SICKLE CELL ANEMIA AND PEDIATRIC NURSING: ANALYSIS OF THE ROLE OF PEDIATRIC NURSING IN THE TREATMENT OF CHILDREN WITH SICKLE CELL ANEMIA
ANEMIA FALCIFORME Y ENFERMERÍA PEDIÁTRICA: ANÁLISIS DEL PAPEL DE LA ENFERMERÍA PEDIÁTRICA EN EL TRATAMIENTO DE NIÑOS CON ANEMIA FALCIFORME
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510070529
Daniela Ferreira Peixoto; Francidalva Oliveira da Silva; Ingrid dos Santos Cruz; Kássia Cirino Costa Chaves; Raquel Lopes dos Santos; Valnira Morais de Sousa Cardoso
RESUMO
A anemia falciforme é uma doença hereditária crônica de alta prevalência no Brasil, especialmente entre populações afrodescendentes, e configura-se como um relevante problema de saúde pública. Suas manifestações clínicas complexas exigem atenção contínua e abordagem multiprofissional desde a infância. Nesse contexto, a enfermagem pediátrica desempenha um papel central no cuidado integral às crianças acometidas, desde o diagnóstico precoce até a promoção da qualidade de vida. Este estudo tem como objetivo analisar a atuação da enfermagem pediátrica no tratamento de crianças com anemia falciforme, destacando suas atribuições, desafios e contribuições. A metodologia utilizada foi uma revisão integrativa de caráter exploratório, com base em 12 artigos publicados entre 2019 e 2025. Os resultados apontam que o enfermeiro atua de forma essencial na vigilância clínica, controle da dor, orientação às famílias e articulação do cuidado multiprofissional. Entretanto, foram identificadas limitações como falta de capacitação específica, escassez de recursos e ausência de protocolos padronizados. Conclui-se que o fortalecimento da formação continuada, a valorização institucional e a implementação de políticas públicas eficazes são fundamentais para qualificar a assistência e garantir um cuidado mais humanizado, seguro e resolutivo às crianças com anemia falciforme.
Palavras-chave: anemia falciforme; enfermagem pediátrica; cuidado infantil; atenção à saúde.
ABSTRACT
Sickle cell anemia is a chronic hereditary disease with high prevalence in Brazil, especially among Afro-descendant populations, and constitutes a significant public health issue. Its complex clinical manifestations require continuous attention and a multidisciplinary approach from childhood. In this context, pediatric nursing plays a central role in the comprehensive care of affected children, from early diagnosis to the promotion of quality of life. This study aims to analyze the role of pediatric nursing in the treatment of children with sickle cell anemia, highlighting its responsibilities, challenges, and contributions. The methodology used was an integrative exploratory review based on 12 articles published between 2019 and 2025. The results indicate that nurses play an essential role in clinical surveillance, pain management, family guidance, and coordination of multidisciplinary care. However, limitations such as lack of specific training, resource scarcity, and absence of standardized protocols were identified. It is concluded that strengthening continuing education, institutional recognition, and the implementation of effective public policies are fundamental to improving the quality of care and ensuring more humanized, safe, and effective assistance for children with sickle cell anemia.
Keywords: sickle cell anemia; pediatric nursing; child care; health care.
1 INTRODUÇÃO
A doença falciforme (DF) é considerada um problema relevante de saúde pública, uma vez que se configura como uma das desordens genéticas mais comuns tanto no Brasil quanto no cenário global. Essa condição impacta significativamente o organismo dos indivíduos afetados, manifestando-se desde a infância e ao longo de toda a vida. Sendo uma enfermidade crônica, o DF está associado a múltiplas manifestações clínicas que podem comprometer diversos órgãos, atrapalhando a realização das atividades diárias, afetando a mobilidade e restringindo a vida social, tornando imprescindíveis cuidados contínuos e tratamento especializado desde os primeiros anos de vida (Barbosa, et al. 2022).
Trata-se de uma patologia hereditária, cuja incidência está fortemente relacionada às populações oriundas da África Subsaariana e de países da região mediterrânea. No entanto, devido à miscigenação, a doença faz-se presente em diversos grupos populacionais ao redor do mundo. No Brasil, sua prevalência é maior nas regiões onde há maior concentração de indivíduos negros, uma vez que essa população é mais acometida pela condição (Texeira, et al, 2022).
De acordo com Nascimento et al (2022), o diagnóstico da anemia falciforme é realizado a partir da análise de dados clínicos e laboratoriais, por meio de exames como hemograma, teste de solubilidade, teste de falcização, dosagem de hemoglobina fetal e hemoglobina A2, focalização isoelétrica, imunoensaio e triagem neonatal. Entre as principais complicações associadas ao DF estão o Acidente Vascular Cerebral (AVC), os Ataques Isquêmicos Transitórios (AIT), os infartos cirúrgicos silenciosos, a redução do desempenho neuropsicológico, além de complicações pulmonares agudas, como a asma, a Síndrome Torácica Aguda (SCA) e um risco elevado de tromboembolismo.
Durante muito tempo, o tratamento da anemia falciforme esteve restrito à atuação médica, sobretudo dos especialistas em hematologia, o que afastava esses pacientes do atendimento na Atenção Primária à Saúde. No entanto, a realização precoce de exames, especialmente o teste do pezinho, realizado pela equipe de enfermagem, é fundamental. Esse exame possibilita a identificação rápida da Doença Falciforme, permitindo a implementação antecipada dos cuidados de saúde, o que contribui para a redução da morbimortalidade infantil e juvenil associada a essa condição (Barbosa, et al. 2022).
