REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511230708
Francione Ferreira Santos
Orientador(a): Profª. Drª. Laysa da Cunha Barros Marinoni
RESUMO
A Cárie Precoce Infantil (CPI) representa um desafio significativo na saúde bucal pediátrica. Este trabalho aborda o diagnóstico, o manejo clínico e as estratégias de prevenção aplicadas em uma paciente de cinco anos com essa condição, atendida em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). O estudo detalhou a análise da anamnese e do exame clínico, que confirmou a gravidade da doença com a constatação da presença de sete lesões de cárie. O tratamento restaurador foi conduzido em quatro sessões, priorizando a recuperação estética e funcional através de uma técnica minimamente invasiva e o uso de resina composta. Os resultados culminaram no saneamento completo da cavidade bucal, finalizado com procedimentos de profilaxia e aplicação de flúor. Conclui-se que a intervenção na Atenção Primária é eficaz no controle da CPI, sendo fundamental a orientação familiar e a supervisão da higiene para a manutenção do sucesso clínico e a promoção da saúde bucal infantil a longo prazo.
Palavras Chaves: Atenção Primária à Saúde, Cárie, Relato de Caso.
ABSTRACT
Early Childhood Caries (ECC) represents a significant challenge in pediatric oral health. This work addresses the diagnosis, clinical management, and preventive strategies applied to a five-year-old patient with this condition, treated at a Basic Health Unit (UBS). The study detailed the analysis of the anamnesis and clinical examination, which confirmed the severity of the disease with the finding of seven carious lesions. The restorative treatment was conducted over four sessions, prioritizing aesthetic and functional recovery through a minimally invasive technique and the use of composite resin. The results culminated in the complete sanitation of the oral cavity, finalized with prophylaxis and fluoride application procedures. It is concluded that intervention within Primary Health Care is effective for ECC control , with family guidance and hygiene supervision being crucial for maintaining clinical success and promoting long-term oral health for the child.
Keyword: Primary Health Care, Caries, Case Report
1 INTRODUÇÃO
A cárie dental na infância é um dos principais desafios da saúde bucal infantil. Trata-se de uma condição que pode impactar não apenas o sorriso das crianças, mas também sua alimentação, fala e bem-estar geral. Mais do que um problema odontológico, a cárie reflete aspectos sociais, culturais e econômicos, sendo influenciada por fatores como alimentação rica em açúcar, falta de acesso a cuidados odontológicos e hábitos de higiene bucal inadequados (ARAÚJO et al., 2018).
De acordo com VANKA et al. (2022), a cárie em dentes decíduos está entre os problemas de saúde bucal mais prevalentes em crianças, causando impactos que vão além do desconforto oral. Essa condição pode comprometer a mastigação, a fala e a autoestima, além de aumentar o risco de complicações dentárias futuras. A American Academy of Pediatric Dentistry (AAPD) define a cárie precoce como a presença de um ou mais dentes decíduos cariados, extraídos devido à cárie ou restaurados em crianças com menos de 6 anos de idade (ARAÚJO et al., 2018).
No Brasil, os dados do SB Brasil (2020) indicam que 82,9% das crianças de cinco anos apresentam cárie dentária (SILVA MATOS et al., 2024), um número alarmante que evidencia a necessidade de maior atenção à saúde bucal infantil. O problema se agrava em regiões com menor acesso a serviços odontológicos, onde a prevenção e o tratamento podem ser negligenciados (PINEDA et al., 2014).
Os pais e responsáveis desempenham um papel essencial na prevenção da cárie infantil. A falta de informação sobre a importância da higiene bucal desde os primeiros meses de vida e o consumo excessivo de alimentos açucarados estão diretamente ligados ao aumento da incidência da doença (PINEDA et al., 2014). Além disso, fatores culturais e socioeconômicos muitas vezes dificultam a adoção de práticas preventivas adequadas (SILVA MATOS et al., 2024).
Nesse contexto, este estudo tem como objetivo acompanhar o caso clínico de uma criança diagnosticada com cárie precoce na infância em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na cidade de Raposa/MA. O relato busca apresentar, na prática, como ocorre o diagnóstico, qual o tratamento indicado e quais medidas de prevenção são adotadas para evitar a progressão da doença. Além disso, pretende contribuir para uma visão mais humanizada e acessível sobre o problema, destacando a importância da conscientização e da educação em saúde bucal para garantir um futuro mais saudável para as crianças.
