AVALIAÇÃO AUDITIVA EM FRENTISTAS DE POSTOS DE GASOLINA

HEARING EVALUATION OF GAS STATION ATTENDANTS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202512282350


Maria Heloiza De Lima Santos1
Maria Gabriela Santos Felix2
Rayanne Karoline da Silva Santos3
Luciana Castelo Branco Camurça Fernandes4
Elizângela Dias Camboim5


Resumo 

O presente estudo teve como objetivo avaliar a função auditiva de frentistas de postos de gasolina  localizados em uma mesma avenida da cidade de Maceió. Trata-se de um estudo observacional,  descritivo e transversal, que incluiu 18 participantes, com idades entre 20 e 39 anos, distribuídos em  grupo estudo (GE), composto por frentistas com no mínimo três anos de atuação, e grupo controle (GC),  formado por indivíduos sem histórico de exposição a solventes orgânicos. Os grupos foram pareados  por idade e sexo. A avaliação auditiva foi realizada por meio de audiometria tonal e logoaudiometria,  imitanciometria, Potencial Evocado Auditivo do Tronco Encefálico (PEATE) e Emissões Otoacústicas  Produto de Distorção (EOAPD). Os resultados demonstraram que o GE apresentou limiares auditivos  significativamente mais elevados em diversas frequências, sugerindo comprometimento auditivo  periférico mais amplo, com discreta tendência de elevação nas altas frequências, compatível com  alterações cocleares iniciais. Na logoaudiometria, observou-se elevação dos valores médios do limiar de  reconhecimento de fala no GE, compatível com os limiares tonais, sem prejuízo dos índices percentuais  de reconhecimento de fala, os quais permaneceram preservados. As EOAPD evidenciaram reduções  consistentes nas amplitudes e na relação sinal-ruído no GE, indicando disfunção subclínica das células  ciliadas externas da cóclea. A imitanciometria revelou curvas predominantemente normais em ambos  os grupos, embora o GE tenha apresentado maior número de ausências do reflexo acústico contralateral.  O PEATE não revelou diferenças significativas entre os grupos. Conclui-se que os frentistas avaliados  apresentaram indícios sutis de alterações auditivas periféricas associadas à exposição ocupacional a  solventes orgânicos presentes na gasolina, sem evidências de comprometimento da via auditiva central  nesta amostra. 

Palavras-chave: Frentistas. Exposição. Solventes orgânicos. Respostas auditivas. Fonoaudiologia. 

1. INTRODUÇÃO 

A Saúde do trabalhador é um campo da saúde pública que se dedica a estudar e intervir  nas interações entre as condições de trabalho e a saúde dos indivíduos. Suas ações incluem a  promoção da saúde, o cuidado e a assistência aos trabalhadores, bem como a vigilância sobre  exposições ocupacionais e os danos à saúde decorrentes do trabalho. Entre esses danos,  destacam-se dois que afetam diretamente a capacidade de comunicação do trabalhador: a Perda  Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) e os Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho (DVRT)  (Rêgo, 2022). Ademais, a saúde auditiva é fundamental para a comunicação eficiente e a  qualidade de vida dos indivíduos, uma vez que a audição permite a percepção de sons  ambientais e da fala, essenciais às interações sociais e ao desenvolvimento cognitivo (Vieira et  al., 2023). 

No ambiente ocupacional, a saúde auditiva do trabalhador está sujeita a riscos  decorrentes da exposição a ruído e a agentes químicos ototóxicos (Vieira et al.,  2023). Observou-se tanto em estudo com ratos quanto em seres humanos que o tolueno tende a  se concentrar principalmente no tronco encefálico. Essa descoberta evidencia a capacidade dos  solventes orgânicos de atravessar facilmente a barreira hematoencefálica após a inalação,  resultando em efeitos no sistema nervoso central (SNC) semelhantes aos causados pelo  consumo de álcool e benzodiazepínicos. Consequentemente, pessoas expostas a esses produtos  químicos estão mais suscetíveis a alterações no SNC, especialmente aquelas expostas de forma  ocupacional, onde a exposição é diária e prolongada (Quevedo et al., 2012). 

