REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202503311055
José Maria Cavatte¹
Ábila Dutra Oliveira²
Lerud Frosi Nunes¹
Pedro Vitor de Avelar Jacques³
David Victoria Hoffmann Padua¹
Anderson De Nadai¹
Harlley Flávio Trindade Batista²
RESUMO
Objetivos: Avaliar o pós-operatório dos pacientes submetidos a cirurgia de Latarjet, identificando dados epidemiológicos para a compreensão da população afetada pela luxação recidivante do ombro correlacionando a satisfação e melhora da qualidade de vida. Métodos: Pesquisa documental em prontuários e análise clínica retrospectiva de 15 pacientes submetidos à técnica de Latarjet, realizado em hospital referência do estado entre os anos de 2020 e 2022. Realizada análise dos dados epidemiológicos, dados da satisfação e funcionalidade clínica no pós-operatório tardio. Resultados: A amostra foi composta por 13 homens e 2 mulheres com idade média de 30,1 (± 9,9) anos. O tempo de seguimento foi de 17,9 ± 5,8 meses; 92,9% da amostra apresentava ombro direito dominante; 60% apresentavam lesão do membro superior direito e 40% apresentavam lesão do membro superior esquerdo. A causa da primeira luxação ocorreu em 64,3% devido à prática desportiva, sendo o futebol o esporte mais comum. Dez pacientes (66,7%) referiram ainda ter dor, sendo que 8, apenas durante atividades mais intensas, sem interferir nas atividades diárias. Da amostra, 26,7% referiram apreensão positiva, mas apenas 6,7% tiveram um novo episódio de luxação e necessitou de cirurgia de revisão. A maioria dos pacientes (86,6%) mostraram-se satisfeitos contra 2 insatisfeitos. Conclusão: O tratamento cirúrgico, com a técnica de Latarjet na luxação recidivante do ombro pode proporcionar melhora da qualidade de vida e bons resultados funcionais nos pacientes.
Palavras-chave: Instabilidade Genoumeral, Cirurgia de Latarjet, Luxação Recidivante, Ombro, Reabilitação pós-operatória.
INTRODUÇÃO
A articulação do ombro possui um arco de movimento amplo e tridimensional, em razão de uma cabeça umeral praticamente esférica em contato com uma glenóide côncava, porém rasa. Consequentemente, a estabilidade é menor, sendo necessário outros fatores estabilizadores como os ligamentos glenoumerais, cápsula articular, o lábio da glenóide e da musculatura – manguito rotador, deltoide e peitoral maior1,2.
Tal instabilidade, inerente à articulação glenoumeral, gera uma propensão a luxações, sendo mais frequente a luxação anterior, com mecanismo de abdução, hiperextensão e rotação externa do ombro. A luxação anterior do ombro representa 98% de todas as luxações traumáticas, com uma incidência de aproximadamente 23 novos casos por 100 mil habitantes, acometendo principalmente homens na faixa etária entre 15 e 29 anos, estando intimamente relacionada à prática de esportes e ao mecanismo de alta energia 2,3,4.
Recebe o nome de Luxação Recidivante a ocorrência frequente da perda da congruência desta articulação, que ocorre em cerca de 60% dos casos de instabilidade glenoumeral, devido a uma lesão ligamentar ou falha estrutural óssea e/ou capsular. O tratamento cirúrgico é indicado, levando-se em consideração a idade, ocupação e prática esportiva do paciente, entre outros critérios, podendo-se optar por cirurgia aberta ou artroscópica1,4,5.
Dentre as opções cirúrgicas disponíveis, a cirurgia de Latarjet consiste em uma cirurgia não anatômica de correção da luxação recidivante do ombro, em que há a transferência do processo coracóide e tendão conjunto simultaneamente para a borda anterior da glenóide. O procedimento, documentadamente, é realizado de forma aberta, entretanto, pode ser realizada por via artroscópica, sem agregar prejuízo a técnica, ambos com baixas taxas de recidiva6,7,8.
Visto a escassez de conhecimento acerca da satisfação dos pacientes submetidos à cirurgia de Latarjet para tratamento de instabilidade glenoumeral, este artigo tem como objetivo principal analisar o acompanhamento pósoperatório dos pacientes submetidos a essa cirurgia, além de identificar dados epidemiológicos para a compreensão da população afetada pela luxação recidivante do ombro em nosso local de estudo, correlacionar com a prevalência de recidiva e avaliar a melhora da qualidade de vida desses pacientes.
