HEARING EVALUATION OF GAS STATION ATTENDANTS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202512282350
Maria Heloiza De Lima Santos1
Maria Gabriela Santos Felix2
Rayanne Karoline da Silva Santos3
Luciana Castelo Branco Camurça Fernandes4
Elizângela Dias Camboim5
Resumo
O presente estudo teve como objetivo avaliar a função auditiva de frentistas de postos de gasolina localizados em uma mesma avenida da cidade de Maceió. Trata-se de um estudo observacional, descritivo e transversal, que incluiu 18 participantes, com idades entre 20 e 39 anos, distribuídos em grupo estudo (GE), composto por frentistas com no mínimo três anos de atuação, e grupo controle (GC), formado por indivíduos sem histórico de exposição a solventes orgânicos. Os grupos foram pareados por idade e sexo. A avaliação auditiva foi realizada por meio de audiometria tonal e logoaudiometria, imitanciometria, Potencial Evocado Auditivo do Tronco Encefálico (PEATE) e Emissões Otoacústicas Produto de Distorção (EOAPD). Os resultados demonstraram que o GE apresentou limiares auditivos significativamente mais elevados em diversas frequências, sugerindo comprometimento auditivo periférico mais amplo, com discreta tendência de elevação nas altas frequências, compatível com alterações cocleares iniciais. Na logoaudiometria, observou-se elevação dos valores médios do limiar de reconhecimento de fala no GE, compatível com os limiares tonais, sem prejuízo dos índices percentuais de reconhecimento de fala, os quais permaneceram preservados. As EOAPD evidenciaram reduções consistentes nas amplitudes e na relação sinal-ruído no GE, indicando disfunção subclínica das células ciliadas externas da cóclea. A imitanciometria revelou curvas predominantemente normais em ambos os grupos, embora o GE tenha apresentado maior número de ausências do reflexo acústico contralateral. O PEATE não revelou diferenças significativas entre os grupos. Conclui-se que os frentistas avaliados apresentaram indícios sutis de alterações auditivas periféricas associadas à exposição ocupacional a solventes orgânicos presentes na gasolina, sem evidências de comprometimento da via auditiva central nesta amostra.
Palavras-chave: Frentistas. Exposição. Solventes orgânicos. Respostas auditivas. Fonoaudiologia.
1. INTRODUÇÃO
A Saúde do trabalhador é um campo da saúde pública que se dedica a estudar e intervir nas interações entre as condições de trabalho e a saúde dos indivíduos. Suas ações incluem a promoção da saúde, o cuidado e a assistência aos trabalhadores, bem como a vigilância sobre exposições ocupacionais e os danos à saúde decorrentes do trabalho. Entre esses danos, destacam-se dois que afetam diretamente a capacidade de comunicação do trabalhador: a Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) e os Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho (DVRT) (Rêgo, 2022). Ademais, a saúde auditiva é fundamental para a comunicação eficiente e a qualidade de vida dos indivíduos, uma vez que a audição permite a percepção de sons ambientais e da fala, essenciais às interações sociais e ao desenvolvimento cognitivo (Vieira et al., 2023).
No ambiente ocupacional, a saúde auditiva do trabalhador está sujeita a riscos decorrentes da exposição a ruído e a agentes químicos ototóxicos (Vieira et al., 2023). Observou-se tanto em estudo com ratos quanto em seres humanos que o tolueno tende a se concentrar principalmente no tronco encefálico. Essa descoberta evidencia a capacidade dos solventes orgânicos de atravessar facilmente a barreira hematoencefálica após a inalação, resultando em efeitos no sistema nervoso central (SNC) semelhantes aos causados pelo consumo de álcool e benzodiazepínicos. Consequentemente, pessoas expostas a esses produtos químicos estão mais suscetíveis a alterações no SNC, especialmente aquelas expostas de forma ocupacional, onde a exposição é diária e prolongada (Quevedo et al., 2012).
