REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510081736
Wallace Maciel Pacheco Neto1*
Jenesca Florencio Vicente Lima2
RESUMO
A exploração de água subterrânea em terrenos cristalinos fraturados representa um grande desafio hidrogeológico, devido à heterogeneidade estrutural, à baixa porosidade primária e ao controle estrutural dos fluxos subterrâneos. Este estudo teve como objetivo caracterizar uma porção do aquífero fraturado na região de Santa Teresa (ES), inserido na porção setentrional da Faixa Ribeira, onde é fortemente influenciado pelo Feixe de Lineamentos Colatina. As investigações foram realizadas por meio da aplicação do método de eletrorresistividade, com foco na Sondagem Elétrica Vertical (SEV). Foram realizados 25 levantamentos com arranjo Schlumberger, processados no IPI2WIN e integrados a informações geológicas e estruturais regionais. A interpretação permitiu distinguir quatro unidades geoelétricas principais (solo, sedimento areno argiloso, saprolito e embasamento cristalino fraturado) e identificar áreas favoráveis para locação de poços. Os resultados corroboram a aplicabilidade do método geoelétrico em terrenos cristalinos, indicando que perfis com resistividades intermediárias no saprolito e maior espessura dessa unidade tendem a apresentar melhor potencial hídrico. As limitações decorrem da heterogeneidade local, interferências superficiais e da necessidade de calibração por testes hidráulicos. O estudo fornece subsídios práticos para o planejamento do uso de recursos hídricos subterrâneos no IFES Campus Santa Teresa e áreas de entorno.
Palavras-chave: eletrorresistividade; aquífero fraturado; SEV; hidrogeologia; Santa Teresa.
ABSTRACT
Groundwater exploration in fractured crystalline terrains represents a major hydrogeological challenge due to structural heterogeneity, low primary porosity, and the structural control of subsurface flows. This study aimed to characterize a portion of the fractured aquifer in the Santa Teresa region (Espírito Santo, Brazil), located in the northern sector of the Ribeira Belt and strongly influenced by the Colatina Lineament Zone. Investigations were carried out using the electrical resistivity method, focusing on Vertical Electrical Sounding (VES). A total of 25 surveys were conducted with a Schlumberger array, processed in IPI2WIN, and integrated with regional geological and structural information. The interpretation allowed the distinction of four main geoelectrical units (soil, sandy-clayey sediment, saprolite, and fractured crystalline basement) and the identification of favorable areas for well siting. The results corroborate the applicability of the geoelectrical method in crystalline terrains, indicating that profiles with intermediate resistivities in the saprolite and greater thickness of this unit tend to present higher groundwater potential. Limitations arise from local heterogeneity, surface interferences, and the need for calibration through hydraulic testing. This study provides practical insights for groundwater resource planning at the IFES Santa Teresa Campus and surrounding areas.
Keywords: electrical resistivity; fractured aquifer; VES; hydrogeology; Santa Teresa.
1. INTRODUÇÃO
Regiões inseridas no chamado polígono das secas convivem com irregularidade de chuvas, elevação de demanda e maior pressão sobre os recursos hídricos superficiais. Nesse cenário, a água subterrânea adquire papel estratégico por sua relativa resiliência a períodos de estiagem. Entretanto, em terrenos cristalinos, predominam aquíferos fissurais, cuja ocorrência e produtividade dependem da presença, conectividade e abertura de fraturas, juntas e falhas (Feitosa & Manoel Filho, 2000). A porosidade primária é frequentemente desprezível, o que demanda abordagens investigativas que identifiquem indiretamente zonas favoráveis de armazenamento e circulação.
A geofísica aplicada fornece métricas físicas sensíveis às variações litológicas e às condições de saturação. Entre os métodos disponíveis, a eletrorresistividade destaca-se por sua capacidade de discriminar materiais de diferentes resistividades e mapear contrastes associados a solo, mantos de alteração e rocha sã fraturada (Braga, 2016). A Sondagem Elétrica Vertical (SEV), particularmente com o arranjo Schlumberger, permite investigar a variação vertical da resistividade a partir da superfície, com custo relativamente baixo e logística compatível com levantamentos em escala local.
