REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512051118
Juliana de Lima Tavares1
Layra Christina de Souza Rabelo2
Pedro Vitor das Neves Ramos3
Orientador(a): Profª. Dra. Polyana Vargas Teixeira4
Resumo: O estudo aborda determinantes associados à prevalência de gravidez na adolescência em Rondônia, uma região da Amazônia Ocidental. O estudo tem como objetivo analisar os determinantes sociodemográficos, obstétricos e de saúde associados à prevalência da gravidez na adolescência em Rondônia (2019–2024), identificando tendências epidemiológicas, desfechos obstétricos e lacunas nas políticas públicas voltadas à prevenção da gestação precoce. Consiste em uma pesquisa quantitativa descritiva, com base em dados secundários do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), envolvendo adolescentes de 10 a 19 anos. Os resultados esperados visam analisar a prevalência de gravidez na adolescência e características sociodemográficas. Posto que, a realidade das comunidades de Rondônia é distinta de outros estados, com condições de vida e de acesso a serviços de saúde diferentes. O estudo ajuda a entender como esses fatores influenciam a incidência da gravidez na adolescência, uma vez que representou cerca de 120 em cada 1000 meninas de 10 a 19 anos, em 2023, no cenário nacional, de acordo com o DATASUS, revelando particularidades do contexto local. Os resultados indicam que a baixa escolaridade, a desigualdade de gênero, a iniciação sexual precoce e normas culturais que naturalizam a maternidade precoce são determinantes. Espera-se, portanto, a elucidação dos conhecimentos acerca da gravidez na adolescência, conjecturando consolidar e organizar os conhecimentos existentes sobre o fenômeno, propondo áreas para futuras investigações, a sensibilização da educação e projeção de políticas públicas, no qual a divulgação dos achados deste estudo pode aumentar a percepção entre os profissionais de saúde e a comunidade acerca do tema.
Palavras-chave: Gravidez na adolescência. Vulnerabilidade em saúde. Planejamento familiar. Educação sexual.
Abstract: This study examines the determinants associated with the prevalence of adolescent pregnancy in Rondônia, a region of the Western Amazon. The objective is to analyze the sociodemographic, obstetric, and health-related factors linked to adolescent pregnancy in the state from 2019 to 2024, identifying epidemiological trends, obstetric outcomes, and gaps in public policies aimed at preventing early pregnancy. This is a descriptive quantitative study based on secondary data from the Department of Informatics of the Unified Health System (DATASUS), involving adolescents aged 10 to 19 years. The expected results include assessing the prevalence of adolescent pregnancy and its main sociodemographic characteristics, considering that the social and healthcare realities of communities in Rondônia differ from those of other Brazilian states. According to DATASUS, adolescent pregnancy accounted for approximately 120 cases per 1,000 girls aged 10 to 19 nationally in 2023, underscoring particularities relevant to understanding the local context. The findings indicate that low education levels, gender inequality, poverty, early sexual initiation, and cultural norms that normalize early motherhood are key determinants. This study is expected to contribute to a deeper understanding of adolescent pregnancy by consolidating existing evidence, identifying knowledge gaps, and highlighting priorities for future research, as well as informing educational initiatives and public policy development. Dissemination of these findings may enhance awareness among healthcare professionals and the broader community regarding this issue.
Keywords: Adolescent pregnancy. Health vulnerability. Family planning. Sexual education.
1. INTRODUÇÃO
A gravidez na adolescência é um tema de grande relevância social e de saúde pública, pois envolve questões físicas e emocionais para os jovens e os bebês envolvidos. O fenômeno pode ter diversas causas, como falta de informação sobre métodos contraceptivos, dificuldades no acesso a cuidados de saúde, além de fatores socioculturais e econômicos.
O relatório da OMS divulgado em 2018 revelou que o Brasil registrou 59 nascimentos de bebês de mães adolescentes para cada mil meninas de 15 a 19 anos, com base em dados de 2016 avaliados pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). (ASSIS et al., 2021). Assim, verifica-se que o Brasil está acima da média global, estimada em 41,3 nascimentos a cada mil adolescentes, evidenciando a persistência do problema, especialmente em regiões com menor infraestrutura e acesso desigual aos serviços de saúde.
