MESENTERIC CYST: CASE REPORT FROM LADÁRIO HOSPITAL – MS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202507311230
Claudio Carrilho de Moraes Filho
Tierre Aguiar Gonçales
RESUMO
Este relato descreve um caso raro de cisto de mesentério em uma paciente feminina de 65 anos, atendida em um hospital de Ladário, MS, Brasil. A paciente apresentou dor em andar superior do abdome progressiva, associada a náuseas e vômitos. A investigação inicial com ultrassonografia revelou imagem cística de contornos lobulados, anecoica, especificamente na região mesogástrica, anteriormente à aorta e ao rim esquerdo, medindo aproximadamente 6,1 x 5,0 cm. Após três meses de perda de seguimento a paciente retorna em ambulatório por exacerbação dos sintomas, sendo indicada laparotomia exploratória para biópsia. A ressecção cirúrgica completa do cisto foi realizada com sucesso, levando à remissão dos sintomas. A análise anatomopatológica confirmou se tratar de cisto simples. O caso ilustra a importância da investigação clínica e por imagem em sintomas abdominais inespecíficos e reforça a ressecção cirúrgica como tratamento definitivo para evitar complicações.
Palavras-chave: Cisto de Mesentério; Ressecção Cirúrgica; Hospital de Ladário.
INTRODUÇÃO
O cisto de mesentério configura-se como uma lesão cística incomum, predominantemente identificada na região do íleo, embora possa desenvolver-se em qualquer ponto entre os folhetos do mesentério, estendendo-se do duodeno ao reto (De Santana et al., 2010). Dada a sua baixa frequência, com uma incidência estimada entre 1/100.000 e 1/250.000 admissões hospitalares e distribuição parecida entre os sexos, o cisto de mesentério representa um achado clínico raro, com desafios tanto no diagnóstico quanto na definição de uma etiologia única e um sistema de classificação universalmente aceito (Kurtz et al., 1986).
A etiologia desta condição permanece multifatorial e não totalmente elucidada, sendo aventadas hipóteses como distúrbios embrionários, degeneração tecidual linfoide local, obstruções linfáticas e histórico de trauma abdominal como possíveis fatores contribuintes para sua formação (Singh et al., 2023). A heterogeneidade em sua patogênese sublinha a complexidade desta entidade clínica (Liew; Glenn; Storey, 1994).
Frequentemente, os cistos de mesentério exibem um curso assintomático, ou manifestam-se através de sinais e sintomas clínicos inespecíficos, tais como náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal vaga e, em alguns casos, massa abdominal palpável (Alqurashi et al., 2023). O diagnóstico, muitas vezes, ocorre de maneira incidental durante a investigação de outras patologias abdominais ou no decorrer de intervenções cirúrgicas em quadros de abdome agudo, reforçando a importância da suspeição clínica e do uso de métodos de imagem (Antunes et al., 2020).
A abordagem terapêutica primária consiste na ressecção cirúrgica completa do cisto, podendo ser realizada por via laparoscópica ou videolaparoscópica, demonstrando ser o tratamento definitivo na maioria dos casos (Minata et al., 2016). Adicionalmente, a literatura descreve outras modalidades de tratamento, incluindo marsupialização, drenagem interna, aspiração do conteúdo cístico e excisão parcial com cauterização, reservadas para situações específicas ou quando a ressecção completa não é viável (Carvalho et al., 2020; Magno-Junior et al., 2012).
Diante da raridade e da importância de documentar tais casos para o avanço do conhecimento sobre essa patologia, o presente trabalho tem como objetivo apresentar um caso único de cisto de mesentério operado com sucesso pela equipe cirúrgica, em um hospital de Ladário, no Mato Grosso do Sul, Brasil, além de realizar uma revisão da literatura pertinente, enriquecendo a compreensão sobre suas características clínicas, diagnóstico e manejo.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo feminino, 65 anos previamente hígida procurou o pronto atendimento de um hospital de Ladário, queixando-se de dor abdominal de forte intensidade em mesogástrio, contínua com irradiação para o flanco direito, acompanhada de náuseas, vômitos e que estava evoluindo há algumas semanas. Negava febre, perda ponderal ou outros sintomas. Ao exame físico, apresentava-se em bom estado geral, lúcida, orientada e coerente, com mucosas úmidas e corada, eupneica, afebril, hemodinamicamente estável, com abdome globoso, depressível, doloroso à palpação profunda em mesogástrio e flanco direito, sem sinais de irritação peritoneal.
Na investigação inicial, foi solicitada ultrassonografia (USG) abdominal, por hipótese diagnóstica de colelitíase, que revelou a presença de imagem cística de contornos lobulados, anecoica, localizada na cavidade abdominal superior, especificamente na região mesogástrica, anteriormente à aorta e ao rim esquerdo, medindo aproximadamente 6,1 x 5,0 cm. Diante desse achado, optou-se por prosseguir a investigação com exame de imagem de maior acurácia para caracterização da lesão. No entanto, por motivos pessoais, a paciente interrompeu o acompanhamento e perdeu o contato com o serviço médico.
Após aproximadamente três meses, a paciente retornou ao departamento de emergência com as mesmas queixas, foi solicitada ressonância magnética (RM) de abdômen, que demonstrou formação expansiva com conteúdo predominantemente líquido, apresentando áreas de sinal sugestivo de componente gorduroso, medindo 6,6 cm no eixo longitudinal e 5,5 x 5,9 cm nos eixos transversos, localizada na região mesogástrica, lateralmente à direita. A natureza específica da lesão não pôde ser definida com precisão através do exame de imagem.
