ANALYSIS OF CAESAREAN SECTION RATES IN TOCANTINS ACCORDING TO THE ROBSON CLASSIFICATION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602161010
Júlio Barros Chagas1
Luana Fiuza Valesan2
Resumo
O parto representa o desfecho fisiológico de uma gestação trazendo consigo importante significado biopsicossocial para a mulher. Embora a via vaginal seja o meio fisiológico de parto, o número de cesáreas tem aumentado substancialmente em todo o país. O excesso de cesáreas apresenta maior número de complicações cirúrgicas às mães e maior risco ao recém-nascido. Assim, este estudo tem como objetivo principal analisar as taxas de cesárea no Tocantins segundo a classificação de Robson com base em dados publicados no Painel de monitoramento do excesso de cesáreas publicados pelo DATASUS. Os resultados demonstram que as taxas de cesáreas no Tocantins são cerca de 4 vezes maiores que as recomendado pela OMS, o percentual de cesárea foi superior ao parto normal. Os grupos de Robson mais frequentes foram G9 e G6 e as cesáreas foram mais frequentes na rede privada. Assim sendo, os resultados sugerem que o parto cesáreo pode estar acontecendo de forma indiscriminada no Tocantins, tornando necessária a implementação de ações e estratégias para redução dessas taxas.
PALAVRAS-CHAVE: Cesárea. Classificação de Robson. Parto Cirúrgico.
1. INTRODUÇÃO
O parto representa o desfecho fisiológico de uma gestação trazendo consigo importante significado biopsicossocial para a mulher. Embora a via vaginal, historicamente, seja considerada a via natural para o parto, a escolha do parto cesáreo tem se mostrado crescente na maior parte dos países (Lima Netto, 2022).
Tal fato pode estar relacionado a circunstâncias diversas as quais abrangem desde a indicação clínica absoluta até o pressuposto do direito de escolha da gestante que, geralmente, são reflexos do imaginário individual e coletivo como medo da dor, do parto em si, a comodidade de um procedimento programado e agendado previamente, entre outros (Lisboa Klein et al., 2024).
Segundo registrado pela OMS, a taxa global de cesárea aumentou 14% desde 1990, destacando-se os países em desenvolvimento com os maiores índices do procedimento. Em contrapartida, países subdesenvolvidos, como os países da África, apresentam as menores taxas de parto cesáreo, chegando a cerca de 5%, devido precariedade de acesso aos serviços médico-hospitalares (WHO, 2021).
Enquanto a OMS sugere que apenas 15% dos partos sejam cesareanos, o Brasil destaca-se como um dos países com maiores taxas desta modalidade no mundo. De acordo com dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), no Brasil são feitos cerca de 3 milhões de partos anualmente, dos quais 56% são cesáreos e aproximadamente 52% destes ocorrem sem indicação cirúrgica (Nicolotti; Lacerda, 2022; Lemos, 2023).
Apesar da maior parte dos partos cesáreos ocorrerem no serviço de saúde suplementar, os registros têm se mostrado crescentes também na rede pública, totalizando cerca de 44% dos partos, independentemente da existência de indicação cirúrgica (Lemos, 2023).
O excesso de cesáreas, consequentemente, tem apresentado maior número de complicações cirúrgicas às mães e maior risco de complicações para o feto como prematuridade tardia, desconforto respiratório e maior número de internações em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) (Lisboa Klein et al., 2024).
Para fins de monitoramento do número de cesáreas, a partir de 2015 a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou que estabelecimentos de saúde fizessem uso da classificação de Robson. Embora existam outras metodologias para monitoramento de cesáreas, esse método tem mostrado maior efetividade por contemplar os requisitos necessários para essa avaliação (Fiocruz, 2022).
A Classificação de Robson consiste em categorizar as gestantes em 10 grupos com bases em informações básicas obtidas no próprio pré-natal e, a partir do levantamento das taxas por grupo, é possível comparar os resultados intergrupos e identificar os grupos alvo de estratégias para redução de cesárea (Fiocruz, 2018).
Nessa perspectiva, este estudo busca responder a seguinte questão norteadora: Quais são as taxas de cesárea no Tocantins segundo a classificação de Robson?. A fim de responder a este questionamento, estudo tem como objetivo principal analisar as taxas de cesárea no Tocantins segundo a classificação de Robson com base em dados publicados no Painel de monitoramento do excesso de cesáreas publicados pelo DATASUS.