METODOLOGIA
Este estudo classifica-se como análise quali-quantitativo, retrospectiva e transversal, tendo como público-alvo pacientes provenientes do ambulatório de cirurgia do ombro de hospital de referência no estado.
Os critérios de inclusão foram: ter sido ou ser paciente da equipe de Cirurgia do Ombro; ter sido diagnosticado com luxação recidivante de ombro e ter sido submetido a cirurgia de correção de instabilidade glenoumeral do tipo Latarjet entre os anos de 2020 e 2022, ter aceitado as condições expressas no Termo de Conhecimento Livre e Esclarecido.
Foram excluídos os pacientes com histórico de cirurgias prévias no ombro ipsilateral (não relacionado ao tratamento de luxação glenoumeral); pacientes com menos de 3 meses de pós-operatório e aqueles que se opuseram à participação na pesquisa.
Foi aplicado um questionário e realizada a anamnese individualizada juntamente com uma pesquisa documental a partir de prontuários médicos, com o intuito de analisar os dados epidemiológicos, como: idade atual; idade em que ocorreu a primeira luxação; lateralidade; lateralidade dominante; sexo e prática de atividades esportivas (Anexo A) e os dados da satisfação e funcionalidade clínica no pós-operatório tardio (Anexo B modificado) 9.
Para análise estatística dos dados foram utilizados os softwares: SPSS V26 (2019), Minitab 21.2 (2022) e Excel Office 2010.
Este trabalho foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos e vinculado à Plataforma Brasil, sob o número: 19896619.0.0000.8095.
RESULTADOS
Entre janeiro de 2021 e agosto de 2022, foram realizadas 27 cirurgias de instabilidade glenoumeral no Hospital Santa Casa de Misericórdia de Vitória, sendo 24 dessas cirurgias realizadas com a técnica de Latarjet. Desses casos, 15 pacientes aceitaram participar desta pesquisa.
A amostra foi constituída por 13 indivíduos do sexo masculino e 2 indivíduos do sexo feminino, com média de idade de 30,1 anos (Desvio Padrão 9,9 [DP]). A média da idade na 1ª luxação foi de 22,4 ± 4,7 anos, variando de 17,7 a 27,1 anos, com 95% de confiança estatística, e a média do tempo de seguimento pós-operatório foi de 17,9 ± 5,8 meses (Tabela 1).

Tabela 1: Descritiva dos Fatores Quantitativos dos Dados Epidemiológicos.
Quanto à lateralidade, observou-se que: 92,9% da amostra tem como dominante o lado direito e 7,1% o lado esquerdo; houve lesão no membro superior direito em 9 pacientes, correspondente a 60% da amostragem e 6 pacientes tiveram lesão no membro superior esquerdo (40%). Desses, mais da metade possuíam lesão em seu ombro dominante (60%) (Gráfico 1).

Gráfico 1: Distribuição da lateralidade da lesão e do membro superior dominante.
Em relação à causalidade da primeira luxação, pode-se observar que 9 pacientes tiveram seu primeiro episódio através da prática de esporte (representando 64,3%), sendo o futebol, o principal esporte praticado, em 60% da amostragem. Em menor quantidade, também tiveram relatos de acidente de trânsito, acidente de trabalho, agressão ou episódio durante o sono (Gráfico 2).

Gráfico 2: Distribuição da etiologia do primeiro episódio de luxação dos pacientes.
Quantos aos dados obtidos durante a anamnese de forma subjetiva quanto a satisfação no pós-operatório, 10 pacientes (66,7%) relataram ainda sentir dor. Desses, 8 pacientes relataram dor leve ao realizar atividades mais intensas e que não prejudicava nas atividades diárias. Da amostragem, 26,7% relatam episódios de ter a sensação de que o ombro irá luxar, porém, apenas 1 paciente, representando 6,7% da amostragem (p < 0,001), efetivamente teve um novo episódio de luxação e necessitou de uma nova cirurgia (Remplissage), conforme demonstrado pela Tabela 2.

