REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601301628
Lucas Lourenço Almeida1, Natália Souza Gomes1, Julia Maria Moreira Silva1, Leandro Guedes Santos1, David Hellson Souza Rodrigues1, Glenda da Silva Cunha1, Maria Luizza Lopes Menezes1, Paula Toledo Tartuci1, Mateus Ricardo Cardoso2, Pedro Augusto Silva Ruas3.
RESUMO
A Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade (MFC) tem assumido papel estratégico no fortalecimento da Atenção Primária à Saúde no Brasil. Entretanto, fragilidades estruturais persistentes nos Programas de Residência em MFC (PRMFC) têm impactado de forma significativa a formação profissional e a saúde mental dos médicos residentes. Este estudo tem como objetivo analisar como as principais falhas da preceptoria influenciam o sofrimento psíquico dos residentes de MFC no contexto brasileiro. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, realizada a partir de buscas nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Google Scholar, contemplando publicações entre 2015 e 2025. Foram selecionados 20 estudos que abordam a organização dos programas de residência, o papel da preceptoria e os determinantes institucionais do adoecimento mental dos residentes. Os resultados evidenciam falhas distribuídas nos níveis macro, meso e microssistêmico, incluindo desvalorização profissional, ausência de padronização pedagógica, sobrecarga assistencial, deficiência na formação pedagógica dos preceptores, avaliações pouco estruturadas, hierarquização excessiva e práticas de assédio moral. Tais fatores contribuem para o desenvolvimento de transtornos ansiosos e depressivos, síndrome de Burnout, insegurança formativa e abandono da especialidade. Conclui-se que o adoecimento mental dos residentes não deve ser compreendido como fenômeno individual, mas como resultado de um modelo formativo institucional fragilizado. Torna-se imprescindível o fortalecimento de políticas públicas, a qualificação da preceptoria, a garantia de tempo protegido para o ensino e a criação de espaços institucionais de escuta e acolhimento, visando à promoção da saúde mental dos residentes e à qualificação da formação em MFC.
Palavras-chave: Medicina de Família e comunidade, Residência Médica, Preceptoria, Saúde Mental, Atenção Primária à Saúde.
INTRODUÇÃO
O programa de residência em Medicina da Família e Comunidade (MFC) tomou um lugar de notoriedade no Brasil nos últimos anos devido ao processo de valorização e ampliação da Atenção Primária à Saúde (APS) e seu papel ímpar no cuidado territorial, prevenção de doenças e agravos e promoção de saúde (BRASIL, 2021). Dentre as funcionalidades e objetivos desse programa percebe-se que o preceptor atua como uma das figuras centrais para a formação dos residentes, haja vista que a sua supervisão direta perpassa mais que 80% dos estágios dos mesmos. Segundo a Resolução publicada no Diário Oficial do Ministério da Saúde (BRASIL, 2015), esses períodos de estágios são contemplados por meio de discussão de atendimentos e casos, seminários, aulas expositivas, oficinas em grupos, sessões clínicas e simulação de consultas.
Dito isso, torna-se claro que tanto o preceptor de residência de MFC, como o residente tem multifunções e constantemente ficam sobrecarregados por um rol extenso de atividades dentro das 60 horas semanais a serem cumpridas, como proposto pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). Isso é demonstrado por um embate em que de um lado está o preceptor, que, mesmo sem preparação satisfatória, tempo necessário ou instrução formal para tais funcionalidades, precisa estar a par de toda a estrutura técnica, administrativa, clínica, e, sobretudo, psicopedagógica (BOTTI; REGO, 2011; CASTELLS; CAMPOS; ROMANO, 2016). E do outro, o residente que, já apresenta desde o início da especialização um estado de “cansaço crônico” devido a intensa carga horária que cumpriu durante faculdade. Ainda assim, ambos precisam enfrentar com maestria no local de aprendizado-trabalho uma escassez no suporte e ferramentas adequadas, além da ausência de um espaço institucional para o diálogo e acolhimento de suas fragilidades (GRUNEWALD et al., 2024; MORCERF, MARQUES, 2024).