2 METODOLOGIA
2.1 Tipo de Estudo
Este estudo trata-se de um relato de caso com abordagem qualitativa e descritiva, realizado a partir do acompanhamento de uma criança de cinco anos diagnosticada com cárie precoce e atendida na rede pública de saúde. O objetivo é compreender os fatores de risco, o processo de diagnóstico, o tratamento e as estratégias de prevenção adotadas, bem como avaliar a adesão da família às orientações odontológicas (GIL, 2002).
2.2 Local e População do Estudo
O caso relatado ocorreu em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), onde a criança recebe atendimento odontológico, supervisionada por um profissional cirurgião dentista (ANEXO IV). A participante do estudo foi uma criança de cinco anos, que teve acesso ao tratamento odontológico por meio do sistema público de saúde. Seus responsáveis também serão incluídos no estudo para fornecer informações sobre hábitos e condições de saúde bucal, bem como autorização para condução e registro do tratamento (ANEXO III).
2.3 Coleta de Dados
Os dados foram coletados por meio de três principais estratégias: 2.3.1 Entrevistas com os responsáveis
Realizadas em diferentes momentos do acompanhamento da criança, utilizando um roteiro semiestruturado para investigar:
● Hábitos alimentares e de higiene bucal.
● Acesso anterior ao atendimento odontológico.
● Percepção sobre o tratamento e a prevenção da cárie.
● Dificuldades enfrentadas no cuidado com a saúde bucal da criança.
2.3.2 Exames clínicos odontológicos
A criança foi avaliada em diferentes etapas do tratamento para:
● Diagnóstico inicial da cárie e identificação de fatores de risco.
● Registro das intervenções realizadas (restaurações, aplicação de flúor, orientação familiar).
● Monitoramento da evolução da saúde bucal ao longo do acompanhamento.
2.4 Análise documental e registros odontológicos
Fichas clínicas e registros fotográficos, autorizados pelos responsáveis (ANEXO III), foram utilizados para complementar os dados sobre o tratamento da criança.
3 REVISÃO DE LITERATURA
3.1. Definição da Cárie Precoce
A cárie precoce da infância é um problema de saúde pública global, afetando crianças em diferentes contextos sociais e econômicos. Segundo ARAÚJO et al. (2018), essa condição pode comprometer significativamente a qualidade de vida infantil, interferindo em aspectos como mastigação, formação e desenvolvimento emocional. A doença se manifesta pela desmineralização dos tecidos dentários devido à ação de microrganismos cariogênicos, principalmente o Streptococcus mutans. Um exemplo clínico dessa manifestação pode ser observado na figura 01, que ilustra uma lesão de cárie cavitada e inativa nos incisivos superiores de uma criança. Fatores como alimentação inadequada e deficiência na higiene bucal contribuem para sua progressão (ARAÚJO, 2018).
A etiologia da cárie precoce está diretamente ligada ao consumo excessivo de açúcares. A dieta infantil, repleta de alimentos ultraprocessados, é um fator de risco significativo para o desenvolvimento da doença (ARAÚJO et al., 2018). A ingestão frequente de sucos artificiais, refrigerantes e biscoitos industrializados favorece a proliferação de microrganismos cariogênicos. Além disso, hábitos como o uso prolongado de mamadeiras e chupetas adoçadas intensificam a exposição dos dentes às substâncias cariogênicas. Estudos indicam que a prevalência é elevada, especialmente em populações de baixa renda. A negligência com a saúde bucal e a falta de acesso a serviços odontológicos.
Figura 01 – Incisivos superiores de uma criança de 5 anos de idade com lesão de cárie cavitada inativa. Observa-se uma cavidade ampla e rígida à sondagem, típica de lesões inativas localizadas a 1–2 mm das margens gengivais.

Fonte: MEJARE apud FEJERSKOV; KIDD (2011, p. 8).