Durante o processo de abastecimento de automóveis, os trabalhadores dos postos de  combustível enfrentam um dos riscos mais significativos: a exposição a altos níveis de vapores  de gasolina. Esses vapores contêm substâncias como benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno,  que podem ser absorvidas através da inalação, ingestão e contato dérmico. Alguns componentes  da gasolina, como etilbenzeno, tolueno e xileno, têm sido associados a danos no sistema  auditivo periférico e/ou central (Zucki et al., 2024). O local exato de ação e os mecanismos  envolvidos na atuação dos solventes ainda não são completamente compreendidos. Embora  uma porção significativa do sistema nervoso central seja responsável pela identificação e pelo  processamento da informação auditiva, permanece a necessidade de um entendimento mais  aprofundado e preciso acerca dos efeitos dos solventes sobre o sistema nervoso auditivo central  (Quevedo et al., 2012; Teixeira et al., 2024). 

Um estudo recente tem evidenciado que a exposição a esses solventes orgânicos, como  tolueno, benzeno, etilbenzeno e xileno, presentes nos combustíveis, pode provocar efeitos ototóxicos por meio de mecanismos distintos que envolvem tanto o sistema auditivo periférico  quanto o central. Do ponto de vista periférico, o tolueno apresenta ação cocleotóxica, resultando  em degeneração das células ciliadas externas, principalmente nas regiões basais da cóclea, o  que explica o comprometimento inicial das frequências altas e a ocorrência de zumbido relatada  por trabalhadores expostos (Rêgo, 2022; Teixeira et al., 2024). Esses danos são geralmente  bilaterais e irreversíveis, e podem ocorrer mesmo na ausência de alterações audiométricas  significativas, sendo detectáveis por exames de emissões otoacústicas e potenciais evocados  auditivos de tronco encefálico (Teixeira et al., 2024). 

Por outro lado, os efeitos centrais decorrem da neurotoxicidade dos solventes, que têm  capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, acumulando-se em estruturas do tronco  encefálico e afetando as vias auditivas superiores. Essa ação pode ocasionar alterações na  transmissão e no processamento neural do som, manifestando-se por latências aumentadas nas  ondas dos potenciais evocados auditivos e por déficits em tarefas de atenção auditiva e  discriminação de sons (Zucki et al., 2024). Esses achados sugerem que a exposição crônica a  solventes, além de provocar danos cocleares, também pode comprometer a integração cortical  da informação auditiva, caracterizando um quadro combinado de cocleotoxicidade e  neurotoxicidade (Zucki et al., 2024; Teixeira et al., 2024). 

Tais evidências reforçam a necessidade de abordagens diagnósticas que considerem o  sistema auditivo como um todo, periférico e central, com a utilização de baterias de testes  audiológicos sensíveis à detecção precoce de alterações subclínicas, especialmente em  populações ocupacionalmente expostas, como frentistas e trabalhadores de indústrias químicas  (Rêgo, 2022; Teixeira et al., 2024). 

Para a avaliação auditiva completa, empregam-se exames que investigam diferentes  níveis do sistema auditivo. A audiometria tonal e a logoaudiometria mensuram,  respectivamente, os limiares de detecção e de compreensão da fala; a imitanciometria avalia a  integridade e a mobilidade da orelha média e reflexo acústico; as Emissões Otoacústicas por  Produto de Distorção (EOAPD) avalia a função das células ciliadas externas; e o Potencial  Evocado Auditivo de Tronco Encefálico (PEATE) examina a condução neural até o tronco  encefálico (Teixeira et al., 2024). 