Nesse sentido, é visto que a qualidade da preceptoria impacta diretamente na saúde psicossocial e mental dos residentes, e conforme os relatos de Izecksohn et al. (2017), tem sido uma preocupação importante e material crescente de estudos acerca das consequências individuais e coletivas desse significativo déficit na lacuna de formação. Dentre as repercussões individuais, observa-se o sofrimento psíquico decorrente das dificuldades estruturais e do contexto formativo vivenciado pelos residentes, o qual se expressa por meio de transtornos ansiosos e depressivos, bem como pela Síndrome de Burnout, podendo, em casos extremos, evoluir para o uso abusivo de psicofármacos, ideação suicida e suicídio (CASTRO; WENCESLAU; FERREIRA, 2024; PEIXOTO et al., 2025).
Quanto ao impacto coletivo, pode-se dividir em duas categorias:
- Dentro da própria unidade: ineficiência dos serviços de saúde; sobrecarga dos demais colegas da equipe; aumento do tempo de espera e pouca resolutividade dos casos;
- Para a sociedade: aumento de erros médicos e iatrogenias em geral; diminuição da atenção e cuidado com o paciente; má conduta e falta de empatia; déficit de médicos qualificados à disposição pela desistência ou afastamento; perda de confiança e descredibilização da população com o corpo profissional da saúde (SANTOS; NETTO, 2023; IZECKSOHN et al., 2024).
Este cenário marcado por fragilidades estruturais significativas remonta principalmente o quão precário alguns programas de residência da Medicina da Família e Comunidade (PRMFC) estão diante da pouca valorização do profissional, ausência de assistência institucional, falta de recursos básicos e normalização de condutas e posicionamentos considerados tóxicos mas que não são confrontados e, tampouco, debatidos (LAWALL et al., 2023). Diante do exposto, torna-se essencial, como bem explorado por Sarti, Fontenelle, Gusso (2018), a discussão sobre o papel da preceptoria na formação do profissional residente e na promoção da saúde mental dos mesmos, com a criação de ambientes seguros e institucionais de escuta, acolhimento e cuidado com aquele que também tem o dever de cuidar.
O objetivo, então, é esclarecer diante não só do que é revisto na literatura atual, mas também dentro do cenário prático, o quão valoroso é o poder da preceptoria no cuidado da saúde mental dos residentes em MFC, observando tanto as falhas já existentes como as possibilidades de intervenções e melhorias.
METODOLOGIA
O presente artigo trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, baseado em uma revisão integrativa da literatura, relacionando os resultados dos estudos de pesquisas bibliográficas com os diferentes nuances no âmbito da saúde, no caso específico acerca da influência da preceptoria na condição da saúde mental dos residentes de MFC no contexto brasileiro, com a melhoria na assistência dessa mesma área.
Foi realizada revisão na literatura de artigos publicados entre os anos de 2015 e 2025, com os descritores : “Medicina da Família e Comunidade”, “Saúde Mental”, “Residência Médica” e “Atenção Primária à Saúde”, combinados pelos operadores booleanos “AND” e “OR” nas plataformas: PUBMED (National Library of Medicine and National Institutes of Health), SciELO (Scientific Eletronic Library Online), LILACs (via BVS) e Google Scholar, além de consultas a revistas e periódicos digitais de ciências e saúde, livros e sites de órgãos oficiais como Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde.
Foram identificados X artigos, selecionados inicialmente pelos títulos, resultando em 34 artigos, destes X foram excluídos por Y motivos, e o restante, 25 artigos, foram triados por meio da leitura de seus resumos com seleção final de 20 artigos.
Os critérios de inclusão foram: artigos com acesso disponível na íntegra , incluindo: relatos de caso e revisões de literatura, publicados nos últimos dez anos, em língua portuguesa, inglesa ou espanhola.
Os critérios de exclusão foram: artigos que não abordam a relação entre a preceptoria da residência e seu impacto na saúde mental dos residentes.
A análise dos dados foi categórica de forma a afunilar as temáticas envolvidas: a preceptoria médica no Brasil, as falhas institucionais da residência tanto para os preceptores quanto para os residentes; a vulnerabilidade emocional no âmbito do trabalho e a falta de assistência ou acolhimento; o impacto disso na saúde mental dos profissionais e para todo o corpo social no futuro. Tais dados foram analisados de forma qualitativa, descritiva e de maneira crítica.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
1. As preceptorias de residências médicas no Brasil:
1.1 Perspectiva macro sistêmica:
Dentro deste tópico, a maioria dos estudos vão ao encontro do exposto por Sarti, Fontenelle, Gusso (2018), Garcia et al. (2018) e Anderson, Savassi, (2021) que destacam que a ausência de determinadas políticas públicas, a desvalorização dos profissionais e a falta de fiscalização e critério de padronização dos programas são os principais problemas listados. Isso acontece, principalmente, porque há um certo desalinhamento entre o Ministério da Saúde (MS) e o Ministério da Educação (MEC) quanto à parte assistencial e de formação.
