DIRECIONAMENTOS PARA A PERFORMANCE DA FANTASIA BRILHANTE DE CARMEN DE FRANÇOIS BORNE PARA FLAUTA TRANSVERSAL: OS HARMÔNICOS COMO RECURSO FACILITADOR A PARTIR DA LITERATURA E DA MINHA EXPERIÊNCIA COMO FLAUTISTA

GUIDELINES FOR THE PERFORMANCE OF FRANÇOIS BORNE’S FANTAISIE BRILLANTE SUR CARMEN FOR FLUTE: HARMONICS AS A FACILITATING RESOURCE BASED ON LITERATURE AND MY EXPERIENCE AS A FLUTIST

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202508141251


José Roberto Silva1


Resumo

Este artigo apresenta sugestões interpretativas e técnicas para a performance da Fantasia Brilhante de Carmen, de François Borne, com foco na utilização dos harmônicos como recurso facilitador para a obtenção de uma sonoridade mais rica, flexível e para o aprimoramento da agilidade técnica na flauta transversal. A proposta parte de uma análise detalhada da obra, considerando suas exigências técnicas e expressivas, e se apoia também na revisão de literatura especializada sobre o uso de harmônicos na pedagogia e performance da flauta. Além disso, são consideradas reflexões advindas da experiência prática do autor como flautista, com base em apresentações públicas e no estudo contínuo da peça ao longo do tempo. Os harmônicos são abordados não apenas como ferramenta técnica, mas também como elemento que pode ampliar as possibilidades expressivas do intérprete. A pesquisa visa, assim, contribuir para o desenvolvimento do repertório técnico e interpretativo de estudantes, professores e profissionais da flauta transversal.

Palavras-chave: François Borne, Fantasia Brilhante de Carmen, flauta transversal, harmônicos, performance.

Abstract

This article presents interpretive and technical suggestions for the performance of Fantaisie Brillante sur Carmen by François Borne, with a focus on the use of harmonics as a facilitating resource for achieving a richer and more flexible tone, as well as enhancing technical agility on the flute. The approach is based on a detailed analysis of the piece, considering its technical and expressive demands, and supported by a review of specialized literature on the use of harmonics in flute pedagogy and performance. In addition, the author incorporates reflections drawn from personal experience as a flutist, grounded in public performances and continuous study of the work over time. Harmonics are addressed not only as a technical tool but also as a means of expanding the performer’s expressive possibilities. This research aims to contribute to the technical and interpretive development of the repertoire for students, teachers, and professional flutists.

Keywords: François Borne, Fantaisie Brillante sur Carmen, flute, harmonics, performance.

Introdução

A Fantasia Brilhante de Carmen, baseada na famosa ópera de Georges Bizet e adaptada para flauta por François Borne, consolidou-se como uma das obras mais emblemáticas e desafiadoras do repertório flautístico. Combinando virtuosismo técnico e expressividade musical, a peça é frequentemente utilizada tanto em recitais quanto em concursos e exames de performance, sendo considerada um marco na formação de flautistas avançados. 

Composta no final do século XIX, a Fantasia não apenas reflete o espírito romântico da época, mas também exige do intérprete domínio técnico elevado, especialmente em passagens rápidas, articulações precisas e controle de registro. Nesse contexto, os harmônicos surgem como uma ferramenta eficaz de desenvolvimento técnico, contribuindo para a afinação, flexibilidade de embocadura e controle do som em diferentes tessituras. 

O objetivo deste artigo é propor estratégias de performance para a Fantasia Brilhante de Carmen, com ênfase no uso dos harmônicos como recurso técnico-pedagógico. A proposta baseia-se em uma revisão bibliográfica sobre o tema e na experiência prática do autor enquanto intérprete e estudante da obra.

Breve biografia de François Borne

Segundo Ardal Powell, em sua obra The Flute (Yale University Press, 2002), François Borne (1840–1920) foi um flautista, compositor e pedagogo francês, amplamente conhecido por sua contribuição ao repertório flautístico. Nascido em Toulouse, Borne demonstrou grande aptidão para a música desde a infância e, eventualmente, se formou no Conservatório de Paris, onde se destacou. Ele teve uma carreira de sucesso como flautista na Orquestra da Ópera de Paris e como professor de flauta. Além disso, Borne teve um importante papel na expansão do repertório para flauta solo, compondo diversas obras, como a Fantasia Brilhante de Carmen, que se tornou uma das peças mais populares para flauta. 

