ANÁLISE DO ENTENDIMENTO DE GESTANTES E PUÉRPERAS SOBRE A  AMAMENTAÇÃO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202503162001


Leonardo Marconi Coquejo Monteiro1
Lucca Lopes Prado2
Luísa Brandão Reis3


RESUMO

Introdução: O aleitamento materno (AM) é um processo de fortalecimento do  vínculo entre mãe e filho, trazendo benefícios para ambos, sendo mais do que  uma simples alimentação para a criança. No entanto, observa-se uma falta de  disseminação eficaz de informações sobre o aleitamento materno. Diversos  fatores sociais, econômicos e as dificuldades enfrentadas pelas mães  contribuem para que a amamentação não seja adequadamente incentivada. Um  reflexo disso é a baixa taxa de amamentação exclusiva em bebês com menos  de seis meses no Brasil. Metodologia: A coleta de dados foi realizada por meio  de um questionário semiestruturado, com o objetivo de avaliar o nível de  conhecimento de gestantes e puérperas sobre o aleitamento materno.  Discussão: Observou-se um contraste nos resultados obtidos por meio do  questionário. Conclusão: O conhecimento sobre amamentação, que oferece a  base para orientar e apoiar a mulher durante o período de aleitamento, foi mais  significativo entre aquelas com maior nível de escolaridade, o que destaca a  necessidade urgente de intervenções mais eficazes. 

Palavras-chave: Amamentação; Saberes; Gestação; Pós-parto; Bem-estar da  Mulher.

INTRODUÇÃO

Amamentar é uma prática natural e essencial para o crescimento e  desenvolvimento saudável da criança, pois o leite materno contém todos os  nutrientes necessários e é capaz de atender, de forma exclusiva, às  necessidades nutricionais do bebê nos primeiros seis meses de vida¹. Além de  fornecer nutrição, o aleitamento materno (AM) é um processo de fortalecimento  do vínculo entre mãe e filho, proporcionando inúmeros benefícios para ambos.  No caso da criança, reduz as chances de adoecer, diminui as taxas de  mortalidade infantil e internações hospitalares, além de prevenir doenças  crônicas como a obesidade. Para a mãe, amamentar auxilia na perda de peso  pós-parto, diminui o risco de câncer de mama e colo do útero, sendo também a  forma mais econômica de alimentar o bebê²,³. 

A recomendação médica é que o aleitamento materno seja mantido por um  período médio de 2 a 3 anos. Contudo, apesar dessa orientação, tem-se  observado uma crescente adesão ao desmame precoce, que ocorre quando o  aleitamento é interrompido antes dos seis meses de vida do bebê⁴. É importante  destacar que o ato de amamentar é um fenômeno complexo, que envolve fatores  sociais e determinantes que precisam ser compreendidos para entender o  contexto da amamentação. Nesse sentido, o aleitamento materno deveria ser  incentivado, mas, devido a fatores sociais, econômicos e às dificuldades  enfrentadas pelas mães, as taxas de amamentação exclusiva em bebês  menores de seis meses ainda são baixas, tanto no Brasil (41% dos bebês)  quanto em nível mundial⁵. Assim, pode-se concluir que o desmame precoce está  relacionado a dois fatores principais: a falta de informação e a ausência de apoio  e incentivo à mãe. 

A falta de incentivo social ao aleitamento materno contribui significativamente  para o desmame precoce. Isso é, em grande parte, devido à escassez de apoio  social e à falta de informações claras sobre o tema. Além disso, o desmame  precoce é frequentemente associado à crença de que a quantidade de leite  materno é insuficiente, o que leva as mães a substituírem o leite materno por  fórmulas infantis⁶. Observa-se, ainda, que mães mais jovens e aquelas que  trabalham em tempo integral tendem a amamentar por menos tempo. Portanto,  mães mais velhas, com mais experiência e conhecimento sobre a amamentação, apresentam menor risco de desmame precoce, ao passo que mães mais jovens  podem sentir-se inseguras sobre sua capacidade de amamentar⁴. Por outro lado,  mães casadas, com mais filhos e maior nível de escolaridade tendem a  amamentar por períodos mais longos⁶, indicando que a informação desempenha  um papel crucial no aumento da taxa de amamentação. 

