ANÁLISE DO PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE ÓBITOS POR INTOXICAÇÃO EXÓGENA NO ESTADO DO PARANÁ DE 2019 A 2023

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202503161049


Pedro Henrique Machado1
Urielly Tayná da Silva Lima2
James Albiero3


RESUMO 

A intoxicação exógena decorre frequentemente do contato com substâncias prejudiciais, como alimentos contaminados, água inadequada, pesticidas, medicamentos e produtos químicos, muitas vezes pela manipulação inadequada ou ausência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). No período de 2019 a 2023, o estado do Paraná registrou 91.932 casos de intoxicação exógena no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), destacando-se como um grande problema para a saúde pública. Trata-se de um estudo ecológico descritivo em série temporal que utilizou dados do SINAN, acessados via Departamento de Informática do SUS (DATASUS), com o objetivo de analisar o perfil epidemiológico dos óbitos por intoxicação exógena no Paraná durante o período mencionado, investigando variações regionais, distribuição por idade, sexo e tipos de agentes tóxicos. A análise dos dados revelou variações significativas nos óbitos por intoxicação exógena no Paraná, totalizando 674 casos. A 2ª Região de Saúde Metropolitana apresentou o maior número de óbitos, com medicamentos identificados como a principal causa. Adultos jovens, especialmente na faixa etária de 20 a 39 anos, foram os mais afetados, com uma prevalência significativa entre as mulheres, embora os óbitos tenham sido mais frequentes entre os homens. A crescente incidência desses casos sublinha a urgência de implementar ações preventivas e educacionais eficazes para mitigar essas fatalidades evitáveis.

PALAVRAS-CHAVES: Intoxicação; Epidemiologia; Notificação de Doenças.

INTRODUÇÃO

A intoxicação exógena é caracterizada por um desequilíbrio orgânico ou condição patológica resultante da interação com substâncias nocivas. Esse desequilíbrio manifesta-se quando o agente tóxico entra em contato com o organismo, desencadeando sinais e sintomas clínicos. Os agentes causadores dessa intoxicação são variados, incluindo alimentos, água, animais peçonhentos, plantas, pesticidas, medicamentos, produtos químicos, entre outros. (ASSUNÇÃO, A. F. et al, 2021)

Além das tentativas de suicídio, há intoxicações que ocorrem de forma acidental, frequentemente envolvendo produtos de uso doméstico. A maioria desses casos é decorrente de manipulação inadequada, dosagem incorreta, falta de uso ou uso inadequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), e armazenamento impróprio. (ASSUNÇÃO, A. F. et al, 2021)

De acordo com o Ministério da Saúde, entre 2019 e 2023, foram registrados no SINAN 91.932 casos de intoxicação exógena no Paraná e 883.052 casos exógena no Brasil. O reconhecimento das exposições e intoxicações como um desafio de saúde pública promoveu o estabelecimento de serviços especializados conhecidos internacionalmente como Centros de Controle de Intoxicações. Esses centros têm como missão fornecer informações, apoiar a prevenção, diagnosticar, prognosticar e tratar as intoxicações. (COSTA A. O, ALONZO HGA, 2019)

Este estudo tem como objetivo realizar uma análise detalhada do perfil epidemiológico dos óbitos por intoxicação exógena no estado do Paraná, durante o período compreendido entre 2019 e 2023. Será avaliada a variação regional dentro do estado, assim como a distribuição por faixa etária, sexo e tipos de agentes tóxicos envolvidos, visando proporcionar uma compreensão abrangente e detalhada dos padrões e tendências dessas fatalidades, para que assim possa receber a atenção necessária e seja elaborado um plano eficaz para minimizar esses eventos. 

METODOLOGIA 

Trata-se de um estudo ecológico que emprega uma análise epidemiológica descritiva em formato de série temporal, possibilitando uma comparação para investigar a evolução dos dados ao longo do tempo. Os dados utilizados neste estudo foram retirados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), uma plataforma oficial do Ministério da Saúde do Brasil, acessados por meio do Departamento de Informática do SUS (DATASUS). A coleta dos dados ocorreu em junho de 2024. Foram analisados os registros de óbitos por intoxicação exógena durante o período de 2019 a 2023, na região do Paraná.

