DESAFIOS E AVANÇOS NA ENDODONTIA EM PACIENTES GERIÁTRICOS: UMA REVISÃO DA LITERATURA

CHALLENGES AND ADVANCES IN ENDODONTICS IN GERIATRIC PATIENTS: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202503151107


Ana Beatriz Barbosa Cruz1
Anna Carolina Silva Santos1
Antônio Henrique Braitt2


RESUMO

Nos últimos anos, o aumento da expectativa de vida e o consequente envelhecimento da população trouxeram novos desafios para a área da saúde, especialmente para a odontologia. A odontologia geriátrica, campo dedicado ao cuidado da saúde bucal de idosos, enfrenta uma série de obstáculos relacionados às particularidades dessa faixa etária. Entre os desafios, destacam-se as morbidades associadas ao envelhecimento, o uso prolongado de medicamentos que podem afetar a saúde bucal, e a dificuldade de acesso a tratamentos odontológicos apropriados. À medida que os pacientes envelhecem, várias alterações anatômicas e fisiológicas afetam diretamente o tratamento endodôntico. Dentre as mais comuns está a calcificação dos canais radiculares, que torna o acesso aos mesmos mais difícil e compromete a localização e instrumentação adequadas. A redução do diâmetro dos canais também aumenta a complexidade do tratamento, uma vez que os canais podem estar obliterados ou muito estreitos, o que requer técnicas mais avançadas e um tempo maior de tratamento. Além disso, a fragilidade dos dentes, decorrente de décadas de uso e possíveis desgastes, muitas vezes leva a fraturas coronárias ou radiculares durante o tratamento, exigindo abordagens restauradoras complexas após a terapia endodôntica. 

Palavras Chaves:  Endodontia; Envelhecimento. Geriatria.

ABSTRACT

In recent years, the increase in life expectancy and the consequent aging of the population have brought new challenges to the health area, especially to dentistry. Geriatric dentistry, a field dedicated to the oral health care of the elderly, faces a series of obstacles related to the particularities of this age group. Among the challenges, the morbidities associated with aging, the prolonged use of medications that can affect oral health, and the difficulty in accessing appropriate dental treatments stand out. As patients age, various anatomical and physiological changes directly affect endodontic treatment. Among the most common is the calcification of root canals, which makes access to them more difficult and compromises proper location and instrumentation. Reducing the diameter of the canals also increases the complexity of the treatment, since the canals may be obliterated or too narrow, which requires more advanced techniques and a longer treatment time. In addition, the fragility of the teeth, resulting from decades of use and possible wear and tear, often leads to coronary or root fractures during treatment, requiring complex restorative approaches after endodontic therapy.

KeyWords: Endodontics; Aging; Geriatrics

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, o aumento da expectativa de vida e o consequente envelhecimento da população trouxeram novos desafios para a área da saúde, especialmente para a odontologia. A odontologia geriátrica, campo dedicado ao cuidado da saúde bucal de idosos, enfrenta uma série de obstáculos relacionados às particularidades dessa faixa etária. Entre os desafios, destacam-se as morbidades associadas ao envelhecimento, o uso prolongado de medicamentos que podem afetar a saúde bucal, e a dificuldade de acesso a tratamentos odontológicos apropriados1

Além disso, a condição sócio econômica dos idosos muitas vezes limitam o acesso a cuidados preventivos e curativos. O estado de saúde bucal dos idosos não apenas reflete a história de acesso e uso de serviços odontológicos ao longo da vida, mas também impacta diretamente sua qualidade de vida, incluindo aspectos nutricionais, sociais e emocionais2

Por outro lado, avanços significativos têm sido feitos na área da odontologia geriátrica.

Cassei2 (2000) afirma que tecnologias inovadoras e técnicas de tratamento adaptadas às necessidades dos idosos estão emergindo, visando melhorar a saúde bucal e, consequentemente, a qualidade de vida desta população. A interdisciplinaridade no cuidado, envolvendo odontologistas, geriatras, enfermeiros e outros profissionais da saúde, também tem se mostrado uma eficaz na promoção de um cuidado integral e humanizado. 