Durante o processo de abastecimento de automóveis, os trabalhadores dos postos de combustível enfrentam um dos riscos mais significativos: a exposição a altos níveis de vapores de gasolina. Esses vapores contêm substâncias como benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno, que podem ser absorvidas através da inalação, ingestão e contato dérmico. Alguns componentes da gasolina, como etilbenzeno, tolueno e xileno, têm sido associados a danos no sistema auditivo periférico e/ou central (Zucki et al., 2024). O local exato de ação e os mecanismos envolvidos na atuação dos solventes ainda não são completamente compreendidos. Embora uma porção significativa do sistema nervoso central seja responsável pela identificação e pelo processamento da informação auditiva, permanece a necessidade de um entendimento mais aprofundado e preciso acerca dos efeitos dos solventes sobre o sistema nervoso auditivo central (Quevedo et al., 2012; Teixeira et al., 2024).
Um estudo recente tem evidenciado que a exposição a esses solventes orgânicos, como tolueno, benzeno, etilbenzeno e xileno, presentes nos combustíveis, pode provocar efeitos ototóxicos por meio de mecanismos distintos que envolvem tanto o sistema auditivo periférico quanto o central. Do ponto de vista periférico, o tolueno apresenta ação cocleotóxica, resultando em degeneração das células ciliadas externas, principalmente nas regiões basais da cóclea, o que explica o comprometimento inicial das frequências altas e a ocorrência de zumbido relatada por trabalhadores expostos (Rêgo, 2022; Teixeira et al., 2024). Esses danos são geralmente bilaterais e irreversíveis, e podem ocorrer mesmo na ausência de alterações audiométricas significativas, sendo detectáveis por exames de emissões otoacústicas e potenciais evocados auditivos de tronco encefálico (Teixeira et al., 2024).
Por outro lado, os efeitos centrais decorrem da neurotoxicidade dos solventes, que têm capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, acumulando-se em estruturas do tronco encefálico e afetando as vias auditivas superiores. Essa ação pode ocasionar alterações na transmissão e no processamento neural do som, manifestando-se por latências aumentadas nas ondas dos potenciais evocados auditivos e por déficits em tarefas de atenção auditiva e discriminação de sons (Zucki et al., 2024). Esses achados sugerem que a exposição crônica a solventes, além de provocar danos cocleares, também pode comprometer a integração cortical da informação auditiva, caracterizando um quadro combinado de cocleotoxicidade e neurotoxicidade (Zucki et al., 2024; Teixeira et al., 2024).
Tais evidências reforçam a necessidade de abordagens diagnósticas que considerem o sistema auditivo como um todo, periférico e central, com a utilização de baterias de testes audiológicos sensíveis à detecção precoce de alterações subclínicas, especialmente em populações ocupacionalmente expostas, como frentistas e trabalhadores de indústrias químicas (Rêgo, 2022; Teixeira et al., 2024).
Para a avaliação auditiva completa, empregam-se exames que investigam diferentes níveis do sistema auditivo. A audiometria tonal e a logoaudiometria mensuram, respectivamente, os limiares de detecção e de compreensão da fala; a imitanciometria avalia a integridade e a mobilidade da orelha média e reflexo acústico; as Emissões Otoacústicas por Produto de Distorção (EOAPD) avalia a função das células ciliadas externas; e o Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico (PEATE) examina a condução neural até o tronco encefálico (Teixeira et al., 2024).
Apesar de existirem evidências sobre os efeitos ototóxicos da exposição a solventes orgânicos, os estudos sobre o perfil audiológico de frentistas ainda apresentam importantes lacunas metodológicas. Observa-se que a maioria das pesquisas disponíveis não empregam uma bateria completa de exames que contemple audiometria tonal, logoaudiometria, medidas de imitância acústica, emissões otoacústicas e potenciais evocados auditivos do tronco encefálico (Teixeira et al., 2024; (Guia da Atuação da Fonoaudiologia na Saúde do Trabalhador, 2024). Essa limitação dificulta a caracterização abrangente das alterações auditivas, restringindo a compreensão sobre a extensão e o local do dano, se periférico, central ou combinado.
Diante disso, o objetivo do presente estudo é avaliar a audição de frentistas de postos de gasolina localizados em uma mesma avenida de uma capital do nordeste, utilizando os principais exames audiológicos mencionados.
2. METODOLOGIA
2.1 Amostra
Trata-se de um estudo observacional, descritivo e transversal aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, sob o parecer nº7.523.328. Os exames realizados foram conduzidos em um Centro Especializado em Reabilitação (CER).
