REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202509121448
Jaiane Nunes de Jesus
Joyce Crisley Mota da Silva
Yngrid Soares de Araujo
RESUMO
Introdução: Recém-nascido prematuro (RNP), é caracterizado pelo nascimento entre a 22ª semana e antes de completar as 37 semanas de gestação. A imaturidade dos órgãos deste, pode ocasionar em complicações como a displasia broncopulmonar (DBP) e/ou retinopatia da prematuridade e atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor, sendo recomendado que ferramentas terapêuticas sejam utilizadas o mais precoce possível. Tendo este estudo como objetivo descrever a assistência fisioterapêutica no RNP sobretudo no seu desenvolvimento neuropsicomotor. Material e métodos: Estudo de revisão de literatura no modelo narrativo, utilizando as bases de dados PubMed, LILACS/MEDLINE, e Scielo, na abrangência dos últimos 5 anos, nos idiomas de português e inglês. Foram utilizados os descritores “Fisioterapia”, “Desenvolvimento motor” e “Prematuridade”. Resultados: Foram encontrados inicialmente 326 artigos que ao passar pelos critérios de elegibilidade restaram 7 artigos para a elaboração do estudo. Todo os artigos analisaram a intervenção da fisioterapia no desenvolvimento neuropsicomotor e sua eficácia. Sendo possível observar avanços no desenvolvimento neuropsicomotor, superação de atrasos motores, apesar de um número baixo de intervenção em alguns estudos, foi observada um melhor prognóstico nos RNP que passaram por um maior número de intervenções e nos estudos onde houve participação dos pais mostrou um melhor vínculo entre mãe e filho. Considerações finais: A assistência fisioterapêutica a recém-nascidos prematuros é importante tanto no ambiente hospitalar quanto após a alta, proporcionando ao RNP um melhor desenvolvimento neuropsicomotor e reduzindo o tempo de internação nas UTIN.
Palavras-Chave: Fisioterapia, Desenvolvimento motor e Prematuridade.
ABSTRACT
Introduction: Premature newborn (PN) is characterized by birth between the 22nd week and before the 37th week of gestation. The immaturity of its organs can lead to complications such as bronchopulmonary dysplasia (BPD) and/or retinopathy of prematurity and delays in neuropsychomotor development, and it is recommended that therapeutic tools be used as early as possible. The aim of this study was to describe physiotherapeutic care for NB, especially in terms of neuropsychomotor development. Material and methods: A narrative literature review using the PubMed, LILACS/MEDLINE and Scielo databases, covering the last 5 years, in Portuguese and English. The descriptors “Physiotherapy”, “Motor development” and “Prematurity” were used. Results: Initially, 326 articles were found and, after passing the eligibility criteria, 7 articles were left for the study. All the articles analyzed physiotherapy intervention in neuropsychomotor development and its effectiveness. It was possible to observe advances in neuropsychomotor development, overcoming motor delays, despite a low number of interventions in some studies, a better prognosis was observed in the NB who underwent a greater number of interventions and in the studies where parents participated, a better bond between mother and child was shown. Final considerations: Physiotherapeutic care for premature newborns is important both in the hospital environment and after discharge, providing the NB with better neuropsychomotor development and reducing the length of stay in the NICU.
Keywords: Physiotherapy, Motor development and Prematurity.
INTRODUÇÃO
Recém-nascido prematuro (RNP), é aquele que é caracterizado pelo nascimento entre a 22ª semana e antes de completar as 37 semanas de gestação (Santos et al., 2020). A classificação se dá através da duração da gestação: nascidos com idade gestacional < 28 semanas são considerados prematuros extremos, entre 28 e 31 semanas muito prematuros, de 32 a 33 semanas prematuros moderados e prematuridade tardia entre 34 e 36 semanas e 6 dias (OMS, 2023). Dentre os fatores mais relevantes para o nascimento prematuro estão a pré-eclâmpsia, eclâmpsia, restrição do crescimento intrauterino, gestações múltiplas e doenças vasculares (Paraú; Todoran; Balasa, 2024).