No estudo de Costa et al. (2018) mostra que, desde 2014, eles trazem que o Currículo Baseado em Competências (CBC), feito pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) para o planejamento curricular dos programas, é falho pois não demonstra o processo de ensino que deve ser feito para alcançar tais competências tampouco os separa em núcleos de conhecimentos práticos mais executáveis, sobretudo dentro de sua categoria “avançada”, que requer um nível acima do proposto em diversos PRMFC espalhados pelo Brasil.
Toda essa problemática também foi vista sob a ótica dos residentes no artigo de Guimarães et al. (2024), que relatam em sua maioria sobre a dificuldade de metodologias de ensino conectadas com a realidade do seu território populacional, justamente por terem como base competências amplas, extensas e muito complicadas na prática. Logo, nota-se que esses problemas relacionados aos programas de preceptoria e suas diretrizes curriculares prejudicam muito a formação dos residentes, sobretudo os que não estão inseridos nos grandes centros metropolitanos, causando um sentimento de angústia e estresse crônico.
Isso também condiz com a realidade trazida pelos profissionais da MFC e integrantes da SBMFC entrevistados no estudo de Anderson e Savassi (2021), pois cerca de 83% deles quando perguntados sobre a situação atual dos PRMFC indicam que há uma heterogeneidade dos programas devido a falta de fiscalização contínua e padronização dos métodos de ensino e práticas. Todos eles relatam positivamente o aumento do número de vagas e a expansão da especialidade, porém novos estudos levantam os contratempos acerca da extensa diversidade e a falta de profissionais focais na supervisão (LAWALL et al., 2023).
Cerca de 67% dos entrevistados no estudo de Lawall et al. (2023) relataram também sobre a dificuldade de fixação dos profissionais em áreas vulneráveis e a ociosidade de ocupação de vagas em alguns locais. O mesmo apontamento foi visto no trabalho de Fontenele et al. (2023), que revela um índice de 31% de vagas remanescentes não ocupadas no ano de 2020. Para explicar isso, Izecksohn (2017) expõe que, embora o governo alarme para o aumento da especialização e a mesma ocupe o segundo lugar no ranking quanto a disposição de vagas, ainda há uma falta importante de incentivo público, refletida na má remuneração e na desvalorização do preceptor.
Esse desafio é retratado em diversos trabalhos ao longo dos anos e é de conhecimento institucional, haja vista que foi um dos assuntos destaques para o secretário de Comunicação da Federação Médica Brasileira (FMB) durante a sétima plenária da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), onde ele reforça que há urgência na “regulamentação do trabalho dos preceptores e criação de bolsas e/ou gratificações para a categoria”.
2. Panorama meso estrutural:
Quanto a este ponto, pode-se citar, primeiramente, que esses problemas estão diretamente interligados, e a solução das adversidades enfrentadas no macrossistema refletem na melhor desenvoltura da mesoestrutura, do microssistema e de todo o processo até enfim chegar aos residentes que estão adentrando os PRMFC (SARTI; FONTENELLE; GUSSO, 2018). Dito isso, na publicação feita por Wander et al. (2024) é visto, por exemplo, o quanto a recepção de bolsas complementares para a preceptoria foi positiva para implementação de novas metodologias ativas de aprendizagem (MAA), como Problem-Based Learning (PBL) com as tutorias e o modelo sala invertida, e melhores taxas de inserção de métodos avaliativos de qualidade, a exemplo do Mini-CEX e portfólio.
Mas o contrário, ou seja, a falta de intervenção na organização da macroestrutura também reflete na perpetuação dos principais problemas que perpassam este nível estrutural, a exemplo da ausência tanto de projetos pedagógicos consistentes, como também de feedbacks regulares e de avaliação longitudinal eficaz dos residentes (BARREIROS et al., 2020). Nesse sentido, no trabalho de Guimarães et al. (2024) é apontado que mais de 73% dos médicos residentes entrevistados apresentam uma postura “passiva e solitária”, somado ao sentimento de “insegurança, desinteresse e inutilidade” e um olhar negativo acerca dos temas propostos pelo projeto político-pedagógico e cobrados durante suas avaliações, essencialmente porque não fazem parte do rol de vivências que eles têm com a população local.
