BLOQUEIOS ANESTÉSICOS PERIFÉRICOS EM PEDIATRIA: REVISÃO DE LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601230946


Beatriz Britto Barufi1
Guilherme Groto Santos2


RESUMO

A busca por estratégias que proporcionem uma experiência cirúrgica mais segura e confortável tem impulsionado o desenvolvimento contínuo da anestesia regional, especialmente diante da necessidade de reduzir os riscos associados à anestesia geral. No contexto pediátrico, este cenário não é diferente, observa-se um aumento da incorporação dos bloqueios nervosos periféricos em diferentes procedimentos cirúrgicos, os quais se configuram como ferramentas valiosas na prática anestésica, com benefícios significativos no controle da dor e na recuperação dos pacientes. O presente estudo teve como objetivo compilar, sintetizar e analisar a literatura científica recente sobre os bloqueios anestésicos periféricos em pediatria. Evidências têm demonstrado que essas técnicas, especialmente quando associadas à ultrassonografia, podem ser realizadas de forma segura e eficaz, com impacto positivo nos desfechos clínicos, destacando-se a melhora do controle da dor perioperatória e a redução da necessidade de opioides. Ressalta-se a necessidade de novos estudos para fortalecer e ampliar a aplicabilidade clínica dos bloqueios anestésicos periféricos no manejo da dor perioperatória em pacientes pediátricos.

Palavras-chave: bloqueios periféricos, anestesia em pediatria, anestesia regional, pediatria e anestesia em pediatria.

INTRODUÇÃO

A anestesia regional (AR), que abrange técnicas de anestesia local e de bloqueios nervosos periféricos, exerce papel fundamental no manejo da dor no período perioperatório e no processo de recuperação pós-operatória. Ao longo das últimas décadas, essas abordagens apresentaram avanços expressivos, e se consolidaram como alternativas eficazes e seguras à anestesia geral (AG) em diversos contextos cirúrgicos (TAVARES et al., 2023). Em cirurgias cardíacas pediátricas por exemplo, há evidências promissoras para a utilização de AR como uma alternativa de manejar a dor peri e pós-operatória, e reduzir o tempo de internação em crianças submetidas a esse tipo de procedimento (COSTA et al., 2024).

O advento da ultrassonografia (USG) no centro cirúrgico resultou em uma mudança de paradigma, com muitos profissionais adaptando modalidades regionais para alívio da dor, mesmo em pacientes pediátricos mais jovens. A margem de erro é muito menor em crianças em comparação com adultos e ainda menor em bebês. A USG ajudou a navegar nesse cenário desafiador, permitindo a administração segura de anestesia regional. Além disso, transdutores pediátricos adequados, com dimensões reduzidas, facilitam a visualização e a aplicação do bloqueio (FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023).

As contraindicações para AR pediátrica são semelhantes às dos adultos, e podem até incluir recusa do paciente ou dos pais e alergia a anestésicos locais (FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023).

A dor pós-operatória em alguns procedimentos cirúrgicos pode ser bastante intensa e frequentemente requer estratégias analgésicas multimodais. Na população infantil, o controle eficaz da dor é essencial para prevenir sofrimento, facilitar a reabilitação precoce e evitar complicações associadas ao uso excessivo de opioides. Nesse contexto, os bloqueios regionais têm assumido papel de destaque na anestesiologia pediátrica (LOPES et al., 2025; FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023), e tornaram-se parte integrante de diversos protocolos de recuperação aprimorada em crianças, resultando em uma recuperação melhor e mais rápida, além de maior satisfação (FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023).

Bloqueios Anestésicos Periféricos

Os bloqueios de nervos periféricos são injeções anestésicas administradas para inativar os nervos que inervam uma região específica do corpo, bloqueando sinais de dor e sensibilidade. Em determinadas circunstâncias, pode ser útil no lugar de uma anestesia geral devido à menor quantidade de complicações. Geralmente, seu uso é acompanhado de sedação para manter o paciente relaxado no momento do procedimento e dentre as vantagens dos bloqueios periféricos estão: analgesia pós-operatória eficiente; maior alívio da dor; menor consumo de opioides após a cirurgia; minimização da sensibilização dos neurônios periféricos e centrais; menor risco de dor crônica; recuperação funcional otimizada e redução do risco de complicações pós-cirurgia; menos efeitos adversos e menor tempo de hospitalização (COSTA et al., 2024; FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023).