Apesar de existirem evidências sobre os efeitos ototóxicos da exposição a solventes  orgânicos, os estudos sobre o perfil audiológico de frentistas ainda apresentam importantes  lacunas metodológicas. Observa-se que a maioria das pesquisas disponíveis não empregam uma  bateria completa de exames que contemple audiometria tonal, logoaudiometria, medidas de  imitância acústica, emissões otoacústicas e potenciais evocados auditivos do tronco encefálico (Teixeira et al., 2024; (Guia da Atuação da Fonoaudiologia na Saúde do Trabalhador, 2024).  Essa limitação dificulta a caracterização abrangente das alterações auditivas, restringindo a  compreensão sobre a extensão e o local do dano, se periférico, central ou combinado. 

Diante disso, o objetivo do presente estudo é avaliar a audição de frentistas de postos de  gasolina localizados em uma mesma avenida de uma capital do nordeste, utilizando os  principais exames audiológicos mencionados.

2. METODOLOGIA  

2.1 Amostra 

Trata-se de um estudo observacional, descritivo e transversal aprovado pelo Comitê de  Ética em Pesquisa da Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, sob o parecer nº7.523.328. Os  exames realizados foram conduzidos em um Centro Especializado em Reabilitação (CER). 

2.1.1 Seleção da amostra 

A proposta do estudo foi apresentada para os gerentes de postos de combustíveis e para  os servidores da universidade do estudo. Os participantes foram informados sobre os  procedimentos e objetivos do estudo, e o TCLE foi lido e explicado. Aqueles que concordaram  em participar por meio da assinatura do TCLE tiveram seus exames auditivos agendados no  CER, em dia e horário marcados antes do turno de trabalho ou em dias de folga, garantindo um  repouso auditivo mínimo de 12 horas. 

2.1.2 Critérios de inclusão 

● Grupo estudo: 9 frentistas de ambos os sexos com atuação profissional há pelo menos  três anos, com idade entre 20 e 39 anos, em exercício da profissão em postos de gasolina  localizados em uma mesma avenida. 

● Grupo controle: 9 participantes de ambos os sexos entre 20 e 39 anos sem histórico de  exposição a ruído ou solventes orgânicos. 

2.1.3 Critérios de exclusão 

● Grupo estudo (GE): histórico prévio de alterações audiológicas ou otológicas recentes,  exposição intensa ao ruído ou a produtos químicos fora do ambiente de trabalho,  utilização de medicamentos ototóxicos, presença de síndromes; e/ou déficits  comunicativos ou neurológicos. 

● Grupo controle (GC): histórico prévio de alterações audiológicas ou otológicas  recentes, presença de síndromes, e/ou déficits comunicativos ou neurológicos. 

2.2 Procedimento 

Visando excluir a possibilidade de interferências auditivas decorrentes da exposição a  níveis elevados de pressão sonora, procedeu-se à aferição dos níveis de ruído nos postos de gasolina selecionados, durante o horário de maior movimentação. As medições tiveram como  objetivo principal identificar o nível máximo de ruído presente no ambiente. Para esse fim,  empregou-se o decibelímetro virtual Decibel X. Adotou-se como referência de normalidade o  limite de exposição diária de 85 dB por até oito horas para ruído contínuo ou intermitente (Rêgo,  2022; Teixeira et al., 2024). 

Foi realizada a coleta de dados sociodemográficos, na qual o questionário foi aplicado  diretamente pelo pesquisador. Cada pergunta foi lida em voz alta para o participante, e as  respostas foram registradas conforme fornecidas. Adicionalmente, foram realizados exames  auditivos seguindo os critérios de normalidade. Os exames realizados foram: Otoscopia,  audiometria tonal, logoaudiometria, imitanciometria, EOAPD e PEATE. 

A otoscopia foi executada com o otoscópio de marca Whell Chelling, visando verificar  a presença excessiva de cerúmen ou qualquer outra alteração que impedisse a realização dos  exames ou que pudesse alterar o resultado dos mesmos. As avaliações audiológicas foram  realizadas em ambiente silencioso, dentro de uma cabine acusticamente tratada. 