Acredita-se que este estudo poderá contribuir significativamente tanto para a comunidade científica como também para acadêmicos, profissionais de saúde e sociedade, visto que tem potencial para subsidiar estudos posteriores sobre essa temática.
Além disso, este estudo poderá auxiliar gestores e profissionais de saúde no conhecimento acerca da taxa de cesáreas, do perfil de mulheres que mais foram submetidas a este procedimento e, dessa forma, contribuir para discussões acerca das políticas de redução dessas taxas.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Circunstâncias que influenciam a escolha da via de parto
A gestação corresponde a um período da vida da mulher onde emoções diversas surgem permeadas por mudanças de ordem biológica, psicológica, social e cultural, as quais tornam esse período exclusivo para cada mulher (Lima Netto, 2022).
Quando a evolução do período gravídico ocorre em conformidade com o esperado em termos fisiológicos, o desfecho consiste no nascimento do feto gerado, sendo denominado parto. Este pode ocorrer por duas vias diferentes: a via vaginal e a via cesárea (Yoshizaki et al., 2016).
O parto sempre foi um fenômeno natural à evolução humana de modo que, historicamente, aconteciam seguindo seu curso natural, no seio familiar, com o mínimo de intervenção externa, sendo assistido por parteiras ou outras mulheres da sociedade (Brandt et al., 2018).
Porém, no último século, o nascimento vem sofrendo mudanças no seu processo, de tal modo que a autossuficiência da mulher em um processo naturalmente fisiológico vem se transformando em um evento hospitalar, cada vez mais medicalizado e de caráter cirúrgico (Kottwitz; Gouveia; Gonçalves, 2018).
Vale ressaltar que esse processo iniciou no século XIX e se intensificou sistematicamente no século XX em um contexto de maior segurança materno -infantil dede que submetidos a cesárea mediante indicação clínica. No entanto, atualmente o emprego do procedimento cirúrgico tem se tornado a primeira escolha da via de parto para uma grande parcela da sociedade (Kottwitz; Gouveia; Gonçalves, 2018).
De acordo com Lima (2023, apud Lemos, 2023), as causas para a escolha indiscriminada pela cesárea são diversas, envolvendo o desejo da mulher, principalmente no serviço privado, a decisão do profissional que se encontra no plantão, o horário de ocorrência (diurno/noturno) e, até mesmo, o dia da semana.
Segundo o estudo de Lisboa Klein et al. (2024), existem diversos fatores que contribuem pela decisão em realizar o parto cesáreo. Um dos motivos se refere ao direito que a mulher tem, no Brasil, de escolher a via de parto, o qual encontra-se muito bem estabelecido na Resolução do Conselho Federal de Medicina de Nº 2.144/2016.
De acordo com Pimentel e Oliveira-Filho (2016), cerca de 80% das mulheres inicialmente pretendem realizar parto normal, contudo, apenas cerca 20% dessas mulheres realmente realizarão o parto por essa via.
As possíveis causas para a mudança da escolha da via de parto estão relacionadas as características socioculturais como medo, dor, desconforto, comodidade mediante a possibilidade de agendamento e programação de parto uma vez que a mulher também está inserida no mercado de trabalho e a programação para o retorno as atividades laborais impactam em suas decisões (Jordão et al., 2018).
Kottwitz, Gouveia e Gonçalves (2018) asseguram que é grande o desconhecimento das mulheres acerca da sua autossuficiência no parto, da política de parto humanizado e dos riscos do parto cesáreo.
Lisboa Klein et al. (2024) acrescentam, ainda, que o habitual é que as mulheres recebam conselhos tendenciosos a fim de impelir a mulher a decidir pelo parto cesáreo. Segundos estes autores, essa realidade consiste em desrespeito a autonomia da mulher e, inclusive, pode ser configurada como violência obstétrica.
Rocha e Ferreira (2020) asseveram que todo esse contexto sociocultural e a condução enviesada do profissional ao qual a gestante foi submetida refletem em experiencias ruins e traumatizantes para as que realizam de fato o parto vaginal. E, dessa forma, o parto normal acaba sendo associado a sofrimento, modulando o pensamento coletivo em prol da promessa de um parto mais rápido e com maior controle das variáveis desconfortáveis a mulher.