Esta busca constante por técnicas que proporcionem uma experiência cirúrgica mais segura e confortável tem impulsionado o desenvolvimento contínuo da AR, especialmente diante da necessidade de reduzir os riscos associados à anestesia geral, como complicações respiratórias e efeitos colaterais sistêmicos. Este fato tem levado ao aumento da incorporação de bloqueios nervosos periféricos em diferentes procedimentos cirúrgicos (TAVARES et al., 2023). No âmbito da anestesia regional pediátrica, essa expansão está relacionada não apenas ao manejo da dor aguda, mas também à prevenção e ao tratamento da dor crônica (FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023; SHAH & SURESH, 2013).

A maioria dos bloqueios periféricos é considerada segura, simples e de fácil execução. Em tempos atuais, a associação dos bloqueios à anestesia geral tornou-se rotineira em crianças e ganhou grande popularidade na prática do dia a dia da maioria dos anestesiologistas. Há evidências de que, nas crianças, a combinação das duas técnicas reduz os riscos associados a cada uma delas e diminui o consumo de anestésicos venosos, inalatórios, opioides e analgésicos, além de estar associada a mínimas alterações fisiológicas, reduzir a incidência de depressão respiratória, de limitar a resposta hormonal ao estresse, de possibilitar rápida deambulação com alta precoce pela promoção de uma anestesia com distribuição limitada e de possibilitar a manutenção das funções sensoriais e motoras do membro contralateral do indivíduo. Ademais, a associação supracitada não necessita da colaboração do paciente e pode ser executada em pacientes febris e anticoagulados (COSTA et al., 2024). 

O uso da ultrassonografia é ideal para bloqueios de nervos periféricos, pois permite melhor visualização dos nervos e monitoramento da dispersão de medicamentos (FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023; GAUY, SURES & KOPP, 2017; SHAH & SURESH, 2013).

No entanto, é importante salientar que o sucesso dos bloqueios nervosos periféricos depende de uma série de fatores, dentre eles: a técnica utilizada, a escolha dos anestésicos locais e a experiência do anestesiologista. Portanto, a formação adequada dos profissionais de saúde envolvidos é essencial para garantir a segurança e eficácia dessas técnicas (TAVARES et al., 2023).

Inúmeros artigos científicos têm sido publicados descrevendo técnicas de bloqueio regional em crianças, a farmacocinética e farmacodinâmica de anestésicos locais e o uso de fármacos adjuvantes, assim como relatos de complicações das várias técnicas (SHAH & SURESH, 2013; POLANER et al., 2012). A partir disso, este estudo teve como objetivo compilar, sintetizar e analisar a literatura científica recente sobre os bloqueios anestésicos periféricos em pediatria, visando delinear o panorama quanto à sua eficácia, segurança e aplicabilidade clínica no manejo da dor perioperatória em pacientes pediátricos.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo de caráter exploratório e integrativo de revisão de literatura, o qual, para a sua fundamentação e coleta de dados, foram utilizadas as bases de dados:  Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PUBMED), Google Acadêmico e sites governamentais. Os artigos e dados disponíveis foram organizados de acordo com sua data de publicação, título e relevância de seus dados para o tema proposto na área médica. 

Os descritores utilizados para a seleção dos estudos relevantes ao tema foram definidos com base nos Descritores em Ciências de Saúde (DeCS), sendo eles: “bloqueios periféricos”, “anestesia em pediatria”, “anestesia regional”, “pediatria” e “anestesia em pediatria”. Foram incluídos nesta revisão de literatura artigos originais, em inglês, português ou espanhol, publicados no período compreendido entre 2005 a 2025. Foram excluídos os artigos publicados antes de 2005, aqueles escritos em outros idiomas e/ou com resumos inadequados ou que não se enquadrassem no contexto temático, bem como estudos que abordassem população-alvo diferente daquela deste trabalho.

Os estudos selecionados, foram analisados na íntegra, considerando os critérios de elegibilidade para a revisão de literatura. Estes, foram submetidos à análise, à discussão e à síntese dos resultados apresentados nas publicações e encontram-se dispostos em nosso estudo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram selecionados 26 artigos, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos. Sendo que destes, 08 artigos compuseram o escopo dessa revisão. 

