CAPITALISMO E ADOECIMENTO PSÍQUICO: A CRISE DA SAÚDE MENTAL NO MUNDO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO

CAPITALISM AND MENTAL ILLNESS: THE CRISIS OF MENTAL HEALTH IN THE CONTEMPORARY WORLD OF WORK

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511061203


Gabriele Campos de Almeida1
Lorhanny Gabrielly David Rabelo2
Orientadora: Profa. Me. Larissa Isaura Gomes3


RESUMO 

O capitalismo engendra modos de existência delineados pelo sofrimento e adoecimento psíquicos. A subjetividade humana é construída em um contexto cujos balizadores tendem ao massacre de todas as formas comportamentais distanciadas da métrica a ser alcançada custe o que custar. A lógica perversa do capital dissemina o sentimento de invalidação, fracasso e desajustamento ao mundo, com a introjeção da culpabilização nos sujeitos. Esta pesquisa objetiva sistematizar elementos conceituais que possibilitem a análise do adoecimento psíquico intensificado pelo modelo capitalista. De natureza qualitativa, esta pesquisa foi construída na forma de revisão narrativa da literatura. O modo de produção capitalista se sustenta por uma lógica perversa que naturaliza a exploração e promove a docilização dos corpos, além da manutenção da alienação velada. A saúde mental dos trabalhadores vive um panorama de retrocessos e ataques, o que culmina na intensificação do adoecimento psíquico. A Psicologia, enquanto ciência e profissão, possui o compromisso ético e profissional de posicionar-se e contribuir para a compreensão das repercussões psíquicas advindas e intensificadas pelo modelo de produção capitalista. A saúde mental dos trabalhadores precisa compor pauta prioritária neste cenário de retrocessos e banalização da exploração. 

Palavras-chave: Saúde Mental; Capitalismo; Adoecimento psíquico. 

ABSTRACT

Capitalism engenders modes of existence shaped by suffering and mental illness. Human subjectivity is constructed in a context whose guiding principles tend to massacre all behavioral forms that are detached from the metric to be achieved at all costs. The perverse logic of capital disseminates feelings of invalidation, failure, and maladjustment to the world, with the internalization of guilt in individuals. This research aims to systematize conceptual elements that enable the analysis of mental illness intensified by the capitalist model. Qualitative in nature, this research was constructed as a narrative literature review. The capitalist mode of production is sustained by a perverse logic that naturalizes exploitation and promotes the docility of bodies, in addition to maintaining veiled alienation. Workers’ mental health experiences a panorama of setbacks and attacks, culminating in the intensification of mental illness. Psychology, as a science and profession, has an ethical and professional commitment to position itself and contribute to the understanding of the psychological repercussions arising from and intensified by the capitalist production model. The mental health of workers must be a priority in this scenario of setbacks and the trivialization of exploitation. 

Keywords: Mental Health; Capitalism; Mental Illness. 

1. INTRODUÇÃO 

O capitalismo, enquanto sistema econômico e social predominante, impõe modos de vida e subjetividades marcados por contradições e sofrimento psíquico. Harvey (2016) aponta que o capitalismo contemporâneo, caracterizado pela flexibilização do trabalho e pelo avanço do neoliberalismo, acentua desigualdades e precariza as condições de vida, intensificando o impacto na saúde mental dos indivíduos. Sob essa lógica, a busca incessante por produtividade e desempenho configura-se como elemento central que molda as relações humanas, muitas vezes desconsiderando os limites subjetivos dos trabalhadores (Harvey, 2016). 

Essa dinâmica não se restringe à esfera econômica, adentra o campo subjetivo e emocional, produzindo sentimentos de inadequação e fracasso. Em seu livro Han (2015), “A Sociedade do Cansaço”, descreve como o sujeito contemporâneo é pressionado a se tornar um “empreendedor de si mesmo”, internalizando a culpa por não atender às demandas de alta performance do mercado. Esse modelo reforça a ideia de que o sofrimento é consequência individual, ocultando os fatores estruturais que o perpetuam (Han, 2015). Nesse contexto, o adoecimento psíquico emerge como um efeito colateral naturalizado da vida moderna com justificativa e responsabilidade estritamente individual. 