2.2 A problemática do parto cesáreo
Apesar de que em algumas circunstâncias o parto cesáreo é imprescindível para o suporte a vida da gestante e do feto, em condições em que não há indicação clínica esse procedimento cirúrgico pode colocar tanto mãe como o feto (Morais et al., 2022).
Entre as principais indicações de cesárea encontram-se a infecção da gestante pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), acretismo placentário, placenta prévia, interrupção da progressão do parto, posições anômalas do feto, cesárea previa, presença de mecônio e sofrimento fetal (Viana et al., 2018; Paiva et al., 2019).
Entre as principais complicações as quais as mães estão expostas envolvem maior risco de morbimortalidade materna e fetal, hemorragia, infecção puerperal, embolia pulmonar, entre outros quadros patológicos. Quando aos fetos, os principais riscos estão relacionados a complicações respiratórias, hiperbilirrubinemia, hipoglicemia, baixa oxigenação cerebral, prematuridade e, consequentemente, maior risco de internação em UTI neonatal (Alves et al., 2021; Morais et al., 2022). A OMS evidencia ainda que há um aumento considerável dos custos com saúde decorrentes do procedimento e das complicações relativas aos mesmos (WHO, 2021).
2.3 Classificação de Robson
Para explicar a classificação de Robson, serão utilizadas as recomendações descritas no manual de boas práticas da Fiocruz apresentada em 2018. Segundo o referido manual, a classificação de Robson foi criada pelo médico irlandês Michael Robson em 2001 com base em um sistema onde informações básicas identificadas na Declaração de Nascidos Vivos (DNV) são associadas para categorizar as gestantes em 10 grupos e, assim, viabilizar a identificação de grupos de mulheres com relevância clínica para o procedimento (Fiocruz, 2018).
Com isso, é possível comparar os resultados dentro da própria instituição de saúde e entre instituições diferentes para compreender melhor o fenômeno do excesso de cesáreas. São utilizadas, portanto, 6 conceitos obstétricos básicos a saber: (Fiocruz, 2018).
- Paridade: nulípara e multípara sem cesárea anterior.
- Cesárea anterior: multípara com cesárea anterior;
- Início do trabalho de parto: espontâneo, induzido ou cesárea anterior ao trabalho de parto;
- Idade gestacional: termo e única, pré-termo e única
- Número de fetos: múltipla;
- Apresentação fetal: cefálica, pélvica e transversa.
A partir dessas informações é possível classificar as gestantes em 10 grupos como demonstra a figura 1. Essa classificação tem sido uma das mais utilizadas e até recomenda pela OMS pois consiste em um instrumento simples, robusto, factível, relevante do ponto de vista clínico, que viabiliza a inclusão de todas as gestantes e, ao mesmo tempo, cada uma em um único grupo (Fiocruz, 2018).
Figura 1 – Categorização dos grupos de Robson

Fonte: Fiocruz (2018).
3. METODOLOGIA
Foi realizada uma pesquisa epidemiológica descritiva, retrospectiva, com abordagem quantitativa dos casos de cesárea no Tocantins com base nos dados disponíveis no Painel de Monitoramento do Excesso de Cesáreas no período entre 2015 e 2024.
Os dados foram coletados no período entre setembro e janeiro de 2026, utilizando os registros do banco de dados do DATASUS, cujos dados são domínio público. As informações extraídas foram compiladas para o software Microsoft Excel 365, onde foram tabuladas e foram calculados média e percentual, e, posteriormente, apresentados em forma de Figuras para discussão.
As variáveis analisadas foram: Taxa geral de cesáreas e de parto normal, percentual de cesáreas dos estados da Região Norte, percentual de cesáreas por região de saúde do Tocantins, taxa de cesárea por classificação de Robson, taxa de cesárea por classificação de Robson e por ano, Taxa de cesárea por tipo de estabelecimento (público ou privado) e taxa de cesárea por grupo de Robson e por tipo de estabelecimento.
