DENTAL CARE FOR PATIENTS UNDERGOING HEMATOPOIETIC STEM CELL TRANSPLANTATION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202509171432
Maria Eduarda Moura de Sousa1
Bruna Herrera Sciarini2
Levy Anderson Cesar Alves3
RESUMO
A terapêutica oncológica direcionada às neoplasias hematológicas frequentemente inclui o transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH), procedimento que compromete o sistema imunológico e acarreta repercussões significativas na cavidade bucal. O cirurgião-dentista desempenha papel fundamental na prevenção, no diagnóstico e no manejo das manifestações bucais associadas ao tratamento, as quais impactam negativamente a qualidade de vida e os desfechos clínicos. Este estudo teve como objetivo discorrer sobre os principais cuidados odontológicos adotados em pacientes submetidos ao TCTH, ressaltando a importância da atuação odontológica em todas as fases do transplante. A revisão de literatura foi realizada por meio das bases de dados PubMed/MEDLINE®, Scopus®, Google Acadêmico e LILACS, bem como em livros relacionados à área. As manifestações bucais mais prevalentes incluem mucosite oral, candidíase, doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), cárie de radiação, xerostomia, trismo e osteorradionecrose. As intervenções odontológicas envolvem protocolos específicos de prevenção e tratamento, como laserterapia, agentes antifúngicos, corticosteroides tópicos e sistêmicos, saliva artificial e medidas rigorosas de higiene bucal. Dessa forma, com base na literatura consultada, conclui-se que a atuação do cirurgião-dentista é essencial em todas as etapas do TCTH, contribuindo para a redução de complicações, para a melhora da adesão terapêutica e para uma melhor qualidade de vida dos pacientes.
Palavras-chave: neoplasias hematológicas; transplante de células-tronco hematopoéticas; cirurgião-dentista; manifestações bucais.
ABSTRACT
Oncologic therapy targeting hematological neoplasms often includes hematopoietic stem cell transplantation (HSCT), a procedure that compromises the immune system and entails significant repercussions in the oral cavity. The dentist plays a fundamental role in the prevention, diagnosis, and management of oral manifestations associated with treatment, which negatively impact both quality of life and clinical outcomes. The aim of this study was to review the main dental care practices adopted in patients undergoing HSCT, emphasizing the importance of dental involvement throughout all phases of transplantation. The literature review was conducted using the PubMed/MEDLINE®, Scopus®, Google Scholar, and LILACS databases, as well as relevant textbooks in the field. The most prevalent oral manifestations include oral mucositis, candidiasis, graft-versus-host disease (GVHD), radiation-related caries, xerostomia, trismus, and osteoradionecrosis. Dental interventions involve specific prevention and treatment protocols, such as laser therapy, antifungal agents, topical and systemic corticosteroids, artificial saliva, and rigorous oral hygiene measures. Therefore, based on the reviewed literature, it can be concluded that the role of the dentist is essential at all stages of HSCT, contributing to the reduction of complications, improvement in treatment adherence, and enhancement of patients’ quality of life.
Keywords: hematological neoplasms; hematopoietic stem cell transplantation; dental surgeon; oral manifestations.
1 INTRODUÇÃO
O câncer constitui uma das principais causas de mortalidade prematura, sendo estimados cerca de 704 mil novos casos anuais no Brasil no triênio 2023-2025, com maior incidência nas regiões Sul e Sudeste (INCA, 2022).
No campo onco-hematológico, embora menos incidentes que os tumores sólidos, as neoplasias hematológicas apresentam elevada morbimortalidade, com aproximadamente 11.460 novos casos de leucemias, 12.040 de linfomas não Hodgkin, 2.730 de linfoma de Hodgkin e 7.030 de mieloma múltiplo ao ano (INCA, 2022).
Essas doenças representam malignidades originadas de células hematopoiéticas em diferentes estágios de diferenciação, classificadas em leucemias, linfomas e neoplasias de células plasmáticas (INCA, 2022).
