MEDICAL COMMUNICATION FOCUSED ON PATIENTS WITH HEARING LOSS IN PRIMARY HEALTH CARE: AN INTEGRATIVE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202601312056
Ana Beatriz Marques de Menezes Jericó1; Arthur Braga Dias de Souza1; Bruno Diniz Ferraz Ribeiro Rodrigues Lima1; Hellen Marques Barbosa1; Saulo Miranda Feitoza Filho1; Silnia Carolina Benevides de Almeida1; Hilze Benigno de Oliveira Moura Siqueira2
Resumo
No cuidado em saúde, a comunicação é essencial para a criação de vínculo entre médico e paciente, embora seja fundamental, torna-se um desafio, especialmente no atendimento a pessoas surdas. Este estudo teve como objetivo investigar a literatura científica para compreender melhor a comunicação médica direcionada a pacientes com deficiência auditiva na Atenção Primária à Saúde. Para isso, realizou-se uma revisão integrativa seguindo os seis passos metodológicos característicos desse tipo de estudo, a fim de responder à pergunta norteadora: quais aspectos estão associados às barreiras de comunicação médica e às estratégias humanizadas para o atendimento de pessoas com deficiência auditiva? Os resultados foram organizados em duas categorias temáticas: barreiras atitudinais, estruturais e culturais que dificultam a compreensão das demandas do paciente, incluindo a ausência de intérpretes, e estratégias humanizadas que facilitam o atendimento. Concluiu-se que a comunicação médica com pacientes surdos ainda se mostra ineficaz devido às múltiplas barreiras existentes, sendo necessário ampliar a formação profissional e desenvolver pesquisas com olhar inclusivo e estratégias humanizadas para essa população no contexto da Atenção Primária à Saúde.
Palavras-chave: Comunicação em Saúde; Pessoas com Deficiência Auditiva; Atenção Primária à Saúde.
1 INTRODUÇÃO
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a deficiência auditiva refere-se a pessoas com perda auditiva, que varia de leve a grave. Pessoas com deficiência auditiva geralmente se comunicam por meio da linguagem falada e podem se beneficiar de aparelhos auditivos, implantes cocleares e outros dispositivos auxiliares, além de legendas (WHO, 2024).
A perda auditiva pode ser leve, moderada, moderadamente grave, grave ou profunda, a qual se manifesta de forma unilateral ou bilateral, entendendo que as pessoas com esses tipos de deficiência auditiva poderão ter alterações na capacidade de comunicação (WHO, 2024; Carvalho, 2024).
A comunicação é essencial para criar vínculos entre os indivíduos e é imprescindível na prática clínica, especificamente na relação médico-paciente. Por meio da comunicação efetiva, pode-se estabelecer uma boa conduta médica, fortalecendo a confiança do paciente e tornando-se um instrumento de humanização no atendimento (Ferreira, 2021).
O Brasil tem 18,6 milhões de pessoas com deficiência, nas quais 1,2% apresentam dificuldade para ouvir, mesmo usando aparelhos auditivos, e 1,1% possuem dificuldade de se comunicar, compreender e serem compreendidas, segundo Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua – PNAD (Brasil, 2023).
Para a garantia dos direitos das pessoas com deficiência, de forma igualitária, foi criada a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, a fim de que elas consigam vivenciar a inclusão social e sua cidadania. Também é assegurado o acesso integral aos serviços de saúde, públicos ou privados, buscando superar toda e qualquer barreira existente, a exemplo da comunicação, a qual deve atender às necessidades da pessoa com deficiência auditiva (Brasil, 2015).
Como meio legal de comunicação e expressão no país, a Lei 10.436/2002 reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras), que viabiliza a melhoria da comunicação e da expressão das pessoas com deficiência auditiva. Tal lei também sustenta que deve ser garantido todo o suporte necessário para essas pessoas, pelas instituições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos de assistência à saúde (Brasil, 2002).
Apesar dos avanços legais, a parcela da população com deficiência auditiva ainda possui seus direitos a assistências à saúde pouco assegurados. Isso porque a deficiência na comunicação entre essas pessoas e profissionais de saúde, especialmente médicos, pode contribuir para alguns prejuízos, como dificuldades de entendimento no decorrer da consulta e anamnese, ruídos na transmissão de informações sobre o estado atual do paciente e tratamentos adjacentes, o que pode afetar diretamente na adesão destes, influenciando o prognóstico, de forma negativa (Condessa et al. 2020).
