AS IMPLICAÇÕES DE IDENTIDADE DE MULHERES COM TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202503291509


Sthefany Rodrigues de Deus1
Greice da Silva Carvalho2


RESUMO

O presente artigo constitui-se de um relato de experiência de estágio específico em Psicologia clínica em local de internação psiquiátrica na cidade de Porto Alegre – RS. Para tanto, busca-se investigar as implicações de identidade de mulheres com Transtornos de Personalidade Borderline. Sendo assim, realizaram-se análises dos atendimentos individuais prestados pela estudante de psicologia e revisão bibliográfica. Compreendeu-se que experiências de violência em quaisquer níveis acabam por ser nocivas na elaboração de identidade incluindo a personalidade do sujeito, apresentando influências na autoimagem, valorização, relação com o corpo, evidenciando a simbiótica com suas relações afetivas e distorções cognitivas graves, assim como, os modos de enfrentamento desadaptativos adotados.

Palavras-Chaves: Transtorno de Personalidade Borderline, Identidade, terapia do esquema, abuso, Terapia cognitivo comportamental, distorções cognitivas.

ABSTRACT

This article is a report on the experience of a specific internship in Clinical Psychology at a psychiatric hospital in the city of Porto Alegre – RS. To this end, we seek to investigate the identity implications of women with Borderline Personality Disorders. Therefore, analyzes of the individual services provided by the psychology student and bibliographic review were carried out. It was understood that experiences of violence at any level end up being harmful in the elaboration of identity, including the subject’s personality, presenting influences on self-image, self appreciation, relationship with the own body, highlighting the symbiotic relationship with their affective relationships and serious cognitive distortions, as well as , the maladaptive coping methods adopted.

Keywords: Borderline Personality Disorder, Identity, schema therapy, abuse, Cognitive Behavioral Therapy, cognitive distortions

INTRODUÇÃO

O presente artigo foi construído através de revisões bibliográficas e por meio de experiência de Estágio Específico em Psicologia em uma Instituição Psiquiátrica na Cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O local de estágio localiza-se em uma área de fácil acesso na capital, possuindo atendimentos particulares, convênios ou via compulsória, sendo oferecido serviços ambulatoriais e internações sejam em casos de desorganizações por uso de substâncias ou derivados de outras circunstâncias de saúde mental. O artigo aborda quais as implicações de identidade de mulheres com Transtornos de Personalidade Borderline, possuindo fatores estimulantes, como: o desenvolvimento dos vínculos de apego na constituição da personalidade, situações traumáticas, esquemas desadaptativos iniciais, distorções cognitivas comuns e modos de enfrentamentos estabelecidos ao longo da vida.

O Transtorno de Personalidade Borderline ou Limítrofe (TPB), encontra-se elementos narcisistas, instabilidades e intensidade em vínculos, baixa tolerância à frustração, perturbações de identidade de autoimagem e perceção de si, impulsividade, sentimentos de vazio, recorrência a comportamentos suicida ou de autoagressão. Em seu primeiro critério diagnóstico de TPB, o manual diagnóstico estatístico de transtornos mentais em sua 5ª edição apresenta “Um padrão difuso de instabilidade das relações interpessoais, autoimagem e afetos e de impulsividade acentuada que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos”. (APA,2023,P754).

Se tratando de um transtorno de personalidade, os diagnósticos são realizados, em geral, na adultez. O transtorno tem como diagnóstico diferencial Transtorno de Humor bipolar e depressivos, outros de personalidade, por uso de substância etc. Contudo, estudos atuais de desenvolvimento e curso do TPB revelam que é possível a identificação de sintomas, no contexto de tratamento de adolescentes de 12 ou 13 anos de idade que atendem os critérios diagnósticos (APA, 2023). O Transtorno de Personalidade Borderline foi associado a altas taxas de varias formas de abuso infantil e negligencia emocional, sendo as taxas relatadas de abuso sexual mais altas em pacientes em internações em comparação a pacientes em atendimentos ambulatoriais, ainda assim, geneticamente familiares de primeiro grau possuem cinco vezes mais chances para o desenvolvimento do TPB em relação ao restante da população, assim como, o risco aumentado para os demais transtornos da lista de diagnóstico diferencial, sendo estes fatores de riscos ambientais e genéticos para o desenvolvimento e curso do Transtorno. Embora em questão de prevalência de gênero seja comum mulheres com o diagnóstico, pesquisas em ambientes clínicos e em comunidades desmistificam essa ideia, e nos revelam que não há tantas diferenças entre homens e mulheres, mas ocorre uma procura de ajuda maior de mulheres principalmente nos ambientes clínicos. (APA,2023).

