REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202601160957
Ana Carolina Caliari Sabaini1
Ahdria Cristina Gundes Oliveira1
Brenda Lopes da Silva1
RESUMO
A odontologia tem avançado significativamente com a incorporação do fluxo digital, principalmente nos tratamentos voltados à reabilitação oral. As inovações tecnológicas têm potencializado os resultados protéticos, promovendo maior precisão, eficiência e redução dos números de consultas, refletindo diretamente na satisfação dos pacientes. Entretanto, existem desafios relacionados ao alto custo dos equipamentos, necessidade de capacitação dos profissionais e escolha do tipo de dispositivo e restauração a ser fabricado. Este trabalho teve como objetivo realizar uma revisão narrativa da literatura sobre a aplicação do fluxo digital na reabilitação oral, com ênfase no uso do scanner intraoral, dos sistemas CAD/CAM e impressão tridimensional 3D. A coleta de dados foi realizada nas bases LILACS, BVS/BIREME, PubMed, Medline, SciELO, EBSCO, BVS Odontologia, ResearchGate, MDPI e RevistaFT, utilizando as palavras-chave: digital workflow; CAD/CAM; intraoral scanner; impression 3D; rehabilitation oral, associadas entre si pelo operador booleano a palavra AND. Foram incluídas revisões sistemáticas, estudos de caso e de revisão, artigos científicos, trabalhos de revista e livros, publicados em português, inglês e espanhol, entre os anos de 2020 e 2025, que atendessem ao objetivo proposto. A seleção resultou na inclusão de 100 estudos, analisados de forma exploratória e interpretativa, identificando temas, conceitos e achados relevantes. A revisão evidenciou as principais ferramentas digitais aplicadas para a confecção de próteses e restaurações dentárias, destacando suas vantagens e limitações no contexto clínico. Embora o fluxo digital represente um avanço, ainda são necessários estudos para consolidar protocolos digitais na reabilitação oral.
Palavras-chave: fluxo digital; CAD/CAM; scanner intraoral; impressão 3D; reabilitação oral.
ABSTRACT
Dentistry has advanced significantly with the incorporation of digital workflow, especially in treatments focused on oral rehabilitation. Technological innovations have enhanced prosthetic results, promoting greater precision, efficiency, and a reduction in the number of appointments, directly impacting patient satisfaction. However, challenges remain related to the high cost of equipment, the need for professional training, and the choice of the type of device and restoration to be manufactured. This study aimed to conduct a narrative literature review on the application of digital workflow in oral rehabilitation, with emphasis on the use of intraoral scanners, CAD/CAM systems, and 3D printing. Data collection was performed in the LILACS, BVS/BIREME, PubMed, Medline, SciELO, EBSCO, BVS Odontologia, ResearchGate, MDPI, and RevistaFT databases, using the keywords: digital workflow; CAD/CAM; intraoral scanner; 3D printing; oral rehabilitation, combined using the Boolean operator AND. Systematic reviews, case studies, review studies, scientific articles, journal articles, and books published in Portuguese, English, and Spanish between 2020 and 2025 that met the proposed objective were included. The selection resulted in the inclusion of 100 studies, analyzed in an exploratory and interpretive manner, identifying relevant themes, concepts, and findings. The review highlighted the main digital tools applied to the fabrication of dental prostheses and restorations, emphasizing their advantages and limitations in the clinical context. Although the digital workflow represents an advance, further studies are needed to consolidate digital protocols in oral rehabilitation.
Keywords: digital workflow; CAD/CAM; intraoral scanner; 3D printing; oral rehabilitation.
1 INTRODUÇÃO
Ao longo dos anos, a odontologia tem apresentado progressos significativos impulsionados pelas tecnologias inovadoras, mostrando-se cada vez mais frequentes nos consultórios odontológicos e laboratórios. A incorporação de ferramentas digitais tem facilitado a realização de diagnósticos, planejamentos e otimização dos tratamentos, alavancando a prática clínica. Esses avanços tornam-se ainda mais relevantes quando relacionados à manutenção da saúde bucal e às necessidades de reabilitação oral (Moreira et al., 2021; Rexhepi et al., 2023; Aus et al., 2024).
A manutenção da saúde bucal é essencial para o desempenho adequado das funções orais, influenciando diretamente na mastigação, fonação, estética e autoconfiança do paciente, impactando positivamente na sua qualidade de vida. Os tratamentos de reabilitações orais por meio de dispositivos protéticos são essenciais para restabelecer as condições bucais, especialmente quando se trata de um paciente edêntulo ou com múltiplas perdas dentárias. A integração desses tratamentos aos recursos digitais permite obter-se resultados mais precisos e eficientes, refletindo em maior satisfação e conforto ao paciente (Ogino, 2022; Sougey et al., 2025).
O fluxo de trabalho digital tem se revelado um recurso promissor no processo reabilitador envolvendo às etapas de aquisição de imagens, processamento dos dados e manufatura. Os dispositivos protéticos produzidos por meio dessas tecnologias mostraram resultados favoráveis, destacando-se pela alta precisão na adaptação das peças, propriedades mecânicas com maior resistência a fratura e flexão, e desempenho estético elevado (Soni et al., 2025; Alqahtani, 2024).