Para Barreiros et al. (2020), é observado que as avaliações teóricas e práticas não seguem uma padronização tampouco existem momentos para devolutivas individuais e seriadas dos alunos, o que ratifica ainda mais o que foi relatado pelos residentes. No estudo de Wander et al. (2024) percebe-se que apenas 53,15% dos preceptores oferecem feedbacks formais e menos de 10% utilizam-se de métodos avaliativos eficientes. Esses dados coincidem com os validados no estudo de Borges et al. (2014), que debate sobre a importância de ofertar aos alunos residentes uma melhor qualidade na sua avaliação e desenvolvimento, embora quase um terço dos preceptores ainda não tenham essa prática.
Nesse contexto, observa-se que a heterogeneidade na qualidade dos PRMFC não está somente na escassez de ferramentas utilizadas pelo corpo docente, mas até por ele próprio, haja vista que em muitos locais o preceptor não tem o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) da especialidade, como apontado pelo Leite et al. (2022) que mostra um percentual de preceptores não especialistas em MFC acima de 10%, e, pior, cerca de 7,3% sem qualquer especialização, algo contrário do que é recomendado pela SBMFC. Nesse contexto, é evidente a inviabilidade de alguns locais de manterem a homogeneidade do ensino, seguindo um planejamento numa espiral de complexidade em que o processo ensino-aprendizagem do residente está no centro, para que eles recebam durante o programa todo o suporte teórico-prático, avaliativo e desenvolvimento de autonomia e confiança, assim como a literatura científica e o CBC propõem (COSTA et al., 2018; GUIMARÃES et al., 2024).
3. Deficiências micro sistêmicas:
Ao analisar os diversos estudos sobre esta temática percebe-se que as falhas “internas” do PSF são as que têm maior impacto direto na saúde mental dos residentes, isso porque o espaço que era para ser de acolhimento, escuta e ensino, dá abertura para uma atuação majoritariamente assistencial, rodeada de assédio, hierarquização e favoritismos subjetivos (BOTTI; REGO, 2011; MARQUES et al., 2012; DELFINO; VINADÉ, 2024).
A princípio deve-se considerar que o assistencialismo tem duas perspectivas importantes a serem retratadas. A primeira diz respeito ao próprio preceptor, que muitas das vezes apresenta-se sobrecarregado com a jornada de trabalho excedente e responsabilidades que transcorrem nos âmbitos clínico, pedagógico, administrativo, de supervisão e de infraestrutura (CASTELLS; CAMPOS; ROMANO, 2016). Então, o conciliamento de todas essas atividades consomem muito tempo que poderiam ser dedicados exclusivamente aos discentes, e que tem o poder de ser uma real lacuna na especialização dos mesmos. Consequentemente, o papel assistencial torna-se foco prioritário, enquanto o educacional fica em segundo plano (SOUZA; FERREIRA, 2019; LAWALL et al., 2023).
Em outra ótica, partindo agora do corpo discente, o assistencialismo também gera um grande impasse, porque, se o preceptor está muito envolvido em garantir as suas inúmeras funções, os alunos residentes se sentem deslocados nos campos de trabalho sem atenção e supervisão adequadas, sem momentos para orientações reflexivas ou realização de feedbacks construtivos e qualidade formativa, tampouco sentem que há um espaço destinado para rede de apoio e bem-estar deles. (FINGER, 2018; PAULA; TOASSI, 2021).
Nesse sentido, é fundamental que exista uma capacitação pedagógica dos preceptores além de um tempo protegido para o ensino, para que os residentes aprendam não somente a perpetuar condutas superficiais sem qualquer explicação ou discussão e evitar que eles fiquem limitados a exercer suas atividades de forma automatizada e repetitiva sem aprofundamento no processo de aprendizagem (GARCIA et al., 2018).