Tabela 2: Descritiva dos Fatores Qualitativos quanto aos resultados e reabilitação pós-operatória.
Em relação a prática esportiva, doze dos pacientes (80%) praticavam alguma modalidade esportiva antes de necessitarem da cirurgia, sendo elas: futebol, musculação, luta (Krav magá e karatê), trilha, ciclismo ou exercício funcional. Dos que não retornaram ao esporte (46,7% da amostra), um paciente com seis meses de pós-operatório referiu não se sentir- seguro para retornar a praticar esportes no momento e dois pacientes esclareceram que o motivo não estava relacionado à insegurança quanto ao ombro, mas devido a dor ou lesão em joelho e falta de tempo hábil em seu cotidiano.
No que se refere à satisfação, os pacientes quando questionados, 86,6% responderam estar satisfeitos com o resultado da cirurgia. Entre os não satisfeitos estavam: um jovem de 23 anos, sexo masculino, que necessitou realizar cirurgia de Remplissage após novo episódio de luxação; e uma mulher, 42 anos, sem novos episódios de luxação ou apreensão positiva, porém que evoluiu com quadro álgico após cirurgia.
DISCUSSÃO
Nossos dados apontaram que 26,7% dos paciente apresentam apreensão positiva, no entanto, apenas 1 paciente, teve um novo episódio de luxação e necessitou de uma nova cirurgia, corroborando com os achados de Cohen et al., (2021) que identificou 7,4% dos indivíduos com apreensão positiva ao exame físico, mas apenas 1 luxação recorrente e 9% dos pacientes necessitando de revisão cirúrgica. Filho et al., (2020) também constatou em sua abordagem subjetiva que 15% relataram dor às vezes ao movimentar o braço afetado, 7% relataram dor ao realizar atividades diárias e 78% se sentem muito satisfeitos, análogo ao presente estudo em que 8 pacientes relataram dor leve ao realizar atividades mais intensas mas sem interferência em suas atividades do cotidiano8,10..
Em nossa análise também foi observado nível alto de satisfação dos pacientes com 86,6% semelhante ao estudo feito por Vilela et al. (2021) em que 92,31% relataram estar satisfeitos. Outros trabalhos como de Hurley et al. (2019) também destacaram taxas de satisfação superiores a 80% mesmo após 16 meses de acompanhamento. Vale ressaltar que um dos pacientes que alegou insatisfação, apresentava a idade de 49 anos. De acordo com a literatura, há maior prevalência de ruptura do tendão do manguito rotador nesse tipo de paciente e os estudos de Cohen et al. (2021) apontarem os pacientes ≥ 40 anos responsáveis por 35,7% de complicações, contra 19,4% daqueles < 40 anos6,11,1,12,8.
Em relação aos pacientes que praticam esportes, 80% eram praticantes e 64,3% tiveram o primeiro episódio durante a prática de esporte, convergindo com os achados de Filho et al. (2020) que também identificaram o futebol como o principal esporte praticado, assim como o ombro do lado direito predominante10.
Quanto ao retorno ao esporte após a cirurgia, Alfaraidy et al. (2023) apontou uma alta taxa de retorno entre os atletas, com taxa de recorrência relatada variando de 0% a 8%. Nossos dados indicam que 53,3% dos praticantes retornaram, todavia, um paciente com seis meses de pós-operatório afirmou não se sentir seguro para voltar a praticar esportes no momento e dois pacientes afirmaram dor ou lesão no joelho e falta de tempo no dia a dia. Considerando as respostas dos pacientes, Filho et al. (2020) reportaram que 93% obtiveram recuperação, dos quais 37% recuperaram a habilidade de arremesso e 78% se apresentaram satisfeitos com os resultados obtidos, ratificando que é possível praticar esporte após realizar a técnica de Latarjet13,10..
Em sua pesquisa, Azevedo e colaboradores (2021), analisaram uma amostra com 10 pacientes, sendo 40% com mais de 40 anos, 20% do sexo feminino, 80% do sexo masculino. Desses, 40% praticavam algum tipo de atividade física. Os pacientes submetidos à cirurgia de Latarjet apresentaram boa recuperação da funcionalidade do ombro, o que possibilitou o retorno às suas atividades diárias e de trabalho com mais segurança e sem recidiva do quadro de luxação. De acordo com o estudo de Vilela e colaboradores (2022), o procedimento de Latarjet também proporcionou taxa de recidiva menor, quando comparado aos reparos de Bankart1,6.