A adoção do fluxo digital na prática odontológica é de suma importância, uma vez que tem por finalidade a redução de erros humanos e limitações técnicas decorrentes dos métodos de trabalhos convencionais, além de suprir as diversas limitações presentes nesse processo. Ademais, essa integração permite ampliar as possibilidades de personalização dos tratamentos e otimização do tempo clínico por meio da utilização de novos métodos de planejamento, produção de restaurações e próteses dentárias (Oliveira; Oliveira, 2024; Tallarico, 2020; Zamprogno et al., 2023). Os principais recursos que compõem esse fluxo incluem scanner intraoral, sistemas CAD/CAM (Computer-Aided Design/Computer-Aided Manufacturing) e impressoras 3D. A incorporação desses recursos consolida-se como ferramentas indispensáveis com resultados de qualidade superiores aos obtidos por meio do trabalho convencional, mais eficazes, precisos e com menor tempo. A integração entre esses sistemas permite o acompanhamento em tempo real do planejamento e assegura maior previsibilidade do resultado final antes mesmo da execução do tratamento, promovendo a realização de tratamentos previsíveis e personalizados (Mahato et al., 2024; Suese, 2020; Medina et al., 2022).
Apesar das diversas vantagens que o fluxo de trabalho digital possibilita principalmente na reabilitação oral, sua implementação na rotina clínica está submetida a desafios que ainda limitam sua adoção. Entre os principais entraves destacam-se os custos iniciais elevados para a adoção dos equipamentos, a necessidade de adaptação das clínicas e laboratórios para ampliar e garantir a rentabilidade, além da limitação de aptidão pelo profissional para manejo adequado das tecnologias (Gauch; Lima; Oliveira, 2023; Araújo et al., 2024).
Diante do contexto, o presente trabalho tem como objetivo realizar uma revisão da literatura com intuito de compreender o conceito do fluxo de trabalho digital na prática clínica, abordando as aplicações das tecnologias disponíveis como CAD/CAM (Computer-Aided Design/Computer-Aided Manufacturing), scanners intraorais (IOS) e impressão tridimensional (3D) na reabilitação oral. Além disso, compreender os principais desafios e limitações relacionados à utilização desses recursos na odontologia contemporânea.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 CONCEITO E APLICAÇÃO DO FLUXO DE TRABALHO DIGITAL NA PRÁTICA CLÍNICA
A odontologia vem avançando significativamente na introdução digital desde as décadas de 1970, quando surgiram as primeiras definições de odontologia digital. A principal revolução desse período foi a imersão do fluxo de trabalho digital, que reduziu o tempo clínico durante a realização dos tratamentos odontológicos com a utilização de recursos digitais (Schierz et al., 2024; Haidar, 2023; Spagnuolo; Sorrentino, 2020; Gawali et al., 2024; Fragôso; Melo, 2024).
Contudo, nas primeiras tentativas de automatização das técnicas convencionais não alcançou resultados satisfatórios, o processo mostrou-se lento e ineficiente, não sendo a melhor opção de escolha. Diante da insatisfação obtida, a indústria odontológica continuou evoluindo na busca de novas ferramentas de trabalhos automatizados. Ao longo dos anos foram desenvolvidos softwares de planejamento, fabricação de dispositivos de capturas de imagens, novas técnicas, além de mudanças nos materiais já disponíveis (Schierz et al., 2024; Medina et al., 2022).
Posteriormente autores como Vandenberghe (2020), definiram o fluxo digital como um processo integrado, caracterizado pela combinação das etapas de captação de imagens, processamento de dados, planejamento com softwares e impressão 3D.
Ele ainda ressalta que a literatura concorda que esses processos apresentam ser precisos e eficazes tanto quanto o tradicional, entretanto, ainda é preciso realizar mais estudos.
Esse processo pode ocorrer de forma totalmente digital (chairside) ou quando na impossibilidade da sua execução completa no consultório pode ser realizado de forma parcial (labside), sendo possível a terceirização de algumas etapas do processamento quando necessário (Stromeyer et al., 2021). Além disso, podem ser classificados em sistema fechado quando todas as etapas do processo são integradas a um único sistema, ou seja, mesma empresa, e aberto quando obtêm-se os dados pelo sistema CAD de uma empresa e a impressão dos trabalhos protéticos pelo CAM de outro local (Medina et al., 2022).
Comparando-se ao método tradicional a principal diferença do fluxo de trabalho digital está na substituição de materiais de moldagem para posterior obtenção de modelos de gesso e execução de planejamentos em nível clínico ou laboratorial, pela utilização de scanners na qual é possível a manipulação de dados por softwares para planejamentos, entre outras atividades que podem ser executadas no próprio consultório com auxílio de um computador (Oliveira; Rodrigues; Finck, 2023).
O fluxo digital oferece recursos tecnológicos inovadores, como os sistemas CAD/CAM (Computer-Aided Design/Computer-Aided Manufacturing), scanners intraorais e impressoras de modelos 3D, que em conjunto têm a alta capacidade de melhorar a precisão, longevidade e exatidão das próteses e restaurações dentárias, proporcionando resultados clínicos com qualidades satisfatórias (Aus et al., 2024; Assiri et al., 2023).
A tecnologia CAD/CAM, inicialmente, era destinada para os ramos da indústria aeroespacial e da engenharia, e com os resultados favoráveis alcançados mediante sua aplicação, foram adotadas em diversas especialidades na área da medicina. No âmbito odontológico, a introdução desses sistemas ocorreu no início da década de 1970 pela empresa de produtos e serviços odontológicos Dentsply Sirona, que desenvolveu o primeiro sistema CAD/CAM nomeado Cerec (Costa et al., 2024; Rexhepi et al., 2023).