Portanto, os atendimentos prestados por tratar-se de uma instituição psiquiátrica contam com um caráter mais breve, resumo do número de sessões, ambiente hospitalar, tempo de internação e processo de alta. Contudo para todas as sessões foram necessários alguns combinados, por exemplo, quais os dias de atendimento e horário, pois a própria rotina hospitalar contém suas demandas, neste caso os atendimentos realizados não podem ultrapassar o horário de medicação ou horário de refeições. Para isso, nossos atendimentos ocorriam no momento do pátio feminino, local que as pacientes femininas poderiam fazer outras atividades como: academia, ligações, compra de lanches e caminhadas. Cada atendimento ocorre de 30 a 45 minutos, mas evidentemente que poderão ser incluídos atendimentos de emergência, manejo de fissura, atendimentos em caso de maior confusão emocional, a abordagem de trabalho para os atendimentos é seguida pela Terapia Cognitivo Comportamental(TCC) a qual foi realizada uma discussão entre a revisão bibliográfica estudada, juntamente com os conteúdos teóricos de Terapia do esquema (TE) e a vivência prática de atendimentos com mulheres internadas em instituição psiquiátrica com o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline.

REFERENCIAL TEÓRICO

O núcleo familiar tende a ser o primeiro contato com a sociedade desde o nascer, quando mais nocivo e abusivo essas relações conceber-se mais ocorrerá insegurança entre a criança abusada e seus cuidadores, resultando em um apego inseguro.( Fonagy, 2000) O Psiquiatra e psicólogo John Bowlby (1907-1990) desenvolveu a Teoria do apego(1980) mediante a curiosidade de testagem das hipótese da época que a criança deveria ser cuidada pela figura materna, a mãe, a qual o bebê justamente desenvolve o afeto pela capacidade de receber o alimento associado a essa figura, chamado de impulso primário, logo os impulsos secundários, seriam a “dependência” e relação pessoal que a criança deveria experimentar, ou seja, uma relação de conexão íntima e calorosa com a mãe ou mãe substituta. (BOWLBY,1989,P36-37)

Bowlby com a ajuda de outros estudiosos conseguiu perceber que outras classes de animais poderiam desenvolver um forte laço emocional sem ajuda do alimento, sendo realizados futuramente experimentos com macacos que comprovaram tais observações. Nesse sentido, o comportamento de apego tem um objetivo de proximidade com algum outro indivíduo que foi identificado como mais apto a lidar com o mundo, carregando o aspecto de proteção como função daquele que se encontra como desamparado (Bowlby,1989,P 38-39). Assim como os animais, os humanos possuem respostas à ansiedade de separação desse alguém, essas ameaças de abandono ou perda despertam diversas emoções raiva, angústia, tristeza, a ansiedade por vezes exerce função de dissuadir a própria figura de apego(BOWLBY,1989,P 41-42).

A psicóloga M. Ainsworth (1978) desenvolveu o método experimental denominado Situação Estranha o qual focou-se nas reações e interações entre cuidadores e crianças surgindo quatro estilo de padrões de apego, sendo eles: o padrão seguro caracteriza o relacionamento cuidador-criança amparado de uma base segura, na qual a criança pode explorar seu ambiente de forma entusiasmada e motivada com ou sem a presença do cuidador, exercem a triangulação, quando estressadas, mostram disponibilidade e abertura em obter cuidado e proteção das figuras de apego, que agem com responsividade. O segundo padrão de apego evitativo é caracterizado pela indiferença, desconexão com ou sem cuidadores, tende a não se assustar na ausência dos cuidadores, não sentir a falta e/ou não distinguir os cuidadores de alguém estranho, o terceiro padrão ansioso apresenta pouco movimento de exploração e demonstra vínculo frágil com pouco suporte de afastamento. E Por fim o padrão desorganizado ou desorientado caracterizado pelo medo, inseguranças, incerteza,hipervigilância comum em ambientes de desenvolvimento infantil com algum tipo de violência, assim como, o self fragmentado posição de vítima ora de cuidador M. Main & E. Hesse (1986).

