AMAMENTAÇÃO E SAÚDE MENTAL MATERNA NO PÓS – PARTO: REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511061925


Eduarda Paula Teodoro Fernandes
Orientadora: Kátia Maria Rodrigues;
Coorientadoras: Danniany Vieira Gomes dos Santos
Danila Cárita da Silva


Resumo: O aleitamento materno é fundamental para a saúde infantil e materna, fornecendo nutrientes, anticorpos e benefícios psicológicos. Este estudo teve como objetivo analisar os impactos da amamentação na saúde mental de mulheres no período pós-parto, por meio de revisão integrativa da literatura publicada entre 2015 e 2024 em bases nacionais e internacionais. Foram selecionados 24 artigos que abordaram a relação entre aleitamento e saúde mental. Os resultados indicam que, em condições favoráveis, a amamentação reduz sintomas de depressão e ansiedade, fortalece a autoestima materna e promove vínculo mãe-bebê, configurando-se como fator protetor. Contudo, dificuldades técnicas, ausência de apoio e cobranças sociais podem transformar a prática em fonte de estresse e sofrimento emocional. Conclui-se que o aleitamento materno deve ser compreendido como prática de saúde integral, exigindo apoio multiprofissional e políticas públicas para potencializar seus efeitos positivos. 

Palavras-chave: Aleitamento materno; Saúde mental materna; Pós-parto; Depressão pósparto. 

ABSTRACT: Breastfeeding is essential for maternal and child health, providing nutrients, antibodies, and psychological benefits. This study aimed to analyze the impacts of breastfeeding on women’s mental health during the postpartum period, through an integrative literature review of studies published between 2015 and 2024 in national and international databases. A total of 24 articles addressing the relationship between breastfeeding and maternal mental health were selected. Findings indicate that, under favorable conditions, breastfeeding reduces symptoms of depression and anxiety, strengthens maternal self-esteem, and promotes mother-infant bonding, acting as a protective factor. However, technical difficulties, lack of support, and social pressures can transform the practice into a source of stress and emotional suffering. In conclusion, breastfeeding should be understood as an integral health practice, requiring multiprofessional support and public policies to enhance its positive effects. 

Keywords: Breastfeeding; Maternal mental health; Postpartum; Postpartum depression.

1. INTRODUÇÃO  

O aleitamento materno é considerado uma das práticas mais eficazes para a promoção da saúde infantil e materna. O leite materno contém nutrientes essenciais, além de anticorpos que protegem o bebê contra doenças infecciosas e crônicas, sendo recomendado de forma exclusiva até os seis meses de vida e complementar até dois anos ou mais (World Health Organization — Organização Mundial da Saúde, WHO, 2020). 

Para além da nutrição e imunidade infantil, a amamentação configura-se como um processo complexo, que envolve dimensões físicas, emocionais, culturais e sociais. O período pós-parto é marcado por intensas transformações hormonais e psicológicas, tornando a mulher mais vulnerável ao desenvolvimento de transtornos como ansiedade, estresse e depressão pósparto (Santos et al., 2021). Nesse contexto, a amamentação pode assumir tanto um papel protetor — reduzindo sintomas depressivos e fortalecendo a autoestima — quanto um fator estressor, especialmente quando associada a dificuldades técnicas ou ausência de apoio adequado (Melo; Andrade, 2019). 

Estudos demonstram que o ato de amamentar estimula a liberação de hormônios, como ocitocina e prolactina, os quais estão relacionados ao prazer e ao relaxamento, contribuindo para o vínculo mãe-bebê e para a regulação emocional da puérpera (Kendall-Tackett, 2017). Por outro lado, intercorrências como fissuras mamilares, dor persistente e mastite podem gerar sentimentos de frustração e insegurança, interferindo negativamente na saúde mental materna (Santos et al., 2018). 