Para Dejours (2012), a precarização do trabalho e a intensificação das cobranças resultam em uma “patologia social”, caracterizada pelo esgotamento emocional e pela desconexão do sujeito com seu próprio desejo. Esse processo reflete o caráter exploratório do capitalismo, que reduz os trabalhadores a meros recursos, promovendo a docilização dos corpos e a alienação das subjetividades (Dejours, 2012). Essa lógica perversa, ao normalizar o sofrimento, dificulta o acesso a condições dignas de vida e saúde mental. 

Neste cenário, a Psicologia emerge como campo essencial para analisar os impactos do capitalismo sobre a saúde mental. A ciência psicológica, ao lado de outras áreas do conhecimento, tem o papel de desvelar os mecanismos que perpetuam o sofrimento, oferecendo subsídios para a construção de alternativas que promovam a dignidade e o bem-estar humano. Cabe à Psicologia compreender, questionar criticamente as implicações desse sistema na subjetividade e propor caminhos para resistir à lógica alienante imposta pelo capital. Esta pesquisa, de natureza qualitativa, foi desenvolvida sob a metodologia de revisão narrativa da literatura. Os critérios de inclusão dos artigos definidos para esta revisão narrativa foram: estar publicados nos idiomas português ou inglês, disponíveis eletronicamente e abordarem a temática em estudo. A busca foi realizada por acesso online, em artigos completos, livros, periódicos, relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU), entre outros documentos oficiais (leis, publicações do Ministério da Saúde e do Trabalho), publicados entre os anos de 1969 e 2025. Não houve recorte temporal prévio; os artigos que emergiram da busca e atenderam aos critérios de inclusão estavam compreendidos nesse período. Dos documentos oficiais e artigos foram extraídas informações que buscassem responder ao questionamento proposto e ao objetivo do estudo, evidenciando a inter-relação entre o capitalismo e o adoecimento psíquico. 

Objetivou-se sistematizar elementos conceituais que contribuam para a compreensão das formas pelas quais o sistema capitalista intensifica o sofrimento humano. Busca-se reforçar a relevância de ações integradas que incluam a saúde mental dos trabalhadores como prioridade em políticas públicas e práticas institucionais. 

A precarização do trabalho, a intensificação do controle sobre os corpos e mentes e a alienação são algumas das características do capitalismo que agravam o cenário de sofrimento psíquico. Esse modelo se sustenta na docilização dos sujeitos, invisibilizando as condições objetivas que geram sofrimento enquanto responsabiliza os indivíduos por sua incapacidade de se moldarem às exigências do mercado. Tais dinâmicas resultam na desumanização do trabalhador, reduzido a um recurso descartável. 

A Psicologia, enquanto ciência e profissão, tem o compromisso ético e social de atuar contra essas condições, promovendo uma compreensão crítica do adoecimento psíquico. Essa postura implica reconhecer os determinantes históricos, sociais e econômicos que contribuem para esse processo, além de propor intervenções que privilegiem a saúde mental em detrimento das demandas desumanizantes do mercado. Assim, ao analisar a relação entre capitalismo e adoecimento psíquico, este trabalho busca contribuir para o debate sobre a centralidade da saúde mental na luta por um modelo de sociedade mais justo, humano e decente. 

2. A LÓGICA CAPITALISTA E A PRODUÇÃO DO SOFRIMENTO PSÍQUICO 

O capitalismo é um sistema econômico historicamente consolidado, cuja lógica de funcionamento visa primordialmente à acumulação de capital e à ampliação constante do lucro. Surgido na Europa entre os séculos XV e XVI, esse modelo estruturou-se com base na propriedade privada dos meios de produção e na divisão do trabalho. 