No descortinar do desenvolvimento alguns fatores podem prejudicar tanto a elaboração do padrão de apego seguro saudável de cada fase atravessada sejam crianças ou adolescentes, assim como, na descoberta natural da identidade, os quais incluem as situações de abuso em diferentes dimensões. O conceito de abuso é bastante amplo atualmente sendo dividido em diferentes categorias, abarcando desde os maus-tratos emocionais que incluem rejeição, exploração, degradação, perpassando pelo não atendimento das necessidades básicas das crianças ou adolescentes, evoluindo para abuso fisico com agressões fisicas e até mesmo abuso sexual, as atividadade de abuso não são excludentes, ou seja, as vezes uma criança ou adolescente pode perpassar todo o ciclo da violencia e maior ou menor grau, podendo até mesmo chegar em um escalonamento de violências (PAPALIA,MARTORELL,2022, P185).

Essas ações implicam no sujeito atingido uma série de consequências físicas, emocionais, cognitivas, sociais, de inibição emocional, baixa autoestima, déficits escolares ou abandono escolar, dificuldade de vinculação, gravidez precoce, uso de substâncias, desenvolvimento de doenças físicas ou transtornos mentais. A causa dessas formas de abusos são multifatoriais, não possuindo apenas o sujeito da ação como responsável, mas o ambiente também como interventor, pensamos na cultura, questões de gênero, formas de criação ou social. Sendo os abusadores em sua grande maioria parte da família ou pessoas próximas. Como exposto na pesquisa a seguir: PAPALIA,MARTORELL, 2022, P 186)

“Em 2017, cerca de 78% dos abusadores eram pais, e um pouco mais da metade deles (54,1%) mulheres. Cerca de 6,3% eram parentes que não o pai ou mãe, e outros 4% possuíam um relacionamento com a criança classificado como “outros”. A categoria “outros” inclui irmãos adotivos, babás, vizinhos, amigos da família e outros não parentes. A maioria dos abusadores (83,4%) tinha entre 18 e 44 anos e era principalmente branca (50,3%), afro-americana (20,7%) e hispânica (18,6%)”(USDHHS,2019)(PAPALIA,; MARTORELL,2022,P187)

Na composição de uma estruturação psíquica saudável quando ocorre uma situação de abuso de qualquer natureza desencadeia uma “quebra psíquica”, ou seja, ocorre perdas do desenvolvimento saudável e natural ao qual por algum motivo não foi proporcionado amparo ou cuidado para aquele individuo, e essa falta será suprida ou haverá tentativa de suprir de alguma maneira. Vinda de um histórico de Criança vítima de abuso que justamente passa por esses sentimentos de abandono, vulnerabilidade, medo, Young (1990,1991) apresenta os conceitos de esquemas mentais, que são resultados de nossas experiências de infância nocivas (YOUNG,2008) sendo Criança abandonada/vulnerável colocada em grande destaque para aqueles com TPB. Geralmente o paciente se parece com crianças pequenas, inocentes e dependentes, assim como, a idealização dos cuidadores como o desejo de serem resgatados por eles. (YOUNG, KLOSKO & WEISHAAR, P266), ainda é possível encontrar outros modos de esquemas no TPB, exemplos: Criança Zangada e impulsiva pai/mãe punitivo, protetor desligado e adulto saudável.

Um aspecto bastante importante é a ativação do modo protetor desligado o qual pode passar-se despercebido justamente por desligar-se das necessidades emocionais, desconectar-se de outros, agir de maneira submissa para evitar punição, geralmente fundamentam sua identidade na aprovação de alguém e isso pode estender-se para o próprio psicólogo ou médico, esses modos podem aparecer como uma oscilação de ciclos exemplo: paciente inicia em modo criança abandonada, muda-se para pai/mãe punitivos através da punição por expressar o que sentiu e qual seria sua necessidade e entrar no modo protetor desligado e escapar dessa punição por si aplicada. (YOUNG, KLOSKO & WEISHAAR, P 268-269 )Os quais corroboram com os aspectos de distúrbios de identidade, impulsividade (criança zangada ou protetor desligado) e sentimentos crônicos de vazio descritos em critérios diagnósticos pelo DSM V TR.