A promoção de educação sexual, o acesso a métodos anticoncepcionais e o apoio psicológico para prevenir a gravidez precoce e garantir que as jovens possam tomar decisões informadas e responsáveis sobre sua saúde reprodutiva. A maior parte dos métodos contraceptivos pode ser empregada por adolescentes, desde que se leve em consideração as limitações pessoais e a habilidade de adaptação ao método escolhido. Entretanto, os métodos contraceptivos mais comuns entre adolescentes são o uso de preservativos e o método de retirada, seguidos pelos anticoncepcionais orais combinados. (FEBRASGO, 2019).
No contexto da Amazônia Ocidental, essas desigualdades tornam-se ainda mais evidentes. Estados como Rondônia enfrentam um conjunto de obstáculos específicos, diferenciando-se da média nacional, como barreiras geográficas, escassez de serviços especializados, deficiências na educação sexual nas escolas e forte influência de fatores culturais e religiosos. Esses elementos contribuem para a manutenção de padrões de vulnerabilidade social que favorecem a prevalência de gestações precoces e dificultam o acesso das adolescentes a políticas de prevenção eficazes. De acordo com dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC/DATASUS), entre 2019 e 2024, a proporção de nascimentos de mães adolescentes em Rondônia reduziu-se de 14,8% para 13,3%, mas ainda permanece acima da média nacional observada no mesmo período, que foi de aproximadamente 11,8%.
Compreender os motivadores da gravidez na adolescência neste contexto permite elaborar estratégias hábeis de prevenção, compreendendo políticas de saúde pública e educação, uma vez que tem impacto direto no índice de morbimortalidade materna, que é um indicador crucial ao desenvolvimento do país. O trabalho pode evidenciar a necessidade de políticas públicas específicas que contemplem essas questões.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA:
Consoante ao que conceitua a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adolescência é um período que compreende-se entre 10 a 19 anos de idade. A adolescência é uma etapa da vida de transição entre a infância e a adultícia com transformações nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais (DOURADO, 2020).
Estatísticas nacionais e internacionais evidenciam impactos negativos significativos da gravidez precoce sobre o desenvolvimento educacional na adolescência, dificultando a inserção das jovens mães no mercado de trabalho, resultando na manutenção do círculo vicioso da pobreza e no aumento das desigualdades no mercado de trabalho. No mundo, a gravidez em adolescentes menores de 15 anos é considerada gravidez de risco, principalmente em relação à mortalidade materna (BRASIL, 2022).
De acordo com dados do Ministério da Saúde, nas jovens de 15 a 19 anos, a probabilidade de mortes relacionadas a gravidez ou parto é duas vezes maior do que nas mulheres de 20 anos ou mais. Para aquelas menores de 15 anos, esse risco é aumentado em cinco vezes (BRASIL, 2022).
Um dos aspectos mais relevantes na análise da gravidez na adolescência é o contexto socioeconômico em que a jovem está inserida. A falta de acesso a informações adequadas sobre saúde reprodutiva, aliada à escassez de políticas públicas eficazes, contribui para o aumento dos índices de gestação precoce. Além disso, a evasão escolar é um fator determinante, pois adolescentes que não frequentam a escola regularmente estão mais expostas a relações sexuais desprotegidas e a comportamentos de risco (AVELINO; ARAÚJO; ALVES, 2021).
2.2 VULNERABILIDADE EM SAÚDE
A abordagem mais característica da vulnerabilidade procura desvendar como dinâmicas sociais e culturais mais abrangentes, em conexão com aspectos individuais, criam condições que acrescentam a possibilidade de certos perigos e ameaças concretizarem-se (OVIEDO, 2015).
De acordo com Bertolozzi (2009), o conceito de vulnerabilidade em saúde perpassa o risco meramente biológico e adentra em questões sociais, econômicas e culturais; a vulnerabilidades então permeiam o campo individual, com fatores biológicos e psicológicos; social, como acesso a saúde e baixa escolaridade; e programáticas, onde se discute a efetividade das políticas públicas vigentes.