O TCTH constitui modalidade terapêutica consolidada para diversas neoplasias hematológicas. O procedimento envolve a mieloablação por quimioterapia em altas doses e/ou radioterapia, seguida da infusão de células progenitoras com o objetivo de restaurar a função hematopoiética (CORRÊA et al., 2023). Ele se divide em três fases: pré-condicionamento, que compreende avaliações clínicas e odontológicas; Condicionamento, caracterizado pelo regime quimioterápico e imunossupressor; e pós-transplante, marcado pela recuperação hematológica e pelo risco de complicações, como infecções e rejeição (CORRÊA et al., 2023).
Dentre as complicações bucais mais relevantes, destacam-se a mucosite oral (MO) e a doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH). A MO é um processo inflamatório decorrente da toxicidade das drogas antineoplásicas, enquanto a DECH consiste em reação imunológica das células do doador contra os tecidos do receptor, podendo manifestar-se de forma aguda ou crônica (SCOPEL; ANGHEBEN, 2021; HEIMLICH, 2023). Ambas comprometem a qualidade de vida, aumentam o risco de infecções secundárias e podem dificultar a adesão ao tratamento (FERREIRA et al., 2023).
Nesse contexto, a atuação do cirurgião-dentista mostra-se indispensável em todas as fases do TCTH, contribuindo para a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento das complicações bucais. Tal abordagem reduz intercorrências, melhora a qualidade de vida, favorece a adesão ao tratamento e auxilia na diminuição do tempo de internação e dos custos assistenciais (SANTOS et al., 2023).
Sendo assim, este estudo tem por objetivo revisar a literatura acerca da importância dos cuidados odontológicos em pacientes submetidos ao TCTH, destacando manifestações bucais, estratégias de manejo e a relevância da atuação multiprofissional no cuidado onco-hematológico.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 ASPECTOS HISTOFISIOLÓGICOS DO SISTEMA HEMATOPOIÉTICO
O sangue é um tecido vital originado no sistema hematopoiético, responsável pela produção e regulação dos elementos celulares, pela manutenção da homeostase e pela defesa imunológica. Ele é constituído por plasma e elementos figurados — eritrócitos, leucócitos e plaquetas — que representam cerca de 45% do volume sanguíneo (SILVERTHORN, 2017).
Os eritrócitos, ou hemácias, destacam-se pelo transporte de gases respiratórios por meio da hemoglobina; apresentam formato bicôncavo, são anucleados e têm vida média de 120 dias, sendo removidos principalmente no baço (HALL; HALL, 2023; SILVERTHORN, 2017).
Todas as células sanguíneas derivam da célula-tronco hematopoiética pluripotente, localizada na medula óssea. Esta caracteriza-se como tecido altamente celular, com estroma composto por fibroblastos, macrófagos, adipócitos e matriz extracelular, além de apresentar intensa vascularização e células em diferentes estágios de maturação (BORELLI, 2017).
O comprometimento funcional da medula pode levar à falência hematopoiética, de origem congênita ou adquirida, frequentemente associada a neoplasias hematológicas como leucemias, linfomas e neoplasias plasmocitárias. O tratamento inclui quimioterapia com agentes mieloablativos e citotóxicos, associado ou não à radioterapia, bem como o TCTH, que visa restaurar a função medular. Este pode ser autólogo, alogênico (parentado ou não) ou singênico. As fontes doadoras incluem medula óssea, sangue periférico ou cordão umbilical, sendo que neste último as células são coletadas após o nascimento e armazenadas (CORRÊA et al., 2023).
2.2 O PAPEL DA ODONTOLOGIA NO TCTH
Estima-se que cerca de 80% dos pacientes submetidos ao TCTH apresentem complicações bucais, as quais podem impactar significativamente a qualidade de vida e o prognóstico do tratamento (FERREIRA et al., 2023).
O TCTH é dividido em três fases: pré-condicionamento, condicionamento e pós-transplante, cada uma com especificidades clínicas e demandas odontológicas próprias (CORRÊA et al., 2023).
Na fase pré-condicionamento, a prioridade consiste na eliminação de focos infecciosos e na promoção da saúde bucal antes do início da terapia antineoplásica, visto que esta induz imunossupressão e aumenta a suscetibilidade a infecções oportunistas. O tratamento odontológico deve ser realizado com antecedência suficiente para permitir adequada cicatrização, preferencialmente em intervalo de 2 a 3 semanas antes do início da terapia. Quando tal prazo não é possível, as intervenções devem ser planejadas conforme os ciclos quimioterápicos, respeitando o período de NADIR, caracterizado por intensa mielossupressão e pancitopenia (FERREIRA et al., 2023).