A endodontia geriátrica, ramo da odontologia que se dedica ao tratamento endodôntico de pacientes idosos, enfrenta desafios significativos devido às mudanças fisiológicas, anatômicas e patológicas que ocorrem com o envelhecimento. O aumento da expectativa de vida e a maior preservação da dentição natural entre os idosos resultaram em uma demanda crescente por tratamentos endodônticos nessa população. No entanto, as condições de saúde bucal e sistêmica dos pacientes geriátricos, aliadas à complexidade dos tratamentos endodônticos, trazem uma série de dificuldades e peculiaridades que precisam ser abordadas pelos profissionais da área3.

Além disso, o tratamento endodôntico em pacientes geriátricos pode ser influenciado por diversos fatores, como a presença de doenças crônicas, uso de múltiplos medicamentos, alterações na resposta imunológica e dificuldade de acesso a cuidados odontológicos especializados.

Esses fatores podem comprometer a saúde bucal, aumentar a complexidade do tratamento e impactar negativamente os resultados clínicos. Apesar dos avanços tecnológicos e das novas abordagens terapêuticas na endodontia, a aplicação desses avanços em pacientes geriátricos ainda enfrenta desafios significativos4,5.

Diante disso, surge a necessidade de uma revisão da literatura que explore os avanços recentes e os desafios enfrentados na endodontia geriátrica, identificando as melhores práticas clínicas e as lacunas de conhecimento que ainda precisam ser preenchidas. Esta pesquisa se propõe a responder às seguintes questões: Quais são os principais avanços tecnológicos e terapêuticos na endodontia geriátrica? Quais desafios específicos essa área enfrenta no tratamento de pacientes idosos? E, finalmente, quais são as perspectivas futuras para a prática endodôntica geriátrica?

Este trabalho busca explorar tanto os desafios enfrentados quanto os avanços alcançados na odontologia geriátrica, destacando a importância de um cuidado especializado e multidisciplinar para garantir a saúde bucal dos idosos através de uma revisão da literatura e de estudos de caso, pretende-se identificar as melhores práticas e propor estratégias que possam contribuir para a melhoria do atendimento odontológico a essa população, analisando os avanços e os desafios da endodontia aplicada a pacientes geriátricos, por meio de uma revisão de literatura científica, com o intuito de identificar as principais inovações, limitações e recomendações para a prática clínica voltada para essa população.

REVISÃO DA LITERATURA

O aumento da expectativa de vida e o envelhecimento populacional têm gerado um crescente número de pacientes geriátricos que requerem cuidados odontológicos especializados, incluindo procedimentos endodônticos. Com o avanço da idade, a cavidade bucal passa por diversas alterações fisiológicas, como a diminuição da resposta imunológica, redução da vascularização pulpar, calcificação dos canais radiculares e alterações na estrutura dentária, que tornam o tratamento endodôntico mais desafiador. Além disso, os pacientes geriátricos frequentemente apresentam múltiplas morbidades e fazem uso de diversas medicações, o que pode complicar tanto o diagnóstico quanto o tratamento endodôntico6.

O envelhecimento populacional tem trazido novos desafios para diversas áreas da saúde, e a odontologia não é exceção. Na endodontia geriátrica, em particular, o tratamento de pacientes idosos requer uma abordagem diferenciada, considerando as mudanças fisiológicas que ocorrem com o avanço da idade, além das condições sistêmicas frequentemente presentes nessa população. Essas dificuldades impactam diretamente o sucesso dos tratamentos endodônticos, exigindo dos profissionais maior atenção e adaptação às peculiaridades dos pacientes idosos. 