Em 2019, aproximadamente 900 mil crianças morreram em decorrência de complicações relacionadas ao parto prematuro. Estima-se que em 2020, 13,4 milhões de crianças nasceram muito antes do tempo, isto equivale a mais de 1 em cada 10 nascimentos. (OMS, 2023). A prematuridade é um problema de saúde pública grave e crescente no mundo. A prevalência de partos prematuros varia de 5% a 18% e anualmente ocorrem cerca de 15 milhões de nascimentos prematuros. Esta incidência relata o porquê do Brasil se encontrar atualmente na 10º posição entre os países com maiores incidências de nascimentos prematuros no mundo (Alberton; Martins; Iser, 2023).
RNP < 32 semanas possuem vários órgãos ainda imaturos e por conta desta imaturidade, o pulmão passa por uma deficiência de surfactante, podendo levar a um colapso alveolar (Fiorenzano et al., 2019). Este fator tem como resultado a síndrome do desconforto respiratório (SDR) que é uma das principais causas de morbimortalidade desses pacientes (Tavares et al., 2019). O tratamento consiste no recrutamento pulmonar pela aplicação de pressão positiva nas vias aéreas por meio de ventilação invasiva associada ou não ao uso de surfactante exógeno (Fiorenzano et al., 2019). Durante estes tratamentos os indivíduos acabam necessitando de suportes pressóricos ou de oxigênio por períodos prolongados, em consequência podem desenvolver a displasia broncopulmonar (DBP) e/ou retinopatia da prematuridade (Dantas et al., 2023; Espíndola et al., 2022).
A DBP é uma doença crônica caracterizada por alveolarização pulmonar prejudicada e vascularização desregulada (Yu et al., 2024). Afeta aproximadamente 50% dos recém-nascidos antes de 28 semanas de gestação e 30% dos nascidos antes de 32 semanas (Sucasas et al., 2021). Os RNP que sobrevivem à DBP apresentam maior risco de doenças pulmonares e cardiovasculares e, acima de tudo, sequelas do neurodesenvolvimento, todas associadas a uma pior qualidade de vida e a um maior uso de recursos de saúde (Sucasas et al., 2021).
Já a retinopatia da prematuridade (ROP) é uma doença vasoproliferativa da retina (Cagliari et al., 2019; Mayer et al., 2022; Ribeiro et al., 2020). Entre seus fatores de risco estão o baixo peso ao nascer, a idade gestacional, e o baixo ganho de peso ao nascer, transfusão sanguínea, oxigenoterapia controlada, hemorragia intracraniana, permanência prolongada na unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN) e presença de infecções (Cagliari et al., 2019; Mayer et al., 2022).
Além dos RNP enfrentarem a imaturidade dos vários órgãos presentes, também podem passar por alterações no desenvolvimento motor, neurológico e sensorial (Kara et al., 2021; Øberg et al., 2022). A UTIN é crucial para apoiar as funções vitais e reduzir as taxas de morbimortalidade neonatal, mas podem haver efeitos adversos de curto a longo prazo, como as dificuldades de aprendizagem, disfunções sensoriais e disfunções motoras, pelo ambiente ser composto por fatores estressantes ao RNP como sons altos, luzes fortes e procedimentos médicos dolorosos (Kara et al., 2021; Almeida et al., 2021). A avaliação mais utilizada do desenvolvimento neuropsicomotor é baseada em “marcos”, onde é estipulado o tempo em que a criança é capaz de realizar certas habilidades (Taczala et al., 2021).
Os fatores de risco mais cruciais que influenciam o desenvolvimento neuropsicomotor considerado adequado incluem: o tipo de parto, baixos índices de Apgar no 5º minuto, a síndrome do desconforto respiratório (SDR), hipotrofia intrauterina, hiperbilirrubinemia e hemorragia intraventricular (HIV), (Gajewska, Ewa, et al., 2023). Sendo as complicações do parto prematuro a causa principal da mortalidade neonatal (Øberg et al., 2022). Devido à grande plasticidade cerebral dos RNs, é recomendado que ferramentas terapêuticas sejam utilizadas o mais precocemente possível (Taczala et al., 2021).