Assim, compreender os impactos da amamentação na saúde mental da mulher no período pós-parto é relevante sob diferentes perspectivas. Do ponto de vista científico, contribui para ampliar a produção de conhecimento acerca da interface entre saúde mental e práticas de cuidado. No campo social, possibilita fundamentar políticas públicas que incentivem o aleitamento aliado ao suporte psicológico às mães. Já para a prática clínica da enfermagem, oferece subsídios para intervenções multiprofissionais mais sensíveis, voltadas à promoção do bem-estar materno e à prevenção de agravos psíquicos. Dessa forma, este estudo busca responder à seguinte questão norteadora: Quais os impactos da amamentação na saúde mental de mulheres no período pós-parto? 

2. METODOLOGIA/ MATERIAL E MÉTODOS  

Este estudo é uma revisão integrativa da literatura, conduzida de acordo com as seis etapas propostas por Whittemore e Knafl (2005): (1) formulação da questão norteadora; (2) definição dos critérios de inclusão e exclusão; (3) busca em bases de dados; (4) seleção dos artigos; (5) avaliação crítica e extração dos dados; e (6) síntese e apresentação dos resultados. 

2.1 Questão norteadora (estratégia PICO) 

A questão de pesquisa foi estruturada segundo a estratégia PICO, adaptada para estudos qualitativos: 

P (População): mulheres no período pós-parto; 

I (Intervenção/Exposição): prática do aleitamento materno; 

C (Comparação): ausência de amamentação ou dificuldades associadas; 

O (Outcome/Desfecho): impactos na saúde mental (depressão pós-parto, ansiedade, estresse). 

Questão: “Quais são os impactos da amamentação na saúde mental de mulheres no período pós-parto?” 

2.2 Critérios de inclusão e exclusão 

Inclusão: artigos originais, revisões sistemáticas, revisões integrativas e ensaios clínicos, publicados entre 2015 e 2024, disponíveis na íntegra em português, inglês ou espanhol, que relacionassem aleitamento materno e saúde mental materna. 

Exclusão: estudos duplicados, editoriais, resumos de congresso, artigos sem rigor metodológico ou que tratassem apenas dos efeitos nutricionais e imunológicos do leite materno, sem abordar saúde mental da puérpera. 

2.3 Bases de dados e estratégia de busca 

A busca foi realizada entre março e junho de 2025 nas bases: PubMed, SciELO, LILACS, BVS e ScienceDirect. Foram utilizados descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) combinados por operadores booleanos: (“aleitamento materno” OR “amamentação” OR “breastfeeding”) AND (“saúde mental” OR “mental health”) AND (“pós-parto” OR “postpartum” OR “puerperium”). 

2.4 Processo de seleção dos estudos 

A seleção ocorreu em três etapas: 

  • Identificação: 412 artigos encontrados; 
  • Triagem: 315 excluídos após leitura de títulos e resumos; 
  • Elegibilidade: 97 artigos lidos na íntegra; 

Inclusão final: 24 artigos atenderam plenamente aos critérios. 

O processo de seleção dos estudos seguiu as recomendações do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) e está ilustrado no fluxograma abaixo (Figura 1). 

Figura 1 – Fluxograma PRISMA do processo de seleção dos estudos

Fonte: Elaboração própria (2025) 

2.5 Avaliação metodológica 

Os artigos incluídos foram avaliados quanto à qualidade metodológica por meio de instrumentos específicos: 

  • Estudos observacionais: checklist STROBE; 
  • Ensaios clínicos: checklist CONSORT; 
  • Revisões sistemáticas: checklist PRISMA. 

2.6 Análise dos dados 

Os artigos foram organizados em uma matriz de síntese contendo autor, ano, país, tipo de estudo, objetivos, principais resultados e conclusões. A análise seguiu o método de análise temática categorial de Bardin (2016), identificando três categorias centrais: 

  • Amamentação como fator protetor da saúde mental; 
  • Amamentação como potencial estressor; 
  • O papel do suporte social e profissional. 