Este trabalho objetiva caracterizar o aquífero fraturado de Santa Teresa (ES), na localidade do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) – Campus Santa Tereza, utilizando SEV, e buscou-se: i) distinguir unidades de baixa, média e alta resistividade e sua espessura; ii) associar tais unidades às fácies de solo, sedimento arenoargiloso, saprolito e embasamento cristalino; iii) reconhecer assinaturas compatíveis com maior favorabilidade hídrica; iv) subsidiar a locação de poços em áreas de maior potencial.
Além da abordagem geofísica, o estudo integra evidências geológicas, fisiográficas e estruturais, reconhecendo o controle exercido por lineamentos regionais sobre a drenagem e a recarga. A contribuição deste trabalho reside na integração objetiva entre dados geoelétricos e a interpretação hidrogeológica em ambiente cristalino, oferecendo um protocolo replicável para áreas com desafios de abastecimento hídrico similares.
2. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO
2.1 Aspectos fisiográficos
A área de estudo está localizada na porção Central Serrana do estado do Espírito Santo no IFES Campus Santa Teresa, Rodovia ES-080 e Rodovia ES-260, Km 93, s/n – São João de Petrópolis (Figura 1). No mapa de localização também pode ser observado as localidades onde foram realizados os 25 levantamentos das Sondagens Elétricas Verticais (SEV’s) distribuídas ao longo do Campus do instituto.
Figura 1 – Mapa de localização do polígono estudado e os pontos de SEV’s evidenciados, Santa Teresa, Espírito Santo, Brasil.

Fonte: Elaborado pelo autor.
A região apresenta relevo montanhoso a forte ondulado, com amplitude altimétrica significativa e vales encaixados, altitudes médias em torno de 800 a 1000 metros são registrados na região (RADAMBRASIL, 1987). Segundo o IBGE (2007), a cobertura pedológica dominante é o Latossolo Vermelho-Amarelo, solo profundamente intemperizado, textura argilo-arenosa e estrutura maciça, compatível com o contexto tropical úmido e com a presença de mantos espessos de alteração sobre o embasamento cristalino. Do ponto de vista fitofisionômico, predomina a Mata Atlântica, com fragmentos preservados e unidades de conservação relevantes, como a Reserva Biológica Augusto Ruschi e a Reserva Biológica de Santa Lúcia (INCAPER, 2011). O clima regional apresenta sazonalidade marcada, com estação seca prolongada e precipitação anual típica em torno de 1000–1100 mm, além de ocorrência de balanços hídricos negativos em anos de estiagem (INCAPER, 2016). A rede de drenagem local integra a bacia do Rio Doce, com cursos d’água de pequena extensão e vales controlados por estruturas regionais.
2.3 Contexto geológico
Geologicamente, a área insere-se na porção setentrional da Faixa Ribeira, no domínio do Complexo Costeiro, com forte influência do Feixe de Lineamentos Colatina. Segundo Tupinambá et al. (2000), o substrato rochoso da região, pertencente ao Complexo Costeiro, é composto majoritariamente por gnaisses peraluminosos e rochas graníticas associadas a eventos deformacionais e metamórficos de alto grau, relacionados à evolução orogênica decorrente do fechamento oceânico e colisão entre os blocos São Francisco e Congo (Gradim et al., 2014). A orientação preferencial dos lineamentos estruturais NNW–SSE condiciona o relevo e a drenagem, estabelecendo corredores estruturais de fraqueza que podem favorecer a circulação de água subterrânea (Novais et al., 2004; Mello et al., 2005).
2.4 Contexto hidrogeológico
O domínio hidrogeológico de Santa Teresa insere-se no contexto de aquíferos fissurais, característicos de terrenos cristalinos faixa Ribeira, formados por gnaisses, granitos e ortognaisses (Barreto, 2014; Marin, 2018). Nessa configuração, a água subterrânea é armazenada e circula predominantemente em porosidade secundária, associada a fraturas, falhas, juntas e microestruturas resultantes do intemperismo diferencial (SGB, 2020). A presença de um manto de alteração (saprolito) sobre o embasamento, com espessura variável, desempenha papel fundamental, pois, quando fraturado, contribui para o aumento do volume armazenado e da conectividade hidráulica, sobretudo em setores de vale, onde há maior acúmulo de material de alteração.