Tendo em vista as alterações respiratórias e motoras que ocorrem nos RNs, o fisioterapeuta é o profissional que detém habilidades e competências que são capazes de influenciar o desenvolvimento do RNP, para que este alcance os marcos ideais para cada etapa do seu crescimento (Paraú; Todoran; Balasa, 2024). Sendo assim, programas de intervenção precoce e sua implementação na UTIN são necessários para otimizar os resultados do desenvolvimento do RNP (Øberg et al., 2022). Diante do exposto, o presente estudo tem como objetivo descrever a assistência fisioterapêutica em recém nascidos prematuros, sobretudo no desenvolvimento neuropsicomotor no seu âmbito de atuação.
MATERIAL E MÉTODOS
Essa revisão de literatura seguiu o modelo narrativo. O primeiro passo foi a formulação da questão condutora e a seleção dos descritores. Na segunda etapa, foram utilizadas bases eletrônicas de dados como PubMed, LILACS/MEDLINE e SciELO, foram consultadas, determinando como abrangência temporal os últimos cinco anos, empregando os descritores Fisioterapia, Desenvolvimento Motor e Prematuridade, nos idiomas inglês e português, conforme apresentação do vocabulário contido nos Descritores em Ciências da Saúde da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Como estratégia de busca definiu-se que os descritores deveriam constar no título e/ou resumo dos artigos. Para combinação dos descritores empregou-se os operadores booleanos “AND” e “OR”.
Em seguida, os artigos potencialmente elegíveis para inclusão nesta revisão foram submetidos aos critérios de elegibilidade. Foram incluídos estudos observacionais, estudos prospectivos de caso controle, ensaios clínicos randomizados. Foram excluídos os estudos que avaliaram relatos de casos, artigos de revisão, artigos pagos, estudos que não avaliavam a assistência fisioterapêutica nos recém nascidos prematuros (RNP), estudos que não separavam os grupos de RNP dos recém nascidos a termo, e experimentos em animais. Após a avaliação dos títulos, os resumos foram lidos e os artigos analisados, independentemente, por três avaliadores; em caso de dúvida ou discordância, o estudo foi incluído.
RESULTADOS
No total foram encontrados 326 artigos, sendo 225 do banco de dados SciELO, 79 da PubMed e 22 da base de dados LILACS/MEDLINE, que passaram pelos critérios de elegibilidade, totalizando 90 artigos para leitura de resumo. Dos 90 artigos previamente selecionados, 83 foram excluídos. Totalizando 7 artigos a serem utilizados para a elaboração do trabalho (Figura 1).

Para a análise comparativa, os artigos selecionados foram dispostos em tabela apresentando os itens: autor e ano de publicação, design do estudo, objetivos, participantes, métodos e resultados (Tabela 1)
Tabela 1 – Artigos selecionados
| Autor, ano | Design de estudo | Objetivos | Participantes | Métodos | Resultados |
| Almeida et al., 2021 | Estudo de caráter observacional e longitudinal | Observar, através do olhar fisioterapêutico, o desenvolvimento neuropsicomotor de crianças prematuras que foram submetidas a exercícios feitos em casa com a orientação de fisioterapeutas, no decorrer dos seus 12 primeiros meses de idade corrigida. | 19 crianças prematuras com idade corrigida entre 0 a 12 meses | Dentre os testes realizados estavam: Teste de Triagem de Desenvolvimento Denver II que envolve, entre outros fatores, a motricidade fina. A cada 3 meses as famílias voltavam ao ambulatório para que a equipe multidisciplinar reavaliasse seus filhos e recebiam novas orientações sobre quais exercícios realizar (como exercícios para controle de cervical, de rolar e ficar em pé, através de panfletos explicativos. | Foi possível observar um avanço no desenvolvimento neuropsicomotor de todos os bebês que participaram deste estudo, bem como a superação dos atrasos que foram constatados na primeira avaliação. Acredita-se que o perfil familiar somado às abordagens, possam ter favorecido o desenvolvimento neuropsicomotor. |
