CANINO SUBMETIDO A CISTOSTOMIA EM DECORRÊNCIA DE UROLITÍASES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202503171148


Luis Alfredo Pinheiro da Costa / Luana Rodrigues Borboleta / Andresa de Cássia Martini / Ana Laura de Sousa / Lorrany Gonçalves da Silva Resende / Pedro Augusto Fernandes de Paula / Lucas Paulino da Silva / Julia Marque Costa / Mariana Gimenes Santos / Carlos Eduardo Fontoura da Silva / Ana Carolina Marcelino de Oliveira / Izabella Rafael Morais / Maisa Cristina Petruzza Carvalho / Jéssica Stephany Moreira Borges


RESUMO    

Este estudo teve como objetivo relatar um caso de cistotomia em um cão Shih Tzu, macho, de 6 anos, diagnosticado com urolitíase vesical, com sinais clínicos de estranguria, abdominalgia e disúria. O diagnóstico foi confirmado por meio de exames laboratoriais e de imagem, que revelaram um cálculo na bexiga. Através da urinálise, foi possível sugerir a composição de um urólito de estruvita, no qual é possível dissolução, entretanto em casos de obstrução é recomendada a cistotomia, como relatado no presente trabalho. O manejo pré e pós operatório incluiu antibioticoterapia, ajustes na dieta do animal e acidificação do pH urinário. O tratamento cirúrgico por cistostomia proporcionou a resolução do quadro clínico e recuperação do paciente, sendo uma técnica que possui particularidades que devem ser abordadas, junto ao estudo anatômico, indicações e complicações de pós-operatório. 

Palavras-chave: Dieta terapêutica. Vesícula urinária. Obstrução. Urolitíase. Cistotomia.

INTRODUÇÃO  

Os casos de urolitíases estão entre as principais afecções do trato urinário inferior presentes na clínica médica de pequenos animais, como cães e gatos. São disfunções da vesícula urinária e trato urinário e possuí como sinais clínicos hematúria, polaciúria, disúria, estrangúria e em casos mais graves pode evoluir para obstrução parcial ou total da uretra e vesícula urinária (OZGERMEN, 2022). A presença de urólitos causam desequilíbrio na função natural do trato urinário o que predispões diferentes distúrbios que podem estar associados a fatores hereditários, congênitos ou adquiridos, por exemplo, a infecção do trato urinário que eleva o risco de precipitação de metabólitos na urina, além de fatores como a diminuição na ingestão de água, alteração do pH urinário, além da falta de inibidores e promotores de cristalização presentes na urina (CHEW, 2011). Quando os urólitos se penetram nos ureteres e uretra, o fluxo urinário pode ser obstruído. O tratamento da urolitíase se dá conforme a composição dos urólitos e sua localização, podendo ser por métodos clínicos terapêuticos ou cirúrgicos. O tratamento cirúrgico indicado para urolitíase é o procedimento de cistotomia que se define na abertura da bexiga para retirada de urólitos vesicais (RICK, 2017).

O estudo anatômico da vesícula urinária e suas características de cicatrização são fundamentais para a realização com êxito de uma cistostomia terapêutica, sua síntese cirúrgica é realizada na linha média ventral da bexiga e a ráfia feita com fios absorvíveis com padrões de sutura invaginantes, podendo ser cushing ou reverdin, a posição anatômica da bexiga varia de acordo com o volume de urina presente, quando vazia localiza-se no interior do canal pélvico e se distendida situa-se deslocada cranial e ventralmente para o abdome caudal, após a cistotomia a cicatrização acontece em cerca de 14 a 21 dias (FOSSUM, 2014).  

A cistotomia é um procedimento invasivo limpo contaminado que pode estar associado a complicações, como uroabdomen, peritonite séptica e o desenvolvimento de aderências abdominais (GRANT, 2010). Por se tratar de uma técnica cirúrgica amplamente usada e conhecida na comunidade veterinária, sua principal indicação é para a remoção de cálculos em vesícula urinária. As urolitíases, como são chamados os cálculos urinários, podem ocorrer em decorrência de hipercalcemia, alteração de Ph da urina, cistites bacterianas, hiperamonemia e a origem genética (hereditária). Dentre as consequências na presença de urólitos, a principal é a obstrução da bexiga ou ureteres, gerando repercussões locais como; dilatação de ureteres e hidronefrose por bloqueio do fluxo urinário, repercussões sistêmicas como arritmias hipercalêmicas e azotemia pós renal, são as mais preocupantes, uma vez que cursam com risco de óbito para o paciente (NELSON; COUTO, 2015).