O exame de audiometria tonal foi realizado com o audiômetro AC-40 da Interacoustics,  para pesquisar os limiares auditivos nas frequências de 250 a 8000 Hz em cada orelha, tendo  como critério de normalidade limiares auditivos por via aérea iguais ou inferiores a 25 dB  (World Health Organization, 2021), e, por via óssea, iguais ou inferiores a 15 dB. O exame da  logoaudiometria foi realizado com o mesmo equipamento, tendo como critérios de normalidade  limiar de reconhecimento de fala (LRF) compatível com a média tritonal dos limiares tonais de  via aérea e índice percentual de reconhecimento de fala (IPRF) maior ou igual a 90% (Schoepflin, 2012). 

A imitanciometria foi realizada com equipamento AT 235H da interacoustics, tendo  como critério de normalidade curvas timpanométricas do tipo A, ou seja, pressão na orelha  média entre +100 a -100 daPa e compliancia entre 0,3 a 1,6 ml, e reflexos acústicos presentes  normais desencadeados com valores entre 70 e 100 dBNA em todas as frequências (Jerger,  Jerger, Mauldin, 1972). 

As EOAPD foram realizadas com o equipamento de marca ILO 292 da Otodynamics,  com no mínimo 600 estímulos sonoros e no máximo 1000 estímulos nas frequências de 1000  Hz a 8000 Hz. O critério de normalidade foi relação sinal ruído maior ou igual a 6dB e  amplitude de resposta ≥ 3dB (Kemp, 1978). 

O PEATE foi realizado com o equipamento Eclipse 25 da Interacoustics, com estímulo  tipo click de velocidade 21,1 por segundo, intensidade de 80 dB nHL, polaridade rarefeita, filtro  passa-baixo de 3000 Hz e passa-alto de 100Hz, com impedancio ≤ 3ᘵ. O critério de normalidade foi de latências absolutas que apresentaram os seguintes valores: onda I entre 1,37  e 2,01 ms, onda III entre 3,42 e 4,22 ms, e onda V entre 5,09 e 6,09 ms. Os intervalos interpicos  devem estar entre 1,78 a 2,48 ms para I–III, 1,33 a 2,33 ms para III–V e 3,88 a 4,42 ms para I– V, além da diferença interaural da onda V ser menor que 0,3 ms (Hall, 2020; Hood 1998). 

Para a análise estatística dos resultados, foram utilizados os testes de Mann Whitney  para comparação entre amostras independentes não paramétricas; o teste do qui-quadrado (χ²),  utilizado para verificar a existe de associação ou independência das variáveis categóricas; e o  teste t de Student, utilizado para analisar amostras independentes paramétricas. Os resultados  foram considerados significantes quando o valor de p≤0,05.

3. RESULTADOS 

Para o controle da variável ruído ambiental proveniente da avenida adjacente ao local  da coleta de dados, foi realizada a medição do nível de pressão sonora durante o horário de  pico. O resultado obtido indicou um nível sonoro contínuo equivalente (Leq) de 62 dB,  considerando uma exposição diária de oito horas. 

A coleta de dados deste estudo ocorreu entre setembro e dezembro de 2024. Ao todo,  participaram 18 indivíduos, distribuídos de forma equitativa entre os grupos GC e GE. Entre os  participantes, seis eram do sexo feminino e 12 do sexo masculino, com média de idade de 32,75  anos. Em relação ao tempo de atuação profissional do GE, variou de 4 a 21 anos, com média  de 10,83 anos. 

Os frentistas que aceitaram participar do GE apresentaram os seguintes limiares na  audiometria tonal, 55,5% (n= 5) dos sujeitos apresentaram limiares auditivos dentro do padrão  de normalidade (todos os limiares iguais ou inferiores a 25 dBNA), 22,2% (n= 2) dos sujeitos  apresentaram perda neurossensorial unilateral de grau leve e 22,2% (n= 2) apresentaram perda  neurossensorial bilateral de grau leve. No GC, todos os participantes (100%) apresentaram  limiares auditivos dentro dos padrões de normalidade na audiometria tonal, isto é, iguais ou  inferiores a 25 dBNA. Ao comparar os limiares entre os grupos, observou-se diferença  estatisticamente significativa nos resultados da audiometria tonal (p = 0,02). 