A relação da peça com a ópera Carmen de Georges Bizet

A Fantasia Brilhante de Carmen, de François Borne, foi composta por volta de 1880, sendo uma transcrição e adaptação virtuosística de temas da célebre ópera Carmen, de Georges Bizet. Ainda segundo Ardal Powell (2002), essa obra de Borne não apenas expande o repertório flautístico, mas também demonstra sua habilidade em transformar material operístico em uma peça de concerto envolvente e tecnicamente desafiadora. 

A Fantasia de Borne é uma obra que demonstra a habilidade do flautista ao transcrever os principais temas da ópera de Bizet para o instrumento. Ela se destaca pela sua expressividade e pela riqueza de recursos técnicos, trazendo à flauta as melodias dramáticas e emocionais de Carmen. A peça é uma forma de homenagem à popularidade de Carmen, ao mesmo tempo que expõe a versatilidade e virtuosismo da flauta, ao integrar de maneira criativa os temas originais da ópera de Bizet. 

Estrutura musical da fantasia (temas, variações, modulações, clímax e conclusão) 

A Fantasia Brilhante de Carmen segue uma estrutura baseada em variações e modulações sobre os principais temas da ópera Carmen, de Georges Bizet. Ardal Powell (2002), em sua obra The Flute, aponta que Borne demonstra na Fantasia Brilhante um domínio notável da escrita para flauta, combinando lirismo com passagens de extremo virtuosismo técnico, o que a tornou uma peça-chave no repertório do instrumento. A peça é dividida em várias seções, sendo que cada uma delas explora diferentes aspectos da melodia e da harmonia da ópera. 

Abertura e tema principal: A fantasia começa com a exposição do famoso tema de abertura de Carmen, o qual é imediatamente reconhecível. Como aponta Trevor Wye em The Flute (Omnibus Press, 1990), essa introdução é um momento de afirmação da personalidade musical do intérprete, exigindo controle de timbre e flexibilidade de fraseado. 

Variações e desenvolvimento: A peça se move através de várias variações sobre esse tema, com a música sendo transformada tanto em caráter quanto em harmonia. Borne utiliza modulações para transitar entre diferentes tonalidades, criando uma sensação de progressão e aumento de complexidade. Cada variação exige um controle técnico notável, desde passagens rápidas e ornamentadas até momentos mais líricos e expressivos. De acordo com Edward Blakeman, em Taffanel: Genius of the Flute (Oxford University Press, 2005), esse tipo de escrita revela a influência da escola francesa de flauta do século XIX, que prezava tanto a beleza do som quanto a exibição da técnica refinada do instrumentista. 

Modulações: Ao longo da fantasia, as modulações são usadas para explorar diferentes aspectos emocionais dos temas de Bizet. A flauta viaja por várias tonalidades, aumentando a dramaticidade da peça. Essas modulações, além de acrescentarem complexidade harmônica, também desafiam o flautista a se adaptar a novas sonoridades e estados de tensão e resolução. Segundo Philippe Bernold, em entrevista ao periódico La Traversière (2011), obras como a de Borne são verdadeiros laboratórios para a expressividade e adaptabilidade tonal da flauta. 

Clímax e conclusão: A peça culmina com uma seção vibrante que intensifica a energia dos temas, com o flautista exibindo grande virtuosismo, encerrando a fantasia de forma grandiosa. Como ressalta Ardal Powell (2002), o final da obra sintetiza a proposta da fantasia romântica: recriar com liberdade artística uma narrativa musical já conhecida, ampliando sua expressividade através do instrumento solista. 

Desafios técnicos comuns enfrentados por flautistas

A Fantasia Brilhante de Carmen de François Borne é uma peça repleta de desafios técnicos para o flautista, alguns dos quais são comuns em obras de grande virtuosismo. Entre esses desafios, destacam-se: 

Controle da embocadura: A peça exige um controle refinado da embocadura, especialmente em passagens rápidas e ornamentadas. A precisão nas notas agudas e na execução destas é essencial para manter a clareza sonora, especialmente considerando a riqueza de detalhes na ornamentação. 

Agilidade: A agilidade da mão direita (na execução de notas rápidas e sucessivas) e da mão esquerda (especialmente ao tocar em regiões agudas do instrumento) é crucial. Passagens rápidas de arpejos e escalas demandam uma coordenação precisa entre as mãos. 