| Oberg et al., 2022 | Ensaio clínico multicêntrico randomizado, cego, simples. | Investigar se a intervenção precoce realizada na UTIN, influenciaria no desenvolvimento do RNP ao longo dos seus 24 meses de idade corrigida. | 127 RNP <32 semanas / Grupo de intervenção= 62 Grupo de controle= 65 | Inicialmente, no grupo de intervenção, os RNP foram submetidos a uma intervenção precoce ainda na UTIN, através de um protocolo de intervenção Noppi, realizado pelo fisioterapeuta, que incluía exercícios em prono, deitado, sentado e supino, sendo utilizada a escala PMDS-2 para avaliação. Posteriormente, o protocolo sofreu uma mudança e os exercícios passaram a ser realizados pelos pais, que receberam um treinamento dos fisioterapeutas pediátricos. Este novo protocolo foi impresso e entregue às famílias em forma de Pay-Book. | Foi possível observar que pela escala PMDS-2 não houve diferença entre os dois grupos, porém os RNP que passaram por números maiores de intervenções tiveram mais resultados benéficos a longo prazo. |
| Alberg et al., 2023 | Ensaio clínico randomizado controlado. | Avaliar os efeitos da fisioterapia psicomotora precoce em RNP aos 9 e 24 meses, após alta hospitalar. | 161 RNP alternando de 25 a 29 semanas de IG. Grupo de intervenção= 77 Grupo controle= 84. | Realizou-se, no grupo de intervenção, 20 sessões de fisioterapia com o total de 1 hora cada sessão, pelo período de 2 a 9 meses após a alta da UTIN. Durante 4 meses era realizada uma sessão por semana e posteriormente de 15 em 15 dias nos 4 meses seguintes. O grupo de controle passou por uma intervenção padrão aprovada pelo Comitê de Ética. | No decorrer do tratamento houve uma melhora significativa no desenvolvimento neuropsicomotor a curto prazo. Porém, ao final do estudo os benefícios não prevaleceram, pois o tratamento deveria ser continuado. |
| Oliveira et al., 2019 | Caso controle, retrospectivo | Apresentar os os benefícios da presença do fisioterapeuta na UTIN, com os RNP de baixo risco. | 154prontuários Período PREF : 61 Período POSF: 93 | Foram incluídos prontuários de dois tempos, antes da inserção da fisioterapia na UTIN correspondendo ao período de 2006/2007 e após a introdução da mesma, no período de 2009/2010. | De acordo com os prontuários de POSF, mostrou que este grupo apresentou mais complicações que os PREF. Apesar disto o tempo de permanência na UTIN continuou o mesmo, e não apresentou necessidade de mais dias no uso da oxigenoterapia, mostrando os efeitos benéficos da fisioterapia no tempo de internação, e no uso da oxigenoterapia |
| Paraú; Todoran; Balasa, (2024) | Estudo piloto prospectivo | Avaliar, durante dois anos, como a terapia Bobath pode influenciar no desenvolvimento neuropsicomotor de RNP, em comparação a crianças com a mesma condição, porém que não foram submetidas a terapia, tendo como referência os 3 estágios do desenvolvimento motor de 3, 6 e 9 meses | 78 RNP de 0 a 9 meses de idade nascidos entre 34 e 36 semanas de IG. Grupo de intervenção= 36 bebês de 0 a 3 meses. Grupo de controle=42 bebês de 9 meses. | Os bebês do grupo de intervenção foram submetidos à terapia Bobath três vezes por semana com duração de 30 minutos cada sessão. Nos dias em que não havia terapia, os pais previamente instruídos pelos fisioterapeutas, realizavam alguns procedimentos simples em casa. O grupo de controle foi avaliado e passou por intervenções padrão aprovadas pelo Comitê de Ética. | Foi possível observar que o grupo que passou pela terapia obteve maiores avanços no desenvolvimento motor, concluindo assim que a fisioterapia tem influência na diminuição das diferenças no desenvolvimento entre RNP e nascidos a termo. |