À medida que os pacientes envelhecem, várias alterações anatômicas e fisiológicas afetam diretamente o tratamento endodôntico. Dentre as mais comuns está a calcificação dos canais radiculares, que torna o acesso aos mesmos mais difícil e compromete a localização e instrumentação adequadas. A redução do diâmetro dos canais também aumenta a complexidade do tratamento, uma vez que os canais podem estar obliterados ou muito estreitos, o que requer técnicas mais avançadas e um tempo maior de tratamento. Além disso, a fragilidade dos dentes, decorrente de décadas de uso e possíveis desgastes, muitas vezes leva a fraturas coronárias ou radiculares durante o tratamento, exigindo abordagens restauradoras complexas após a terapia endodôntica7

Outro desafio importante é a presença de doenças sistêmicas comuns na terceira idade, como diabetes, hipertensão e osteoporose. Estas condições podem interferir na capacidade de cicatrização dos tecidos periapicais, aumentando a possibilidade de insucesso terapêutico ou complicações pós-operatórias. Pacientes diabéticos, por exemplo, apresentam uma maior propensão a infecções e a uma recuperação mais lenta após o tratamento8. Já os pacientes hipertensos podem apresentar complicações durante o procedimento devido ao uso de anestésicos com vasoconstritores, o que demanda uma avaliação médica cuidadosa e, em alguns casos, a necessidade de adaptações nas medicações e nas técnicas anestésicas utilizadas.

O uso contínuo de medicamentos por pacientes geriátricos também representa um desafio para a endodontia. Muitos idosos fazem uso de polifármacos para o controle de condições crônicas, o que pode impactar diretamente a saúde bucal e o tratamento endodôntico. Medicamentos como anticoagulantes aumentam o risco de sangramento durante e após os procedimentos, enquanto outros, como os bifosfonatos usados no tratamento da osteoporose, podem dificultar a regeneração óssea e aumentar o risco de necrose óssea em tratamentos que envolvam procedimentos invasivos. Portanto, o endodontista precisa estar atento às interações medicamentosas e aos efeitos colaterais que podem interferir na resposta do tratamento9

Muitos pacientes idosos enfrentam dificuldades no acesso a serviços de saúde especializados, como a endodontia. Problemas de mobilidade, limitações financeiras e a falta de profissionais capacitados para atender essa faixa etária contribuem para o agravamento das condições bucais dos idosos. Esse cenário muitas vezes resulta em diagnósticos tardios e na necessidade de tratamentos mais complexos, o que aumenta os riscos e diminui as chances de sucesso do tratamento endodôntico. Além disso, a falta de conscientização sobre a importância da manutenção da saúde bucal entre os idosos e seus cuidadores também impede a detecção precoce de problemas endodônticos9.

Pacientes idosos também podem apresentar alterações cognitivas e psicológicas que influenciam a adesão ao tratamento. Doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, dificultam a comunicação com o paciente e a compreensão das instruções pós-operatórias, o que compromete a manutenção da higiene bucal e a correta utilização das medicações prescritas. Além disso, o medo e a ansiedade associados ao tratamento odontológico tendem a ser mais frequentes e intensos entre os idosos, o que exige do profissional uma abordagem humanizada e, muitas vezes, o uso de técnicas de sedação ou de manejo da ansiedade para garantir o sucesso do tratamento9.

Outro fator que deve ser levado em consideração é o tempo de recuperação prolongado que muitos pacientes idosos apresentam após procedimentos endodônticos. A cicatrização de tecidos periapicais pode ser mais lenta, e a resposta inflamatória do corpo tende a ser menos eficiente em comparação com pacientes mais jovens. Isso aumenta o risco de complicações e pode demandar um acompanhamento mais próximo e prolongado por parte do endodontista9

A endodontia geriátrica apresenta uma série de desafios que vão desde questões anatômicas e fisiológicas até barreiras sociais e de saúde sistêmica. Superar essas dificuldades requer, por parte dos profissionais, uma constante atualização em novas técnicas e materiais, além de uma abordagem interdisciplinar que considere as condições gerais de saúde do paciente idoso. A integração com médicos e outros profissionais de saúde, bem como a capacitação para lidar com as peculiaridades dos pacientes geriátricos, são fundamentais para garantir o sucesso do tratamento endodôntico e a qualidade de vida dessa população10.

