CÂNCER CERVICAL: REVISÃO DE LITERATURA E DISCUSSÃO SOBRE PREVENÇÃO, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601091710


Maria Clara Bizinotto Leal de Lima, Ana Clara Antonio Pereira , Lahra Beatriz Silva Macedo, Kelen Renata Marques Guerra, Fernando Henrique Vieira de Sousa, Gabriel Maldonato de Oliveira, Kelliane Martins Santos, Markus Emiliu Manfrim Scabin, João Gabriel de Moura Santos, Rafael Fernandes, Ana Luiza Belmonte Pessini, Taynara Tavares dos Santos, Felipe Perez Alves, Amanda Oliva Spaziani.


Resumo

O câncer do colo do útero, também denominado câncer cervical, constitui relevante problema de saúde pública, sobretudo em países de baixa e média renda, em virtude de desigualdades no acesso ao rastreamento, à vacinação e ao tratamento oportuno. Trata-se de neoplasia fortemente associada à infecção persistente por Papilomavírus Humano (HPV), especialmente por subtipos oncogênicos, e, portanto, potencialmente evitável por intervenções comprovadamente efetivas. Este estudo teve como objetivo realizar uma revisão de literatura sobre o câncer cervical, abordando etiologia, epidemiologia, fatores de risco, estratégias de prevenção, métodos diagnósticos e opções terapêuticas, com ênfase na realidade brasileira. Metodologicamente, conduziu-se uma revisão bibliográfica narrativa baseada em publicações científicas nacionais e internacionais e em diretrizes oficiais do Ministério da Saúde, do Instituto Nacional de Câncer e da Organização Mundial da Saúde, publicadas entre 2015 e 2024. Os achados evidenciam que a persistência do HPV oncogênico representa o principal fator etiológico e que a vacinação contra o HPV, associada ao rastreamento regular particularmente por citopatologia e, mais recentemente, por testes moleculares para HPV constitui o eixo central para redução de incidência e mortalidade. No Brasil, observam-se desigualdades regionais relevantes, com maior incidência e diagnóstico tardio em localidades com menor acesso a serviços de saúde, refletindo fragilidades na organização do rastreamento e barreiras socioculturais. Conclui-se que o fortalecimento de políticas públicas, a ampliação da cobertura vacinal e a transição para programas organizados de rastreamento, com garantia de seguimento e tratamento de lesões precursoras, são imprescindíveis para o controle do câncer do colo do útero e para o cumprimento das metas globais de eliminação do agravo como problema de saúde pública.

Palavras-chave: Câncer do colo do útero. Papilomavírus humano. Prevenção. Rastreamento. Saúde pública.

Introdução

O câncer do colo do útero é uma neoplasia maligna que se origina, predominantemente, na zona de transformação do colo uterino, em especial na junção escamo-colunar região biologicamente suscetível a alterações metaplásicas e a infecção por HPV. Do ponto de vista clínico-epidemiológico, representa um agravo de elevada relevância por combinar grande carga de doença, potencial de prevenção e expressiva sensibilidade aos determinantes sociais da saúde, sendo mais frequente e letal onde o acesso ao rastreamento e ao tratamento é limitado (BRASIL, 2023).

No cenário brasileiro, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta o câncer cervical como o terceiro tipo mais frequente entre mulheres, com impacto desproporcional em determinadas macrorregiões (BRASIL, 2023). A infecção persistente pelo HPV constitui o principal fator etiológico associado ao desenvolvimento dessa neoplasia; estima-se que mais de 90% dos casos estejam relacionados a tipos oncogênicos, notadamente 16 e 18, cuja oncogenicidade decorre, em grande medida, da ação das oncoproteínas virais E6 e E7 sobre mecanismos de controle do ciclo celular (DOURADO; STADNIK; OLIVEIRA, 2025).

