DETERMINANTES MATERNOS NA PREMATURIDADE: UM ESTUDO EM UM HOSPITAL TERCIÁRIO NO CENTRO-OESTE PARANAENSE   

MATERNAL DETERMINANTS OF PREMATURITY: A STUDY IN A TERTIARY HOSPITAL IN CENTRAL-WESTERN PARANÁ

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202511172328


Amanda Mariana Juliani1
Maria Eduarda Seguro Pletsch2
Sabrina Roesler Tavares3
Eros Uriel Rodrigues4
Bruna Elisa Buhrer5


RESUMO

Embora a obstetrícia tenha feito avanços significativos, a prematuridade ainda representa um dos principais desafios em saúde pública, devido aos níveis de morbidade e mortalidade neonatal associados a ela. Define-se prematuridade como a ocorrência do nascimento antes do termo, ou seja, antes de completar as 37 semanas de gestação. Nesse sentido, há muitos fatores provenientes da mãe que podem aumentar a probabilidade de um parto pré-termo, em razão disso, o presente estudo tem como objetivo identificar e quantificar quais desses fatores exercem maior influência sobre a prematuridade num hospital referência no município, contribuindo para sua prevenção. A pesquisa foi realizada por meio da análise de prontuários maternos do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) entre janeiro de 2022 a maio de 2024. Por meio deste estudo, permite-se concluir que há uma associação estatisticamente significativa entre idade materna e o desenvolvimento de hipertensão arterial durante a gestação. Além disso, possibilitou a construção de um perfil epidemiológico da população analisada. Em contrapartida, a falta de preenchimento correto de prontuários influenciou na relevância das análises estatísticas.  

Palavras-chave: Prematuridade. Trabalho de Parto Prematuro. Saúde da Mulher. Relações Materno-Fetais. Fatores de Risco. 

1 INTRODUÇÃO 

O parto prematuro ocorre antes das 37 semanas de gestação e pode ser classificado em três categorias: prematuro extremo (nascimento antes das 28 semanas), prematuro intermediário (nascimento entre 28 e 34 semanas) e prematuro tardio (nascimento entre 34 e 36 semanas e 6 dias). Esse tipo de parto pode causar complicações significativas para a mãe e o feto, sendo uma das principais causas de morbimortalidade e mortalidade entre recém-nascidos (Vanin et al., 2020). 

Segundo o Ministério da Saúde e dados obtidos pela plataforma do SINASC, foram registrados no Brasil no ano de 2021 mais de 300 mil nascimentos entre 22 e 36 semanas de gestação, revelando um problema de saúde pública. Dentre os principais fatores maternos responsáveis estão os fatores sociodemográficos, idade da gestante, diagnóstico tardio da gravidez, realização de um pré-natal inadequado ou não realização, intercorrências clínicas e hábitos de vida (Oliveira et al., 2016).  

Diante desse cenário, muitos desses fatores podem ser evitados e por isso, antes mesmo do início da gestação, é possível atuar precocemente na prevenção do parto prematuro. Dessa forma vê-se a importância da realização de um planejamento familiar seguido do acompanhamento correto do pré-natal, permitindo a identificação de riscos gestacionais por meio de exames laboratoriais e de imagem, além do acompanhamento psicossocial oferecido pela equipe multidisciplinar da unidade (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020).  

Ao se considerar a temática exposta, faz-se essencial a identificação dos fatores maternos prevalentes relacionados a prematuridade na cidade de Guarapuava-PR, a fim de adequar os cuidados gestacionais na detecção e prevenção de agravos à saúde referentes à partos pré-termo (Oliveira et al., 2016). 

Desta forma, o presente trabalho teve como intenção agir como um instrumento de prevenção para identificar os fatores de riscos maternos, guiando os profissionais da saúde a fazerem um trabalho multidisciplinar a fim de reduzir as taxas de partos pré termos, e assim colaborar para a diminuição da morbimortalidade neonatal relacionada à prematuridade.  