Observou-se que, em todas as frequências avaliadas, o GE apresentou média de limiares  mais elevados do que o GC. Diferenças estatisticamente significativas entre os grupos foram  encontradas em 250 Hz, 500 Hz, 1 kHz, 2 kHz, 4 kHz, 6 kHz e 8 kHz. Na frequência de 3kHz  não houve diferença significativa, embora o GE também tenha apresentado limiares mais altos  (Tabela 1).

TABELA 1. MÉDIA, VALORES MÍNIMOS E MÁXIMOS DOS LIMIARES POR  FREQUÊNCIAS E GRUPO 

A média geral dos limiares auditivos por via aérea variou de acordo com a faixa de  frequência analisada. Para as frequências de 250Hz, 500Hz, 1000Hz e 2000Hz, a média dos  limiares foi de 17,3 dB para o GE e 11,3 dB para o GC (p=0,013). Já para as frequências de 3000Hz, 4000Hz, 6000Hz e 8000Hz, o valor médio foi de 19,7 dB para o GE e 9 dB para o  GC (p=0,016) (Figura 1). 

FIGURA 1. MÉDIA DOS LIMIARES AUDITIVOS POR VIA AÉREA

Observou-se que, em todas as frequências avaliadas, o GE apresentou média de limiares  mais elevados do que o GC. Diferenças estatisticamente significativas entre os grupos foram  encontradas em 250 Hz, 500 Hz, 1 kHz, 2 kHz, 4 kHz, 6 kHz e 8 kHz. Na frequência de 3kHz  não houve diferença significativa, embora o GE também tenha apresentado limiares mais altos  (Tabela 1). 

Os resultados da logoaudiometria para o LRF mostraram compatibilidade para ambos  os grupos e orelhas, tendo uma média de valores de 17,5 dB para o GC e 21,9 dB para o GE  (p=0,021). Com relação ao IPRF (monossílabos), o valor médio para o GC foi de 99,3% e para  o GE de 98,4% (p> 0,05). 

Quanto às curvas timpanométricas, observou-se no GE a predominância do tipo A  (88,9%), seguido pelo tipo Ad (11,1%). No GC, por sua vez, todas as curvas timpanométricas  registradas foram do tipo A (100%). Não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nos resultados da timpanometria (p > 0,05). A ocorrência do  reflexo acústico no modo contralateral foi analisada entre os grupos, considerando-se as orelhas direita e esquerda. No GC, o reflexo esteve presente na maior parte dos casos em ambas as  orelhas, havendo apenas uma ocorrência de ausência. Por outro lado, no GE, verificou-se uma  frequência mais elevada de ausências do reflexo, com registros em ambas as orelhas (Tabela  2). 

TABELA 2. OCORRÊNCIA DO REFLEXO ACÚSTICO NO MODO CONTRALATERAL

Os trabalhadores expostos à gasolina apresentaram 11,1% (n= 1) de ausência na relação  sinal-ruído das EOAPD, enquanto os participantes não expostos não registraram nenhuma  ausência nesse aspecto (p> 0,05). Além disso, as amplitudes das EOAPD foram menores no  GE em todas as frequências avaliadas (Tabela 3). 

TABELA 3. MÉDIA DA AMPLITUDE DAS EMISSÕES OTOACÚSTICAS POR  PRODUTO DE DISTORÇÃO DISTRIBUÍDAS POR FREQUÊNCIA NO GRUPO  CONTROLE E GRUPO ESTUDO

Os resultados do PEATE de ambos os grupos demonstraram amplitude, latências  absolutas das ondas I, III e V e interpicos dentro da normalidade, apenas 11,1% (n= 1) dos  sujeitos expostos a gasolina apresentaram latências absolutas fora do padrão de normalidade  estabelecido (p>0,05). Também foram comparadas as latências das ondas I, III e V, interpicos  I-III, III-V, I-V e interaural V-V entre os grupos (Tabela 4). 