| Silveira et al., 2024 | Ensaio clínico randomizado | Avaliar se a intervenção precoce realizada pelos pais contribui para o neurodesenvolvimento de bebês prematuros em países de baixa e média renda. | Grupo de cuidados habituais: 50 bebês Grupo de intervenção: 50 bebês | Os bebês do grupo de intervenção também passaram pelo método canguru enquanto estavam na UTIN. Para além disto, seus pais receberam um treinamento através de 20 sessões, onde foram ensinados a realizarem estímulos tátil-cinestésicos associados ao método canguru com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento do bebê. | Em comparação ao grupo de cuidados habituais, o grupo de intervenção que recebeu tratamento na UTIN e continuou com o tratamento orientado pelo fisioterapeuta em casa, apresentou melhores resultados no neurodesenvolvimento e no vínculo entre mãe e filho. |
| Kara et al., 2019 | Ensaio clínico randomizado | Avaliar o efeito da participação da família na habilidade motora de bebês prematuros. | Grupo de intervenção familiar: 16 Grupo de intervenção precoce tradicional: 16 | O grupo de controle recebeu sessões de fisioterapia de rotina com o objetivo de desenvolver a funcionalidade e independência desses bebês, bem como o desenvolvimento da coordenação motora fina e grossa. O grupo de intervenção recebeu sessões de fisioterapia e as mães receberam informações sobre o desenvolvimento do bebê, como também foram encorajadas por um coach que as orientou como deveriam agir diante de cada situação | Ao final do estudo percebeu-se que não houveram diferenças significativas no desenvolvimento motor ou coordenação motora fina e grossa, de ambos os grupos. Porém, no grupo que obteve participação da família foi possível notar uma melhor interação entre a mãe e o bebê, uma vez que esse vínculo era bastante limitado na UTIN. |
DISCUSSÃO
Almeida et al. (2021) realizou um estudo observacional e longitudinal através da observação do profissional capacitado, um fisioterapeuta, para analisar o desenvolvimento neuropsicomotor de crianças prematuras submetidas a exercícios realizados em casa pelos pais ou responsáveis sob a orientação do fisioterapeuta, durante seus primeiros doze meses de idade corrigida, o estudo contou com 19 crianças prematuras. Como resultado averiguou-se o desenvolvimento dos bebês participantes do estudo ao final dos doze meses, sem exceção, todos obtiveram um bom desenvolvimento neuropsicomotor, bem como a superação dos marcos de desenvolvimento atrasados, que foram constatados na primeira avaliação do estudo. Acredita-se que o perfil familiar somado às abordagens, possam ter favorecido para este resultado.
Em conformidade aos seus resultados, Paraú; Todoran; Balasa (2024), realizou um estudo piloto prospectivo, com o objetivo de avaliar como a terapia Bobath pode influenciar no desenvolvimento neuropsicomotor dos RNP, comparando-os com crianças também RNP mas que não participavam da terapia Bobath, avaliando através dos marcos motores dos 3, 6 e 9 meses de idade. Após a aplicação desta terapia no grupo de intervenção composta por 36 bebês, observou-se que este grupo obteve maior desenvolvimento motor em relação ao grupo controle.
Apesar dos estudos de Paraú; Todoran; Balasa (2024) e o de Almeida et al. (2021) terem sido realizados de formas diversas, foi possível obter alguma resposta em relação a atuação dos fisioterapeutas no desenvolvimento destes bebês. Sendo eles um estudo apenas observacional, e outro com grupo controle e intervenção, foi possível chegar a uma mesma conclusão, de que o fisioterapeuta tem um papel crucial no desenvolvimento dos RNP, principalmente nos avanços de seus marcos motores.