Não foi necessário realizar teste estatístico, visto que este estudo se trata de uma pesquisa descritiva e não pretende realizar correlações entre variáveis a fim de fazer inferências de causa e efeito.
Foram incluídos neste estudo todos os casos tabulados pelo Sistema de Tabulação de dados (TabNet) do DATASUS, resultantes da combinação das variáveis acima descritas. Consoante a Resolução CNS 466/2012, não foi necessário submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), uma vez que os dados utilizados são de domínio público.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
De acordo com o Painel de Monitoramento de Cesáreas segundo a classificação de Robson disponível no DATASUS, no período entre 2015 e 2024 foram registrados 235.107 nascimentos no Tocantins. Desse total, 55,9% dos partos foram realizados por via cesariana e, portanto, 44,1% por via vaginal, demonstrando que, nos últimos 10 anos, o percentual de cesáreas foi superior que de partos vaginais (Figura 2).
Figura 2 – Taxa de cesáreas e de parto vaginal no Tocantins (2015-2024)

Fonte: DATASUS (2025).
Esses dados demonstram que a assistência ao parto no Tocantins tem se caracterizado pelo uso excessivo de intervenções cirúrgicas, contrariando a naturalidade do nascimento, o protagonismo e a autossuficiência da mulher no processo do parto (Lisboa Klein et al., 2024).
De acordo com Alves et al. (2021), as taxas de cesárea vêm crescendo em todo o país nas últimas décadas. De acordo com o estudo desses autores, na década de 70, a taxa de cesárea no país era de cerca de 15% e nos últimos anos esse valor aumentou cerca de 200%.
Segundo dados do DATASUS (2025), a taxa de cesárea no país tem se mostrado crescente no período de 2015 a 2024, apresentando uma média de 57,1% no período, com destaque para o ano de 2024 cuja taxa atingiu 60,6%.
Quando comparadas as médias de taxas de cesárea entre os estados da Região Norte no período estudado, Rondônia lidera o ranking de maiores taxas com média de 67,8%, sendo seguido pelo Tocantins com 55,6% e pelo Pará com 55,6%. Roraima, por outro lado, foi o estado que apresentou menor taxa de cesárea, apresentando média de 36,1% no período (Figura 3).
Figura 3 – Percentual de cesáreas dos estados da Região Norte (2015-2024)

FONTE: DATASUS (2025).
Embora a Figura 3 evidencie que a taxa tocantinense se encontra 200% mais elevada que o preconizado pela OMS, os achados mostraram que o seu crescimento vem acompanhando a média nacional (DATASUS, 2025), sugerindo que as causas que implicam no alto número de cesáreas podem ser semelhantes em todo o país.
Ao observar as taxas de cesáreas por região de saúde do Tocantins no período de 2015 a 2024 (Figura 4), foi possível observar que a região do Cerrado Tocantins é a região com maiores taxas, atingindo uma média de 64,3% no período, seguida da região da Ilha do Bananal, com média de 63,6% e Médio Norte, com 60,3%. A Região com menor taxa de cesárea foi a região do Bico do Papagaio, com média de 36,4%.
Figura 4 – Percentual de cesáreas por região de saúde no Tocantins (2015-2024)

Fonte: DATASUS (2025).
Analisar tais dados são importantes para compreender a caracterização das cesáreas no estado, visto que aspectos sociodemográficos, acesso aos serviços de saúde e concentração da rede privada podem impactar nas taxas de cesáreas (Piva; Voget; Nucci, 2023).
Nesse aspecto, este estudo demonstrou que as regiões com maior taxa de cesárea não estão necessariamente relacionadas a fatores como densidade demográfica e PIB per capita, visto que a região com maior taxa de cesárea é a 5º região com maior PIB per capita e 5º maior densidade demográfica do estado. Enquanto a região da Ilha do Bananal, que possui segunda maior taxa de cesárea do estado apresentou maior PIB per capita e 7ª posição no ranking de densidade demográfica (Machado Filho et al, 2025).
Em contrapartida, a região do Bico do Papagaio, que apresentou a menor taxa de cesárea do estado, possui menor PIB per capita e maior densidade demográfica. Além disso, essa é a região de saúde com menor acesso a serviços de saúde de média e alta complexidade (Coutinho; Santos, 2023).