A gravidez na adolescência resulta de uma combinação de fatores interligados. Por exemplo, questões culturais desempenham um papel importante, como a sexualização precoce de meninas, a violência sexual e a prática do casamento infantil – o que é evidenciado pelo fato de o Brasil estar entre os países com maior número de casamentos infantis, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023).
Além desses aspectos, fatores socioeconômicos, como a pobreza, a baixa escolaridade e a desigualdade de gênero, aumentam a vulnerabilidade dos jovens. Soma-se a isso a dificuldade de acesso tanto a informações qualificadas sobre saúde sexual e reprodutiva quanto a métodos contraceptivos, além do início precoce da atividade sexual na adolescência (FIOCRUZ, 2023).
2.3 PLANEJAMENTO FAMILIAR
O planejamento Familiar é um direito de todos garantido pela Constituição Federal na Lei nº 9.263, de 12 de janeiro de 1996, que regulamenta a instituição do programa em todo território federal (BRASIL, 1996).
É um conjunto de ações em que são oferecidos todos os recursos (assistência), para que as pessoas tenham direito a fazer sua escolha reprodutiva e de ter acesso a informações qualificadas e seguras, além de terem acesso aos meios e métodos para atingir seus objetivos. (COORDENAÇÃO DE SAÚDE DA MULHER, 2021)
2.4 EDUCAÇÃO SEXUAL
A educação sexual é uma estratégia essencial para a promoção da saúde sexual e reprodutiva de adolescentes, contribuindo para o atraso da iniciação sexual, o uso correto de métodos contraceptivos e o fortalecimento da autonomia na tomada de decisões sobre a vida reprodutiva (FEBRASGO, 2019).
Programas de educação sexual eficazes devem abordar não apenas métodos contraceptivos, mas também temas como consentimento, identidade de gênero, afetividade e direitos sexuais, promovendo competências socioemocionais que favoreçam escolhas conscientes pelos adolescentes (UNESCO, 2018).
A promoção da educação sobre a gravidez precoce também deve englobar o aspecto psicológico. Para Bergamaschi e Praça (2008), a gravidez na adolescência pode se sobrepor à crise da adolescência, pois exige, além de todo um mecanismo para reestruturar a sua identidade, ao abandonar o papel e os padrões infantis. A gravidez, ocorrendo nessa fase da vida, aciona uma nova busca para redefinição de papéis, com novos conflitos capazes de acarretar uma maior desestruturação da personalidade, articulada com mudanças orgânicas e psíquicas.
A integração da educação sexual com políticas de saúde pública é fundamental para reduzir vulnerabilidades sociais, promover o protagonismo juvenil e garantir que adolescentes possam exercer seus direitos reprodutivos de forma segura e responsável (WHO, 2019).
3. METODOLOGIA
O presente estudo adota uma abordagem metodológica quantitativa descritiva, com abordagem retrospectiva, realizado a partir de dados secundários provenientes de fontes oficiais do Ministério da Saúde, disponíveis no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). O estudo teve como objetivo analisar os determinantes associados à prevalência de gravidez na adolescência no estado de Rondônia, localizado na Amazônia Ocidental, no período de 2019 a 2024.
As informações foram obtidas por meio do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), disponível na plataforma TABNET/DATASUS. Dados complementares sobre indicadores sociodemográficos foram consultados no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para caracterizar o contexto populacional e regional.
Foi adotado como um critério populacional do estudo todas as adolescentes residentes no estado de Rondônia, com idade entre 10 e 19 anos, que tiveram filhos registrados no SINASC entre 1º de janeiro de 2019 e 31 de dezembro de 2024. Foram incluídos todos os registros válidos de nascidos vivos de mães adolescentes, independentemente do desfecho gestacional ou tipo de parto.
Como benefício científico e social, esta pesquisa pretende contribuir com a comunidade acadêmica e médica, especialmente nas áreas de Medicina de Família e Comunidade (MFC) e Ginecologia e Obstetrícia (GO), fornecendo subsídios atualizados sobre a prevalência e os determinantes da gravidez na adolescência. Ademais, propõe-se a divulgação dos resultados e submissão do estudo em congressos nacionais e internacionais, ampliando a disseminação do conhecimento científico e fomentando o debate sobre estratégias de prevenção e enfrentamento desse fenômeno na Amazônia Ocidental.