Entonação nas regiões agudas: A flauta possui uma sonoridade mais difícil de controlar nas regiões mais agudas do instrumento. A peça exige que o flautista execute passagens nessas áreas com precisão, o que pode ser desafiador devido à tendência dessas notas em desafinar com mais facilidade. 

Respiração e articulação: Manter uma boa respiração durante as passagens mais exigentes e articular de forma clara e precisa é um desafio técnico importante. As longas frases exigem controle da respiração sem perder a fluidez musical.

Esses são alguns dos desafios enfrentados por flautistas ao executar a Fantasia Brilhante de Carmen de François Borne para Flauta transversal, fazendo da peça uma verdadeira prova de virtuosismo e habilidade técnica. 

Harmônicos na flauta – definição, fundamentos e aplicações pedagógicas 

Os harmônicos na flauta são sons que fazem parte da série harmônica natural produzida a partir de uma única nota fundamental. Em termos acústicos, os harmônicos surgem quando o flautista mantém a mesma digitação (dedilhado) da nota fundamental, mas altera a embocadura, a direção e a velocidade do ar para excitar frequências múltiplas dessa nota, gerando sons mais agudos. Como explica Trevor Wye em Practice Book for the Flute – Volume 4: Intonation and Vibrato (Novello, 1990), os harmônicos são essenciais para o desenvolvimento do controle de embocadura e da afinação, ajudando o flautista a entender melhor a ressonância do instrumento. 

Além disso, segundo Nancy Toff em The Flute Book: A Complete Guide for Students and Performers (Oxford University Press, 2012), o uso de harmônicos é uma ferramenta pedagógica fundamental, pois permite que o flautista aperfeiçoe a projeção, a flexibilidade do som e a coordenação entre respiração e suporte do ar — habilidades cruciais para a execução em registros mais agudos. 

Na flauta transversal, os harmônicos ocorrem pela ressonância de colunas de ar em comprimentos fracionados. Por exemplo, ao tocar a nota dó3 com sua digitação fundamental, o flautista pode, através de ajustes precisos na embocadura, obter o dó4 (C4), sol4 (G4), dó5 (C5), mi5 (E5), e assim por diante — todos pertencentes à série harmônica do dó3. 

Esse fenômeno é essencial para o entendimento do timbre, afinação e técnica de som da flauta, pois cada harmônico possui características únicas de intensidade e coloração sonora. Estudar os harmônicos ajuda o flautista a desenvolver consciência acústica e controle preciso da produção sonora.

Autores e pedagogos que abordam o tema

Vários pedagogos da flauta transversal reconheceram a importância dos harmônicos no desenvolvimento técnico e musical do instrumentista. Entre os principais nomes estão:

O flautista e pedagogo Ary Ferreira, reconhecido como o primeiro brasileiro a dedicar uma tese exclusivamente ao estudo dos harmônicos na flauta transversal. Essa contribuição, originalmente apresentada em 1944, foi resgatada e analisada em profundidade na dissertação de mestrado do flautista Alef Caetano, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2020. No trabalho, intitulado Harmônicos na flauta transversal: resgate e análise do método de Ary Ferreira, Caetano ressalta que Ferreira não apenas compreendia os harmônicos como fundamento acústico do instrumento, mas também estruturou um método pedagógico progressivo que valorizava a construção técnica e sonora do flautista (CAETANO, 2020). Os exercícios elaborados por Ferreira visavam desenvolver a embocadura, a afinação, a projeção e o domínio dos registros por meio do controle refinado da série harmônica. 

Além do viés técnico, Ary Ferreira atribuiu valor artístico e expressivo aos harmônicos. Segundo Caetano (2020), o autor defendia que os harmônicos podiam ser aplicados musicalmente, servindo como recurso de enriquecimento tímbrico e facilitador de passagens difíceis, sobretudo nas regiões agudas. A obra de Ferreira sistematizou os estudos em níveis de dificuldade, o que contribuiu para tornar o tema acessível tanto a iniciantes quanto a flautistas avançados. A dissertação de Caetano, ao recuperar e contextualizar esse material histórico, reforça a importância de Ferreira como pioneiro no ensino técnico da flauta no Brasil, e destaca seu método como um marco pedagógico que permanece atual na formação flautística (CAETANO, 2020).

Marcel Moyse, no seu livro De la Sonorité utiliza exercícios com harmônicos para desenvolver o controle da embocadura, a flexibilidade do som e a estabilidade da afinação. Ele propõe a prática de harmônicos como base para obter um som mais expressivo e homogêneo. 