2.1.1 Seleção da amostra
A proposta do estudo foi apresentada para os gerentes de postos de combustíveis e para os servidores da universidade do estudo. Os participantes foram informados sobre os procedimentos e objetivos do estudo, e o TCLE foi lido e explicado. Aqueles que concordaram em participar por meio da assinatura do TCLE tiveram seus exames auditivos agendados no CER, em dia e horário marcados antes do turno de trabalho ou em dias de folga, garantindo um repouso auditivo mínimo de 12 horas.
2.1.2 Critérios de inclusão
● Grupo estudo: 9 frentistas de ambos os sexos com atuação profissional há pelo menos três anos, com idade entre 20 e 39 anos, em exercício da profissão em postos de gasolina localizados em uma mesma avenida.
● Grupo controle: 9 participantes de ambos os sexos entre 20 e 39 anos sem histórico de exposição a ruído ou solventes orgânicos.
2.1.3 Critérios de exclusão
● Grupo estudo (GE): histórico prévio de alterações audiológicas ou otológicas recentes, exposição intensa ao ruído ou a produtos químicos fora do ambiente de trabalho, utilização de medicamentos ototóxicos, presença de síndromes; e/ou déficits comunicativos ou neurológicos.
● Grupo controle (GC): histórico prévio de alterações audiológicas ou otológicas recentes, presença de síndromes, e/ou déficits comunicativos ou neurológicos.
2.2 Procedimento
Visando excluir a possibilidade de interferências auditivas decorrentes da exposição a níveis elevados de pressão sonora, procedeu-se à aferição dos níveis de ruído nos postos de gasolina selecionados, durante o horário de maior movimentação. As medições tiveram como objetivo principal identificar o nível máximo de ruído presente no ambiente. Para esse fim, empregou-se o decibelímetro virtual Decibel X. Adotou-se como referência de normalidade o limite de exposição diária de 85 dB por até oito horas para ruído contínuo ou intermitente (Rêgo, 2022; Teixeira et al., 2024).
Foi realizada a coleta de dados sociodemográficos, na qual o questionário foi aplicado diretamente pelo pesquisador. Cada pergunta foi lida em voz alta para o participante, e as respostas foram registradas conforme fornecidas. Adicionalmente, foram realizados exames auditivos seguindo os critérios de normalidade. Os exames realizados foram: Otoscopia, audiometria tonal, logoaudiometria, imitanciometria, EOAPD e PEATE.
A otoscopia foi executada com o otoscópio de marca Whell Chelling, visando verificar a presença excessiva de cerúmen ou qualquer outra alteração que impedisse a realização dos exames ou que pudesse alterar o resultado dos mesmos. As avaliações audiológicas foram realizadas em ambiente silencioso, dentro de uma cabine acusticamente tratada.
O exame de audiometria tonal foi realizado com o audiômetro AC-40 da Interacoustics, para pesquisar os limiares auditivos nas frequências de 250 a 8000 Hz em cada orelha, tendo como critério de normalidade limiares auditivos por via aérea iguais ou inferiores a 25 dB (World Health Organization, 2021), e, por via óssea, iguais ou inferiores a 15 dB. O exame da logoaudiometria foi realizado com o mesmo equipamento, tendo como critérios de normalidade limiar de reconhecimento de fala (LRF) compatível com a média tritonal dos limiares tonais de via aérea e índice percentual de reconhecimento de fala (IPRF) maior ou igual a 90% (Schoepflin, 2012).
A imitanciometria foi realizada com equipamento AT 235H da interacoustics, tendo como critério de normalidade curvas timpanométricas do tipo A, ou seja, pressão na orelha média entre +100 a -100 daPa e compliancia entre 0,3 a 1,6 ml, e reflexos acústicos presentes normais desencadeados com valores entre 70 e 100 dBNA em todas as frequências (Jerger, Jerger, Mauldin, 1972).
As EOAPD foram realizadas com o equipamento de marca ILO 292 da Otodynamics, com no mínimo 600 estímulos sonoros e no máximo 1000 estímulos nas frequências de 1000 Hz a 8000 Hz. O critério de normalidade foi relação sinal ruído maior ou igual a 6dB e amplitude de resposta ≥ 3dB (Kemp, 1978).