Desde a sua introdução nas especialidades odontológicas, os recursos CAD/CAM são dominantemente utilizados para a confecção de próteses dentárias parciais ou removíveis, facetas, coroas totais e restaurações indiretas do tipo inlay e onlay personalizadas para dentes comprometidos. Os profissionais da área utilizam a tecnologia CAD para criar o modelo digital e, posteriormente, produzem o dispositivo protético utilizando a impressora de modelo 3D ou uma máquina fresadora (Peng et al., 2021; Ille et al., 2025).
Após a fundamentação do CAD/CAM em tratamentos reabilitadores protéticos, em 1980 surgiram os conceitos iniciais de scanners intraorais (IOS). Os IOS são dispositivos que foram introduzidos no mercado inicialmente com a intenção de realizar restaurações dentárias com maior precisão e eficiência, a fim de diminuir o tempo clínico diagnóstico e a entrega do trabalho protético. Além disso, conta com uma ampla variedade de modelos e especificações (Erozan; Ozan, 2020; Gomes et al., 2021).
Na reabilitação oral o uso do IOS destaca-se no auxílio com o diagnóstico, planejamento do tratamento e fabricação de próteses. Os IOS constituem equipamentos que emite luz e conseguem captar informações de cores e formas através de sensores de imagem, nas quais serão processadas pelo software do próprio scanner, que interpreta a informação e gera uma malha tridimensional (3D), que representa a cavidade oral do paciente de forma digitalizada (Amornvit; Rokaya; Sanohkan, 2021; Watanabe; Fellows; An, 2022; Gauch; Lima; Oliveira, 2023).
O arquivo com os dados digitalizado no sistema do IOS é exportado de forma automática ou manual através da conversão em arquivo do tipo STL (Standard Tessellation Language), para softwares como o CAD, que contém a capacidade de realizar a manipulação de dados e planejamento de acordo as necessidades e posteriormente processamento da peça CAM (Angelone et al., 2023; Suese, 2020).
Concluído o processo de manipulação de dados com softwares, inicia-se a etapa final do fluxo de trabalho digital. A partir do projeto CAD, a manufatura será realizada com ajuda de computadores CAM, no qual esta será do tipo substrativa a partir da fresagem ou do tipo aditiva com a união da camada de materiais para fabricação a partir do modelo 3D, de acordo com as especificações estabelecidas (Kaleli; Ural, 2021; Abreu et al., 2024).
2.2 APLICAÇÃO DO CAD/CAM NA CONFECÇÃO DE PRÓTESES E RESTAURAÇÕES DENTÁRIAS
A utilização da tecnologia CAD/CAM em um fluxo inteiramente digital inicia-se com o escaneamento da cavidade bucal para capturar todas as estruturas dentárias do paciente, utilizando um scanner intraoral. Em seguida, os dados obtidos sofrem o processamento por meio de softwares especializados em CAD para a criação dos modelos de dispositivos provedores da reabilitação oral (Al-Aali et al., 2020).
Durante o processo de planejamento virtual, é possível que o paciente visualize pela tela do computador a simulação do modelo de como ficará o resultado do tratamento, podendo sugerir e realizar modificações de acordo com suas vontades. Essa possibilidade de visualização prévia é vantajosa para evitar insatisfações finais, atendendo todas as especificações estéticas de cada paciente (Nikoyan; Patel, 2020; Park et al., 2020).
Em sequência, após a elaboração e aprovação do projeto virtual (CAD), as informações obtidas são direcionadas para uma máquina CAM (impressora 3D ou uma fresadora CNC), onde passa pelo processo de fabricação da peça auxiliada por computador. Por meio desse equipamento ocorre a fabricação do dispositivo reabilitador com blocos de materiais odontológicos, sendo as resinas e cerâmicas comumente selecionadas para essa finalidade (Gorripati; Godbole, 2024).
A produção de dispositivos via CAD/CAM fundamenta-se nos métodos subtrativo ou aditivo na elaboração. A técnica subtrativa é realizada por meio de uma máquina fresadora, onde a confecção da peça ocorre por remodelação de um bloco sólido de material pré-fabricado, com o uso de brocas de fresagem para a remoção do material. Em contrapartida, no método aditivo as microestruturas são construídas camada por camada até alcançar a geometria final. Ambas as tecnologias são eficientes para a produção de dispositivos protéticos e restaurações (Silva et al., 2020).
Em relação ao compartilhamento de dados, os referidos sistemas recebem a classificação de aberto ou fechado. O sistema de compartilhamento aberto é o mais utilizado atualmente, e por meio deste é possível que empresas diferentes adquiram os dados virtuais originais pelo programa CAD, e confeccionam as restaurações dentárias do tipo indireta através de dispositivos CAM. Por outro lado, no sistema fechado, apenas uma única empresa tem o direito de completo acesso aos dados (Silva et al., 2024).
Em termos de arquivamento, a utilização do processo digital na confecção de dispositivos oportuniza o armazenamento de todos os dados clínicos em formato eletrônico, o que é vantajoso nos casos em que são necessários refazer as microestruturas. Desse modo, o CAD/CAM exibe um processo de fabricação com maior precisão e possibilidade de reprodução quando comparado aos métodos convencionais (Saravi et al., 2021).
As substituições das moldagens convencionais pelo escaneamento intraoral, é uma das principais vantagens obtidas pela utilização do CAD/CAM, o que resulta em modelos com o grau de precisão superior. Portanto, a margem de erros na etapa de obter uma cópia fiel dos remanescentes dentais do paciente é consideravelmente reduzida, possibilitando um tratamento com maior eficiência (Nobre; Rosa; Heliodoro, 2020).