Embora seja reconhecidamente prevenível, a persistência de casos avançados e de mortalidade evitável evidencia falhas tanto na prevenção primária (vacinação) quanto na prevenção secundária (rastreamento). Na prática, as lacunas incluem baixa cobertura vacinal sustentada, rastreamento oportunístico com baixa capilaridade, perda de seguimento de casos alterados, barreiras logísticas e fragilidades na rede de diagnóstico confirmatório e tratamento (BRASIL, 2022; BRASIL, 2023). Assim, discutir prevenção, diagnóstico e tratamento implica também examinar a organização dos serviços, os mecanismos de acesso e os determinantes socioculturais que modulam o cuidado.

Objetivo

Realizar revisão bibliográfica sobre câncer cervical, abordando epidemiologia, fatores de risco, métodos diagnósticos, estratégias de prevenção e modalidades terapêuticas, discutindo avanços e desafios para o controle da enfermidade no contexto brasileiro e global.

Metodologia

Trata-se de revisão bibliográfica narrativa, baseada em publicações científicas nacionais e internacionais sobre câncer cervical. A busca foi realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Google Scholar, utilizando os descritores: “câncer do colo do útero”, “HPV”, “prevenção”, “diagnóstico precoce” e “tratamento”.

Foram incluídos artigos publicados entre 2015 e 2024, bem como diretrizes oficiais do Ministério da Saúde, da OMS e do INCA. Excluíram-se duplicatas, estudos com metodologia insuficientemente descrita e publicações sem revisão por pares. Os resultados foram organizados em eixos temáticos: epidemiologia, fatores de risco, prevenção, diagnóstico e tratamento. Procedeu-se à síntese qualitativa, priorizando evidências consistentes e recomendações normativas aplicáveis ao SUS, com comparação crítica entre diferentes fontes e realidades regionais.

Resultado e Discussão

Panorama epidemiológico e desigualdades

O câncer cervical mantém-se como relevante problema de saúde pública global. A OMS estima centenas de milhares de novos casos e óbitos anuais, com maior concentração em países de baixa e média renda, reforçando o caráter iníquo do agravo (WHO, 2022). No Brasil, para o triênio 2023–2025, estima-se aproximadamente 17 mil novos casos anuais, com taxas mais elevadas nas regiões Norte e Nordeste, cenário associado à menor cobertura de rastreamento e a barreiras estruturais de acesso (BRASIL, 2023).

O diagnóstico tardio permanece um desafio: quando a doença é detectada em estágios avançados, o tratamento torna-se mais complexo, com maior morbidade, custo e menor probabilidade de cura. Estudos apontam que o atraso no diagnóstico relaciona-se a fatores socioeconômicos, culturais e à insuficiência de campanhas continuadas, além de dificuldades no fluxo de encaminhamento e na confirmação histopatológica (OLIVEIRA et al., 2024).

Etiologia e fatores de risco

A infecção persistente por HPV oncogênico constitui o principal fator etiológico do câncer cervical. Embora a exposição ao HPV seja frequente ao longo da vida sexual, apenas uma parcela desenvolve infecção persistente e lesões precursoras, processo influenciado por fatores imunológicos, virais e ambientais (DOURADO; STADNIK; OLIVEIRA, 2025).

Entre os fatores associados ao risco de persistência viral e progressão para neoplasia, destacam-se: início precoce da vida sexual, múltiplos parceiros, tabagismo, uso prolongado de contraceptivos orais, baixa condição socioeconômica, coinfecções (como HIV) e multiparidade. Tais determinantes devem ser interpretados no contexto de vulnerabilidade social e acesso desigual a serviços de saúde, elementos que amplificam a probabilidade de não realização de rastreamento e de atraso terapêutico.

Do ponto de vista molecular, a integração do DNA viral ao genoma do hospedeiro e a superexpressão de E6 e E7 exercem papel central na carcinogênese, ao inibir proteínas supressoras tumorais, favorecendo instabilidade genômica e proliferação celular descontrolada (DOURADO; STADNIK; OLIVEIRA, 2025).