Além disso, percebe-se que dentro das unidades a hierarquização é majoritária e o aluno tem cada vez menos espaço de escuta e acolhimento (CASTRO; WENCESLAU; FERREIRA, 2024). Alguns estudos como o de Santos e Netto (2023) mostram que muitos residentes têm receio de perguntar ou aprofundar em determinados assuntos, pois o preceptor quer agilidade nas discussões, pincelando superficialmente temas importantes de estudo e exigindo nas provas muito mais do que foi dado e estudado nos campos de atuação. Outros, indicam a subjetividade nas avaliações em que uns se sobressaem em detrimento de outros não por mérito, mas sim por ter um vínculo mais estreito com o preceptor-chefe da unidade (MORCERF; MARQUES, 2024).
Isso é visto não só em Marques et al. (2012) mas também em Castro, Wenceslau e Ferreira (2024) que evidenciam o quão presente o assédio moral está dentro dos PRMFC, sobretudo quanto ao controle excessivo, comunicação abusiva e exigências irrealistas. Dentro desse contexto, nota-se que o caráter punitivo e a normalização de determinados atos geram ainda mais o distanciamento na relação aluno versus professor (SANTOS; NETTO, 2023). Portanto, o mais prejudicado é o residente que é limitado no seu ambiente de aprendizagem e acaba se isolando para evitar novos conflitos (PEIXOTO et al., 2025).
4. O impacto das PRMFC para a saúde mental dos residentes
Diante de toda essa problemática, o aluno residente torna-se a “vítima” direta dessa eventual cadeia de falhas e isso, muitas das vezes, impõe elevado sofrimento psíquico (KNABBEN; LANGARO; GOMES, 2011). Isso ocorre porque durante o processo da especialização os problemas macro, meso e microestruturais são diretamente correlacionados com o aspecto emocional dos estudantes (PAULA; TOASSI, 2021).
Dentro do nível macro sistêmico, por exemplo, o residente nota desde o princípio que após o término da especialização será complicado ter uma carreira sólida, tendo em vista que há uma deslegitimação simbólica que rodeia a especialidade, vista sobretudo através da alta ociosidade de vagas, expansão da especialidade sem rigor de qualidade e homogeneidade e subfinanciamento crônico das APS (LAWALL et al., 2023; FONTENELE et al., 2023). Logo, o residente tende a sentir-se frustrado com a escolha da residência, com receio e sentimento de incerteza acerca do futuro da sua profissão e medo de perpetuar essa cultura precária dentro do MFC que fragiliza ainda mais sua identidade profissional (CASTRO; WENCESLAU; FERREIRA, 2024)..
Quanto aos problemas listados na mesoestrutura dos PRMFC, como a ausência de planos/organizações pedagógicas, má remuneração, preceptoria sem formação ou título de especialização e foco prioritário na produtividade assistencial provoca no residente um sentimento de profunda “insegurança formativa”, vista em vários estudos em que os discentes indagam sobre estarem ou não aprendendo certo, além de muita ansiedade e sensação de abandono institucional (BARREIROS et al., 2020; WANDER et al., 2024). Percebe-se, então, que a falta de alinhamento entre a expectativa, criada e divulgada de forma ilusória pelos grandes meios midiáticos, sociedades científicas e governo, e a realidade vivenciada pelos residentes, faz com que eles sintam-se desmotivados a continuar na especialidade, principalmente ao perceber que não terão um retorno digno e são extremamente substituíveis dentro do sistema (GUIMARÃES et al., 2024). Logo, a impressão geral que fica para o discente é de descontentamento, frustração, medo, ansiedade, desvalorização e abandono.
Por fim, é dentro do âmbito micro sistêmico que há um dos maiores problemas que afetam e destroem a saúde mental dos residentes, tendo em vista que eles são postos em segundo plano tanto no aspecto educacional, como também no emocional (MORCERF; MARQUES, 2024). O ambiente hierarquizado e imutável, rodeado de assédio moral sem espaço para apoio, acolhimento e escuta ocasionam impactos psíquicos severos que faz com o que os residentes desenvolvam doenças que vão desde a Síndrome de Burnout, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) até o Transtorno Depressivo Maior (TDM) e a ideação suicida (SANTOS; NETTO, 2023; GUIMARÃES et al., 2024).
Nesse sentido, o sofrimento mental dos residentes tem sido colocado em pauta devido a repercussão e consequência que isso acarreta para toda a sociedade (PEIXOTO et al., 2025). Isso ocorre porque a ciência já ratificou inúmeras vezes o quanto a exaustão crônica, inŝonia, apatia, baixa auto estima e a despersonalização, que certamente são vivenciadas pelos residentes, prejudicam na avaliação do profissional e no seu processo de aprendizagem (RODRIGUES et al., 2018; PAULA; TOASSI, 2021; SANTOS; NETTO, 2023).