DESAFIOS DA ENDODONTIA GERIÁTRICA 

O envelhecimento populacional traz desafios à endodontia geriátrica devido a alterações anatômicas, fisiológicas e condições sistêmicas comuns em idosos. A calcificação e a redução dos canais radiculares dificultam o acesso e o tratamento, enquanto a fragilidade dental aumenta o risco de fraturas. Doenças como diabetes, hipertensão e osteoporose interferem na cicatrização e exigem adaptações terapêuticas, assim como o uso de medicamentos, como anticoagulantes e bifosfonatos, que elevam os riscos durante os procedimentos. Além disso, barreiras sociais, dificuldade de acesso aos serviços especializados e alterações cognitivas comprometem o diagnóstico precoce e a adesão ao tratamento. A recuperação mais lenta e a maior propensão a complicações requerem atenção prolongada do profissional, que deve estar capacitado para adotar técnicas avançadas, abordagens humanizadas e um trabalho interdisciplinar para garantir o sucesso do tratamento e a qualidade de vida do paciente idoso.

AVANÇOS DA ENDODONTIA GERÁTRICA.

A evolução da odontologia, especialmente nas últimas décadas, tem proporcionado inúmeros avanços em várias áreas, incluindo a endodontia geriátrica. A prática odontológica voltada para o tratamento de pacientes idosos vem se beneficiando de inovações tecnológicas, novos materiais e técnicas, bem como de uma maior compreensão das necessidades específicas dessa população. Esses progressos têm sido fundamentais para melhorar os índices de sucesso nos tratamentos endodônticos e, consequentemente, a qualidade de vida dos pacientes geriátricos.

Um dos principais avanços na endodontia geriátrica está relacionado ao desenvolvimento de novas tecnologias de diagnóstico por imagem. A introdução da tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) revolucionou a prática endodôntica, proporcionando uma visualização tridimensional mais precisa dos dentes e estruturas adjacentes. Para pacientes idosos, em especial aqueles com canais radiculares calcificados ou anatomias complexas, a CBCT permite uma avaliação mais detalhada, facilitando o planejamento do tratamento e a execução de procedimentos mais precisos.  Além disso, a utilização de microscópios operatórios na endodontia tem se tornado uma prática cada vez mais comum. O aumento da visualização proporcionado por esses equipamentos possibilita ao endodontista identificar e tratar micro fraturas, localizar canais adicionais e realizar procedimentos com maior precisão11.

Para pacientes geriátricos, cujas estruturas dentárias frequentemente apresentam alterações anatômicas complexas, essa tecnologia tem sido crucial para o sucesso do tratamento.

Outro avanço significativo diz respeito ao desenvolvimento de novos materiais biocompatíveis para o tratamento endodôntico, que têm melhorado a resposta tecidual e a cicatrização, mesmo em pacientes com condições sistêmicas comprometedoras. Um exemplo marcante é o uso de cimentos à base de MTA (Agregado Trióxido Mineral), que oferecem excelente vedação e propriedades bioativas que promovem a regeneração dos tecidos periapicais. O MTA é particularmente eficaz em tratamentos que envolvem perfurações radiculares, que são situações comuns em pacientes geriátricos com dentes comprometidos.12.

Outro material que tem ganhado destaque é o biocerâmico, uma classe de cimentos endodônticos que oferece alta biocompatibilidade, adesão superior e resistência à umidade, permitindo que o processo de obturação seja mais seguro e durável. Esses materiais têm mostrado resultados promissores na reparação de lesões periapicais em pacientes idosos, cuja capacidade de regeneração tecidual pode estar diminuída devido à idade avançada ou a doenças crônicas12.

Com o envelhecimento, os dentes tornam-se mais frágeis e suscetíveis a fraturas. Nesse sentido, o desenvolvimento de técnicas minimamente invasivas tem sido um grande avanço na endodontia geriátrica.