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA 

2.1 REFERENCIAL TEÓRICO / ESTADO DA ARTE  

O parto prematuro é um importante problema de saúde pública, sendo uma das principais causas de morbimortalidade neonatal e impacto direto nos indicadores de saúde materno-infantil (Vanin et al., 2020). Sua etiologia é multifatorial, podendo ser influenciada por aspectos biológicos, clínicos, socioeconômicos, comportamentais e estruturais que se sobrepõem ao longo do ciclo reprodutivo da mulher. Nesse sentido, compreender os fatores maternos associados à prematuridade é essencial para embasar estratégias de detecção precoce e prevenção durante o pré-natal, sendo esse um dos principais enfoques da literatura científica nacional e internacional. 

A idade materna é um dos fatores mais reconhecidos no risco de parto pré-termo, pois tanto a idade avançada quanto a idade materna muito jovem podem contribuir para maior vulnerabilidade gestacional por mecanismos distintos (Fuchs, 2018; Costa Carvalho et al., 2021). A escolaridade, por sua vez, se relaciona diretamente com a capacidade de compreensão e adesão às orientações de saúde, sendo considerada um marcador social que influencia comportamentos, decisões e acesso a serviços, podendo repercutir nos desfechos obstétricos (Granés et al., 2023). Além disso, a literatura reforça o papel dos determinantes sociais estruturais, incluindo desigualdades históricas e raciais, que afetam acesso, continuidade de cuidado e qualidade da assistência prestada à população (Ministério da Saúde, 2023). 

O histórico reprodutivo prévio, intercorrências anteriores e eventos obstétricos desfavoráveis também compõem fatores associados a risco aumentado de prematuridade, podendo refletir condições clínicas persistentes e predisposições fisiológicas (Costa Carvalho et al., 2021; Alves et al., 2017). Hábitos de vida como tabagismo, consumo de álcool e uso de drogas são amplamente relacionados ao aumento de desfechos adversos materno-fetais (Souza e Botelho, 2011), assim como o uso inadequado de medicamentos na gestação, especialmente quando existe automedicação ou prescrição não acompanhada de vigilância farmacológica adequada (Dos Santos, Alencar e Alencar, 2017). 

Infecções maternas e alterações sorológicas representam outro importante foco de atenção, visto que processos infecciosos podem desencadear resposta inflamatória sistêmica e alterações placentárias capazes de antecipar o trabalho de parto (De Lima et al., 2020). De forma adicional, comorbidades clínicas como hipertensão arterial sistêmica, diabetes e distúrbios tireoidianos, quando presentes, representam relevante risco aditivo para complicações gestacionais e para a prematuridade, exigindo cuidado especializado e monitoramento contínuo da equipe multiprofissional (Oliveira et al., 2016). 

Diante disso, observa-se que os fatores maternos associados à prematuridade são interdependentes e multifatoriais, atuando tanto por vias clínicas quanto sociais, reforçando a importância do pré-natal ampliado, da identificação precoce desses determinantes e da atuação preventiva multiprofissional. Dessa forma, o referencial teórico apresentado fornece sustentação para a compreensão, análise e interpretação dos achados deste estudo, os quais serão detalhados posteriormente na Seção 4, referente ao Desenvolvimento. 

3 METODOLOGIA  

Para a realização das análises estatísticas deste estudo, foram utilizados diferentes softwares e pacotes estatísticos, com o objetivo de explorar as associações entre as variáveis maternas e os desfechos gestacionais. 

As análises descritivas e a visualização dos dados foram realizadas no ambiente de programação R (versão 4.2.0). Para a construção dos gráficos, foram empregados os pacotes ggplot2 e networkD3. O pacote ggplot2 foi utilizado para a criação de gráficos de barras, gráficos de Pareto e gráficos de barras lado a lado (side-by-side). 

O teste de qui-quadrado foi aplicado para avaliar a independência entre variáveis categóricas, como a associação entre raça e risco gestacional, frequência de comorbidades e risco gestacional, e idade materna e hipertensão arterial sistêmica.  As tabelas de contingência foram geradas no Statistica 12.5, onde as frequências observadas e esperadas foram calculadas para cada combinação de variáveis. 