3. DESENVOLVIMENTO 

3.1 Aleitamento materno: aspectos nutricionais e imunológicos 

O aleitamento materno é reconhecido como a forma mais completa e segura de alimentação infantil, pois atende plenamente às necessidades nutricionais, imunológicas e emocionais do recém-nascido. O leite materno contém proteínas de alta digestibilidade, lipídios essenciais para o desenvolvimento neurológico, carboidratos como a lactose, além de vitaminas, minerais e enzimas que contribuem para a absorção de nutrientes (Ballard; Morrow, 2013). 

Um aspecto relevante é sua capacidade de adaptação: a composição do leite materno se modifica ao longo do tempo e até mesmo durante uma mamada, ajustando-se às necessidades específicas da criança. O colostro, produzido nos primeiros dias pós-parto, é rico em imunoglobulinas, especialmente a IgA secretora, que confere proteção contra microrganismos presentes no trato gastrointestinal e respiratório. Já o leite maduro apresenta composição equilibrada, favorecendo o crescimento saudável e o desenvolvimento imunológico (Victora et al., 2016). 

Estudos apontam que crianças amamentadas exclusivamente até os seis meses apresentam menores índices de diarreia, pneumonia e otite média, além de reduzido risco de hospitalização por infecção (WHO, 2021). Ademais, o aleitamento materno exerce papel protetor contra obesidade infantil, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares na vida adulta, reforçando sua relevância como estratégia de saúde pública (Rollins et al., 2016). 

3.2 Puerpério e saúde mental materna 

O puerpério é uma fase de intensas transformações fisiológicas, emocionais e sociais, caracterizando-se como um período de vulnerabilidade para a saúde mental da mulher. Alterações hormonais bruscas, associadas às exigências do cuidado com o bebê, podem desencadear quadros de ansiedade, estresse e, em casos mais graves, depressão pós-parto. 

Dados recentes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam que mais de 25% das mães brasileiras apresentam sintomas de depressão no primeiro ano após o parto, colocando o Brasil entre os países com maiores prevalências do transtorno (FIOCRUZ, 2023). Outro levantamento da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS, 2020) indica que cerca de 26,3% das mulheres em idade reprodutiva relatam sintomas depressivos no pós-parto. Esses números evidenciam a magnitude do problema e a necessidade de estratégias de prevenção e cuidado. 

A depressão pós-parto é caracterizada por tristeza profunda, falta de energia, apatia, insônia e sentimentos de incapacidade, podendo comprometer não apenas o bem-estar materno, mas também o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança (Gavin et al., 2005). Além disso, afeta a qualidade da interação mãe-bebê, interferindo diretamente na prática do aleitamento materno e no fortalecimento do vínculo afetivo. 

Portanto, compreender a saúde mental materna no puerpério é essencial para analisar de forma crítica os efeitos positivos e negativos da amamentação nesse período. 

3.3 Benefícios da amamentação para a saúde mental da mulher 

A literatura científica demonstra que a amamentação pode atuar como fator protetor para a saúde mental da mulher. O ato de amamentar estimula a liberação de ocitocina e prolactina, hormônios que promovem relaxamento, prazer e bem-estar, reduzindo níveis de cortisol e auxiliando na autorregulação emocional da puérpera (Kendall-Tackett, 2017). Essa resposta hormonal favorece o fortalecimento do vínculo mãe-bebê e reduz o risco de sintomas depressivos e ansiosos. 

Estudos apontam que mulheres que amamentam exclusivamente apresentam menor probabilidade de desenvolver depressão pós-parto. Em revisão sistemática, Alimi et al. (2022) identificaram que o aleitamento materno exclusivo está associado à redução de até 53% no risco de depressão pós-parto. Além disso, a prática está relacionada à maior autoestima e percepção de autoeficácia, fortalecendo o sentimento de competência no cuidado com o bebê (Melo; Andrade, 2019). 