À vista disso, os residentes que têm a sua saúde mental esgotada durante a especialização também será um especialista fatigado, de acordo com Peixoto et al. (2025), e que poderá errar muito mais em suas condutas médicas, pois está cansado e não consegue ter um bom raciocínio clínico; perpetuar práticas abusivas com seus futuros alunos, porque está na defensiva, irritado e tudo facilmente o desestabiliza e tira do “estado normal”; e se indispor aos novos métodos de ensino, devido a sobrecarga e demora para realização das atividades e supervisão de qualidade (CASTRO; WENCESLAU; FERREIRA, 2024).
CONCLUSÃO
É imprescindível relatar que as principais falhas dos PRMFC supracitadas em seus níveis geram uma carga que custa muito aos residentes: tempo, qualidade de vida e saúde mental. Identificar, portanto, a origem do problema de forma profunda é entender também que isso é, de fato, uma questão de saúde pública e que o adoecimento mental do profissional residente não é aleatório e individual, mas provocado por um sistema institucional com estrutura arcaica, assistencialista e negligente que desconsidera as suas fragilidades.
Ao pensar de forma causal, em que uma problemática “puxa” a outra e ela como um todo se torna um ciclo vicioso, é visto a gravidade e urgência de mudanças no paradigma educacional, que certamente impactam no âmbito psicossocial. Primeiramente, é essencial que haja políticas públicas voltadas para os programas de residência, com um financiamento justo que valorize o profissional da área provendo a ele suporte de ferramentas, qualidade no posto de trabalho e remuneração adequada. Assim, os residentes teriam uma identidade profissional sólida, com uma sensação não mais de medo, mas de certeza de que seriam bem recompensados pelos seus estudos e trabalhos.
Também é importante que a SBMFC juntamente com os outros órgãos responsáveis pela residência articulem um modelo de formação homogêneo e disponibilizem as tecnologias de aprendizagem, em que os residentes possam experienciar tanto o proposto nas bases curriculares como também na vivência cotidiana com o seu público, retirando deles o sentimento de frustração, culpa e inutilidade. Desse modo, eles teriam conhecimento, segurança formativa, propriedade de fala e, principalmente, tendo tudo isso alinhado às expectativas produzidas, com boas avaliações e feedbacks construtivos e uso de ferramentas tecnológicas ao longo do percurso.
Por último, é fundamental a criação de espaços de escuta e acolhimento, tempo protegido para o ensino além de estratégias de relaxamento dentro da APS, em que o residente possa ter uma boa relação com o preceptor e se sinta confortável para questionar, discutir e expor suas fragilidades enquanto aluno e pessoa. Logo, não teria tanto abandono na especialidade e os médicos residentes trabalhariam em um ambiente marcado pela boa comunicação, empatia e bem-estar coletivo.
Portanto, o estudo mostra-se altamente relevante para a sociedade científica e social, porque identifica esse problema e assume que a preceptoria é um grande determinante psicossocial da saúde do residente, além de propor intervenções de forma que fique claro que isso não é um favor aos profissionais, mas uma maneira de proteger os preceptores e residentes das inconsistências do modelo formativo vigente da especialização; é certificar que o ciclo seja efetivamente rompido e que o eixo de retorno, que é o próprio paciente usuário do SUS, não seja prejudicado; é, sobretudo, garantir dignidade, segurança e humanidade àqueles que dedicam as suas vidas em cuidar do outro.
REFERÊNCIAS
ANDERSON, Maria Inez Padula; SAVASSI, Leonardo Cançado Monteiro. Formação, Ensino e Pesquisa na Medicina de Família e Comunidade e na Atenção Primária à Saúde no Brasil: situação atual, desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 16, n. 1, p. 18-27, 2021.
BARREIROS, Bárbara Cristina et al. Estratégias didáticas ativas de ensino-aprendizagem para preceptores de medicina de família e comunidade no EURACT. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 44, p. e102, 2020.
BOTTI, S. H. O.; REGO, S. Docente-clínico: o complexo papel do preceptor na residência médica. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, p. 65–85, 2011.