O PEATE foi realizado com o equipamento Eclipse 25 da Interacoustics, com estímulo tipo click de velocidade 21,1 por segundo, intensidade de 80 dB nHL, polaridade rarefeita, filtro passa-baixo de 3000 Hz e passa-alto de 100Hz, com impedancio ≤ 3ᘵ. O critério de normalidade foi de latências absolutas que apresentaram os seguintes valores: onda I entre 1,37 e 2,01 ms, onda III entre 3,42 e 4,22 ms, e onda V entre 5,09 e 6,09 ms. Os intervalos interpicos devem estar entre 1,78 a 2,48 ms para I–III, 1,33 a 2,33 ms para III–V e 3,88 a 4,42 ms para I– V, além da diferença interaural da onda V ser menor que 0,3 ms (Hall, 2020; Hood 1998).
Para a análise estatística dos resultados, foram utilizados os testes de Mann Whitney para comparação entre amostras independentes não paramétricas; o teste do qui-quadrado (χ²), utilizado para verificar a existe de associação ou independência das variáveis categóricas; e o teste t de Student, utilizado para analisar amostras independentes paramétricas. Os resultados foram considerados significantes quando o valor de p≤0,05.
3. RESULTADOS
Para o controle da variável ruído ambiental proveniente da avenida adjacente ao local da coleta de dados, foi realizada a medição do nível de pressão sonora durante o horário de pico. O resultado obtido indicou um nível sonoro contínuo equivalente (Leq) de 62 dB, considerando uma exposição diária de oito horas.
A coleta de dados deste estudo ocorreu entre setembro e dezembro de 2024. Ao todo, participaram 18 indivíduos, distribuídos de forma equitativa entre os grupos GC e GE. Entre os participantes, seis eram do sexo feminino e 12 do sexo masculino, com média de idade de 32,75 anos. Em relação ao tempo de atuação profissional do GE, variou de 4 a 21 anos, com média de 10,83 anos.
Os frentistas que aceitaram participar do GE apresentaram os seguintes limiares na audiometria tonal, 55,5% (n= 5) dos sujeitos apresentaram limiares auditivos dentro do padrão de normalidade (todos os limiares iguais ou inferiores a 25 dBNA), 22,2% (n= 2) dos sujeitos apresentaram perda neurossensorial unilateral de grau leve e 22,2% (n= 2) apresentaram perda neurossensorial bilateral de grau leve. No GC, todos os participantes (100%) apresentaram limiares auditivos dentro dos padrões de normalidade na audiometria tonal, isto é, iguais ou inferiores a 25 dBNA. Ao comparar os limiares entre os grupos, observou-se diferença estatisticamente significativa nos resultados da audiometria tonal (p = 0,02).
Observou-se que, em todas as frequências avaliadas, o GE apresentou média de limiares mais elevados do que o GC. Diferenças estatisticamente significativas entre os grupos foram encontradas em 250 Hz, 500 Hz, 1 kHz, 2 kHz, 4 kHz, 6 kHz e 8 kHz. Na frequência de 3kHz não houve diferença significativa, embora o GE também tenha apresentado limiares mais altos (Tabela 1).
TABELA 1. MÉDIA, VALORES MÍNIMOS E MÁXIMOS DOS LIMIARES POR FREQUÊNCIAS E GRUPO

A média geral dos limiares auditivos por via aérea variou de acordo com a faixa de frequência analisada. Para as frequências de 250Hz, 500Hz, 1000Hz e 2000Hz, a média dos limiares foi de 17,3 dB para o GE e 11,3 dB para o GC (p=0,013). Já para as frequências de 3000Hz, 4000Hz, 6000Hz e 8000Hz, o valor médio foi de 19,7 dB para o GE e 9 dB para o GC (p=0,016) (Figura 1).
FIGURA 1. MÉDIA DOS LIMIARES AUDITIVOS POR VIA AÉREA

Observou-se que, em todas as frequências avaliadas, o GE apresentou média de limiares mais elevados do que o GC. Diferenças estatisticamente significativas entre os grupos foram encontradas em 250 Hz, 500 Hz, 1 kHz, 2 kHz, 4 kHz, 6 kHz e 8 kHz. Na frequência de 3kHz não houve diferença significativa, embora o GE também tenha apresentado limiares mais altos (Tabela 1).