O levantamento inicial foi realizado no dia 10 de junho de 2025. As variáveis analisadas incluíram:
- Faixa etária materna: 10-14 anos e 15-19 anos;
- Escolaridade materna: nenhuma, fundamental incompleto, fundamental completo, médio incompleto, médio completo;
- Estado civil: solteira, casada/união estável, outros;
- Número de consultas pré-natal: nenhuma, 1-3, 4-6, 7 ou mais;
- Raça/cor: branca, parda, preta, indígena, amarela;
- Local de ocorrência: hospital, outro estabelecimento de saúde, domicílio, outros.
A coleta de dados foi realizada diretamente no TABNET/DATASUS, utilizando filtros de unidade da federação (Rondônia), período (2019–2024) e faixas etárias específicas. Os dados foram organizados em planilhas no Microsoft Excel 365, onde foi realizada análise quantitativa descritiva. Para fins comparativos, utilizou-se a taxa média nacional disponibilizada pelo DATASUS.
Por se tratar de pesquisa baseada em dados secundários, de domínio público e sem identificação individual, o estudo dispensa submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Ainda assim, foram respeitados todos os princípios éticos que regem a pesquisa científica, assegurando a integridade e confidencialidade dos dados analisados.
4. RESULTADOS
4.1 Prevalência e tendência temporal
Entre os anos de 2019 e 2024, foram registrados 148.802 nascidos vivos no estado de Rondônia, dos quais 22.467 (15,1%) correspondiam a mães adolescentes com idades entre 10 e 19 anos, conforme dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC/DATASUS).
Observou-se uma tendência decrescente na prevalência de gravidez na adolescência durante o período analisado, conforme demonstrado na Tabela 1.
Tabela 1 – Nascidos vivos de mães adolescentes segundo faixa etária, Rondônia (2019–2024)

Fonte: Tabela elaborada pelos autores, 2025. Base de dados SINASC/DATASUS.
Observa-se uma redução de aproximadamente 25,6% na proporção de nascimentos de mães adolescentes em Rondônia entre 2019 e 2024. O declínio foi mais acentuado na faixa etária de 15–19 anos, que apresentou queda de 33,3% no número de nascidos vivos ao longo do período. Já os partos entre meninas de 10–14 anos mostraram leve decréscimo, mantendo-se estáveis em torno de 3% do total de nascimentos de mães adolescentes.
4.2 Distribuição por faixa etária e escolaridade
A maioria das adolescentes grávidas pertence à faixa etária de 15 a 19 anos (em torno de 96,4% dos casos). Quanto à escolaridade, aproximadamente 73% tinham entre 8-11 anos, evidenciando a relação entre baixa escolaridade e maior risco de gravidez precoce, conforme gráfico 1. Estes dados corroboram os achados da FIOCRUZ (2023), que destacam a vulnerabilidade de adolescentes com menor nível educacional.
Gráfico 1 – Distribuição das mães adolescentes (10-19 anos) segundo escolaridade, Rondônia (2019-2024)

Fonte: Gráfico elaborado pelos autores, 2025. Base de dados SINASC/DATASUS.
4.3 Padrão obstétrico
Em relação aos desfechos obstétricos, verificou-se que:
- Tipo de parto: 44,3% dos partos foram vaginais e 55,7% cesarianas;
- Prematuridade: cerca de 12% dos recém-nascidos apresentaram idade gestacional <37 semanas;
- Baixo peso ao nascer: 9% dos bebês nasceram com peso <2.500 g.
- Número de consultas pré-natal: 36% tiveram um acompanhamento de nenhuma a 6 consultas.
Esses indicadores confirmam que a gravidez na adolescência está associada a maior risco de complicações materno-infantis, conforme apontam Matias et al. (2025).
4.4 Determinantes sociodemográficos
De acordo com o período do estudo (2019-2024), os determinantes corroboraram com o perfil populacional rondoniense, sugerindo vulnerabilidade social e evidenciando desigualdades étnicas, dispostos em:
- Estado civil: 56% das mães adolescentes são solteiras;
- Raça/cor: parda é a predominante, com 79,6% dos nascidos vivos;
- Local de ocorrência: os nascimentos nos hospitais correspondem à maior taxa, com 98,9% do total.