Além de ser uma enfermidade multifatorial, a cárie precoce da infância deve ser compreendida dentro de um modelo de risco cumulativo, em que fatores biológicos, comportamentais e sociais interagem ao longo do tempo. De acordo com o consenso clínico e científico atual, a doença é determinada pela interação dinâmica entre dieta, hospedeiro, microbiota oral e tempo, sendo exacerbada em ambientes onde há práticas alimentares inadequadas e ausência de medidas preventivas consistentes. Importante ressaltar que a cárie não é apenas uma lesão visível, mas um processo patológico de desmineralização contínua que pode ser interrompido ou revertido com intervenções apropriadas, como o controle da dieta, higiene bucal regular e uso de fluoretos (FEJERSKOV, 2011). A doença pode progredir rapidamente, comprometendo toda a coroa dental e afetando múltiplos dentes decíduos logo após sua erupção. Se não tratada, a destruição dentária pode se tornar severa, levando à necessidade de extração dos dentes afetados. Tal condição acarreta prejuízos futuros que vão além da saúde bucal, comprometendo a mastigação, a fala e a autoestima da criança. Além disso, a negligência no tratamento aumenta o risco de complicações dentárias futuras e pode impedir que a criança estabeleça uma dentição permanente saudável (CORRÊA, 2010; SILVA MATOS et al., 2024).
3.2. Higiene e Responsabilidade
A higiene bucal desempenha papel central na prevenção da cárie precoce. As crianças que possuem supervisão dos pais na escovação apresentam menores índices de doenças. A adoção de hábitos corretos desde o nascimento, como a limpeza das gengivas após as mamadas e o uso de creme dental fluoretado na primeira infância, são medidas eficazes. No entanto, a falta de conhecimento sobre essas práticas entre pais e cuidadores compromete sua implementação adequada (SILVA MATOS et al, 2024).
A influência dos fatores socioeconômicos na saúde bucal infantil é amplamente discutida na literatura. Segundo PINEDA et al. (2014), crianças oriundas de famílias de baixa renda apresentam maior risco de desenvolver cárie devido à menor exposição a medidas preventivas. A ausência de políticas públicas eficazes, aliada à dificuldade de acesso a serviços odontológicos, compromete a saúde bucal infantil. Isso reforça a necessidade de intervenções preventivas no Sistema Único de Saúde (SUS).
A técnica de escovação mais recomendada para crianças que estão desenvolvendo a coordenação motora é a de Fones, que consiste em realizar movimentos circulares (“bolinhas”) com a escova, abrangendo tanto os dentes superiores quanto os inferiores, com a boca fechada. No entanto, a simples instrução da técnica não é suficiente. A participação e supervisão ativa dos pais ou responsáveis são determinantes, pois crianças pequenas ainda não possuem a destreza necessária para higienizar todas as superfícies dentárias de forma eficaz. O acompanhamento garante não apenas a execução correta dos movimentos, mas também o uso da quantidade adequada de creme dental fluoretado e a frequência necessária da escovação. A literatura reforça que a supervisão parental está diretamente associada a menores índices de doenças bucais, sendo um fator crucial para a prevenção da cárie e a manutenção da saúde bucal infantil (SILVA MATOS et al, 2024).
3.3. Diagnóstico
O diagnóstico da cárie precoce na infância baseia-se na identificação de fatores de risco bem estabelecidos: presença de microrganismos cariogênicos (principalmente Streptococcus mutans), exposição frequente e prolongada a substratos fermentáveis (como leite, sucos e alimentos açucarados), além de condições bucais do hospedeiro, como ausência de higiene oral adequada. As lesões geralmente iniciam na superfície vestibular dos incisivos superiores, próximas ao limite gengival, e progridem para regiões proximais e palatinas, podendo rapidamente comprometer toda a coroa dental. Essa forma agressiva de cárie, muitas vezes chamada de “cárie rampante” ou “cárie de mamadeira”, se desenvolve com rapidez e afeta vários dentes decíduos logo após a erupção. Curiosamente, os incisivos inferiores costumam ser poupados nas fases iniciais por estarem mais expostos ao fluxo salivar das glândulas sublinguais, o que os protege temporariamente (CORRÊA,2010).