Os resultados da logoaudiometria para o LRF mostraram compatibilidade para ambos os grupos e orelhas, tendo uma média de valores de 17,5 dB para o GC e 21,9 dB para o GE (p=0,021). Com relação ao IPRF (monossílabos), o valor médio para o GC foi de 99,3% e para o GE de 98,4% (p> 0,05).
Quanto às curvas timpanométricas, observou-se no GE a predominância do tipo A (88,9%), seguido pelo tipo Ad (11,1%). No GC, por sua vez, todas as curvas timpanométricas registradas foram do tipo A (100%). Não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nos resultados da timpanometria (p > 0,05). A ocorrência do reflexo acústico no modo contralateral foi analisada entre os grupos, considerando-se as orelhas direita e esquerda. No GC, o reflexo esteve presente na maior parte dos casos em ambas as orelhas, havendo apenas uma ocorrência de ausência. Por outro lado, no GE, verificou-se uma frequência mais elevada de ausências do reflexo, com registros em ambas as orelhas (Tabela 2).
TABELA 2. OCORRÊNCIA DO REFLEXO ACÚSTICO NO MODO CONTRALATERAL

Os trabalhadores expostos à gasolina apresentaram 11,1% (n= 1) de ausência na relação sinal-ruído das EOAPD, enquanto os participantes não expostos não registraram nenhuma ausência nesse aspecto (p> 0,05). Além disso, as amplitudes das EOAPD foram menores no GE em todas as frequências avaliadas (Tabela 3).
TABELA 3. MÉDIA DA AMPLITUDE DAS EMISSÕES OTOACÚSTICAS POR PRODUTO DE DISTORÇÃO DISTRIBUÍDAS POR FREQUÊNCIA NO GRUPO CONTROLE E GRUPO ESTUDO

Os resultados do PEATE de ambos os grupos demonstraram amplitude, latências absolutas das ondas I, III e V e interpicos dentro da normalidade, apenas 11,1% (n= 1) dos sujeitos expostos a gasolina apresentaram latências absolutas fora do padrão de normalidade estabelecido (p>0,05). Também foram comparadas as latências das ondas I, III e V, interpicos I-III, III-V, I-V e interaural V-V entre os grupos (Tabela 4).
TABELA 4. MÉDIAS DAS LATÊNCIAS, INTERPICOS E INTERAURAL DO POTENCIAL EVOCADO AUDITIVO DE TRONCO ENCEFÁLICO NO GRUPO CONTROLE E GRUPO ESTUDO

4. DISCUSSÃO
O ruído ambiental proveniente da avenida indicou um nível sonoro contínuo equivalente (Leq) de 62 dB, considerando uma exposição diária de oito horas. Embora seja audível e potencialmente incômodo, ele não representa risco à saúde auditiva, pois está abaixo do limite de 85 dB para uma jornada diária de oito horas, no qual é estabelecido como limite de tolerância para exposição ao ruído no ambiente ocupacional (SOLE AGÊNCIA DIGITAL, s.d; Brasil, 1978).
Os achados na literatura mostram que a toxicidade dos solventes orgânicos pode impactar não apenas o sistema auditivo periférico, mas também influenciar as estruturas centrais da audição. Um estudo realizou uma comparação dos resultados audiológicos de 24 trabalhadores de postos de gasolina com 24 pessoas não expostas (Tochettto, Quevedo, Siqueira, 2013). Os trabalhadores apresentaram diferença nos limiares auditivos significativamente mais baixos nas frequências de 0,5, 2 e 3 kHz em comparação com o grupo não exposto. Em contraste, outro estudo analisou o perfil auditivo de 21 trabalhadores de postos de gasolina em relação a 23 indivíduos sem exposição a ruído ou substâncias químicas, mas não foram observadas diferenças nos limiares auditivos entre os dois grupos (Zucki et al., 2017).
