CONSUMO DE ERVA-MATE (ILEX PARAGUARIENSIS A. ST.-HIL) NO COMBATE A DEPRESSÃO

CONSUMPTION OF HERBA MATE (ILEX PARAGUARIENSIS A. ST.-HIL) TO FIGHT DEPRESSION

CONSUMO DE HERBA MATE (ILEX PARAGUARIENSIS A. ST.-HIL) PARA COMBATIR LA DEPRESIÓN

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202502181036


André Ferreira Dias1
Rafael Cardoso Oliveira2
Marilene Ferraz Cavalieri1
Amanda Letícia Rainieri1
Fausto Tatsuo Ichio3
Paula Souza Lage4


RESUMO

Introdução: A depressão, um transtorno do humor de origem multifatorial, manifesta-se por uma complexa interação entre alterações do humor, sintomas cognitivos (tais como preocupações persistentes, comprometimento da capacidade de decisão, ideação suicida e cognições negativas relacionadas à culpa) e sintomas neurovegetativos, que afetam funções biológicas como sono e apetite. Sendo, uma patologia de grande prevalência que altera consideravelmente a qualidade de vida dos indivíduos acometidos. Atualmente, tem se dado abordagem ao tratamento complementar fitoterápico, assim, alguns estudos têm relatado os efeitos benéficos do uso regular da erva mate para o tratamento da depressão, uma vez que essa, apresenta compostos químicos como xantinas e polifenóis, dos quais, apresentam inúmeros benefícios à saúde mental.  Objetivo: Este artigo tem como objetivo descrever e analisar os potenciais efeitos da erva-mate no contexto do tratamento da depressão, revisando as evidências científicas disponíveis sobre seus mecanismos de ação e seus efeitos sobre os sintomas depressivos. Metodologia: Realizou-se uma revisão da literatura científica, com a seleção de artigos publicados em periódicos indexados nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SCIELO), National Library of Medicine/NLM (PubMed) e Google Acadêmico. A busca foi conduzida utilizando [inserir palavras-chave utilizadas], com o objetivo de identificar estudos relevantes sobre os efeitos da erva-mate no tratamento da depressão. Resultados: Os resultados encontrados demonstraram que os principais compostos presentes na erva mate apresentaram propriedades anti-inflamatórias, antidepressivas, antioxidantes e baixa toxicidade. Entretanto, poucos trabalhos foram encontrados. Conclusão: Dessa maneira, o uso regular da erva mate parece apresentar-se relevante e uma alternativa promissora para complementar o tratamento da depressão. 

Palavras chave: Depressão; Tratamento complementar; Erva-mate

ABSTRACT

Introduction: Depression, a mood disorder of multifactorial origin, manifests itself through a complex interaction between mood alterations, cognitive symptoms (such as persistent worries, impaired decision-making ability, suicidal ideation, and negative cognitions related to guilt), and neurovegetative symptoms, which affect biological functions such as sleep and appetite. It is a highly prevalent pathology that considerably alters the quality of life of affected individuals. Currently, there has been an approach to complementary phytotherapeutic treatment, and some studies have reported the beneficial effects of regular use of mate for the treatment of depression, since it presents chemical compounds such as xanthines and polyphenols, which have numerous benefits for mental health. Objective: This article aims to describe and analyze the potential effects of mate in the context of depression treatment, reviewing the available scientific evidence on its mechanisms of action and its effects on depressive symptoms. Methodology: A review of the scientific literature was carried out, with the selection of articles published in journals indexed in the Scientific Electronic Library Online (SCIELO), National Library of Medicine/NLM (PubMed), and Google Scholar databases. The search was conducted using [insert keywords used], with the aim of identifying relevant studies on the effects of mate in the treatment of depression. Results: The results found demonstrated that the main compounds present in mate presented anti-inflammatory, antidepressant, antioxidant properties, and low toxicity. However, few studies were found. Conclusion: Thus, the regular use of mate seems to be relevant and a promising alternative to complement the treatment of depression.