Oberg et al. (2022), através do seu ensaio clínico multicêntrico randomizado, utilizou em seu estudo um grupo controle com 65 RNP e outro de intervenção com 62, utilizando a intervenção Noppi, realizado inicialmente pelo fisioterapeuta e finalizado pelos pais ou responsáveis através de um protocolo impresso e entregue a estes, sendo eles previamente treinados pelos fisioterapeutas para uma maior segurança. Ao final dos 24 meses os bebês que obtiveram um número maior de sessões se beneficiaram com resultados a longo prazo.
Corroborando com o estudo de Oberg et al. (2022), que mostrou que quanto mais sessões de tratamento, melhor o prognóstico do RNP, Alberg et al. (2023), associaram o pouco número de sessões realizadas com o não prevalecimento dos benefícios do tratamento a longo prazo, já que neste estudo, as sessões foram realizadas apenas no ambiente intra-hospitalar.
No estudo de Oliveira et al. (2019), foram analisados os prontuários dos recém nascidos que foram internados em dois períodos diferentes: antes da inserção da fisioterapia (PREF) e após inserção parcial da fisioterapia de 6 a 8 horas diárias em dias úteis (POSF). Apesar de haver aumento no tempo de suporte ventilatório no período POSF, a inserção da fisioterapia trouxe benefícios como a diminuição de complicações como displasia broncopulmonar, bem como houve uma diminuição na quantidade de dias em que os bebês foram submetidos à oxigenoterapia.
Pôde-se observar também que no período POSF com intervenção de 6 a 8 horas por dia, houve uma diminuição das frações inspiradas de oxigênio e das pressões inspiratórias. Sendo assim, a fisioterapia no ambiente de UTIN diminuiu o tempo de internação, o tempo de ventilação invasiva e não invasiva, bem como o risco de complicações respiratórias em RNP de baixo risco.
Silveira et al. (2024), através de seu ensaio clínico randomizado, trouxe uma avaliação da intervenção precoce realizada pelos pais, e se esta contribui para o neurodesenvolvimento de bebês prematuros em países de baixa e média renda. O grupo controle deste ensaio clínico passou por um tratamento padrão de método canguru, já antes existente dentro da UTIN, retornando após a alta para avaliações periódicas de desenvolvimento.
A diferença do grupo de controle para o grupo de intervenção no estudo de Silveira et al. (2024), está na inserção de seus pais nas intervenções onde estes receberam um treinamento através de 20 sessões, sendo ensinados a realizarem estímulos tátil-cinestésicos associados ao método canguru com o objetivo de auxiliar o desenvolvimento do bebê. Foi possível observar, através de escalas de desenvolvimento, que o grupo de intervenção obteve melhores resultados motores, cognitivos e de linguagem, como também uma melhor interação/vínculo entre o bebê e seus pais.
Assim como Silveira et al. (2024), o estudo de Kara et al. (2019) visou avaliar através de dois grupos de estudo os efeitos da fisioterapia associada à família, focando nos marcos de desenvolvimento motor fino e grosso. O grupo de controle foi beneficiado com o programa tradicional de intervenção precoce a fim de desenvolver a independência e a funcionalidade dos bebês com base em exercícios guiados e facilitados. O grupo de intervenção recebeu o tratamento através do método Coping with and Caring for Infants with Special Needs (COPCA), que visa incluir a família na reabilitação do bebê e possui dois componentes: o educacional que foca na família e o componente motor que que baseia na teoria de seleção de grupo neural.
Como resultado, não houve diferença no desenvolvimento motor grosso e fino em ambos os grupos. Porém, em conformidade com Almeida et al. (2021) e Silveira et al. (2024), o estudo de Kara et al. (2019) aponta a importância do envolvimento da família na intervenção precoce para melhorar o desenvolvimento do bebê principalmente no seu primeiro ano de vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A assistência fisioterapêutica a recém-nascidos prematuros é de suma importância tanto no ambiente hospitalar quanto após a alta, visto que proporcionará ao RNP um melhor desenvolvimento neuropsicomotor diminuindo as diferenças no desenvolvimento quando comparados a um recém-nascido a termo. Além disso, reduz o tempo de internação nas UTIN.
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