Os critérios utilizados para a análise incluíram a estratificação dos dados por ano de ocorrência, Região de Saúde (CIR), sexo, faixa etária e tipo de agente tóxico envolvido nos casos de óbito. Para a avaliação, os dados obtidos foram tabulados em planilhas eletrônicas utilizando o Microsoft Excel e analisados por meio de estatística descritiva. Ressalta-se que, devido à natureza dos dados obtidos serem de domínio público, não houve necessidade de submissão a um Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Normativa de número 510 de 2016.

RESULTADOS 

A análise dos dados de óbitos por intoxicação exógena no estado do Paraná, registrados no Sinan entre 2019 e 2023, revela importantes variações ao longo dos anos e entre diferentes regiões de saúde. 

Quadro 1. Notificação por região por intoxicação exógena segundo ano de notificação (2019-2023).

Fonte: MACHADO PH, 2024. Dados do Ministério da Saúde/SVSA – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net.

No período analisado, conforme o quadro 1, observou-se um total de 674 óbitos, distribuídos de forma desigual entre as 22 regiões de saúde. Inicialmente, o número total de óbitos apresentou um aumento importante de 140 em 2019 para um pico de 162 (15,7%) em 2022, com um declínio leve para 160 em 2023. Essas variações indicam flutuações na incidência de casos fatais ao longo dos anos, com um destaque particular para o ano de 2022 como o mais severo em termos de mortalidade.

Analisando as regiões de saúde, a 2ª RS Metropolitana emergiu como a área com o maior número acumulado de óbitos por intoxicação exógena, totalizando 189 ao longo do período estudado, o que representa 28,04% do total. Esta região não apenas registrou consistentemente números elevados, como também experimentou seu pico mais alto em 2022, com 55 óbitos, refletindo um aumento agudo neste ano.

A 10ª RS Cascavel seguiu com 85 óbitos (12,61% do total), destacando-se também em 2022 com 22 óbitos, enquanto a 15ª RS Maringá, com 66 óbitos (9,79% do total), mostrou um aumento notável em 2023, com 23 óbitos. Em contraste, regiões como a 6ª RS União da Vitória, 8ª RS Francisco Beltrão e 13ª RS Cianorte registraram números baixos de óbitos ao longo dos anos, demonstrando uma incidência geralmente menor da fatalidade em comparação com outras áreas do estado. Cada ano apresentou suas peculiaridades: 2019 iniciou com 140 óbitos, concentrados principalmente na 2ª RS Metropolitana e na 10ª RS Cascavel, enquanto regiões como a 6ª RS União da Vitória e 8ª RS Francisco Beltrão não registraram óbitos. O ano de 2020, com 105 óbitos, mostrou uma diminuição geral. Por outro lado, 2021 viu um leve aumento para 107 óbitos, com áreas como a 16ª RS Apucarana permanecendo livres de óbitos.

Em síntese, a análise anual detalhada e a distribuição por regiões de saúde destacam não apenas as variações anuais no número de óbitos por intoxicação exógena, mas também as disparidades significativas entre as diferentes áreas do estado do Paraná ao longo do período de estudo. Essas informações são cruciais para orientar políticas de saúde pública e estratégias de intervenção em áreas mais afetadas, considerando a complexidade do problema influenciada por fatores socioeconômicos, padrões de consumo e eficácia das políticas de saúde pública.

A análise dos dados de notificações por óbito revela um total de 683 casos reportados. Os dados, estratificados por faixa etária, destacam que os grupos mais impactados foram os adultos jovens, 20-39 anos, totalizando 265 casos, 38,8% do total. Em seguida, as faixas etárias de 40-59 anos e 15-19 anos apresentaram 233 (34,1%) e 45 (6,6%) casos, respectivamente. Por outro lado, crianças menores de 5 anos apresentaram uma baixa incidência, com apenas 3 casos registrados, o que corresponde a menos de 1% do total. Analisando a evolução temporal, observou-se um aumento gradual no número de notificações ao longo dos anos estudados, com 142 casos em 2019, 105 em 2020, 111 em 2021, 162 em 2022 e 163 em 2023. Esse aumento sugere uma possível tendência crescente na exposição à intoxicação exógena durante o período analisado.

