento sintomático farmacológico é então considerado e instituído. Dentre as opções medicamentosas mais comumente utilizadas na prática clínica para o manejo da POSTS, destacam-se: os betabloqueadores, geralmente administrados em baixas doses (como o propranolol, por exemplo), com o objetivo principal de controlar a taquicardia sinusal excessiva que define a síndrome; a ivabradina, um fármaco mais recente que atua como inibidor específico da corrente Iƒ no nó sinusal, promovendo uma redução seletiva da frequência cardíaca sem impactar significativamente a pressão arterial ou a contratilidade miocárdica; e, em casos selecionados e com monitoramento adequado, a fludrocortisona, um mineralocorticóide sintético que promove a retenção de sódio e água, auxiliando na expansão do volume plasmático, ou a midodrina, um agente vasoconstritor alfa-1-adrenérgico que atua aumentando a resistência vascular periférica e, consequentemente, a pressão arterial (BOSCO; TITANO, 2022; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ).
Paralelamente ao arsenal terapêutico já estabelecido, novas abordagens terapêuticas estão sendo ativamente investigadas, buscando oferecer alternativas mais eficazes ou com menos efeitos colaterais. Nesse contexto, a Estimulação do Trago de Baixo Nível (LL-TS), que representa uma forma não invasiva de neuromodulação do nervo vago através de estimulação elétrica aplicada na orelha externa, demonstrou resultados promissores em um estudo preliminar. Essa técnica inovadora mostrou capacidade de reduzir a resposta exagerada da frequência cardíaca ao desafio ortostático (levantar-se) e de contribuir para o reequilíbrio da atividade autonômica em pacientes com POTS pós-COVID (WANG et al., 2025 ). De maneira mais específica, os achados desse estudo sugerem que a LL-TS pode atuar aumentando a atividade parassimpática (o que foi refletido no aumento do componente HF da VFC) e, simultaneamente, diminuindo a hiperatividade simpática (indicada pela redução do componente LF da VFC e também pela diminuição dos níveis plasmáticos de Neuropeptídeo Y, um conhecido marcador bioquímico da atividade nervosa simpática) (WANG et al., 2025 ).
Por outro lado, uma intervenção diferente, a Oxigenoterapia Hiperbárica (OHB), foi avaliada em um ensaio clínico randomizado, controlado por placebo, denominado HOT-LOCO, utilizando um protocolo relativamente curto, de 10 sessões. Os resultados desse estudo, no entanto, não conseguiram demonstrar diferença estatisticamente significativa entre o grupo que recebeu a OHB e o grupo que recebeu tratamento simulado (placebo) nos desfechos primários avaliados, que estavam relacionados à qualidade de vida, medidos pela escala RAND-36 (KJELLBERG et al., 2025 ). Os autores deste ensaio clínico levantam a hipótese de que a ausência de um efeito terapêutico detectado pode ser atribuída, potencialmente, a um tamanho de amostra insuficiente para alcançar poder estatístico adequado ou, de forma mais provável, a uma dose e frequência de tratamento que podem ter sido insuficientes (considerando que apenas 10 sessões foram administradas, em comparação com protocolos que utilizam de 40 a 60 sessões em outros contextos clínicos) (KJELLBERG et al., 2025 ). Um achado adicional notável e relevante desse estudo foi a alta incidência de eventos adversos (EAs) que foi relatada em ambos os grupos experimentais (tanto no grupo OHB quanto no grupo placebo). Essa observação levanta a possibilidade de que a própria fragilidade clínica inerente aos pacientes com condição pós-COVID-19 (COVID Longa) e o esforço físico e logístico exigido para participar do protocolo do estudo (deslocamentos, permanência na câmara hiperbárica, etc.) podem representar, por si sós, um fardo significativo e contribuir para a ocorrência de eventos adversos, independentemente da intervenção ativa (KJELLBERG et al., 2023 ; KJELLBERG et al., 2025 ).
Finalmente, ao concluir a análise dos dados disponíveis, é importante reconhecer que lacunas significativas no conhecimento sobre a disautonomia pós-COVID ainda persistem e precisam ser abordadas em futuras pesquisas. Observa-se que muitos dos estudos publicados até o momento são limitados do ponto de vista metodológico. Alguns apresentam pequenos tamanhos de amostra, o que restringe o poder estatístico das análises e a capacidade de detectar efeitos sutis, porém clinicamente relevantes (WANG et al., 2025 ). Outros utilizam desenhos retrospectivos, os quais são inerentemente mais suscetíveis a vieses de seleção, informação e confusão (SHOUMAN et al., 2021 ). Diante dessas limitações, verifica-se uma necessidade urgente e inadiável de planejar e conduzir ensaios clínicos robustos, preferencialmente prospectivos, randomizados e controlados, que sejam especificamente desenhados para testar a eficácia de tratamentos direcionados aos mecanismos fisiopatológicos subjacentes, particularmente os autoimunes e inflamatórios, em vez de focar exclusivamente no alívio sintomático (ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ). Além dessas questões terapêuticas, outro desafio reside na considerável heterogeneidade observada nos métodos diagnósticos empregados nos diferentes estudos. Frequentemente, o diagnóstico de disautonomia ou POTS baseia-se em medições hemodinâmicas simples realizadas à beira do leito (como o teste ortostático ativo), em detrimento da utilização de testes autonômicos mais abrangentes, padronizados e realizados em laboratórios especializados. Essa falta de padronização diagnóstica dificulta sobremaneira a caracterização precisa dos diversos fenótipos clínicos da disautonomia pós-COVID e, por conseguinte, a comparação fidedigna dos resultados entre os diferentes estudos (REIS CARNEIRO et al., 2023 ; NOITE STELLA et al., 2021 ).