A recarga dos aquíferos fissurados na região ocorre, principalmente, por infiltração de águas pluviais através do solo e posterior percolação nas fraturas e descontinuidades. No entanto, a taxa efetiva de recarga é reduzida, uma vez que grande parte da precipitação, é dissipada por escoamento superficial e evapotranspiração, resultando em déficits hídricos sazonais (INCAPER, 2016; Marin, 2018).
Nesse sentido, o conceito de riacho-fenda introduzido por Siqueira (1963) mostra-se particularmente útil para compreender a alimentação desses aquíferos pela água meteórica, ao relacionar a drenagem superficial com as zonas de fraturamento do maciço rochoso. Essa condição sugere maior oportunidade de recarga localizada, assim como interconexão entre o aquífero poroso raso, associado ao manto de alteração, e o aquífero fissural do embasamento cristalino.
Estudos hidrogeológicos no Espírito Santo apontam que aquíferos fissurados em rochas granítico-gnáissicas apresentam, em média, vazões modestas da ordem de 7 m³/h, embora possam alcançar valores superiores em setores com maior densidade e conectividade de fraturas (Freitas; Viera, 2005). Assim, a disponibilidade hídrica subterrânea em Santa Teresa é heterogênea e fortemente dependente da estrutura tectônica local, além de sensível a alterações na cobertura do solo, que influenciam diretamente os processos de infiltração e recarga (SGB, 2020).
3. MÉTODOS
O presente estudo foi desenvolvido em três etapas metodológicas sequenciais: (i) etapa pré-campo, destinada à revisão bibliográfica e definição das áreas de investigação; (ii) etapa de campo, referente à execução dos levantamentos geofísicos e ensaio de bombeamento; e (iii) etapa pós-campo, que englobou o tratamento, processamento e interpretação dos dados obtidos.
3.1 Etapa pré-campo
Nesta fase inicial foi realizada uma revisão bibliográfica abrangente sobre a geologia e hidrogeologia regional, com ênfase em aquíferos fraturados em terrenos cristalinos e em estudos prévios que aplicaram métodos geoelétricos em condições similares (Orellana, 1972; Braga, 2016). Também foram consultadas bases cartográficas e hidrográficas, além de imagens aéreas (Google Earth), que subsidiaram a análise de lineamentos estruturais e auxiliaram na definição dos pontos de aplicação das sondagens elétricas verticais (SEVs).
A escolha dos locais para os levantamentos considerou critérios geológicos, estruturais e hidrogeológicos, de modo a abranger setores representativos do Campus do IFES Santa Teresa, onde foram selecionadas quatro áreas principais: Setor Milarezi, Setor Suinocultura, Setor Agroecologia e Setor Bovinocultura. Adicionalmente, foi incluída a área de um poço em funcionamento, denominada Setor Poço, visando correlacionar dados diretos de produção com a resposta geoelétrica.
3.2 Etapa de campo
A etapa de campo compreendeu a execução de levantamentos geofísicos por meio do método da eletrorresistividade, utilizando a técnica de Sondagem Elétrica Vertical (SEV). Esse método consiste na injeção de corrente elétrica no solo por meio de dois eletrodos (A-B) e na medição da diferença de potencial em um segundo par (M-N). O valor de resistividade aparente calculado depende do arranjo geométrico adotado e da profundidade de investigação, a qual é proporcional ao espaçamento entre os eletrodos (Orellana, 1972; Braga, 2016).
O arranjo Schlumberger foi o escolhido para as SEVs, por proporcionar maior profundidade investigada e menor suscetibilidade a ruídos em terrenos heterogêneos. Nesse arranjo, os eletrodos de corrente (A-B) são afastados progressivamente, enquanto os eletrodos de potencial (M-N) permanecem fixos e alinhados simetricamente em relação ao centro da sondagem (Figura 2). O aumento do espaçamento AB amplia o volume de investigação, possibilitando o mapeamento de camadas progressivamente mais profundas.
Figura 2 – Esquema de arranjo Schlumberger.

Fonte: Braga (2016).