TABELA 4. MÉDIAS DAS LATÊNCIAS, INTERPICOS E INTERAURAL DO  POTENCIAL EVOCADO AUDITIVO DE TRONCO ENCEFÁLICO NO GRUPO  CONTROLE E GRUPO ESTUDO

4. DISCUSSÃO  

O ruído ambiental proveniente da avenida indicou um nível sonoro contínuo  equivalente (Leq) de 62 dB, considerando uma exposição diária de oito horas. Embora seja  audível e potencialmente incômodo, ele não representa risco à saúde auditiva, pois está abaixo  do limite de 85 dB para uma jornada diária de oito horas, no qual é estabelecido como limite de  tolerância para exposição ao ruído no ambiente ocupacional (SOLE AGÊNCIA DIGITAL, s.d;  Brasil, 1978). 

Os achados na literatura mostram que a toxicidade dos solventes orgânicos pode  impactar não apenas o sistema auditivo periférico, mas também influenciar as estruturas  centrais da audição. Um estudo realizou uma comparação dos resultados audiológicos de 24  trabalhadores de postos de gasolina com 24 pessoas não expostas (Tochettto, Quevedo,  Siqueira, 2013). Os trabalhadores apresentaram diferença nos limiares auditivos  significativamente mais baixos nas frequências de 0,5, 2 e 3 kHz em comparação com o grupo  não exposto. Em contraste, outro estudo analisou o perfil auditivo de 21 trabalhadores de postos  de gasolina em relação a 23 indivíduos sem exposição a ruído ou substâncias químicas, mas  não foram observadas diferenças nos limiares auditivos entre os dois grupos (Zucki et al.,  2017). 

Todavia, no presente estudo, a audiometria tonal evidenciou diferenças entre o GE e o  GC, com os frentistas apresentando limiares auditivos significativamente mais elevados. As  diferenças significativas encontradas em 250 Hz, 500 Hz, 1 kHz, 2 kHz, 4 kHz, 6 kHz e 8 kHz  sugerem que o comprometimento auditivo no grupo estudo não se restringe a uma faixa  específica do espectro, mas ocorre de forma mais ampla. O fato de 3 kHz não ter apresentado  significância estatística, embora o grupo estudo também tenha exibido limiares mais elevados,  pode estar relacionado à variabilidade intra-grupo ou ao tamanho da amostra, não  necessariamente indicando ausência de diferença clínica. Ainda assim, o padrão geral sugere  uma tendência consistente de pior desempenho auditivo no GE. Além disso, observou-se nesse  grupo um discreto aumento dos limiares nas frequências altas, em comparação às frequências  baixas e médias, mesmo em indivíduos com audição dentro dos padrões de normalidade. Esse  padrão pode indicar os primeiros sinais de comprometimento coclear. Tais achados estão em  consonância com estudos prévios que associam a exposição crônica a agentes ototóxicos a  alterações auditivas iniciais e, posteriormente, mais acentuadas(Schoepflin, 2012). 

A exposição ao tolueno, presente na gasolina, pode levar à morte celular irreversível,  resultando em perda auditiva, inicialmente nas altas frequências. Esse dano ocorre por meio de alterações na integridade estrutural das células ciliadas, incluindo a degeneração dos  estereocídios e a disfunção das células externas, comprometendo a capacidade auditiva  especialmente em frequências elevadas, que está relacionada à exposição prolongada ou a altos  níveis de concentração do solvente (Teixeira et al., 2024). Evidências epidemiológicas reforçam  que trabalhadores expostos cronicamente a tolueno podem apresentar limiares auditivos mais  elevados, mesmo na ausência de sintomas clínicos, sugerindo um processo progressivo e  subclínico de dano coclear (Morata et al., 1993). 

A análise dos resultados da logoaudiometria revelou que, embora ambos os grupos  tenham apresentado compatibilidade entre o LRF e os limiares tonais, o GE apresentou valores  médios de LRF mais elevados do que o GC. Essa diferença, entretanto, foi interpretada à luz  dos limiares tonais, uma vez que o LRF reflete diretamente a sensibilidade auditiva. Assim, o  aumento observado no GE não constitui evidência isolada de alteração no reconhecimento de  fala por possível comprometimento do sistema nervoso auditivo central, mas está  principalmente associado aos limiares auditivos mais elevados desse grupo. 