A distribuição por faixa etária também evidencia uma concentração significativa de casos entre os adultos jovens, enquanto as faixas etárias mais idosas (65 anos ou mais) mostram uma distribuição mais estável ao longo dos anos, com um leve aumento registrado em 2022 e 2023. É importante considerar que a ausência de dados do Espírito Santo a partir de 2020 pode limitar a generalização desses resultados para todo o Brasil, destacando a necessidade de atualizações contínuas e integração eficiente dos sistemas de informação de saúde pública. 

Quadro 2. Notificação por sexo das intoxicações exógenas segundo ano de notificação (2019-2023).

Fonte: Ministério da Saúde/SVSA – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net.

Segundo o Quadro 2, durante o período de 2019 a 2023, o total de notificações registradas foi de 91.923 casos, com 53.788 (58,5%) do sexo feminino e 38.135 (41,5%) do sexo masculino. Em 2019, foram registradas 20.403 notificações, das quais 12.036 (59%) foram do sexo feminino e 8.367 (41%) do sexo masculino. Em 2020, o número de notificações caiu para 16.823, com 9.608 (57%) femininas e 7.215 (43%) masculinas, sendo este o ano com a menor taxa de notificações femininas. Em 2021, houve 16.350 notificações, com 9.848 (60%) do sexo feminino e 6.502 (40%) do sexo masculino, representando a menor taxa de notificações masculinas. Em 2022, o total aumentou para 18.275 notificações, com 10.672 (58%) do sexo feminino e 7.603 (42%) do sexo masculino. Em 2023, o número de notificações aumentou para 20.072, com 11.624 (58%) do sexo feminino e 8.448 (42%) do sexo masculino, sendo este o ano com a maior taxa de notificações masculinas. As variações anuais indicam uma recuperação nas notificações após uma queda inicial, destacando uma tendência de aumento contínuo especialmente após 2020, com o ano de 2019 apresentando a maior taxa de notificações femininas.

Tabela 1. Óbitos por Intoxicação Exógena: Notificação por Ano e Sexo.

Fonte: Ministério da Saúde/SVSA – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan Net

Em contrapartida, os dados de notificações de óbitos por intoxicação exógena revelam uma distribuição desigual entre os sexos, como ilustrado na tabela 1. Durante esse período, um total de 399, 58,5%, foram de homens e 284, 41,5%, de mulheres. Em 2019, foram notificados 142 casos, com uma predominância de casos masculinos 55,6% do total em relação aos femininos, 44,4%. No ano seguinte, houve uma diminuição no número total de casos para 105, 56,2% ocorrendo em homens e 43,8% em mulheres.

O ano de 2021 apresentou 111 casos no total, com uma proporção mais marcada de casos masculinos 62,2% em comparação aos femininos, 37,8%. Em 2022, o número total aumentou para 162 casos, sendo 57,4% em homens e 42,6% em mulheres. O ano de 2023 registrou o maior número de casos, totalizando 163, com 60,7% ocorrendo em homens e 39,3% em mulheres.

Ao longo do período analisado, a média da proporção de casos masculinos para femininos foi aproximadamente 1,41:1. Esses dados indicam uma tendência de predominância masculina nos óbitos por intoxicação exógena, sublinhando a importância de estratégias preventivas e educacionais específicas para cada gênero. A variação anual nos números sugere a necessidade contínua de monitoramento e intervenção para mitigar os fatores de risco associados e reduzir essas fatalidades evitáveis.

Tabela 2. Óbitos por Intoxicação Exógena por Agente Tóxico.

Fonte: Dados extraídos do SINAN (Sistema de Informações de Agravos de Notificação).

Conforme Ilustrado na tabela 2, os medicamentos emergem como a principal causa de óbitos, representando 46% do total, com 315 casos reportados. Em segundo lugar, as drogas de abuso contribuíram com 153 óbitos, 22%, seguidas pelos agrotóxicos agrícolas com 79 casos (12%). Produtos químicos (24 casos, 3,5%), produtos veterinários (10 casos, 1,5%), agrotóxicos domésticos (12 casos, 1,8%) e raticidas (17 casos, 2,5%) também foram responsáveis por números significativos de óbitos, evidenciando a diversidade de fontes de intoxicação.