Desse modo, uma abordagem sistemática diante um caso de urolitíase, se mostra importante, uma vez que a integração da técnica de cistostomia é considerada o tratamento padrão ouro para urólitos que não podem ser dissolvidos. Portanto este trabalho tem como objetivo relatar um caso de cistotomia em um cão, macho, Shit tzu de 6 anos de idade. 

MATERIAL E MÉTODOS 

O relato do caso utilizará um cão macho, SRD, com 6 anos de idade, atendido na clínica veterinária Arca de Noé, localizada no centro oeste de Goiânia. 

Para o relato será levantado os prontuários clínicos, exames de imagem (radiografia e ultrassonografia abdominal), exames laboratoriais (Hemograma, urinálise e bioquímicas renais e hepáticas), realizados arquivos fotográficos sobre o trans operatório do animal e monitoramento durante o pós-operatório. .

RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Foi atendido em uma clínica veterinária um cão macho, SRD, de 6 anos de idade, com aproximadamente 5,4 kg, apresentando sinais de dificuldade para urinar (estrangúria), disúria e dor abdominal, sendo sinais indicativos de uma possível condição obstrutiva no trato urinário inferior. Segundo Hirschberger (2019), esta é uma condição frequentemente observada em cães, especialmente em função de fatores predisponentes como a alimentação e a hidratação inadequadas. 

No exame físico, o animal se apresentava apático, em posição de cifose, sem alterações de frequência cardíaca ou respiratória, temperatura e tempo de preenchimento capilar (TPC). As mucosas se encontravam normocoradas e lubrificadas, o turgor cutâneo, menos que 2 segundos, não indicando quadro de desidratação.  Foram solicitados exames complementares para diagnóstico definitivo como, hemograma, bioquímicas renais e hepáticas e urinálise, junto a exames de imagem, como o raio x e ultrassonografia. 

Os resultados dos exames laboratoriais, hemograma (tabela 1) e bioquímicas renais e hepáticas (tabela 2), se mantiveram dentro dos limites de normalidade, indicando que o animal não apresentava alterações hematológicas ou bioquímicas associadas a doenças sistêmicas.

Tabela 1. Hemograma

ERITROGRAMALEUCOGRAMA
Hemácias6,51 milhões/mm³Leucócitos7.400/mm³
Hemoglobina14,4 g/dLNeutrófilos58% (4.292)
Hematócrito42,7 %Eosinófilos09% (666)
VCM65,6 flLinfócitos27% (1.998)
HCM22,1 pgMonócitos06% (444)
CHCM33,7 %Plaquetas465.000/mm³
RDW13,0 %
Proteínas Totais6,4 g/dL

Tabela 2. Bioquímicas renais e hepática

EXAMES SOLICITADOSRESULTADOVALORES DE REFERÊNCIA
ALT (TGP)54,2 U.I./L20 a 80 U.I/L
Fosfatase alcalina10,7 U.I./L20 a 156 U.I/L
Creatinina0,64 mg/dL0,5 a 1,5 mg/dL

A urinálise (tabela 3) revelou pH alcalino e a presença de fosfatos triplos, que segundo Bartges (2016), são frequentemente associados à formação de urólitos de estruvita. Na análise sedimentoscopia, notou-se altos níveis de hemácias e leucócitos indicam um processo inflamatório significativo, além de proteinúria, presente de forma secundária cistite inflamatória gerada pelo cálculo de acordo com Ghosh et al., (2018).

Tabela 3. Urinálise

EXAME DE URINARESULTADOVALORES DE REFERÊNCIA
Volume8 mL10 mL
CorAmarelo citrinoAmarelo citrino
DepósitoModeradoAusente
Densidade1,0421,025 a 1,035
pH8,05,5 a 7,5
Proteínas30 mg/dLaté 30 mg/dL

O diagnóstico definitivo, foi realizada por radiografia abdominal e revelou uma estrutura radiopaca na região da bexiga, com medidas de aproximadamente 3,3 cm x 1,7 cm, enquanto a ultrassonografia confirmou a presença de uma estrutura bastante hiperecóica com sombreamento acústico evidente, de formato arredondado, semelhante ao descrito por Brom (2020).

O tratamento cirúrgico de cistostomia é recomendado em casos de obstrução urinária, condição que pode gerar consequências, como insuficiência renal, segundo Lulich (2016). No pré operatório, o animal foi internado e iniciado antibioticoterapia; amoxicilina + CL, sendo considerado antibiótico de eleição para sistema urinário inferior e um pilar para tratamento de urólitos de estruvita, segundo Chew (2011). As demais medicações do prontuário incluem antiinflamatórios, opióides e fluidoterapia com ringer com lactato em taxa de manutenção, sendo crucial a estabilização do paciente antes do procedimento cirúrgico de acordo com Grant (2010).