As aberturas empregadas nos eletrodos de corrente variaram de AB/2 = 1,5 m a 90 m, enquanto para os eletrodos de potencial foram utilizadas aberturas de 0,6 m e 2 m. No total, foram realizadas 24 SEVs distribuídas nas quatro áreas pré-estabelecidas, além da investigação específica do poço em funcionamento. O mapa contido na Figura 1 deste trabalho mostra a distribuição das SEVs, sendo que os pontos A representam o Setor Milarezi, os Pontos B o Setor Suinocultura, os Pontos C o setor Agroecologia e os Pontos D o setor Bovinocultura, além do ponto E representar o levantamento realizado no poço em funcionamento.
O equipamento utilizado foi o Terrômetro digital TMD 20KW (Instrum), capaz de registrar valores de resistividade de até 20.000 ohms, associado a eletrodos metálicos tipo Cooperweld, cabos condutores de baixa resistência, além de acessórios de apoio (GPS, martelos, trenas).
Além dos levantamentos geofísicos, foi realizado um ensaio de bombeamento no poço localizado no Campus (Setor Poço), com profundidade aproximada de 42 metros. O teste consistiu na medição do nível estático e dinâmico da água por meio de um medidor de nível, e na determinação da vazão pela técnica volumétrica, em que o tempo de enchimento de um recipiente de volume conhecido é registrado. Esses dados subsidiaram a interpretação hidrogeológica associada aos perfis geoelétricos.
3.3 Etapa pós-campo
Após a coleta, os dados foram submetidos a tratamento, processamento e interpretação em três fases:
1. Análise da morfologia das curvas de campo – realizada no software Microsoft Excel, permitindo caracterizar o comportamento da resistividade aparente em função do espaçamento dos eletrodos.
2. Processamento e modelagem – as curvas experimentais foram suavizadas e ajustadas por meio do software IPI2WIN, que forneceu modelos geoelétricos preliminares com as respectivas espessuras e resistividades das camadas.
3. Integração geológica e hidrogeológica – os resultados foram correlacionados com a geologia local, registros bibliográficos e informações de campo. Para a visualização e integração dos perfis geoelétricos foram utilizados módulos demonstrativos do software Rockworks, possibilitando a elaboração de seções interpretativas.
Essa abordagem metodológica permitiu associar dados geológicos, hidrogeológicos e geofísicos, visando a caracterização do potencial aquífero das áreas investigadas e subsidiando a definição de locais mais favoráveis à captação de água subterrânea.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os levantamentos geofísicos realizados por meio de 25 sondagens elétricas verticais (SEVs), no arranjo Schlumberger, possibilitaram a caracterização geoelétrica do subsolo na área de estudo. Os resultados foram organizados em duas etapas analíticas, iniciando com o processamento das curvas de campo e determinação das camadas geoelétricas, e em sequência seguindo para a interpretação dos resultados e associação com a geologia local para construção de perfis interpretativos de resistividade. Para melhor apresentação dos resultados, serão demonstrados apenas os perfis geoelétricos gerados a partir das curvas de campo. Os gráficos das curvas de campo e os resultados das suavizações destas podem ser visualizados nos apêndices deste manuscrito.
4.1. Processamento das curvas de campo e determinação das camadas geoelétricas
Os dados de eletrorrestividade obtidos em campo foram processados através de planilhas eletrônicas (Microsoft EXCEL), com o objetivo de avaliar as curvas de campo e o comportamento da resistividade em função do espaçamento dos eletrodos. De modo geral, as curvas apresentaram tendência ascendente, indicando aumento da resistividade com a profundidade investigada, compatível com a presença de materiais progressivamente menos condutivos em direção ao embasamento cristalino. Apesar disso, alguns pontos apresentaram anomalias locais, marcadas por quedas abruptas de resistividade, interpretadas como efeitos de heterogeneidades ou interferências superficiais.
Esse comportamento inicial foi fundamental para identificar padrões gerais do subsolo e para subsidiar a etapa subsequente de suavização das curvas de campo, que visou eliminar pontos erráticos e ajustar modelos matemáticos mais realistas para as camadas geoelétricas. Nesta etapa, os dados foram processados no software IPI2WIN, que suavizou as curvas e estimou parâmetros como espessura (h), resistividade (ρ) e profundidade da base da camada (d). O erro médio de ajuste foi inferior a 1%, conferindo boa confiabilidade aos modelos gerados.