Keywords: Depression; Complementary treatment; Mate

RESUMEN

Introducción: La depresión, un trastorno del estado de ánimo de origen multifactorial, se manifiesta a través de una compleja interacción entre alteraciones del estado de ánimo, síntomas cognitivos (como preocupaciones persistentes, deterioro de la capacidad de toma de decisiones, ideación suicida y cogniciones negativas relacionadas con la culpa) y síntomas neurovegetativos, que afectan funciones biológicas como el sueño y el apetito. Siendo una patología de gran prevalencia que altera considerablemente la calidad de vida de los individuos afectados. Actualmente, se ha dado un enfoque al tratamiento complementario fitoterapéutico, por lo que algunos estudios han reportado los efectos beneficiosos del uso regular de la yerba mate para el tratamiento de la depresión, ya que esta presenta compuestos químicos como xantinas y polifenoles, los cuales presentan numerosos beneficios para la salud mental. Objetivo: Este artículo tiene como objetivo describir y analizar los posibles efectos de la yerba mate en el contexto del tratamiento de la depresión, revisando la evidencia científica disponible sobre sus mecanismos de acción y sus efectos sobre los síntomas depresivos. Metodología: Se realizó una revisión de la literatura científica, con la selección de artículos publicados en revistas indexadas en las bases de datos Scientific Electronic Library Online (SCIELO), National Library of Medicine/NLM (PubMed) y Google Académico. La búsqueda se realizó utilizando [insertar palabras clave utilizadas], con el objetivo de identificar estudios relevantes sobre los efectos de la yerba mate en el tratamiento de la depresión. Resultados: Los resultados encontrados demostraron que los principales compuestos presentes en la yerba mate presentaron propiedades antiinflamatorias, antidepresivas, antioxidantes y baja toxicidad. Sin embargo, se encontraron pocos trabajos. Conclusión: De esta manera, el uso regular de la yerba mate parece presentarse como relevante y una alternativa prometedora para complementar el tratamiento de la depresión.

Palabras clave: Depresión; Tratamiento complementario; Yerba mate

1. INTRODUÇÃO

A depressão é um transtorno mental amplamente prevalente, caracterizado por sentimentos persistentes de incapacidade, irritabilidade, pessimismo, isolamento social e perda de interesse ou prazer em atividades habituais. Além disso, está frequentemente associada à baixa autoestima, déficits cognitivos e comprometimento de funções como memória e raciocínio. Dessa maneira, ocorrem alterações dos afazeres diários como trabalhar, dormir, estudar, comer, socializar, dentre outros. Esta doença é caracterizada por sentimentos negativos e persistentes por pelo menos duas semanas [1,2].  

O transtorno pode afetar as pessoas em qualquer fase da vida e sua incidência vem aumentando em grupos como adolescentes e adultos jovens. Podendo variar em relação ao grau, de leve a grave e na maioria das vezes ocorre esporadicamente, entretanto pode ser recorrente ou crônica. Devido às alterações hormonais principalmente durante a menacme, as mulheres são as mais vulneráveis aos estados depressivos [3].

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 2021 [4] mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão mundialmente. No Brasil, a depressão afeta 5,8% da população, correspondendo a aproximadamente 11,5 milhões de indivíduos. Entre os países da América Latina, o Brasil registra a maior prevalência do transtorno e ocupa a segunda posição nas Américas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, onde a prevalência atinge 5,9% da população [5].

Bioquímicamente, tal patologia pode ser explicada por distúrbios na sinalização serotoninérgica e dopaminérgica [6]. O tratamento farmacológico da depressão geralmente envolve o uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e inibidores da recaptação de serotonina-norepinefrina (IRSN). A seleção do medicamento adequado considera a gravidade dos sintomas e outros aspectos, como potenciais efeitos colaterais e interações medicamentosas [7]. 

Antidepressivos e ansiolíticos, devido à sua ação no sistema nervoso central, podem causar dependência como efeito adverso. Nesse contexto, o uso de medicamentos à base de plantas surge como uma alternativa potencial na terapia farmacológica [8]. Para assegurar a eficácia do tratamento, é necessário considerar fatores que podem atuar como barreiras, tais como a escassez de recursos, a insuficiência de profissionais qualificados e o estigma social relacionado aos transtornos mentais. Além disso, em diversos países, independentemente do nível de renda, indivíduos com depressão frequentemente recebem diagnósticos equivocados, enquanto pessoas sem o transtorno são, por vezes, diagnosticadas de forma inadequada, resultando em intervenções desnecessárias [9]. 

A busca por abordagens terapêuticas baseadas em compostos naturais têm ganhado destaque. As plantas do gênero Ilex são conhecidas por apresentarem uma ampla variedade de compostos bioativos, principalmente polifenóis e alcaloides, dos quais, já foram descritos inúmeros benefícios à saúde [10]. A composição química da erva-mate tem sido amplamente investigada por diversos grupos de pesquisa, que destacam suas propriedades medicinais e nutritivas. Entre os compostos ativos predominantes estão as metilxantinas, como cafeína e teobromina, e os polifenóis, com destaque para o ácido clorogênico. Em concentrações menores, também são encontrados alcaloides de purina (como ácido cafeico, ácido 3,4-dicaffeoilquínico e ácido 3,5-dicaffeoilquínico), flavonoides (como quercetina, kaempferol e rutina), aminoácidos, minerais (fósforo, ferro e cálcio) e vitaminas (C, B1 e B2) [11].  