Na fase de condicionamento, o regime quimioterápico utiliza agentes citotóxicos mieloablativos capazes de induzir mielossupressão aguda. Devido à toxicidade não seletiva, esses fármacos afetam também tecidos de alta taxa mitótica, como a mucosa oral, ocasionando complicações em até 70% dos pacientes (INCA, 2022; HEIMLICH, 2023).
Por fim, na fase pós-TCTH, subdividida em fase aguda (até 100 dias) e crônica (após o 101º dia), há lenta reconstituição imunológica e elevada vulnerabilidade a infecções. Nessa etapa, a assistência odontológica deve ser contínua, com enfoque preventivo e investigativo, mediante consultas periódicas a cada 3 a 6 meses. Também há risco aumentado de desenvolvimento de neoplasias malignas, como o carcinoma espinocelular, sobretudo em pacientes com DECH (SANTOS et al., 2023).
2.3 MUCOSITE ORAL (MO)
A mucosite oral acomete aproximadamente 75% dos pacientes submetidos ao TCTH, afetando principalmente mucosas não queratinizadas, como jugal, labial interna, palato mole, ventre da língua e orofaringe (PEREIRA, 2021; HEIMLICH, 2023). Clinicamente, caracteriza-se por eritema, ulcerações, dor e disfagia, comprometendo nutrição, qualidade de vida e prognóstico do tratamento.
Sua fisiopatologia envolve cinco fases inter-relacionadas — iniciação, sinalização, amplificação, ulceração e cicatrização — mediadas por citocinas pró-inflamatórias e mecanismos de retroalimentação positiva, resultando na destruição da camada basal epitelial e submucosa (PRADO et al., 2024).
A gravidade da MO é padronizada pela Escala de Toxicidade Oral da OMS, variando de grau 0 (ausência de lesão) a grau 4 (dependência de nutrição parenteral) (BELL; KASI, 2025). O manejo envolve estratégias preventivas e terapêuticas integradas, incluindo higiene bucal rigorosa, remoção prévia de focos infecciosos, crioterapia, fotobiomodulação, hidratação adequada e uso de enxaguatórios suaves, podendo reduzir em mais de 25% a gravidade da MO (CORRÊA et al., 2023).
2.4 DOENÇA DO ENXERTO CONTRA O HOSPEDEIRO (DECH)
A DECH ocorre em transplantes alogênicos quando linfócitos T do doador atacam tecidos do receptor, podendo manifestar-se de forma aguda ou crônica (SCOPEL; ANGHEBEN, 2021). A forma crônica é mais prevalente na cavidade bucal, apresentando-se como eritema, ulcerações, sinais liquenoides, disfunção glandular, mucoceles, estrias brancas e áreas escleróticas, frequentemente associadas a dor, hipossalivação e limitação de abertura bucal (FELEMBAN et al., 2024).
O manejo odontológico inclui corticosteroides tópicos, medidas de suporte (hidratação, dieta branda, saliva artificial), antifúngicos profiláticos, flúor tópico e monitoramento clínico periódico com biópsias estratégicas (SANTOS et al., 2023).
2.5 CANDIDÍASE ORAL
A candidíase oral é frequente em pacientes imunossuprimidos submetidos ao TCTH, principalmente devido à neutropenia e às alterações da mucosa oral (HARRIOTT; NOVERR, 2011; CLEMENTE, 2023). Trata-se de infecção oportunista causada principalmente por Candida albicans, decorrente do desequilíbrio entre hospedeiro e microrganismo.
O manejo depende da gravidade: casos leves podem ser tratados com antifúngicos tópicos (nistatina, miconazol), enquanto quadros extensos ou recorrentes exigem terapia sistêmica (fluconazol, itraconazol). Também devem ser adotadas medidas de higiene bucal, cuidados com próteses e correção de fatores locais, como xerostomia (BEZINELLI; EDUARDO, 2017).
