REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510081719
Jorge Luiz da Silva Alves1
RESUMO
Este artigo propõe uma articulação interdisciplinar entre psicologia analítica, epigenética, neurociência e genética, explorando a forma como heranças biopsíquicas influenciam a constituição subjetiva e a comunicação transgeracional. A partir do conceito de Inconsciente Coletivo de Carl Gustav Jung, dialoga-se com a noção de Eva Mitocondrial e DNA mitocondrial como metáforas arquetípicas da origem comum. A epigenética é proposta como um elo entre experiência e biologia, permitindo que traumas, afetos e predisposições sejam herdados. A memória imunológica é abordada como um análogo biológico da herança de aprendizado. O texto defende a noção de uma “mente do organismo”, modulada por heranças genéticas, epigenéticas e simbólicas, cuja compreensão exige uma abordagem interdisciplinar e integradora.
Palavras-chave: Inconsciente coletivo, epigenética, Eva mitocondrial, trauma transgeracional, memória imunológica, Jung, DNAmt, herança psíquica, neurociência, cultura.
1. INTRODUÇÃO: HERANÇA COMO ENREDO MULTIDIMENSIONAL
A herança humana transcende a mera replicação de sequências de DNA. Envolve camadas simbólicas, psíquicas e ambientais que, juntas, modulam o modo como cada indivíduo sente, reage e interpreta o mundo. A psique humana, desde Jung, é entendida como um campo coletivo, onde arquétipos estruturam vivências e emoções universais. Paralelamente, a biologia moderna revelou mecanismos como o DNA mitocondrial (herança materna) e a epigenética (herança de modificações não genéticas), ambos capazes de carregar, em alguma medida, os traços das vivências ancestrais.
2. O INCONSCIENTE COLETIVO: HERANÇA PSÍQUICA DA HUMANIDADE
Jung concebeu o inconsciente coletivo como uma camada profunda e transindividual da psique, composta por arquétipos — padrões universais que estruturam sentimentos, comportamentos e símbolos ao longo das gerações. Tais arquétipos, como o da “Grande Mãe”, ressoam com experiências primordiais de cuidado, nutrição e origem.
A transmissão transgeracional junguiana não é literal, mas simbólica. Emoções, traumas e complexos familiares não resolvidos podem ser “absorvidos” por gerações subsequentes por meio da participação mystique – um estado de fusão emocional entre a criança e o ambiente familiar.
3. DNA MITOCONDRIAL E EVA MITOCONDRIAL: A UNIDADE ANCESTRAL
A UNIDADE ANCESTRAL O DNA mitocondrial (DNAmt), herdado exclusivamente da mãe, constitui uma linhagem ininterrupta que remonta à chamada Eva Mitocondrial — ancestral comum matrilinear de todos os seres humanos vivos. Estima-se que ela tenha vivido entre 100.000 e 200.000 anos atrás na África. Essa herança biológica direta é também uma poderosa metáfora arquetípica, ressoando com o arquétipo junguiano da origem e da unidade da espécie.
Para o diálogo com o pensamento junguiano, a relevância do DNAmt e da Eva Mitocondrial transcende sua estrutura molecular para se firmar em seu significado simbólico e arquetípico. A Eva Mitocondrial se configura, assim, como a encarnação biológica do arquétipo da Grande Mãe primordial ou da Fonte Original. A persistência de sua linhagem biológica em cada indivíduo humano ressoa profundamente com a universalidade da figura materna como origem da vida e conexão (Scitable by Nature Education). A biologia, nesse sentido, oferece uma prova material de nossa interconexão mais profunda, refletindo e validando a intuição junguiana de uma psique coletiva compartilhada. A ininterrupção da linhagem materna biológica pode, portanto, ser interpretada como um eco da continuidade da psique arquetípica através das gerações.
A figura da Eva Mitocondrial, embora científica, ressoa simbolicamente com o arquétipo da Grande Mãe, representando a origem universal da vida humana. Ela fornece uma base biológica para a noção junguiana de unidade psíquica da humanidade
4. EPIGENÉTICA E A MEMÓRIA DO ORGANISMO
A epigenética é o campo que estuda alterações na expressão gênica provocadas por fatores ambientais sem alteração da sequência do DNA. As principais modificações epigenéticas incluem metilação do DNA, modificação de histonas e regulação por micro-RNAs. Tais mecanismos são cruciais na ativação ou silenciamento de genes conforme as experiências vividas pelo indivíduo. Fatores como estresse tóxico na infância, abuso, negligência emocional e violência familiar podem gerar alterações epigenéticas persistentes que afetam o funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), comprometendo a autorregulação do estresse e a resiliência emocional. Estudos em humanos e animais mostram que experiências traumáticas podem provocar alterações epigenéticas duradouras em genes como NR3C1 (receptor de glicocorticoides) e FKBP5, os quais regulam a resposta ao estresse. Essas modificações não apenas moldam o perfil psíquico e comportamental do indivíduo, como podem ser herdadas por gerações subsequentes, perpetuando a vulnerabilidade a transtornos psiquiátricos, como depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. A epigenética, portanto, constitui um elo dinâmico entre o ambiente vivenciado e a herança que se transmite, sendo um mecanismo central na transgeracionalidade dos traumas.
Rachel Yehuda (2015) demonstrou que descendentes de sobreviventes do Holocausto apresentavam alterações epigenéticas no gene FKBP5, associado à regulação da resposta ao estresse. Resultados semelhantes foram observados em filhos de mães expostas à violência conjugal, com alterações no gene NR3C1, que codifica o receptor de glicocorticoides. A perpetuação desses marcadores epigenéticos indica que experiências emocionais intensas podem ser transmitidas biologicamente a gerações seguintes, comprometendo o desenvolvimento psíquico e neurológico das crianças.