Acerca dos aspectos sociodemográficos e econômicos, estudos presididos pela OMS sugerem que países com alto índice de desenvolvimento humano, como Dinamarca, Finlândia, Islândia e Noruega, tendem a apresentar taxas de cesáreas bem menores que de países em desenvolvimento, atingindo taxa de apenas 20% (Algarves; Lira Filho, 2019).
Semelhantemente, países pobres e subdesenvolvidos, os quais apresentam altas taxas de natalidade e baixa renda per capita, também costumam apresentar baixas taxas de cesárea. Porém, enquanto taxas baixas em países desenvolvidos ora referidos refletem um bom preparo das gestantes para o parto, as taxas baixas de cesáreas de países subdesenvolvidos refletem escassez de serviços de saúde, infraestrutura precária e profissionais desatualizados (Algarves; Lira Filho, 2019).
Quando analisado por Grupo de Classificação de Robson, o Grupo (G) classificado como G9 foi o que apresentou maior taxa de cesárea (96,9%) (Figura 5). Esse grupo tem como perfil de gestantes as que, independentemente da idade gestacional, apresentam feto único em posição transversa e, portanto, com indicação absoluta para cesárea conforme o manual de boas práticas em saúde da mulher, da criança e do adolescente da Fiocruz (Fiocruz, 2018; Fiocruz, 2021).
Contudo, o segundo grupo com maior número de cesáreas é o G6 (92,7%) (Figura 5). Pertencem a este grupo gestantes que, independentemente da idade gestacional e do início de trabalho de parto, são nulíparas, apresentam feto único e em posição pélvica e, assim sendo, não possuem indicação absoluta para cesárea (Fiocruz, 2018).
Figura 5 – Taxas de cesáreas no Tocantins segundo a Classificação de Robson (2015-2024)

Fonte: DATASUS (2025). Legenda: *G (Grupo); **I/B (Ignorado/Em Branco).
Ainda de acordo com a Figura 5, os registros evidenciaram que o grupo que apresentou menor taxa de cesárea foi o Grupo 3. Este grupo é representado por gestantes multíparas, cujo parto é realizado a termo, com feto único, em posição pélvica, sem história de cesárea prévia e com início de trabalho de parto espontâneo (Fiocruz, 2018).
Entretanto, apresentar a menor taxa de cesárea não significa claramente que as mulheres estão sendo preparadas adequadamente durante seu pré-natal a fim de que o parto normal seja a primeira escolha da mulher e do profissional que a assiste. Pelo contrário, pode ser um dado que reflete a falta de acesso a serviços de qualidade impactando na adequada indicação de cesárea (Algarves; Lira Filho, 2019; Alves et al., 2021).
Esses resultados mostram-se diferente de outros estudos como o Nascer no Brasil e o estudo de Algarves e Lira Filho, cujas maiores taxas estiveram presentes entre gestantes do G5, tendo como justificativa o fato de apresentarem histórico de cesárea prévia, e G2, evidenciando o uso excessivo da medicalização para indução ou eletivos (Bolognani et al., 2018; Algarves; Lira Filho, 2019).
Ao estratificar as taxas de cesárea por grupo de Robson e por ano, pode-se observar que as taxas apresentam uma tendencia de aumento progressivo no decorrer dos anos, sendo 2024 quando houve maior taxa de cesáreas (60,3%) e 2016 o ano com menor taxa de cesáreas (51,6%) (Tabela 1).
Tabela 1 – Taxa de cesáreas (%) segundo classificação de Robson/Ano no Tocantins (2015-2024)

Fonte: DATASUS (2025). Legenda: *G (Grupo); **I/B (Ignorado/Em Branco); ***Sub (Subtotal).
Quanto ao estabelecimento, as taxas de cesáreas nas instituições de saúde públicas foram menores que nas instituição de saúde privadas, porém, ambas apresentando crescimento gradativo ao longo dos anos, de modo que o aumento das cesáreas na rede pública foi de 6% e na rede privada de 17% no período (Figura 6).
Figura 6 – Taxa de cesárea por ano em instituições públicas e privadas no Tocantins (2015-2024)

Fonte: DATASUS (2025).