Além do mais, a captura detalhada da cavidade oral em alta precisão com a utilização do escaneamento intraoral, torna o processo de confecção de dispositivos protéticos mais eficientes e acelerado, e reduz a necessidade de vários retornos do paciente ao consultório para a realização de moldagens secundárias e ajustes, visando promover a adaptação correta na cavidade oral (Numajiri et al., 2020).
Quando os sistemas são utilizados para a fabricação de restaurações dentárias, os erros comprometedores da longevidade das restaurações esculpidas manualmente também são diminuídos devido os materiais empregados na confecção via CAD/CAM exibirem bons desempenho, oferecendo durabilidade, adaptação, e estética de níveis elevados. Ainda, as restaurações dentárias podem ser personalizadas de forma individualizada para os pacientes, atendendo todas às especificações desejadas (Ruf et al., 2022).
As próteses dentárias confeccionadas pelos sistemas CAD/CAM não sofrem contração durante o processo de polimerização, o que produz uma superfície com melhor adaptação entre a microestrutura protética e o remanescente dental, resultando em desempenho positivo durante o ato de mastigação. Posto isto, o processo digital é descrito como uma alternativa eficiente em termos de precisão e longevidade dos tratamentos reabilitadores (Tieh; Waddell; Choi, 2022).
Como um benefício adicional nos casos das restaurações fabricadas pelos sistemas CAD/CAM, é possível obter a conservação do remanescente dental em maior proporção do que os métodos tradicionais de reparação dentária, devido à menor necessidade de realizar desgastes para o preparo cavitário. Vale ressaltar que este fato é de extrema relevância para a manutenção da saúde bucal a longo prazo, pois o desgaste excessivo torna o elemento dentário mais frágil e suscetível a fraturas (Choukse et al., 2023).
Embora as restaurações fabricadas por CAD/CAM possam apresentar numerosas vantagens quando comparada com as restaurações convencionais, pode haver exceções que irão depender diretamente das especificações do paciente, do tipo de restaurações a ser elaborada, e o material a ser utilizado nos determinados casos, que devem ser avaliados minuciosamente, durante o planejamento individualizado (Nihei et al., 2020).
2.3 SCANNERS INTRAORAIS E IMPRESSÃO 3D NA ODONTOLOGIA
Atualmente a impressão tridimensional e os scanners intraorais vêm se destacando em diversas áreas da odontologia, entre elas na Implantodontia, Prótese, Dentística, Ortodontia, Cirurgia e Endodontia. Na reabilitação oral, esse sistema digital viabiliza a confecção de modelos de estudo e trabalho, guias cirúrgicos, padrões de fundição, moldeiras individuais e placas interoclusais, consequentemente, com menos suscetibilidade a falhas por intervenção humana (Almeida; Teodoro; Almeida, 2021).
Os IOS têm ampla aplicação nas especialidades odontológicas, dentre elas na Ortodontia, sendo essenciais no diagnóstico, planejamento e confecção de alinhadores e mini-implantes, apesar de variações na precisão (Vieira; Vinha, 2022). Em Dentistica, apresentam resultados semelhantes aos métodos convencionais quanto à adaptação e ajuste das restaurações (Refaie et al., 2023). Para Cirurgia e Endodontia, contribuem no planejamento, confecção de guias e implantes personalizados, além de auxiliarem em procedimentos como apicectomia e autotransplante, ainda são úteis no ensino e treinamento clínico (Jeong et al., 2023).
A aplicação do escaneamento digital na reabilitação oral tem tornado o diagnóstico mais preciso e o planejamento das próteses muito mais ágil e eficiente. Com essa tecnologia, os dados capturados pelo scanner são enviados ao laboratório de prótese, onde o técnico cria o modelo digital e realiza todo o processo de design e fabricação da peça protética (Amornvit; Rokaya; Sanohkan et al., 2021).
Outrossim, o IOS é um recurso que se destaca por conseguir capturar imagens da boca do paciente de forma detalhada com câmeras de alta resolução, registrando características específicas dos dentes, da gengiva, e oclusão do paciente. Em sequência, as imagens obtidas são processadas em um software que cria um modelo tridimensional da região, auxiliando o cirurgião-dentista a planejar com mais precisão o tratamento e a confecção de próteses, coroas e outras restaurações (Gauch; Lima; Oliveira, 2023).
Ademais, é importante mencionar que a redução do tempo de trabalho dos procedimentos associada ao uso do IOS contribui significantemente para a eficiência clínica e a experiência do paciente durante os procedimentos de impressão, tornando o escaneamento digital o método preferido pelos pacientes em relação às moldagens convencionais (Siqueira et al., 2021).
No que diz respeito a termos de segurança quanto à exposição de radiação, os IOS permitem a obtenção de informações internas e os raios de fluorescência não ionizante são utilizados para avaliar a integridade estrutural sem prejudicar o paciente. As impressões digitais e os algoritmos de fusão de imagens possibilitaram o desenvolvimento de ferramentas de planejamento e análise de tratamento computadorizadas devido à adoção de imagens 3D em baixa dosagem de radiação. Entretanto, devem ser abordados e questionados pontos como segurança dos dados obtidos e considerações éticas (Alqahtani, 2024).
De forma complementar, os IOS permitem a manipulação das digitalizações, aprimoramentos e correções de áreas específicas após a preparação do material, podendo ser eliminada várias etapas, como a seleção de moldeiras e sua desinfecção posterior, assim como a preparação e uso de materiais, e o envio dessas ao laboratório de prótese. Outrossim, o laboratório também se beneficia pela redução do tempo clínico, por não ter necessidade de articular modelos ou recortar e modelar troquel, colocar pinos e réplicas e vazar o gesso nas moldagens (Zarbakhsh et al., 2021).