5. DISCUSSÃO
A prevalência de gravidez na adolescência em Rondônia entre 2019 e 2024 reflete um fenômeno multifatorial, fortemente condicionado por determinantes sociais, demográficos e culturais. Os resultados revelaram que 15,1% dos nascidos vivos no estado decorreram de mães adolescentes, com tendência de redução de 25,6% ao longo do período. Essa queda acompanha a tendência nacional de diminuição gradual das taxas de fecundidade entre adolescentes, embora Rondônia ainda possua valores superiores à média brasileira, conforme apontado por Costa et al. (2024).
De maneira geral, a taxa de fecundidade na adolescência varia de acordo com a região e está associada à pobreza, educação precária, desemprego e residência em comunidades marginalizadas. Isso torna a análise desse indicador complexa e multifatorial (OMS, 2020).
A redução observada foi mais expressiva na faixa etária de 15–19 anos, o que pode estar relacionado ao avanço das políticas de educação sexual e de ampliação do acesso aos métodos contraceptivos nas redes de atenção básica. No entanto, a manutenção relativa das gestações entre meninas de 10–14 anos reforça a persistência de vulnerabilidades estruturais e a exposição precoce à iniciação sexual. Entre os fatores que parecem contribuir para a manutenção dos índices, destaca-se a “coerção reprodutiva”. Esse tipo de medida desconsidera a autonomia reprodutiva por meio da pressão do cônjuge e família ou do inadequado planejamento reprodutivo, no sentido de negar contracepção ou instituir barreiras de acesso a métodos escolhidos pelas adolescentes (SENDEROWICZ, 2019).
A análise da escolaridade evidenciou que a maioria das mães adolescentes (73%) possuía entre 8 e 11 anos de estudo, o que confirma a relação inversa entre nível educacional e ocorrência de gravidez precoce. Estudos indicam que o afastamento escolar e a ausência de programas de educação sexual efetivos aumentam a vulnerabilidade à gestação não planejada. Esse atraso escolar, combinado à falta de auxílio socioeconômico, pode desencadear o abandono dos projetos educacionais e dificuldades na carreira profissional (SILVA; NAKAGAWA; SILVA, 2020).
Quanto aos desfechos obstétricos, o predomínio de partos cesarianos (55,7%) e a ocorrência de prematuridade (12%) e baixo peso ao nascer (9%) refletem a associação entre gravidez precoce e risco aumentado de intercorrências gestacionais. Esses achados corroboram Matias et al. (2025), que demonstraram maior incidência de complicações obstétricas em adolescentes quando comparadas a mulheres adultas, especialmente em contextos de baixa renda e com número reduzido de consultas de pré-natal. O presente estudo observou que 36% das adolescentes realizaram menos de sete consultas, valor abaixo do recomendado pelo Ministério da Saúde, indicando fragilidades no acompanhamento pré-natal dessa população.
No tocante aos aspectos sociodemográficos, identificou-se que 56% das mães adolescentes eram solteiras, e 79,6% se autodeclararam pardas, características compatíveis com o perfil populacional de Rondônia e com o padrão observado na Amazônia Legal. A maioria das adolescentes com estado civil “solteira” e integrantes de famílias não nucleares apresentou fatores de risco para ocorrência da gravidez precoce, quando comparadas às jovens de famílias formadas por casal de ambos os sexos (SILVA; NAKAGAWA; SILVA, 2020). Esse perfil reforça a influência das desigualdades étnico-raciais e territoriais sobre a ocorrência da gravidez na adolescência, bem como a necessidade de políticas públicas adaptadas às especificidades regionais.
O predomínio de nascimentos hospitalares (98,9%) demonstra a efetividade da rede de atenção obstétrica, embora não necessariamente represente qualidade adequada de assistência pré-natal ou continuidade do cuidado pós-parto.