Um estudo realizado em Jeddah, na Arábia Saudita, avaliou a prevalência da cárie precoce na infância (Early Childhood Caries – ECC) entre crianças de 3 a 5 anos de idade (Vanka et al., 2022). A pesquisa, de caráter observacional e transversal, analisou 305 crianças matriculadas em escolas públicas e privadas. Os resultados revelaram que 57% das crianças apresentavam cárie, com uma leve variação conforme a idade: 54,5% entre as crianças de 3 anos, 58,2% entre as de 4 anos e 56,6% entre as de 5 anos. Conforme ilustrado no gráfico 01, esses dados mostram uma prevalência considerável, indicando a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção da cárie desde os primeiros anos de vida, com ênfase na visita precoce ao dentista e na educação em saúde bucal para pais e cuidadores.
Gráfico 01 – Prevalência de cárie em crianças sauditas de 3 a 5 anos, segundo a faixa etária.

Fonte: Adaptado de Vanka et al. (2022).
A faixa etária de 5 anos apresentou a maior quantidade absoluta de crianças com cárie (98 casos), ainda que a prevalência percentual tenha sido ligeiramente menor do que entre os de 4 anos. Quando comparamos com dados brasileiros, observa-se uma situação semelhante. Em uma instituição social de Fortaleza, Ceará, que assiste crianças em condição de vulnerabilidade, o estudo de CAVALCANTE et al. (2024) observou uma alta prevalência, na qual 66% das 100 crianças examinadas (entre 5 e 6 anos) possuíam histórico ou lesão de cárie. Os resultados, tanto no contexto da vulnerabilidade social em Fortaleza (66%) quanto na prevalência geral observada na faixa etária similar na Arábia Saudita (84%), revelam que a cárie dentária precoce continua sendo um problema de saúde pública de alta endemicidade, demandando ações de prevenção e monitoramento contínuo.
3.4. Estratégias e Tratamento
As estratégias de prevenção da cárie infantil envolvem um conjunto de medidas educativas e clínicas. A fluoretação das águas de abastecimento é uma das principais políticas públicas de prevenção da cárie no Brasil (ARAÚJO et al., 2018). O uso de selantes dentários e a aplicação tópica de flúor também demonstram resultados positivos na redução dos índices da doença. Entretanto, a adesão dessas medidas depende da disponibilidade de profissionais e da sensibilização da população (ARAÚJO, 2018)
O tratamento da cárie precoce varia de acordo com a gravidade da lesão. Em estágios iniciais, a remineralização com flúor é recomendada para interromper a progressão da doença. Em casos mais avançados, procedimentos restauradores, como obturações e coroas, são necessários. Quando a destruição dentária é severa, pode haver necessidade de extração dos dentes afetados, o que compromete a função mastigatória e a autoimagem da criança (SILVA et al., 2024).
A participação ativa dos pais na prevenção e no tratamento da cárie infantil é um fator determinante para o sucesso das intervenções. Segundo PINEDA et al. (2014), programas de educação em saúde bucal podem reduzir significativamente a incidência da doença. A conscientização sobre a importância da higiene bucal, aliada às consultas regulares ao dentista, contribui para um prognóstico mais favorável.
3.5. Prevenção
Segundo CORRÊA (2010), a prevenção da cárie precoce é, em grande parte, de responsabilidade dos cuidadores da criança, especialmente nos primeiros anos de vida. Práticas preventivas envolvem evitar o uso prolongado de mamadeiras com líquidos açucarados, como leite adoçado, mel, sucos industrializados ou xaropes durante o sono. Além disso, é fundamental incorporar hábitos saudáveis desde cedo, como a escovação com creme dental fluoretado logo após o nascimento do primeiro dente e a redução do consumo de açúcares entre as refeições. O cuidado com a higiene bucal deve ser diário e supervisionado por um adulto, sendo recomendado que a criança visite o dentista até o primeiro ano de vida. Tais medidas simples, porém eficazes, ajudam a reduzir drasticamente o risco de cárie e promovem a manutenção da saúde bucal desde os primeiros anos da infância (CORRÊA, 2010).
Já, a prevenção da cárie dentro do consultório odontológico, envolve uma abordagem multidisciplinar, que combina ações educativas e clínicas. Conforme SILVA MATOS et al. (2024), a educação em saúde bucal deve ser iniciada na primeira consulta odontológica, com orientações sobre higiene oral, dieta equilibrada e uso adequado do flúor. Demonstrar técnicas corretas de escovação e incentivar o uso do fio dental são práticas essenciais para a prevenção da cárie desde a infância.