Como resultado, pesquisas sugerem que as moldagens digitais têm precisão semelhante às moldagens convencionais, sem diferenças importantes. Além disso, tanto os pacientes quanto os profissionais demonstram ter preferência por essa técnica. De modo geral, a aplicação do scanner intraoral na prática clínica oferece mais conforto, é menos invasiva e facilita o armazenamento das informações obtidas na impressão 3D (Ahmed et al., 2024).
De acordo com os resultados obtidos, Diaconu-Popa et al. (2021) mostraram que as dentaduras confeccionadas com o uso de scanners intraorais mantêm suas características ao longo do tempo, apresentando qualidade de superfície e durabilidade semelhantes às dentaduras tradicionais. Além do mais, a impressão 3D destaca-se por permitir a produção de diferentes tipos de próteses de forma mais acessível que a técnica de fresagem. Entretanto, acredita-se que o aprimoramento da captura óptica possa tornar os resultados clínicos ainda mais precisos em pesquisas futuras.
A impressão 3D é uma ferramenta digital que permite criar peças personalizadas em formato tridimensional, a partir de modelos digitais elaborados em softwares de design auxiliados por computador. Essa tecnologia tem ganhado destaque por reduzir o desperdício de material e possibilitar a fabricação de estruturas maiores e mais complexas. Porém, enfrenta algumas dificuldades como o alto custo e o tempo necessário para o acabamento das peças (Tian et al., 2021).
Estudos corroboram que a aplicação da impressão 3D se tornou uma opção aceitável comparada às moldagens analógicas feitas com poliéter e vinilpolissiloxano, por reduzir falhas comuns, como distorções do material e imprecisões no modelo. Como resultado, é uma técnica que oferece alta precisão e é especialmente indicada para próteses fixas menores. Ainda assim, nota-se vale ressaltar que na maioria das vezes, as moldagens convencionais continuam garantindo o melhor nível de exatidão (Rues et al., 2024).
Contudo, vale ressaltar que por meio do IOS e da impressora 3D diversos problemas comuns do método convencional foram solucionados, como, náuseas, vômitos e dificuldades respiratórias dos pacientes. Por isso, o sistema digital vem sendo considerado uma opção menos invasiva que permite a obtenção de imagens com maior precisão e menor tempo, além de proporcionar mais conforto ao paciente. No entanto, é uma técnica que demanda capacitação técnica e experiência do cirurgião-dentista no manuseio do scanner, do software e da impressora 3D (Medina et al., 2022).
2.4 LIMITAÇÕES E DESAFIOS DA APLICAÇÃO DO FLUXO DE TRABALHO DIGITAL NA REABILITAÇÃO ORAL
A adoção de tecnologias como CAD/CAM, scanners intraorais e impressão 3D tem transformado a reabilitação oral ao proporcionar maior precisão, personalização e eficiência, além de promover melhor experiência ao paciente. No entanto, a incorporação desses recursos ainda enfrenta barreiras técnicas, clínicas e econômicas que precisam ser consideradas (Alqahtani, 2024).
No caso específico da utilização do IOS, o domínio técnico do operador é fundamental para garantir a qualidade da captura das imagens. Fatores como a presença de sangue e saliva, abertura limitada da boca, posicionamento dentário e alterações em tecidos moles ou duros podem comprometer a movimentação do dispositivo de escaneamento e, consequentemente, gerar falhas na obtenção do registro digital (Moreira et al., 2021).
Durante o escaneamento de rebordos edêntulos para confecção de próteses totais observa-se maiores limitações, principalmente em regiões anteriores que apresentam anomalias ósseas, assim como na junção entre palato duro e mole e nas fossas hamulares. Essas alterações resultam em imagens imprecisas, sendo necessário, em alguns casos, a utilização de moldagens convencionais para minimizar as falhas do método digital. Como alternativa, pode-se realizar o alinhamento dos dados escaneados com registros fotográficos faciais do paciente, garantindo um planejamento digital mais preciso e eficiente (Medina et al., 2022).
De acordo com Alaoffey et al. (2024), após a captura das imagens pelos IOS, o processamento é realizado em softwares CAD, etapa que oferece diversas vantagens para o planejamento quando combinada ao CAM. Entretanto, o estudo de Leal et al. (2024), acrescentam que presença de sangramentos, preparos subgengivais com mais de 1 milímetro podem dificultar o processo de varredura eletrônica, resultando em desajustes protéticos.
Domysche et al. (2024) salientam que a precisão na confecção de próteses está diretamente relacionada à adaptação clínica, longevidade do tratamento e satisfação do paciente. Os autores acrescentam ainda que, apesar dos avanços oportunizados pelos sistemas CAD/CAM, se faz necessário a realização de mais estudos sobre a aplicabilidade desses recursos em próteses dentárias.
Apesar das inúmeras vantagens atribuídas ao sistema CAD/CAM, a adaptação marginal das restaurações ainda é um desafio. Inconsistências decorrentes das etapas do fluxo digital até o processo de impressão podem resultar em comprometimentos, como o aumento dos espaços marginais, que embora considera- se aceitável podem ser superiores às obtidas através de técnicas de trabalho convencionais (Corsalini et al., 2024).
Nesse mesmo sentido, Tian et al. (2021) ressaltam que as próteses fixas como coroas e pontes devem respeitar os critérios básicos estabelecidos para atender aos requisitos mecânicos, biológicos e estéticos. Sendo assim, torna-se importante realizar os processos de forma adequada, a fim de garantir a longevidade e funcionalidade, evitando alterações nos tecidos periodontais e na função oclusal.
