REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508221810
Gabriela Jebai Monteiro Esmeraldino1
Barbara Michael Schimanoski2
Fernando Mateus Mascarello3
Médico orientador: Leandro de Araújo Rios Teixeira Dias4
RESUMO
A elevada sobreposição de sintomas entre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outros transtornos psiquiátricos prevalentes em jovens, como os transtornos de ansiedade, depressão e de conduta, constitui um dos maiores desafios na prática clínica contemporânea. O presente artigo tem como objetivo apresentar uma análise crítica e sistematizada para o diagnóstico diferencial do TDAH nestas populações, por meio de uma revisão narrativa da literatura científica. A discussão focará nos principais critérios distintivos, na importância da análise da motivação e do contexto do sintoma, e na aplicação de uma avaliação multidimensional para a elucidação diagnóstica. A análise demonstra que a desatenção, a inquietação e a impulsividade, embora cardinais no TDAH, são manifestações fenomenologicamente distintas quando surgem em outros quadros psicopatológicos. Conclui-se que a precisão diagnóstica exige uma abordagem longitudinal e contextual, que vá além da simples verificação de sintomas em uma lista de critérios. Tal abordagem é fundamental para evitar erros de tratamento, como a prescrição inadequada de psicofármacos, a cronificação do sofrimento e a estigmatização do paciente, garantindo um plano terapêutico eficaz e individualizado.
Palavras-chave: Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade; Diagnóstico Diferencial; Transtornos de Ansiedade; Transtorno Depressivo; Transtornos de Conduta.
INTRODUÇÃO
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento com prevalência estimada em 5,9% da população de jovens (Faraone et al., 2015), acarretando um impacto funcional significativo e multifacetado. As manifestações centrais de desatenção, hiperatividade e impulsividade comprometem severamente o desempenho acadêmico, as relações sociais e a dinâmica familiar do indivíduo (Antshel; Barkley, 2021). Estudos demonstram que o TDAH, juntamente com a dislexia, figura como uma das principais causas de fracasso escolar, sublinhando a gravidade de suas consequências desenvolvimentais (Rohde; Halpern, 2004).
Apesar da clareza dos critérios diagnósticos propostos por manuais como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) e a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o processo diagnóstico na prática clínica é frequentemente complexo. O problema central reside na frequente confusão diagnóstica decorrente da sobreposição sintomática entre o TDAH e outros quadros psiquiátricos comuns na infância e adolescência. A inquietação motora e a dificuldade de concentração, por exemplo, são sintomas compartilhados com os transtornos de ansiedade (American Psychiatric Association, 2022). Similarmente, a disfunção executiva, a procrastinação e a irritabilidade podem ser manifestações tanto do TDAH quanto de um transtorno depressivo (Thapar; Cooper, 2016). Por fim, a impulsividade e os comportamentos disruptivos podem indicar a presença de TDAH, mas também são características centrais dos transtornos de conduta e do transtorno opositivo-desafiador (Hinshaw; Lee, 2003).
A importância crítica de um diagnóstico preciso não pode ser subestimada. Um diagnóstico equivocado pode levar a intervenções terapêuticas ineficazes ou até mesmo prejudiciais. A prescrição de um psicoestimulante, tratamento de primeira linha para o TDAH, a um jovem cuja desatenção é secundária a ruminações ansiosas, por exemplo, pode exacerbar o quadro de ansiedade subjacente. Da mesma forma, tratar um quadro de TDAH primário apenas com antidepressivos, confundindo a disfunção executiva com apatia depressiva, pode deixar os sintomas nucleares do transtorno sem tratamento, cronificando o sofrimento e o prejuízo funcional do paciente. A falha em identificar um transtorno de conduta comórbido pode resultar em intervenções que não abordam a intencionalidade do comportamento antissocial, com graves consequências para o indivíduo e a sociedade.
Diante deste cenário desafiador, o objetivo deste artigo é fornecer um guia prático e baseado em evidências para auxiliar clínicos a realizar o diagnóstico diferencial entre o TDAH e os transtornos de ansiedade, depressão e de conduta em crianças e adolescentes.