Procedimentos que preservam a estrutura dental, como a instrumentação rotatória com limas de níquel-titânio (NiTi), são agora amplamente utilizados. As limas NiTi apresentam maior flexibilidade e resistência à fratura, permitindo uma instrumentação eficiente em canais curvos e calcificados, sem causar danos adicionais à estrutura dentária, o que é especialmente relevante para pacientes idosos.

Outra técnica que vem sendo amplamente adotada é o uso de sistemas de irrigação avançada, como a irrigação ultrassônica ativada (PUI – Passive Ultrasonic Irrigation) e a irrigação com pressão negativa (EndoVac). Esses métodos garantem uma limpeza mais eficiente dos canais radiculares, especialmente em áreas de difícil acesso, contribuindo para a eliminação de microrganismos e detritos, fundamentais para o sucesso do tratamento endodôntico em pacientes com saúde bucal comprometida.

Um dos campos mais promissores na endodontia atual é a terapia endodôntica regenerativa, que visa restaurar a vitalidade pulpar e promover a regeneração do tecido periapical. Embora essas terapias estejam ainda em fases de pesquisa e experimentação clínica, já se vislumbram possibilidades de aplicação em pacientes geriátricos. O uso de células-tronco e fatores de crescimento para regenerar a polpa dentária é uma área de estudo que tem potencial para mudar drasticamente o tratamento endodôntico, especialmente em dentes com necrose pulpar ou lesões periapicais em pacientes idosos. Essas terapias podem representar, no futuro, uma alternativa menos invasiva e mais eficiente para a regeneração de tecidos comprometidos pelo envelhecimento. 

A administração da anestesia local em pacientes geriátricos pode ser desafiadora devido a condições sistêmicas como hipertensão ou doenças cardiovasculares.

Nesse sentido, os avanços no desenvolvimento de anestésicos locais com vasoconstritores mais seguros, bem como a introdução de técnicas anestésicas menos invasivas, como a anestesia computacional assistida, têm melhorado a segurança e o conforto do paciente. Essas técnicas permitem um controle mais preciso da dosagem e da distribuição do anestésico, minimizando riscos e garantindo um procedimento mais seguro para o paciente idoso.

Além disso, o aprimoramento no manejo da dor pós-operatória com a utilização de medicamentos analgésicos mais eficazes e com menos efeitos colaterais tem permitido uma recuperação mais confortável e com menos complicações para os pacientes idosos. Esses avanços ajudam a reduzir a ansiedade associada aos procedimentos endodônticos, aumentando a aceitação do tratamento por parte dessa população.

Outro avanço importante que tem beneficiado os pacientes geriátricos é a expansão da teleodontologia. A possibilidade de realizar consultas iniciais ou de acompanhamento de maneira remota tem facilitado o acesso dos idosos aos cuidados odontológicos, especialmente para aqueles com mobilidade reduzida ou que vivem em áreas com poucos profissionais especializados. A teleodontologia permite uma triagem inicial e o monitoramento do tratamento de maneira eficaz, otimizando o tempo e garantindo que os pacientes recebam orientações adequadas antes e após os procedimentos endodônticos.

Os avanços na endodontia geriátrica nos últimos anos têm sido essenciais para melhorar o tratamento de pacientes idosos, proporcionando mais segurança, precisão e eficiência nos procedimentos. Inovações tecnológicas, novos materiais biocompatíveis e a evolução da odontologia, especialmente nas últimas décadas, têm proporcionado inúmeros avanços em várias áreas, incluindo a endodontia geriátrica. A prática odontológica voltada para o tratamento de pacientes idosos vem se beneficiando de inovações tecnológicas, novos materiais e técnicas, bem como de uma maior compreensão das necessidades específicas dessa população. Esses progressos têm sido fundamentais para melhorar os índices de sucesso nos tratamentos endodônticos e, consequentemente, a qualidade de vida dos pacientes geriátricos13.