A pouca qualificação dos profissionais voltada ao atendimento de pacientes surdos é um ponto de atenção na área da saúde, prejudicando diretamente a assistência integral do cuidado, em todas as instâncias do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS), considerada como a porta de entrada da pessoa para todos os serviços (Melo et al., 2024; Nied et al, 2022).
Por isso, entende-se que os profissionais de saúde devem possuir ferramentas e qualificações necessárias para atender às demandas de todos os indivíduos. Nesse cenário, a lacuna na qualificação profissional, infelizmente, continua sendo uma realidade vivenciada por muitos pacientes surdos nos atendimentos. Isso, possivelmente, advém da pouca ou nenhuma habilidade de entendimento sobre LIBRAS dos profissionais de saúde, o que gera barreiras na comunicação, afetando diretamente o entendimento da consulta, diagnósticos e tratamentos, pois os pacientes apresentam dificuldades para esclarecer as suas dúvidas (Santos; Portes, 2019).
O estudo adotou como referencial teórico o conceito de inclusão que, com base na análise de Correia & Ferreira (2025), representa a capacidade de transpor barreiras e transformar o espaço, à medida que se reconhece no outro necessidades legítimas e demandas específicas. No entanto, o processo de inclusão não é executado na Atenção Primária à Saúde, dado que ainda existem fragilidades no cuidado a pessoas com deficiência auditiva, sobretudo relacionadas à ineficiente formação de profissionais da saúde.
Dessa forma, é imprescindível buscar alternativas que auxiliem os profissionais, principalmente médicos, a estabelecerem uma comunicação efetiva com os pacientes com deficiência auditiva, devido às falhas e lacunas supracitadas, que afetam a relação médico-paciente e o manejo do cuidado nessa população.
Diante do exposto, este estudo teve como objetivo explorar a literatura científica para compreender como a comunicação médica voltada a pacientes com deficiência auditiva se apresenta em cenários de Atenção Primária à Saúde, buscando, acima de tudo, analisar quais são as estratégias de humanização que fortalecem a assistência à saúde e a relação médico-paciente.
2 METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa, método cuja finalidade é sintetizar resultados obtidos em pesquisas sobre um tema ou questão, de maneira sistemática, ordenada e abrangente (Ercole et al., 2014), seguindo as etapas recomendadas descritas por Souza et al. (2010), as quais exigem seguir seis passos: 1) identificação da questão de pesquisa, 2) identificação de estudos relevantes na amostra na literatura, 3) seleção dos estudos, 4) extração e análise crítica dos estudos, 5) discussão dos resultados e 6) apresentação do relatório da revisão.
A delimitação de revisão integrativa seguiu a estratégia PICO, que representa População, Intervenção, Comparação e Desfecho (outcomes). Dessa maneira, delimitou-se a população por pacientes com deficiência auditiva; a intervenção pelo atendimento em serviços de atenção primária; a comparação pelas barreiras e estratégias de comunicação; e o desfecho por uma assistência à saúde inclusiva a essa população.
Dessa maneira, definiu-se a problemática por meio da seguinte pergunta norteadora: quais aspectos estão associados às barreiras de comunicação médica e as estratégias importantes no atendimento humanizado às pessoas com deficiências auditivas na atenção básica em saúde? Importante mencionar que a triagem dos estudos ocorreu no período de 9 de abril de 2025 a 15 de abril de 2025, foram realizadas pesquisas nas seguintes bases de dados: PubMed e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), com os respectivos descritores: Comunicação; Pessoas com Deficiência Auditiva; Atenção Primária à Saúde. Considerando-os, foi utilizada a seguinte chave de busca: “Communication” AND “Persons with Hearing Loss” AND “Primary Health Care”. Os critérios de inclusão foram: (1) Ser texto completo disponível na íntegra de forma gratuita. (2) Estarem nos idiomas ingleses ou português. (3) Estar associada aos temas propostos. Os critérios de exclusão foram: (1) Artigos com mais de 5 anos. (2) Tese e dissertação. (3) Estudos não pertinentes à prática médica.
