COBERTURA VACINAL CONTRA COQUELUCHE E A INCIDÊNCIA DE CASOS DA DOENÇA EM CRIANÇAS NO BRASIL (2022-2024)

VACCINATION COVERAGE AGAINST WHOOPING COUGH AND DISEASE INCIDENCE IN CHILDREN IN BRAZIL (2022-2024)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202509042101


Diana Agra Alvarez Carvalho1
Guilherme Juarez Barbosa Soares2


RESUMO

A coqueluche é uma infecção respiratória extremamente contagiosa e que pode apresentar gravidade significativa. No Brasil, a coqueluche permanece um desafio diagnóstico importante e um problema de saúde pública relevante. Portanto, este estudo tem como objetivo analisar a cobertura vacinal contra coqueluche e os casos confirmados em crianças no período entre 2022 e 2024, buscando entender as flutuações e os padrões epidemiológicos dessa enfermidade ao longo desse intervalo. Este trabalho possui natureza descritiva, de abordagem quantitativa e com delineamento retrospectivo. A primeira etapa da coleta de dados ocorreu no DATASUS, mais precisamente na aba “Assistência à Saúde”, na seção “Imunizações – desde 1994”. Posteriormente, foram acessados dados sobre a incidência da doença por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), também disponível no DATASUS, na seção de “Morbidade”. Utilizou-se ainda a plataforma TABNET, que permite a tabulação de dados públicos. A consulta foi feita na seção “Epidemiológicas e Morbidade”, com acesso à subseção “Doenças e Agravos de Notificação – 2007 em diante (SINAN)”. Dentro desse conjunto de dados, foi selecionada especificamente a categoria “Coqueluche”, considerando-se o período de 2022 a 2024 e abrangendo todo o território nacional. As variáveis foram observadas: região geográfica de residência, sexo, raça/cor, faixa etária, critério utilizado para confirmação do caso e desfecho clínico. O estudo concentrou-se em crianças com idade de até 9 anos, distribuídas em três faixas etárias principais: menores de 1 ano, de 1 a 4 anos e de 5 a 9 anos. Entre 2022 e 2024, houve um crescimento de 87% na cobertura vacinal da vacina DTP no Brasil, embora ainda abaixo da meta de 95% estabelecida pelo Ministério da Saúde. A coqueluche permanece mais frequente em crianças menores de um ano, com casos confirmados principalmente por exames laboratoriais, o que reforça a importância de estratégias de vacinação direcionadas, especialmente para gestantes e grupos vulneráveis, a fim de prevenir complicações graves e reduzir a mortalidade.

Palavras-chave: Brasil; Coqueluche; Crianças; Epidemiologia.

ABSTRACT

Whooping cough is a highly contagious respiratory infection that can cause significant severity. In Brazil, whooping cough remains an important diagnostic challenge and a relevant public health issue. Therefore, this study aims to analyze the vaccination coverage against whooping cough and the confirmed cases in children between 2022 and 2024, seeking to understand the fluctuations and epidemiological patterns of this disease over that period. This work is descriptive in nature, with a quantitative approach and a retrospective design. The first stage of data collection was carried out using DATASUS, specifically in the “Health Care” tab, under the section “Immunizations – since 1994.” Subsequently, data on disease incidence were accessed through the Notifiable Diseases Information System (SINAN), also available on DATASUS, in the “Morbidity” section. The TABNET platform was also used, which allows tabulation of public data. The query was made in the “Epidemiological and Morbidity” section, with access to the subsection “Notifiable Diseases and Injuries – from 2007 onward (SINAN).” Within this dataset, the category “Whooping Cough” was specifically selected, covering the period from 2022 to 2024 and encompassing the entire national territory. The variables observed were: geographic region of residence, sex, race/color, age group, criteria used for case confirmation, and clinical outcome. The study focused on children up to 9 years old, distributed into three main age groups: under 1 year, 1 to 4 years, and 5 to 9 years. Between 2022 and 2024, there was an 87% increase in DTP vaccine coverage in Brazil, although still below the 95% target set by the Ministry of Health. Whooping cough remains most frequent in children under one year old, with cases mainly confirmed by laboratory tests, reinforcing the importance of targeted vaccination strategies, especially for pregnant women and vulnerable groups, to prevent severe complications and reduce mortality.