2.6. HERPES SIMPLES
O vírus herpes simples tipo 1 (HSV-1), principal agente das lesões bucais, permanece latente nos gânglios sensitivos e pode reativar-se em situações de imunossupressão, como no TCTH, produzindo ulcerações extensas e dolorosas (FERREIRA et al., 2023).
O tratamento deve ser precoce, idealmente nas primeiras 48 horas ou na fase prodrômica, utilizando antivirais sistêmicos (aciclovir, valaciclovir, fanciclovir), associados ou não à analgesia e terapia tópica. Profilaxia antiviral está indicada em pacientes com histórico de reativações frequentes (CLEMENTE, 2023).
2.7 CÁRIE DE RADIAÇÃO
A cárie de radiação é comum em pacientes submetidos à radioterapia ou TCTH, apresentando rápida progressão e afetando principalmente regiões cervicais e incisais. Sua etiologia está associada à xerostomia e à hipossalivação induzidas pela terapia (MARTINS et al., 2025).
O manejo inclui higiene bucal rigorosa, uso de enxaguatórios fluoretados, agentes remineralizantes, materiais restauradores com flúor e acompanhamento odontológico periódico (SANTOS-SILVA et al., 2015; GUPTA et al., 2015).
2.8. OSTEORRADIONECROSE DOS MAXILARES
A osteorradionecrose dos maxilares ocorre após radioterapia com doses ≥50 Gy, sendo caracterizada por necrose óssea, exposição do osso, dor, trismo e comprometimento da remodelação devido à redução da vascularização local (MORAES, 2025).
O tratamento inclui prevenção com remoção de focos infecciosos, terapias conservadoras ou cirúrgicas e antibioticoterapia quando há infecção secundária (BOMFIM et al., 2022).
2.9 TRISMO
O trismo radioinduzido resulta da fibrose dos músculos mastigatórios após radioterapia, comprometendo a mastigação, a fala e a higiene bucal(HENZ et al., 2018).
O tratamento envolve fisioterapia com exercícios ativos e passivos, dispositivos auxiliares, laserterapia, uso de toxina botulínica ou pentoxifilina, de acordo com a gravidade do caso (BOMFIM et al., 2022).
2.10 ALTERAÇÕES SALIVARES
A xerostomia e a hipossalivação são frequentes em pacientes submetidos ao TCTH devido à toxicidade da quimioterapia ou da radiação ionizante, reduzindo a proteção da mucosa, a lubrificação, a digestão, a percepção do paladar e a função antimicrobiana da saliva (SILVA, 2024; DINIZ et al., 2024).
O manejo inclui uso de sialogogos para estimular a secreção, saliva artificial, lubrificantes tópicos, pastilhas ácidas não erosivas e sem açúcar, gengibre cristalizado, além de terapias complementares como acupuntura e eletroestimulação das glândulas salivares (SANTOS et al., 2023).
3 METODOLOGIA
O presente trabalho consiste em uma revisão de literatura, com a finalidade de discorrer sobre os principais cuidados odontológicos adotados em pacientes submetidos ao TCTH, ressaltando a importância da atuação odontológica em todas as fases do transplante. As informações presentes neste trabalho foram obtidas por meio de plataformas de pesquisas e bases de dados como PubMed/MEDLINE®, Scopus®, Google Acadêmico e LILACS. Para realização das pesquisas foram utilizados os descritores indexados na plataforma DECS/MESH: neoplasias hematológicas; transplante de células-tronco hematopoéticas; cirurgião-dentista; manifestações bucais. Os critérios de inclusão foram: artigos científicos, dissertações, monografias, livros e trabalhos de conclusão de curso relacionados ao tema discutido.
4 DISCUSSÃO
O presente estudo evidencia a relevância da atuação odontológica no contexto do transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH), especialmente diante da complexidade das manifestações bucais associadas a esse procedimento. Nos últimos anos, avanços significativos ocorreram na compreensão da fisiopatologia das complicações bucais e no desenvolvimento de estratégias de prevenção e manejo. A literatura mais recente tem destacado a mucosite oral (MO) e a doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH) como complicações de maior impacto clínico, não apenas pela dor e desconforto, mas também pela associação com aumento de risco infeccioso e comprometimento da adesão terapêutica (PEREIRA et al., 2021; PRADO et al., 2024).