Diante desse contexto, destaca-se a importância do papel desempenhado pela equipe de enfermagem no cuidado a esses pacientes. Atuando em diferentes níveis de atenção à saúde, os profissionais de enfermagem podem contribuir significativamente para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos com DF, auxiliando na adesão ao tratamento e na minimização dos impactos da doença. Além disso, ao compreender a natureza das manifestações clínicas e das estratégias terapêuticas disponíveis, torna-se possível promover maior longevidade e bem-estar a esses pacientes (Marques; Schetine; Assunção, 2020).
Para tanto, de acordo com os autores Nascimento et al. (2022), a atuação da enfermagem pediátrica no tratamento da anemia falciforme não se restringe apenas à assistência hospitalar, mas se estende à atenção primária e à orientação contínua dos cuidadores, promovendo estratégias de prevenção e controle das complicações. O manejo adequado da doença desde a infância é essencial para minimizar impactos negativos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Ademais, o presente estudo tem como objetivo analisar o papel da enfermagem pediátrica no tratamento de crianças com anemia falciforme, considerando sua importância na assistência, no controle de sintomas e na promoção do bem-estar desses pacientes. Para isso, busca-se responder à seguinte questão de pesquisa: “Como a enfermagem pediátrica pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida das crianças com anemia falciforme e quais são os desafios enfrentados nessa atuação?”.
Diante disso, este estudo se justifica pela necessidade de evidenciar e fortalecer a importância da assistência de enfermagem no tratamento da anemia falciforme em crianças, contribuindo para a compreensão das práticas mais eficazes no cuidado desses pacientes. Ao abordar esse tema, busca-se não apenas ampliar o conhecimento científico sobre a enfermagem no manejo da AF, mas também reforçar a relevância da capacitação contínua dos profissionais da área, garantindo uma assistência mais qualificada e impactando positivamente na saúde e bem-estar das crianças acometidas pela doença.
Assim sendo, este artigo pretende oferecer uma análise aprofundada sobre a atuação da enfermagem pediátrica no contexto da anemia falciforme, destacando os desafios, os planejamentos adotados e os benefícios dessa prática na assistência à saúde infantil. Ao fazê lo, espera-se contribuir para uma melhor compreensão da relevância dos cuidados de enfermagem e para o desenvolvimento de estratégias que promovam um atendimento mais humanizado e eficaz a essa população.
2 METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter exploratório, realizada a partir de produções científicas disponíveis nas seguintes bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Base de Dados de Enfermagem (BDENF), plataforma SciELO Brasil (SciELO) e Google Acadêmico. A revisão integrativa é uma metodologia que permite a síntese de estudos anteriores de maneira organizada e crítica, proporcionando uma análise aprofundada e abrangente sobre o tema em questão, com vistas à construção de um conhecimento mais sólido e fundamentado.
Para direcionar a investigação, foi adotada a estratégia PICo, na qual “P” refere-se à população: crianças com anemia falciforme; “I” ao fenômeno de interesse: atuação da enfermagem pediátrica no cuidado à saúde dessas crianças; e “Co” ao contexto: Ambiente da atenção à saúde, incluindo os níveis primário e hospitalar.
A questão norteadora que guiou a pesquisa foi: “Como a enfermagem pediátrica pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida das crianças com anemia falciforme e quais são os principais desafios enfrentados nessa atuação?”. Para responder a essa questão, foram estabelecidos como critérios de inclusão os estudos publicados entre os anos de 2019 e 2025, disponíveis gratuitamente e na íntegra, escritos nos idiomas português, inglês ou espanhol, e que abordassem diretamente a assistência de enfermagem a pacientes pediátricos com anemia falciforme. Foram excluídos os artigos repetidos, os que não atendiam ao período estabelecido, os que não estavam disponíveis gratuitamente e aqueles cujo conteúdo não estava relacionado diretamente ao objeto de estudo.
A coleta de dados ocorreu entre os meses de março e maio de 2025. No total, foram identificadas 264 publicações, distribuídas da seguinte forma: 144 no Google Acadêmico, 48 na MEDLINE, 36 na SciELO e 36 na BDENF. Após aplicação rigorosa dos critérios de exclusão, foram eliminados 198 estudos por estarem fora do recorte temporal ou por não atenderem ao idioma definido, 36 por duplicidade e 18 por estarem inacessíveis. Com isso, a amostra final foi composta por 12 artigos científicos que atenderam plenamente aos critérios definidos.
A seleção dos artigos seguiu inicialmente a leitura dos títulos e resumos, sendo posteriormente realizada a leitura completa dos textos selecionados. As informações relevantes foram organizadas em um quadro-síntese contendo dados como título, autores, ano de publicação, periódico, tipo de estudo, objetivos e principais achados. A análise dos dados foi conduzida de forma descritiva e qualitativa, permitindo a elaboração de uma visão crítica e abrangente sobre o papel da enfermagem pediátrica no cuidado à criança com anemia falciforme. A partir dos achados, foi possível estruturar a discussão em torno de três eixos temáticos principais: as manifestações clínicas e complicações da doença, a atuação da enfermagem pediátrica na assistência e os desafios enfrentados por esses profissionais na prática cotidiana.
3 RESULTADOS
Por meio da coleta de dados, identificou-se inicialmente 264 publicações para análise no presente estudo. No entanto, 198 desses foram excluídos por conta do ano de publicação, visto que o recorte temporal foi entre os anos de 2019 a 2025.. Além disso, 36 estudos foram descartados devido à duplicação de informações e 18 publicações estavam com links inativos ou não estavam disponíveis gratuitamente.
Após uma análise detalhada, somente 12 artigos atenderam aos critérios estabelecidos. Dessa forma, para facilitar a compreensão do processo de seleção dos artigos foi construído o fluxograma abaixo (Figura 1):
Figura 1: Fluxograma do processo de seleção dos artigos pesquisados.