As máquinas, terras, instalações industriais e demais instrumentos produtivos tornaram-se propriedades de uma minoria que detém o poder de explorar a força de trabalho da maioria da população, que precisa vender sua capacidade produtiva para sobreviver (Marx, 2013). Como observa Harvey (2016), essa lógica de organização econômica transbordou para o campo das relações sociais, políticas e subjetivas, moldando modos de vida e experiências psíquicas. 

No campo da Psicologia, é fundamental compreender que o sistema capitalista condiciona as formas materiais de existência e engendra subjetividades. A lógica produtivista, competitiva e meritocrática, imposta como padrão normativo de sucesso e valor pessoal, configura-se como um potente vetor de sofrimento psíquico (Han, 2015). Segundo Han (2015), ao abordar o conceito de “sociedade do desempenho”, destaca-se que o sujeito contemporâneo é pressionado a ser permanentemente produtivo, multitarefas e eficaz, o que o leva a uma autovigilância constante e à exploração de si mesmo, em um processo de esgotamento psíquico invisibilizado sob o ideal da liberdade. 

A subjetividade é constituída sob o imperativo da performance. Aqueles que não conseguem corresponder às exigências de produtividade e sucesso imposta pelo capital são, frequentemente, tomados por sentimentos de inadequação, fracasso e desvalorização (Han, 2015). Essa experiência subjetiva é marcada por mecanismos de introjeção da culpa, nos quais o indivíduo é responsabilizado pelo próprio sofrimento, desconsiderando-se os determinantes estruturais e sociais de sua condição. Como afirma Dejours (2012), o sofrimento psíquico nas organizações é frequentemente silenciado ou individualizado, mascarando o caráter político da dor no trabalho. 

A desigualdade social imposta pela concentração dos meios de produção gera a polarização entre uma minoria rica e uma maioria empobrecida, que enfrenta múltiplas formas de precarização da vida. Viapiana et al. (2018), analisam como essa desigualdade acarreta impactos profundos sobre a saúde mental da população, uma vez que os determinantes sociais do processo saúde-doença não podem ser ignorados. A superexploração, o assédio, os salários insuficientes, a informalidade, o desemprego e a exigência constante de produtividade compõem um cenário adoecedor que afeta diretamente o bem-estar psíquico dos trabalhadores (Viapiana et al., 2018). 

O filósofo Canguilhem (2000), compreende o adoecimento psíquico como uma forma singular de relação com o mundo, resultante das rupturas entre o sujeito e o meio. Nessa perspectiva, o sofrimento não é apenas um fenômeno clínico individual, mas uma expressão da impossibilidade de adaptação às exigências de um meio hostil. O sistema capitalista impõe essa hostilidade ao normatizar formas de viver baseadas na competitividade, na aceleração e no consumo, o que marginaliza modos de existência considerados improdutivos ou “inúteis”, alimentando um ciclo de frustração e alienação (Canguilhem, 2000). 

O conceito de alienação, elaborado por Marx (2013), revela como o trabalho no capitalismo deixa de ser uma atividade vital e criativa para tornar-se uma imposição externa. O trabalhador, alienado do produto de seu trabalho e de sua própria atividade, vivencia o trabalho como um sacrifício e não como expressão de sua essência. O sujeito é reduzido à condição de objeto dentro do processo produtivo, em uma relação marcada pela exploração e pelo estranhamento de si mesmo (Marx, 2013). 

Engels (2008), por sua vez, já denunciava no século XIX as condições precárias de vida e trabalho da classe operária, associando o adoecimento físico e mental ao alcoolismo e à miséria. A falta de condições mínimas de moradia, lazer e segurança leva os trabalhadores a buscar refúgio em estímulos como o álcool, numa tentativa de suportar a dureza da existência (Engels, 2008).  