Um dos principais avanços na endodontia geriátrica está relacionado ao desenvolvimento de novas tecnologias de diagnóstico por imagem. A introdução da tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) revolucionou a prática endodôntica, proporcionando uma visualização tridimensional mais precisa dos dentes e estruturas adjacentes. Para pacientes idosos, em especial aqueles com canais radiculares calcificados ou anatomias complexas, a CBCT permite uma avaliação mais detalhada, facilitando o planejamento do tratamento e a execução de procedimentos mais precisos.  Além disso, a utilização de microscópios operatórios na endodontia tem se tornado uma prática cada vez mais comum. O aumento da visualização proporcionado por esses equipamentos possibilita ao endodontista identificar e tratar micro fraturas, localizar canais adicionais e realizar procedimentos com maior precisão14.

Para pacientes geriátricos, cujas estruturas dentárias frequentemente apresentam alterações anatômicas complexas, essa tecnologia tem sido crucial para o sucesso do tratamento.

Outro avanço significativo diz respeito ao desenvolvimento de novos materiais biocompatíveis para o tratamento endodôntico, que têm melhorado a resposta tecidual e a cicatrização, mesmo em pacientes com condições sistêmicas comprometedoras. Um exemplo marcante é o uso de cimentos à base de MTA (Agregado Trióxido Mineral), que oferecem excelente vedação e propriedades bioativas que promovem a regeneração dos tecidos periapicais. O MTA é particularmente eficaz em tratamentos que envolvem apicificação ou perfurações radiculares, que são situações comuns em pacientes geriátricos com dentes comprometidos13.

Outro material que tem ganhado destaque é o biocerâmico, uma classe de cimentos endodônticos que oferece alta biocompatibilidade, adesão superior e resistência à umidade, permitindo que o processo de obturação seja mais seguro e durável. Esses materiais têm mostrado resultados promissores na reparação de lesões periapicais em pacientes idosos, cuja capacidade de regeneração tecidual pode estar diminuída devido à idade avançada ou a doenças crônicas15.

Com o envelhecimento, os dentes tornam-se mais frágeis e suscetíveis a fraturas. Nesse sentido, o desenvolvimento de técnicas minimamente invasivas tem sido um grande avanço na endodontia geriátrica.

Procedimentos que preservam a estrutura dental, como a instrumentação rotatória com limas de níquel-titânio (NiTi), são agora amplamente utilizados. As limas NiTi apresentam maior flexibilidade e resistência à fratura, permitindo uma instrumentação eficiente em canais curvos e calcificados, sem causar danos adicionais à estrutura dentária, o que é especialmente relevante para pacientes idosos.

Outra técnica que vem sendo amplamente adotada é o uso de sistemas de irrigação avançada, como a irrigação ultrassônica ativada (PUI) e a irrigação com pressão negativa (EndoVac). Esses métodos garantem uma limpeza mais eficiente dos canais radiculares, especialmente em áreas de difícil acesso, contribuindo para a eliminação de microrganismos e detritos, fundamentais para o sucesso do tratamento endodôntico em pacientes com saúde bucal comprometida14.

Um dos campos mais promissores na endodontia atual é a terapia endodôntica regenerativa, que visa restaurar a vitalidade pulpar e promover a regeneração do tecido periapical. Embora essas terapias estejam ainda em fases de pesquisa e experimentação clínica, já se vislumbram possibilidades de aplicação em pacientes geriátricos. O uso de células-tronco e fatores de crescimento para regenerar a polpa dentária é uma área de estudo que tem potencial para mudar drasticamente o tratamento endodôntico, especialmente em dentes com necrose pulpar ou lesões periapicais em pacientes idosos. Essas terapias podem representar, no futuro, uma alternativa menos invasiva e mais eficiente para a regeneração de tecidos comprometidos pelo envelhecimento16

A administração da anestesia local em pacientes geriátricos pode ser desafiadora devido a condições sistêmicas como hipertensão ou doenças cardiovasculares.

Nesse sentido, os avanços no desenvolvimento de anestésicos locais com vasoconstritores mais seguros, bem como a introdução de técnicas anestésicas menos invasivas, como a anestesia computacional assistida, têm melhorado a segurança e o conforto do paciente. Essas técnicas permitem um controle mais preciso da dosagem e da distribuição do anestésico, minimizando riscos e garantindo um procedimento mais seguro para o paciente idoso.