O TRABALHO DA TERAPIA DO ESQUEMA COM TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE

A visão adotada pelos terapeutas do esquema constroem o olhar para o paciente como criança vulnerável, justamente por entender que apesar de adultos mentalmente são crianças abandonadas em busca dos pais, seus comportamentos desesperados são devido ao desespero e não pelo egoísmo, assim como são carentes(Young, Klosko & Weishaar, P 277-278) Um papel bastante importante dentro da terapia está no equilíbrio de direitos entre terapeuta e pacientes, pois como o funcionamento infantil está ativo o paciente cresce em terapia levada a cabo pelo terapeuta, amadurecendo aos poucos na direção do adulto saudável. Os objetivos gerais no tratamento está na identificação dos modos esquemáticos de cada paciente, a elaboração de empatia pela criança abandonada e proteção, ajudá-la a dar e receber amor, combater o pai/mãe punitivos, estabelecimento de limites da criança zangada e impulsiva e ajudar a expressar emoções, dar segurança e substituir o protetor desligado pelo adulto saudável, o trabalho gira em torno da busca por autonomia do paciente com TPB o ajudando a descobrir suas inclinações naturais e em decisões importantes, identificação de objetivos, assim como, o fortalecimento de vínculo reparental de outras formas, uma maneira de trabalho é por meio do próprio terapeuta não exercendo o papel de profissional desligado (YOUNG, KLOSKO & WEISHAAR, P 279-285)

RESULTADOS E DISCUSSÕES

O presente artigo trata-se de um relato de experiência pela perspectiva dos autores pautado na resolução 510/2016 do CNS. Os atendimentos prestados ocorreram por meio de práticas de estágio clínico em psicologia do 8º semestre de graduação pela faculdade Estácio do Rio Grande do Sul, o artigo foi construído em atendimentos de internas de um hospital psiquiátrico, localizado na cidade de Porto Alegre. As pacientes citadas representadas como Ana e Beatriz, nomes fictícios, procuraram atendimento com seus familiares para consulta com médico de plantão e mediante avaliação foram recomendadas internação, ambas no regime voluntário. Para contextualização e entendimentos dos casos;

Ana é mãe de um menino de 6 anos, separada, atualmente estagiária, motivo da internação abuso de maconha e álcool que estava escalonando Segundo informação coletada: ”no final de semana estava depressiva”, paciente instável em histórico de adesão ao tratamento, histórico de Tentativas de suícidio prévias, essa é sua primeira internação, a segunda atendida é Beatriz mãe de uma menina de 15 anos e outra de 12 anos, secretária, casada, múltiplas internações, motivo de internação atual recaída de cocaína, álcool e tentativa de suícidio. Os atendimentos realizados com ambas pacientes ocorreu de maneira voluntária, ambas procuraram a estagiária de psicologia para início dos atendimentos, foi explicado abordagem trabalhada e combinado os dias para posterior seguimento. No entanto em investigação inicial de demanda e história pregressa as pacientes demonstraram afirmações de apego desorganizado :

A história de vida de Ana e Beatriz possuem muitos componentes de afastamento, não se conheceram e passaram por internações psiquiátricas em momentos distintos, vivem em cidades afastadas, Ana tem 23 anos e Beatriz 35 anos, mas em suas falas iniciais está vivida uma similaridade de desvalorização, já no histórico ambas passaram por situações de abuso sexual e negligencia, assim como uso de substâncias e diagnóstico de transtorno de personalidade borderline. Além disso no contato inicial ambas apresentaram-se mais vulnerável, incluindo esquemas de defectividade e vergonha com as características de autoimagem e autopercepção prejudicados quando ocorre uma ideia de “bom e mau” encontrados em ambas pacientes e uma supervalorização do outro com a ideia de sem a companhia daquele alguém não há a minha existência, aspecto frequente em emaranhamento do self que acabam sendo típicos de pessoas com TPB, pois, se tem uma relação simbiótica entre o portador do TPB e suas relações conjugais, parentais, interpessoais. Ambas apresentaram humor Hipotímico nas primeiras sessões, com uma grande pressão na fala, visto que as situações traumáticas de violências foram trazidas por ambas de maneira espontânea, exemplo:

Tanto Beatriz como Ana passaram por processos de abusos, assim como de negligências em fases importantes de desenvolvimento, essas relações de abuso trazem não só a vulnerabilidade individual, mas também a vulnerabilidade ambiental que as pacientes estavam, bem como, as necessidades de cuidado, afeto, amparo, proteção, desenvolvimento saudável foram negadas levando aos sentimentos descritos de culpa e afastamento das emoções.

