CARING FOR CAREGIVERS: THE ROLE OF THE PRECEPTOR IN SUPPORTING THE MENTAL HEALTH OF FAMILY AND COMMUNITY MEDICINE RESIDENTS IN LIGHT OF THE PRINCIPLES OF BRAZIL’S UNIFIED HEALTH SYSTEM (SUS)
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601211438
Daniel Borges Gomes da Rosa1
RESUMO
A residência em Medicina de Família e Comunidade configura-se como um espaço formativo intenso e marcado por demandas assistenciais e emocionais que impactam a saúde mental dos residentes. Nesse contexto, o preceptor exerce papel central não apenas como formador técnico, mas como mediador de acolhimento, escuta e suporte emocional. Este artigo analisa o papel do preceptor no cuidado à saúde mental dos residentes de MFC à luz dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), com ênfase na humanização, integralidade e equidade. Trata-se de uma revisão integrativa de literatura com publicações entre 2019 e 2024, selecionadas nas bases SciELO, PubMed e BVS. Os resultados evidenciam que práticas preceptoras sensíveis às vulnerabilidades psíquicas dos residentes atuam como fator protetor contra ansiedade, depressão e Burnout, favorecendo vínculos éticos e ambientes pedagógicos saudáveis. Estratégias como supervisão reflexiva, mentorias estruturadas, espaços de escuta coletiva e integração com a rede de saúde mental do SUS demonstraram efetividade na promoção do bem-estar e na qualificação do processo formativo. Conclui-se que cuidar de quem cuida é necessidade ética, pedagógica e política, demandando corresponsabilidade institucional e fortalecimento do papel do preceptor enquanto agente de cuidado integral.
Palavras-chave: Saúde Mental; Residência Médica; Medicina de Família e Comunidade; Humanização; Sistema Único de Saúde (SUS).
1. INTRODUÇÃO
A Residência em Medicina de Família e Comunidade (RMFC) se constitui como espaço formativo intenso, desafiador e, por vezes, extenuante, podendo impactar negativamente a saúde mental dos residentes. A sobrecarga emocional, a exigência de produtividade e a responsabilidade assistencial precoce são fatores que contribuem para quadros de ansiedade, depressão e Burnout nesse público (LIMA et al., 2022). Diante desse cenário, o papel do preceptor como figura formadora e cuidadora ganha relevância, sendo crucial para a promoção do acolhimento e do cuidado em saúde mental durante o processo de formação.
O Sistema Único de Saúde (SUS) estabelece como diretrizes fundamentais a integralidade, a equidade, a humanização e o cuidado centrado na pessoa (BRASIL, 1990). Tais princípios orientam não apenas o cuidado aos usuários, mas também o modo como os profissionais em formação são acolhidos e acompanhados. O preceptor, ao exercer seu papel formador, deve também atuar como promotor de um ambiente acolhedor, ético e psicologicamente seguro (SOARES et al., 2021).
O cuidado com a saúde mental dos residentes não pode ser desvinculado da lógica do cuidado integral do SUS. Um ambiente de preceptoria que favoreça o diálogo, o suporte emocional e a escuta ativa contribui para o desenvolvimento de competências clínicas e humanas, ao mesmo tempo em que previne o adoecimento psíquico (COSTA et al., 2023). Assim, torna-se imperativo refletir não apenas sobre os problemas, mas sobretudo sobre estratégias de melhoria que qualifiquem esse processo.
2. Objetivos
Este artigo tem como objetivo analisar o papel do preceptor no acolhimento da saúde mental dos residentes de Medicina de Família e Comunidade, à luz dos princípios do SUS. Especificamente, pretende-se:
Investigar como o vínculo entre preceptores e residentes impacta o bem-estar psíquico destes;
- Compreender como os princípios da humanização, equidade e integralidade são aplicados na preceptoria;
- Apontar estratégias de fortalecimento do cuidado emocional no cenário da RMFC, com foco em soluções práticas.
3. Metodologia
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com levantamento de artigos publicados entre 2019 e 2024 nas bases SciELO, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Utilizaram-se os descritores: “preceptoria”, “saúde mental”, “residência médica”, “medicina de família e comunidade” e “acolhimento”. Foram incluídos artigos em português e inglês, com acesso completo, que abordassem a relação entre preceptores e saúde mental de residentes em contexto de atenção primária.
A análise dos dados foi feita por meio de leitura crítica dos textos selecionados e categorização temática das evidências conforme os objetivos do estudo. Foram priorizadas produções científicas com enfoque na prática da preceptoria e em políticas públicas em saúde.
4. Discussão e Resultados
A literatura demonstra que a presença de um preceptor sensível às vulnerabilidades psíquicas dos residentes é um fator protetor contra o adoecimento mental. Estudos recentes evidenciam que relações preceptoras pautadas na empatia e no apoio emocional reduzem os índices de exaustão e promovem maior sensação de pertencimento e segurança no trabalho (MARTINS et al., 2021).