Fonte: Autoria própria (2025)
Conforme ilustrado na Figura 01, após a análise foram escolhidos doze estudos, dos quais quatro estavam indexados no Google Acadêmico, três nas bases MEDLINE, dois na plataforma SCIELO, respectivamente, e três na BDENF. Para facilitar a identificação dos estudos selecionados, foi elaborado o Quadro 01.
Quadro 1: Distribuição e organização dos artigos selecionados considerando título, autores, ano, periódico, tipo de estudo e objetivos.
| Nº DE IDENTIFIC | TÍTULO | AUTOR/ANO | PERIÓDICO |
| 1 | Abordagens avançadas na assistência de enfermagem a crianças com anemia falciforme: desafios e perspectivas | BARBOSA, Amanda Cristhina Silva. et al. 2023. | Antena Editora |
| 2 | A atuação de enfermagem junto ao paciente portador de anemia falciforme | BARBOSA, Katiuscia Nascimento Borges. et al., 2022 | Facit Business and Technology Journal |
| 3 | Os desafios da assistência de enfermagem à criança portadora de anemia falciforme | CARDOSO, Celildes Cortes. et al., 2020 | Centro Universitário Estácio de Goiás |
| 4 | O enfrentamento do tratamento da doença falciforme: desafios e perspectivas vivenciadas pela família | CUNHA, Brenda do Socorro Gomes da. et al., 2020 | Universidade de Costa Rica |
| 5 | Anemia falciforme: manifestações clínicas e diagnósticos laboratoriais | FONSECA, Edna; BORGES, Alessandra, 2024 | Revista Ibero Americana de Humanidades, Ciências e Educação |
| 6 | Assistência de enfermagem no manejo da dor em crianças com anemia falciforme: uma revisão integrativa | FREIRE, Ana Karla da Silva. et al., 2020 | Revista Pesquisa, Sociedade e Desenvolvimento |
| 7 | Assistência de enfermagem ao portador da anemia falciforme | JESUS, Mayra Nunes de. et al., 2023 | Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro |
| 8 | Assistência de enfermagem à criança com anemia falciforme: revisão narrativa | MARQUES, Lucas Matos; SCHETINE, Nathálya Freires; ASSUNÇÃO, Vanuza Rodrigues da., 2020 | Revista Rumos da inFormação |
| 9 | Aplicação do processo de enfermagem ao paciente acometido por anemia falciforme: relato de experiência | NASCIMENTO, João Matheus Ferreira do. et al., 2022 | Revista Eletrônica Acervo Saúde |
| 10 | Assistência de enfermagem ao paciente portador de anemia falciforme | OLIVEIRA, Andrezza Cristina Fernandes de. et al., 2019 | Revista Brasileira de Saúde |
| 11 | Manejo familiar de crianças que vivenciam a doença falciforme: um estudo qualitativo | SANTOS, Maiara Rodrigues dos. et al., 2020 | Revista Brasileira de Enfermagem |
| 12 | Protocolo de enfermagem à criança com doença falciforme na emergência: uma abordagem convergente-assistencial | TEXEIRA, Juliane Batista Costa. et al., 2022 | Revista Brasileira de Enfermagem |
Fonte: Autoria própria (2025)
Observa-se na tabela acima que os estudos foram publicados entre os anos de 2019 e 2024, com predominância em 2020, que registrou cinco publicações. O ano de 2022 apresentou três estudos, seguido de 2023 com duas publicações, enquanto os anos de 2019 e 2024 apresentaram apenas um estudo cada.
No que diz respeito aos periódicos analisados, observou-se que a maior parte das publicações foi veiculada em revistas científicas direcionadas à área da enfermagem, bem como em periódicos de caráter multidisciplinar, que abrangem diferentes campos do conhecimento, favorecendo uma abordagem integrativa e diversificada sobre os temas em questão .
O Quadro 02, diz respeito ao tipo de estudo, objetivos e principais achados dos artigos que compuseram a amostra desta pesquisa.
Quadro 02: Organização dos artigos a partir de tipo de estudo, objetivos e principais achados.