Philippe Bernold, flautista e pedagogo contemporâneo, reforça o uso dos harmônicos em seu método La Technique d’Embouchure. Ele defende que trabalhar harmônicos permite ao flautista compreender as relações entre pressão do ar, abertura da embocadura e qualidade sonora. Ele também sugere o uso de harmônicos para resolver problemas de registro e equalização do som entre as oitavas, o que é fundamental para alcançar controle e musicalidade.

Exercícios específicos utilizados pelo autor em seu preparo da obra

Durante o preparo da Fantasia Brilhante de Carmen de François Borne — peça que exige grande controle técnico e expressividade sonora — o autor incorporou os seguintes exercícios com harmônicos ao seu estudo: 

Escalas de harmônicos com uma digitação fixa, ou seja, utilizando a digitação da nota dó3, o autor praticava a produção dos harmônicos correspondentes (C4, G4, C5, E5, G5 e Bb5), mantendo a estabilidade do som e controlando a embocadura para cada variação, repetindo esse exercício com outras notas, progredindo cromaticamente. 

Comparação entre harmônicos e notas reais, alternando entre notas reais (digitadas) e seus respectivos harmônicos, escutando e ajustando a afinação. Isso favoreceu sua consciência de entonação, especialmente em trechos onde há transições rápidas entre registros. 

Aplicação dos harmônicos em trechos específicos da peça, em especial nos trechos mais agudos ou virtuosísticos da obra (como passagens com saltos amplos ou notas agudas sustentadas).

As passagens rápidas escritas na terceira oitava da flauta, incluindo notas como E5, F5, G5, A5 e B5 exigem precisão extrema da embocadura e controle da coluna de ar, pois, são naturalmente instáveis e difíceis de projetar.

Esses exercícios contribuíram diretamente para o aprimoramento técnico, especialmente nos aspectos exigidos pela obra de Borne, como clareza no registro agudo, uniformidade tímbrica e projeção sonora.

Trechos críticos extraídos da peça onde os harmônicos foram utilizados para facilitar a técnica:

Compassos 101, 102 ,103, 104 e 105 – pontos críticos da performance nessa obra, onde aplicação dos harmônicos se fazem emergentes. James Galway (renomado flautista inglês) em registro performático assentado no link hps://www.youtube.com/watch?v=yyYaUA5Hq3s, na minutagem 3min:15seg a 3min:19seg, e, Emmanuel Pahud (renomado flautista suíço) em gravação registrada no link h ps://www.youtube.com/watch?v=tH7ZUcqjLyk , na minutagem 3min:40seg a 3m:50seg, aplicam os harmônicos nesses trechos como recurso facilitador:

Os trechos acima selecionados da Fantasia Brilhante de Carmen, de François Borne, nos quais o autor aplica o uso de harmônicos como recurso facilitador na flauta transversal, foram cuidadosamente escolhidos com base em critérios técnicos e interpretativos observados durante a prática e análise da obra. Contudo, neste momento, não serão apresentados os dedilhados específicos utilizados para a execução dos harmônicos. Essa decisão se deve ao fato de tais informações integrarem a versão final da dissertação de mestrado do autor, ainda em fase de conclusão e não publicada. Após a devida defesa e publicação do trabalho, os dados completos, incluindo os dedilhados e demais aspectos técnicos, serão disponibilizados para consulta acadêmica e prática.

O autor praticou essas notas utilizando harmônicos da primeira oitava (por exemplo, tocando um E3 e produzindo E4, B4, E5 e G#5), o que ajudou a desenvolver a estabilidade e foco do som nessas regiões sem depender da digitação complexa real.

A peça inclui diversos saltos abruptos, como em seções que vão de E3 diretamente para E5, ou de D5 para A3, comuns em seções de grande brilho. Ao praticar saltos entre harmônicos (por exemplo, do harmônico fundamental para seu segundo ou terceiro harmônico), o autor fortaleceu a conexão entre os registros, minimizando quebras de som e diferenças tímbricas. 

Essas abordagens mostraram-se altamente eficazes na preparação da Fantasia Brilhante de Carmen, permitindo que o intérprete enfrentasse seus desafios técnicos com mais domínio e sensibilidade musical.