A partir dos resultados das curvas de campo suavizadas, foi possível elaborar as colunas geoelétricas para cada uma das 25 sessões de SEV realizadas, onde cada camada obtida com valores de resistividade e espessura constitui uma camada geoelétrica, e a partir delas caracterizar as principais unidades hidrogeológicas da região, com base nos litotipos definidos por Braga (2016). As principais unidades definidas na região podem ser observadas na Tabela 1.
Tabela 1: Unidades geoelétricas presentes na área de estudo, suas resistividades e interpretações hidrogeológicas.

Fonte: Adaptado de Braga (2016).
4.2 Associação geológica e perfis de eletrorresistividade
A partir das colunas geoelétricas mais representativas obtidas pelas SEVs, foram confeccionados seis perfis de resistividade no software RockWorks, baseados nas camadas suavizadas pelo IPI2WIN. Esses perfis foram divididos em setores representativos da área de estudo, permitindo a análise integrada entre os valores de resistividade, a geologia local e o controle estrutural observado em mapas de lineamentos.
O Setor Milarezi pode ser observado no perfil da Figura 3. O perfil de resistividade construído a partir dos pontos 1_A, 2_A e 3_A evidenciou contrastes marcantes, enquanto os pontos 1_A e 2_A apresentaram altos valores de resistividade em menores profundidades, sugerindo o topo do embasamento próximo à superfície, o ponto 3_A mostrou valores inferiores a 1000 Ω.m até 10 m de profundidade, compatíveis com solo e saprolito. Essa diferença é reforçada pelo posicionamento geomorfológico: os pontos 1_A e 2_A estão associados a regiões mais altas da região, enquanto o 3_A encontra-se em um vale estrutural, condição que favorece maior espessura de material intemperizado e, portanto, maior potencial aquífero.
Figura 3: Perfil geoelétrico interpretado para o Setor Milarezi.

Fonte: Elaborado pelo autor.
O Setor Suinocultura pode ser observado em dois perfis, presentes na Figura 4. O primeiro perfil entre os pontos 6_B, 4_B e 5_B apresentou assinaturas contrastantes, o ponto 4_B revelou valores superiores a 2800 Ω.m em baixa profundidade, caracterizando embasamento raso. Situação semelhante foi observada no ponto 6_B, embora com resistividades decrescentes em profundidade. Já o ponto 5_B destacou-se com resistividade máxima de apenas 600 Ω.m, indicando um embasamento mais profundo e presença de saprolito com potencial hídrico. O segundo perfil da suinocultura (pontos 20_B, 21_B e 22_B) reforçou o padrão: camadas de solo pouco espesso e aumento brusco da resistividade a partir de 4 m de profundidade, indicando contato com o embasamento.
Figura 4: Perfis geoelétricos interpretado para o Setor Suinocultura.

Fonte: Elaborado pelo autor.
O Setor agroecologia pode ser observado nos perfis da Figura 5. Os perfis da agroecologia apresentaram comportamentos distintos. Nos pontos 8_C, 7_C e 9_C, predominou um padrão homogêneo, com altos valores de resistividade a partir de 5 m, compatíveis com embasamento raso. Entretanto, no perfil formado pelos pontos 17_C, 19_C e 18_C, observou-se uma transição importante: enquanto o ponto 17_C apresentou resistividades altas em baixas profundidades, o ponto 18_C revelou camadas arenoargilosas espessas, com resistividade em torno de 242 Ω.m a 3,5 m de profundidade. Essa configuração é típica de zonas de recarga, e associada ao fato de o ponto 18_C estar inserido em área de baixada, reforça sua favorabilidade hidrogeológica.
Figura 5: Perfis geoelétricos interpretado para o Setor Agroecologia.

Fonte: Elaborado pelo autor.
O Setor Bovinocultura pode ser observado no perfil da Figura 6. O perfil entre os pontos 25_D, 23_D e 24_D evidenciou padrões contrastantes. Nos pontos 23_D e 24_D, predominaram valores menores de resistividade em maiores profundidades, caracterizando presença de saprolito mais intemperizado. Já o ponto 25_D apresentou valores elevados logo na superfície, sugerindo embasamento raso, condizente com sua posição em região mais elevada e próxima a cristas. Esse contraste espacial reforça a influência do relevo e do controle estrutural no potencial aquífero.