A falta de informações adequadas é uma questão fundamental a ser abordada.  Portanto, é essencial que o Sistema de Saúde Básica proporcione orientação e  esclarecimento durante a gestação e o puerpério, tratando de temas  relacionados à saúde da mulher e ao aleitamento materno. O atendimento à mãe  e ao recém-nascido deve ser completo, esclarecedor e de fácil compreensão, já  que muitas mulheres têm dúvidas que persistem e afetam diretamente o sucesso  da amamentação⁷. 

OBJETIVO

Analisar o grau de compreensão de gestantes e puérperas sobre o processo de  aleitamento materno atendidas no Hospital das Clínicas Samuel Libânio. 

METODOLOGIA 

Foi conduzida uma pesquisa de caráter quantitativo, observacional, analítico,  individual e de corte transversal. O estudo foi realizado no Hospital das Clínicas  Samuel Libânio, abrangendo a maternidade e o banco de leite. Foram  convidadas 29 gestantes e 30 puérperas para participar, respondendo a um  questionário semiestruturado com 6 questões sobre dados sociodemográficos e  15 questões específicas sobre aleitamento materno. Os dados coletados foram  organizados em um banco de dados utilizando o Microsoft Excel. Para a análise  descritiva das variáveis contínuas, foram calculadas a média, a mediana e o  desvio padrão. As variáveis categóricas foram apresentadas em proporções. O  estudo seguiu os princípios estabelecidos pela Resolução n° 466/2012 do  Conselho Nacional de Saúde, e o parecer consubstanciado do Comitê de Ética  em Pesquisa (CEP) foi o de número 4.847.82.

RESULTADOS

A análise dos dados sociodemográficos da amostra revelou que 37,3% das  participantes tinham mais de 30 anos, 32,2% estavam na faixa etária de 20 a 29  anos, e o restante tinha menos de 20 anos. Em relação ao número de gestações,  45,8% eram primigestas. Quanto ao nível de escolaridade, 20,2% possuíam  ensino superior completo ou incompleto, 45,8% tinham ensino médio completo  ou incompleto, e o restante possuía ensino fundamental. 

Além disso, foram investigados aspectos relacionados à amamentação. Entre as  participantes, 67,8% sabiam o que significa o conceito de aleitamento materno  exclusivo. Desses, 76,3% indicaram que o aleitamento exclusivo deve ocorrer  até os seis meses de vida, o que corresponde a 52,8% da amostra total. Quando  questionadas sobre a introdução de outros alimentos na dieta da criança, 77,9%  afirmaram saber o momento adequado, sendo que 74,6% delas indicaram que  isso deve ocorrer a partir dos seis meses de idade, representando 58,1% do total  da amostra. 

Em relação ao conhecimento sobre os diferentes formatos do mamilo, 55,9% das  participantes sabiam que existem formatos variados, mas 44,0% não sabiam  identificar o formato de seus próprios mamilos. Quanto à preferência por fórmula  infantil, 98,3% concordaram que o leite em pó não é superior ao leite materno.  Além disso, 50,8% não consideraram o leite que produziam “fraco”. 

Quando questionadas sobre a técnica de amamentação, 79,7% das  participantes afirmaram saber que existe uma maneira correta de amamentar o  bebê. Entre elas, ao serem perguntadas sobre possíveis problemas relacionados  à pega incorreta, 49,1% mencionaram a ocorrência de fissuras no mamilo, 23,7%  indicaram que isso poderia levar ao desmame precoce, e 27,1% não souberam  identificar as alterações ou sintomas que poderiam ocorrer caso a pega não  fosse feita corretamente durante a amamentação. 