METODOLOGIA
A presente obra constitui uma revisão narrativa crítica da literatura, método selecionado por sua adequação para sintetizar e discutir um corpo de conhecimento amplo e multifacetado sobre um tema clínico complexo. Diferentemente de uma revisão sistemática, que busca responder a uma pergunta de pesquisa específica e restrita, a revisão narrativa permite uma análise mais abrangente e integrada, fundamental para o objetivo de fornecer um guia prático para o diagnóstico diferencial do TDAH em jovens.
O processo de levantamento bibliográfico foi conduzido entre setembro de 2023 e agosto de 2025, utilizando as bases de dados eletrônicas de referência na área da saúde e ciências humanas: PubMed/MEDLINE, SciELO (Scientific Electronic Library Online) e PsycINFO. A busca foi complementada por uma varredura manual nas listas de referências dos artigos mais relevantes e pela consulta a manuais diagnósticos canônicos (DSM-5-TR, CID-11) e capítulos de livros de autores de renome na área.
A estratégia de busca envolveu o uso de descritores (MeSH e DeCS) e palavras-chave, em português e inglês, combinados com operadores booleanos (AND, OR). Os termos principais incluíram: “Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade”, “Diagnóstico Diferencial”, “Transtornos de Ansiedade”, “Transtorno Depressivo”, “Transtornos de Conduta”, “Adolescentes”, “Crianças”, e suas contrapartes em inglês: “Attention Deficit Hyperactivity Disorder”, “ADHD”, “Differential Diagnosis”, “Symptom Overlap”, “Anxiety Disorders”, “Depressive Disorder”, “Conduct Disorder”, “Adolescents”, “Youth”.
Foram estabelecidos os seguintes critérios para a seleção do material:
- Critérios de Inclusão:
- Artigos de revisão (narrativas, sistemáticas e metanálises), ensaios clínicos, estudos longitudinais e capítulos de livros.
- Publicações que abordassem diretamente o diagnóstico diferencial do TDAH em crianças e/ou adolescentes.
- Trabalhos que discutissem a sobreposição sintomática entre o TDAH e os transtornos de ansiedade, humor ou de conduta.
- Artigos publicados em português ou inglês.
- Foco em publicações dos últimos 20 anos para garantir a contemporaneidade da discussão, com especial atenção aos trabalhos publicados após o lançamento do DSM-5 (2013).
- Critérios de Exclusão:
- Estudos focados exclusivamente no TDAH em adultos, sem uma perspectiva do neurodesenvolvimento.
- Relatos de casos que não contribuíssem com uma discussão teórica ou clínica mais ampla.
- Pesquisas focadas unicamente em intervenções farmacológicas que não aprofundassem a questão diagnóstica.
- Artigos cujo texto completo não pôde ser acessado.
A análise e síntese do material selecionado seguiram uma abordagem temática. As informações foram extraídas e organizadas de acordo com as seções predefinidas deste artigo, focando nos critérios diagnósticos nucleares de cada transtorno, nos pontos-chave de convergência e divergência sintomática e nas estratégias recomendadas para uma avaliação clínica multidimensional e baseada em evidências.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O Núcleo do TDAH: Sintomas-Chave e Apresentações Clínicas em Jovens
Para realizar um diagnóstico diferencial acurado, é imperativo, primeiramente, compreender a essência clínica do TDAH. Segundo o DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022), o diagnóstico requer um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere no funcionamento ou no desenvolvimento. Para crianças e adolescentes até 16 anos, são necessários pelo menos seis sintomas em uma ou ambas as categorias, presentes por no mínimo seis meses, em um grau inconsistente com o nível de desenvolvimento. Crucialmente, vários desses sintomas devem estar presentes antes dos 12 anos de idade e manifestar-se em dois ou mais contextos (por exemplo, em casa, na escola ou com amigos), causando prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
A apresentação clínica do TDAH, no entanto, não é estática; ela evolui com o desenvolvimento do indivíduo. Na adolescência, a hiperatividade motora grossa, como correr e escalar em situações inadequadas, frequentemente diminui de intensidade e se transforma. Ela pode se manifestar como uma sensação subjetiva e persistente de inquietação interna, uma dificuldade em relaxar ou uma necessidade de estar constantemente ocupado (Rohde et al., 2004). Essa metamorfose de um sintoma motor-externo para um sintoma subjetivo-interno é uma das principais fontes de erro diagnóstico, sendo facilmente confundida com a inquietação característica dos transtornos de ansiedade.