5. MEMÓRIA IMUNOLÓGICA: UM MODELO DE HERANÇA ADAPTATIVA
A memória imunológica é a capacidade do sistema imune de reconhecer e responder mais eficazmente a agentes patogênicos já encontrados. Essa função é sustentada por células T e B de memória, que permanecem no organismo após infecção ou vacinação. Analogamente, o organismo mantém uma memória biológica das experiências adversas por meio da neuroimunoendocrinologia. Este modelo biológico pode ser comparado aos processos psicológicos e epigenéticos que guardam e transmitem experiências anteriores.
Pesquisas mostram que traumas precoces induzem alterações epigenéticas em genes relacionados à inflamação, aumentando os níveis de citocinas pró-inflamatórias como IL-6 e TNF-alfa. Esse estado inflamatório crônico tem sido relacionado ao surgimento de doenças como depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e transtornos autoimunes. Assim, o sistema imunológico também participa da herança adaptativa, como se “lembrasse” do ambiente de ameaça e reagisse com hipervigilância, ainda que o perigo original já tenha passado. Esse legado imunológico pode ser transmitido transgeracionalmente, predispondo os descendentes a reações exageradas ao estresse e à dor emocional.
Essa memória somática, de base imunológica e epigenética, oferece suporte teórico para o entendimento da transmissão transgeracional como um fenômeno biopsicossocial integral, onde corpo, mente e ambiente se entrelaçam na preservação e na expressão de vivências ancestrais.
6. TRAUMA TRANSGERACIONAL: O NÃO-DITO QUE ECOA
O trauma transgeracional refere-se à transmissão de sofrimento psíquico entre gerações. O trauma histórico, como o do Holocausto, foi estudado por Rachel Yehuda, que demonstrou alterações no gene FKBP5 em descendentes de sobreviventes. A transmissão simbólica e biológica do sofrimento cria um elo entre as memórias culturais, a neurobiologia do estresse e os sintomas psíquicos nas gerações futuras. Pode ocorrer de modo consciente, como em narrativas familiares, ou inconscientemente, por meio de silêncios, segredos, identificações projetivas e comportamentos repetitivos. Anne Ancelin Schützenberger denominou esse fenômeno de “síndrome do antepassado” – quando um descendente revive inconscientemente a dor ou o destino de um ancestral. Jung também reconhecia esse padrão em sua teoria dos complexos familiares.
A clínica psicológica revela frequentemente padrões recorrentes de dor e adoecimento que não encontram explicações na biografia individual, mas emergem da constelação familiar. Essas memórias implícitas, muitas vezes corporais, manifestam-se em doenças psicossomáticas, bloqueios emocionais e vínculos afetivos disfuncionais. A psique tenta, por meio do sintoma, dar voz ao não-dito de gerações anteriores.
7. IMPLICAÇÕES CLÍNICAS E PSICOTERAPÊUTICAS
Compreender a transmissão transgeracional implica integrar abordagens que contemplem a história familiar, a memória corporal e os vínculos emocionais. Psicoterapias baseadas no apego, na psicanálise, na psicologia analítica e nas neurociências do trauma, como EMDR, brainspotting e terapias somáticas, têm mostrado eficácia na ressignificação de memórias traumáticas herdadas.
A escuta clínica deve estar atenta às repetições simbólicas e aos padrões familiares que ultrapassam o sujeito. O mapeamento da genealogia emocional permite identificar o sofrimento herdado e restaurar a narrativa. Técnicas como o genograma, constelações familiares e psicodiagnóstico interventivo ajudam a dar sentido à dor e resgatar a autonomia do indivíduo.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A articulação entre inconsciente coletivo, epigenética, memória imunológica e DNA mitocondrial aponta para uma concepção ampliada de herança humana. O ser humano é portador não apenas de genes, mas de histórias emocionais, traumas, afetos e memórias que atravessam o tempo. Essa transmissão se dá por vias simbólicas, psíquicas e biológicas, exigindo da psicologia e da saúde uma abordagem integradora, sensível à complexidade do sofrimento e à historicidade da subjetividade.
Investir em políticas públicas de cuidado precoce, acolhimento psicossocial, educação emocional e enfrentamento da violência é fundamental para interromper os ciclos transgeracionais de adoecimento. A ciência e a clínica, unidas, devem escutar o que ecoa do passado para construir futuros mais conscientes e saudáveis.
REFERÊNCIAS
- JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1993.
- MASPOLI, Alexandre. O trauma transgeracional na cultura, na neurociência e na epigenética. Revista UniAberta, v. 1, n. 3, p. 21-35, 2021.
- SCITABLE BY NATURE EDUCATION. Eva Mitocondrial. Disponível em: https://www.nature.com/scitable. Acesso em: 3 jul. 2025.
- WILKINSON, Margaret. Changing Minds in Therapy: Emotion, Attachment, Trauma and Neurobiology. New York: Norton, 2010.
- SCHÜTZENBERGER, Anne Ancelin. A síndrome dos antepassados. 7. ed. Campinas: Psy, 2016.
- STONEKING, Mark. Mitocôndrias e a evolução humana. Scientific American Brasil, n. 30, 2004.
- YEHUDA, Rachel. Intergenerational effects of trauma exposure: Recent advances in epigenetics. Current Psychiatry Reports, v. 17, n. 7, p. 49, 2015.
- RADTKE, K.M. et al. Transgenerational impact of intimate partner violence on methylation in the promoter of the glucocorticoid receptor gene. Translational Psychiatry, v. 1, p. e21, 2011.
- MASPOLI, Alexandre. Ibidem.
1Faculdade Católica de Rondônia – Psicologia
e-mail: jorge.alves@sou.cfr.edu.br