| Nº DE IDENTIF. | TIPO DE ESTUDO | OBJETIVO | PRINCIPAIS ACHADOS |
| 1 | Revisão da literatura | Explorar as abordagens avançadas na assistência de enfermagem a crianças com anemia falciforme, identificando os desafios enfrentados com o diagnóstico, tratamento e cuidados contínuos | A abordagem multidisciplinar, juntamente com a aplicação de práticas avançadas, torna-se essencial para garantir uma assistência de qualidade e uma melhor qualidade de vida para os pacientes pediátricos afetados por essa condição. |
| 2 | Revisão narrativa | Descrever a atuação da enfermagem frente ao manejo dessa patologia. | A equipe de enfermagem deve manter-se atenta, de modo a atender seus pacientes de maneira integral, respeitando suas crenças e costumes, de modo a aplicar seu conhecimento teórico cientifico a favor da promoção saúde e prevenção de crises. |
| 3 | Pesquisa bibliográfica, descritiva e exploratória | Descrever sobre os desafios da enfermagem na assistência à criança portadora de anemia falciforme. | Existe uma carência de um tratamento específico para a Anemia Falciforme, fazendo-se necessário o precoce diagnóstico possibilitando assim uma melhor sobrevida para criança portadora da doença mostrando a importância de iniciar o tratamento o mais breve possível. |
| 4 | Pesquisa de campo | Compreender a forma de enfrentamento dos familiares frente ao tratamento da doença falciforme | É muito importante refletir sobre a efetividade do tratamento não só do ponto de vista técnico como também sob a ótica do paciente, de sua família e da sociedade. |
| 5 | Revisão de literatura | Analisar as manifestações clínicas, métodos diagnósticos e formas de tratamento da anemia falciforme | As alterações fisiopatológicas da anemia falciforme, podem por vezes intervir seriamente no cotidiano de indivíduos portadores, compreendendo que a identificação precoce é essencial, trazendo uma melhora na qualidade de vida dos pacientes. |
| 6 | Revisão integrativa da literatura | Analisar as estratégias de cuidado de Enfermagem empregadas no manejo da dor em crianças com anemia falciforme | Há o tratamento farmacológico e não farmacológico adequado, além do conhecimento da Enfermagem que previne complicações, bem como a educação das crianças e familiares sobre a doença, que favorece a melhora e adaptação aos sintomas. |
| 7 | Revisão de literatura | Descrever a assistência de enfermagem ao portador da anemia falciforme. | A absorção de conhecimentos acerca da doença falciforme pelos profissionais de enfermagem é de suma importância para orientação e assistência ao paciente acometido dessa enfermidade e também à família. |
| 8 | Revisão narrativa | Identificar o papel do enfermeiro na assistência prestada a esses pacientes do nascimento até o fim da vida, e podendo assim melhorar a qualidade de vida desses pacientes. | Os cuidados de enfermagem são de extrema importância para que as crianças acometidas com a doença falciforme tenham a oportunidade de ter uma expectativa de vida saudável. |
| 9 | Relato de experiência | Relatar a experiência de acadêmicos de enfermagem na execução do processo de enfermagem adotando as taxonomias NANDA, NIC e NOC aplicadas a paciente acometido por anemia falciforme | O presente estudo possibilitou a aplicabilidade prática do Processo de Enfermagem, proporcionando assistência ampliada e centrada na melhora do quadro clínico atual e da qualidade de vida. |
| 10 | Revisão de literatura | Relatar a importância dos cuidados em enfermagem na prestação de assistência ao paciente portador de anemia falciforme, evitando assim os fatores desencadeantes das crises provocadas pela doença. | O enfermeiro tem um papel importante devendo estar informado e capacitado para prestar assistência a esse paciente, evitando os fatores desencadeantes das crises, além de educar o paciente sobre sua patologia, para que, eles mesmos, consigam lidar melhor com sua condição. |
| 11 | Estudo de caso | Conhecer a experiência de manejo familiar de crianças com doença falciforme | O conhecimento sobre o manejo familiar de crianças com doença falciforme propiciou a reflexão sobre a atuação do enfermeiro no apoio, orientações e estímulo para o empoderamento destas famílias visando à busca de um cuidado integral. |
| 12 | Pesquisa de campo | Descrever o processo metodológico de elaboração de um protocolo assistencial de enfermagem para crianças com doença falciforme na emergência. | a Pesquisa Convergente Assistencial mostrou-se como excelente procedimento metodológico para intervenção no serviço de saúde, cujo protocolo assistencial de enfermagem partiu das reflexões dos profissionais sobre as práticas baseadas em evidências, em que consensos podem possibilitar uma assistência segura e de qualidade. |
Fonte: Autoria própria (2025)
Os estudos analisados evidenciam uma diversidade metodológica significativa, com predominância de revisões de literatura, seguidas por pesquisas de campo, estudo de caso e relato de experiência, refletindo a complexidade e abrangência do cuidado de enfermagem à pessoa com anemia falciforme.
Os objetivos dos trabalhos concentram-se na qualificação da assistência, na identificação de estratégias de manejo da dor, na atuação familiar, na aplicação de protocolos clínicos e na valorização do processo de enfermagem. Os principais achados apontam para a importância do diagnóstico precoce, da atuação humanizada e integral da enfermagem, da educação em saúde para famílias e pacientes, além da necessidade de estratégias bem definidas para o manejo da dor e prevenção de crises.
Para tanto, a partir da análise detalhada dos estudos previamente selecionados, torna-se viável realizar uma discussão mais ampla acerca das contribuições específicas da enfermagem no âmbito da assistência prestada às pessoas portadoras de anemia falciforme.
4. DISCUSSÃO
4.1 Conceito, Manifestações Clínicas e Complicações da Anemia Falciforme
A anemia falciforme é uma doença genética que vai além de uma simples alteração no sangue, configurando-se como um grave problema de saúde pública tanto no Brasil quanto no mundo. Ela é caracterizada por uma mutação no gene da beta-globina, que é responsável pela codificação da hemoglobina, uma proteína essencial para o transporte adequado de oxigênio pelo organismo. (Barbora et al. 2022).
Assim, a Anemia Falciforme é considerada um importante problema de saúde pública no Brasil. Segundo estimativas do Ministério da Saúde, entre 60 mil a 100 mil brasileiros vivem com essa doença Esses dados reforçam a necessidade da importância do diagnóstico precoce, da abordagem clínica eficaz e do acompanhamento multiprofissional contínuo para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e prevenir complicações decorrentes da mesmoa.. (Barbora et al. 2022).
4.1.1 Conceito e manifestações clínicas
Trata-se de uma enfermidade hereditária de padrão autossômico recessivo, o que significa que só se manifesta clinicamente quando o indivíduo herda a mutação dos dois genitores. Embora qualquer pessoa possa ser portadora do traço falciforme, a doença manifesta se com mais frequência em populações afrodescendentes e em regiões com histórico de miscigenação intensa. No Brasil, estima-se que aproximadamente 60 mil a 100 mil pessoas vivam com a doença falciforme em sua forma mais grave. (Nascimento et al. 2022).