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), parecer número 6.972.492 e CAAE: 76911223.0.0000.8947, respeitando assim as questões éticas envolvidas e descritas na Resolução CNS 196/96, atualizada pela 466/2012 ou 510/2016, além disso, foi autorizado pelo Comitê de Ética do HSVP. Apenas após a aprovação foi dado início a coleta de dados. Os dados foram utilizados exclusivamente para fins acadêmico-científicos. 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS 

A prematuridade é um fenômeno complexo que pode ser significativamente influenciado por uma variedade de fatores maternos, desde condições de saúde até aspectos socioeconômicos. Nesse contexto, esta parte do estudo descreve as características sociodemográficas e reprodutivas da amostra composta por gestantes atendidas em um hospital de Guarapuava, Paraná.  

A análise dos dados apresentados visa fornecer um panorama detalhado da população estudada, estabelecendo a base para a compreensão das associações entre os fatores maternos e a prematuridade fetal, objetivo principal deste estudo. 

4.1 DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA 

A Figura 2 ilustra a distribuição geográfica das gestantes por cidade no estado do Paraná. Observa-se uma maior concentração de participantes em Guarapuava, cidade sede do hospital estudado, seguida por Laranjeiras do Sul e Prudentópolis. Cidades vizinhas, como Cantagalo e Pitanga, também contribuíram com um número significativo de gestantes.  

A distribuição por quantis é importante para contextualizar a representatividade da amostra e a aplicabilidade dos resultados ao cenário regional, facilitando a compreensão das regiões com maior e menor demanda pelos serviços de saúde estudados e, além disso, subsidiar futuras políticas de saúde pública voltadas à melhoria da assistência materna nas regiões de menor cobertura. 

Figura 2. Diagrama gerado utilizando o pacote ggplot2 através de linguagem r. quantis divididos de acordo com o número de gestantes provenientes de cada cidade, representando aproximadamente 25% da amostra prezando  pela homogeneidade representativa. 
Fonte: Elaboração própria, 2024. 

Nesse sentido, para uma melhor visualização dos quantis apresentados, a tabela 1 demonstra a distribuição geográfica das gestantes por cidade no estado do Paraná. Os quantis foram utilizados para dividir a amostra de 397 gestantes em quatro grupos iguais com base na frequência de participantes por cidade. O 1º quantil inclui cidades com a menor frequência de gestantes, como Chopinzinho e Colônia Samambaia, com apenas uma gestante cada. O 2º quantil abrange localidades com duas gestantes, como Goioxim e Pitanga. O 3º quantil representa cidades com frequência intermediária, como Campina do Simão (8 gestantes) e Foz do Jordão (7 gestantes). No 4º quantil estão as cidades com maior representatividade, como Guarapuava (43,54%) e Prudentópolis (9,82%). 

Fonte: Elaboração própria, 2024. 

Essa análise evidencia que Guarapuava é a cidade com maior número de participantes, representando quase metade da amostra total (43,54%). Isso reflete a centralização dos serviços de saúde materno-infantil e a importância do hospital local como referência para a região. 

4.2 ESCOLARIDADE 

Quanto à escolaridade, o Gráfico 1 apresenta o nível de escolaridade das gestantes participantes do estudo, utilizando um gráfico de Pareto para ilustrar a distribuição das categorias em termos de frequência absoluta e a contribuição cumulativa dessas categorias em percentual. As barras representam o número absoluto de ocorrências para cada nível de escolaridade, ordenadas de forma decrescente. Observa-se que a maioria das gestantes possui o ensino fundamental completo, representando 39,4% da amostra, seguido pelo ensino médio completo, com 23,2%, e pelo nível superior, com 18,2%. As demais categorias, como 2º grau incompleto (10,6%), 1º grau incompleto (8,1%) e nível técnico incompleto (0,5%), apresentam frequências menores, indicando uma menor proporção de gestantes com esses níveis de escolaridade. 

O gráfico Pareto mostra a distribuição de escolaridade em termos de frequência absoluta (eixo esquerdo) e a contribuição cumulativa dessas categorias em termos de percentual (eixo direito). Fonte: Elaboração própria, 2024.

A linha vermelha no gráfico mostra que as duas primeiras categorias de escolaridade (1º e 2º grau completos) representam 75% da amostra, e ao incluir o nível superior, atinge-se 90%, o que indica que a maioria das gestantes possui, no mínimo, o ensino médio completo. Após essas três primeiras categorias, as demais categorias têm pouca contribuição ao total. 