As interações iniciais dessas pacientes ocorreram através do uso de si para gratificação de outro alguém em posição de submissão, a rachadura psíquica instaurada de mulheres que descrevem-se serem parcialmente por completo, pois, sua completude está associada às relações, sejam elas relações sexuais ou de exposição, visto que a percepção da realidade pode ocorrer, mas ocorre de maneira parcial, é sabido sobre os riscos maléficos para si, exemplo, a fala de Beatriz quando menciona: “ Se eu fosse ele, eu não aceitaria tudo isso, a mulher dele se envolver com outros, voltar drogada, já teria me largado” mas ainda assim é uma percepção parcial da realidade, pois, o sentimento de vazio ainda está latente, e a reprodução das relações iniciais aprendidas em maior escala, pela busca da gratificação do olhar de amparo suprimido. Observa-se que em outras sessões pacientes trouxeram aspectos de projeções de vida e carreiras, ainda em estado de humor Hipotímico:

Anteriormente, Ana e Beatriz expuseram momentos de criticidade com suas trajetórias, ou seja, ambas não estão satisfeitas pelas suas ações e gostariam de estar em outro momento da vida ou realizar atividades contínuas, mas não conseguem realizá-las de maneira qualitativa. Visto que, os comportamentos de abandono ou instabilidades as acompanham por anos os quais fazem parte do transtorno de personalidade, geralmente

observa-se um padrão difuso ainda que sejam de comportamentos desadaptativos. A criticidade é apresentada de maneira superficial, a queixa pela queixa, sendo preenchida por distorções cognitivas de rotulações e crenças centrais bastantes arraigadas de desvalor e desamparo, a dificuldade de solidificação de planos a serem trabalhados acabam por retroalimentar esse comportamento de instabilidades em atividades, ainda que estejam ligados com aspectos de impulsividade e oscilações de humor.

Por se tratar de indivíduos que possuem uma estrutura cognitiva rígida, ocorre uma limitação ainda maior sobre a visualização dos processos de mudanças, o que resulta em uma situação dolorosa e interminável, depois do fracasso não a mais nada, ou seja pensamento dicotômico/ tudo ou nada. (LINEHAN 2010, P 45). A despersonalização encontrada nesses indivíduos proporciona a elevação do nível de vazio, assim como a autoimagem instável proporciona uma montanha russa de característica autoatribuíveis, o que corrobora para o ambiente invalidante adotado, então visualiza-se uma pessoa vítima de abuso, o qual possui o diagnóstico de TPB não perceber a gravidade do abuso ou quais as outras formas de abuso exposta. Quando questionado a atuação da dinâmica de cada paciente dentro de suas relações amorosas visto que trouxeram esquemas como Subjugação e busca de aprovação /reconhecimento foram apontados na fala de Ana, assim como, emaranhamento de self na fala de Beatriz, tais esquemas evidenciam um expectativas sobre si e o ambiente e na própria percepção de separação, sobrevivência, assim como foco no desejo e sentimentos dos outros (YOUNG.Jeffrey, E. et al, 2008, p 28-30)

A relação com o corpo e a sexualidade de Ana e Beatriz se deu a partir de contatos iniciais de experiências abusadoras, as quais moldaram a construção do self e do entendimento de prazer, autoimagem, valorização e reforços. Para essas mulheres ainda ocorre uma revitimização, pois, enquanto adulta evidenciam a utilização de seus corpos como moedas de trocas sejam por dinheiro, afeto, amparo e valorização. A tentativa de supressão mesmo que falha ocorre por meio de caminhos os quais aprenderam desde cedo que seriam uma porta de entrada para conseguir tais aspectos através de uma hipercompensação do vazio.

Para tanto, o trabalho também precisa ser feito ao reconhecer quais são os ambiente que supostamente ocorre os acolhimentos, o entendimento da simbologia do corpo, a visualização do por que faz e como faz tais comportamentos. O esforço de valorização do eu, das emoções ocorre desde cedo na infância, quando dá-se o acolhimento nos momentos de crises, ensinamentos das emoções e fornecimento de aspectos básicos de amparo e cuidado. Essa invalidação trazida por Ana e Beatriz reforça o quão nocivo pode ser um ambiente sem esses aspectos, pois não há um ensinamento de regulação de emoções ou de quais esforços tais pacientes realizam na busca da gratificação momentânea. Quando Beatriz relata a existência de duas de si, ou seja, o aspecto difuso de identidade fica marcado, a falta de integração do self ora bom e ora mal podem exacerbar o sentimento crônico de vazio apontados como característico do Transtorno de personalidade Borderline (JORDÃO, RAMIRES,2010, P. 421–430).O conflito se tem entre a percepção gerada e a realidade apresentada, visto que a busca será incessante e nunca atingível para supressão do vazio, a sensação de abandono estará permeando as relações dessas mulheres, sendo ele imaginário ou real e os esforços independente de quais forem serão feitos pela tentativa de não se fragmentar, sendo esforços de autoextermínio ou submissão.