Segundo Cunha et al. (2020), a principal característica fisiopatológica da anemia falciforme é a falcização dos eritrócitos, que ocorre principalmente em ambientes de hipóxia, acidose ou desidratação. As células falcizadas tornam-se rígidas, menos deformáveis e aderem com facilidade ao endotélio vascular, favorecendo a obstrução da microcirculação. Isso gera episódios recorrentes de dor, conhecidos como crises vaso-oclusivas, além de promover a hemólise crônica.
A anemia falciforme é provocada por uma modificação na estrutura das hemácias, o que faz com que sua vida útil seja reduzida para cerca de 10 a 20 dias. A deformação dessas células ocorre, principalmente, em situações de baixa oxigenação, o que favorece seu agrupamento nos vasos sanguíneos e, consequentemente, a obstrução do fluxo sanguíneo naquela região (Fonseca; Borges, 2024).
Em concordância, Marques, Schetine e Assunção (2020) argumentam que entre os sinais e sintomas mais frequentes, destacam-se a dor óssea, icterícia, palidez, fadiga, taquicardia e susceptibilidade a infecções. A hemólise constante reduz a sobrevida das hemácias para cerca de 20 dias, o que provoca anemia crônica. A icterícia, por sua vez, está relacionada ao acúmulo de bilirrubina indireta no organismo, decorrente da destruição acelerada dos glóbulos vermelhos.
Fonseca e Borges (2024) expõe também que as manifestações clínicas da anemia falciforme são bastante variáveis, indo desde indivíduos assintomáticos até casos graves que requerem hospitalizações frequentes. Pessoas com a forma homozigótica da doença (SS) tendem a apresentar sintomas mais intensos, enquanto aquelas com a forma heterozigótica (AS) geralmente são assintomáticas. Em recém-nascidos, os sinais clínicos costumam surgir após os seis meses de vida, quando há queda natural nos níveis de hemoglobina fetal (HbF). Um dos primeiros sinais comuns é a dactilite falcêmica, ou síndrome mão-pé, caracterizada por dor e inflamação nas extremidades.
As crises dolorosas são manifestações frequentes e ocorrem principalmente devido à obstrução dos vasos sanguíneos por hemácias deformadas, afetando áreas como o abdome, a coluna e os membros. Esse processo de vaso-oclusão é fundamental para o surgimento de várias complicações, como síndrome torácica aguda, úlceras, necrose óssea, priapismo, acidente vascular cerebral, entre outras. A destruição acelerada das hemácias, conhecida como hemólise, também contribui para os sintomas, sendo causada tanto pela fagocitose das células deformadas quanto pela análise dessas células na circulação. Com o tempo, os episódios recorrentes de vaso-oclusão provocam fibrose e atrofia do baço, o que reduz sua função e impede o aumento de seu volume, comum em outras anemias. (Fonseca; Borges, 2024).
Freire et al. (2020) explicam que as crises dolorosas representam o sintoma mais debilitante da doença e podem ocorrer de forma espontânea ou em resposta a fatores desencadeantes, como infecções, mudanças bruscas de temperatura, esforço físico e estresse. Além disso, a função esplênica pode ser comprometida progressivamente devido a infartos repetidos no baço, o que compromete a imunidade contra agentes infecciosos, especialmente bactérias encapsuladas.
4.1.2 Complicações Associadas à Anemia Falciforme
Segundo Texeira et al. (2022), a anemia falciforme é uma doença sistêmica e multiorgânica, capaz de desencadear diversas complicações agudas e crônicas. Dentre as complicações agudas, destaca-se a síndrome torácica aguda, caracterizada por dor torácica, febre, hipoxemia e infiltrado pulmonar visível em exames radiológicos. Essa condição é considerada uma emergência médica, com elevado risco de óbito se não tratada adequadamente.
Outra complicação de grande relevância clínica é o acidente vascular cerebral (AVC), resultante da obstrução de vasos cerebrais por células falcizadas. Essa condição pode afetar crianças e adultos, e seu risco pode ser identificado por meio de exames como o doppler transcraniano. Casos recorrentes exigem estratégias profiláticas, como transfusões regulares de sangue (Cunha et al. 2020).
Além do acidente vascular cerebral (AVC), entre as complicações mais graves da anemia falciforme estão a síndrome torácica aguda, infecções recorrentes, necrose óssea e sequestro esplênico agudo, uma emergência médica que pode levar ao choque hipovolêmico e morte se não for tratada rapidamente. Além disso, pacientes podem apresentar úlceras crônicas, priapismo, alterações oculares que podem causar cegueira, além de distúrbios no crescimento e desenvolvimento puberal. A anemia crônica, consequência da destruição precoce das hemácias, é outro fator que agrava o estado geral do paciente (Jesus et al. 2023).
As complicações associadas à anemia falciforme evidenciam a necessidade de uma atuação qualificada e proativa por parte da enfermagem. Diante de quadros clínicos potencialmente letais, o enfermeiro deve exercer vigilância contínua, reconhecer precocemente sinais de agravamento e integrar-se de forma efetiva à equipe multiprofissional. Essas exigências reforçam a importância da capacitação técnica constante e da valorização do julgamento clínico na prática assistencial.
Ainda de acordo com Jesus et al (2023), essas complicações exigem vigilância constante e cuidados especializados. Como a doença não tem cura, o manejo clínico visa a prevenção e o tratamento das manifestações, com destaque para o papel essencial da equipe de enfermagem na identificação precoce dos sinais de agravamento, na administração de terapias e na educação do paciente e sua família. A intervenção oportuna pode reduzir os impactos das crises e melhorar significativamente a sobrevida e a qualidade de vida das pessoas afetadas
O sequestro esplênico é uma complicação grave, caracterizada pela retenção de grande volume de sangue no baço, com consequente queda da pressão arterial e risco de choque hipovolêmico. Essa condição é mais comum em pacientes jovens e requer intervenção médica imediata. Com o tempo, é comum que o baço se torne atrófico, comprometendo ainda mais a defesa imunológica do organismo. (Barbora et al. 2022).