Em contrapartida, os IPRFs, avaliados com estímulos monossilábicos, permaneceram  altos e estatisticamente semelhantes entre os grupos. Esses resultados sugerem que, apesar de  uma tendência a elevação nos limiares de reconhecimento da fala em frentistas, a capacidade  de discriminação auditiva permanece preservada, reforçando a idéia de que os efeitos auditivos  da exposição à gasolina podem se manifestar de forma sutil e inicial, sem com prometer ainda  o desempenho funcional na discriminação da fala em condições ideais. 

Em relação ao teste de imitanciometria, os resultados obtidos indicam que, embora a  timpanometria tenha revelado curvas majoritariamente dentro da normalidade em ambos os  grupos, o GE apresentou apenas uma curva do tipo Ad. Contudo, como se trata de um achado  isolado e sem repercussão clínica para o grupo como um todo, não há evidências de  comprometimento funcional da orelha média nos participantes avaliados (Teixeira et al., 2024). 

Em um estudo anteriormente citado, o grupo de trabalhadores apresentou uma maior  incidência de reflexos acústicos anormais. De forma semelhante, no presente estudo, o GE  apresentou maior número de ausências do reflexo acústico contralateral em comparação ao GC  em que a presença foi mais consistente em ambas as orelhas. Esses dados sugerem que a  exposição ocupacional pode estar associada a alterações auditivas de provável origem  retrococlear (Gedik, Kuru, 2024). 

Um estudo prévio investigou o funcionamento coclear de trabalhadores cronicamente  expostos a vapores de combustíveis em postos de gasolina por meio da análise das EOAPD (Roggia et al., 2019). Seus resultados demonstraram reduções significativas tanto na amplitude  das emissões quanto na relação sinal-ruído (SNR) entre trabalhadores expostos, quando  comparados a indivíduos não expostos. Tais reduções foram observadas em ambas as orelhas e  na maioria das frequências avaliadas, sugerindo que a exposição prolongada a substâncias  químicas voláteis, como benzeno, tolueno e xileno, pode comprometer o funcionamento das  células ciliadas externas da cóclea. 

Os achados do presente estudo corroboram esses resultados, uma vez que também  identificaram diminuições consistentes nas amplitudes e na SNR das EOAPD entre os  participantes do GE em comparação ao GC. As amplitudes das EOAPD foram inferiores em  todas as frequências analisadas, indicando a ocorrência de alterações cocleares subclínicas  mesmo na ausência de déficits audiométricos detectáveis. Esse padrão reforça que a exposição  ocupacional a agentes ototóxicos pode comprometer precocemente os mecanismos ativos de  amplificação coclear, destacando a necessidade de monitoramento audiológico contínuo em  populações expostas (Kemp, 1978). 

A identificação de alterações subclínicas apresenta importância significativa no  contexto da exposição ocupacional a agentes ototóxicos, especialmente em ambientes como  postos de gasolina, onde a utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs) foi  frequentemente ausente ou insuficiente. As alterações subclínicas refletem disfunções iniciais  das células ciliadas externas, ainda não detectáveis por métodos audiométricos convencionais,  mas já indicativas de comprometimento funcional da cóclea. A detecção precoce dessas  mudanças possibilita reconhecer o início do dano auditivo antes que se estabeleçam perdas  irreversíveis. A ausência de EPIs, em especial aqueles destinados à redução da inalação de  vapores químicos voláteis, como benzeno, tolueno e xileno, potencializa a vulnerabilidade dos  trabalhadores aos efeitos nocivos dessas substâncias (SOLE AGÊNCIA DIGITAL, s.d.). 