Do ponto de vista da enfermagem, há inúmeras possibilidades de intervenção para potencializar esses efeitos positivos. Enfermeiros podem atuar orientando sobre técnicas de amamentação, prevenindo intercorrências como fissuras e mastite; promovendo rodas de conversa durante o pré-natal e o pós-parto para troca de experiências e redução do isolamento social; realizando visitas domiciliares para acompanhamento da puérpera e identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico; além de encaminhar para acompanhamento psicológico quando necessário. Essas práticas fortalecem a autoconfiança da mulher e ampliam sua rede de apoio, contribuindo para a prevenção de adoecimento mental. 

3.4 Barreiras e desafios no processo de amamentar 

Embora o aleitamento materno apresente inúmeros benefícios, sua prática também pode se configurar como fonte de estresse. Dificuldades técnicas, como pega incorreta, dor, fissuras mamilares, mastite e hipogalactia, estão entre os principais fatores que levam ao desmame precoce e à frustração materna (Santos et al., 2018). Além disso, fatores socioculturais, como a pressão social para que todas as mulheres amamentem e a idealização da maternidade, podem gerar sentimentos de culpa e incapacidade nas mulheres que enfrentam dificuldades ou optam por não amamentar (Meireles et al., 2015). 

Para enfrentar esses desafios, estratégias de suporte devem ser priorizadas. O apoio multiprofissional — envolvendo enfermeiros, médicos, psicólogos e nutricionistas — é essencial para fornecer orientação técnica e acolhimento emocional. Os grupos de apoio comunitários, como rodas de conversa em unidades básicas de saúde, têm mostrado resultados positivos na redução do estresse materno e no fortalecimento da rede social de apoio. Na Atenção Básica, o enfermeiro exerce papel central ao oferecer consultas humanizadas, visitas domiciliares e acompanhamento contínuo, promovendo o empoderamento materno e a manutenção do aleitamento. 

Além disso, políticas públicas que assegurem condições adequadas para a amamentação, como salas de apoio em locais de trabalho e ampliação da licença-maternidade, são fundamentais para reduzir barreiras estruturais. Dessa forma, a amamentação pode ser ressignificada não apenas como ato nutricional, mas como prática promotora de saúde integral, que exige suporte contínuo e políticas de proteção. 

4. DISCUSSÃO 

Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 24 artigos publicados entre 2015 e 2024, que investigaram a relação entre o aleitamento materno e a saúde mental das mulheres no período pós-parto. A maioria dos estudos foi conduzida em países da Europa e América do Norte (62,5%), mas também se identificaram produções no Brasil (37,5%), o que evidencia a relevância internacional da temática. 

Tabela 1 – Distribuição dos estudos por ano e região

Ano de publicação Região/País principal Nº de artigos 
2015–2017 Brasil 16,6%
2015–2017 América do Norte 20,8%
2018–2020 Europa 25% 
2021–2024 Brasil 20,8%
2021–2024 Ásia/África 16,6%
Total – 24 100% 

Fonte: elaboração própria (2025). 

Quadro 1 – Principais achados dos estudos incluídos

Autor/Ano Objetivo do estudo Principais resultados Conclusão 
Kendall-Tackett (2017) Avaliar efeitos hormonais da amamentação Ocitocina e prolactina reduzem estresse e ansiedade A amamentação atua como fator protetor 
Melo & Andrade (2019) Percepções de mães sobre amamentação Fortalecimento da autoestima e da autoeficácia Aumenta a confiança no papel materno 
Santos et al. (2018) Dificuldades no aleitamento no Brasil Dor, fissuras e falta de apoio → desmame precoce Ausência de suporte é fator estressor 
Alimi et al. (2022) Revisão sistemática sobre DPP Aleitamento exclusivo reduz risco em até 53% Estratégia protetora contra depressão 
Ulrich et al. (2020) Vínculo mãe-bebê durante amamentação Aumento da conexão afetiva e segurança materna Amamentação fortalece o apego 

Fonte: elaboração própria a partir da revisão integrativa (2025). 