Um avanço conceitual fundamental para a compreensão do TDAH foi proposto por Barkley (2015), que o define não apenas como um transtorno da atenção, mas, primariamente, como um transtorno do desenvolvimento das funções executivas e da autorregulação. As funções executivas referem-se a um conjunto de processos cognitivos de alta ordem (memória de trabalho, planejamento, organização, inibição de impulsos, flexibilidade cognitiva e regulação emocional) que orquestram o comportamento direcionado a metas. Sob esta ótica, a desatenção é uma falha na inibição de respostas a estímulos irrelevantes; a hiperatividade é uma falha na inibição do comportamento motor; e a impulsividade é uma falha na inibição de respostas imediatas em favor de objetivos de longo prazo. Essa conceituação é a chave para diferenciar a causa do comportamento disfuncional, indo além da sua aparência superficial.
TDAH vs. Transtornos de Ansiedade: Desvendando a Sobreposição da Inquietação e Desatenção
A sobreposição entre TDAH e transtornos de ansiedade é notória, com ambos os quadros apresentando dificuldade de concentração e inquietação psicomotora. A distinção, contudo, reside na etiologia e na qualidade fenomenológica desses sintomas.
A desatenção no TDAH é primária, decorrente de uma dificuldade neurobiológica em sustentar o foco e de uma alta distratibilidade a estímulos externos, muitas vezes irrelevantes. O sistema atencional é facilmente capturado por qualquer evento no ambiente. Em contraste, a desatenção nos transtornos de ansiedade é secundária (American Psychiatric Association, 2022). O “processador mental” do indivíduo está sobrecarregado por preocupações, ruminações e uma varredura constante do ambiente em busca de ameaças potenciais. A atenção não está disponível para a tarefa em questão porque está sequestrada por conteúdos internos ansiogênicos. A pergunta diagnóstica fundamental, portanto, não é “O paciente está desatento?”, mas sim “Para onde vai a atenção quando não está na tarefa?“. Se a resposta aponta para estímulos ambientais aleatórios, o TDAH é mais provável. Se aponta para um ciclo de preocupações internas, a ansiedade deve ser considerada primária.
A natureza da inquietação também difere. No TDAH, a inquietação é frequentemente difusa, sem um propósito claro, manifestando-se como uma necessidade de movimento ou estimulação para regular o estado de alerta. No adolescente, como mencionado, pode ser uma sensação interna de estar “ligado no 220V”. Na ansiedade, a inquietação está frequentemente associada a uma preocupação específica e é acompanhada por sintomas somáticos de tensão, como tensão muscular, palpitações ou sudorese (Associação Psiquiátrica Americana, 2014).
Um exemplo clínico pode ilustrar essa diferença: um adolescente com TDAH não consegue prestar atenção na aula porque o som do projetor o distrai, ele observa o que acontece do lado de fora da janela e sua mente salta para pensamentos não relacionados à matéria. Já um adolescente com Transtorno de Ansiedade Generalizada não presta atenção porque está ruminando sobre a prova da próxima semana, preocupado com o que os colegas pensam dele ou temendo que algo ruim aconteça com seus pais. A investigação cuidadosa da experiência subjetiva do paciente é, portanto, essencial.
TDAH vs. Transtorno Depressivo: Diferenciando a Disfunção Executiva da Apatia e Anedonia
A dificuldade em iniciar tarefas, a procrastinação, a desorganização e a irritabilidade são sintomas que podem levar à confusão entre TDAH e Transtorno Depressivo Maior. A chave para a diferenciação está na análise da motivação subjacente e no curso longitudinal dos sintomas.