Essa distribuição desigual das categorias de escolaridade revela que poucas categorias dominam a amostra. A predominância de gestantes com escolaridade até o ensino fundamental completo e médio completo sugere um perfil educacional relativamente elevado. Esse aspecto é significativo, pois o nível de escolaridade é um importante determinante social de saúde, podendo influenciar diretamente comportamentos de saúde materno-infantil e, consequentemente, os desfechos perinatais. 

Em resumo, a análise do nível de escolaridade das gestantes indica que aproximadamente 80% das participantes possuem, no mínimo, o ensino médio completo, o que contrapõe a realidade demonstrada no estudo de Granés et al. (2023), em que quanto menor o grau de escolaridade maior o risco de prematuridade.  Essa característica da amostra é relevante, pois o nível educacional das gestantes pode influenciar a adesão aos cuidados durante a gestação e, consequentemente, os desfechos gestacionais, sendo fundamental para direcionar políticas públicas que visem ao acompanhamento integral dessas mulheres, considerando o impacto do nível de escolaridade nas práticas de saúde materna. 

4.3 OUTRAS VARIÁVEIS 
4.3.1 Faixa etária 

Ainda, para melhor compreensão da população em foco, a Tabela 2 apresenta as informações descritivas da amostra, incluindo variáveis como idade, raça, número de gestações anteriores, histórico de gestação prematura e complicações em gestações prévias. 

Fonte: Elaboração própria, 2024. 

A maioria das gestantes (71,4%) estava na faixa etária entre 18 e 35 anos. Um total de 22,3% das participantes tinham idade superior a 35 anos, enquanto 6,3% eram menores de 18 anos. Esse dado indica que a amostra é majoritariamente composta por gestantes em idade reprodutiva considerada ideal, porém, uma parcela relevante está fora desse intervalo, o que pode influenciar nos desfechos obstétricos. 

Nesse sentido, Fuchs et al. (2018) conduziu um estudo para avaliar o impacto que a idade materna pode ter na ocorrência de um parto pré-termo, concluindo que idade materna avançada pode estar associada à prematuridade espontânea em razão de condições médicas pré-existentes, enquanto que mães mais jovens tendem a ter partos prematuros devido a complicações associadas a um status socioeconômico mais baixo.  

4.3.2 Raça 

A amostra é predominantemente composta por gestantes de raça branca (92,9%), seguidas por pardas (4,0%) e indígenas (1,8%). A frequência de participantes autodeclaradas pretas (0,5%) e amarelas (0,3%) é muito baixa, o que reflete a demografia regional, mas limita a análise de disparidades raciais nos desfechos gestacionais. Outro fator agravante enfatizado por Piza et al. (1999) é a lacuna na compreensão na terminologia racial dos sensos e sua reinterpretação pelos diferentes olhares que influenciam a identidade racial. 

Quanto ao risco associado a raça, a tabela 3 exibe resultados que indicam que, entre as gestantes de raça branca, 56,9% foram classificadas como de alto risco (possivelmente pela frequência predominante na população amostral), enquanto 26,8% não tiveram essa informação registrada. Para as gestantes pardas, 50% foram classificadas como de alto risco, e 31,2% não informaram o risco gestacional. Não houve registros de alto risco para as gestantes de raça preta e amarela, com todos os casos reportados como não informados. O valor de p obtido foi 0,4533, indicando que não há associação estatisticamente significativa entre a raça das gestantes e a classificação de risco gestacional. O valor de p sem significância é consequência de prontuários respondidos incorretamente pelos profissionais e a não adesão à classificação de risco proposta pela Secretaria de Saúde do Governo do Estado do Paraná, uma vez que, gestantes pardas e pretas são classificadas como risco intermediário (Paraná, 2021). 

Análise chi-square considerando significante p<0,05. Fonte: Elaboração própria, 2024.  