O Quadro 1 apresenta a caracterização dos estudos incluídos nesta revisão sistemática, contemplando autor, ano de publicação, base de dados e delineamento metodológico. Observa-se que aproximadamente metade dos artigos selecionados foi publicada nos últimos cinco anos. A maior parte dos estudos foi identificada na base de dados PUBMED, predominando artigos de revisão, dentre os quais se destaca um estudo multicêntrico que envolveu uma amostra superior a dez mil participantes.

Quadro 1. Caracterização metodológica dos estudos.

AUTOR (ANO)BASE DE DADOSDELINEAMENTO DO ESTUDO
Barros EM, et al. (2017)BVSRevisão sistemática
Costa RC, et al. (2024)Google AcadêmicoRevisão sistemática
Feehan T, et al. (2023)PUBMEDAtividade de educação continuada (Livro)
Guay J, et al. (2017)PUBMEDRevisão
Lopes PBAS, et al. (2025)Google AcadêmicoRevisão
Polaner DM, et al. (2012)PUBMEDEstudo multicêntrico
Shah RD, et al. (2013)PUBMEDRevisão
Tavares NC, et al. (2023)Google AcadêmicoRevisão

Segundo Polaner et al. (2012), a anestesia regional é cada vez mais utilizada em pacientes pediátricos para proporcionar analgesia pós-operatória e complementar a anestesia intraoperatória. Os autores descreveram a Pediatric Regional Anesthesia Network (PRAN), que consiste em um banco de dados centralizado para coletar dados prospectivos detalhados sobre todas as anestesias regionais realizadas por anestesiologistas nos centros participantes, e, portanto, foi criada para obter dados altamente auditados sobre essas práticas e complicações, além de facilitar a pesquisa colaborativa em técnicas de anestesia regional em lactentes e crianças. Neste estudo, foram incluídos um total de 14.917 bloqueios regionais, realizados em 13.725 pacientes.

No Brasil e em outros países em desenvolvimento há entre três e cinco vezes mais mortes relacionadas à anestesia em pacientes pediátricos do que em pacientes adultos. Entre os pacientes pediátricos, os com maior risco de morte são aqueles submetidos a cirurgias emergenciais, cirurgias cardíacas, com menos de um ano de idade, ou aqueles classificados como ASA III de acordo com a escala de risco da American Society of Anesthesiologists (BARROS et al., 2017).

A anestesia regional por meio de bloqueios nervosos periféricos têm demonstrado resultados favoráveis, em razão de sua elevada eficácia na promoção de analgesia de alta qualidade, contribuindo para a redução do desconforto pós-operatório e para o aumento da satisfação dos pacientes. Esse aspecto é particularmente relevante, uma vez que a dor no período pós-operatório constitui uma preocupação significativa em diferentes contextos cirúrgicos (TAVARES et al., 2023).

Os bloqueios pediátricos são geralmente realizados sob AG, diferentemente dos adultos, em que os bloqueios são preferencialmente realizados com o paciente acordado. De acordo com os dados da PRAN, 93,7% dos bloqueios pediátricos são realizados sob AG. Isso ocorre porque a cooperação do paciente pode ser difícil em crianças, e a comunicação e o feedback da parestesia após o contato com um nervo ou injeção intraneural são, na melhor das hipóteses, subótimos. O risco de complicações associado a um bloqueio com o paciente acordado foi maior do que o de bloqueios realizados sob AG (FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023; SHAH & SURESH, 2013).

Em 1996, na França, foram avaliados 24.409 bloqueios regionais em pacientes pediátricos. Destes, 38% das crianças receberam bloqueios periféricos, não sendo identificada nenhuma complicação relacionada a eles, bem como, nos pacientes infantis sob anestesia geral. Nesse viés, a AR nas crianças é uma técnica segura, garantindo um aumento na incidência de sua execução na faixa etária supracitada. Entretanto, para que se obtenha o sucesso nos bloqueios periféricos nessa idade, faz-se necessária uma adequada sedação prévia, conhecimento da anatomia, da farmacologia e dos equipamentos utilizados para a sua realização por parte do anestesiologista pediátrico (COSTA et al., 2024).