De acordo com os resultados obtidos, a cirurgia de Latarjet é promissora para reabilitação de pacientes que sofreram com luxação do ombro. Todavia, estudos futuros podem ser direcionados para investigar os benefícios da técnica com maior precisão, maior número amostral uma vez que há limitação da avaliação estatística, avaliação física e funcional, indo além da investigação de prontuários e análise subjetiva, como entrevistas.
Vale ressaltar que a habilidade e experiência do cirurgião induzem impactos no manejo clínico e proporcionam menor risco de complicações, incidência e resultados eficazes.
CONCLUSÃO
As cirurgias evoluíram ao longo dos anos apresentando cada vez menos intercorrências e complicações. Importante ressaltar que a idade, o nível de atividade física e a ocupação do paciente devem ser levados em consideração como fator prognóstico. A técnica de Latarjet promoveu resultados positivos e melhora na qualidade de vida, sem interferir nas atividades laborais e de vida diária, tornando-se uma opção de tratamento da enfermidade na população estudada.
REFERÊNCIAS
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- Cohen M, Fonseca R, Gribel B, Galvão MV, Monteiro M, Motta Filho G. Incidência e fatores de risco das complicações da cirurgia de Latarjet. Rev Bras Ortop. 2020. doi:10.1055/s-0040-1712987.
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- Filho JG, Leite MC, Borges AC, de Souza GT, do Prado OF. Avaliação clínica e radiográfica de pacientes operados pela técnica de Bristow-Latarjet com seguimento mínimo de 20 anos. Rev Bras Ortop. 2020;55(04):455-462. doi:10.1055/s-0039-3402455
- Hurley ET, Jamal MS, Ali ZS, Montgomery C, Pauzenberger L, Mullett H. Long-term outcomes of the Latarjet procedure for anterior shoulder instability: a systematic review of studies at 10-year follow-up. J Shoulder Elb Surg. 2019;28(2):e33-e39. doi:10.1016/j.jse.2018.08.028
- Moura DL, Reis AR, Ferreira J, Capelão M, Cardoso JB. Modified Bristow-Latarjet procedure for treatment of recurrent traumatic anterior glenohumeral dislocation. Rev Bras Ortop (English Ed. 2018;53(2):176-183. doi:10.1016/j.rboe.2017.02.009
- Alfaraidy M, Alraiyes T, Moatshe G, Litchfield R, LeBel ME. Low Rates of Serious Complications After Open Latarjet Procedure at Short-term Follow-up. J Shoulder Elb Surg. 2022. doi:10.1016/j.jse.2022.06.004
ANEXOS
ANEXO A – FICHA PARA COLETA DE DADOS SOCIOEPIDEMIOLÓGICOS
Nome: ____________________________________________ Idade:____________
Sexo de nascimento: ( ) FEMININO ( ) MASCULINO
Data de nascimento: _______________________________
Idade em que ocorreu a primeira luxação: _______________
Lateralidade da lesão: ( ) DIREITO ( ) ESQUERDO
Lateralidade da dominância: ( ) DIREITO ( ) ESQUERDO
Mecanismo: ( ) TRAUMÁTICO. ( ) NÃO TRAUMÁTICO
___________________________________________________________________ PRÁTICA DE ATIVIDADES ESPORTIVAS:
( ) NÃO
( ) SIM, QUAL? ______________________________________________ QUANTO TEMPO DE CIRURGIA?
______________________ MESES
ANEXO B – QUESTIONÁRIO DE SATISFAÇÃO
Fonte: Adaptado de Almeida et al. (2017)
¹Ortopedista especialista e Cirurgia do Ombro e Cotovelo, Departamento de Ortopedia e Traumatologia do
Hospital Santa Casa de Misericórdia de Vitória.
²Residente em Ortopedia e Traumatologia do Hospital Santa Casa de Misericórdia de Vitória.
³Ortopedista fellow em Cirurgia do Ombro e Cotovelo, Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital
Santa Casa de Misericórdia de Vitória.