Para a organização e sistematização das informações, desenvolveu-se uma ferramenta de compilação contendo: título, ano de publicação, método e principais resultados encontrados nos artigos. Com as informações organizadas, foi possível delimitar o corpus da revisão.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Como resultado da busca por título, resumo e descritores, encontrou-se 63 publicações, sendo essas 55 da base PubMed e 8 da LILACS. Essas publicações incluindo resumos e artigos nas bases de dados, das quais 48 foram eliminadas após ultrapassar o filtro de até 5 anos de publicação. Dessa forma, restaram 18 artigos, os quais foram qualificados para a leitura na íntegra. Seguiu-se com a análise dos 18 estudos pré-selecionados, dos quais 6 foram excluídos por não terem relação com a área da saúde e serem classificados como dissertação, dessa maneira, 12 artigos foram incluídos na revisão.
A Figura 1 exibe o fluxograma correspondente às ações do processo de seleção das publicações.
Figura 01 – Fluxograma PRISMA com as buscas em bancos de dados.

Os resultados podem ser evidenciados no quadro 01, nele é possível observar que os anos de 2024 e 2023 representam significantemente os anos mais expressivos de publicações, representando, respectivamente, 40% e 20% do total de estudos analisados, o que levanta a teoria de um possível obstáculo que o atendimento de pessoas surdas na atenção primária enfrentou, nas produções científicas, mais próximas do período pandêmico.
Quadro 01: quadro sinóptico dos artigos, confeccionado pelos autores
| Título | Ano | Método | Principais resultados dos estudos |
| Access and communi- cation for deaf individuals in Australian primary care | 2021 | Entrevistas semiestruturadas foram realizadas com oito intérpretes de língua de sinais australiana e quatro surdos, recrutados por organizações e redes sociais. As transcrições foram analisadas por codificação indutiva e dedutiva, seguindo um modelo de acesso à saúde. | Foram identificados fatores do paciente, do provedor e do contexto. Destacaram-se desafios na fluência em inglês e em língua de sinais, variações na adaptação das clínicas, barreiras na comunicação e no uso de intérpretes. Ferramentas visuais e agendamento flexível facilitaram o acesso, mas persistem limitações como a falta de intérpretes e entraves no Seguro de Invalidez. |
| Estratégias utilizadas no atendimento humanizado à pessoa surda na Atenção Primária à Saúde: revisão de literatura | 2024 | Revisão integrativa realizada em outubro de 2023 nas bases LILACS, BDENF, MEDLINE e SciELO, com estudos de 2013 a 2023. Selecionou cinco artigos brasileiros que atenderam aos critérios de inclusão: um da LILACS, um da BDENF e três da MEDLINE. | O presente estudo contribuiu para provar que estratégias durante o atendimento humanizado ao paciente surdo na Atenção Primária à Saúde é uma temática pouco abordada, e vista como um obstáculo no atendimento a esses pacientes. |
| Access to primary healthcare services among adults with di- sabilities in Brazil | 2024 | Entrevistas em profundidade foram realizadas com 44 pessoas com deficiência em Pernambuco, Distrito Federal e São Paulo, entre março de 2020 e novembro de 2021. As transcrições foram codificadas e analisadas tematicamente com base na estrutura de Levesque, visando identificar barreiras no acesso à saúde. | Participantes relataram conhecer suas necessidades de saúde, mas enfrentavam barreiras, especialmente na comunicação de pessoas com deficiência auditiva e visual. A falta de acessibilidade no transporte público, altos custos com medicamentos, escassez de recursos audiovisuais, barreiras atitudinais dos profissionais e visitas domiciliares limitadas dificultavam o acesso aos serviços. |