4.3.3 Histórico Reprodutivo 

O histórico reprodutivo das participantes indica que 35,8% são primigestas, enquanto 25,9% já tiveram uma gestação anterior e 38,3% apresentaram duas ou mais gestações. Dentre elas, 5,49% relatam ter tido pelo menos uma gestação prematura. Esse dado é crucial, pois estudos citados no artigo de Costa et al. (2021) mostram que a recorrência de partos prematuros pode variar de 15% a 30% após um episódio e chega a 60% após dois. Mulheres que tiveram partos prematuros muito precoces têm um risco de 5% de enfrentarem nova prematuridade, em contraste com apenas 0,2% para aquelas sem histórico. Isso ressalta a importância de um acompanhamento clínico especializado para gestantes com histórico de prematuridade, especialmente considerando a grande quantidade de primigestas que podem não estar cientes desses riscos. 

4.3.4 Complicações em gestações anteriores 

Com relação às complicações em gestações anteriores, 27,0% das gestantes relataram ter enfrentado algum tipo de complicação, enquanto 35,5% não apresentaram histórico de complicações. Um percentual significativo (37,5%) não forneceu informações sobre esta variável, o que limita a interpretação detalhada dos dados. O estudo de Alves et al. (2017) afirmou que a presença de algum tipo de complicação na gestação tem como prognóstico uma maior incidência de prematuridade. Por isso, a identificação de complicações anteriores é essencial, uma vez que tais fatores podem predispor a gestações de risco e a desfechos adversos, como a prematuridade. 

4.3.5. Hábitos de vida  

No que se dispõe a hábitos e comportamentos maternos quanto ao uso de substâncias, a Figura 3 apresenta dois gráficos que ilustram o uso de substâncias e medicamentos de uso contínuo pelas gestantes durante o período gestacional.  

O primeiro gráfico à esquerda representa o uso de substâncias lícitas, como álcool e tabaco, durante a gestação. Observa-se que 79,6% das gestantes não informaram o uso de tais substâncias. Entre as gestantes que constaram em prontuário, 12,1% negaram fazer uso de substâncias lícitas, enquanto 7,3% reportaram ser tabagistas. Apenas 0,3% das participantes identificaram-se como etilistas, e 0,8% relataram o uso concomitante de álcool e tabaco. 

Esses dados destacam que, embora a maioria das gestantes não relatem o uso de substâncias lícitas durante a gravidez, uma proporção considerável ainda mantém o hábito de fumar. Isso é especialmente preocupante, pois, conforme apontado por Souza e Botelho (2011), o uso é considerado o fator de risco evitável mais importante para o parto prematuro. 

O segundo gráfico, à direita, mostra a frequência de gestantes que fazem uso de medicamentos de uso contínuo. Aproximadamente 47,4% das gestantes relataram não ter informado sobre o uso de medicamentos. Entre as participantes que responderam a essa questão, 38,8% afirmaram utilizar, enquanto 13,9% declararam não fazer uso de medicamentos regulares. 

O uso de medicamentos contínuos durante a gestação é um aspecto relevante, pois pode indicar a presença de comorbidades crônicas que necessitam de monitoramento constante, como hipertensão, diabetes ou doenças autoimunes, como indica o estudo de Dos Santos et al. (2013).   

Desta forma, a análise dos hábitos maternos indica que, apesar de muitas gestantes não relatarem o uso de substâncias, há indícios de subnotificação e falhas no pré-natal. Isso ressalta a necessidade de uma abordagem educativa e preventiva mais eficaz para garantir uma gestação segura e saudável. 

4.3.6 Sorologias  

Além de hábitos, outros aspectos que se fazem necessários na triagem neonatal são a presença de sorologias positivas entre as gestantes no momento da entrada na maternidade e sua relação com a classificação de risco gestacional.  

Quanto a isso, as sorologias avaliadas incluem sífilis, HIV, toxoplasmose e citomegalovírus (CMV), além de categorias para ausência de sorologias e para casos em que as informações não foram informadas. Observa-se que 17 gestantes apresentaram sorologia positiva para sífilis, o que representa um risco significativo devido ao potencial de transmissão vertical e complicações gestacionais associadas a essa infecção, como verificado por De Lima et al. (2020). Em relação ao HIV, apenas uma gestante foi identificada com sorologia positiva, indicando uma baixa prevalência na amostra, mas, ainda assim, uma condição que requer manejo clínico especializado para prevenir a transmissão materno-infantil. Para toxoplasmose e CMV, foram registrados dois e um casos positivos, respectivamente. Embora a frequência seja baixa, essas infecções podem ter sérias repercussões para o feto e, portanto, demandam um acompanhamento cuidadoso. 