DISCUSSÃO

No que diz respeito ao conhecimento das puérperas sobre aleitamento materno  exclusivo (AME), observou-se que 52,8% das mulheres reconheciam que o  aleitamento materno exclusivo deve ocorrer até os seis meses de vida. Este dado  contrasta com um estudo realizado na Maternidade de São Mateus (ES), onde  83,6% das mulheres afirmaram saber o período recomendado para o AME, com  93,0% delas mencionando os seis meses como a duração ideal⁸. Apesar de a  maioria das participantes saberem o tempo recomendado para a amamentação  exclusiva, é importante notar que a duração do aleitamento é influenciada por  diversos fatores, não sendo determinada unicamente pela informação recebida  sobre o tema. 

Quando analisado um estudo realizado na Galícia, na Espanha, com 297  participantes entre 2014 e 2015, verificou-se uma discrepância considerável:  apenas 25,5% das mulheres afirmaram saber que o AME deveria durar até os  seis meses, o que contrasta com os 52,8% encontrados neste estudo. Por outro  lado, a pesquisa espanhola revelou que 95,9% das participantes indicaram que  o bebê deve ingerir exclusivamente leite materno até os seis meses, enquanto  no estudo atual, apenas 58,1% concordaram com essa afirmação⁹. 

Além disso, 79,7% das mulheres disseram saber que existe uma técnica correta  para amamentar, o que é superior ao estudo realizado no Espírito Santo (ES),  onde 51,4% das participantes não sabiam se havia uma posição correta para  amamentar⁸. No entanto, apesar dessa alta porcentagem (79,7%), houve uma  queda significativa nas respostas relacionadas às consequências de uma pega  inadequada, com 27,1% das participantes não sabendo quais seriam os  problemas decorrentes de uma pega errada. 

Ainda, observou-se que as mulheres com maior nível de escolaridade estavam  mais propensas a afirmar que existe uma técnica correta para a amamentação.  O maior número de respostas indicando a inexistência de uma técnica correta  ocorreu entre as participantes com menor escolaridade. A maioria das  participantes que indicaram que o formato do mamilo pode afetar a  amamentação também possuía maior nível educacional, seja no ensino médio  ou superior.

A falta de conhecimento sobre os diferentes tipos de mamilo também foi  observada: apenas 55,9% das mulheres sabiam que existem diferentes formatos  de mamilos, e 44,0% não sabiam identificar o tipo de mamilo que possuíam. Esse  desconhecimento pode ser um obstáculo para o processo de amamentação, pois  o formato do mamilo pode influenciar diretamente a eficácia da pega do bebê,  gerando dificuldades tanto para a mãe quanto para a criança. 

Independentemente do desconhecimento sobre a técnica correta ou do tipo de  mamilo, a dificuldade na amamentação é um problema recorrente. Em um estudo  de Ferreira, A. S. et al., sobre o conhecimento de mães e gestantes sobre o  aleitamento materno, foi evidenciado que a maior parte das mulheres relatou  dificuldades ao amamentar, com 77,7% das mães do primeiro filho e 59,3% das  mães do último filho enfrentando desafios. Isso reforça a necessidade de  identificar as dificuldades e fornecer apoio contínuo às mulheres durante o  processo de amamentação10

Quanto à percepção sobre a qualidade do leite, embora 98,3% das participantes  não acreditassem que a fórmula infantil fosse superior ao leite materno, apenas  50,8% não consideravam o leite materno “fraco”. Essa insegurança sobre a  quantidade e qualidade do leite é um reflexo da falta de esclarecimento, o que  está de acordo com um estudo da Universidade Federal de Viçosa. Nesse  estudo, foi identificado que as principais razões para a interrupção da  amamentação estavam relacionadas a preocupações com a quantidade de leite  e questões estéticas, como a crença popular de que o leite materno era “fraco”  ou que as mamas “caem” após a amamentação, sendo essas as respostas mais  frequentemente mencionadas por mães (38,3%) e profissionais de saúde  (48,5%)11

CONCLUSÃO

O estudo evidenciou que muitas mulheres possuem informações adequadas  sobre aspectos importantes da amamentação, como a idade recomendada para  a introdução alimentar, a existência de uma técnica correta e a qualidade do leite  materno. Contudo, ainda existem barreiras significativas que precisam ser superadas para melhorar as taxas de aleitamento materno, tanto no Brasil  quanto no resto do mundo. 