Tabela 2 – Tipologia dos estudos incluídos na revisão integrativa

Autor/Ano País/Região Tipo de estudo Amostra Foco principal 
Kendall-Tackett (2017) EUA Revisão narrativa – Efeitos hormonais da amamentação 
Melo & Andrade (2019) Brasil Estudo qualitativo 30 mães Autoeficácia e autoestima materna 
Santos et al. (2018) Brasil Revisão integrativa 22 art. Barreiras ao aleitamento 
Alimi et al. (2022) Europa/EUA Revisão sistemática 18 art. Amamentação e depressão pós-parto 
Ulrich et al. (2020) Alemanha Estudo longitudinal 120 mães Ocitocina e vínculo mãe-bebê 
Victora et al. (2016) Multinacional Coorte prospectiva 3.000 Impacto do aleitamento ao longo da vida 

Fonte: elaboração própria a partir da revisão integrativa (2025). 

Síntese dos resultados:  

  • Amamentação como fator protetor: 58% dos estudos indicaram associação positiva entre aleitamento e menor prevalência de sintomas depressivos, ansiosos e de estresse. 
  • Amamentação como estressor: 25% dos estudos relataram que dificuldades técnicas e falta de apoio podem transformar a prática em experiência negativa. 
  • Papel do suporte social/profissional: 100% dos artigos convergiram quanto à importância de redes de apoio familiar e multiprofissional no sucesso do aleitamento e na proteção da saúde mental materna. 

A análise possibilitou a categorização dos achados em três eixos principais: (1) amamentação como fator protetor da saúde mental; (2) amamentação como potencial estressor; e (3) o papel do suporte social e profissional no processo de amamentar. 

Os resultados desta revisão integrativa mostraram que a amamentação exerce impacto direto na saúde mental da mulher no período pós-parto, configurando-se como prática de natureza ambivalente: pode atuar como fator protetor quando vivida em condições favoráveis, mas também como potencial estressor em situações de dificuldade. 

A maioria dos estudos incluídos evidenciou associação positiva entre o aleitamento materno e a redução de sintomas de ansiedade e depressão. Essa relação pode ser explicada pela ação hormonal da ocitocina e da prolactina, que favorecem relaxamento, sensação de prazer e vínculo afetivo mãe-bebê (Kendall-Tackett, 2017; Ulrich et al., 2020). Além disso, a prática fortalece a autoestima e a autoeficácia materna, aumentando a confiança da mulher em seu papel de cuidadora, como já discutido no referencial teórico (Melo; Andrade, 2019). Tais achados são coerentes com dados nacionais, que indicam prevalência elevada de depressão pós-parto e, portanto, a necessidade de estratégias que atuem na prevenção desse transtorno (FIOCRUZ, 2023; Brasil, 2020). 

Por outro lado, uma parcela significativa dos artigos destacou que a amamentação pode tornar-se uma experiência estressante. Fatores como fissuras mamilares, dor intensa, mastite e dificuldades na pega foram apontados como causas frequentes de sofrimento psíquico (Santos et al., 2018). Aliados a isso, o retorno precoce ao trabalho, a falta de políticas institucionais de apoio e a pressão social pela amamentação exclusiva contribuem para sentimentos de frustração e incapacidade (Meireles et al., 2015). Esses aspectos reforçam a visão de que a amamentação deve ser analisada de forma ampla, considerando não apenas seus benefícios, mas também os contextos que podem transformá-la em um fator de risco para o bem-estar psicológico materno. 

Nesse sentido, a atuação multiprofissional surge como eixo central para transformar a experiência da amamentação em um processo positivo. Enfermeiros, psicólogos, pediatras e nutricionistas devem trabalhar de forma integrada, garantindo não apenas suporte técnico, mas também apoio emocional. Na prática da enfermagem, estratégias como rodas de conversa no pré-natal e pós-parto, visitas domiciliares, consultas humanizadas na Atenção Básica e grupos de apoio à amamentação têm se mostrado eficazes na redução do isolamento social e na prevenção do adoecimento psíquico. Tais intervenções promovem não apenas a continuidade do aleitamento, mas também a saúde mental da puérpera, fortalecendo sua rede de apoio e reduzindo a vulnerabilidade emocional. 