Keywords: Brazil; Whooping Cough; Children; Epidemiology.

INTRODUÇÃO

A coqueluche é uma infecção respiratória extremamente contagiosa e que pode apresentar gravidade significativa. Mesmo com a diminuição dos casos após a introdução das vacinas infantis, tanto de células inteiras quanto acelulares, a doença ainda causa alta taxa de adoecimento e mortalidade especialmente em bebês, que correspondem a 70% a 90% das internações e óbitos relacionados à coqueluche. Devido a essa vulnerabilidade dos lactentes, muitos países desenvolvidos implementaram programas de vacinação direcionados às gestantes, com o objetivo de proteger os recém-nascidos contra a doença (Regan et al., 2023).

A coqueluche continua sendo um desafio para os profissionais de saúde no Brasil, tanto pelo seu diagnóstico complicado quanto pelo impacto que ainda representa como problema de saúde pública. Mesmo com a vacinação em vigor, a doença tem reaparecido, o que levanta questões sobre como ela se manifesta clinicamente e se espalha na população. Como os primeiros sintomas se parecem muito com os de gripes ou resfriados, identificar a coqueluche com precisão acaba sendo difícil, o que atrapalha o tratamento e o controle da transmissão (Messias; Amorim; Pol-Fachin, 2024).

Desde novembro de 2014, o Ministério da Saúde do Brasil passou a incluir a vacina adsorvida contra difteria, tétano e coqueluche (acelular) (DTP) no Calendário Nacional de Imunização para gestantes. Conforme essa recomendação, é indicado que as gestantes sejam imunizadas com a vacina dTpa a partir da 20ª semana, ou no pós-parto caso não tenham sido vacinadas durante a gravidez. A aplicação busca proteger as gestantes contra a infecção, impedir a transmissão vertical da bactéria Bordetella pertussis aos recém-nascidos e favorecer a passagem placentária de altos níveis de anticorpos maternos para o feto, garantindo assim proteção ao bebê antes da aplicação da primeira dose da vacina pentavalente, aos dois meses de vida (Machado; Marcon, 2022).

Embora tenha sido alcançada uma cobertura global próxima a 85% desde 2010 com três doses da vacina DTP, foi registrado um ressurgimento da coqueluche nos últimos anos. O padrão epidemiológico da doença geralmente se manifesta em ciclos, com picos de incidência a cada 3 a 5 anos; entretanto, em alguns países, o aumento dos casos representou um verdadeiro retorno da enfermidade. No Brasil, dados de vigilância entre 2007 e 2014 indicaram o reaparecimento da coqueluche. Entre os casos confirmados, 34,5% ocorreram em crianças com até 2 meses, 22,4% em bebês entre 3 e 6 meses, e 21% em crianças de 7 meses a 4 anos. A taxa global de mortalidade foi de 2,1%, sendo maior em menores de 3 meses, chegando a 4,7%. A cobertura vacinal esperada de 95% com três doses de DTP foi atingida somente em nove dos 27 estados brasileiros (26 estados e o Distrito Federal) em 2012, número que cresceu para 17 em 2013 e 21 em 2014 (De Barros et al., 2020).

As causas dessa situação são diversas e incluem variações na eficácia, adesão e cobertura vacinal entre diferentes formulações da vacina; rápida diminuição da imunidade conferida pela vacina; desajuste antigênico entre a vacina e as cepas circulantes; limitação das vacinas atuais em prevenir a colonização nasofaríngea pelo patógeno; ausência de proteção contra a transmissão da B. pertussis; e maior percepção clínica e/ou aprimoramento nos testes diagnósticos, que podem ter contribuído para o aumento dos casos identificados (Leite et al., 2021).