4 CASO CLÍNICO
4.1 Anamnese e Diagnóstico
A paciente S.L.S., 5 anos, compareceu à UBS com a queixa principal, relatada pela mãe, de que os dentes “necessitavam de limpeza e restauração”. Este fato ressalta a importância do exame clínico profissional para a detecção da doença. Na anamnese, não foram identificadas comorbidades. Contudo, foi relatado o uso pregresso de sulfato ferroso e higiene bucal realizada duas vezes ao dia, informações relevantes para a investigação etiológica.
Figura 02 – Anamnese da Paciente.

A: Cárie severa em incisivos decíduos (dentes de leite). B: Lesão de cárie oclusal (na superfície de mastigação) em molar decíduo.
Fonte: Autoria Própria.
O exame odontológico, conforme figura 02 – A e B, confirmou o diagnóstico de Cárie Precoce Infantil (CPI). Foram identificadas sete lesões de cárie em dentes decíduos (55, 51, 61, 62, 65, 75 e 85), com destaque para as lesões em incisivos superiores (Classes III e V), um padrão severo que exigiu intervenção imediata para reabilitação. Assim, demarcados no diagrama dental na figura 03.
Figura 03 – Diagrama dental (odontograma) de dentes de leite com marcações de cárie (em azul).

Fonte: Adaptado pela autora do modelo de odontograma fornecido pela plataforma Cloudia.
4.2 Plano de Tratamento
O Plano de Tratamento, foi estabelecido visando ao saneamento total da boca, à interrupção do processo carioso e à recuperação da função e estética, aspectos cruciais na Odontopediatria. O plano abrangente incluiu:
1. Remoção do tecido cariado com o mínimo de invasão.
2. Restaurações em resina composta (Opallis, FGM) para promover estética e longevidade.
3. Profilaxia e Aplicação Tópica de Flúor (ATF) para controle do risco.
Os procedimentos foram escalonados em quatro sessões, priorizando a intervenção em lesões que comprometiam a estética (incisivos) e, subsequentemente, a função mastigatória (molares).
4.3 Execução do Plano de Tratamento
4.3.1 Remoção do Tecido Cariado e Restaurações em Resina Composta
A técnica restauradora iniciou-se com a remoção minimamente invasiva do tecido cariado, utilizando uma broca esférica pequena (N 1014), focando na preservação máxima da estrutura dental. Em seguida, foi aplicado o ácido ortofosfórico a 35% (Gluma Etch 35 Gel) por 15 segundos.
O sistema adesivo (Ambar, FGM) foi aplicado e fotopolimerizado (Emitter A Fit), seguido da inserção da resina composta em incrementos (Opallis, FGM, cor A3,5) para controlar a tensão de contração de polimerização. A finalização incluiu acabamento e polimento (Kit Dura-Gloss), essenciais para reduzir o acúmulo de placa e garantir a saúde gengival.
O tratamento restaurador foi concluído em quatro datas distintas, demonstrando a organização por quadrantes e a priorização clínica:
● 28/03/2025: Restauração do dente 62 (Vestibular – Classe V).
Figura 04 – Sequência de tratamento minimamente invasivo 62.

A: Lesão de mancha branca (cárie inicial) em incisivo. B: Fotopolimerização (aplicação de luz) do material restaurador/selante. C: Aspecto final após o tratamento.
Fonte: Autoria Própria.
A primeira etapa do tratamento consistiu na restauração de uma lesão de cárie branca em estágio inicial, classificada como Classe V, localizada na face vestibular do dente decíduo 62, figura 04 – A. O planejamento incluiu a remoção seletiva e minimamente invasiva do tecido cariado. O procedimento iniciou-se com o isolamento relativo da área, fundamental para a manutenção de um campo operatório seco e limpo. A remoção do tecido amolecido foi efetuada cuidadosamente com broca em alta rotação, visando a máxima preservação da estrutura dental sadia remanescente.
Em seguida, aplicou-se o sistema adesivo através da técnica de condicionamento total: Ácido Fosfórico a 37% foi aplicado em esmalte e dentina por 15 a 20 segundos, seguido de lavagem abundante e secagem suave, evitando-se a desidratação da dentina. O adesivo foi aplicado, disperso por leve jato de ar e fotopolimerizado. A restauração foi executada com resina composta, inserida em incrementos para minimizar o estresse de contração de polimerização, modelando a anatomia vestibular. Cada incremento foi fotopolimerizado individualmente, imagem 04 – B. O procedimento foi finalizado com o acabamento e polimento, garantindo brilho, lisura superficial e prevenção do acúmulo de biofilme, essenciais para a longevidade estética e funcional da restauração, figura 04 – C.