Figura 3: Perfil geoelétrico interpretado para o Setor Milarezi.

Fonte: Elaborado pelo autor.
A análise dos perfis mostra que a maior favorabilidade hídrica está associada a setores mais dissecados, com vales controlados por lineamentos estruturais, onde ocorrem saprolitos espessos com resistividades intermediárias (200–400 Ω.m), estes saprolitos só são possíveis pelo maior faturamento das rochas da região, intensificando os fatores intempéricos e aumentando os valores de permeabilidade e consequentemente o potencial hídrico dos aquíferos subterrâneos da região. Os pontos de maior destaque foram 3_A (Milarezi), 5_B (Suinocultura), 18_C (Agroecologia) e 24_D (Bovinocultura), todos com condições mais promissoras para a locação de poços, devido a menores resistividades em maiores profundidades.
Os padrões observados são consistentes com a expectativa para aquíferos fissurais em embasamento cristalino. A presença de saprolito de espessura moderada a alta, com resistividades intermediárias, costuma indicar melhor combinação entre armazenamento e conectividade hidráulica. Em contraste, embasamento raso e resistividades muito elevadas próximas à superfície tendem a restringir a produtividade. A resistência transversal, embora originalmente difundida em contextos sedimentares, mostra utilidade como indicador integrado em ambientes com manto de alteração sobre embasamento.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os levantamentos realizados com o método da sondagem elétrica vertical (SEV) permitiram caracterizar de forma consistente as principais unidades geoelétricas da área de estudo, distinguindo camadas de solo, sedimentos arenoargilosos, saprolito e embasamento cristalino fraturado. A partir das colunas geoelétricas e de sua disposição em perfis de resistividade, foi possível observar a continuidade lateral das camadas, bem como variações significativas relacionadas ao controle estrutural e geomorfológico.
Os resultados demonstraram que os setores mais promissores para a perfuração de poços localizam-se nas áreas de Milarezi (ponto 3_A) e Suinocultura (ponto 5_B), onde o saprolito apresentou maiores espessuras e resistividades intermediárias, características favoráveis à circulação e armazenamento de água subterrânea. A região da Agroecologia (ponto 18_C) também apresentou condições favoráveis, associadas a sedimentos arenoargilosos mais espessos em áreas de vale, reforçando o papel das zonas de recarga na potencialidade hídrica local. Por outro lado, pontos situados em regiões de crista, como 1_A, 2_A e 25_D, mostraram embasamento raso e altos valores de resistividade, pouco favoráveis à explotação.
Apesar dos avanços obtidos, os resultados reforçam que a eletrorresistividade gera estimativas indiretas, que devem ser interpretadas com cautela diante da complexidade estrutural e heterogeneidade do meio geológico. Ainda assim, o método demonstrou ser eficaz para a seleção preliminar de áreas favoráveis à locação de poços em terrenos cristalinos.
Para ampliar e consolidar os resultados aqui apresentados, recomenda-se a realização de perfurações exploratórias com perfilagem elétrica de poço, de modo a validar in situ as interpretações geoelétricas e correlacionar diretamente os valores de resistividade com a litologia real. Sugere-se também a integração com métodos geofísicos complementares, como o Ground Penetrating Radar (GPR) para camadas rasas e a sísmica de refração para maiores profundidades, aumentando a confiabilidade da caracterização do subsolo. Finalmente, a aplicação de técnicas de sensoriamento remoto e modelagem hidrogeológica permitirá integrar a distribuição espacial de fraturas, lineamentos e zonas de recarga aos resultados geofísicos, refinando o zoneamento de potencialidade aquífera. Com esses avanços, seria possível não apenas confirmar as áreas mais favoráveis à captação de água subterrânea, mas também aprimorar o modelo hidrogeológico da região, subsidiando de forma mais robusta a gestão hídrica local.
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APÊNDICES
I – Curvas de campo geradas para cada uma das SEVs



1Centro Universitário Belo Horizonte (UniBH), Belo Horizonte – MG – Brasil
2Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Alegre – ES – Brasil;
*autor correspondente, e-mail: wallacemaciel.geo@gmail.com