Além disso, o aprimoramento no manejo da dor pós-operatória com a utilização de medicamentos analgésicos mais eficazes e com menos efeitos colaterais tem permitido uma recuperação mais confortável e com menos complicações para os pacientes idosos. Esses avanços ajudam a reduzir a ansiedade associada aos procedimentos endodônticos, aumentando a aceitação do tratamento por parte dessa população.

Os avanços na endodontia geriátrica nos últimos anos têm sido essenciais para melhorar o tratamento de pacientes idosos, proporcionando mais segurança, precisão e eficiência nos procedimentos. Inovações tecnológicas, novos materiais bio compatíveis e abordagens minimamente invasivas têm contribuído para reduzir os desafios associados ao envelhecimento e melhorar os resultados clínicos. Além disso, o desenvolvimento de técnicas regenerativas e o uso da tele odontologia abrem novas possibilidades para o futuro do tratamento endodôntico em pacientes geriátricos. No entanto, para que esses avanços sejam amplamente aplicados, é essencial que os profissionais de saúde bucal estejam constantemente atualizados e preparados para utilizar essas tecnologias de forma adequada, garantindo o melhor atendimento possível para essa população em crescimento.

DISCUSSÃO. 

O envelhecimento populacional é uma realidade global que impõe novas demandas e desafios para diversas áreas da saúde, incluindo a odontologia. Na endodontia geriátrica, a necessidade de um atendimento especializado para pacientes idosos é evidente, uma vez que essa população apresenta características bucais e sistêmicas que impactam diretamente o planejamento e a execução dos tratamentos endodônticos. Com base na revisão da literatura realizada, é possível identificar tanto os desafios quanto os avanços que têm influenciado a prática clínica nessa área.

Entre os principais desafios enfrentados na endodontia geriátrica, destacam-se as alterações anatômicas que ocorrem nos dentes com o passar dos anos. A calcificação dos canais radiculares, mencionada em diversos estudos17, representa um obstáculo significativo para o acesso e a instrumentação adequados dos canais, aumentando a complexidade dos tratamentos. Essas alterações, associadas à fragilidade dos dentes decorrente de décadas de desgaste, tornam o procedimento endodôntico em idosos mais suscetível a falhas e fraturas radiculares.

Além disso, a presença de morbidades, como diabetes e hipertensão, é um fator crítico que pode interferir no processo de cicatrização periapical18. A literatura revela que pacientes com essas condições apresentam uma resposta inflamatória reduzida, o que pode comprometer o sucesso do tratamento endodôntico e demandar um acompanhamento mais intensivo por parte dos profissionais de saúde.

A literatura revisada também ressalta a importância de considerar o impacto das doenças sistêmicas na prática endodôntica geriátrica. Como observado por Ruscin e Sunny19, pacientes idosos frequentemente utilizam múltiplos medicamentos para controlar condições crônicas, como anticoagulantes e bifosfonatos, que podem interferir na capacidade de cicatrização e aumentar o risco de complicações durante o tratamento. Esse fator exige que o endodontista esteja atualizado sobre as interações medicamentosas e ciente dos cuidados necessários ao tratar esse grupo de pacientes.

Apesar dos desafios mencionados, a endodontia geriátrica tem se beneficiado de avanços tecnológicos que estão transformando a forma como os tratamentos são conduzidos. A introdução de novas tecnologias de imagem, como a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT), tem sido amplamente elogiada pela literatura. A CBCT oferece uma visualização tridimensional detalhada, permitindo um diagnóstico mais preciso e o planejamento adequado dos tratamentos, especialmente em casos de canais calcificados ou dentes com anatomias complexas20.

Além disso, o uso de microscópios operatórios e limas de níquel-titânio (NiTi) tem facilitado a instrumentação de canais difíceis, reduzindo o risco de fraturas dentárias e promovendo resultados mais eficazes em pacientes idosos, por serem menos invasivos, preservando a integridade das estruturas dentárias, um benefício crucial em pacientes geriátricos21.