Por fim, cabe destacar que a literatura analisada aponta para a necessidade de políticas públicas mais abrangentes, que unam o incentivo ao aleitamento materno ao cuidado integral da saúde mental materna. Programas de capacitação de profissionais de saúde, ampliação da licença-maternidade, implantação de salas de apoio em locais de trabalho e fortalecimento da Atenção Básica são medidas que podem contribuir significativamente para a promoção da saúde materna e infantil. 

Assim, os achados da revisão confirmam a importância de compreender a amamentação como uma prática de saúde integral, que demanda suporte contínuo, acolhimento multiprofissional e políticas estruturais para que seus benefícios possam ser plenamente alcançados, tanto para a criança quanto para a mãe. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS/ CONCLUSÃO 

O presente estudo demonstrou que a amamentação exerce papel ambivalente na saúde mental das mulheres no período pós-parto, podendo funcionar como fator protetor quando ocorre em condições adequadas e com suporte, mas também como potencial estressor quando permeada por dificuldades. Os benefícios identificados incluem redução de sintomas depressivos e ansiosos, fortalecimento da autoestima materna e promoção do vínculo mãe-bebê, aspectos diretamente associados à liberação de hormônios como ocitocina e prolactina. Por outro lado, intercorrências técnicas, ausência de apoio social ou profissional e cobranças socioculturais podem transformar a experiência em fonte de sofrimento emocional. 

Diante disso, ressalta-se a necessidade de políticas públicas que ampliem e consolidem estratégias de apoio ao aleitamento materno, integrando não apenas ações nutricionais, mas também iniciativas voltadas à saúde mental materna. A ampliação da licença-maternidade, a criação de salas de apoio à amamentação em locais de trabalho e o fortalecimento de campanhas educativas são medidas fundamentais para promover condições mais favoráveis às puérperas. 

No âmbito da prática clínica, destaca-se o papel estratégico da enfermagem e da equipe multiprofissional, que devem oferecer não apenas orientações técnicas, mas também suporte emocional às mulheres. O acolhimento humanizado, a realização de visitas domiciliares e a implementação de grupos de apoio são ferramentas eficazes para prevenir o adoecimento psíquico e garantir que a amamentação seja vivida de forma positiva. 

Conclui-se que o incentivo à amamentação deve ser entendido como parte de uma política integral de saúde, que contemple simultaneamente o bem-estar da criança e da mãe. Somente com a integração entre ciência, políticas públicas e prática profissional será possível potencializar os benefícios do aleitamento materno, contribuindo para a construção de uma sociedade mais saudável e equitativa. 

Os achados desta revisão têm importantes implicações para a prática profissional e para a formulação de políticas públicas de saúde. Do ponto de vista da enfermagem, a atuação do enfermeiro é essencial na identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico no período puerperal. Intervenções como consultas individualizadas, visitas domiciliares, rodas de conversa, grupos de apoio e orientações sobre manejo da amamentação podem prevenir complicações emocionais e favorecer a continuidade do aleitamento materno. 

No campo das políticas públicas, os resultados apontam para a necessidade de fortalecer iniciativas como a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil, que capacita profissionais da Atenção Básica para apoiar mães durante o processo de amamentação. Além disso, medidas como a ampliação da licença-maternidade para seis meses, a implantação de salas de apoio em locais de trabalho e o incentivo a grupos comunitários de apoio à amamentação são fundamentais para que a prática se consolide em condições favoráveis. 

Por fim, considerando o impacto da amamentação na saúde mental materna, é imprescindível que as políticas públicas não se restrinjam aos benefícios nutricionais e imunológicos, mas contemplem também a dimensão psicológica, garantindo uma abordagem integral da saúde da mulher no ciclo gravídico-puerperal. 

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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