Analisando os dados ano a ano, observa-se variação nas incidências por tipo de agente tóxico. Em 2023, houve um aumento nos casos relacionados a agrotóxicos domésticos e produtos veterinários, destacando-se como áreas de potencial preocupação. A presença de casos envolvendo plantas tóxicas também foi identificada em 2023, indicando um novo fator de risco a ser monitorado. Categorias menos frequentes, como cosméticos (1 caso, 0,1%), alimentos e bebidas (2 casos, 0,3%), e outros agentes tóxicos (20 casos, 2,9%), contribuíram com um número menor de óbitos ao longo do período analisado, mas ainda assim requerem atenção devido ao seu potencial impacto na saúde pública.

DISCUSSÃO

Em um estudo semelhante, realizado por Lima V. L. S. et al. (2022) no estado do Paraná, foi observado um aumento no número de intoxicações exógenas por medicamentos entre os anos de 2011 a 2019, atingindo-se o maior número de casos em 2019, com 12.457 notificações. Esses resultados são comparáveis aos obtidos no presente estudo, quando analisadas as regiões abrangentes por ano de notificação por intoxicação exógena. Segundo Lima V. L. S. et al. (2022), nos anos de 2020 e 2021, houve uma redução de 3,05% nos casos notificados de intoxicações exógenas, um dado que corresponde aos resultados do presente estudo, onde se observou uma diminuição nos óbitos, de 140 em 2019 para 105 em 2020 e 107 em 2021. 

Em relação à faixa etária, a maioria dos pacientes que buscam atendimento hospitalar de emergência devido a intoxicações exógenas são adultos jovens. (LIMA, G. S. et al. 2020). Este estudo correlaciona-se com essa informação, revelando um perfil predominante de pacientes afetados, com idades entre 20 e 39 anos, 265 casos, 38,8% do total. 

No estudo realizado, observou-se um predomínio significativo do sexo feminino na notificação de intoxicação exógena, representando 58,5% dos casos (Quadro 1), resultado similar ao encontrado por Silva et al. (2020). Esta predominância feminina é consistente com outras pesquisas, indicando uma maior incidência de IE entre mulheres. Esta tendência pode ser atribuída à maior propensão das mulheres ao comportamento suicida em comparação aos homens, bem como ao maior consumo de medicamentos, aumentando assim a exposição intencional à IE. Kaplan et al. (1997) afirmam que mulheres são quatro vezes mais propensas a tentativas de suicídio do que homens, corroborando os achados do Quadro 1 em comparação com a Tabela 1 em relação ao número de óbitos por sexo. Por outro lado, homens cometem suicídio, seja por intoxicação exógena ou não, com uma frequência três vezes maior do que mulheres (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021), o que corresponde com a tabela 1 em casos de óbitos por sexo, tendo uma maior taxa no sexo masculino. Esses dados reforçam a disparidade entre sexos observada nos casos de IE e nos resultados de mortalidade associados.

É conhecido que qualquer forma de intoxicação exógena pode resultar em desequilíbrio fisiológico, potencialmente levando a estados patológicos muitas vezes irreversíveis. A interação entre o organismo e o agente tóxico pode desencadear uma diversidade de sinais e sintomas, abrangendo desde taquicardia, hipertensão até alterações mentais e fisiológicas, incluindo hipertermia. Essas manifestações clínicas requerem uma absorção significativa do agente tóxico e um tempo adequado de exposição para se manifestarem. Entre as substâncias frequentemente relacionadas a essas condições estão drogas, produtos domésticos, plantas e agrotóxicos. (FRAZÃO, L. F. N. et al. 2023).

Segundo Veloso, C. et al. (2017) pesquisas nacionais e internacionais indicam que a intoxicação exógena, principalmente por medicamentos, é um dos principais métodos utilizados em tentativas de suicídio, estando entre os três métodos mais comuns em casos de suicídio consumado. Corroborando com os resultados desse estudo, que obteve que os medicamentos emergem como a principal causa de óbitos por intoxicação exógena, representando 46% do total, com 315 casos reportados, evidenciando sua prevalência e letalidade nesse contexto. A seleção dos métodos empregados em lesões autoprovocadas é influenciada por fatores sociais e pela acessibilidade aos meios disponíveis, sendo este último determinado por uma combinação de fatores, incluindo o uso indiscriminado e a falta de medidas de controle eficazes (VELOSO et al., 2017). 