Disponível em: https://www.proquest.com/openview/ff89235348c82fb354f30ca478e7570f/1?pqorigsite=gscholar&cbl=2040297. Acesso em: 9 jun. 2025.
BRASIL. Ministério da Educação; Comissão Nacional de Residência Médica. Resolução nº 1, de 25 de maio de 2015. Regulamenta os requisitos mínimos dos programas de residência médica em Medicina Geral de Família e Comunidade. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 25 maio de 2015. Seção 1, p. 11. Disponível em: http://www.abmes.org.br/legislacoes/detalhe/1713/resolucao-cnrm-n-1. Acesso em: 9 jun. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 3.147 de 28 de dezembro de 2012. Institui as especificações “preceptor” e “residente” no cadastro do médico que atua em qualquer uma das Equipes de Saúde da Família previstas na Política Nacional de Atenção Básica, de que trata a Portaria nº 2.488/GM/MS, de 21 de outubro de 2011. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt3147_28_12_2012.html Acesso em: 9 jun. 2025.
BRASIL. Ministério Da Saúde; Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde; Universidade Federal Do Rio Grande Do Sul. A prevenção está dividida em cinco níveis básicos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022. Texto complementar do Programa Saúde com Agente. Disponível em:
https://conasems-ava-prod.s3.sa-east-1.amazonaws.com/ava/aulas/5-textocomplementar-a-prevencao-esta-dividida-em-cinco-niveis-basicos-disc-14-pptx1668427800.pdf. Acesso em: 4 jan. 2026
CASTELLS, Maria Alicia; CAMPOS, Carlos Eduardo Aguilera; ROMANO, Valéria Ferreira. Residência em Medicina de Família e Comunidade: Atividades da Preceptoria. Rev. Bras. Educ. Med., Rio de Janeiro , v. 40, n. 3, p. 461-469, set. 2016 . Disponível em http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S198152712016000300461&lng=pt&nrm=iso . Acesso em 10 jun. 2025. https://doi.org/10.1590/1981-52712015v40n3e02862014
CASTRO, Fábio Araujo Gomes de; WENCESLAU, Leandro David; FERREIRA, Débora Carvalho. Entre “centrado na pessoa” e “freestyle”: a abordagem do sofrimento mental comum em residências de medicina de família e comunidade. Interface-Comunicação, Saúde, Educação, v. 28, p. e230141, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/icse/a/dLmqHj3mjx8jQTS58xqQ9tG/ . Acesso em: 9 jun. 2025.
COSTA, Lourrany Borges et al. Competências e atividades profissionais confiáveis: novos paradigmas na elaboração de uma matriz curricular para residência em Medicina de Família e Comunidade. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Rio de Janeiro, v. 13, n. 40, p. 1–11, jan./dez. 2018. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/35628.Acesso em: 9 jun. 2025.
DELFINO, Maria de Fatima do Nascimento Silva; VINADÉ, Thaiani Farias. O papel do preceptor na gestão de programa de residência para a efetivação do ensino. Revista Científica da Escola Estadual de Saúde Pública de Goiás “Cândido Santiago” – RESAP, Florianópolis, v. 10, 31 jan. 2024. DOI: 10.65027/2447-3405.2024.691.Disponível em: https://www.revista.esap.go.gov.br/index.php/resap/article/view/691. Acesso em: 4 jan. 2026.
FINGER, Denise. Ocupando espaços “extramuros”: uma reflexão acerca do papel do Coletivo Catarinense de Residentes na formação em saúde. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2019. Trabalho de Conclusão de Residência Multiprofissional em Saúde da Família. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/201513/DENISE%20FIN GER.pdf?isAllowed=y&sequence=1. Acesso em: 15 ago. 2025.
FONTENELLE, Leonardo Ferreira et al. Oferta e ocupação de vagas de residência em medicina de família e comunidade no Brasil, 2020. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 18, n. 45, p. 3637-3637, 2023.
GARCIA, Ana Paiva et al. Preceptoria na residência de medicina de família e comunidade da Universidade de São Paulo: políticas e experiências. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 13, n. 40, p. 1-8, 2018.
GRUNEWALD, S. T. F.; et al. Enfrentamento do Burnout e residentes de medicina: explorando estratégias. Espaço para Saúde, v. 25, e996, 2024.
Disponível em: https://espacoparasaude.fpp.edu.br/index.php/espacosaude/article/download/9 96/716. Acesso em: 11 jun. 2025.