Outro avanço notável destacado na literatura é o desenvolvimento de novos materiais biocompatíveis, como o MTA (Agregado Trióxido Mineral) e os cimentos biocerâmicos, que têm mostrado excelentes resultados em termos de vedação e biocompatibilidade13.

Esses materiais promovem uma melhor resposta tecidual, acelerando a cicatrização e aumentando a taxa de sucesso dos tratamentos endodônticos, especialmente em pacientes idosos com condições sistêmicas que dificultam a regeneração periapical.

Embora as terapias regenerativas ainda estejam em fase experimental, alguns estudos sugerem que essas técnicas podem, no futuro, oferecer alternativas menos invasivas para o tratamento de lesões pulpares e periapicais em pacientes geriátricos. O uso de células-tronco e fatores de crescimento para promover a regeneração da polpa dentária representa um avanço promissor que pode revolucionar o tratamento endodôntico nessa população22.

A literatura revisada aponta ainda para a importância da integração interdisciplinar no tratamento de pacientes idosos22. A colaboração entre dentistas, médicos e outros profissionais de saúde é fundamental para o sucesso do tratamento endodôntico, considerando que os pacientes geriátricos muitas vezes apresentam condições sistêmicas complexas que exigem uma abordagem conjunta. Essa integração pode facilitar o diagnóstico precoce de problemas odontológicos e garantir que o tratamento seja adaptado às necessidades individuais do paciente.

Em síntese, os desafios da endodontia geriátrica são inegáveis e refletem as mudanças anatômicas, sistêmicas e sociais próprias do envelhecimento. No entanto, os avanços tecnológicos e a inovação em materiais têm proporcionado melhorias significativas na prática clínica, aumentando as chances de sucesso nos tratamentos endodônticos de pacientes idosos. A revisão da literatura sugere que, para enfrentar os desafios e aproveitar ao máximo os avanços disponíveis, é crucial que os profissionais de saúde bucal se mantenham atualizados e busquem uma abordagem multidisciplinar e personalizada para cada paciente geriátrico. Essa combinação de tecnologia, inovação e cuidado humanizado será fundamental para garantir uma melhor qualidade de vida para a população23.

CONCLUSÃO. 

Ao longo deste trabalho, buscou-se abordar os avanços e os desafios que envolvem a endodontia geriátrica, uma área em crescente relevância devido ao envelhecimento populacional e à maior demanda por tratamentos especializados nessa faixa etária. Observou-se que os avanços tecnológicos e científicos, como a evolução dos materiais endodônticos, técnicas minimamente invasivas e o uso de imagens tridimensionais, têm contribuído significativamente para o sucesso dos tratamentos em pacientes idosos.

Por outro lado, os desafios persistem, especialmente no que diz respeito às peculiaridades biológicas e fisiológicas dos pacientes geriátricos, como a fragilidade dentária, condições sistêmicas de saúde e dificuldades no acesso aos tratamentos. Tais fatores tornam imprescindível uma abordagem individualizada, que considere tanto as limitações físicas quanto as necessidades emocionais e psicológicas dessa população.

Portanto, conclui-se que, embora os avanços tecnológicos tenham proporcionado melhorias notáveis na endodontia geriátrica, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

A formação de profissionais capacitados, o desenvolvimento de novas pesquisas focadas nas especificidades do envelhecimento e a acessibilidade aos tratamentos são fundamentais para superar os desafios ainda presentes. Dessa forma, a endodontia geriátrica se apresenta como uma área promissora, que está evoluindo para atender às demandas de uma população idosa cada vez mais numerosa e com expectativas crescentes de qualidade de vida.

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1Acadêmicas do Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI);
2Cirurgião Dentista, Especialista e Mestre em Endodontia. Professor de Endodontia Clínica do Curso de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI). Coordenador do Curso de Especialização em Endodontia Do Instituto Excellence (Ilhéus), email: henrique_braitt@terra.com.br