Todavia, no presente estudo, a audiometria tonal evidenciou diferenças entre o GE e o GC, com os frentistas apresentando limiares auditivos significativamente mais elevados. As diferenças significativas encontradas em 250 Hz, 500 Hz, 1 kHz, 2 kHz, 4 kHz, 6 kHz e 8 kHz sugerem que o comprometimento auditivo no grupo estudo não se restringe a uma faixa específica do espectro, mas ocorre de forma mais ampla. O fato de 3 kHz não ter apresentado significância estatística, embora o grupo estudo também tenha exibido limiares mais elevados, pode estar relacionado à variabilidade intra-grupo ou ao tamanho da amostra, não necessariamente indicando ausência de diferença clínica. Ainda assim, o padrão geral sugere uma tendência consistente de pior desempenho auditivo no GE. Além disso, observou-se nesse grupo um discreto aumento dos limiares nas frequências altas, em comparação às frequências baixas e médias, mesmo em indivíduos com audição dentro dos padrões de normalidade. Esse padrão pode indicar os primeiros sinais de comprometimento coclear. Tais achados estão em consonância com estudos prévios que associam a exposição crônica a agentes ototóxicos a alterações auditivas iniciais e, posteriormente, mais acentuadas(Schoepflin, 2012).
A exposição ao tolueno, presente na gasolina, pode levar à morte celular irreversível, resultando em perda auditiva, inicialmente nas altas frequências. Esse dano ocorre por meio de alterações na integridade estrutural das células ciliadas, incluindo a degeneração dos estereocídios e a disfunção das células externas, comprometendo a capacidade auditiva especialmente em frequências elevadas, que está relacionada à exposição prolongada ou a altos níveis de concentração do solvente (Teixeira et al., 2024). Evidências epidemiológicas reforçam que trabalhadores expostos cronicamente a tolueno podem apresentar limiares auditivos mais elevados, mesmo na ausência de sintomas clínicos, sugerindo um processo progressivo e subclínico de dano coclear (Morata et al., 1993).
A análise dos resultados da logoaudiometria revelou que, embora ambos os grupos tenham apresentado compatibilidade entre o LRF e os limiares tonais, o GE apresentou valores médios de LRF mais elevados do que o GC. Essa diferença, entretanto, foi interpretada à luz dos limiares tonais, uma vez que o LRF reflete diretamente a sensibilidade auditiva. Assim, o aumento observado no GE não constitui evidência isolada de alteração no reconhecimento de fala por possível comprometimento do sistema nervoso auditivo central, mas está principalmente associado aos limiares auditivos mais elevados desse grupo.
Em contrapartida, os IPRFs, avaliados com estímulos monossilábicos, permaneceram altos e estatisticamente semelhantes entre os grupos. Esses resultados sugerem que, apesar de uma tendência a elevação nos limiares de reconhecimento da fala em frentistas, a capacidade de discriminação auditiva permanece preservada, reforçando a idéia de que os efeitos auditivos da exposição à gasolina podem se manifestar de forma sutil e inicial, sem com prometer ainda o desempenho funcional na discriminação da fala em condições ideais.
Em relação ao teste de imitanciometria, os resultados obtidos indicam que, embora a timpanometria tenha revelado curvas majoritariamente dentro da normalidade em ambos os grupos, o GE apresentou apenas uma curva do tipo Ad. Contudo, como se trata de um achado isolado e sem repercussão clínica para o grupo como um todo, não há evidências de comprometimento funcional da orelha média nos participantes avaliados (Teixeira et al., 2024).
Em um estudo anteriormente citado, o grupo de trabalhadores apresentou uma maior incidência de reflexos acústicos anormais. De forma semelhante, no presente estudo, o GE apresentou maior número de ausências do reflexo acústico contralateral em comparação ao GC em que a presença foi mais consistente em ambas as orelhas. Esses dados sugerem que a exposição ocupacional pode estar associada a alterações auditivas de provável origem retrococlear (Gedik, Kuru, 2024).
Um estudo prévio investigou o funcionamento coclear de trabalhadores cronicamente expostos a vapores de combustíveis em postos de gasolina por meio da análise das EOAPD (Roggia et al., 2019). Seus resultados demonstraram reduções significativas tanto na amplitude das emissões quanto na relação sinal-ruído (SNR) entre trabalhadores expostos, quando comparados a indivíduos não expostos. Tais reduções foram observadas em ambas as orelhas e na maioria das frequências avaliadas, sugerindo que a exposição prolongada a substâncias químicas voláteis, como benzeno, tolueno e xileno, pode comprometer o funcionamento das células ciliadas externas da cóclea.