As populações em situação de pobreza persistente vivenciam um desamparo estrutural profundamente enraizado em desigualdades socioeconômicas e naquilo que Galtung (1969) denominou de violência estrutural, caracterizada por formas sistêmicas de exclusão que limitam o acesso a direitos básicos e produzem sofrimento evitável. Essa condição fragiliza o tecido social e amplia o risco de sofrimento psíquico, favorecendo o desenvolvimento de transtornos mentais como depressão e ansiedade, além de impulsionar a adoção de estratégias de sobrevivência potencialmente danosas, como o uso abusivo de substâncias e a inserção em atividades de risco (OMS, 2014). 

Castel (1997) descreve essa condição como uma “zona de vulnerabilidade”, marcada pela instabilidade laboral e pela precarização dos vínculos sociais, elementos que alimentam sentimentos de desesperança e marginalização. No contexto brasileiro, o quadro se agrava pelo subfinanciamento estrutural e pela distribuição desigual dos serviços de saúde mental, que dificultam o acesso das camadas populares a políticas de cuidado e proteção, perpetuando o ciclo de exclusão e sofrimento psíquico (Onocko-Campos, 2019). 

Dessa maneira, constata-se que os determinantes sociais da saúde, como a educação, o trabalho, a moradia e o acesso a serviços de saúde, exercem influência sobre o bem-estar físico e se configuram como variáveis fundamentais para a compreensão da incidência e da manutenção do adoecimento psíquico em populações em situação de vulnerabilidade (Buss et al., 2007).             

No século XXI, uma nova categoria social emerge com destaque, o precariado. Standing (2011) define o precariado como uma classe fragmentada e vulnerável, composta por trabalhadores que vivem sob instabilidade permanente, sem acesso a direitos trabalhistas mínimos, segurança financeira ou perspectivas de ascensão social. Essa classe é especialmente afetada por formas contemporâneas de exploração, como a intermitência, os contratos temporários, a informalidade e a virtualização do trabalho (Standing, 2011). A insegurança constante e a falta de pertencimento geram efeitos devastadores sobre a saúde mental, favorecendo o isolamento, a ansiedade e o medo do futuro (Standing, 2011). 

A saúde mental no capitalismo é atravessada por múltiplas variáveis que não podem ser analisadas de forma isolada. O adoecimento psíquico está associado a fatores como o deslocamento urbano, o acúmulo de funções (como a sobrecarga doméstica), a má alimentação, a dificuldade de acesso à educação e à saúde, entre outros (Bock, 2021). Trigo et al., (2007) alertam que a fadiga crônica e os transtornos relacionados ao trabalho, como a Síndrome de Burnout, não são meros distúrbios individuais, mas efeitos sistêmicos de um modelo que sobrecarrega os corpos e anula o descanso como direito humano fundamental. 

O adoecimento psíquico relacionado ao trabalho tem se tornado uma das principais preocupações em saúde pública no Brasil, com crescimento expressivo dos diagnósticos de depressão, transtornos de ansiedade e Burnout nas últimas décadas (OMS, 2022). Esse fenômeno não pode ser dissociado das transformações nas formas de organização do trabalho, que impõem aos indivíduos ritmos acelerados, instabilidade contratual e sobrecarga de responsabilidades.  

Diante desse panorama, a Psicologia, enquanto ciência e profissão, tem o dever ético de posicionar-se criticamente frente às dinâmicas estruturais que favorecem o sofrimento psíquico. Conforme destaca Bock (2021), a atuação psicológica deve integrar uma perspectiva comprometida com a transformação social, voltada à denúncia das formas de exploração e à promoção da saúde mental coletiva. O desafio da Psicologia contemporânea está em compreender o adoecimento não como um fenômeno isolado, mas como sintoma de um sistema que esgota os sujeitos em nome do capital. 