No TDAH, a dificuldade em iniciar e completar tarefas deriva de uma falha primária nas funções executivas, especificamente nos domínios de ativação, planejamento e organização (Barkley, 2015). O jovem frequentemente deseja realizar a tarefa, compreende sua importância, mas enfrenta uma barreira invisível para “engajar os motores” e começar. Essa dissonância entre a intenção e a ação gera frustração, culpa e autocrítica. Na depressão, a mesma dificuldade comportamental emana da apatia (perda de motivação), da anedonia (incapacidade de sentir prazer) e da falta de energia (astenia) (American Psychiatric Association, 2022). O jovem não inicia a tarefa porque não vê sentido nela ou simplesmente não possui a energia física e mental para tal. A análise do afeto associado à inação é uma ferramenta diagnóstica poderosa: o jovem com TDAH sente-se frustrado por sua ineficácia, enquanto o jovem com depressão grave pode expressar desesperança ou indiferença.
A irritabilidade também é um sintoma comum a ambos. No TDAH, ela está mais ligada a uma baixa tolerância à frustração e a uma reatividade impulsiva a eventos estressores. É uma irritabilidade mais “explosiva” e de curta duração. Na depressão, a irritabilidade é frequentemente um componente de um humor persistentemente deprimido ou disfórico, sendo mais constante e pervasiva (Thapar; Cooper, 2016).
O histórico longitudinal é, talvez, o diferenciador mais robusto. O padrão de disfunção executiva e desatenção do TDAH é, por definição, crônico e desenvolvimental, com sintomas presentes desde a infância (American Psychiatric Association, 2022). Em contrapartida, o Transtorno Depressivo Maior é frequentemente episódico, com um início mais delimitado no tempo e, idealmente, períodos de funcionamento normal (eutimia) entre os episódios. Uma anamnese cuidadosa que mapeie a linha do tempo dos sintomas é indispensável para essa distinção.
TDAH vs. Transtornos de Conduta e Oposição Desafiante: Impulsividade versus Intencionalidade
Os comportamentos disruptivos, como a quebra de regras e a oposição a figuras de autoridade, são o ponto de maior sobreposição entre o TDAH e os transtornos do grupo disruptivo, que incluem o Transtorno de Conduta (TC) e o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD). A comorbidade entre TDAH e esses transtornos é extremamente alta, com o TDAH sendo um fator de risco bem estabelecido para o seu desenvolvimento (Hinshaw; Lee, 2003). A tarefa clínica é dupla: identificar a presença de comorbidade e, quando os sintomas são mais sutis, diferenciar a origem do comportamento.
A distinção fundamental reside no eixo impulsividade versus intencionalidade. No TDAH, a quebra de regras é frequentemente um subproduto da impulsividade e de uma falha em antecipar as consequências. A criança ou adolescente age sem pensar, movido por um impulso imediato. No TC, por outro lado, há um padrão persistente e deliberado de violação dos direitos dos outros e de normas sociais importantes. Os comportamentos, como agressão física, crueldade com animais, destruição de propriedade e roubo, carregam uma clara intencionalidade (American Psychiatric Association, 2022). No TOD, o comportamento disruptivo é caracterizado por um padrão intencional de humor raivoso/irritável, comportamento questionador/desafiante e índole vingativa, direcionado especificamente a figuras de autoridade (Associação Psiquiátrica Americana, 2014).
A análise da resposta do jovem ao seu próprio ato disruptivo é clinicamente reveladora. O indivíduo com TDAH puro, após uma transgressão impulsiva, frequentemente demonstra remorso genuíno quando confrontado com as consequências de suas ações. Ele pode reconhecer o erro, embora tenha falhado em inibir o comportamento no momento. Em contraste, o jovem com TC, especialmente aquele com o especificador “com emoções pró-sociais limitadas”, exibe uma notável falta de culpa ou empatia, podendo racionalizar seu comportamento ou culpar a vítima (American Psychiatric Association, 2022). A capacidade de aprender com a punição também pode ser um diferenciador: o jovem com TDAH pode repetir o erro por impulsividade, mas o jovem com TC pode repetir o ato por desconsideração pelas regras e consequências.