● 27/05/2025: Restauração dos dentes 51 (Vestibular e Mesial) e 61 (Mesial).
Figura 05 – Etapas da restauração dentária 51 e 61.

A: Dentes anteriores com lesões de cárie. B: Dentes preparados para receber a restauração (cavidade aberta). C: Restauração finalizada (dentes restaurados).
Fonte: Autoria Própria.
Em sequência ao tratamento, envolveu a identificação e tratamento de lesões de cárie múltiplas nos incisivos centrais superiores decíduos, a saber: dente 51 (Incisivo Central Superior Direito Decíduo) com lesões Classe V (Vestibular) e Classe III (Mesial), e dente 61 (Incisivo Central Superior Esquerdo Decíduo) com lesão Classe III (Mesial), figura 05 – A. O protocolo iniciou-se com o isolamento relativo da área utilizando roletes de algodão e aspiração, visando manter um campo operatório seco e livre de contaminação para otimizar a adesão. A remoção do tecido cariado foi efetuada seletivamente com broca esférica em alta rotação, limitando o preparo cavitário ao tecido afetado e garantindo a máxima preservação da estrutura dental sadia, conforme princípios de Odontologia Minimamente Invasiva, figura 05 – B.
O protocolo adesivo foi implementado com o condicionamento ácido total, utilizando Ácido Fosfórico a 37% por 15 a 20 segundos nas áreas de esmalte e dentina, seguido de lavagem abundante e secagem suave para evitar a desidratação da dentina. O adesivo foi aplicado em toda a superfície condicionada, seguido de leve jato de ar e fotopolimerização. A reconstrução anatômica foi realizada com resina composta, inserida em pequenas camadas para garantir a melhor adaptação e minimizar o estresse de contração. O procedimento culminou com o acabamento e polimento final das restaurações nos dentes 51 e 61, conforme figura 05 – C, restabelecendo a forma, função e estética, e proporcionando lisura superficial para a prevenção de acúmulo de biofilme e pigmentação.
● 24/07/2025: Restauração dos dentes 85 e 75 (Oclusal – Classe I).
Figura 06 – Tratamento restaurador em molar decíduo 85 e 75.

A/B: Vistas da lesão de cárie oclusal (antes do tratamento). C: Aspecto do dente após a restauração.
Fonte: Autoria Própria.
O tratamento ainda abordou a restauração de lesões de cárie profundas, classificadas como Classe I (Oclusal), dos segundos molares decíduos inferiores (dentes 75 e 85), conforme figura 06 – A e B. Embora profundas, as lesões não apresentavam comprometimento pulpar. O procedimento foi iniciado com o isolamento relativo da área (roletes de algodão e aspiração) para assegurar um campo operatório seco e livre de contaminação. A remoção do tecido cariado foi executada de forma seletiva, utilizando broca em alta rotação, complementada pela cureta dentinária em áreas profundas, até atingir o tecido dentinário saudável. Devido à profundidade da cavidade, aplicou-se um protetor à base de Cimento de Ionômero de Vidro (CIV) sobre a dentina mais profunda, visando a proteção pulpar e a redução da sensibilidade pós-operatória.
Em seguida, o protocolo adesivo foi estabelecido. O Ácido Fosfórico a 37% foi aplicado sobre esmalte e dentina (excluindo a área recoberta pelo CIV) por um período de 30 segundos, seguido de lavagem abundante e secagem suave para evitar a desidratação da dentina. O adesivo foi aplicado em toda a superfície condicionada e fotopolimerizado por 20 segundos. A restauração foi realizada, como mostra a figura 06 – C, com resina composta, inserida em incrementos e cuidadosamente modelada para restabelecer a anatomia oclusal e funcional dos dentes 75 e 85. Cada incremento foi fotopolimerizado individualmente. O procedimento foi finalizado com o acabamento e polimento, conferindo brilho, lisura superficial e restabelecimento estético-funcional duradouro às restaurações.