O animal foi submetido a cistotomia, na qual se inicia com uma celiotomia com incisão retroabdominal plano a plano, até a visualização da linha alba, na qual foi suspensa por uma pinça allis, em seguida o cirurgião realizou o movimento de estocada, para assim romper a camada fibrosa e com uma tesoura ponta romba a incisão na linha de aponeurose é ampliada. Com acesso a cavidade abdominal, é possível exteriorizar a vesícula urinária, isolando campo com gazes estéreis, segundo Fossum (2014) o isolamento da vesícula urinária é crucial, para assim evitar contaminação. A bexiga em seguida foi ancorada e a incisão segue as linhas paralelas da musculatura, com acesso ao interior da bexiga, é possível com uma pinça retirar o urólito. A lavagem do interior deve ser feita, a rafia da vesícula urinária é realizada com dois padrões de sutura, usando o fio absorvível monofilamentar poliglecaprone 4-0, a primeira camada é com padrão simples contínuo, ao terminar se deve voltar a sutura com padrão invaginante cushing, seguindo a técnica descrita por Fossum (2014).

Após procedimento cirúrgico, o animal se manteve internado por mais um dia, em observação, sendo que uma possível complicação é a deiscência da sutura em vesícula urinária, gerando uroabdome e repercussões sistêmicas graves, segundo Fossum (2007). O animal teve alta no dia seguinte, com respectiva receita; por via oral amoxicilina + CL por mais 10 dias, vitamina C manipulada, para acidificação da urina,dipirona, meloxicam, tramadol todos por 3 dias, além de, instituir ração terapêutica urinária, uma vez que possui características diuréticas, restrição de sódio, magnésio e fósforo, sendo estes a composição de urólitos de estruvita segundo Rick (2017).

CONCLUSÃO

A cistostomia é a técnica cirúrgica de eleição para a remoção de urolitíases, nos quais podem surgir em decorrência de hipercalcemia, alteração de pH da urina, cistites bacterianas, hiperamonemia, aumento de eletrólitos específicos, predisposição genética e entre outros. Vale ressaltar que a técnica de abertura da bexiga possui suas peculiaridades, desse modo é sugerido, um estudo detalhado acerca da anatomia do sistema urinário e a técnica operatória, incluindo suas indicações e complicações, para assim, se realizar de forma correta gerando segurança para o paciente e reconhecimento profissional. 

REFERÊNCIAS  

BROM, D. et. al. Clinical Approach to Hematuria in Dogs. Veterinary clinics of north america. 1 ed. Mar. 2020. 

CHEW, D. J.; DIBARTOLA, S. P.; SCHENCK, P. A. Familial renal diseases of dogs and cats. In: CANINE and feline nephrology and urology. 2. ed. St. Louis, Missouri: Elsevier Saunders, 2011. p. 197-211.

FOSSUM, T. W. Cirurgia de Bexiga e uretra. Cirurgia de Pequenos Animais. 4 ed. Pag 2103 – 2106. Out. 2014. 

GROSH, M. et al. Urinary Tract Obstruction: Pathophysiology and Management. Veterinary Medicine and Science. v. 17, n. 4, mai. 2018. 

GRANT, D. C.; HARPER, T. A. M.; WERRE, S. R. Frequency of incomplete urolith removal, complications, and diagnostic imaging following cystotomy for removal of uroliths from the lower urinary tract in dogs: 128 cases (1994–2006). Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 236, n. 7, p. 763–766, 2010. 

HIRSCHBERGER, J. Urolithiasis in Dogs: Diagnosis and Treatment. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care. v. 11, n. 8. Jul. 2019.

LULICH, J. P. et al. Urinary System. Veterinary Medical School Curriculum Directory. v. 10, n. 9. Dez. 2016

MUIR, W. W. et al. Anesthesia and Analgesia in Dogs and Cats. Veterinary Anesthesia and Analgesia.  v. 23, n. 8. April. 2020.

NELSON, Richard W.; COUTO, C. Guillermo. Medicina interna de pequenos animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

OZGERMEN, B. B.; AVCI, N. Successful treatment of a urinary foreign body by cystotomy in a cat. Revista MVZ Córdoba, Córdoba, v. 27, n. 2, maio 2022.

RICK, G. W.; CONRAD, M. L. H.; VARGAS, R. M.; MACHADO, R. Z.; LANG, P. C.; SERAFIM, G. M. C.; BONES, V. C. Urolitíase em cães e gatos. PUBVET, Londrina, v. 11, n. 7, p. 705-714, jul. 2017.