Ferramentas e Estratégias para um Diagnóstico Diferencial Preciso
Um diagnóstico diferencial robusto não pode depender de uma única fonte de informação ou de uma única consulta. Exige uma abordagem multidimensional e sistemática.
- Anamnese Detalhada e Longitudinal: A coleta de uma história de vida completa é a pedra angular do diagnóstico. É crucial mapear a cronologia dos sintomas, investigando marcos do desenvolvimento, histórico escolar, relações sociais e dinâmica familiar desde a primeira infância. A natureza crônica e desenvolvimental do TDAH é seu traço mais distintivo.
- Entrevistas com Múltiplas Fontes: A avaliação deve incluir entrevistas separadas com os pais ou responsáveis, com o próprio jovem e, fundamentalmente, a coleta de informações do ambiente escolar por meio de relatórios ou contato direto com professores. Discrepâncias entre os relatos são comuns e, em si, constituem dados clínicos valiosos que devem ser explorados.
- Uso Criterioso de Escalas de Avaliação: Escalas como a SNAP-IV (Swanson, Nolan, and Pelham IV) e a ASRS (Adult ADHD Self-Report Scale), para adolescentes mais velhos, são ferramentas úteis (Mattos et al., 2006). No entanto, é vital reconhecer suas limitações. Elas funcionam como instrumentos de rastreamento e quantificação de sintomas, mas não de diagnóstico. Apresentam alta sensibilidade, mas baixa especificidade, o que significa que são eficazes para identificar possíveis casos, mas geram um número considerável de falsos positivos (Hall et al., 2020). Seu uso isolado para firmar um diagnóstico constitui uma má prática clínica.
Para sistematizar a análise e mitigar o risco de vieses cognitivos, como o “viés de ancoragem” (a tendência de se fixar na primeira impressão diagnóstica), a utilização de uma estrutura comparativa pode ser de grande valia. A tabela abaixo resume os principais pontos de distinção discutidos.
Tabela 1 – Tabela Comparativa para Diagnóstico Diferencial do TDAH em Jovens
| Domínio de Análise | TDAH | Transtornos de Ansiedade | Transtorno Depressivo | Transtornos de Conduta/TOD |
| Qualidade da Desatenção | Primária, por distratibilidade a estímulos externos. A mente “pula” de um foco para outro. | Secundária, por preocupações e ruminações internas. A mente está “presa” em pensamentos ansiogênicos. | Secundária, por lentificação psicomotora, apatia e baixa energia. Dificuldade de mobilizar recursos cognitivos. | Geralmente não é um sintoma primário, mas pode ocorrer por oposição ou desinteresse deliberado. |
| Natureza da Inquietação/Impulsividade | Inquietação difusa, sem propósito, ou sensação interna de agitação. Impulsividade por falha na inibição. | Inquietação ligada a tensões somáticas e preocupações específicas. Evitação de situações temidas. | Lentificação psicomotora é mais comum, mas a agitação pode ocorrer. Irritabilidade reativa. | Impulsividade ligada à violação intencional de regras e direitos alheios (TC) ou desafio à autoridade (TOD). |
| Humor Predominante | Geralmente eutímico, mas com labilidade emocional e baixa tolerância à frustração. | Apreensivo, tenso, preocupado. Medo e evitação são centrais. | Persistentemente deprimido, triste, apático ou irritável. Anedonia (perda de prazer). | Raivoso, irritável, hostil, ressentido. Falta de empatia e remorso (especialmente no TC). |
| Relação com Regras Sociais | Violação por descuido, esquecimento ou incapacidade de prever consequências (impulsividade). | Pode haver evitação de situações sociais, mas não um padrão de violação de regras. | Geralmente o comportamento social é retraído, mas as regras são preservadas. | Padrão deliberado e persistente de violação de regras sociais importantes e direitos dos outros. |
| Curso/Histórico | Crônico e desenvolvimental, com início obrigatório na infância (antes dos 12 anos). | Pode ser crônico ou episódico, com início em qualquer fase da vida. | Frequentemente episódico, com início mais claro e períodos de remissão. | Padrão de comportamento que se estabelece e persiste ao longo do tempo, podendo se agravar. |
Discussão: Implicações Clínicas e a Importância da Perspectiva Longitudinal
A análise precedente revela que, embora os sintomas possam parecer idênticos na superfície, sua estrutura subjacente, motivação e contexto são radicalmente diferentes entre os transtornos. A tarefa do clínico é atuar como um fenomenólogo, investigando a experiência subjetiva do paciente para além do comportamento observável.