Com isso, a notificação da coqueluche é compulsória no Brasil. Todos os casos suspeitos devem ser comunicados e investigados, com os dados registrados no Sistema Nacional de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde. A confirmação dos casos suspeitos de coqueluche ocorre com base nos seguintes parâmetros: 1) isolamento da bactéria B. pertussis em cultura de secreções nasais e/ou identificação do DNA bacteriano por meio da reação em cadeia da polimerase em tempo real quantitativa (qPCR) (critério laboratorial); 2) relato de contato próximo com caso confirmado laboratorialmente (critério clínico-epidemiológico); 3) manifestação de dois ou mais sintomas característicos (como tosse em acessos, cianose, estridor, vômitos após a tosse, apneia), associados a exames complementares que evidenciem alterações como linfocitose e leucocitose (critério clínico) (Araújo et al., 2020).

Apesar dos benefícios para a saúde de algumas estratégias vacinais contra a coqueluche já terem sido comprovados, as autoridades nacionais de saúde também precisam levar em conta os aspectos financeiros ao recomendar e financiar novos programas. A avaliação econômica em saúde depende de informações confiáveis sobre a epidemiologia da doença, que neste caso são de difícil acesso. O impacto da coqueluche é subestimado pelos sistemas de vigilância devido ao acesso restrito aos serviços de saúde, à subdetecção ou diagnóstico incorreto dos casos e à subnotificação. Observam-se índices maiores de subnotificação em crianças mais velhas, adolescentes e adultos (Fernandes et al., 2019).

Com o aumento dos casos de coqueluche nos últimos anos, a doença voltou a representar um desafio importante para a saúde pública no Brasil. Diante disso, torna-se essencial acompanhar de perto sua evolução, mantendo os registros sempre atualizados para entender melhor o cenário atual. Este estudo tem como objetivo analisar a cobertura vacinal contra a coqueluche e a incidência da doença em crianças brasileiras entre os anos de 2022 e 2024.

METODOLOGIA

a. Tipo de estudo

Este trabalho possui natureza descritiva, de abordagem quantitativa e com delineamento retrospectivo, tendo como foco a análise dos casos confirmados de coqueluche em crianças brasileiras no período entre 2022 e 2024. O tipo de estudo selecionado justifica-se pela intenção de compreender o comportamento da doença ao longo do tempo, explorando padrões e distribuições a partir de dados já consolidados nos sistemas oficiais de saúde.

b. Fonte dos dados vacinais

Para contextualizar a cobertura vacinal no país, em relação à imunização contra a coqueluche, a primeira etapa da coleta de dados ocorreu no DATASUS, mais precisamente na aba “Assistência à Saúde”, na seção “Imunizações – desde 1994”. Essa base disponibiliza dados históricos sobre vacinação em diferentes faixas etárias e regiões, sendo uma fonte essencial para avaliar o cenário vacinal nacional, detectar eventuais quedas de cobertura e refletir sobre seus impactos.

c. Coleta dos dados primários

Posteriormente, foram acessados dados sobre a incidência da doença por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), também disponível no DATASUS, na seção de “Morbidade”. Este sistema reúne notificações compulsórias enviadas diariamente pelas unidades de saúde, organizadas pelo Sistema de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde.

d. Coleta secundária via TABNET

Complementando as fontes anteriores, utilizou-se ainda a plataforma TABNET, que permite a tabulação de dados públicos. A consulta foi feita na seção “Epidemiológicas e Morbidade”, com acesso à subseção “Doenças e Agravos de Notificação – 2007 em diante (SINAN)”. Dentro desse conjunto de dados, foi selecionada especificamente a categoria “Coqueluche”, considerando-se o período de 2022 a 2024 e abrangendo todo o território nacional.