| Barreiras e facilitadores à comunicação no atendimento de pessoas com deficiência sensorial na atenção primária à saúde: estudo multinível. | 2020 | Estudo transversal multinível com dados de 38.811 unidades de saúde em 5.543 municípios (2012-2013), coletados pelo PMAQ-AB. O desfecho agrupou facilitadores de comunicação (braille, recursos auditivos e visuais, acolhimento especializado). As variáveis contextuais (nível I) incluíram macrorregião, porte populacional e PIB per capita. No nível II (serviço), consideraram-se equipe ampliada, modelo de atenção, turnos, acolhimento, divulgação de horários e acesso físico. Utilizou-se regressão de Poisson multinível com modelagem hierárquica em dois estágios. | A presença de aspectos facilitadores à comunicação é pequena nas unidades de saúde (32,1%), sendo mais frequentes nas unidades localizadas nos municípios com maior PIB (razão de prevalência — RP = 1,02, intervalo de confiança de 95% — IC95% 0,92 – 1,12) e porte populacional (RP = 1,25, IC95% 1,02 – 1,52). |
| Experiências de Saúde Materna de Mulheres Negras Surdas e Com Deficiência Auditiva nos Estados Unidos | 2023 | Entre 2018 e 2019, foram feitas entrevistas semiestruturadas com 67 mulheres DHH que haviam dado à luz nos últimos cinco anos. Este estudo analisou um subgrupo de oito participantes que se identificaram como negras, com entrevistas gravadas, transcritas e analisadas por temas emergentes. | As barreiras relacionadas a dificuldades de comunicação e acesso limitado a informações de saúde, além de desafios para obter acomodações. Como estratégias facilitadores, destacaram-se intérpretes de língua de sinais, apoio familiar e sensibilidade cultural dos provedores. Os participantes reforçaram esses pontos em suas recomendações para provedores e mulheres DHH, ressaltando a importância do reconhecimento da identidade cultural nos cuidados perinatais. |
| Experiências de profissionais de saúde hospitalar no cuidado de pacientes surdos | 2023 | Este estudo qualitativo, com abordagem fenomenológica descritiva, explorou a experiência de profissionais de saúde no atendimento a pacientes surdos. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas presenciais (N=8), complementadas por notas de campo, gravadas em áudio, transcritas e analisadas pelo Método Colaizzi. | Foram identificadas 94 declarações significativas, organizadas em dois temas: “interação profissional-paciente” e “condicionadores de cuidado”, cada um com três categorias. As interações foram moldadas por ferramentas, estratégias, emoções dos profissionais e condições dos pacientes, enquanto os condicionadores envolveram aspectos processuais, ambientais e estruturais relacionados ao cuidado e ao acesso. |
| Examinando os Papéis Intervenientes do Atendimento Centrado no Paciente e na Ativação do Paciente nos Impactos na Saúde de Obstáculos de Saúde Offline e Consultas de Saúde Online Entre Pacientes Surdos e Com Deficiência Auditiva | 2023 | Foram analisados dados de 323 pacientes DHH por meio de modelagem de equações estruturais, a fim de testar um modelo hipotético de mediação. | Os resultados mostram que barreiras offline prejudicam a percepção de centralidade no paciente (PCD) entre DHH, reduzindo sua ativação e afetando saúde física e psicológica. Já consultas online melhoram o PCC e aumentam a ativação, favorecendo melhores resultados de saúde. Ao testar o modelo com 3.542 pessoas com deficiência auditiva, observaram-se diferenças nas relações intermediárias. |
| Resultados de saúde em populações de sinais surdos: uma revisão sistemática | 2024 | Com auxílio do software Rayyan, dois autores revisaram de forma independente as publicações em cada etapa de triagem. Um terceiro revisor solucionou eventuais divergências. A extração de dados incluiu delineamento, amostra, metodologia, resultados e avaliação de qualidade dos estudos. | Dos 35 estudos incluídos, a maioria (25) focou em desfechos de saúde mental. A revisão evidenciou desigualdades nos resultados de saúde e saúde mental das populações surdas em comparação à população geral, além de lacunas nas condições estudadas e baixa qualidade dos dados disponíveis. |