IZECKSOHN, Mellina Marques Vieira et al. Preceptoria em Medicina de Família e Comunidade: desafios e realizações em uma Atenção Primária à Saúde em construção. Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, p. 737-746, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/6TSMNrnJvwcSgjvwzGjRFmd/ Acesso em: 10 jun. 2025.
KNABBEN, Teresinha Bloemer; LANGARO, Fabíola; GOMES, Allan Henrique. Impactos psíquicos e sociais na formação de médicos residentes: apontamentos da Psicologia. Revista da SBPH, São Paulo, v. 24, n. 1, jan./jun. 2021. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S151608582021000100010&script=sci_arttext. Acesso em: 4 jan. 2026.
LAWALL, Paula Zeni Miessa et al. A preceptoria médica em medicina de família e comunidade: uma proposta dialógica com a andragogia. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 47, n. 1, p. e015, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbem/a/vMhGNsRNF3R7FvK7vxXjw6Q/ Acesso em: 10 jun. 2025.
LEITE, Ana Paula Tussi et al. Profile and Migration of Members of Residency Programs in Family Medicine. Revista de saúde pública, v. 56, p. 21, 2022.
MARQUES, Rodrigo Coelho et al. Assédio moral nas residências médica e não médica de um hospital de ensino. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 36, p. 401-406, 2012.
MORCERF, Cely Carolyne Pontes; MARQUES, João Mazzoncini de Azevedo. Saúde mental do estudante de Medicina: Diálogos entre contextos e determinantes sociais na ótica da Medicina de Família. Research, Society and Development, v. 13, n. 12, p. e128131247706-e128131247706, 2024. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/47706. Acesso em: 10 jun. 2025.
PAULA, Gabriel Brazil de; TOASSI, Ramona Fernanda Ceriotti. Papel e atribuições do preceptor na formação dos profissionais da saúde em cenários de aprendizagem do sistema único de saúde. Saberes Plurais Educação na Saúde, [S. l.], v. 5, n. 2, p. 125–142, 2021. DOI: 10.54909/sp.v5i2.117940.
Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/saberesplurais/article/view/117940. Acesso em: 7 nov. 2025.
PEIXOTO, Marcelo Antonio Correia et al. A saúde mental dos residentes de medicina de família e comunidade: uma revisão integrativa. Revista JRG de Estudos Acadêmicos, v. 8, n. 18, p. e081914-e081914, 2025. Disponível em: https://www.revistajrg.com/index.php/jrg/article/view/1914/1540 Acesso em: 10 jun. 2025.
RODRIGUES, Hugo et al. Burnout syndrome among medical residents: a systematic review and meta-analysis. PLoS ONE, v. 13, n. 11, p. e0206840, 12 nov. 2018. DOI: 10.1371/journal.pone.0206840. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30418984/. Acesso em: 10 jun. 2025.
SANTOS, Luciane Loures dos; NETTO, Luciano de Paula Loyola. Burnout em residentes de saúde da família: um estudo longitudinal. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 18, n. 45, p. 3858-3858, 2023.
Disponível em: https://rbmfc.org.br/rbmfc/article/view/3858. Acesso em: 19 jun. 2025.
SARTI, Thiago Dias; FONTENELLE, Leonardo Ferreira; GUSSO, Gustavo Diniz Ferreira. Panorama da expansão dos programas de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade no Brasil: desafios para sua consolidação. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 13, n. 40, p. 1-5, 2018.
SOUZA, Sanay V.; FERREIRA, Beatriz J. Preceptoria: perspectivas e desafios na Residência Multiprofissional em Saúde. Arquivos Brasileiros de Ciências da Saúde, Santo André, v. 44, n. 1, p. 15-21, 2019. https://doi.org/10.7322/abcshs.v44i1.1074.
Disponível em: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio- 995006 . Acesso em: 7 nov 2025.
WANDER, Brenda et al. Métodos de ensino e avaliação na preceptoria de residências em saúde: Estudo transversal. Temas em Educação e Saúde, p. e024002-e024002, 2024.
1Médicos vinculados à Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), Distrito Federal, Brasil.
2Médico de Família e Comunidade vinculado à Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), Distrito Federal, Brasil, coorientador do trabalho.
3Médico de Família e Comunidade vinculado à Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), Distrito Federal, Brasil, orientador do trabalho.