Além disso, Manoharan, Wase e Sivakumar (2024) salientam que os sistemas digitais apresentam algumas limitações relacionados a precisão na avaliação da relação cêntrica, e acrescentam que para se estabelecer o plano oclusal mandibular correto e avaliação de suporte labial apropriada, o uso do scanner ainda permanece como um grande desafio.
Para explorar o potencial máximo do sistema CAD/CAM, Araújo et al. (2024) enfatizam que é fundamental que o profissional tenha conhecimento sobre as características das inovações tecnológicas, bem como, suas limitações e possibilidades. Além disso, os autores reforçam que é imprescindível a integração entre os métodos convencionais e digitais para alcançar os resultados laboratoriais e clínicos satisfatórios.
Após o processamento dos dados obtidos, os arquivos digitalizados são enviados para um equipamento CAM, como uma fresadora ou impressora 3D para a produção das estruturas protéticas. Apesar da aplicabilidade das impressoras 3D que promovem diminuição no desperdício de resinas, fácil manuseio e resultados satisfatórios, observa-se ainda falhas nas impressões que afetam a precisão dos trabalhos e estão ligados a distorções, posicionamentos e contração volumétricas (Khorasani et al., 2025).
Apesar das diversas vantagens oferecidas pela impressora 3D como conforto, precisão e personalizações (moldeiras individuais, placas interoclusais, modelos de trabalhos, guias cirúrgicos) a sua implementação está sujeita a desafios principalmente quando relacionado a reabilitação oral (Silva; Cardoso; Fernandes, 2024). Dentre os desafios, o trabalho de Ribeiro et al. (2025) destacam resistência mecânica das resinas e durabilidade como pontos críticos, visto que mesmo diante das melhorias ainda é preciso estudos a longo prazo para validação além da necessidade de protocolos que permitam a aplicação da tecnologia de forma segura e em larga escala.
Outro ponto relevante destacado por Oliveira, Rodrigues e Finck (2023), é que, mesmo com os avanços da manufatura aditiva, ainda existe uma escassez de conhecimento técnico entre os profissionais da área odontológica, o que dificulta a implementação dessa tecnologia na rotina clínica.
Dessa forma, o processo de transição entre o modelo analógico para o fluxo digital requer planejamento criterioso, a fim de evitar repercussões negativas. Além disso, aspectos econômicos, preferências técnicas, complexidade operacional entre outros fatores devem ser considerados, uma vez que influenciam na decisão sobre a adesão às novas tecnologias e afetam em todas as etapas do trabalho (Suganna et al., 2024; Alaoffey et al., 2024).
3 METODOLOGIA E MÉTODO DA PESQUISA
O presente trabalho consiste em uma revisão narrativa da literatura, de natureza qualitativa e caráter exploratório, que teve como propósito compreender, descrever e discutir parâmetros relacionados à temática, por meio de pesquisas bibliográficas que possibilitaram a síntese das informações encontradas na literatura (Marconi; Lakatos, 2022; Gil, 2021).
A coleta de dados foi realizada em bases reconhecidas, como a Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS/BIREME), PubMEd, Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Elton B. Stephens Company (EBSCO), BVS Odontologia, ResearchGate, MDPI – Publisher of Open Access Journals e Revista Científica de Alto Impacto (Revista FT). Para a busca dos estudos, foram utilizadas as palavras-chave em inglês: “digital workflow”, “CAD/CAM”, “intraoral scanner”, “impression 3D”, “rehabilitation oral”, combinando com o indicador booleano AND.
Como critérios de inclusão, consideraram-se revisões sistemáticas, estudos de caso e de revisão, trabalhos de revistas, artigos científicos e livros relacionados à temática, publicados entre os anos de 2020 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol. A seleção resultou na inclusão de 100 estudos, analisados de forma exploratória e interpretativa, identificando temas, conceitos e achados relevantes. Foram excluídos os trabalhos duplicados, trabalhos acadêmicos (como TCCs e monografias), resumos, dissertações e artigos sem relação direta com o assunto.
Os estudos selecionados foram analisados de forma interpretativa, considerando convergências e divergências entre os autores com o objetivo de evidenciar tendências, lacunas e implicações clínicas da utilização do fluxo digital na reabilitação oral, com ênfase em scanners intraorais, sistemas CAD/CAM e impressão 3D, sintetizando os principais achados e perspectivas para futuras pesquisas.
4 DISCUSSÃO
O fluxo de trabalho digital na Odontologia atual é constituído por uma sequência integrada de processos digitais, iniciando-se com o escaneamento, seguido pelo planejamento virtual, confecção do modelo digital e, por fim, a produção do dispositivo reabilitador, que pode ocorrer por meio de fresagem (CAD/CAM) ou impressão 3D (Moreira et al., 2023; Pillai et al., 2021).
Além disso, a integração das tecnologias facilitou a comunicação entre profissionais, pacientes e laboratórios de forma complementar, e permite ainda eliminar ou minimizar etapas manuais suscetíveis a falhas humanas, promovendo aumento na previsibilidade dos resultados com menor custo (Bernauer; Zitzmann; Joda, 2023; Soni et al., 2025; Moreira et al., 2023).