Portanto, uma das estratégias mais eficazes na prevenção do suicídio é a restrição do acesso aos meios letais (GONDIM et al., 2017). Nesse contexto, políticas nacionais e internacionais são fundamentais para controlar e conscientizar sobre o uso responsável de medicamentos, especialmente aquelas guiadas pela assistência farmacêutica para garantir a qualidade, segurança e orientação adequada na dispensação desses produtos. A atuação do farmacêutico é essencial para prevenir incidentes adversos à saúde e promover o uso correto desses insumos (SERENO et al., 2020).

Na saúde do trabalhador, os principais riscos incluem acidentes com instrumentos manuais e máquinas agrícolas, exposição a doenças infecciosas e parasitárias. Além disso, a exposição a ruído e vibração durante o uso de implementos agrícolas, e a inalação de partículas de resíduos que podem causar doenças respiratórias são frequentes. A exposição a fertilizantes e agrotóxicos também é um problema significativo, causando graves intoxicações (SILVA, J. M. da et al., 2005). Os raticidas, como o aldicarbe, são amplamente utilizados de forma inadequada em ambientes domésticos e na agricultura. Esses produtos, aplicados em frutas e legumes, representam um risco adicional quando consumidos acidentalmente dessa maneira (GONÇALVES, A. M. de L. et al., 2023).

Este estudo sobre óbitos por intoxicação exógena no Paraná entre 2019 e 2023 apresenta algumas limitações importantes. Primeiramente, os resultados são específicos para o Paraná e podem não refletir a situação em outras regiões do Brasil devido a variações socioeconômicas e estruturais. Além disso, a qualidade dos dados do SINAN pode variar, o que pode afetar a precisão das estatísticas apresentadas. A variabilidade temporal e espacial observada também sugere que os resultados são influenciados por fatores locais não examinados neste estudo, como políticas de saúde pública e mudanças na vigilância epidemiológica. A ausência de dados do Espírito Santo a partir de 2020 limita a compreensão nacional e comparações regionais. Adicionalmente, a subnotificação de casos e a falta de informações detalhadas sobre as circunstâncias dos óbitos podem obscurecer os padrões reais de intoxicação exógena. Essas limitações destacam a importância de considerar cuidadosamente as conclusões deste estudo e sugerem a necessidade de pesquisas futuras para abordar essas lacunas e melhorar a eficácia das estratégias de saúde pública relacionadas à prevenção de intoxicações.

CONCLUSÃO 

Os óbitos decorrentes de intoxicação exógena no estado do Paraná entre os anos de 2019 e 2023, evidenciam-se a complexidade e a variabilidade desses eventos ao longo do tempo e entre diferentes regiões de saúde. Os dados revelam um aumento significativo no número total de óbitos ao longo do período estudado, com picos observados em 2022, seguidos por um leve declínio em 2023. Este padrão sublinha não apenas a necessidade urgente de implementar medidas preventivas e educacionais eficazes, mas também enfatiza a importância de políticas públicas direcionadas e estratégias adaptadas às particularidades de cada localidade.

Ao examinar as regiões de saúde individualmente, constatou-se que a 2ª RS Metropolitana se destacou como a área mais afetada, registrando consistentemente o maior número de óbitos por intoxicação exógena ao longo do período estudado. Esse fenômeno pode estar associado a fatores socioeconômicos, como o acesso desigual aos serviços de saúde e a maior densidade populacional, além das práticas individuais de manejo de substâncias tóxicas.

Adicionalmente, a análise por faixa etária revelou uma predominância significativa de adultos jovens, especialmente na faixa etária de 20 a 39 anos, como o grupo mais impactado. Esse resultado ressalta a importância de estratégias preventivas direcionadas a essa faixa etária, considerando suas características socioeconômicas e comportamentais específicas. A distribuição desigual por sexo também foi observada, com uma maior prevalência de casos notificados entre mulheres. Essa disparidade pode refletir diferenças nas taxas de exposição intencional ou acidental a agentes tóxicos, bem como variações nos padrões de busca por tratamento médico.