e. Variáveis analisadas

Foram consideradas informações como a região onde a criança mora, o sexo, a raça ou cor, a faixa etária, além do modo como o caso foi confirmado e o desfecho, que foi a cura ou óbito.

f. População do estudo

O estudo teve como foco crianças de até 9 anos, divididas em três grupos etários: menores de 1 ano, de 1 a 4 anos e de 5 a 9 anos. Essa divisão foi adotada para facilitar a identificação de possíveis diferenças na incidência da coqueluche em cada fase da infância, considerando que tanto a vulnerabilidade à doença quanto a resposta à vacina podem mudar conforme a idade.

g. Análise e organização dos dados

Os dados foram reunidos e organizados no Microsoft Excel®, facilitando a elaboração dos gráficos apresentados nos resultados. Os achados foram corroborados com pesquisas existentes na literatura, visando entender melhor a situação da doença no cenário brasileiro infantil.

h. Aspectos éticos

Por se tratar de informações públicas, de acesso aberto, e sem qualquer tipo de identificação pessoal, o estudo não demandou submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS

Apresentada na Figura 1, a evolução da vacinação DTP no Brasil entre 2022 e 2024 revela um panorama interessante. Em 2022, a vacina alcançava um pouco acima de 77% das crianças, com um pequeno incremento em 2023, atingindo quase 78%. Contudo, em 2024, o progresso se tornou mais notável, com a cobertura vacinal chegando a cerca de 87%. Tal crescimento pode estar atrelado ao fortalecimento das iniciativas de vacinação e à renovada crença dos pais na relevância da imunização infantil, sobretudo após o declínio observado durante a crise sanitária da COVID-19.

Apesar do crescimento, é importante destacar que o ideal preconizado pelo Ministério da Saúde é uma cobertura mínima de 95%, ou seja, mesmo com a melhora, os dados indicam que o país ainda se encontra abaixo da meta, o que pode representar riscos de surtos em populações vulneráveis ou com baixa imunidade coletiva. 

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Já na Figura 2 a cobertura vacinal contra coqueluche no Brasil está dividida por regiões geográficas no mesmo período. Nota-se uma variação significativa entre as regiões, com a Região Norte apresentando os menores índices em todos os anos avaliados (inferiores a 85%), enquanto a Região Sul alcançou os maiores percentuais, ultrapassando os 90% em 2024. As regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste mostram coberturas intermediárias, mas em geral em crescimento ao longo do tempo. Esse cenário indica desigualdade regional na adesão vacinal, o que pode impactar diretamente a ocorrência de surtos localizados.

Observando as diferentes regiões do Brasil, dá pra perceber que a vacinação contra a coqueluche cresceu entre 2022 e 2024. Esse avanço pode estar ligado à volta das campanhas de vacinação e ao fato de que mais pessoas vêm entendendo a importância de se vacinar. Mesmo assim, algumas áreas ainda não conseguiram alcançar os 95% de cobertura, o que dificulta o controle da doença. Isso mostra como ainda é preciso investir em políticas públicas que olhem com mais atenção para os lugares aonde a vacinação não está chegando como deveria.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

A seguir, será apresentada a análise dos casos confirmados de Coqueluche no Brasil entre 2022 e 2024, com o objetivo de associar esses dados aos níveis de cobertura vacinal observados anteriormente.