● 19/09/2025: Restauração dos dentes 55 e 65 (Oclusal – Classe I).
Figura 07 – A: Vista oclusal superior mostrando as restaurações nos dentes 55 e 65. B: Vista lateral com setas indicando os molares 55 e 65 restaurados.

Fonte: Autoria Própria.
A última fase do tratamento compreendeu a restauração de lesões de cárie, classificadas como Classe I (Oclusal) e de profundidade média, nos segundos molares decíduos superiores (dentes 55 e 65), como mostra a figura 07 – A. Foi confirmado o diagnóstico de ausência de comprometimento pulpar. O procedimento iniciou-se com o isolamento relativo do campo operatório por meio de roletes de algodão e aspiração, técnica crucial para garantir o controle da umidade e a eficácia da adesão. A remoção do tecido cariado foi realizada seletivamente com brocas em alta rotação, complementada pelo uso da cureta dentinária para a remoção cuidadosa do tecido desmineralizado, assegurando a máxima preservação da estrutura dental sadia.
Em seguida, o protocolo adesivo foi estabelecido com o condicionamento ácido total: Ácido Fosfórico a 37% foi aplicado em esmalte e dentina por 30 segundos, seguido de lavagem abundante e secagem suave. O adesivo (não especificado) foi aplicado, disperso e, em seguida, o conjunto de adesivo e dentina foi fotopolimerizado por 20 segundos. A reconstrução foi realizada com resina composta, inserida em incrementos (camadas) de pequena quantidade para controle do estresse de polimerização. A anatomia oclusal foi moldada e cada incremento foi fotopolimerizado individualmente. O procedimento foi finalizado com o acabamento e polimento, conforme figura 07 – B, conferindo brilho e lisura superficial, fundamentais para a funcionalidade, estética e prevenção do acúmulo de biofilme nas restaurações.
4.3.2 Profilaxia e Aplicação de Flúor
A fase de tratamento restaurador foi encerrada em 19/09/2025 com a realização da profilaxia completa e a aplicação tópica de flúor (Pasta Profilática Prophy Care) como mostra a figura 08 – A e B. Esta etapa marca a transição para a fase de manutenção, pois o flúor promove a remineralização e aumenta a resistência do esmalte nos dentes restantes, sendo crucial no controle do risco de novas lesões.
Figura 08 – A: Vistas frontal (imagem superior) e B: do arco inferior (imagem inferior) após procedimento de profilaxia (limpeza).

Fonte: Autoria Própria.
4.3.3 Prevenção e Orientação
Com todas as lesões restauradas, foram fornecidas orientações preventivas rigorosas aos pais, destacando-se o uso de creme dental com flúor e, de forma fundamental, a supervisão na escovação pelo menos três vezes ao dia. A família foi conscientizada sobre o alto risco de cárie da paciente e a necessidade de retorno regular, ressaltando que a manutenção da saúde bucal é vital até a esfoliação dos dentes decíduos e o completo estabelecimento da dentição permanente.
5 CONCLUSÃO
O presente relato de caso sobre o manejo da Cárie Precoce Infantil (CPI) na paciente S.L.S. demonstrou a eficácia da intervenção odontológica integral realizada no ambiente da Unidade Básica de Saúde (UBS). O sucesso do tratamento baseou-se em um diagnóstico precoce, seguido de um plano terapêutico que priorizou o saneamento da cavidade bucal e a recuperação da função e estética, utilizando técnicas e materiais restauradores (resina composta) de excelência.
A resolução clínica das sete lesões cariosas nos dentes decíduos foi crucial, mas a dimensão preventiva é o pilar deste trabalho. Fica evidente a importância fundamental da Atenção Primária em Saúde para a saúde bucal infantil, especialmente no que tange ao cuidado com as crianças. O sucesso a longo prazo no controle da CPI exige que o cirurgião-dentista atue não apenas na restauração, mas principalmente na educação em saúde, capacitando os pais para a supervisão rigorosa da higiene bucal e o controle da dieta.
Dessa forma, o caso reforça que a atuação em Odontopediatria, integrada à UBS, transcende a clínica: é uma ferramenta essencial para quebrar o ciclo da cárie e garantir que a criança estabeleça uma dentição permanente saudável, promovendo qualidade de vida desde os primeiros anos.
REFERÊNCIAS
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