Embora outras variáveis, como o apoio durante a gestação proveniente de  familiares e da equipe médica, tenham sido analisadas, a falta de informação foi  o principal obstáculo identificado para uma amamentação bem-sucedida. O  conhecimento necessário para oferecer suporte e orientação à mulher no  período de amamentação se mostrou mais robusto entre aquelas com maior  nível de escolaridade, destacando a necessidade urgente de intervenção para  garantir que as mulheres em situação de maior vulnerabilidade também tenham  acesso a essas informações essenciais. 

Portanto, é fundamental que a equipe multidisciplinar hospitalar desempenhe um  papel ativo nesse processo, proporcionando ensinamentos claros e acessíveis,  utilizando uma linguagem simples, para reduzir a disparidade entre os grupos  analisados e garantir que todas as mães, independentemente de sua  escolaridade, possam se beneficiar das orientações necessárias para uma  amamentação bem-sucedida.

REFERÊNCIAS

1 MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde da criança: aleitamento materno e alimentação  complementar. 2. ed. Brasília: Caderno de Atenção Básica, 2015. (n. 23).

2 ORTEGA-GARCÍA, J. A. et al. Amamentação integral e obesidade em crianças: um  estudo prospectivo do nascimento aos 6 anos. Obesidade Infantil, 2018, 14(5):  [páginas]. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6066191/.  Acesso em: 16 dez. 2020.

3 MORAES, I. C. et al. Percepção sobre a importância do aleitamento materno pelas  mães e dificuldades enfrentadas no processo de amamentação. Revista de  Enfermagem Referência, 2020, V(2): [páginas]. Disponível em:  http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-02832020000200009&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 19 dez. 2020. 

4 SILVA, C. S. et al. Associação entre a depressão pós-parto e a prática do  aleitamento materno exclusivo nos três primeiros meses de vida. Jornal de Pediatria,  2017, 93(4).

5 BATISTA, C. L. C. et al. Influência do uso de chupetas e mamadeiras na prática do  aleitamento materno. Revista Saúde Ciências Biológicas, 2017, 5(2). Disponível em:  https://periodicos.unichristus.edu.br/jhbs/article/view/1153. Acesso em: 17 dez. 2020.

6 MOTA, H. C. M. et al. A importância da amamentação e o que pode ainda ser feito  para promovê-la. Monografia. Porto, 2017. Disponível em: https://repositorio aberto.up.pt/bitstream/10216/105854/2/202489.pdf. Acesso em: 21 dez. 2020. 

7 BEZERRA, A. E. M. et al. Amamentação: o que pensam as mulheres participantes  de um grupo de pré-natal? Revista Brasileira de Enfermagem, 2020, 73(3).

8 VISINTIN, A. et al. Avaliação do conhecimento de puérperas acerca da  amamentação. Enfermagem Foco, 2015, 6: 12–16.

9 SUÁREZ-COTELO, M. del C. et al. Breastfeeding knowledge and relation to  prevalence. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 2019, 53. 

10 =FERREIRA, A. S. et al. Conhecimento de mães e gestantes sobre o aleitamento  materno. Braz J Dev, 2023, 9(5): 16284–16301. doi: 10.34117/bjdv9n5-120.


1Discente, Universidade do Vale do Sapucaí, Pouso Alegre, MG.
2Discente, Universidade do Vale do Sapucaí, Pouso Alegre, MG.
3Discente, Universidade do Vale do Sapucaí, Pouso Alegre, MG.