A MO, em particular, permanece como uma das intercorrências mais prevalentes, acometendo até 75% dos pacientes submetidos ao TCTH. Estudos atuais reforçam o papel da fotobiomodulação como ferramenta eficaz para a prevenção e o controle da sintomatologia, mitigando a gravidade das lesões e acelerando a cicatrização (HEIMLICH, 2023).
Além disso, protocolos combinados de higiene bucal, crioterapia e acompanhamento odontológico periódico têm demonstrado resultados promissores, minimizando os impactos negativos na qualidade de vida e no tempo de internação hospitalar (CORRÊA et al., 2023; SANTOS et al., 2023).
No que se refere à DECH, observa-se que as manifestações bucais crônicas, como lesões liquenoides, hipossalivação e fibrose tecidual, estão cada vez mais relacionadas a limitações funcionais severas, como disfagia e trismo. Publicações recentes reforçam a necessidade de protocolos interdisciplinares que integrem terapêutica tópica, profilaxia antifúngica e acompanhamento oncológico, de forma a reduzir a progressão da doença e evitar complicações sistêmicas (FELEMBAN et al., 2024; SCOPel; ANGHEBEN, 2021).
Outro ponto relevante é o impacto da candidíase oral e das infecções herpéticas, que se apresentam de maneira recorrente em pacientes imunossuprimidos. Revisões atuais indicam que a profilaxia antifúngica e antiviral deve ser incorporada rotineiramente à conduta odontológica no período pós-transplante, em especial durante a fase aguda de imunossupressão, quando a vulnerabilidade às infecções oportunistas é mais elevada (FERREIRA et al., 2023; CLEMENTE, 2023).
A xerostomia e a hipossalivação, resultantes da toxicidade medicamentosa e da radioterapia, também constituem desafios crescentes. Estratégias não farmacológicas, como o uso de sialogogos naturais, saliva artificial e técnicas de estimulação glandular, têm sido exploradas como alternativas seguras e bem toleradas, alinhadas às diretrizes de cuidado humanizado em oncologia (DINIZ et al., 2024; SILVA, 2024).
Dessa forma, a atuação odontológica deve ir além da abordagem clínica pontual, assumindo caráter preventivo, educativo e interdisciplinar. Evidências recentes reforçam que a presença do cirurgião-dentista em equipes multiprofissionais de transplante contribui para a redução de custos hospitalares e do tempo de internação, além de melhorar a experiência do paciente durante o tratamento (SANTOS et al., 2023). Nesse sentido, a odontologia hospitalar consolida-se como área estratégica no cuidado integral de pacientes onco-hematológicos, alinhada às políticas de saúde que valorizam a qualidade de vida e a segurança terapêutica.
Portanto, a literatura dos últimos cinco anos confirma que a incorporação sistemática do cirurgião-dentista em todas as fases do TCTH é indispensável. Tal atuação não apenas previne complicações, mas também favorece a integralidade do cuidado, reforçando o caráter multiprofissional do tratamento oncológico contemporâneo.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As neoplasias hematológicas afetam o sangue periférico, a medula óssea e os linfonodos, tendo no transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) uma terapia eficaz, embora o uso de drogas antineoplásicas e radiação ionizante cause danos ao sistema estomatognático, comprometendo qualidade de vida, prognóstico e adesão ao tratamento; nesse contexto, a atuação multiprofissional, especialmente do cirurgião-dentista, é fundamental para prevenir, diagnosticar e tratar lesões bucais em todas as fases, garantindo saúde bucal, integralidade do cuidado e melhor acompanhamento clínico a longo prazo.
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1Discente do Curso de Odontologia da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) – Campus Centro e-mail: maria.eduarda.moura.de.sousa@uscsonline.com.br
2Discente do Curso de Odontologia da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) – Campus Centro e-mail: bruna.sciarini@uscsonline.com.br
3Docente e Gestor Adjunto do Curso de Odontologia da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) – Campus Centro e Professor Titular do Curso de Odontologia da Universidade Paulista (UNIP). Pós-doutorado em Ciências Odontológicas (Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo -USP). e-mail: levy.alves@online.uscs.edu.br