É fundamental reconhecer que a comorbidade é mais a regra do que a exceção na psiquiatria da infância e adolescência (Souza; Pinheiro, 2003). Um jovem pode apresentar um quadro de TDAH primário que, devido às frustrações e prejuízos crônicos, leva ao desenvolvimento de um transtorno de ansiedade ou depressivo secundário. Inversamente, um quadro depressivo grave pode mimetizar uma disfunção executiva. A tarefa clínica, nestes casos, é delinear a hierarquia e a cronologia dos transtornos para estabelecer um plano de tratamento priorizado e sequencial.
O maior risco para o clínico é o “viés de ancoragem”, a tendência de se fixar no primeiro diagnóstico que parece se encaixar, interrompendo prematuramente a investigação diferencial. A utilização de ferramentas como a tabela comparativa proposta força uma análise sistemática e abrangente, servindo como um antídoto para este viés.
Em última análise, a característica mais distintiva e poderosa para o diagnóstico diferencial do TDAH é seu caráter intrinsecamente desenvolvimental e crônico. A coleta de uma linha do tempo detalhada, que demonstre a presença de sintomas de desatenção, hiperatividade ou impulsividade desde os anos pré-escolares ou início do ensino fundamental, é o argumento mais forte para um diagnóstico de TDAH, distinguindo-o de transtornos de humor e ansiedade, que, embora possam ser crônicos, frequentemente apresentam um curso mais flutuante, episódico ou com um início mais tardio e identificável.
CONCLUSÃO
O diagnóstico diferencial do TDAH em crianças e adolescentes representa um desafio clínico substancial, primariamente devido à significativa sobreposição de sintomas com transtornos de ansiedade, depressão e de conduta. A desatenção, a inquietação e a impulsividade não são patognomônicas do TDAH e exigem uma análise aprofundada para a correta identificação de sua etiologia.
Este artigo reafirma que uma avaliação cuidadosa, multidimensional e longitudinal é a única via para alcançar um diagnóstico preciso. Essa abordagem deve transcender a simples verificação de critérios em uma lista, aprofundando-se na fenomenologia de cada sintoma – sua qualidade, contexto e motivação subjacente. A coleta de informações de múltiplas fontes (paciente, família e escola) e a análise do curso histórico dos sintomas são componentes não negociáveis de uma boa prática clínica. Somente a partir de um diagnóstico preciso é possível elaborar um plano de tratamento eficaz, que verdadeiramente alivie o sofrimento do jovem e promova seu desenvolvimento saudável.
Como perspectiva futura, ressalta-se a necessidade contínua de formação clínica especializada nesta área. O desenvolvimento de ferramentas diagnósticas mais refinadas, capazes de auxiliar o clínico a distinguir as nuances fenomenológicas dos sintomas na prática diária, e a disseminação de modelos conceituais robustos, como o da disfunção executiva, são essenciais para aprimorar a acurácia diagnóstica e, consequentemente, a qualidade do cuidado oferecido a essa população vulnerável.
REFERÊNCIAS
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1UniSul Pedra Branca – Universidade do Sul de Santa Catarina
gabijebaiesmeraldino@gmail.com
2barbara.schimanoski@universo.univates.br – Médica Graduada – Universidade do Vale do Taquari – UNIVATES
3Fmmascarelloo@gmail.com – Médico Graduado – Universidade do Vale do Taquari – UNIVATES
4MÉDICO GRADUADO – UFMG / leandrorios172@hotmail.com