A maioria das gestantes (134) não apresentou nenhuma sorologia positiva, indicando a ausência de infecções relevantes no momento da admissão. No entanto, destaca-se que uma parcela significativa dos registros (243) não apresentou informações sobre a presença ou ausência de sorologias. Essa ausência de informações pode prejudicar a identificação precoce de riscos e a adoção de medidas preventivas adequadas. 

Em síntese, a análise das condições clínicas e sorológicas das gestantes destaca a necessidade de um acompanhamento mais rigoroso no pré-natal, especialmente na coleta de informações essenciais. A elevada taxa de registros incompletos sugere falhas no sistema de saúde, comprometendo a detecção precoce de riscos e o cuidado integral das gestantes. 

4.3.7 Comorbidades 

Quanto ao manejo, a identificação dos dados relativos às comorbidades e complicações gestacionais presentes é essencial para o desenvolvimento de estratégias de acompanhamento e intervenção durante o pré-natal. Desta forma, o presente estudo avaliou estas condições nos prontuários, com o objetivo de identificar fatores de risco adicionais que possam influenciar negativamente a saúde materno-infantil. 

O Gráfico 2 ilustra a comparação das condições gestacionais entre as gestantes, apresentando as frequências das principais complicações enfrentadas durante a gestação. As condições analisadas incluem anemia, diabetes gestacional, infecção urinária, sangramento vaginal e síndromes hipertensivas. Observa-se que a proporção dos casos de anemia em que não haviam informações foi alta (15,8%), enquanto que 3,3% negaram e apenas 1% afirmaram possuir a condição. Em relação à diabetes gestacional, 1,3% das gestantes indicaram não possuir essa patologia, enquanto 3,1% relataram diagnóstico positivo e 15,6% não forneceram informações. As infecções urinárias foram registradas em 2% das gestantes, com uma alta taxa de não informadas (16,1%). O sangramento vaginal foi reportado por 2,5% das gestantes, com 10,2% informando a ausência de episódios hemorrágicos. No entanto, uma parcela significativa de registros não apresentou informações (7,4%). As síndromes hipertensivas, uma das complicações mais relevantes durante a gestação, foram confirmadas em 4,9% das gestantes, enquanto 1,5% negaram essa condição e 13,7% não forneceram informações. 

Fonte: Elaboração própria, 2024.

Já o Gráfico 3 apresenta a frequência de comorbidades diversas na amostra estudada. A análise revela que 34,8% das gestantes apresentavam comorbidades anteriores à gestação, enquanto 25,2% não relataram nenhuma condição prévia. Entretanto, a maior parte dos registros (40,1%) não forneceu informações sobre a presença ou ausência de comorbidades, o que limita a avaliação completa do impacto dessas condições nos desfechos gestacionais. 

Gráfico de barras gerado utilizando o pacote ggplot2 através de linguagem r. Fonte: Elaboração própria, 2024.  

O gráfico 4 detalha a frequência de cada comorbidade relatada, evidenciando que a maioria das gestantes que relataram este dado não apresentavam comorbidade prévia, com 95 casos registrados. Em seguida, destaca-se a hipertensão arterial sistêmica (HAS) com 49 casos, e hipotireodismo, com 35 casos. Outras condições como Obesidade (24 casos), ansiedade (17 casos), e diabetes (16 casos) também foram relatadas, embora em menor proporção. Comorbidades menos frequentes, como doenças autoimunes, cardiopatias e distúrbios endocrinológicos, foram registradas esporadicamente, indicando uma baixa prevalência dessas condições na amostra. 

Fonte: Elaboração própria, 2024. 

Esses dados revelam um cenário de múltiplas condições de saúde coexistentes que podem influenciar negativamente a gestação. Além disso, como enfatizado por Oliveira et al. (2016) a presença de comorbidades como hipertensão e diabetes, associada a complicações gestacionais como anemia e infecções urinárias, aumenta a complexidade do manejo clínico e a necessidade de um acompanhamento pré-natal especializado.  