A erva-mate, obtida das folhas da árvore Ilex paraguariensis, é amplamente consumida como bebida em diversos países da América do Sul, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. O consumo médio anual per capita varia entre 3 kg e 10 kg. O chá de erva-mate tornou-se a principal alternativa ao café e ao chá preto, pois é caracterizado por apresentar diversos benefícios à saúde, como efeitos antimicrobianos, antioxidantes, antiobesidade, antidiabéticos, ansiolíticos e protetores cardiovasculares [10, 12, 13, 14, 15,16]. 

Considerando os impactos negativos da depressão na qualidade de vida, torna-se essencial buscar abordagens complementares que superem as limitações das terapias convencionais. Nesse contexto, a fitoterapia tem se destacado como uma alternativa eficaz e segura, proporcionando benefícios adicionais para indivíduos acometidos por essa condição [9]. 

Nesse contexto, considerando a prevalência da depressão, seus impactos na vida dos indivíduos de maneira geral e as limitações dos tratamentos atuais, é necessário procurar formas complementares para contornar as falhas das terapêuticas convencionais, como o tratamento fitoterápico. Este, pode trazer vários benefícios adicionais. Portanto, objetivou-se com esta revisão de literatura, descrever os efeitos das propriedades químicas metilxantina e polifenóis, presentes na erva-mate para o combate à depressão. 

2. METODOLOGIA

Para a fundamentação teórica deste estudo, procedeu-se à seleção criteriosa de artigos científicos indexados nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SCIELO), National Library of Medicine (PUBMED) e Google Acadêmico, complementada pela consulta a sítios eletrônicos de reconhecida credibilidade científica. Foi definido como critério de inclusão artigos científicos publicados em português e inglês entre os anos de 2014 e 2024 prioritariamente, entretanto caso houvessem dados relevantes anteriores a esse período, estes também foram incluídos. Os seguintes descritores utilizados para pesquisa foram: erva mate, Ilex paraguariensis, metilxantinas, polifenóis, depressão, sistema nervoso central, caffeine, polyphenols, depression, nervous central system. Inicialmente foram encontrados 980 artigos, após utilizar os critérios de inclusão restaram 32 artigos, que foram lidos na íntegra, interpretados e uma síntese das informações foi elaborada.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

As informações extraídas dos artigos revisados foram sistematizadas na Tabela 1, a qual apresenta os seguintes dados: autor e ano de publicação, objetivos, resultados e conclusões de cada estudo.

Tabela 1. Síntese dos trabalhos encontrados relacionando os efeitos dos componentes químicos da Erva-mate e a depressão