Diante dessa análise, estudos recentes indicam que a aplicabilidade desses recursos favorece diagnósticos mais precisos, proporcionam melhor visualização das estruturas bucais, reduzem erros relacionados ao planejamento e permitem que o paciente acompanhe o tratamento em tempo real. Essa combinação justifica parte da crescente adesão tanto por profissionais quanto por pacientes, quando comparada ao modelo convencional (Aus et al., 2024; Zamprogno et al., 2023; Edith; César, 2023; Carlete et al., 2025).
Por outro lado, Gintaute et al. (2021) ressaltam que, embora os resultados iniciais demonstrem ganhos de tempo e eficiência, ainda faltam estudos de longo prazo capazes de comprovar a efetividade desses protocolos em situações clínicas mais complexas. Da mesma forma, Fung e Brisebois (2020) alertam que o fluxo digital tende a reduzir custos e diversificar opções terapêuticas, mas alertam que a falta de preparo técnico e resistência à adaptação podem comprometer a competitividade do cirurgião-dentista nesse novo cenário.
Com base nesse enfoque, autores como Medina et al. (2022), Araújo et al. (2024), Oliveira e Oliveira (2024) lembram que a implementação desse fluxo exige investimento considerável, domínio técnico e reestruturação do ambiente clínico. Consequentemente, Schnitzler e Bohnet-Joschko (2025) reforçam que o custo- benefício ainda deve ser avaliado, sobretudo em clínicas de pequeno porte ou em regiões com menor acesso aos recursos.
Em complemento, Jahangiri et al. (2020) e Alotaibi e Kassim (2025) pontuam que a integração completa dos laboratórios de prótese aos consultórios demanda ajustes estruturais e organizacionais, impactando diretamente na dinâmica dos serviços prestados. Suganna et al. (2024) recomendam que é preciso um planejamento criterioso desse processo, de modo a minimizar impactos negativos decorrentes de falhas operacionais, barreiras econômicas ou preferências técnicas. Essas variáveis, associadas à complexidade de determinados casos clínicos, ainda representam desafios à adoção do modelo digital.
Nesse contexto, Gawali et al. (2024) observam que embora as tecnologias digitais confiram maior confiabilidade aos procedimentos, elas não estão imunes a falhas. Problemas decorrentes de software ou incompatibilidade entre sistemas podem comprometer atendimentos, revelando que a segurança transmitida pela digitalização não elimina totalmente os riscos operacionais.
Como resultado da digitalização, Tallarico (2020) destaca a possibilidade de armazenamento e compartilhamento digital dos arquivos, o que garante o acompanhamento, facilita o controle de todas as etapas do tratamento e favorece a comunicação interdisciplinar. Em contrapartida, Alqahtani (2024) adverte que a adoção do fluxo digital ainda enfrenta desafios, sobretudo no que diz respeito à segurança dos dados, já que informações e imagens digitais de pacientes podem estar expostas a falhas ou ataques cibernéticos, tornando imprescindível a implementação de medidas rigorosas de proteção e sigilo.
Em uma análise comparativa, Suganna et al. (2022) examinaram a adaptação marginal e exatidão dos dispositivos odontológicos elaborados por meio dos sistemas CAD/CAM. Como resultado desse estudo, apontaram que o desempenho é superior em relação às estruturas confeccionadas pelo fluxo tradicional, apresentando o selamento marginal favorável, ausência de degraus e sem comprometimento dos tecidos periodontais adjacentes.
Entretanto, Amornvit et al. (2020) e Erozan e Ozan (2020) salientam que em elementos com preparo que exibem margens profundas nos tecidos de esmalte ou dentina, a etapa de escaneamento pode apresentar desvantagem devido a dificuldade na detecção dessas margens, resultando em uma precisão deficiente entre o término do preparo e a microestrutura e comprometendo diretamente o desempenho da estrutura fabricada. Portanto, é importante avaliar as condições do elemento em que se planeja submeter a uma restauração produzida via CAD/CAM, para evitar falhas da exatidão marginal.
Ademais, Leal et al. (2024) relatam que a utilização do fluxo digital demonstra resultados superiores no quesito conforto do paciente, previsibilidade e exatidão marginal dos dispositivos reabilitadores. Contudo, Freitas et al. (2022), Zamprogno (2024), Mishra e Chowdhary (2021) reforçam que o método convencional de fabricação ainda mantém significância ao se tratar de casos complexos, limitações econômicas do paciente ou do dentista para a aquisição dos equipamentos adequados, além da necessidade de ensaios clínicos a longo prazo.
No que tange a seleção dos materiais, Nihei et al. (2020) enfatizam que a seleção do material ideal para a confecção das restaurações via CAD/CAM é um dos fatores essenciais para assegurar o sucesso do tratamento. Além disso, Rexhepi et al. (2023) e Pjetursson et al. (2023) acrescentam que o desempenho clínico dos materiais empregados nestes sistemas deve ser avaliado e considerado durante o planejamento individualizado dos pacientes uma vez que, as propriedades são fatores determinantes na escolha adequada.
Sob essa perspectiva, Saravi et al. (2021) e Jurado et al. (2022) defendem que as cerâmicas demonstram excelente biocompatibilidade com os tecidos orais por promover um baixo acúmulo de placa bacteriana em suas superfícies vitrificadas, além de alta estética e estabilidade de cor. A seleção dos materiais cerâmicos, em especial a zircônia e dissilicato de lítio, ocorre devido suas grandiosas propriedades mecânicas e estéticas, que elevam a qualidade das peças protéticas.
Entretanto, Aswal et al. (2023) lembram que os materiais CAD/CAM compostos totalmente por cerâmicas não se isentam de complicação relacionados aos ajustes internos entre o remanescente dental e a restauração, dificuldades no processo de adesividade, comprometimento da integridade marginal e microinfiltração. Além disso, podem acarretar hipersensibilidade nos elementos vitais quando comparado aos materiais de fabricação convencional.