Estudos demonstram que o uso da ultrassonografia e sua incorporação na prática da anestesia regional melhoraram drasticamente o cuidado perioperatório pediátrico de rotina (FEEHAN & PACKIASABAPATHY, 2023; GAUY, SURES & KOPP, 2017; SHAH & SURESH, 2013).

Para Guay, Sures e Kopp (2017), os benefícios e riscos do uso da USG para guiar a anestesia regional em crianças são vantajosos, particularmente em pacientes pediátricos mais jovens, nos quais está associado ao aumento da taxa de sucesso e à maior duração dos bloqueios anestésicos. Os autores também destacam que, embora existam evidências promissoras, ainda são necessários dados adicionais para conclusões definitivas acerca do impacto da orientação por ultrassom na redução da incidência de punções vasculares com sangramento.

Em resumo, os bloqueios nervosos periféricos representam uma ferramenta valiosa na prática anestésica, oferecendo benefícios significativos em termos de controle da dor e recuperação do paciente em uma variedade de procedimentos cirúrgicos. Sua eficácia, segurança e potencial para reduzir complicações tornam essas técnicas uma escolha importante para cirurgiões e anestesiologistas em todo o mundo (TAVARES et al., 2023).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A anestesia regional em pediatria tem apresentado avanços expressivos nos últimos anos, especialmente com a incorporação da ultrassonografia, que ampliou a precisão e a segurança na realização das técnicas. Nesse contexto, os bloqueios de nervos periféricos têm se consolidado como uma estratégia cada vez mais empregada na prática anestésica pediátrica, em virtude de sua favorável relação risco-benefício e de sua aceitabilidade por parte de pais e pacientes. Evidências provenientes de estudos prospectivos demonstram que essas técnicas podem ser realizadas de forma segura e eficaz, com impacto positivo nos desfechos clínicos, destacando-se a melhora do controle da dor perioperatória e a redução da necessidade de opioides. 

Ressalta-se a importância da realização de mais estudos que avaliem desfechos em longo prazo. Essas abordagens são fundamentais para fortalecer ainda mais a base de evidências e ampliar a aplicabilidade clínica dos bloqueios anestésicos periféricos no manejo da dor perioperatória em pacientes pediátricos.

REFERÊNCIAS

BARROS, E.M., et al. Evidências de revisões sistemáticas Cochrane sobre anestesia em pediatria (2017). Diagn Tratamento. 22(1):39-44.

COSTA, R.C., et al. Bloqueios periféricos em cirurgias cardíacas pediátricas: Revisão sistemática (2024). Research, Society and Development. 13(5):e14913545970.

FEEHAN T, PACKIASABAPATHY S. Pediatric Regional Anesthesia (2023). In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing.

GUAY J, SURESH S, KOPP S. The Use of Ultrasound Guidance for Perioperative Neuraxial and Peripheral Nerve Blocks in Children: A Cochrane Review (2017). Anesth Analg. 124(3):948-958. 

LOPES, P.B.A.S., et al. Bloqueio bilateral do grupo de nervos pericapsulares (PENG) para analgesia em cirurgia de quadril pediátrica (2025). Journal Archives of Health. 6(4):1-6.

POLANER, D.M., et al. Pediatric Regional Anesthesia Network (PRAN): a multi-institutional study of the use and incidence of complications of pediatric regional anestesia (2012). Anesthesia and analgesia. 115(6):1353-64.

SHAH, R.D., SURESH, S. Applications of regional anaesthesia in paediatrics (2013). Br J Anaesth. 111 Suppl 1:i114-24. doi: 10.1093/bja/aet379. 

TAVARES, N.C., et al. Anestesia   Regional   e   Bloqueios   Nervosos:   Uma análise das técnicas de anestesia regional, incluindo bloqueios nervosos periféricos e raquianestesia, e suas aplicações em cirurgias específicas (2023). Braz J Implant Health Sciences. 5(5):448-459.


1Discente da Residência Médica de Anestesiologia da Santa Casa de Franca, São Paulo. e-mail: biabarufi@hotmail.com 
2Docente Assistente da Residência Médica de Anestesiologia da Santa Casa de Franca, São Paulo. e-mail: guilhermegroto@usp.br

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