TítuloThe biochemistry and technology of tea manufacture [17]
Autor/ anoBokuchava, M. A.; Skobeleva., 1980. 
Descrição do artigoA cafeína, a teofilina e a teobromina são alcalóides purínicos presentes na erva-mate. Dentre esses compostos, a cafeína é o mais abundante e está relacionada com os efeitos estimulantes no sistema nervoso central (SNC), com funções musculares, cardíacas e renais. O efeito no SNC melhora as funções psíquicas e cerebrais, e consequentemente melhora a vigilância e atividades mentais. 
TítuloEffects of caffeine on sleep quality and daytime functioning [18]
Autor/ anoO’Callaghan et  al.,  2014. 
Descrição do artigoA cafeína leva à libertação de dopamina no córtex pré-frontal, o que é consistente com as propriedades de reforço da cafeína. A cafeína também estimula a utilização de glicose no núcleo caudado, que medeia a atividade motora e regula o ciclo sono-vigília. 
TítuloCaffeine [19]
Autor/ anoEvans Justin al., 2024. 
Descrição do artigoEstudo que visa explorar a eficácia da cafeína no tratamento da depressão e dos declínios neurocognitivos, incluindo os observados nas doenças de Alzheimer e Parkinson.
TítuloCaffeine Use Disorder: A Review of the Evidence and Future Implications [20]
Autor/ anoAddicott MA, 2014.
Descrição do artigoDoses baixas a moderadas de cafeína (20 mg-200 mg) produziram um aumento do bem-estar, felicidade, energia, estado de alerta e sociabilidade.
TítuloPercolating ideas: the effects of caffeine on creative thinking and problem solving [21]
Autor/ anoZabelina et al., 2023.
Descrição do artigoAvaliaram os efeitos da cafeína na memória de trabalho e no humor. Um total de 88 participantes (60 mulheres, 28 homens; idade média = 21,6 anos) foram recrutados em um estudo randomizado, estudo duplo-cego, controlado por placebo. Os participantes foram solicitados a indicar em uma escala móvel, de 0 (não em todos) a 100 (muito), até que ponto eles estavam se sentindo felizes, tristes, animados, ansiosos, entediados e concentrados antes e após a ingestão de cafeína. Testes realizados em estados de humor individuais indicaram que indivíduos com cafeína relataram uma diminuição na tristeza após o consumo de cafeína, o grupo controle relatou um aumento na tristeza pós-consumo (p = 0,027).
TítuloNeuroprotective Polyphenols: A Modulatory Action on Neurotransmitter Pathways [22]
Autor/ anoRebas Elzbieta et al., 2020. 
Descrição do artigoFoi demonstrado que os polifenóis exercem um impacto positivo na função do sistema nervoso central através da modulação do metabolismo e da ação de alguns neurotransmissores. Estes apresentam propriedades antidepressivas inibindo a monoamina oxidase levando à elevação dos níveis de 5-HT, dopamina (DA) ou noradrenalina. 
TítuloOn the neuroprotective effects of naringenin: pharmacological targets, signaling pathways, molecular mechanisms, and clinical perspective [23]
Autor/ anoNouri, Z et  al.,  2019. 
Descrição do artigoUm mecanismo pelo qual os polifenóis podem diminuir sintomas de depressão é a ativação da síntese de monoaminas ou receptores 5-HT. Os flavonóides também podem exercem propriedades antidepressivas e neuroprotetoras pela regulação positiva do fator de transcrição – proteína de ligação ao elemento de resposta ao cAMP (CREB) e fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). Como resultado, o aumento total da quantidade de neurônios serotoninérgicos, maturação acelerada e maior concentração de 5-HT número de receptores foi observado, o que finalmente promoveu a sobrevivência neuronal. 

Nos últimos anos, foram observados um aumento no índice de depressão principalmente após a pandemia do Covid-19, com cerca de 52,6% (45.161) dos brasileiros diagnosticados, afetando principalmente mulheres jovens e pessoas com histórico de depressão [23]. 

Os transtornos de ansiedade e depressão representam um significativo problema de saúde pública. Nesse contexto, o acompanhamento nutricional e a fitoterapia emergem como abordagens complementares, e em alguns casos, primárias, especialmente para indivíduos que demonstram intolerância ou baixa responsividade às terapias convencionais [9].  

A produção brasileira de erva-mate concentra-se predominantemente no consumo de bebidas como chimarrão, composto para chimarrão, chá e tererê. No entanto, sua complexa composição química, caracterizada pela presença de compostos orgânicos bioativos, como cafeína, ácidos fenólicos e outros extratos vegetais, sugere um promissor potencial de aplicação em novas áreas, incluindo a elaboração de extratos e concentrados, bem como o desenvolvimento de produtos farmacêuticos para uso na fitoterapia [24]. 

A cafeína (1,3,7-trimetilxantina), um alcaloide fitoquímico pertencente à classe das xantinas, exerce potente ação estimulante sobre o sistema nervoso central (SNC). Embora demonstre efeitos farmacológicos estimulatórios no SNC e existam relatos de sua utilização devido a ações sobre o tecido neural e outros sistemas, sua classificação como droga de uso terapêutico é controversa entre os autores [25]. 

O principal mecanismo de ação da cafeína envolve seus efeitos nos receptores de adenosina no cérebro. Sendo um componente solúvel em gordura e água, a cafeína atravessa facilmente a barreira hematoencefálica e antagoniza todos os 4 subtipos de receptores de adenosina (A1, A2a, A2b e A3). A cafeína apresenta rápida e quase completa absorção pelo trato gastrointestinal, resultando em ampla distribuição tecidual em um período de 30 a 60 minutos. Essa rápida distribuição é atribuída, em grande parte, à sua natureza lipofílica, que facilita a travessia das membranas celulares, incluindo a barreira hematoencefálica [26]. Entretanto, as características individuais podem variar nos processos farmacocinéticos [27]. 