De modo geral, os resultados indicam que, embora haja avanços na redução das taxas de gravidez na adolescência, persistem determinantes estruturais, como baixa escolaridade, vulnerabilidade social, desigualdade de gênero e acesso limitado à saúde sexual e reprodutiva, que mantêm o problema em níveis preocupantes. Esses achados reiteram a importância de ações intersetoriais voltadas à prevenção da gravidez precoce, com foco em educação, equidade social e fortalecimento da atenção primária. Sendo assim é fundamental que os serviços de saúde ofereçam atendimento qualificado e acolhedor às adolescentes grávidas, respeitando suas escolhas e necessidades, e que as políticas públicas de saúde promovam o acesso universal e equitativo a serviços de saúde sexual e reprodutiva (BRASIL, 2013).
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante da análise dos resultados obtidos e do embasamento teórico apresentado, este estudo evidenciou que a gravidez na adolescência permanece como um importante problema de saúde pública em Rondônia, especialmente em virtude de seus reflexos sociais, econômicos e de saúde materno-infantil. A prevalência de 15,1% de nascidos vivos de mães adolescentes no período de 2019 a 2024 demonstra que, apesar da tendência de redução nos últimos anos, o fenômeno ainda apresenta elevada incidência, principalmente entre jovens de 15 a 19 anos.
Os dados reforçam que os principais determinantes associados à gravidez precoce estão vinculados à baixa escolaridade, vulnerabilidade social, desigualdade de etnia e insuficiência de políticas de educação sexual e reprodutiva. Esses fatores se inter-relacionam, perpetuando ciclos de exclusão e limitando as oportunidades de desenvolvimento social e educacional dessas jovens mães.
Além disso, os indicadores obstétricos revelaram desafios significativos, como a alta proporção de cesarianas (55,7%), ocorrência de prematuridade (12%) e baixo peso ao nascer (9%), associadas a um número insuficiente de consultas pré-natais, o que aponta fragilidades na cobertura e na qualidade do acompanhamento à saúde das gestantes adolescentes. Tais achados corroboram as evidências científicas recentes, como as de Matias et al. (2025), que destacam o risco aumentado de complicações obstétricas e a necessidade de uma assistência integral e humanizada.
Embora o estudo tenha atingido seus objetivos, algumas limitações devem ser consideradas. A análise baseou-se em dados secundários do SINASC/DATASUS, restritos ao estado de Rondônia, o que limita a generalização dos achados para outras regiões da Amazônia. Além disso, a ausência de informações qualitativas sobre aspectos culturais, familiares e de gênero restringe uma compreensão mais ampla sobre as dinâmicas sociais envolvidas.
Por outro lado, este trabalho contribui para a compreensão das especificidades regionais da Amazônia Ocidental, evidenciando a necessidade de políticas públicas integradas que articulem os setores da saúde, educação e assistência social.
Entre as contribuições deste trabalho, destaca-se a sistematização das informações sobre a gravidez na adolescência e a demonstração da necessidade de abordagens intersetoriais que envolvam saúde, educação e família. Dessa forma, os resultados aqui apresentados reforçam a importância de estratégias preventivas culturalmente adequadas à realidade rondoniense, capazes de promover autonomia reprodutiva, inclusão social e melhoria da qualidade de vida das jovens da Amazônia Ocidental, contribuindo para políticas mais eficazes e para o fortalecimento do debate sobre a prevenção da gravidez precoce. Ademais, ressalta-se também a importância de futuras pesquisas qualitativas que explorem dimensões subjetivas do fenômeno, como coerção reprodutiva, dinâmicas familiares e barreiras no acesso aos serviços de saúde, de modo a ampliar a compreensão sobre os determinantes e impactos da gravidez na adolescência.
REFERÊNCIAS
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1Acadêmica do 8º período do curso de graduação em medicina da Universidade
Metropolitana de Rondônia, juliana.tavares1094@gmail.com
2Acadêmica do 8º período do curso de graduação em medicina da Universidade
Metropolitana de Rondônia, layra.rabelo.21@gmail.com
3Acadêmico do 8º período do curso de graduação em medicina da Universidade
Metropolitana de Rondônia, pdrnevess@gmail.com
4Orientadora, Drª. Polyana Vargas Teixeira, Professora do curso de graduação em medicina da Universidade Metropolitana de Rondônia, drapolyana@hotmail.com