| Navegadores de Saúde Comunitária para Triagem de Câncer Entre Adultos Surdos, Surdos-cegos e com Deficiência Audição que Usam a Língua de Sinais Americana | 2024 | Entre maio e junho de 2022, foi realizada uma avaliação participativa com três grupos focais: oito sobreviventes de câncer, seis defensores/navegadores e três médicos. As perguntas semiestruturadas abordaram barreiras na triagem, experiências pessoais, a utilidade de um CHN para promover adesão ao rastreamento e recursos de treinamento para CHNs fluentes em ASL e alinhados culturalmente. | Dos 20 participantes, sete se identificaram como pessoas de cor. Os dados revelaram barreiras sistêmicas, atitudinais, de comunicação e pessoais, sendo o acesso a treinamentos para CHNs a mais citada, seguida por questões culturais, diretrizes de câncer em ASL, diversidade de dialetos e limitações do sistema de saúde. Barreiras não resolvidas podem ampliar disparidades, como a menor adesão à triagem do câncer entre DDBHH. |
| Aumentando a inclusão na pesquisa em medicina de precisão: Visões de indivíduos surdos e com deficiência auditiva | 2021 | Pesquisa on-line acessível a pessoas com deficiência para explorar percepções sobre PMR, incluindo indivíduos surdos/HoH. As perguntas abordaram disposição para participar, interesse nos resultados e barreiras ou facilitadores. As análises descreveram as respostas de participantes que se identificaram como surdos/HoH, comparando os resultados por características demográficas. | A pesquisa foi respondida por 267 participantes surdos/HoH. O interesse em PMR foi alto, mas muitos relataram falta de acessibilidade em instalações e informações. Para 51%, a comunicação com profissionais de saúde é uma barreira. Preocupações com possíveis danos, falta de benefícios, decisões mal-informadas e pouco conhecimento sobre deficiência entre pesquisadores e profissionais foram destacadas. Diferenças entre grupos raciais, étnicos e sexuais também foram observadas e discutidas. |
| Conhecimento de métodos contraceptivos entre mulheres surdas: um estudo qualitativo | 2024 | Estudo descritivo qualitativo realizado entre 2020 e 2022 em dois centros de saúde sexual e reprodutiva em São Paulo, Brasil. Foram entrevistadas 28 mulheres surdas usuárias de LIBRAS, presencialmente ou por videochamada, com questionário semiestruturado sobre dados sociodemográficos, clínicos e conhecimento sobre contraceptivos. A análise de conteúdo foi feita com transcrições e validação da tradução em LIBRAS, utilizando o software NVivo. | A comunicação foi apontada como principal barreira ao conhecimento sobre contraceptivos (28/28). Entre os métodos de barreira, 71% conheciam preservativos, 46% diafragma, 71% contraceptivos orais e 60% injetáveis. Quanto aos LARCs, 57% conheciam o DIU e 25% os implantes. Sobre contracepção permanente, 53% estavam informadas. A taxa de gravidez não planejada foi de 59%, com uso de métodos de fertilidade em 21%, barreira em 17%, ação curta em 21%, LARC em 7% e contracepção permanente em 14%. |
| Vídeo Interpretação de Linguagem de Sinais Remota na Comunicação de Saúde para Pessoas Surdas: Protocolo para um Ensaio Controlado Randomizado | 2024 | Ensaio clínico randomizado com 216 participantes, divididos entre consultas com VRI ou comunicação padrão. Pacientes e profissionais desconhecem a alocação até a consulta. O desfecho principal é a avaliação da comunicação por uma escala adaptada à Língua de Sinais Colombiana. O banco de dados inclui variáveis clínicas e recomendações médicas, e serão analisadas suas associações. | O recrutamento começou em 24 de agosto de 2023. Até julho de 2024, 180 participantes haviam sido incluídos. A intervenção e a coleta de dados terminaram em outubro de 2024. Os resultados devem ser enviados para publicação no início de 2025. |
Os estudos analisados indicaram ineficácia da comunicação, associada a inúmeras barreiras, sejam estas de natureza direta, atitudinais, estruturais e culturais. Há também as estratégias facilitadoras de atendimento.
Em relação aos doze artigos selecionados, dois eram do tipo revisão de literatura; oito eram estudos qualitativos; um era descritivo-analítico e um ensaio clínico randomizado. Entre os achados, duas categorias temáticas emergiram sobre os aspectos em torno da comunicação médica, a saber: (1) barreiras de comunicação e (2) estratégias no atendimento às pessoas com deficiências auditivas.