Em relação ao PEATE, os resultados obtidos indicaram que ambos os grupos apresentaram  latências absolutas das ondas I, III e V, interpicos e diferença interaural dentro dos padrões de  normalidade descritos na literatura. A ausência de diferença entre os grupos, conforme indicado  pelo teste de Mann-Whitney, sugere que, do ponto de vista eletrofisiológico central, a exposição  à gasolina não provocou alterações detectáveis na condução neural do tronco encefálico  auditivo nesta amostra. Esses achados são similares com os de outro estudo presente na  literatura (Teixeira et al., 2024), pois o resultado PEATE de todos os participantes  demonstraram amplitude, latências absolutas das ondas I, III e V e interpicos dentro da  normalidade com boa replicabilidade em ambas as orelhas, trazendo a hipótese de que os  possíveis efeitos ototóxicos da exposição ocupacional à gasolina possam se manifestar inicialmente em estruturas periféricas da via auditiva, como as células ciliadas externas, antes  de afetar níveis mais centrais. 

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Esses achados sugerem indícios sutis de impacto auditivo periférico associado à  exposição ocupacional à gasolina, ressaltando a importância do monitoramento audiológico  contínuo desses trabalhadores. Recomenda-se que estudos futuros utilizem amostras maiores e  mais robustas aplicando a bateria completa de exames auditivos, de modo a aumentar o poder  estatístico das análises e permitir a confirmação dos indícios observados, além de proporcionar  maior generalização dos resultados sobre os efeitos da exposição à gasolina na função auditiva.  

Destaca-se como limitação deste estudo o número reduzido de participantes. Apesar dos  empenhos envidados pela equipe de pesquisa durante as visitas aos postos de trabalho,  constatou-se que os profissionais, em sua maioria, não reconhecem os riscos ocupacionais  relacionados à saúde auditiva, o que resultou em baixa adesão à participação na pesquisa. Com  o intuito de mitigar essa limitação, foi realizada uma campanha com folders informativos  voltada à conscientização dos trabalhadores sobre os perigos da exposição a substâncias  ototóxicas no ambiente laboral e a importância da prevenção, buscando, assim, promover maior  engajamento em futuras etapas da pesquisa.

REFERÊNCIAS 

RÊGO, C. N. Perfil das notificações dos agravos auditivos de trabalhadores no  Brasil. In: Programa Associado de Pós-Graduação em Fonoaudiologia  UFPB/UFRN/UNCISAL; 2022. 56 f. Natal (RN: [S.n.]. Disponível em:  https://repositorio.ufrn.br/server/api/core/bitstreams/6bd483e2-6578-42e1-87ef 724851e7d28c/content. 

VIEIRA, Emilly Shanaia Silva et al. Impacto da protetização auditiva na qualidade de vida do  adulto com deficiência auditiva: revisão de escopo. Audiology – Communication Research,  v. 28, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/acr/a/BX7LXCW6WDKvySGGj9Bjm6y/?format=html&lang=pt.

Quevedo LS, Garcia MV, Gonçalves CG, Soldera CLC, Rossi AG, Biaggio EPV, et al.  Potenciais evocados auditivos de tronco encefálico em frentistas. Braz J Otorhinolaryngol.  2012;78(6):63–8. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bjorl/a/fMCcgnxkF6Xxhgy5RQ7t3Mz/?lang=pt TEIXEIRA, Natália Nascimento et al. Perfil audiológico do profissional frentista de posto de  gasolina do Distrito Federal: estudo piloto. Revista Neurociências, v. 32, p. 1–16, 2024.  Disponível em: https://periodicos.unifesp.br/index.php/neurociencias/article/view/16096 

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1Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. e mail: mariaheloizadelimasantos@gmail.com.br
2Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. e mail: gabriela.felix@academico.uncisal.edu.br
3Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. e mail: rayanne.santos@academico.uncisal.edu.br
4Docente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas.  Doutora em Química e Biotecnologia (UFAL). e-mail: luciana.fernandes@uncisal.edu.br
5Docente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas.  Doutora em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento (UFPE). e-mail: elizangela.camboim@uncisal.edu.br