Em relação ao sistema renal, Oliveira et al. (2019) observa que o desenvolvimento da nefropatia falciforme, que pode incluir hematúria, proteinúria e, em casos avançados, insuficiência renal crônica. As alterações hepáticas também são comuns, sobretudo em pacientes submetidos a múltiplas transfusões, em razão da sobrecarga de ferro e risco de hemossiderose. Além do mais, complicações oftalmológicas, como a retinopatia proliferativa, podem ocorrer devido à obstrução da microcirculação da retina, podendo levar à cegueira. Já no sistema musculoesquelético, são frequentes os episódios de osteonecrose, principalmente em articulações de carga, como quadril e ombros.
Dessa forma, de acordo com Cunha et al. (2020), além das manifestações orgânicas, destaca-se o impacto psicossocial da doença. A dor crônica, as limitações funcionais e a frequência de hospitalizações podem afetar o bem-estar emocional, gerando quadros de ansiedade, depressão e isolamento social. Por essa razão, é indispensável uma abordagem integral, que inclua o suporte psicológico e a inserção social dos pacientes.
Assim, de acordo com o exposto, é possível ressaltar o papel fundamental da equipe de enfermagem na vigilância e intervenção precoce para minimizar riscos, bem como a necessidade de cuidados que abrangem não só os aspectos físicos, mas também os impactos psicossociais da doença. Essa abordagem integral é essencial para melhorar a qualidade de vida e o prognóstico dos pacientes, mostrando que o tratamento vai muito além do controle dos sintomas, incluindo suporte emocional e social.
4.2. O papel da enfermagem pediátrica no tratamento de crianças com anemia falciforme
A assistência de enfermagem pediátrica a crianças com anemia falciforme requer um conjunto de competências técnicas, sensibilidade emocional e preparo específico para lidar com as múltiplas dimensões da doença. Trata-se de uma atuação que perpassa todos os níveis de atenção à saúde e que é fundamental tanto na abordagem das crises agudas quanto na promoção de uma rotina de cuidados contínuos e preventivos. O enfermeiro pediátrico é protagonista no manejo das manifestações clínicas da patologia e, simultaneamente, no acolhimento e orientação da família, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da criança acometida. (Freire et al. 2020).
4.2.1 Responsabilidades e atribuições do enfermeiro no cuidado à criança com anemia falciforme
O enfermeiro tem papel fundamental no cuidado à criança com anemia falciforme, atuando desde a triagem neonatal até o acompanhamento contínuo ao longo da vida. Uma de suas principais responsabilidades é garantir a realização do teste do pezinho entre o 3º e o 7º dia de vida, respeitando os protocolos de coleta para assegurar um diagnóstico precoce. Esse cuidado inicial é essencial para evitar complicações relacionadas ao diagnóstico tardio e iniciar o acompanhamento sistemático das crianças acometidas pela doença (Cardoso et al, 2020).
Segundo Marques, Schetine e Assunção (2020), entre as atribuições centrais do enfermeiro está o acompanhamento rigoroso do estado clínico da criança, com foco especial na identificação precoce de sinais de agravamento, como febre, palidez acentuada, dores intensas ou sintomas neurológicos. Esses sinais podem indicar crises vaso-oclusivas, infecções ou outras complicações graves, como o acidente vascular cerebral, situações que requerem resposta rápida da equipe de saúde. O enfermeiro é responsável pela administração e pelo controle de medicamentos analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos, além da observação contínua dos parâmetros clínicos da criança, como temperatura, frequência cardíaca e nível de dor relatado ou observado.
No que tanto ao acompanhamento contínuo, Cardoso et al (2020) expõe que o enfermeiro é responsável por monitorar sinais e sintomas característicos da doença, como crises dolorosas, febre, palidez e alterações respiratórias, além de atuar na prevenção de complicações agudas e crônicas. Sua atuação inclui a execução de cuidados clínicos, administração de medicamentos profiláticos, atualização do calendário vacinal e orientação quanto à importância do retorno regular às consultas. Dessa forma, o enfermeiro contribui para a redução das hospitalizações e melhora da qualidade de vida da criança.
Outro eixo importante da atuação é a implementação de medidas não farmacológicas para o controle da dor e promoção do conforto, como posicionamento adequado, aplicação de calor local e apoio emocional. A escuta atenta e empática, aliada ao acolhimento das queixas da criança, é uma das estratégias que humaniza o cuidado e favorece a criação de vínculo terapêutico. Isso é especialmente importante em pediatria, considerando que crianças pequenas muitas vezes não conseguem verbalizar com clareza seus sintomas ou desconfortos. (Barbora et al. 2022).
A educação em saúde é outro aspecto fundamental da prática da enfermagem pediátrica frente à anemia falciforme. O enfermeiro atua como educador permanente da família, orientando quanto à importância da adesão ao tratamento, à manutenção de uma hidratação adequada, à alimentação balanceada, aos sinais de alerta e às medidas preventivas, como a vacinação e o uso regular de penicilina oral em crianças até os cinco anos de idade. Também cabe ao enfermeiro reforçar a importância do acompanhamento ambulatorial regular e do cumprimento do calendário de exames e consultas especializados. (Freire et al. 2020).