Além disso, os preceptores que incorporam os princípios do SUS à prática formativa favorecem a construção de vínculos ético-afetivos com os residentes. A humanização no ensino, baseada na escuta e na corresponsabilização, promove um ambiente de aprendizado mais saudável e participativo (FERREIRA et al., 2020).
A integralidade do cuidado, outro pilar do SUS, deve ser refletida não apenas no cuidado com os usuários, mas também na forma como os residentes são acolhidos em suas múltiplas dimensões: afetiva, emocional, cognitiva e ética. Isso exige do preceptor um olhar ampliado e competências relacionais, muitas vezes negligenciadas nos processos formativos (BARROS et al., 2023).
Com base na literatura revisada, é possível identificar estratégias concretas para qualificar o cuidado à saúde mental dos residentes:
- Supervisão reflexiva e mentorias estruturadas: encontros regulares entre preceptor e residente que permitam discutir não apenas aspectos técnicos, mas também emocionais do processo de formação.
- Espaços institucionais de escuta: rodas de conversa, grupos de apoio e atividades de descompressão conduzidas pelos preceptores, fortalecendo a dimensão coletiva do cuidado.
- Capacitação continuada do preceptor: treinamentos em saúde mental, oficinas de comunicação empática e práticas de educação permanente.
- Integração com a rede de saúde mental do SUS: articulação com CAPS, psicólogos institucionais e demais serviços de apoio para acompanhamento dos residentes que demandem maior suporte.
- Promoção da corresponsabilidade institucional: envolver coordenação, tutores e gestores na criação de políticas de cuidado ao residente, evitando que a responsabilidade recaia exclusivamente sobre o preceptor.
Estudos apontam que quando essas estratégias são implementadas de maneira sistemática, há melhora tanto no desempenho clínico quanto na satisfação dos residentes, além de redução significativa de sintomas relacionados ao burnout (ALMEIDA et al., 2022; RIBEIRO et al., 2021).
5. Conclusão
O preceptor, quando alinhado aos princípios do SUS, atua não apenas como transmissor de conhecimento técnico, mas como figura fundamental no cuidado com a saúde mental dos residentes. Sua atuação sensível e ética, baseada na escuta e no acolhimento, contribui para a formação de médicos mais humanos, reflexivos e preparados para os desafios da atenção primária.
Mais do que identificar problemas, é necessário avançar em soluções. O presente trabalho propõe a construção de um guia de estratégias de apoio à saúde mental dos residentes, a ser utilizado por preceptores no contexto da RMFC. Esse produto busca oferecer um conjunto de práticas viáveis, baseadas em evidências e alinhadas aos princípios do SUS, para fortalecer a preceptoria como espaço de cuidado e formação integral.
O cuidar de quem cuida é, portanto, uma necessidade ética, pedagógica e política no âmbito da formação em saúde, exigindo compromisso compartilhado entre instituições, preceptores e residentes.
Referências bibliográficas
ALMEIDA, J. T. et al. Estratégias institucionais para promoção da saúde mental na residência médica: uma revisão narrativa. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 46, n. 3, p. e052, 2022. https://doi.org/10.1590/1981-5271v46.3-20220120
BARROS, F. N. et al. Preceptoria em medicina de família: acolhimento e formação em tempos de sofrimento psíquico. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 27, e220212, 2023. https://doi.org/10.1590/interface.220212
BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Lei Orgânica da Saúde. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 set. 1990.
COSTA, L. M. et al. Saúde mental na residência médica: desafios e perspectivas para uma formação humanizada. Saúde em Debate, v. 47, n. 136, p. 530-543, 2023. https://doi.org/10.1590/0103-1104202313617
FERREIRA, M. B. G. et al. Humanização na residência médica: percepções de residentes e preceptores da atenção primária. Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, n. 11, p. 4475-4484, 2020. https://doi.org/10.1590/1413-812320202511.11802018
LIMA, D. A. et al. Burnout em residentes de Medicina de Família: prevalência e fatores associados. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 17, n. 44, p. 3093, 2022. https://doi.org/10.5712/rbmfc17(44)3093
MARTINS, T. C. et al. Saúde mental e formação médica: análise da relação entre sofrimento psíquico e preceptoria na atenção primária. Revista de APS, v. 24, n. 3, p. 571- 580, 2021.
RIBEIRO, M. R. et al. Formação médica e saúde mental: o papel da escuta e do cuidado docente. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 45, n. 1, p. e105, 2021.
1Médico Residente em Medicina de Família e Comunidade (2024–2026), Programa de Residência Médica em MFC, Hospital Geral, Cuiabá – MT, Brasil.