O tempo de internação é limitado, o trabalho realizado focou-se em analisar os pensamentos e comportamentos de urgência através da formação de vínculo fortalecido e acolhimento, a identificação dos modos observados, a psicoeducação sobre a TPB, a estimulação de insight por meio de ferramentas como questionamento socrático muito utilizada na Terapia cognitivo comportamental, estimulando a expressão de suas necessidades emocionais, assim como registro de pensamentos disfuncionais, treinamento de habilidades para treinarmos o desconforto e rotina de cada paciente, assim como, a dependência química em seus tratamentos. (Beck, 2022)

CONCLUSÃO

Na maioria dos casos as pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline são preenchidas com um arsenal de distorções cognitivas, crenças bastantes arraigadas, assim como em terapia do esquema foi possível identificar esquemas iniciais de abandono, instabilidade emocional, emaranhamento do self e modos de criança abandonada/ vulnerável, pai/mãe punitivos, criança zangada e protetor desligado (Young, Jeffrey, E. et al, 2008, p 263-264)

O que caracteriza, de fato, o transtorno de personalidade borderline é a presença de um conjunto bem delineado de sintomas e o padrão de frequência, intensidade e temporalidade com que eles estão presentes no cotidiano desses indivíduos (SILVA, 2012, p.52). Para tanto essas mulheres evidenciam além do diagnóstico em comum, o histórico de abuso enquanto criança associado a negligência, certo grau de passividade, baixa autoestima e visão do outro distorcida. A dualidade de instabilidade entre as relações amorosas com os seus parceiros e as relações extraconjugais mostra-se como um ato impulsivo para a busca de sua autovalorização, o papel do outro acaba por servir o seu eu, com a finalidade de buscar o amparo e cuidado que foi negado em suas experiências inicias e o meio para conseguir tal recompensa se dá através da interação aprendida, o sexo, e o próprio corpo como passes para o mundo onde elas finalmente são valorizadas, cuidadas, amparadas e amadas.

Entende-se que o abuso, em quaisquer níveis pode ser um fator ainda mais agravante para mulheres com transtorno de personalidade borderline, visto que a relação de autoimagem e atos impulsivos podem estar relacionadas com a situação traumática mesmo enquanto adulto, supressão das necessidades básicas acaba por influenciar, assim como, os estados de humor do sujeito.

A imagem construída de si, de seu valor, de seu corpo e das suas relações acabam por ser instáveis e desgastante, proporcionando novas experiências nocivas e de risco para a vida do sujeito, assim como, as crises de identidade expostas são bastantes frequentes entre pessoas com o diagnóstico de transtorno de personalidade borderline, não é incomum descreverem como o “estranho no ninho” ou como vimos “ a existência de duas” Portanto entende-se a necessidade de um trabalho contínuo e estruturado com a ajuda da psicologia com a psiquiatria para essas mulheres,pois, a autodestruição, dependência, e situações de risco acabam por serem fatores altamente alarmantes em pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline.

A hiperatividade do sistema límbico de pessoas com TPB, proporcionam a exacerbação de comportamentos e reações emocionais desproporcionais, dessa forma, é imprescindível que seja realizado o acompanhamento médico psiquiátrico o que proporciona a diminuição das crises de raiva, por exemplo, ainda assim é necessária a individualidade do tratamento porque nenhum caso é igual ao outro sendo possível a apresentação de comorbidades e entende-se que ocorre uma baixa adesão ao tratamentos de pessoas com TPB, contudo, para além do apoio farmacológico e com outros especialistas, é necessário o acompanhamento psicológico para psicoterapia que incluem diversas técnicas para esses casos como padrão ouro em psicoterapia encontra-se terapias cognitivos comportamentais e derivadas. Cabe ressaltar que esse tratamento inclui treino de habilidades e funcionalidades, pois todo esse processo de adesão ao tratamento é necessário o apoio familiar ou de rede de apoio existente.

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1Acadêmica do 10º semestre de psicologia da Faculdade Estácio do Rio Grande do Sul – E-mail: sthefanyrodriguesdedeus02@gmail.com
2Supervisora e Coordenadora Acadêmica em psicologia da Faculdade Estácio do Rio Grande do Sul: Me.Greice da Silva Carvalho