3. A EPIDEMIA INVISÍVEL: INDICADORES DE SOFRIMENTO PSÍQUICO NO CONTEXTO CAPITALISTA 

O modelo capitalista de produção, ao priorizar a produtividade e o lucro em detrimento da saúde e da dignidade humana, tem se mostrado uma das principais engrenagens do adoecimento psíquico contemporâneo (Dejours, 2012). A lógica de funcionamento das empresas, muitas vezes baseada em metas inatingíveis, competitividade extrema e intensificação do trabalho, favorece a propagação de transtornos mentais entre os trabalhadores (Han, 2015). 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023) apontam que, a cada 40 segundos, uma pessoa morre por suicídio no mundo, sendo os transtornos mentais associados ao trabalho uma das causas subjacentes desse fenômeno. A depressão e a ansiedade são hoje responsáveis por mais de 12 bilhões de dias de trabalho perdidos anualmente, resultando em uma perda econômica global estimada em cerca de US\$ 1 trilhão por ano (OMS, 2022). 

No Brasil, o Ministério da Saúde alerta para o aumento expressivo dos casos de transtornos mentais relacionados ao trabalho, como a síndrome de Burnout, que passou a ser reconhecida oficialmente como doença ocupacional em 2022 (Brasil, 2022a). Essa síndrome, caracterizada por esgotamento físico e emocional crônico, decorre principalmente de ambientes laborais com alta exigência e baixo reconhecimento (Trigo et al., 2007). 

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Previdência, entre 2012 e 2021, houve um aumento de 118% nos registros de afastamentos por transtornos mentais no Brasil, representando um dos principais motivos de concessão de auxílio-doença no país (Brasil, 2022b). A análise desses dados revela que o adoecimento psíquico está profundamente enraizado na organização do trabalho imposta pela lógica capitalista. 

Essa realidade evidencia o caráter sistêmico do sofrimento psíquico, que não se limita a experiências individuais, mas está vinculado a determinantes sociais, econômicos e organizacionais (Viapiana et al., 2018). A precarização do trabalho, o aumento da informalidade, os contratos temporários e a insegurança financeira são elementos estruturantes da atual configuração laboral, gerando instabilidade e afetando diretamente a saúde mental dos trabalhadores (Standing, 2011). 

A lógica neoliberal, ao reforçar a responsabilização individual pelo sucesso ou fracasso, intensifica os sentimentos de culpa e impotência entre os sujeitos que não conseguem corresponder às expectativas de alta performance, promovendo um ciclo contínuo de autodepreciação e sofrimento psíquico (Bock, 2021). O sujeito é transformado em “empresa de si”, constantemente avaliado, controlado e comparado, o que compromete sua autonomia e seu equilíbrio emocional (Han, 2015). 

A alienação descrita por Marx (2013), entendida como o distanciamento do trabalhador em relação ao produto de seu trabalho, ao processo de produção e a si mesmo, persiste sob novas formas nas dinâmicas contemporâneas, manifestando-se na perda de sentido, no sentimento de inutilidade e na ausência de pertencimento ao mundo social. Esses efeitos se potencializam quando o trabalho é vivido como obrigação opressiva e não como expressão do desejo ou do projeto existencial do sujeito (Marx, 2013). 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2022), a depressão já representa a principal causa de incapacidade laboral no mundo, afetando mais de 300 milhões de pessoas, enquanto os transtornos de ansiedade ocupam a sexta posição entre os motivos de afastamento do trabalho, revelando a dimensão global e estrutural do problema. 

No contexto brasileiro, pesquisas apontam que a precarização das condições laborais intensifica diretamente o sofrimento psíquico, sobretudo pela ausência de políticas eficazes de prevenção. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2020), indicaram que quase 10% da população adulta já recebeu diagnóstico de depressão, sendo os trabalhadores submetidos a longas jornadas e baixos salários os mais afetados. Essa relação revela que a baixa qualidade de vida, marcada pela insegurança econômica e pelas pressões laborais, constitui fator determinante para o desenvolvimento de transtornos mentais. 