O antagonismo competitivo da cafeína aos receptores de adenosina modula a neurotransmissão no sistema nervoso central (SNC), resultando no aumento da liberação de dopamina e noradrenalina, o que contribui para seus efeitos estimulantes. A adenosina, reconhecidamente um neuromodulador com ação promotora do sono, tem seus efeitos inibidos pela cafeína. A ativação das células REM-OFF noradrenérgicas no locus coeruleus, juntamente com as células REM-OFF histaminérgicas e serotoninérgicas, antagoniza as células REM-ON colinérgicas, promovendo a vigília. O bloqueio dos receptores de adenosina pelas metilxantinas, como a cafeína, induz um estado de alerta e melhora o desempenho em diversas atividades, contudo, esse mecanismo pode acarretar efeitos adversos, como a insônia [28]. 

Após a ingestão oral, a cafeína é rápida e completamente absorvida pela corrente sanguínea, com níveis sanguíneos máximos alcançados em 30 a 45 minutos. A cafeína é metabolizada pelo fígado e excretada pelos rins através da urina. É rapidamente eliminada, com meia-vida típica de quatro a seis horas [19]. 

Com relação aos polifenóis, estes ocorrem naturalmente em frutas, vegetais e algumas bebidas como chá e vinho. São encontrados em diferentes partes da planta: grãos, cascas, raízes, caules, folhas, cascas e flores, dando cor específica às mesmas. Quanto mais flavonoides, mais escura será a planta. Esses representam um grande grupo de fitoquímicos e compreendem lignanas, auronas, calconóides, taninos, curcuminóides, estilbenóides e outros [29]. 

Os efeitos biológicos da erva-mate são atribuídos, principalmente, à sua capacidade de sequestrar ou inibir espécies reativas de oxigênio (EROs) e nitrogênio (ERNs), além de doar elétrons para radicais livres e ativar enzimas antioxidantes endógenas. Esses mecanismos contribuem para a redução do estresse oxidativo e da inflamação, demonstrando um potencial promissor na prevenção de diversas patologias, como diabetes, obesidade, câncer, doenças cardiovasculares, osteoporose e doenças neurodegenerativas, entre outras [30, 31].  

A biodisponibilidade dos compostos fenólicos é limitada pela baixa absorção no intestino delgado, onde apenas uma pequena fração (aproximadamente 5 a 10%) do total ingerido é absorvida. Essa baixa absorção está diretamente relacionada à complexidade estrutural e às características físico-químicas dos diferentes tipos de polifenóis. Antes de serem absorvidos, os compostos fenólicos menos complexos são desglicosilados e passam então por algumas transformações realizadas pelo fígado, envolvendo reações de metilação, glicuronidação e sulfonação para que possam entrar na corrente sanguínea e assim ser distribuído para outros órgãos, dessa maneira sua biodisponibilidade também é baixa [32]

Entretanto, existem muitos polifenóis com ação antidegenerativa e propriedades protetoras agindo por meio de alterações na neurotransmissão. Foi demonstrado que os polifenóis exercem um impacto positivo na função do sistema nervoso central através da modulação do metabolismo e da ação de alguns neurotransmissores [31, 32]. 

4. CONCLUSÕES

Tendo em vista as características antiinflamatórias e antioxidantes presentes nas infusões da planta Ilex paraguariensis, estas, aliadas a baixa toxicidade e fácil disponibilidade deste produto, elucidamos embasamentos científicos que justificam seu emprego como uma viável ferramenta de suplementação alimentar na prevenção e no combate a depressão, evidenciando os possíveis benefícios mentais da ingestão regular da planta. Os fitoterápicos são notáveis fontes no tratamento não medicamentoso dos transtornos de humor, contudo, os profissionais de saúde ainda desconhecem o potencial benefício do uso regular desses agentes, uma vez que há poucas pesquisas relacionadas ao tema. Embora os efeitos biológicos da erva-mate sejam amplamente reconhecidos, o mecanismo molecular subjacente às suas ações no organismo humano ainda carece de completa elucidação, demandando investigações científicas adicionais. Contudo, os resultados obtidos até o presente momento demonstram um potencial promissor e podem contribuir para o aprimoramento do uso da erva-mate, um produto de grande relevância cultural no sul do Brasil.

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1Especialista, Psiquiatria no Hospital Vida- Londrina, Paraná, Brasil.
2Doutor em Ciências Médicas pela FMRP-USP, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil.
3Médico, Hospital Vida, Londrina, Paraná, Brasil.
4Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde: Infectologia e Medicina Tropical. Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais/ UFMG, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.