Figura 1 – Ressonância magnética de abdômen total – em corte coronal – evidenciando formação expansiva com bordas bem definidas.

Considerando a persistência dos sintomas e a natureza indeterminada da lesão, foi indicada laparotomia exploradora com ressecção incompleta da tumoração por incisão mediana supraumbilical. Ao inventário, tumoração de aproximadamente 10 cm de diâmetro aderido ao intestino delgado, especificadamente em alças de íleo, apresentando áreas com secreção purulenta. A análise anatomopatológica revelou tecido adiposo com atipias nucleares discretas, focos de esteatonecrose e ausência de sinais de malignidade.
Com o resultado da biópsia, a conduta definida foi a ressecção completa da lesão cística. A abordagem cirúrgica foi realizada por laparotomia infra e supraumbilical. Procedeu-se à dissecção meticulosa das aderências anteriores e laterais ao intestino delgado, culminando na liberação completa do cisto. Após a cirurgia, o cisto foi incisado, contendo no interior líquido esbranquiçado.
A intervenção cirúrgica transcorreu sem intercorrências. No período pós-operatório, a paciente evoluiu de maneira satisfatória, com remissão completa da dor abdominal e recebendo alta hospitalar após alguns dias. O seguimento ambulatorial não evidenciou recidiva dos sintomas ou da lesão até a presente realização desse relato.
A peça cirúrgica foi encaminhada para exame anatomopatológico, que evidenciou cápsula fibrosa com intenso processo inflamatório crônico histiocitário, áreas de esteatonecrose e hemorragia. O exame histológico detalhado confirmou a presença de tecido adiposo maduro com áreas de fibrose, focos de hemorragia e infiltrado inflamatório linfo-plasmocitário e histiocitário. Adicionalmente, o estudo imuno-histoquímico revelou positividade focal para calretinina nas células mesoteliais residuais em meio à fibrose, positividade para CD68 nos histiócitos e para actina muscular lisa nos miofibroblastos, não sendo identificados sinais histológicos de malignidade.
Figura 2 – Peça com aspecto cístico após ressecção cirúrgica.

DISCUSSÃO
Cistos mesentéricos são tumores intra-abdominais benignos raros que podem apresentar desafios diagnósticos e terapêuticos devido ao seu quadro clínico inespecífico e, muitas vezes, assintomático (Yasojima; Cruz; Valente, 2002). Até onde se tem conhecimento, este é o primeiro relato de caso ocorrido em Ladário, no Mato Grosso do Sul.
A apresentação clínica do cisto de mesentério pode variar desde um achado assintomático incidental durante exames radiológicos até sintomas não específicos, como distensão abdominal, dores abdominais e aumento do volume abdominal (Bang et al., 2019).
A classificação dos cistos mesentéricos é controversa. Em 1950, Beahrs et al. propuseram uma classificação baseada na etiologia e características histológicas, dividindo-os em quatro grupos: cistos traumáticos ou adquiridos, cistos embrionários ou de desenvolvimento, cistos infecciosos ou degenerativos e cistos neoplásicos (Beahrs; Judd; Dockerty, 1950). Posteriormente, Ros et al., após análise histopatológica e radiológica de 41 casos, refinaram a classificação, dividindo-os em cinco tipos de acordo com suas características patológicas: linfangioma, pseudocisto não pancreático, cisto de duplicação entérica, cisto entérico e cistos mesoteliais (Ros et al., 1987).
Quanto à localização, os cistos mesentéricos podem ocorrer em qualquer ponto do mesentério, desde o duodeno até o reto, sendo mais frequentes no mesentério do intestino delgado (aproximadamente 67%), principalmente no segmento ileal. A localização no mesocólon e no epíplon é observada em cerca de 33% dos casos (Yavuz et al., 2021).
As complicações associadas aos cistos mesentéricos podem incluir infecção espontânea, ruptura, peritonite, hemorragia intracística, torção do cisto, herniação para a bolsa escrotal, volvo intestinal, isquemia intestinal e obstrução intestinal (Oxenberg, 2016).
A excisão cirúrgica completa é o tratamento de escolha para cistos mesentéricos, visando evitar a recorrência, a possível transformação maligna e as complicações (Ribas Filho et al., 2019). Desde sua primeira descrição para cistos mesentéricos em 1993 por Mackenzie, a cirurgia laparoscópica tem se mostrado uma excelente opção de tratamento, com eficácia semelhante à da cirurgia aberta, oferecendo as vantagens de menor dor pós-operatória, recuperação precoce, menor tempo de internação hospitalar e melhor resultado estético (Antunes et al., 2020; Mackenzie et al., 1993).
No caso atual, a interrupção do acompanhamento pela paciente levou a um aumento na frequência e intensidade dos sintomas, elevando o risco de possíveis complicações devido ao crescimento do cisto e postergando o tratamento cirúrgico definitivo.
CONCLUSÃO
Este relato demonstra a importância da avaliação clínica e dos exames de imagem na investigação de sintomas abdominais inespecíficos. Além disso, reforça que o tratamento cirúrgico precoce é fundamental para evitar a progressão dos sintomas e das complicações documentadas na literatura. A apresentação deste caso contribui para a literatura médica, especialmente por se tratar de uma ocorrência rara.
REFERÊNCIAS
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