Estudos nacionais apontam que profissionais da educação, da saúde e do setor de serviços têm apresentado índices elevados de sintomas de Burnout, refletindo a combinação de alta demanda emocional, ausência de reconhecimento e condições materiais precárias (Trigo et al., 2007). 

As contribuições teóricas de Dejours (2012) são fundamentais para compreender esse cenário, pois apontam que o sofrimento no trabalho emerge do confronto entre a organização prescrita das tarefas e a realidade vivida pelo trabalhador. Quando não há possibilidade de transformar o sofrimento em prazer por meio do reconhecimento e da cooperação, instala-se o risco de patologização psíquica (Dejours, 2012). Nesse sentido, o adoecimento mental se apresenta como resultado de fatores individuais, e como consequência direta da precariedade estrutural e da deterioração das condições de vida.  

Outro ponto fundamental é a necessidade de articular a saúde mental laboral com políticas públicas amplas, que considerem a inserção do trabalhador em um contexto de desigualdade social. A precarização da vida cotidiana, marcada por insegurança alimentar, habitação inadequada e falta de acesso a serviços de saúde, amplifica a vulnerabilidade psíquica. A psicologia, nesse cenário, deve atuar para além do atendimento clínico individual, mas também na formulação de estratégias comunitárias e organizacionais que possam promover maior equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e saúde (Bock, 2021). 

O crescimento dos casos de Burnout, ansiedade e depressão no Brasil revela-se como fenômeno multifatorial, que reflete tanto as transformações nas formas de trabalho quanto a deterioração da qualidade de vida. O Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2011) aponta que a compreensão desse processo demanda uma leitura crítica, interdisciplinar e comprometida com a análise estrutural da sociedade.           Cabe à psicologia e às demais ciências da saúde assumir uma postura ativa na identificação desses determinantes, na defesa da aplicação de marcos normativos como a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), e na proposição de práticas que visem a transformação das condições de vida e de trabalho, garantindo a saúde mental como direito fundamental. 

4. CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA PARA A MITIGAÇÃO DOS EFEITOS DO CAPITALISMO NA SAÚDE MENTAL DO TRABALHADOR 

A Psicologia, enquanto ciência e profissão, tem responsabilidade ética de reconhecer o sofrimento psíquico do trabalho como fenômeno socialmente determinado, recusando leituras que o reduzam a traço individual ou “fragilidade” do sujeito, e propondo intervenções que incidam sobre a organização do trabalho e suas mediações institucionais, tal como demarcam as formulações do compromisso social da Psicologia no Brasil (Bock, 2021).  

A psicodinâmica do trabalho oferece um eixo privilegiado de análise e intervenção ao distinguir o sofrimento “patogênico” daquele “criador”, mapeando as estratégias defensivas e as possibilidades de sublimação que emergem das coletivas de ofício, daí decorrem dispositivos clínico-institucionais que atuam sobre o real do trabalho e não apenas sobre o discurso prescritivo, como a análise do trabalho, os grupos de validação do “bem-fazer” e os pactos de cooperação (Dejours, 2012). 

No plano da crítica sociocultural, o diagnóstico do “realismo capitalista” evidencia como o regime de produtividade e performatividade captura a experiência subjetiva, saturando-a de métricas e metas que naturalizam a impossibilidade de alternativas; a contribuição da Psicologia, nesse registro, é despatologizar sofrimentos que têm raízes organizacionais e simbólicas, criando tecnologia social para devolver historicidade à queixa e instituir espaços de fala vinculados a mudanças concretas no trabalho (Fisher, 2009).  