A relação entre técnica e expressão musical

Na flauta – como em qualquer instrumento – a técnica deve estar a serviço da expressão musical. O estudo com harmônicos exemplifica essa relação de maneira clara: embora seja uma prática essencialmente técnica, seu impacto se estende diretamente à expressividade artística. Segundo Nancy Toff, em The Flute Book: A Complete Guide for Students and Performers (Oxford University Press, 2012), o treinamento com harmônicos desenvolve não apenas o controle físico, mas também a sensibilidade auditiva, permitindo que o flautista ajuste o timbre, a afinação e a dinâmica com mais liberdade e precisão. 

A técnica baseada em harmônicos proporciona maior liberdade para moldar o som. Ao dominar os mecanismos de produção sonora – embocadura, pressão de ar, projeção – o intérprete não precisa lutar contra o instrumento para se expressar. Trevor Wye, em Practice Book for the Flute – Volume 4: Intonation and Vibrato (Novello, 1990), destaca que esse tipo de prática fortalece a flexibilidade do som e a homogeneidade entre os registros, o que amplia significativamente as possibilidades expressivas do instrumentista. 

Esse domínio técnico permite explorar a sonoridade como veículo de emoção, escolhendo timbres e intensidades que se alinham à narrativa da obra – no caso da Fantasia Brilhante de Carmen, alternando entre trechos brilhantes e virtuosísticos e outros mais introspectivos e melódicos, com intenções bem definidas. Edward Blakeman, em Taffanel: Genius of the Flute (Oxford University Press, 2005), observa que o ideal do flautista francês do século XIX era exatamente essa integração entre a perfeição técnica e a liberdade interpretativa, algo que Borne explora com maestria em sua fantasia. 

Em suma, quanto mais integrada a técnica estiver à prática musical, mais natural, fluida e expressiva será a performance. O estudo com harmônicos fortalece essa integração ao unir controle físico e percepção sonora refinada, como enfatizam tanto Wye quanto Toff em suas abordagens pedagógicas.

Conclusão

O presente trabalho evidenciou como o uso dos harmônicos se revela um recurso técnico e expressivo altamente eficaz na preparação e performance da Fantasia Brilhante de Carmen, de François Borne. Através da prática sistemática com harmônicos, o flautista adquire maior domínio sobre aspectos fundamentais da execução, como afinação, emissão sonora, transições entre registros e controle da embocadura. Esses benefícios se traduzem diretamente em maior fluidez e segurança na abordagem de passagens tecnicamente desafiadoras, otimizando a performance da obra como um todo. 

Além dos ganhos técnicos, ficou evidente que a prática com harmônicos ultrapassa o campo da mecânica instrumental, favorecendo uma escuta mais refinada e consciente. Assim, a técnica deixa de ser um fim em si mesma e se transforma em meio para a realização artística. 

Como desdobramento deste estudo, propõe-se a ampliação da pesquisa para outras obras do repertório flautístico que exijam domínio do registro agudo, estabilidade entre oitavas e flexibilidade sonora. O aprofundamento nesse campo poderá contribuir não apenas para o desenvolvimento técnico de estudantes e profissionais, mas também para a valorização pedagógica e artística do estudo com harmônicos dentro da formação do flautista contemporâneo.

Referências

Bernold, Philippe. Entrevista. La Traversière, Paris, n. 81, p. 22–25, 2011. 

Blakeman, Edward. Taffanel: Genius of the Flute. Oxford: Oxford University Press, 2005. 

Boehm, Theobald. The flute and the flute playing: in acoustical, technical and artistic aspects. 1. ed. New York: Dover Publications, 1964. 

Dick, Robert. El desarrollo del sonido mediante nuevas técnicas. 1. ed. Madrid: Mundimúsica, 1995. 

Ferreira, Ary José. Os sons harmônicos da flauta. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Música, 1944. 

Moyse, Marcel. De la sonorité. 1. ed. Paris: Alphonse Leduc & Cie, 1934. 

Powell, Ardal. The Flute. New Haven: Yale University Press, 2002. 

Silva, Alef Caetano. Harmônicos na flauta transversal: resgate e análise do método de Ary Ferreira. 2020. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Música, Belo Horizonte, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/36138. Acesso em: 4 jul. 2025.

Taffanel, Paul; GAUBERT, Philippe. Méthode complète de flûte. 2. ed. Paris: Alphonse Leduc, 1958. 

Toff, Nancy. The Flute Book: A Complete Guide for Students and Performers. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2012. 

Wye, Trevor. Practice Book for the Flute – Volume 4: Intonation and Vibrato. London: Novello, 1990.


1Universidade Federal do Rio Grande do Norte maestrojoseroberto@hotmail.com