Houve um crescimento expressivo da doença, sobretudo em 2024, quando foram notificados 2.423 casos, um salto considerável em relação aos 175 de 2023 e aos 232 de 2022. A figura 3 revela que a Região Sudeste concentrou a maior parte dos registros, totalizando 1.210 casos no período, com uma explosão em 2024 (1.125 casos), seguida pela Região Sul com 1.097 casos no triênio, também majoritariamente em 2024 (1.012 casos). Embora as regiões Norte (35), Nordeste (321) e Centro-Oeste (167) apresentem números absolutos menores, a alta em 2024 foi perceptível, indicando uma tendência nacional de recrudescimento da doença.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Entre os anos de 2022 e 2024, observou-se (Figura 4) um total de 2.830 casos confirmados de doenças notificadas nas faixas etárias analisadas, sendo a maioria concentrada na faixa de menores de 1 ano, com 1.482 casos, seguida pela faixa de 1 a 4 anos com 805 casos, e por fim a faixa de 5 a 9 anos, com 543 casos. Esses números indicam que os menores de 1 ano foram os mais acometidos no período analisado, representando a parcela predominante dos casos registrados.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Além disso, nos casos por raça (Figura 5), a maior parte foi concentrada na categoria “Branca” que totalizou 1.596 casos, seguida pela raça “Parda” com 759 casos, e pela categoria “Ign/Branco” com 360 casos. As demais raças registraram números menores: “Preta” com 88 casos, “Indígena” com 17, e “Amarela” com 10 casos.

Em 2024, houve um aumento significativo (85,6%) nos casos em comparação aos anos anteriores, com destaque para as raças Branca e Parda, que juntas representaram a maior parte dos registros, evidenciando uma concentração maior de casos nessas categorias raciais.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Seguindo, na distribuição por sexo (Figura 6), as mulheres apresentaram um total de 1.482 casos, ligeiramente superior aos 1.348 casos registrados em homens, indicando uma leve predominância feminina no total de notificações.

Discutindo os anos individualmente, em 2022 os casos foram relativamente equilibrados entre masculino (122) e feminino (110), já em 2023 e 2024 houve um aumento maior no número de casos femininos, com 95 vs 80 em 2023, e em 2024 o total registrado foi de 1.277 casos em mulheres e 1.146 em homens, confirmando uma tendência de crescimento mais acentuada entre o sexo feminino, embora ambos os sexos tenham apresentado aumentos significativos ao longo do período.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Em relação aos critérios de confirmação (Figura 7), a maioria foi diagnosticada por critério laboratorial, com 1.822 casos, seguida pelo critério clínico, com 678 casos, e pelo critério clínico-epidemiológico, com 330 casos, evidenciando que o diagnóstico laboratorial foi o método predominante para confirmação dos casos nesse período.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Por fim, ao observar a evolução dos casos representada na Figura 8, a maioria dos pacientes se recuperou, totalizando 2.654 registros de cura. Houve, no entanto, 29 óbitos diretamente atribuídos à doença e 6 mortes por outras causas. Além disso, 141 casos tiveram evolução ignorada ou deixada em branco. Apesar do bom índice de recuperação, o número de mortes associadas à coqueluche no período ainda chama atenção.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Em 2024, o número de casos aumentou bastante, concentrando quase todas as ocorrências registradas no período. Os bebês com até um ano foram os mais afetados, seguidos pelas crianças de um a quatro anos, o que reforça a vulnerabilidade das faixas etárias mais novas. Em relação à cor da pele, a maioria dos casos envolveu crianças brancas e pardas, o que pode ter relação com desigualdades no acesso aos serviços de saúde.

Em relação à distribuição por gênero, notou-se um discreto predomínio do sexo feminino. A grande maioria dos diagnósticos positivos foi confirmada através de testes em laboratório, o que demonstra o quão essencial é o uso dessas ferramentas para se obter um diagnóstico correto. Apesar de a maioria das crianças ter apresentado melhora, alguns quadros clínicos, infelizmente, levaram ao falecimento, o que destaca a importância crítica de medidas preventivas, identificação rápida e tratamento apropriado, sobretudo entre as populações mais vulneráveis e com menor acesso a recursos.