A expansão de um “capitalismo emocional” reconfigura a gramática afetiva nas organizações, instrumentalizando repertórios da terapia e da autoajuda como tecnologias de gestão deslocamento que favorece a individualização da culpa e a medicalização do conflito; às Psicologias clínicas e sociais cabe tensionar esse uso gerencial da linguagem terapêutica, reconstruindo vínculos entre sintomas, normas de desempenho e hierarquias, e evitando que protocolos de “bem-estar” convertam-se em novos dispositivos de controle (Illouz, 2007). 

A crítica à “indústria da felicidade” mostra como indicadores psicológicos convertidos em Key Performance Indicators (KPI’s) (engajamento, satisfação, propósito) tendem a operar como próteses de legitimação de metas e ritmos intensificados. Por isso, programas de saúde mental corporativos devem ser reposicionados como parte de uma governança psicossocial que inclua diagnóstico participativo, negociação coletiva, limites de carga, redesenho de tarefas e canais efetivos de proteção contra assédio e retaliação (Davies, 2015). 

No Brasil, a produção crítica em administração evidencia a difusão de uma cultura do management que, pela mídia de negócios e por Think Tanks, promove a figura do “empreendedor de si” e naturaliza relações laborais precárias; a Psicologia Organizacional e do Trabalho e a Psicologia Social do Trabalho podem intervir com alfabetização crítica sobre poder e discurso, revisão de competências gerenciais e implantação de políticas antiassédio com mecanismos de denúncia protegida e auditorias independentes (Ituassu et al., 2014). 

As transformações da classe trabalhadora na economia de serviços e de plataforma impõem à Psicologia do Trabalho a ampliação de seus cenários de atuação para “zonas cinzentas” de informalidade e intermitência, onde o vínculo empregatício é difuso e a responsabilização é deslocada ao indivíduo; dispositivos de clínica ampliada, grupos de análise do trabalho em territórios, protocolos mínimos de proteção e pactos setoriais podem reduzir vulnerabilidades psicossociais típicas desse novo proletariado de serviços (Antunes, 2018). 

Do ponto de vista metodológico, recomenda-se combinar análise ergonômica do trabalho e psicodinâmica (observação do trabalho real, entrevistas clínicas, cartografia de coletivos e incidentes críticos) com mapeamento de riscos psicossociais e indicadores qualitativos negociados com os trabalhadores, evitando o uso isolado de escalas padronizadas que descontextualizam a experiência e invisibilizam as determinações organizacionais e políticas do sofrimento (Viapiana et al., 2018). 

O Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde do trabalhador demanda que a Psicologia sustente diagnósticos situados, dispositivos de cuidado voltados à cooperação e ao reconhecimento, e defenda políticas que coíbam metas abusivas, assédio organizacional e plataformas que externalizam risco. Dessa forma, o cuidado deixa de ser acessório da produtividade e se converte em componente estruturante da qualidade do trabalho e da vida, reafirmando o princípio do compromisso social da Psicologia (Bock, 2021). 

A atualização da norma regulamentadora nº 1 (NR-1), promulgada pela portaria Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nº 1.419/2024, representou um marco na legislação trabalhista brasileira ao incluir, de forma inédita, a obrigatoriedade de identificar, avaliar e controlar os fatores de risco psicossociais no programa de gerenciamento de riscos ocupacionais (Brasil, 2024). Essa revisão normativa, que entrará em vigor a partir de maio de 2026, prevê que todas as empresas devem contemplar, em seus inventários de riscos, aspectos relacionados à saúde mental, como estresse, assédio moral, sobrecarga, metas abusivas e conflitos interpessoais (Brasil, 2024).  

Inicialmente, a implementação terá caráter educativo até maio de 2027, período em que os empregadores receberão orientações técnicas sem aplicação de autuações imediatas, passando, posteriormente, à etapa de fiscalização plena. Ao alinhar-se às diretrizes internacionais, como a ISO 45003, a NR-1 amplia o escopo da saúde ocupacional no país, que tradicionalmente se restringia aos riscos físicos, químicos e biológicos, para incluir a dimensão psicossocial como determinante central do processo saúde-doença relacionado ao trabalho (Brasil, 2025).  