No que se refere à utilização dos scanners intraorais Saeed, Alaghbari e Lin (2023) destacam que a sua aplicabilidade é essencial para a prática clínica, pois permite a obtenção de modelos no formato digital que anulam a necessidade de moldagens convencionais, proporcionando maior precisão, rapidez além de promover maior conforto para o paciente. De forma complementar, o estudo de Zheng et al. (2024) demonstra que a precisão do escaneamento intraoral é comparável, e em alguns casos superior, à técnica obtida por moldagens convencionais, especialmente em próteses fixas unitárias e parciais.
Nesse mesmo sentido, Giachetti et al. (2020) e Viana (2025) acrescentam que apesar das inúmeras vantagens a precisão dos scanners intraorais ainda ocorrem variações significativas, principalmente em situações clínicas mais complexas, como o escaneamento de mandíbulas totalmente edêntulas. Esses autores destacam ainda que, embora a digitalização de modelos desdentados por meio de IOS seja uma alternativa promissora, os resultados disponíveis evidenciam discrepâncias relevantes na acurácia dos dispositivos, o que demonstra a necessidade de aperfeiçoamentos antes que essa técnica possa ser amplamente recomendada para tais casos.
De forma adicional, Achmadi et al. (2025), Ferro et al. (2024) e Auduc et al. (2025) ressaltam que a captura de imagens em rebordos alveolares edêntulos permanece um desafio, visto que a mucosa apresenta mobilidade, flexibilidade e variações anatômicas que interferem na leitura óptica. Aliado a isso, o reflexo em áreas lisas e brilhantes pode ocorrer distorções durante o processo de digitalização. De forma semelhante, são observadas divergências nas técnicas e limitações que variam de acordo com cada modelo de scanners, não havendo ainda consenso entre os estudos que selecionam um sistema superior. Além disso, ainda existem variações nos protocolos para escaneamento de pacientes.
Quanto à utilização da impressora 3D, Bud et al. (2021) destacam que a incorporação dessa tecnologia nos consultórios odontológicos permite a finalização de trabalhos mais rápidos, oferece mais opção de tratamentos, menor custo, respondendo melhor às necessidades específicas de cada paciente, e facilita a integração de trabalho digital e impressão na prática. Quando necessário é possível ainda a reparação de determinados trabalhos de forma mais fácil, uma vez que os dados se encontram armazenados em formato digital.
De maneira complementar, Dewan (2023) acrescenta que a impressão tridimensional possibilita a obtenção de trabalhos com uma ampla variação de materiais, baixo custo e menores erros. Por outro lado, Khorasani et al. (2025) advertem que falhas nas impressões podem afetar a qualidade final dos trabalhos relacionados a distorções, posicionamentos e contração volumétrica.
Ademais, Elmarakeby et al. (2024), Grippaudo (2022) e Alaoffey et al. (2024) afirmam que a agregação das inovações tecnológicas como scanner, CAD/CAM e impressão 3D possibilitou a troca facilitada de informações entre as especialidades odontológicas, e dos dentistas com os laboratórios e pacientes. Somando a isso, essas ferramentas favorecem a realização de diagnósticos precisos ao promover a visualização tridimensional das estruturas orais, além de auxiliar no planejamento minimizando os erros de conduta clínica.
Diante desse cenário, Abdulkarim et al. (2024), Corsalini et al. (2024), Pachiou et al. (2025), Borges et al. (2023) e Spalthoff et al. (2022) acrescentam que apesar dos desafios associados ao custo inicial, curva de aprendizado e limitações em casos complexos, as vantagens relacionadas à precisão, confiabilidade dos resultados conforto do paciente e comunicação interdisciplinar tornam essa abordagem uma ferramenta indispensável. Assim, o sucesso do método depende da capacitação do profissional e da correta indicação clínica, consolidando o equilíbrio entre tecnologia e habilidade técnica.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os avanços tecnológicos e científicos, como a incorporação dos sistemas CAD/CAM, os scanners intraorais e as impressoras 3D, têm proporcionado, não apenas a modernização dos processos clínicos e laboratoriais, mas também a ampliação da precisão, previsibilidade e conforto ao paciente durante os procedimentos clínicos.
Diante do presente trabalho conclui-se que na reabilitação oral o uso do fluxo digital oferece vantagens significativas, dentre elas o custo-efetividade e redução do tempo de trabalho, além de diminuir falhas que costumam ocorrer nas moldagens convencionais e resultados mais conservadores. Outro ponto de grande relevância é a facilidade de armazenar e compartilhar os dados digitalmente, o que facilita a comunicação entre os profissionais, garantindo um melhor acompanhamento do processo com mais segurança e atendimentos padronizados.
No entanto, nota-se alguns desafios como alto custo e ausência de padronização em consequência da grande variedade de equipamentos oferecidos no mercado. Além disso, é essencial entender melhor o funcionamento dessas tecnologias para ampliar e aperfeiçoar ainda mais o fluxo digital na odontologia.
Portanto, torna-se fundamental a realização de novas pesquisas que comprovem a eficácia e a confiabilidade de um protocolo totalmente digital para a reabilitação oral, levando ainda em consideração que o sucesso dependerá do equilíbrio entre inovação e conhecimento prático, exigindo do profissional estudo e atualização contínua.
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1 Acadêmicas do curso de Odontologia da Faculdade Multivix – Nova Venécia.