Ainda, quando analisado o perfil etário materno com a comorbidade mais frequente, como a HAS, a Tabela 4 exibe que, no grupo de gestantes com idade entre 18 e 35 anos, 9,6% apresentaram hipertensão arterial, enquanto a maioria (90,4%) não apresentou a condição. No grupo de gestantes com mais de 35 anos, 25% apresentaram hipertensão arterial, em contraste com 75% que não apresentaram a condição. As gestantes menores de 18 anos não apresentaram casos de hipertensão arterial. O valor de p foi 0,0015, indicando uma associação estatisticamente significativa entre a idade materna e a presença de hipertensão arterial sistêmica. Esses achados sugerem que gestantes acima de 35 anos têm uma maior propensão a desenvolver hipertensão arterial durante a gestação, representando um fator de risco importante a ser monitorado durante o pré-natal.  

O que ratifica o estudo de Costa et al., (2021), que afirma que “A maior prevalência de hipertensão crônica se deve ao comprometimento vascular da idade, sendo esta também a contribuinte para a deterioração da função miometrial, assim como outros quadros que podem desencadear complicações na gestação”, como o maior risco de pré-eclâmpsia (PE), aumento das taxas de cesarianas, descolamento prematuro da placenta, complicações perinatais, além, de claro, o risco de um nascimento prematuro. 

Análise chi-square considerando significante p<0,05. Fonte: Elaboração própria, 2024. 

Em resumo, a análise das comorbidades e complicações gestacionais na amostra destaca a necessidade de atenção especial às gestantes com condições crônicas e o seguimento de políticas de saúde para garantir acompanhamento contínuo no pré-natal. Corroborando o estudo de De Pina et al., que afirma que é fundamental prevenir complicações e promover a saúde materno-infantil, reduzindo os riscos associados durante a gestação. 

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Os resultados destacam a complexidade das associações entre fatores maternos, comorbidades e desfechos gestacionais, como a prematuridade. A idade materna está significativamente ligada à hipertensão arterial sistêmica, enquanto diabetes e obesidade também são comuns em casos de prematuridade. Embora a raça não tenha mostrado associação significativa com o risco gestacional, as comorbidades maternas são um fator importante a ser monitorado, oferecendo um panorama das condições de saúde das gestantes e seu impacto nos desfechos perinatais. 

Em conclusão, as dificuldades em estabelecer associações estatísticas neste estudo foram causadas pelo preenchimento inadequado dos prontuários, prejudicando a qualidade dos dados. Para futuras pesquisas, é crucial garantir a padronização e a completude das informações, o que resultará em análises mais confiáveis e melhorará a qualidade do atendimento e a compreensão das condições de saúde da população. 

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CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA
Amanda Mariana Juliani: elaboração do manuscrito, discussão, resultados e edição.
Maria Eduarda Seguro Pletsch: elaboração do manuscrito, discussão, resultados e edição.
Sabrina Roesler Tavares: elaboração do manuscrito, discussão, resultados e edição.
Eros Uriel Rodrigues: orientação no processo de discussão e edição.
Bruna Elisa Buhrer: orientação no processo de discussão e edição.


1Graduanda do Curso de Medicina do Centro Universitário Campo Real
Email: med-amandajuliani@camporeal.edu.br
ORCID: https://orcid.org/0009-0001-9973-3057 

2Graduanda do Curso de Medicina do Centro Universitário Campo Real
Email: med-mariapletsch@camporeal.edu.br
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-4460-414X

3Graduanda do Curso de Medicina do Centro Universitário Campo Real
Email: med-sabrinatavares@camporeal.edu.br
ORCID: https://orcid.org/0009-0002-8478-8159

4Médico e  Mestre, Docente dos cursos de saúde do Centro Universitário Campo Real
Email: prof_erosrodrigues@camporeal.edu.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7570-119X

5Médica e Docente dos cursos de saúde do Centro Universitário Campo Real
Email: prof_brunabuhrer@camporeal.edu.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3015-5404