4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo, conduzido por meio de uma revisão integrativa da literatura, teve como propósito central sintetizar e analisar as evidências científicas atuais sobre a disautonomia e, mais especificamente, a síndrome de taquicardia postural ortostática (POTS), como sequelas relevantes e impactantes da infecção por COVID-19. Com base na análise criteriosa da literatura selecionada, foi possível constatar, de forma consistente, que a disautonomia no cenário pós-COVID se manifesta como uma complicação clínica prevalente e, em muitos casos, significativamente debilitante para os indivíduos afetados. Ademais, os dados epidemiológicos disponíveis sugerem uma associação comum desta condição com mulheres mais jovens, particularmente durante a fase pós-aguda da doença (REIS CARNEIRO et al., 2023 ; NOITE STELLA et al., 2021 ).
No que concerne à fisiopatologia subjacente, embora reconheça-se que ainda não está completamente elucidada, as evidências atuais apontam fortemente para a existência de um desequilíbrio fundamental na regulação do SNA. Este desequilíbrio parece ser caracterizado, primordialmente, por uma hiperatividade do sistema nervoso simpático, que pode estar associada a uma disfunção ou retirada da modulação exercida pelo sistema nervoso vagal (parassimpático) (WANG et al., 2025 ). Existe um corpo crescente de evidências que sugere que esse estado disautonômico seja provavelmente desencadeado e/ou perpetuado por mecanismos de natureza autoimune, como, por exemplo, a produção de autoanticorpos direcionados contra receptores autonômicos cruciais (como os GPCRs), e também pela presença de um estado de inflamação persistente de baixo grau no organismo (MALKOVA; SHOENFELD, 2022 ; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ).
Quanto ao manejo clínico desta condição, verifica-se que as abordagens terapêuticas atuais são, em grande parte, focadas no alívio dos sintomas apresentados pelo paciente e no processo de retreinamento gradual do sistema nervoso autônomo, visando melhorar sua capacidade adaptativa. Tais objetivos são alcançados, principalmente, por meio da implementação de medidas não farmacológicas, que incluem a otimização da hidratação corporal, o aumento da ingestão de sal na dieta (sob orientação médica) e a adesão a programas de exercícios físicos adaptados e progressivos. Quando estas medidas se mostram insuficientes, recorre-se, então, ao uso criterioso de fármacos sintomáticos, como os betabloqueadores ou a ivabradina, primariamente para o controle da frequência cardíaca excessiva (BOSCO; TITANO, 2022; ARTUR FEDEROWSKI et al., 2023 ). Nesse ínterim, é promissor notar que terapias emergentes, como a estimulação não invasiva do nervo vago, começam a mostrar um potencial terapêutico interessante (WANG et al., 2025 ). Por outro lado, é importante mencionar que outras intervenções investigadas, como a oxigenoterapia hiperbárica (OHB) em protocolos de baixas doses, não demonstraram, até o presente momento, uma eficácia significativa que justifique sua recomendação rotineira (KJELLBERG et al., 2025 ).
Diante do exposto, pode-se afirmar que os objetivos estabelecidos no início deste estudo foram, em grande medida, alcançados, uma vez que se logrou oferecer uma perspectiva integrada e atualizada sobre o complexo tema da disautonomia pós-COVID. Contudo, é inegável e fundamental reconhecer que desafios significativos ainda permanecem e necessitam ser enfrentados pela comunidade científica e clínica. Dentre esses desafios, destacam-se, principalmente, a necessidade premente de elucidar com maior profundidade e precisão os mecanismos autoimunes exatos que estão envolvidos na gênese e perpetuação da condição. Igualmente crucial é a urgência no desenvolvimento e na condução de ensaios clínicos robustos, bem desenhados e com poder estatístico adequado, que tenham como foco a avaliação de tratamentos capazes de modificar o curso natural da doença (disease-modifying therapies), indo além do mero alívio sintomático oferecido pelas abordagens atuais.
REFERÊNCIAS
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BOSCO, J.; TITANO, R. Severe Post-COVID-19 dysautonomia: a case report. BMC Infectious Diseases, v. 22, n. 1, 3 mar. 2022.
BUOITE STELLA, A. et al. Autonomic dysfunction in post-COVID patients with and without neurological symptoms: a prospective multidomain observational study. Journal of Neurology, 12 ago. 2021.
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1Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail: pedroalexandre1604@gmail.com orcid: https://orcid.org/0009-0001-3025-5077
2Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail: felipefcamara09@gmail.com orcid: https://orcid.org/0009-0000-4429-685X
3Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail: silva.robertaconceicao@gmail.com orcid: https://orcid.org/0009-0009-5463-9970
4Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail: carolinagomespmmm@gmail.com orcid: https://orcid.org/0009-0004-7867-1055
5Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail: vitoria.dantas05@souunit.com.br orcid: https://orcid.org/0009-0004-2609-1913
6Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail: maria.asilveira@souunit.com.br orcid: https://orcid.org/0009-0006-6429-939X
7Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia email: kauac27@gmail.com orcid: https://orcid.org/0009-0009-0100-455X
8Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia email: felipenevessouza997@gmail.com orcid: https://orcid.org/0009-0004-8934-1991
9Discente do Curso Superior de Medicina da Universidade Tiradentes Campus Farolândia e-mail: dudaccrodrigues@gmail.com orcid: https://orcid.org/0009-0005-8688-7099