1 Aspectos voltados às barreiras de comunicação
Entre as barreiras de comunicação, as de natureza direta estiveram associadas à falta de preparo e baixa fluência dos profissionais de saúde, inclusive do médico, no uso da língua de sinais e dependência excessiva da leitura labial ou da escrita, frequentemente sem sucesso no atendimento à pessoa surda, além das dificuldades de compreensão no uso de terminologia técnica. As barreiras atitudinais foram evidenciadas pela expressão médica de impaciência, de infantilização ou baixa valorização da autonomia do paciente.
A barreira de natureza direta mostra que a comunicação entre os profissionais de saúde e pacientes com deficiência auditiva é frequentemente ineficaz, causando insatisfação nos atendimentos a essa população, que, muitas vezes, não tem suas necessidades atendidas, devido à falta de compreensão dos profissionais a respeito das demandas e queixas do paciente (Rogers et al., 2024; Lee et al., 2021; Ruiz-Arias et al., 2023; Helm et al., 2023).
As revisões de literatura Melo, et al. (2024) e Rogers et, al (2024) pontuam a escassez de profissionais capacitados para o atendimento de pessoas surdas na área da saúde, bem como ressaltam a importância do acolhimento desses pacientes.
Atualmente, sabe-se que ainda não há a obrigatoriedade do ensino de Libras em todas as graduações da área de saúde, o que é uma barreira para a comunicação efetiva entre médicos e pacientes surdos (Brasil, 2005). Isso porque profissionais que tiveram acesso ao ensino da Língua de Sinais, durante o curso de medicina, afirmaram que tal capacitação foi positiva, já que conseguiram ter maior facilidade para se comunicar com esses pacientes no dia a dia (RuizArias et al., 2023).
Barreiras culturais são frequentemente comuns, durante a consulta médica, por exemplo, na presença de algum familiar como intérprete, contudo, essa conduta leva à perda da autonomia e do direito à privacidade do paciente. Além disso, muitos familiares não compartilham as informações trocadas com o profissional para as pessoas surdas de forma efetiva, pois não as reconhecem como sujeitos autônomos e negligenciam o seu direito de ter conhecimento total acerca da própria saúde (Ruiz-Arias et al., 2023).
Barreiras culturais foram indicadas pela negligência ao paciente surdo em não ter conhecimento total de sua própria saúde, também pela violação cultural alinhada ao desconhecimento dos profissionais sobre as nuances da identidade surda.
Esse tipo de negligência ao paciente leva à “invisibilização” deste sujeito, segundo RuizArias et al. (2023), que discutem acerca da falta de acessibilidade e de direitos às diversas necessidades dos pacientes surdos, reforçando as barreiras culturais e linguísticas em torno dos processos da comunicação em saúde entre paciente-médico-família, bem como as formas do profissional deslegitimar a pessoa surda e a sua identidade, impactando em más condições de saúde e na diminuição do acesso eficaz aos serviços a um determinado grupo social.
Devido às falhas na comunicação durante o atendimento aos pacientes surdos, há diversos problemas relacionados à busca da solução e do diagnóstico desses pacientes. Dificuldades durante anamnese, exame físico e diagnóstico geram consequências danosas a esses pacientes, trazendo prejuízos à sua saúde e à sua segurança, por meio de diagnósticos e tratamentos errôneos e ineficazes. Isso ocorre por falha na compreensão, tanto por parte do profissional quanto do paciente, em relação ao tratamento, especialmente quanto ao uso do medicamento, sua dosagem e frequência de administração (Ruiz-Arias et al., 2023).
No estudo qualitativo de Helm et al. (2023), demonstrou-se que mães com deficiências sensoriais se sentiam envergonhadas ou angustiadas devido a problemas na comunicação, na transparência e nas informações sobre sua saúde. As mulheres surdas e com deficiência auditiva apresentaram maiores taxas de baixo peso ao nascer e partos prematuros, isso tem grande relação com as altas taxas de comorbidades em mulheres com deficiência auditiva e com o número menor de consultas pré-natais em comparação a mulheres ouvintes. Esses dados nos revelam as iniquidades em saúde vivenciadas pelas mulheres com deficiência auditiva, necessitando de resoluções para garantir melhor acesso à saúde a essas mulheres.