Os achados do presente estudo corroboram esses resultados, uma vez que também identificaram diminuições consistentes nas amplitudes e na SNR das EOAPD entre os participantes do GE em comparação ao GC. As amplitudes das EOAPD foram inferiores em todas as frequências analisadas, indicando a ocorrência de alterações cocleares subclínicas mesmo na ausência de déficits audiométricos detectáveis. Esse padrão reforça que a exposição ocupacional a agentes ototóxicos pode comprometer precocemente os mecanismos ativos de amplificação coclear, destacando a necessidade de monitoramento audiológico contínuo em populações expostas (Kemp, 1978).
A identificação de alterações subclínicas apresenta importância significativa no contexto da exposição ocupacional a agentes ototóxicos, especialmente em ambientes como postos de gasolina, onde a utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs) foi frequentemente ausente ou insuficiente. As alterações subclínicas refletem disfunções iniciais das células ciliadas externas, ainda não detectáveis por métodos audiométricos convencionais, mas já indicativas de comprometimento funcional da cóclea. A detecção precoce dessas mudanças possibilita reconhecer o início do dano auditivo antes que se estabeleçam perdas irreversíveis. A ausência de EPIs, em especial aqueles destinados à redução da inalação de vapores químicos voláteis, como benzeno, tolueno e xileno, potencializa a vulnerabilidade dos trabalhadores aos efeitos nocivos dessas substâncias (SOLE AGÊNCIA DIGITAL, s.d.).
Em relação ao PEATE, os resultados obtidos indicaram que ambos os grupos apresentaram latências absolutas das ondas I, III e V, interpicos e diferença interaural dentro dos padrões de normalidade descritos na literatura. A ausência de diferença entre os grupos, conforme indicado pelo teste de Mann-Whitney, sugere que, do ponto de vista eletrofisiológico central, a exposição à gasolina não provocou alterações detectáveis na condução neural do tronco encefálico auditivo nesta amostra. Esses achados são similares com os de outro estudo presente na literatura (Teixeira et al., 2024), pois o resultado PEATE de todos os participantes demonstraram amplitude, latências absolutas das ondas I, III e V e interpicos dentro da normalidade com boa replicabilidade em ambas as orelhas, trazendo a hipótese de que os possíveis efeitos ototóxicos da exposição ocupacional à gasolina possam se manifestar inicialmente em estruturas periféricas da via auditiva, como as células ciliadas externas, antes de afetar níveis mais centrais.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esses achados sugerem indícios sutis de impacto auditivo periférico associado à exposição ocupacional à gasolina, ressaltando a importância do monitoramento audiológico contínuo desses trabalhadores. Recomenda-se que estudos futuros utilizem amostras maiores e mais robustas aplicando a bateria completa de exames auditivos, de modo a aumentar o poder estatístico das análises e permitir a confirmação dos indícios observados, além de proporcionar maior generalização dos resultados sobre os efeitos da exposição à gasolina na função auditiva.
Destaca-se como limitação deste estudo o número reduzido de participantes. Apesar dos empenhos envidados pela equipe de pesquisa durante as visitas aos postos de trabalho, constatou-se que os profissionais, em sua maioria, não reconhecem os riscos ocupacionais relacionados à saúde auditiva, o que resultou em baixa adesão à participação na pesquisa. Com o intuito de mitigar essa limitação, foi realizada uma campanha com folders informativos voltada à conscientização dos trabalhadores sobre os perigos da exposição a substâncias ototóxicas no ambiente laboral e a importância da prevenção, buscando, assim, promover maior engajamento em futuras etapas da pesquisa.
REFERÊNCIAS
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1Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. e mail: mariaheloizadelimasantos@gmail.com.br
2Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. e mail: gabriela.felix@academico.uncisal.edu.br
3Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. e mail: rayanne.santos@academico.uncisal.edu.br
4Docente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. Doutora em Química e Biotecnologia (UFAL). e-mail: luciana.fernandes@uncisal.edu.br
5Docente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. Doutora em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento (UFPE). e-mail: elizangela.camboim@uncisal.edu.br