Oliveira et al. (2019) expõem que o profissional de enfermagem também desempenha papel estratégico na triagem neonatal, especialmente com a realização e acompanhamento do teste do pezinho, que permite o diagnóstico precoce da doença e o início imediato do plano de cuidados. A atuação precoce reduz de forma significativa os índices de morbimortalidade infantil relacionados à anemia falciforme. A partir do diagnóstico, o enfermeiro participa da elaboração de um plano terapêutico individualizado, considerando não apenas os aspectos clínicos, mas também sociais, familiares e culturais que cercam a criança.
Nos ambientes hospitalares e ambulatoriais, o enfermeiro também atua na coordenação do cuidado multiprofissional, articulando ações com médicos, psicólogos, assistentes sociais e nutricionistas. Essa articulação é fundamental para garantir um cuidado integral e contínuo à criança com anemia falciforme, especialmente nas fases críticas da doença ou em situações de internação prolongada. Nessas ocasiões, o enfermeiro é responsável por identificar necessidades emergentes e adaptar a assistência de forma dinâmica, garantindo segurança, acolhimento e qualidade ao atendimento. (Oliveira et al. 2019).
Segundo exposto por Freire et al. (2020), outro aspecto importante do trabalho da enfermagem é o incentivo ao autocuidado e à autonomia progressiva da criança e de sua família. Por meio de ações educativas, o enfermeiro ajuda a desenvolver nas famílias competências para o manejo das intercorrências e para a tomada de decisão diante de episódios de dor ou outros sintomas. Esse processo inclui também o apoio psicossocial, já que a doença falciforme tem impacto significativo no bem-estar emocional da criança e de seus cuidadores.
Ademais, o enfermeiro atua em conjunto com a equipe multiprofissional na elaboração de planos de cuidado individualizados, considerando as condições clínicas e sociais da criança. Sua escuta qualificada e capacidade de estabelecer vínculo com a família possibilitam a identificação precoce de vulnerabilidades, contribuindo para intervenções oportunas e direcionadas. Essa atuação integrada, somada à capacitação técnica e sensibilidade social do enfermeiro, é indispensável para garantir um acompanhamento integral, seguro e resolutivo às crianças com anemia falciforme (Cardoso, et al. 2020).
Para tanto, a enfermagem desempenha um papel central nas ações de promoção da saúde e prevenção de agravos, atuando de forma contínua na sensibilização da comunidade sobre a doença e na valorização do cuidado integral à criança com anemia falciforme. Por meio da formação continuada, atualização científica e compromisso ético, os profissionais de enfermagem fortalecem sua atuação como agentes de transformação na vida das crianças afetadas e de suas famílias.
4.3 Principais desafios enfrentados pelos profissionais de enfermagem na assistência a crianças com anemia falciforme.
O diagnóstico precoce é um dos grandes desafios enfrentados pela enfermagem. Apesar da obrigatoriedade do teste do pezinho no Brasil, uma série de fatores comprometem a detecção e o início rápido do tratamento a anemia falciforme. Nesse contexto, a atuação do profissional de enfermagem deve ser pautada na observação contínua e em práticas que auxiliem no acompanhamento de crianças com essa anemia (Barbosa, 2023).
Texeira et al. (2022) argumentam também que a assistência de enfermagem a crianças com anemia falciforme impõe uma série de desafios de natureza técnica, emocional e institucional, exigindo do profissional competências específicas e uma abordagem centrada no cuidado integral. Dentre os principais entraves observados na prática, destaca-se a dificuldade na identificação e manejo da dor, especialmente em crianças menores, cuja limitação cognitiva compromete a comunicação eficaz de sintomas. Nesses casos, o enfermeiro precisa desenvolver sensibilidade clínica e habilidades de observação refinadas para interpretar sinais não verbais, o que demanda constante capacitação e atualização profissional.
Dessa forma, o enfermeiro exerce uma função essencial no monitoramento da Doença Falciforme, uma vez que possui capacidade para reconhecer os sinais e sintomas característicos da enfermidade, garantindo a continuidade dos cuidados estabelecidos nas diretrizes clínicas. Além disso, pode participar ativamente no desenvolvimento e na implementação de estratégias voltadas à redução da frequência e da intensidade das crises. Cabe também ao enfermeiro incentivar o paciente a assumir um papel ativo e consciente na gestão de sua própria condição de saúde (Barbosa, 2023).
Além da complexidade do quadro clínico, a insuficiência de formação específica sobre o manejo da dor em contextos pediátricos e sobre terapias adjuvantes, como o uso correto da hidroxiureia e de medidas não farmacológicas, compromete a qualidade da assistência prestada. Mesmo quando os profissionais dominam os protocolos clínicos, muitas vezes se deparam com práticas familiares inadequadas, como a automedicação ou o uso de terapias alternativas sem respaldo científico. Isso exige do enfermeiro não apenas conhecimento técnico, mas também competência comunicacional para orientar os cuidadores de maneira clara, empática e baseada em evidências. (Texeira et al. 2022).
Outro fator crítico refere-se às limitações socioeconômicas enfrentadas pelas famílias, que impactam diretamente a adesão ao tratamento e ao acompanhamento ambulatorial. Muitas crianças não conseguem manter a regularidade nas consultas especializadas em razão de dificuldades logísticas, financeiras ou mesmo pela ausência de compreensão sobre a gravidade da enfermidade. Nesse sentido, o profissional de enfermagem assume um papel estratégico na articulação entre os níveis de atenção à saúde, promovendo encaminhamentos, orientações educativas e ações de vigilância em saúde, embora muitas vezes sem o devido suporte institucional ou intersetorial. (Oliveira et al. 2019).