Na pesquisa de Barbosa et al. (2025), realizada com mulheres surdas, foram evidentes as dificuldades de acesso à informação em saúde sexual e reprodutiva devido às barreiras de comunicação, o que contribui para baixo conhecimento e uso de métodos contraceptivos mais eficientes. A comunicação insatisfatória impede que essas mulheres tenham acesso adequado às orientações e informações necessárias para escolhas conscientes sobre anticoncepção.
A má comunicação, portanto, gera consequências no desenvolvimento da relação médico-paciente durante o atendimento, dificultando na adesão ao tratamento e na criação de vínculo e confiança. O estudo de Wollmann et al. (2024) corrobora com a ideia de que uma relação de confiança e comunicação eficaz é essencial para a adesão ao tratamento e para a satisfação com o cuidado recebido pelo profissional.
2 Estratégias no atendimento às pessoas com deficiência auditiva
Os estudos também sinalizam algumas estratégias facilitadoras de atendimento humanizado.
O estudo de Melo et al. (2024) pontua que o atendimento às pessoas surdas, apesar de ser uma temática pouco abordada, possui algumas estratégias, como a criação de ambientes virtuais de comunicação, o uso de gestos/mímicas e linguagem corporal, a presença de acompanhantes e utilização de intérpretes.
Em relação à estratégia de criação de ambientes virtuais, Melo et .al, 2024 pontua que a autonomia e a privacidade dos pacientes surdos são mantidas durante a consulta, o que evita constrangimentos e fortalece a continuidade do cuidado na relação médico-paciente. Apesar disso, esses espaços virtuais necessitam de acessibilidade digital para os pacientes e de infraestrutura tecnológica adequada.
O ensaio clínico randomizado de Rivas Velardes et al. (2024) avaliou a efetividade do uso de Língua de Sinais por Videoconferência (VRI) na comunicação em saúde para pessoas surdas. Embora esse ensaio ainda esteja em fase de condução, espera-se que evidências da aplicação de VRI sejam responsáveis por um grande impacto e mudanças no protocolo e nas condutas de atendimento de pessoas surdas.
O uso de gestos e mímicas foi considerado como uma estratégia acessível e de baixo custo na condução do atendimento humanizado, porém apresenta como limitações a necessidade de habilidade do profissional em gesticular, além de maior demanda de tempo e de estresse entre os interlocutores (Melo et .al, 2024). Ademais, o estudo de Ruiz-Arias et al. (2023) reforça que essa estratégia é válida, principalmente para profissionais que desconhecem a língua de sinais.
A estratégia de ter acompanhantes no atendimento humanizado apresenta-se como parcialmente eficaz por gerar sentimentos ambivalentes, reforçar a falta ou escassa capacitação de profissionais em Libras e a frequente mediação dos familiares na comunicação, o que impacta diretamente na perda de autonomia dos pacientes surdos e na violação do sigilo e confidencialidade, requerida no atendimento da atenção primária (Melo et .al, 2024).
Todas essas estratégias são de humanização e envolvem acessibilidade, requerendo uma discussão para que a língua de sinais se fortaleça na formação e prática médica, tendo em vista a possibilidade de superação das barreiras aqui identificadas. Entretanto, ainda que existam muitas estratégias a serem utilizadas, algumas não são inteiramente satisfatórias e ainda dependem de soluções multifatoriais, pois, isoladamente, não são capazes de garantir a comunicação efetiva entre médicos e pacientes surdos.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que a comunicação médica voltada à pessoa surda ainda é considerada como ineficaz, sendo as barreiras de natureza direta, atitudinais, estruturais e culturais apresentadas entre os aspectos envolvidos. Em contrapartida, algumas estratégias são apresentadas para favorecer o atendimento de atenção primária de saúde a essa população em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS).
Espera-se que este estudo possa ampliar o conhecimento em torno da temática sobre a comunicação em pacientes com deficiência auditiva, refletindo acerca da importância de mais profissionais e pesquisas com um olhar inclusivo e com estratégias facilitadoras humanizadas à essa população no cenário de atenção primária em saúde.
REFERÊNCIAS
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1Discentes do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio IDOMED de Juazeiro, BA. e-mail: anabeatrizjerico@gmail.com
2Docente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Estácio IDOMED de Juazeiro, BA. Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade de São Paulo (USP). e-mail: siqueira.hilze@estacio.br