Prevenção primária e secundária

A prevenção do câncer cervical articula ações de prevenção primária (vacinação) e secundária (rastreamento). A vacinação contra HPV constitui a intervenção mais efetiva para prevenir infecções pelos subtipos de maior risco e, consequentemente, reduzir a incidência futura da doença. No Brasil, a introdução da vacina no Programa Nacional de Imunizações representou marco relevante; entretanto, a redução de cobertura em alguns períodos e regiões compromete o efeito populacional desejado (BRASIL, 2023). A adesão vacinal é modulada por comunicação em saúde, acesso, escolaridade, hesitação vacinal e continuidade de estratégias de busca ativa.

Quanto à prevenção secundária, o exame citopatológico (Papanicolau) permanece como método padrão no SUS para detecção de lesões precursoras, recomendado para mulheres de 25 a 64 anos com periodicidade trienal após dois exames anuais normais (BRASIL, 2022). A literatura aponta capacidade expressiva de redução de mortalidade quando o rastreamento é regular e acompanhado de diagnóstico confirmatório e tratamento oportuno. Contudo, o modelo oportunístico dependente da procura espontânea tende a produzir cobertura desigual e a manter bolsões de não rastreadas.

Nesse contexto, tem-se discutido a incorporação de testes moleculares para detecção do HPV como rastreamento primário, estratégia com potencial de ampliar sensibilidade e permitir intervalos mais adequados, desde que inserida em programas organizados, com garantia de seguimento e estratificação de risco (SANTOS, 2024).

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico definitivo é histopatológico, após identificação de alterações citológicas e avaliação colposcópica, quando indicada. As lesões precursoras são classificadas como Neoplasia Intraepitelial Cervical (NIC) I, II ou III, conforme o grau de comprometimento do epitélio (BRASIL, 2022). A condução clínica deve considerar idade, achados, risco de progressão e possibilidades de adesão ao seguimento.

O tratamento varia conforme estágio e condições clínicas, incluindo desejo de preservação de fertilidade. Lesões precursoras de maior grau podem ser tratadas com métodos excisionais locais; em estágios iniciais, procedimentos cirúrgicos mais abrangentes, como histerectomia radical com avaliação linfonodal, são opções frequentes; em estágios avançados, radioterapia associada à quimioterapia representa abordagem consolidada. Em cenários metastáticos ou refratários, imunoterapia e terapias-alvo têm sido discutidas como alternativas promissoras em diretrizes e estratégias globais (WHO, 2022).

Conclusão

O câncer cervical constitui doença altamente prevenível e, quando diagnosticada precocemente, apresenta melhores desfechos clínicos e menor morbimortalidade. A literatura revisada confirma que a vacinação contra HPV e rastreamento regular são as estratégias mais efetivas para controle da doença. No Brasil, contudo, persistem desigualdades regionais e fragilidades na organização do rastreamento e no seguimento de casos alterados, o que favorece diagnóstico tardio. Assim, recomenda-se fortalecer políticas públicas, ampliar e sustentar a cobertura vacinal, qualificar ações de comunicação em saúde e avançar na implementação de programas organizados de rastreamento, com integração entre atenção primária, diagnóstico confirmatório e tratamento, alinhando-se às metas da OMS para eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2023.

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

DOURADO, Rarissa Brito; STADNIK, Lara Chagas; OLIVEIRA, Larissa Carvalho. Do vírus ao câncer: aspectos moleculares da infecção por HPV e a progressão para neoplasia cervical invasiva. Journal Archives of Health, v. 6, n. 4, p. e2961–e2961, 2025.

OLIVEIRA, Nayara Priscila Dantas de et al. Desigualdades sociais no diagnóstico do câncer do colo do útero no Brasil: um estudo de base hospitalar. Ciência & Saúde Coletiva, v. 29, p. e03872023, 2024.

SANTOS, Leilane Gomes. Viabilidade da implementação de testes de HPV como método de rastreamento no sistema único de saúde. 2024.WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global strategy to accelerate the elimination of cervical cancer as a public health problem. Geneva: WHO, 2022.


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