DISCUSSÃO

Conforme os dados apresentados, referente à cobertura vacinal da vacina DTP entre os anos de 2022 e 2024, observa-se um crescimento progressivo de 87%. Embora esse aumento seja algo positivo, é importante ressaltar que o Ministério da Saúde estabelece uma meta mínima de 95% de cobertura vacinal. Segundo Martins (2023), quando a cobertura vacinal é inferior à meta estabelecida pelo Ministério da Saúde, compromete, assim, a proteção do grupo populacional, favorecendo o reaparecimento de doenças erradicadas. Durante a pandemia de Covid-19, mediante o cenário agravante das ondas de disseminação, o foco dos serviços de saúde foram justamente priorizar a vacinação da Covid-19, interrompendo as demais rotinas vacinais e impactando de forma negativa a imunização na população, conforme evidenciado por Abreu et al. (2022).

As diferenças na cobertura vacinal entre as regiões do país são bastante marcantes. O Norte tem apresentado os menores índices, enquanto o Sudeste se destaca com os percentuais mais elevados. Segundo Pereira et al. (2023), essa desigualdade pode ser explicada por uma série de fatores, como as dificuldades de transporte, o acesso limitado aos serviços de saúde, a vulnerabilidade social e a precariedade da infraestrutura em certas áreas. Esses elementos ajudam a entender por que regiões como o Norte e o Nordeste ainda enfrentam desafios para alcançar as metas de vacinação estabelecidas.

Somado a isso, os achados do estudo corroboram a distribuição desigual, com maior concentração de casos nas regiões Sudeste e Sul, alinhando-se ao perfil descrito por Silva et al. (2022). A predominância no Sudeste pode ser explicada pelo clima tropical e a alta densidade populacional, que facilitam a disseminação da bactéria, enquanto no Sul, o clima subtropical e a circulação entre adolescentes e adultos com imunidade reduzida contribuem para a manutenção da transmissão, especialmente entre crianças ainda não vacinadas. Embora o Nordeste tenha apresentado menos casos em comparação, a influência do clima quente e úmido, além do fluxo turístico, mantém o risco elevado, conforme apontado anteriormente. A menor notificação na região Norte também é consistente com os fatores mencionados, como baixa densidade populacional e possíveis subregistros, o que reforça o entendimento da coqueluche como uma doença cuja incidência varia de acordo com características regionais específicas.

Paralelamente, as figuras mostram que no ano de 2024 foram registrados um número total de 2.423 casos confirmados de coqueluche, resultado esse, da insuficiente cobertura vacinal nos últimos anos. De acordo com Santos et al. (2024) os casos de coqueluche são mais recorrentes em crianças que não estejam totalmente vacinadas, o que reforça a necessidade e importância do cumprimento do esquema vacinal completo, incluindo reforços.

Nesse sentido, as crianças menores de 1 ano se caracterizam entre o público mais cometido pela coqueluche entre o período investigado. Essa informação corrobora com alguns estudos presentes na literatura como por Machado e Marcon (2022), onde justificam essa faixa etária como um público vulnerável devido ao quadro vacinal ainda estar incompleto pela idade estabelecida. Conforme as diretrizes e informações do Ministério da Saúde (2024), os efeitos colaterais de coqueluche são mais graves em lactentes, podendo ocorrer a complicações respiratórias e em casos mais graves o óbito. Essa informação destaca a importância da estratégia de imunização de gestantes, como medida de proteção imediata tanto para a gestante como para o recém-nascido.

Portanto, a vacinação de gestantes com dTpa permite a passagem de anticorpos maternos ao feto pela placenta, oferecendo proteção nos primeiros meses de vida. Essa medida proporciona níveis elevados de defesa até que o bebê possa receber sua primeira dose da vacina. Com o desenvolvimento do sistema imunológico, a criança passa a responder de forma mais eficaz à vacinação. A eficácia varia de 69% a 95%, prevenindo casos graves e óbitos. Recomenda-se a aplicação entre a 26ª e a 36ª semana da gestação (Machado, Marcon, 2022).