Tais argumentos evidenciam que o cuidado à criança com anemia falciforme exige do enfermeiro uma atuação ampla e sensível. Além das demandas técnicas, como o manejo da dor e o uso correto de terapias, o profissional precisa lidar com barreiras comunicacionais, culturais e socioeconômicas. Isso reforça a importância da formação contínua, da empatia na orientação às famílias e da articulação com a rede de saúde, mesmo diante da falta de suporte institucional adequado.
Além do exposto até o momento, Cardoso et al (2020 p. 04) argumentam que o maior desafio da enfermagem na assistência à criança portadora de anemia falciforme, vem da falta de conhecimento adquirido acerta da doença. A enfermagem é composta por profissionais que lidam de perto com o paciente, sendo a educação em saúde a base para reduzir os agravos decorrentes de doenças.
Assim, ao apontarem a falta de conhecimento como o maior desafio, os autores evidenciam que, mesmo estando na linha de frente do cuidado, muitos enfermeiros ainda não dominam aspectos fundamentais da patologia. Isso reforça a importância da educação continuada e do investimento em capacitação técnica, especialmente considerando que a educação em saúde é uma das principais ferramentas para prevenir complicações e promover a qualidade de vida desses pacientes.
De acordo com Marques, Schetine e Assunção (2020), a atuação do enfermeiro também é atravessada por questões estruturais e organizacionais do sistema de saúde, como a sobrecarga de trabalho, a escassez de recursos humanos e a desarticulação entre os serviços. A ausência de fluxos assistenciais bem definidos e de protocolos compartilhados entre as equipes multiprofissionais compromete a continuidade e integralidade do cuidado. Nesse contexto, a enfermagem encontra-se frequentemente sobrecarregada, sendo responsabilizada por múltiplas funções sem que haja, proporcionalmente, condições adequadas para sua execução plena.
A complexidade da anemia falciforme exige uma abordagem integrada que envolva, além dos enfermeiros, médicos, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais. No entanto, muitas vezes os encaminhamentos multidisciplinares são insuficientes ou ineficazes. Isso compromete não apenas o alívio da dor e o controle das crises, mas também o suporte emocional e social da criança e de sua família, que enfrenta dificuldades constantes no cotidiano e precisa de apoio abrangente (Ramos et al, 2024)
A dimensão psicossocial da assistência representa mais um desafio relevante. A convivência diária com crianças em sofrimento crônico, associada à incerteza quanto à evolução clínica e à vulnerabilidade social das famílias, pode desencadear sentimentos de frustração, impotência e desgaste emocional entre os profissionais. (Marques Schetine; Assunção. 2020).
Contudo, Nascimento et al. (2022) explicam que raramente são oferecidos espaços institucionais voltados ao cuidado da saúde mental da equipe de enfermagem, o que compromete o bem-estar e a qualidade da assistência. A ausência de estratégias voltadas à escuta e ao apoio psicológico dos profissionais contribui para o adoecimento laboral e o esgotamento físico e emocional.
Por fim, cabe ressaltar que o enfrentamento dessas adversidades requer políticas públicas eficazes, investimento em educação permanente, fortalecimento da rede de atenção e valorização dos profissionais de saúde. A enfermagem, em sua atuação junto à criança com anemia falciforme, não se limita à execução de procedimentos, mas envolve uma atuação ampliada, ética e humanizada, pautada na integralidade do cuidado e no compromisso com a promoção da saúde e da qualidade de vida desses pacientes e de suas famílias (Santos et al. 2019).
5. CONCLUSÃO
O estudo sobre a atuação da enfermagem pediátrica no tratamento de crianças com anemia falciforme revela uma articulação complexa entre as exigências clínicas da doença e o papel estratégico desses profissionais no cuidado contínuo. A análise dos dados evidencia que, embora a enfermagem seja parte central do acompanhamento dessas crianças, sua atuação ainda enfrenta desafios estruturais, emocionais e formativos, que comprometem a integralidade e a resolutividade do cuidado prestado.
A enfermagem pediátrica, ao lidar com manifestações clínicas graves e recorrentes, como crises dolorosas e complicações multissistêmicas, assume uma posição indispensável no manejo da dor, na vigilância de sinais clínicos, na promoção da saúde e na educação dos cuidadores. No entanto, a ausência de protocolos bem definidos, a limitação de recursos, a sobrecarga de trabalho e a vulnerabilidade socioeconômica das famílias impactam diretamente na efetividade da assistência. Tais condições expõem os profissionais de enfermagem a uma rotina marcada por exigências técnicas e emocionais intensas, exigindo preparo especializado e suporte institucional constante.
Nesse contexto, torna-se imprescindível reconhecer que a atuação da enfermagem não se limita à execução de procedimentos, mas envolve uma prática ampliada, ética e humanizada, que busca acolher não apenas a criança, mas também sua família e seu contexto social. A educação em saúde, a escuta qualificada e o vínculo com os cuidadores são instrumentos fundamentais para fomentar o autocuidado e reduzir o impacto das crises, contribuindo significativamente para a melhoria da qualidade de vida desses pacientes.
Dessa forma, evidencia-se a urgência de políticas públicas que valorizem a formação continuada, incentivem o cuidado integral e assegurem condições de trabalho adequadas aos profissionais de enfermagem. A construção de redes de atenção articuladas, o fortalecimento do trabalho multiprofissional e o investimento na humanização da assistência são medidas fundamentais para que o cuidado prestado às crianças com anemia falciforme seja efetivo, seguro e transformador.
Em síntese, a valorização da enfermagem pediátrica no contexto da anemia falciforme representa um eixo central para a qualificação do cuidado em saúde. Promover suporte técnico, emocional e institucional a esses profissionais é garantir que crianças em condição de vulnerabilidade tenham acesso a uma assistência digna, capaz de acolher suas necessidades e de proporcionar um futuro com mais saúde e qualidade de vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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