Em síntese, os dados analisados fornecem uma visão abrangente dos padrões e tendências dos óbitos por intoxicação exógena no Paraná, destacando a necessidade de abordagens integradas e coordenadas para mitigar esses eventos. A implementação de políticas de saúde pública mais eficazes, o fortalecimento da vigilância epidemiológica e a educação contínua são essenciais para reduzir o impacto dessas fatalidades evitáveis e promover um ambiente mais seguro para a comunidade como um todo.

REFERÊNCIAS

ASSUNÇÃO, A. F. et al. Intoxicação exógena na região norte do Brasil entre o período de 2015 e 2019: Uma análise epidemiológica. International Journal of Development Research, [S. l.], 2021. Disponível em: https://www.journalijdr.com. Acesso em: 14 jun. 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Banco de dados do Sistema Único de Saúde-DATASUS. 2024. Disponível em: http://www.datasus.gov.br. Acesso em: 14 jun. 2024.

COSTA, A. O.; ALONZO, H. G. A. Centros de Informação e Assistência Toxicológica no Brasil: descrição preliminar sobre sua organização e funções. Saúde debate, [S. l.], v. 43, n. 120, p. 110-121, jan. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0103-1104201912008. Acesso em: 15 jun. 2024.

LIMA, V. L. da S.; CAMILLO, N. R. S. Perfil epidemiológico das intoxicações exógenas por medicamentos no Paraná: Epidemiological profile of exogenous drug poisoning in Paraná. Brazilian Journal of Health Review, [S. l.], v. 5, n. 6, p. 24291-24303, 2022. DOI: 10.34119/bjhrv5n6-190. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/55330. Acesso em: 15 jun. 2024.

LIMA, G. S. et al. Caracterização das intoxicações por produtos de uso domiciliar na cidade de Teresina, Piauí. Revista Eletrônica Acervo Saúde, Teresina, n. 55, p. e666-e666, ago. 2020. DOI: https://doi.org/10.25248/reas.e666.2020. Submetido em mar. 2019. Aceito em abr. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.25248/reas.e666.2020. Acesso em: 15 jun. 2024.

SILVA, E. S. F. da et al. Perfil epidemiológico das intoxicações exógenas no Piauí nos anos de 2013 a 2017. Revista Eletrônica Acervo Saúde, Teresina, n. 44, p. e998, 27 ago. 2020. DOI: https://doi.org/10.25248/reas.e998.2020. Disponível em: https://doi.org/10.25248/reas.e998.2020. Acesso em: 15 jun. 2024.

KAPLAN, H. I.; SADOCK, B. J.; GREBB, J. A. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 1997.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Boletim Epidemiológico. Secretaria de Vigilância em Saúde. Volume 52, Número 33, Setembro de 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2021/boletim_epidemiologico_svs_33_final.pdf. Acesso em: 15 jun. 2024.

FRAZÃO, L. F. N. et al. A epidemiologia das intoxicações exógenas das regiões brasileiras no período de 2017 a 2023. Contribuciones a las Ciencias Sociales, [S. l.], v. 16, n. 10, p. 24113-24122, 2023. DOI: 10.55905/revconv.16n.10-318. Disponível em: https://ojs.revistacontribuciones.com/ojs/index.php/clcs/article/view/2065. Acesso em: 14 jun. 2024.

VELOSO, C. et al. Violência autoinfligida por intoxicação exógena em um serviço de urgência e emergência. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 38, n. 2, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1983-1447.2017.02.66187. Acesso em: 15 jun. 2024. Epub 06 jul. 2017.

GONDIM, A. P. S. et al. Tentativas de suicídio por exposição a agentes tóxicos registradas em um Centro de Informação e Assistência Toxicológica em Fortaleza, Ceará, 2013. Epidemiologia e Serviços de Saúde, [S. l.], v. 26, n. 01, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.5123/S1679-49742017000100012. Acesso em: 15 jun. 2024.


1Graduação em andamento em Medicina (2020-2026), Centro Universitário Fundação Assis Gurgacz, FAG, Brasil.
2Mestrado, Faculdade Pequeno Príncipe
3Doutorado, Universidade Estadual de Maringá