Tratando-se da análise por sexo, observa-se uma expressiva predominância do sexo feminino entre a período de 2023 e 2024. Referente a esse dado específico, não foi possível encontrar uma justificativa na literatura científica que fundamente tal evidência, pois, a predominância da coqueluche não apresenta predisposição biológica por sexo. Contudo, Messias; Amorim & Pol-Fachin (2024) apontam que alguns fatores podem influenciar os dados de notificação de forma que a interação entre sexo e coqueluche deve ser interpretada com cautela.

O diagnóstico da coqueluche é mais frequentemente confirmado por métodos laboratoriais, como a cultura de secreção nasofaríngea e o teste de PCR, ambos considerados referências por sua alta especificidade. Esses exames permitem identificar com maior segurança a presença da bactéria causadora da doença. Também são aceitos, em determinadas situações, os critérios clínico e clínico-epidemiológico, este último aplicável a casos suspeitos que mantiveram contato direto com pacientes já confirmados por exame laboratorial, especialmente durante a fase catarral ou até três semanas após o início da fase de tosse intensa (Medeiros et al., 2017). No presente estudo, a maioria das confirmações ocorreu por via laboratorial evidenciando a predominância do diagnóstico laboratorial como principal estratégia para validar os casos, refletindo uma prática consolidada que valoriza a precisão na identificação da doença.

Embora as vacinas para a imunização contra a coqueluche sejam eficazes, os resultados apresentaram 29 óbitos, dados esses que não podem ser encobertos. Dessa forma, os dados analisados retratam um paradoxo que merece atenção, necessitando o reforço nas estratégias de campanha vacinal, educação em saúde, busca ativa para atualização do calendário vacinal com foco na equidade regional para garantir uma assistência universal. Como reforça Neto et al. (2023), o controle efetivo da coqueluche requer uma assistência resiliente e com ações entre a vigilância epidemiológica e a atenção básica.

Com isso, a principal maneira de prevenir a coqueluche ainda permanece sendo a vacinação em crianças menores de um ano, com reforços aplicados aos 15 meses e aos 4 anos, além da imunização de gestantes, puérperas e profissionais da saúde. O esquema inicial inclui três doses da vacina Pentavalente, administradas aos 2, 4 e 6 meses, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae tipo B. Em seguida, são aplicados reforços aos 15 meses e aos 4 anos com a vacina DTP, que protege contra difteria, tétano e coqueluche. Essas vacinas devem ser ministradas em crianças entre 2 meses e 7 anos, conforme as recomendações do Calendário Nacional de Vacinação (Goiás, 2024).

CONCLUSÃO

No período analisado, foi possível perceber que houve um progresso na vacinação contra a coqueluche no Brasil. Ainda assim, percebe-se que ainda há bastante a ser melhorado. A desigualdade no acesso à saúde ainda é um obstáculo significativo, especialmente em áreas em que a cobertura vacinal permanece baixa. Fica claro que somente aumentar as doses aplicadas não resolve, e sim a garantia de que todos estejam protegidos.

Para isso, faz-se necessário as campanhas vacinais adequadas às realidades locais e ações educativas. Paralelamente, a desinformação também deve ser enfrentada com informação clara e acessível. Esses dados servem como ponto de partida para seguir melhorando e criando estratégias mais fortes, com políticas públicas mais robustas e adaptadas às necessidades locais. A vacinação de gestantes, por exemplo, é uma estratégia simples, mas que protege diretamente a recém-nascidos. Além disso, ter uma rede de vigilância que funcione adequadamente e que esteja atenta ao não vacinado pode fazer toda a diferença. Nesse sentido, o controle da coqueluche funcionará de forma eficaz com uma parceria entre governo, profissionais da saúde e população.

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1Médica Residente em Pediatria no Hospital Regional de Ceilândia, Brasília – DF
Email: diagralvarez@hotmail.com

2Médico Pediatra pela SES-DF Preceptor do Programa de Residência Médica de Pediatria. Hospital Regional de Ceilândia. Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF)
E-mail: guijbs@gmail.com