Esse avanço normativo estabelece um campo de ação privilegiado para a psicologia, que encontra respaldo legal para desenvolver diagnósticos organizacionais, intervenções preventivas e estratégias de promoção da saúde mental em ambientes laborais, reforçando o compromisso ético da profissão com a dignidade e a qualidade de vida dos trabalhadores (Brasil, 2025). A aplicação efetiva dessa norma pode se tornar um importante instrumento para frear o avanço do Burnout, da ansiedade e da depressão. 

Portanto, é imperativo que a Psicologia, em diálogo com as políticas públicas de saúde mental, atue criticamente frente à naturalização do adoecimento psíquico nas relações de trabalho e na vida cotidiana. O compromisso ético da profissão demanda não apenas a escuta e o cuidado clínico, mas também o posicionamento político diante das estruturas que perpetuam a exploração, a exclusão e o sofrimento (CFP, 2011). O enfrentamento do sofrimento psíquico só será possível por meio da compreensão de suas raízes estruturais e da articulação entre prática profissional e transformação social. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A análise realizada ao longo desta pesquisa evidenciou que o capitalismo, em suas configurações contemporâneas, produz condições estruturais que favorecem o adoecimento psíquico. A precarização do trabalho, a intensificação das exigências de produtividade e a alienação da subjetividade aparecem como fatores centrais na manutenção desse processo. 

A pesquisa permite compreender que o sofrimento psíquico não é um fenômeno individual isolado, mas expressão de contradições sociais e históricas. A desigualdade, a violência estrutural e a emergência do precariado demonstram que a saúde mental é atravessada por dimensões coletivas que não podem ser desconsideradas. 

Nesse contexto, a Psicologia é chamada a desempenhar papel crítico, ético e transformador. Não basta atender ao indivíduo de forma clínica, é necessário articular práticas e políticas que enfrentem as condições materiais e simbólicas que sustentam a lógica de exploração. 

Contudo, diante da exaustão, persiste a esperança. Como entoa o Hino Nacional, “Verás que um filho teu não foge à luta”: há no povo brasileiro uma resistência histórica que insiste em sonhar, lutar e reinventar-se, apesar das condições adversas. Essa perseverança é combustível para pensar políticas públicas, práticas institucionais e ações comunitárias que reconheçam a saúde mental como direito inalienável. 

As considerações finais deste trabalho não se encerram em constatações pessimistas, mas em um convite à transformação. Cabe à Psicologia, ao lado de outras ciências e dos movimentos sociais, contribuir para desatar as correntes da alienação e abrir frestas de futuro. Entre a dor e a esperança, entre a docilização e a resistência, a tarefa crítica é clara: construir caminhos onde o humano não seja objeto, mas presença viva, digna e plena. 

Conclui-se, portanto, que a relação entre capitalismo e sofrimento psíquico exige respostas integradas, que combinem políticas públicas, regulamentações trabalhistas e estratégias comunitárias. Somente assim será possível enfrentar o avanço das patologias sociais contemporâneas, promovendo saúde mental como direito humano fundamental.  

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1Graduanda em Psicologia pela gabriele.003971@aluno.fcc.edu.br
2Graduanda em Psicologia pela Faculdade Cidade de Coromandel (FCC). E-mail: Lorhanny.003846@aluno.fcc.edu.br
3Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Mestre em Saúde pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU); Especialista em Psicologia Jurídica pela Universidade Cândido Mendes (UCAM/RJ); Especialista em Gestão Pública pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU);Graduada em Psicologia pela Universidade de Uberaba (UNIUBE); Coordenadora do Curso de Psicologia da Faculdade Cidade de Coromandel (FCC); Docente dos
Cursos de Graduação e Pós-Graduação do Grupo Idea (FCC, FPM e FCJP). E-mail:
isaura.doutoranda.ppgpsi.ufmg@gmail.com

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