Esses dados são corroborados por outros estudos como o de Nakamura-Pereira et al. (2016) e Dias et al. (2022) que também encontraram taxas mais elevadas nos estabelecimentos de saúde da rede privada.
Ao analisar as taxas de cesárea por Grupo de Robson e por tipo de estabelecimento de serviço de saúde, observou-se que o Grupo G9 em ambas as modalidades de serviço é o que apresenta a maior taxa apresentando 97,6% no serviço público e e 96,9% no serviço privado, seguido dos grupos G6 e G7, apresentando taxas de 91,3% e 87,6% nos serviços públicos e 95,3% e 94,8% nos serviços privados, respectivamente (Figura 7).
Esses resultados foram semelhantes aos de Nakamura-Pereira et al. (2016) e de Dias et al. (2022) onde identificaram que tanto rede privada como rede pública apresentavam altas taxas de cesárea tanto de baixo risco como de alto risco, de modo que não houve diferença estatística significativa entre os grupos de baixo e alto risco nas duas redes.
Figura 7 – Taxa de cesáreas por grupo de Robson e tipo de estabelecimento no Tocantins (2015-2024)

Fonte: DATASUS (2025). Legenda: *G (Grupo); **I/B (Ignorado/Em Branco); ***SUB (Subtotal)
Segundo Dias et al. (2022), esses dados são alarmantes e reforçam a ideia de que os partos cesáreos no Brasil não são feitos mediante adequada indicação clínica, mas sim, podem ter motivações diversas para taxas tão elevadas como o contexto sociocultural da gestante ou escolha do próprio profissional (Lisboa Klein et al. 2024).
De acordo com Fiocruz (2021), o parto cesáreo consiste em uma alternativa para reduzir o risco de mortalidade da mãe e/ou do feto quando há indicação clínica absoluta para tal procedimento.
Contudo, quando realizado de forma indiscriminada pode colocar em risco a vida da mãe e do recém-nascido, visto que a cesariana é um procedimento cirúrgico de grande porte e, consequentemente, oferece riscos relativos ao próprio procedimento (Alves et al., 2021).
Morais et al. (2022) alertam para os riscos decorrentes de parto cesáreo sem indicação clínica adequada, abrangendo: hemorragias, infecções, embolia, complicações anestésicas, maior risco de prematuridade, maior risco de internações em UTI neonatal, entre outros.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
As taxas de cesáreas no Tocantins no período estudado encontram-se aproximadamente 4 vezes acima do preconizado pela OMS, cujo percentual recomendado é de 15%. Os achados demonstraram que o percentual de partos cesáreos foi superior ao percentual de parto normal e que, quando comparados a outros estados da Região Norte do país, o Tocantins ocupa o terceiro lugar em taxa de cesáreas.
Quando analisado por região de saúde, a região Cerrado Tocantins foi a que apresentou maiores taxas de cesáreas. Ao analisar por grupo de Robson, o Grupo 9 foi o mais predominante no período, tanto em instituições públicas como privadas e, por fim, as taxas de cesáreas foram predominantes na rede privada de saúde.
Embora as taxas de cesáreas tenham se mostrado crescentes e bastante elevadas no período estudado, o seu crescimento acompanhou as taxas nacionais no mesmo período.
Os resultados deste estudo sugerem as cesáreas estão acontecendo sem a indicação clínica adequada, conforme preconizado pela OMS e por manuais de boas práticas para partos cesáreos.
Assim sendo, é fundamental que sejam implementadas ações com vistas a redução do número de cesáreas, uma vez os achados demonstraram que o segundo grupo de Robson com maiores taxas de cesáreas foi o grupo 6, o qual é formado por gestantes com condições que não refletem indicação clínica absoluta de cesárea.
Entretanto, é importante ressaltar que a redução de cesárea não deve ser feita a todo custo a fim de apenas reduzir números. Essa redução deve ser feita de forma planejada e sistematizada de modo que a redução reflita adequação da indicação clínica e, também, acesso adequado aos serviços de saúde.
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1Residente em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Federal do Tocantins – UFT Campus Palmas. E-mail: juliob.chagas@gmail.com
2Médica Ginecologista e Obstetra. Preceptora do Programa de Residência em GO da Universidade Federal do Tocantins – UFT Campus Palmas. E-mail: luvalesan@hotmail.com.br
